quinta-feira, 11 de março de 2010

Nem sabedoria, nem coragem (11/03)

É habitual lutadores políticos autênticos aceitarem a morte pela causa. Mas ninguém nunca viu bandido oferecer voluntariamente a própria vida em sacrifício por motivo político. Bandido não está atrás de morrer, ao contrário. É uma diferença fundamental

O PT e Luiz Inácio Lula da Silva precisam decidir se é desejável a transição democrática em Cuba. Ou se seria retrocesso. Precisam resolver se a mudança no sistema político de lá -para talvez aproximá-lo do nosso- representaria avanço. Ou se viria como capitulação ao imperialismo norte-americano. Precisam dizer se o socialismo melhora quando incorpora valores universais nascidos com a democracia liberal. Ou se piora. Ou se é incompatível com eles.

São questões objetivas.

Não peço ao governo do Brasil ou ao PT para se meterem na política interna de Cuba. Não defendo isso. Mas um debate verdadeiro exige que as posições políticas estejam claras. E já registrei aqui noutra ocasião ("Um poço de bom senso") que o PT talvez não tenha maior dificuldade quando decidir pegar esse touro a unha. Afinal a sigla é, nas suas próprias palavras, um produto histórico da “esquerda democrática”. Conceito que só existe em oposição a uma esquerda “não democrática”.

Mas você pode achar essa abordagem absurda, pois cada país tem uma história, uma circunstância, e não cabe julgar de fora, por nenhum critério. Nem tentar estabelecer padrões. Não haveria portanto uma escala civilizatória a percorrer, mas processos específicos, baseados apenas na absoluta soberania nacional e cultural. Não nos metemos na vida dos outros e eles não se metem na nossa. E ponto.

É intelectualmente defensável. Mas o argumento precisaria ser conduzido com radicalidade e amplitude, pois do contrário desmoraliza o proponente. Como, infelizmente, tem provado o nosso querido Itamaraty.

Ou talvez o sujeito acredite que existe sim a tal escala civilizatória, e que nela Cuba está adiante de nós. Por ter abolido a propriedade capitalista e trocado o projeto de uma democracia burguesa por outro, bem mais avançado. Então, pela lógica, se é bom lá também deveria ser proposto aqui. Nem que só para o futuro. O eleitor tem o direito de saber.

Se entre nós tal debate é em boa medida teórico, para os cubanos é bem prático. Especialmente para os que divergem do governo de Havana. Como os Estados Unidos querem e incentivam a mudança do sistema político de Cuba, todo mundo que ali defende a mesma coisa e começa a lutar pelos seus objetivos, mesmo quando pacificamente, acaba enquadrado pelas autoridades na categoria de inimigo do país. E corre o risco de puxar uma cana brava.

Terça-feira Lula comentou sobre a greve de fome de presos políticos em Cuba. O ato desesperado busca sensibilizar o governo cubano para que solte um grupo de prisioneiros. Lula criticou a greve. Poderia tê-lo feito com elegância. Poderia ter usado um argumento humanitário, ou religioso (religiões costumam proibir o suicídio). Mas preferiu fazer o paralelo talvez mais equivocado e deplorável de todo o abundante estoque de falas presidenciais, desde 2003.

Não é razoável soltar presos políticos só por causa de uma greve de fome, diz Lula, assim como não seria razoável libertar bandidos comuns que usassem essa mesma forma de pressão.

Poucas vezes, talvez nunca em sua longa e vitoriosa carreira política, Lula esteve tão completamente errado. São situações incomparáveis. Pode haver uma superposição, uma zona cinzenta entre a militância política e o banditismo. Mas são coisas diferentes, nunca iguais. E há um jeito fácil de distinguir uma categoria da outra.

É habitual lutadores políticos autênticos aceitarem a morte pela causa. Mas ninguém vê bandido oferecer voluntariamente a própria existência por um motivo político. Bandido não está atrás de morrer, ao contrário. Pode até perder a vida por causa das opções que faz, mas será um acidente, uma contingência, e nunca um sacrifício de caso pensado.

Claro que Lula sabe distinguir entre as duas turmas. Ainda mais como presidente da República. Ninguém chega onde ele chegou, nem sobrevive no poder, se não souber separar os dois segmentos.

Em termos simples e práticos, e para resumir, os presos políticos cubanos não são bandidos, são militantes de uma causa com a qual o presidente do Brasil parece não concordar. Paciência. Mas nem por isso nosso chefe de Estado tem o direito de se referir a eles como se fossem criminosos comuns.

Humilhar os adversários nunca é ato de sabedoria. Neste caso particular, considerando que Lula é o todo-poderoso presidente do grande Brasil e os alvos da fúria verbal dele estão presos, nas condições conhecidas, sequer pode ser entendido como ato de coragem.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta qunta (11) no Correio Braziliense.

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17 Comentários:

Anonymous Aureo disse...

E a nossa gente continua cega.
Não tens a sensacao d pregar no deserto?

quinta-feira, 11 de março de 2010 00:44:00 BRT  
Anonymous NPTO disse...

Alon, grande post, disse tudo.

A esquerda brasileira parece se aferrar à defesa de Cuba como recurso para dizer a si mesma que não abandonou o radicalismo da juventude. Bom, em primeiro lugar, que a juventude de hoje invente seus próprios radicalismos, e que nós moderemos os nossos. Em segundo lugar, a gente vai deixar gente morrer na cadeia pelo nosso talismã?

Ou o regime cubano é forte o suficiente para sobreviver à democracia, ou não é. Se não for, que caia. Se for, isso sim, mudaria o jogo continental.

quinta-feira, 11 de março de 2010 01:02:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

“Obrigar a ser livre” é um oxímoro político banal na Cuba dos Castro.

O professor Roberto Romano em seu blog respondeu (10/03/2010) assim a Maurício Rands (PT/PE), que tentou justificar a declaração de Lula:

“Deputado: o presidente se expressou MUITO bem e foi compreendido perfeitamente. Para a maioria do seu partido, "direitos humanos" é algo a ser defendido... para os que batem palmas diante de tiranos. É uma ideia fanática, tosca e mesquinha dos direitos, mas muito clara e distinta. [...]. Ele disse com perfeita lógica seu apoio a um Estado assassino, dirigido por assassinos. Agora, quanto à determinação existencial de quem apoia assassinos, responda quem tiver estômago forte. Eu vomitei ao ler a declaração do magistrado de um país supostamente democrático. A náusea, diante das ideologias ordinárias, pode TAMBÉM matar.”

Em 2003 Lula indicou Tilden Santiago para Embaixador em Cuba. Neste mesmo ano Fidel Castro puniu com a morte pessoas que tentavam fugir de Cuba. Tilden justificou os assassinatos ativando os mesmos argumentos (agentes do imperialismo) utilizados hoje por Amorim para explicar o inexplicável em Cuba. Tilden alertou os brasileiros (FSP em 11/07/2003): “Então, se também vierem querer desestabilizar o Lula, nós também teremos que tomar medidas aqui. É preciso entender em que contexto as coisas aconteceram e o Lula é consciente dessa situação. Note-se a última frase: o presidente Lula tinha pleno conhecimento da situação e, como demonstrou Tilden, que também falou em nome de José Dirceu, Lula sabia, entendia e concordava com os extremos de Fidel.

Quanto às convicções democráticas de Lula, quem quiser que compre. Disse Lula em entrevista à FSP de 29/12/1985:

“Não achamos que Parlamento é um fim, ele é um meio. E vamos tentar utilizá-lo até onde for possível. Na medida em que a gente perceber que pela via parlamentar, pela via puramente eleitoral, você não conseguirá o poder, eu assumo a responsabilidade de dizer à classe trabalhadora que ela tem que procurar outra via”

Então, Alon, recolhendo os fatos de 29/12/1985, os de 11/07/2003 (há lista é bem maior. Apenas exemplifico com estes) e os atuais fatos relativos à situação dos presos cubanos, é forçoso concluir que o pensamento de Lula não mudou.

Discordo do seu “talvez”. Hoje, persiste no pensamento político de Lula a crença na “na tal escala civilizatória, e que nela Cuba está adiante de nós. Por ter abolido a propriedade capitalista e trocado o projeto de uma democracia burguesa por outro, bem mais avançado”.

Como escreveu Claude Lefort em suas análises sobre os totalitarismos, Zapata, Fariñas e os mais de cinquenta presos que assinaram a carta pedindo apoio ao presidente do Brasil são, na fantasmagórica sociedade Una de Cuba, os homens em demasia, os inimigos a eliminar. A sociedade Una cubana somente existe pela incessante produção-eliminação dos homens incômodos, parasitas, dejetos, nocivos (nas palavras de Lula, “os bandidos”). Mas o Um, quem o enuncia? E este resto, quem o elimina? É preciso um Outro, um Grande Operador. O Egocrata.

quinta-feira, 11 de março de 2010 02:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Fiquei curioso em saber qual foi a opinião do jornalista quando Lula desaconselhou Cesare Batistti a continuar a greve de fome.

quinta-feira, 11 de março de 2010 09:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ótimo post, Alon. Conforme já foi dito e avaliado também por vários observadores, percebe-se ou delineia-se um método a cada fato, a cada discurso, a cada palavra. Se pode existir algo pior, há a multiplicação de explicações e justificativas, não raro em tons pouco disfarçados de ameaça. O lado bom é o desvelamento inexorável de tudo isto.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 11 de março de 2010 10:53:00 BRT  
Anonymous Filipe Guedes disse...

Prezado Alon,

Meus parabéns pela pertinência e lucidez do seu texto. Que as cabeças do PT encontrem a luz em suas palavras, notadamente o seu atual presidente, Eduardo Dutra, que tem se revelado de uma esquerdopatia doentia. E que Lula compreenda que a vida tem apenas um lado.

quinta-feira, 11 de março de 2010 11:13:00 BRT  
Anonymous Joel Neto disse...

Muito boa a postagem (como sempre). Mas sugiro que escreva outra explicando o que é esta "democracia liberal" que tu fala. E quais são as outras democracias que existem? É que sou por demais ignorante e não conheço. Terei o mais maior prazer em saber quantas democracias existem.

quinta-feira, 11 de março de 2010 11:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bom artigo, Alon. No entanto, acho que o caso dos dissidentes cubanos transborda os limites da política e entra no campo humanitário, então não comporta um tom exageradamente pragmático, apesar de correto.

Ênipê, chega aqui mais perto, sim, aqui no catinho da parede para que ninguém nos ouça: TALISMÃ? Qualquer tentativa de esconder a crueldade do regime cubano com biombos de eufemismos e palavras bonitinhas não é radicalismo, cumpadi, é I-M-O-R-A-L-I-S-M-O.

Abraço

Kbção

quinta-feira, 11 de março de 2010 13:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

E você acerta na mosca ao condenar o uso seletivo do Princípio Constitucional da Autodeterminação dos Povos pelo Itamaraty.

Kbção

quinta-feira, 11 de março de 2010 13:23:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

A frase do presidente não foi feliz, pela própria polêmica, mas é forçar a barra dizer que o presidente comparou presos políticos a criminosos comuns.

A frase do presidente condena a greve de fome como instrumento de pressão, seja para presos políticos ou não, e só.

Mais do que isso é extrapolar a interpretação da frase, é especulação sobre "o quê quis dizer".

O jogo político diplomático internacional não é para inocentes e não é utópico. Até para conseguir resultados e avanços é preciso saber exercitar políticas de detentes. Os EUA na teoria tem doutrina, na prática não tem. Fossem coerentes teriam que fazer com a China o mesmo embargo que fazem com Cuba.

Aliás o próprio consumidor brasileiro que tanto critica Cuba, é ávido consumidor de produtos chineses, financiando a mesma falta de liberdade naquele país, que existe em Cuba.

quinta-feira, 11 de março de 2010 13:35:00 BRT  
Anonymous Tiago aguiar disse...

Caro Alon

Eu creio que a frase do Presidente descontextualizada torna o mote óbvio, porém perigoso.

Mas enfim, por que quando o Cesare Battisti fez greve de fome, a imprensa não se sensibilizou?

Não concordei com a sua abordagem (fato raro).

Saudações!

quinta-feira, 11 de março de 2010 14:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É isso aí. Disse praticamente tudo.
João Paulo Rodrigues

quinta-feira, 11 de março de 2010 20:57:00 BRT  
Anonymous Julio Zapeta disse...

Tiago,

Battisti morava num país democrático, cometeu um crime num país democrático, e está agora num país democrático (Brasil), onde há leis e procedimentos legais a serem observados, recursos a serem feitos (essa maldita democracia liberal pequeno-burguesa).

Ha uma imensa diferenca quando vc ta fazendo greve de fome no pais onde vc mora, e tal pais eh uma ditadura, na qual vc nao tem direitos de expressar sua dissidencia em relacao a um regime.

Diferenca clara, nao?

quinta-feira, 11 de março de 2010 23:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É isso aí. Disse praticamente tudo.
Paulo Araújo

sexta-feira, 12 de março de 2010 00:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Aureo (11/03/2010 às 00h44min00s BRT),
Para quem você acha que o presidente fez a comparação? Para você ou para as pessoas que são cegas?
Não dou muita atenção ao que Lula diz. Às vezes penso que ele faz um achado, como quando disse que a inflação é um desgraça. Uma frase muito mais forte do que a insossa frase do tucanato "A inflação é o mais injusto dos impostos" que além de insossa pode muito bem ser demonstrada como falsa. No mais não me preocupo em dar atenção ao que ele diz, pois sei que ele não diz para mim.
Agora, se é permitido fazer um plano em época de eleição para eleger um presidente e um presidente que não fora sequer presidente de grêmio recreativo na juventude e esse plano eleva a dívida pública e atravanca o crescimento do país por tão longo tempo, porque o presidente não poderia fazer a declaração que ele ache que vai mais conquistar o voto das pessoas, como diria você, cegas?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 11/03/2010

sexta-feira, 12 de março de 2010 00:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Duarte, realmente o jogo diplomático não é utópico e não é para inocentes. Perfeito. Por isso mesmo os inocentes, não raro, são utilizados como bucha de canhão. A não ser que, nas atitudes e palavras em foco, exista, como num recôndito, uma inteligência superior, acima do entendimento de simples mortais. Os inocentes tem a rara pretensão de entender o que foi dito como foi dito. E infelizmente, às vezes, é afoito ao exercer escolhas. Ai, ele vira simples estorvo.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 12 de março de 2010 10:50:00 BRT  
Blogger Guilherme Scalzilli disse...

Cuba é aqui

Os democráticos inimigos da ditadura cubana sofrem de indignação seletiva. Ninguém ousaria defender que um presidente brasileiro se negasse a visitar os EUA sob a alegação de que o país tortura inocentes em campos de concentração. E ai do jornalista que constrangesse o mandatário, em visita à Casa Branca, a se pronunciar sobre o tema.
Os adversários de regimes autoritários curiosamente silenciam sobre a proibição da Marcha da Maconha no Brasil (para citar um exemplo inofensivo). A Justiça viola preceitos constitucionais básicos ao nosso lado, mas, claro, temos outras prioridades. Democracia nos olhos dos outros é refresco. Sorte que existe o Fidel para nos distrair de nossas próprias instituições putrefeitas.

sábado, 13 de março de 2010 13:44:00 BRT  

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