sexta-feira, 19 de março de 2010

No frigir dos ovos (19/03)

Lula fez o que os antecessores não tinham feito: uma visita oficial ao país nascido do movimento sionista. Viajou para lá, discursou no Parlamento — onde foi aplaudido — e homenageou as vítimas do Holocausto

Qual é o saldo da visita de Luiz Inácio Lula da Silva ao Oriente Médio? O presidente vinha de derrota em Honduras e estava enredado numa situação inexplicável ao tratar os direitos humanos em Cuba. Mas desta vez Lula conseguiu colher o principal objetivo político: um alvará informal de interlocutor com o Irã e de jogador global na pendência entre Israel e os palestinos. Na política, como no futebol, é sempre um jogo depois do outro.

Houve ainda avanços comerciais, que também são políticos. Os gestos na diplomacia têm importância, mas o lugar principal é dos fatos. Israel ser um bom aliado dos Estados Unidos faz o PT e a esquerda torcerem o nariz ao sionismo como movimento de emancipação nacional. É portanto digno de registro que as relações entre Israel e o Mercosul tenham se consolidado exatamente sob a batuta de Lula.

Serve de contrapeso à absorção da Venezuela no bloco, dirá o cético. Infelizmente, ainda não se descobriu — de um lado e de outro — como fazer omelete sem tirar os ovos da casca.

Mais um fato: Lula foi o primeiro presidente brasileiro a colocar os pés em Israel. Houve agora ali alguma turbulência e cotoveladas, quando ele recusou homenagear o fundador do moderno nacionalismo judaico, Theodor Herzl, enquanto aceitava reverenciar Yasser Arafat.

Que importância tem isso? Pouca. A História doravante vai registrar que Lula foi o primeiro presidente do Brasil a visitar oficialmente o país nascido do movimento sionista. Viajou para lá, discursou no Knesset (Parlamento) — onde foi aplaudido — e homenageou as vítimas do Holocausto.

O movimento de Lula no tabuleiro levantino só poderá ser avaliado após os resultados. É acaciano? Talvez. Se as potências não precisarem chegar à guerra para bloquear a emergência de um Irã nuclear, Lula vai estar nos livros de História como visionário, enquanto os críticos dele precisarão espremer-se nos rodapés desse episódio. Caso contrário, nosso presidente ficará nos anais como derrotado, um Neville Chamberlain de segunda linha.

A não ser que, repetindo Getúlio Vargas na Segunda Guerra Mundial, dê um jeito de estar do lado vencedor, qualquer que seja, na hora “h”.

Subestimar Lula tem-se revelado esporte de alto risco. Melhor então acompanhar o desenvolvimento da trama. E não se apressar nos palpites.

Além da assimetria no tratamento aos ícones nacionais, outro detalhe polêmico da visita foi o conteúdo da fala presidencial. Lula deu opinião sobre tudo, desde o muro que separa Israel da Cisjordânia até a luta interna dos palestinos, passando pela questão nuclear. Palpitou inclusive sobre as relações entre Israel e os Estados Unidos.

Não deixa de ser comportamento curioso à luz da “estrita observância do princípio da não ingerência”, que justifica, por exemplo, o silêncio e o imobilismo sepulcrais das nossas autoridades diante das violações de direitos humanos cometidas por governos amigos. Mas aí deve estar valendo o critério “anti-imperialista”. Deu sorte de entrar na categoria? Então meta ficha, que nem Lula nem nossa chancelaria vão dizer nada.

Ainda sobre discursos, o Itamaraty parece considerar positivo um eventual estremecimento dos Estados Unidos com Israel. Também aqui as coisas precisariam ser olhadas com cuidado e noção de timing. Líder de um governo fortemente nacionalista, Benjamin Netanyahu vem nas semanas recentes abrindo involuntariamente espaço para Barack Obama aparecer aos olhos do mundo árabe como alguém que “enfrenta Israel”.

No frigir dos ovos, americanos e israelenses são e serão aliados estratégicos. E os últimos desencontros engordam a conta de Obama com um capital político indispensável para impor a “pax americana” na região. Impor inclusive ao Irã. E talvez com a ajuda do Brasil.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (19) no Correio Braziliense.

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18 Comentários:

Blogger pait disse...

Juscelino Kubitschek visitou Israel, alguns meses após terminar o mandato. Crônicas da Sala de Aula: http://bit.ly/dfRomO

sexta-feira, 19 de março de 2010 07:21:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Excelente Alon, tenho visto jovens jornalistas chamarem Lula de ingênuo nessa estória, me pergunto se o diploma de jornalista não deveria prevenir coisas assim. Pode ter um fundo ideológico duro ou ser só comércio, como você especula às vezes, pode ser só desejo de glória e muito pragmatismo, como eu tendo a ver, mas ingenuidade é inconcebível. Pode não dar em nada, ser patético, mas o patético pode ser sublime, enquanto aquele que recusa a empreitada antes de tentar, seja qual for a empreitada, é apenas um covarde. Pode mesmo ser um covarde “realista”, consciente da própria irrelevância, certo? Você disse o fundamental, Lula entrou no jogo, foi aceito nesse jogo cheio de teatro: o que foi para valer, a ausência do chanceler ou os aplausos ao final do discurso? Mas permita que especule sem compromisso: em meu último comentário sugeri que a desfeita do presidente havia sido motivada pela disputa política interna, talvez não, Lula parece buscar uma posição de intermediário mais pró árabe como a América é uma intermediária mais pró Israel, daí a importância da contenda entre EUA e Israel e o chamamento pela unidade entre Fatah e Hamas. Mas o Irã, e não os Palestinos, constitui a questão central: talvez, para variar, nossa diplomacia esteja dizendo de fato o que busca: que tal o Irã recuar de seu programa nuclear no quadro de um aprofundamento dos acordos de desarmamento, tal como os que estão sendo negociados agora entre Americanos e Russos? Recuaria honrosamente e o cenário ficaria mais propício a novos acordos. Não vai dar em nada? Muito provável, e daí? Gente acanhada essa turma mal humorada, né não?

sexta-feira, 19 de março de 2010 08:55:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Diplomacia não é um investimento de curto prazo. Leitura de fracasso oculta um sub-texto de êxito.Inusitado,pretencioso, delirante,ridículo, pusilânime, todos esses adjetivos e seus sinônimos foram empregados na qualificação da política externa do governo Lula.Original ,ousada e visionária,seria mais adequada.Mesmice e submissão ,foi o trivial servido até hoje.
Ou alguém acredita que os EUA, desejam a paz no Oriente Médio,ou qualquer outro rincão? Mau negócio para o "Complexo Industrial Militar". OU que a Europa ocidental,não cultiva nostalgia pelas colonias perdidas?Como aludiu Lula, não se entende porque a ONU,criada para dirimir conflitos não esteja à
frente do mais trágico e antigo de todos eles.

sexta-feira, 19 de março de 2010 09:29:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Claro que os assentamentos em nada contribuem e somente acirram o estado de beligerância. Obviamente não aceito a explicação antissemita que diz que a insistência nos assentamentos é evidência do caráter nazista do sionismo. Então, eu não consigo entender o porquê dessas investidas nos assentamentos por parte do governo de Israel. Se você puder explicar em um futuro post, eu lhe agradeceria.

Não compartilho o seu otimismo sobre a viagem de Lula. Certamente ninguém esperava que o Knesset vaiasse Lula. Mas deixarei de lado as divergências.

Mais proveitoso é chamar atenção para algumas passagens de uma importante entrevista do Mahmoud Abbas ao ESP, 18/03/2010. Muito do que saiu na imprensa brasileira sobre os encontros no Oriente Médio foi informação devidamente filtrada pela chancelaria do Brasil.

Na entrevista Mahmoud apresenta com bastante clareza o que realmente que pensa sobre o papel de mediador dos conflitos reivindicado pelo governo brasileiro. Destaco partes da entrevista e grifo algumas passagens.

Pergunta do ESP: É possível negociar com Israel sem antes haver um acordo entre o Fatah e o Hamas?

Mahmoud respondendo sobre o Hamas: A única demanda relevante é chamar um referendo nacional assim que tenhamos um acordo com Israel. E isso nós faremos com ou sem as exigências do Hamas.

Mahmoud respondendo sobre sobre Israel:
1.Pedimos que o objetivo final das conversas fosse a coexistência de dois Estados, vivendo lado a lado de acordo com as fronteiras de 1967.

2. Os palestinos não têm precondição para o lançamento das negociações. Nós somente pedimos a Israel que cumpra suas obrigações de congelar os assentamentos, incluindo em Jerusalém Oriental, conforme o Mapa da Estrada (acordo de 2006).

Eu pergunto: E o que pede Israel ao Fatah? Que desistam de querer empurrar os israelenses para dentro do Mar Mediterrâneo? Mas essa já não é mais uma reivindicação do Fatah?

Dado que o Fatah não depende do Hamas para chegar a um acordo de paz com Israel, por que o Fatah não abre com Israel uma negociação de fato? No que CADA lado teria que ceder para conquistar o acordo?

Pergunta do ESP: Fatah e Hamas podem chegar a um acordo neste ano?

Mahmoud: Isso depende do Hamas porque nós já expressamos nossa convicção de alcançar a reconciliação nacional. Atores influentes da região dificultam a reconciliação nacional, particularmente o Irã, que não se mostra interessado no diálogo palestino com base em uma agenda palestina.

Pergunta do ESP: Esse diálogo [Fatah e Hamas] pode ser mediado pelo presidente Lula, como ele sugeriu em novembro?

Mahmoud: Para o nosso diálogo com o Hamas, nós temos os nossos irmãos árabes, que têm sido muito ativos.

Conforme o que entendi dessas respostas, o papel de mediador reivindicado pelo governo brasileiro foi restrito por Abbas à função de simples repetidor de recados. Se Lula tem tanta fé no poder do seu poder do seu gogó, então ele é útil para somar com o grupo de países que tenta convencer o Irã a abandonar o plano de construir a bomba e cessar o apoio ao Hamas.

Lula seria útil se retransmitisse aos aiatolás da Pérsia o antigo recado que sempre lhes mandam o Fatah e os demais irmãos árabes: não se metam nos assuntos árabes e parem de financiar o beligerante Hamas.

Veja que interessante. Da entrevista do Mahmoud é perfeitamente lógico concluir que há um problema que é comum tanto ao Fatah quanto a Israel: o Hamas e o Irã que não aceitam a ideia de convivência pacífica de dois Estados soberanos na Palestina.

São os persas aliados do Hamas que “não se mostra[m] interessados no diálogo palestino com base em uma agenda palestina”.

Mahmoud diz claramente qual deve ser o papel de Lula nessa história: o de repetir o recado do Fatah aos aiatolás da Pérsia e aos seus aliados na Palestina, o Hamas, dizendo exatamente que ambos devem parar de interferir nos assuntos que somente serão resolvidos entre árabes e judeus. Afinal, se Israel conseguiu fazer as paz com o Egito e com a Jordânia por que não conseguiria fazer o mesmo com o Fatah?

sexta-feira, 19 de março de 2010 11:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Isso, Paulo. Sem retórica, gostaria de saber do Alon quais as evidências do tal "alvará informal de mediador" supostamente recebido pelo governo brasileiro para ter voz ativa no conflito. Fala-se que o Lula foi aplaudido no Knesset, mas se omite que recebeu muitas críticas e várias" abstenções", além do velado puxão de orelha que levou do Abbas, bem lembrado pelo Paulo.Essa história tá me cheirando a puro wishfull thinking, ainda mais quando o suposto mediador legítimo (de quem se espera uma certa equidistância) teima em defender a presença de Síria e Irã na mesa de negociações. Hoje, parece que os istêites, a UE e a ONU deram uma espécie de ultimato a Bibi Netanyahu. Onde estava "O Cara"?

Kbção

sexta-feira, 19 de março de 2010 22:10:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ah, agora sim, a frase que faltava:
"Subestimar Lula tem-se revelado esporte de alto risco. Melhor então acompanhar o desenvolvimento da trama. E não se apressar nos palpites."
Quando "o cara" saiu do sindicalismo para entrar na política muitos diziam que era um erro.
Quando candidato a presidente, que seria um fracasso.
Agora no plano internacional "o cara" dá seu pitaco. Melhor esperar...
Abs
Rafael

sexta-feira, 19 de março de 2010 23:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ao Anônimo de 19.03 às 9:29.

Inclino-me a concordar sobre a validade de outras avaliações e qualificativos atribuíveis à visita de Lula ao OM, além das que a minimizam ou depreciam.
Mas, francamente, uma retórica focada em antiamericanismo puro já está provocando "fadiga de materiais". Se as políticas dos países são ditadas quase exclusivamente por interesses econômicos e ampliação ou consolidação de sua esfera de influência, por que a paz, em certas circunstâncias, não serviria como ferramenta eficaz para estes objetivos? Se meu raciocínio é correto, não vejo por que os EUA não seriam favorecidos se conseguissem empurrar os litigantes para acordos no OM. Então, à sua pergunta, se alguém acredita que os EUA desejam a paz no OM, ou em qualquer rincão, a resposta é muito simples: desde que lhes favoreça de alguma forma.


Sobre se a "Europa Ocidental não cultiva nostalgia pelas colônias perdidas". Após mais de 60 anos do esfacelamento desse cenário geo-político, creio que, ocupados com a atual crise econômica, com crescentes problemas de imigração de contingentes das ex-colônias e com a morte da geração colonialista, esta nostalgia não deve vigorar significativamente. Aliás oportuno perguntar se a Rússia não cultiva nostalgia pela perda de boa parte dos países satélites perdidos?

Por fim, Anônimo, creio que a ONU, criada para dirimir conflitos não está à frente da questão Israel/palestinos pela tremenda complexidade dos fatores envolvidos. Ela também não está à frente de outros casos, não tão antigos, mas fora de dúvida, não sei se trágicos, mas bem mais contundentes, como o dos papuásios, "macacos que os javaneses tentam fazer descer das árvores". Entre 1963 e 1983, 150 mil habitantes teriam sido oficialmente mortos pelo exército Indonésio e os povos da Nova Guiné Ocidental estão em vias de extinção (leia a reportagem no Le Monde Diplomatique de fevereiro).

A população palestina, apesar de alegar ser vítima de limpeza étnica, só faz crescer. Mais: apesar de todo o cerceamento de Israel, a atividade econômica na Cisjordânia, apresenta taxas de crescimento surpreendentes.
Por isto, a não ser que as ínfimas matanças, mutilações,deslocamentos populacionais e inanição forçada cujos números variam de centenas de milhares a milhões no Sudão, na Somália e em Bangladesh - pra ficar apenas nestes - não mereçam fazer parte do seu panteão particular dos "conflitos mais trágicos de todos". você está coberto de razão. E, en passant, seria deveras esclarecedor que explicasse o que vem a ser "o conflito mais trágico de todos".

Ruminações à parte: interessante fenômeno este de maximizar um conflito longo no tempo e flagrantemente acanhado na letalidade. Curioso mesmo é a quase completa obnubilação diacrônica e sincrônica dos demais rallys da morte pelo globo, em prol deste um.
Mas como a própria ONU confessa em off, quem berra mais recebe mais.
Ou seriam coisas do nosso Zeitgeist?

Ceci

sábado, 20 de março de 2010 06:43:00 BRT  
Anonymous Mario C M Oliveira disse...

O articulista ao escrever que "Se as potências não precisarem chegar à guerra para bloquear a emergência de um Irã nuclear" parece dar como subentendido que o programa nuclear iraniano tem por fim desenvolver armas atômicas. O engraçado é que nem mesmo uma insuspeita figura como Colin Powell parece estar tão certo disso conforme entrevista dada à Bloomberg da qual reproduzo um trecho:

“The Iranians are determined to have a nuclear program,” Powell said in the interview, which will be broadcast on Bloomberg Television’s “Conversations with Judy Woodruff” this weekend. “Notice I did not say a nuclear weapon. But they are determined to have a nuclear program, notwithstanding the last six or seven years of efforts on our part to keep them from having a nuclear program.”

sábado, 20 de março de 2010 15:10:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pode-se até entender que diplomacia não é ação de curto prazo. Também que é legítimo tentar credenciar-se como interlocutor global. Contudo, há ressalvas. Às vezes dá a impressão que o Presidente surgiu no interior de Pernambuco e voou direto para o Oriente Médio. Para resolver uma questão milenar que, simplesmente, envolve as três religiões monoteístas do mundo, com povos que se bateram em guerras e com riscos de eclosão de outras mais e permanente tensão. Não dá para ser precipitado em criticar, como também o é alardear com um périplo de sucesso retumbante. Ou que o será, mesmo a longo prazo. Não adianta bater na tecla, desconstrutora ao extremo, do servilismo, subserviência e coisas malhadas que o valha. A realidade não deixará de existir: não há a menor influência brasileira na Região ao pono de coclocar pontos de convergência para os lados em disputa e estabelecer mediação salvadora. E vai demorar muito para que tal fato aconteça. Tentar ser interlocutor, sim, pode ser válido. Tentar fazer crer que já é um imprescindível ator de primeira, intermediária e última instância em situações sobre as quais são sabidas a quase nulidade de influência, vai um pouco longe.
Swamoro Songhay

sábado, 20 de março de 2010 15:22:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Mario C M Oliveira

Pelo que já li no blog, firmei convicção de que o blogueiro não dá por subentendida, mas sim afirma com clareza e argumentos objetivos a opinião dele de que “o programa nuclear iraniano também tem por fim o desenvolvimento de armas atômicas”. Opinião com a qual vários analistas concordam.

Aliás, pelo que pude ler e entender na entrevista do Powell, ele está manifestando opinião contrária às novas medidas de sanções que estão sendo discutidas no âmbito da ONU. Ele argumenta que elas serão insuficientes para deter o programa nuclear iraniano. Powell é objetivo em seu recado para bons entendedores: ele prefere insistir no diálogo, mesmo que por baixo dos panos os iranianos estejam desenvolvendo o programa TAMBÉM para fins militares.

Na entrevista ele sabe que deve ser ultra-cuidadoso ao escolher as palavras exatamente porque a estratégia do diálogo para conter o Irã foi abandonada pelos artífices da política externa americana. Powell não dá entrevista por diletantismo. Ele fala em nome de um grupo que momentaneamente está posto de lado pelo governo Obama. Obama mudou o foco que deu à questão iraniana desde que foi eleito. Por quê? É nesse singelo debate que se insere a entrevista de Powell.

É lógico supor que se ele admitisse publicamente que o Irã desenvolveria programa nuclear também para fins militares, sua posição de abrir diálogo ficaria extremamente enfraquecida. Ou melhor, ficaria insustentável. Em outras palavras, se admitisse, estaria somente repetindo Chamberlain. Powell não é burro e sabe como se faz política nos EUA. É um militar respeitado e deve ser um grande estudioso da história.

Obviamente, não há provas materiais suficientes para fundamentar um juízo perfeito e acabado sobre o programa nuclear iraniano. Não se pode, nesse caso, deixar de ser opinativo e argumentativo, mas sempre com base em evidências, seja para afirmar o caráter bélico do programa, seja para negá-lo.

Como o impasse se resolveria? Simples. Bastaria que o governo iraniano abrisse o seu programa ao controle efetivo da AIEA. Mas não é o que se está fazendo. O Irã insiste em dificultar as vistorias, resiste em aceitar acordos, omite informações e mente à AIEA.

Na linha do Alon, que é também a minha e de muitos outros que sobre tantas outras coisas divergem, os que criticamos o programa nuclear iraniano baseamos nossos julgamentos nos elementos empíricos acima relacionados e no imenso repertório de declarações de chefes religiosos e políticos iranianos sobre a necessidade urgente de varrer Israel do mapa.

Ficou claro pela entrevista do Mahmoud Abbas ao ESP algo que Alon e outros comentaristas já dizem aqui faz tempo: O Irã é hoje visto pelo mundo árabe e não-árabe como um elemento de desagregação política na busca de uma saída que pacifique a Palestina pela via da co-existência de dois países soberanos. O Irã não soma nesse perspectiva, mas divide:

“Atores influentes da região dificultam a reconciliação nacional, particularmente o Irã, que não se mostra interessado no diálogo palestino com base em uma agenda palestina.” (Mahmoud Abbas)

sábado, 20 de março de 2010 18:11:00 BRT  
Anonymous Mario C M Oliveira disse...

Paulo Araujo,

Bem quanto à posição do blogueiro, não sou tão assíduo assim do blog para arriscar uma opinião a respeito do que ele pensa, mas sinceramente após a leitura do seu comentário a única conclusão a que cheguei é a de que VOCÊ acredita que o Irã esteja desenvolvendo seu programa nuclear com vistas a adquirir armas atômicas. O seu argumento quanto à falta de transparência do governo iraniano no trato com a AIEA cai por terra na medida em que países como o Japão por exemplo, tem programas similares e nem por isso estão às voltas com as exaustivas e intrusivas vistorias e exigências a que o Irã vem sendo submetido. Para mim todo esse imbróglio tem origem em uma única razão, nem os Estados Unidos, nem Israel, estão dispostos a tolerar que o Irã tenha a capacidade de dominar o ciclo nuclear completo. Não é que os iranianos estejam efetivamente em busca da fabricação de bombas nucleares, é que a mera possibilidade de que possam fazê-lo se assim lhes aprouver no futuro, é inadmissível, sobretudo para Israel que quer manter seu poder de dissuasão baseado em 200 ou mais ogivas nucleares incontestado. Quanto à posição do Brasil de apoio ao Irã em seu desenvolvimento de programa nuclear para fins pacíficos, não vejo nada de ingênuo nisso, pois a partir de maio, se eu não me engano, terá início rodadas de negociações visando a reforma do TNP, e já se propala que a posição dos países que detém o conhecimento tecnológico do ciclo nuclear completo é a de cercear e impor novas salvaguardas a países que não o detém. Óbviamente o Brasil, bem como o Irã e outros países não vão se submeter a essas novas exigências, no que acho que fazem muito bem.

Agora, só para finalizar, não tente me convencer que o Colin Powell não disse o que ele disse. Essa questão da natureza do programa nuclear iraniano NÃO É uma unanimidade nos círculos decisórios americanos. Sugiro-lhe a leitura deste site, mantidos por um casal de consultores do Departamento de Estado que têm posições que divergem da política oficial dos EUA.

http://www.raceforiran.com/

sábado, 20 de março de 2010 23:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

No interior havia uma expressão: cerca Lourenço. Era utilizada sempre quando alguém estava tentando enganar outro, senão a todos. No caso de energia nuclear, parece que o jogo é semelhante. Ou seja, conversa mole, embromação, enrolação, com a finalidade de obter algo: a aceitação do fato. A ideia de dissuassão nuclear, praticamente acabou com o final da Guerra Fria, onde surgiu. O argumento da liberdade de dominar o ciclo nuclear, sem muitas amarras, entenda-se TNP, AIEA, encerra algo temerário. Um mundo onde muitos possuiriam armas nucleares não impediria o seu uso. Pelo contrário, há, ao que parece pelo estágio tecnológico, possibilidade de construção de armas nucleares menores, para uso em menor escala, em áreas menores, com poder destrutivo, diga-se, adequado. Indo direto ao ponto, seria um inferno. Assim, seguindo fora do cerca Lourenço, quando há afirmações nas quais não se deixa perceber convicção acerca das intenções, tal convicção existe. O que se procura é uma forma de interlocução sem criar, a priori, obstáculos intransponíveis.
Swamoro Songhay

domingo, 21 de março de 2010 08:56:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Mario C M Oliveira

Francamente, não vou cair nessa de travar guerrinha de sites contra ou a favor. Tenho mais o que fazer.

Hoje a FSP publicou um artigo de Mark Weisbrot, apresentado como codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas em em Washington. Ele defende a posição do governo Lula em relação ao diálogo com o Irã. Assim como esse senhor, existem vários outros analistas com semelhante opinião

O que me pareceu fantástica foi a proposição derivada corolário) da entrevista. Qual seja, a suposição de que Colin Powell ignore o que se passa no Irã em relação à pesquisa com fins bélicos. Powell diverge sobre a estratégia de rompimento o diálogo e sobre a aposta nas sanções ativada por Obama. Aliás, parece que a entrevista provocou efeito. Hoje na FSP vi a notícia de Obama renovando a oferta de diálogo com o Irã.

Quem é o “insuspeito” Colin Powell

Powell foi conselheiro para a segurança nacional de Ronald Reagan. Depois foi chefe do Estado-Maior entre 1989 e 1993. Liderou a Guerra do Golfo, na ocasião da invasão do Kuwait pelo Iraque de Saddam Hussein.

Powell foi o primeiro peso pesado do governo Bush a confirmar apoio ao então candidato Obama.

Seu pensamento sobre em quais situações e momentos (lembra bastante a teoria grega do Kayrós: o tempo certo; oportuno) a intervenção militar americana deve ocorrer é conhecido como doutrina Powell: os EUA só devem atacar militarmente quando interesses vitais americanos estiverem em risco e quando a missão tiver um objetivo claro e a chance evidente de vitória. Nesse caso, os EUA devem usar força militar máxima e arrasar completamente o inimigo. Ou seja, só se deve entrar na briga para ganhar. Se não me engano, Powell foi contra aceitar a rendição de Sadan. Ele queria que o genocida fosse deposto e levado a julgamento.

Quem lê ou ouve a entrevista de Powell não pode ignorar que este senhor tem uma longa história que remonta à guerra do Vietnam. Não me parece certo fazer um copydesk do que interessa na entrevista e jogar assim meio de graça como argumento.

Agora, se você ingenuamente quer acreditar que não passa pela cabeça do “insuspeito” Powell que os iranianos estão desenvolvendo tecnologia nuclear para fins bélicos, tudo bem. A crença é sua. Você é livre para acreditar no que bem entender.

Link para a entrevista do Powell

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=newsarchive&sid=aUvJoFZWPoAE

Quanto a finalidade bélica do programa nuclear iraniano, eu não disse que ACREDITO nela. Quero dizer, não usei esse verbo. Eu digo e repito que TENHO CERTEZA que o programa tem destinação bélica. Minha convicção é baseada em evidências factuais, todas citadas no meu comentário anterior.

O que você parece não ter lido no meu comentário é que nele também afirmo que não há como provar e que, portanto, não há como não ser opinativo nessa questão. Disse também que os meus argumentos não são simplesmente retóricos, mas sim que são baseados em evidências empiricamente verificáveis.

Portanto, nem sobre Israel e nem sobre o Irã é possível afirmar um juízo provado sobre questões relativas a armamento nuclear.

Tecnicamente o termo “prova” não é a mesma coisa que evidência. Se tiver dúvida sobre a distinção entre os termos, recomendo-lhe não um site, mas os livros “O fio e os rastros. Verdadeiro, falso, fictício” e “Relações de Força. História , retórica, prova.” (Carlo Ginzburg, historiador italiano).

Eu o desafio a apresentar somente uma prova verificável de que Israel tem “200 ou mais ogivas”. Eu disse prova. Evidências de que Israel possui armas nucleares existem aos montes.

Quanto às suas considerações sobre as questões ligadas ao TNP, prefiro ler o original:

''Quem invadiu o Iraque não tem moral para cobrar o Irã''. Entrevista de Samuel Pinheiro Guimarães ao ESP, 21/03/2010

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100321/not_imp527213,0.php

domingo, 21 de março de 2010 23:30:00 BRT  
Anonymous Mario C M Oliveira disse...

Como assim, "travar guerrinha de sites" e porque o tom irritado? Apenas lhe sugeri um blog para que pudesse ter contacto com opiniões divergentes das que vc esposa, não com intuito de provar a certeza do meu argumento, mas de ajudá-lo a ampliar o leque de fontes com respeito ao assunto.

Outra coisa, porque adornar o adjetivo com que vc designa Colin Powell com as aspas da suspeição? Parece que de alguma forma êle mexeu com algumas de suas idéias preconcebidas e por causa disso a temporada de caça desde já pode se considerar aberta, não?

Além disso, acho desnecessário e beirando ao cabotinismo traçar o perfil dêle como se o "ignoramus" aqui não soubesse perfeitamente de quem se trata e da doutrina militar que êle defende. Qualquer visitinha na Wiki dá conta disso melhor do que vc. Sinceramente, não sei como isso ajuda o seu argumento.

"Não me parece certo fazer um copydesk do que interessa na entrevista e jogar assim meio de graça como argumento."

Bem, retirei o trecho que era pertinente ao meu comentário, não tem nada "de graça" nisso.


"Eu digo e repito que TENHO CERTEZA que o programa tem destinação bélica. Minha convicção é baseada em evidências factuais, todas citadas no meu comentário anterior."

Os born-again evangélicos também têm certeza que o dia da "rapture" está próximo, nem por isso somos levados a crer que êles estejam certos só pelo fato de terem certeza de que o inaudito evento vá ocorrer. Quanto às suas evidências "empíricamente verificáveis", se tiverem o mesmo grau de confiabilidade das "provas" apresentadas por Colin Powell no Conselho de Segurança da ONU com relação as WMD de Saddan, aí eu posso dizer que TENHO CERTEZA que quem vai ficar mal na fita vai ser vc. Não confunda propaganda disseminada por Israel, EUA e seus poodles na UE com fatos incontestes.

" Portanto, nem sobre Israel e nem sobre o Irã é possível afirmar um juízo provado sobre questões relativas a armamento nuclear."

No caso de Israel, a prova viva foi sequestrada na Itália e trancafiada em Israel por 18 anos, dos quais 11 em solitária, e solta sob a condição de não abrir o bico para a imprensa além de ser proibida de deixar o país.

Frequentando blogs, foruns, aqui e alhures, uma constante que nunca deixa de me causar frouxos de riso, a compulsão que internautas brasileiros têm lançar mão de nomes de supostas vacas sagradas no intuito de reforçar a credibilidade de seus argumentos ou mesmo de pretensiosamente demonstrar erudição. A sua sugestão de leitura cabe como uma luva nesse padrão.

Por último, cabe-me informá-lo que não faz parte do meu cardápio a leitura das partes pagas dos órgãos de imprensa brasileiros, me restrinjo aos blogs e ao que me é oferecido gratuitamente pelos jornais e revistas. De qualquer forma, e se o mesmo não for restrito à assinantes, vou dar uma olhada no link que vc forneceu.

segunda-feira, 22 de março de 2010 14:38:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Mario C M Oliveira

Responda objetivamente e sem floreios, se puder ou quiser:

1. Você acredita de fato que Colin Powell NÃO em convicção de que os iranianos TAMBÉM visam fins bélicos com o desenvolvimento do programa nuclear deles? Se a resposta for sim, devo concluir que você acredita em tudo o que Powell diz? Ou você apenas acredita, do que disse Colin Powell, naquilo que lhe interessa?

2. Solicitei uma mísera prova sobre as 200 ogivas de Israel. Mas você diz que não pode apresentá-la no momento porque a "prova" é pessoa incerta e encontra-se em lugar não sabido e que, se mesmo que encontrada, não abriria o bico. É isso?

segunda-feira, 22 de março de 2010 18:26:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Errata faltou um verbo:

1. Você acredita de fato que Colin Powell NÃO T E M convicção de que os iranianos TAMBÉM visam fins bélicos com o desenvolvimento do programa nuclear deles?

segunda-feira, 22 de março de 2010 18:28:00 BRT  
Anonymous Mario C M Oliveira disse...

Colin Powell é gato escaldado, já pagou o maior mico da sua carreira naquela malfadada exposição para os membros do Conselho de Segurança da ONU em 2003 sobre as supostas wmd do Saddan, não vai querer evidentemente repetir a dose.

Não nada me leva a supor que ele tenha essa convicção, e vou mais além, o fato de ter insistido na ressalva, leva-me a crer exatamente no oposto.

Quanto ao arsenal atômico israelense, sugiro uma consulta ao nome de Mordechai Vanunu na wikipedia, espero que isso dirima todas as suas dúvidas.

Alíás, vc me parece realmente um cara sui-generis, acredita piamente que o programa nuclear iraniano se destina a fins bélicos e ao mesmo tempo, é capaz de duvidar de pés juntos na existência do arsenal nuclear israelense.

terça-feira, 23 de março de 2010 08:26:00 BRT  
Blogger Gabriela Regüe. disse...

O que ninguém comentou, e que me parece o mais importante do ponto de vista prático, é o tamanho dos avanços comerciais obtidos pelo Brasil nos dois lados da trincheira.
O mercado composto pelos países árabes não tem importância? Os acordos firmados com Israel não têm importância?
É bom lembrar que Teerã é uma metrópole com mais de 7 milhões de habitantes. E o mundo árabe é muito mais do que isto.
Ao meu ver, mais uma vez, as críticas ao Presidente Lula se revestem de ignorância e muito preconceito.
A postura do articulista é muito mais sensata e realista ao recomendar prudência e rechaçar a crítica rasa e apriorística.
Parabéns, Alon.

sexta-feira, 26 de março de 2010 12:22:00 BRT  

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