segunda-feira, 22 de março de 2010

Enquanto é tempo (22/03)

No cenário pacífico, democrático e plural a liderança do Brasil é indisputável. No outro, não é. A Alemanha conseguiu em meio século de paz o que não obtivera em um século de grandes guerras: mandar na Europa. E Berlim não tem a bomba

As guerras são sempre produto de ações incrementais, um processo “químico”. Todos os reagentes são necessários. Se faltar unzinho que seja, não tem reação.

É como acidente de avião. Um monte de coisa tem que dar errado junto. E de modo aparentemente imperceptível, antes do desastre.

Isso entretanto não elimina a necessidade de tentar identificar retrospectivamente, em cada processo, os primeiros passos. Quando no futuro a América Latina estiver em plena corrida nuclear será interessante analisar como ela começou.

Uns responsabilizarão a Venezuela, por recorrer à bomba como suposto meio de defesa contra os Estados Unidos. Outros culparão os Estados Unidos, pelas ameaças à soberania da Venezuela.

Outros olharão para o que fez o Brasil. Nós tínhamos duas opções: intervir decisivamente para demover nossos vizinhos ou pegar uma carona na instabilidade, para reavivar as brasas das nossas próprias ambições.

O Brasil está vocacionado para liderar a América do Sul, pelo peso geopolítico. Mas essa liderança não será exercida sem levar em conta a existência dos Estados Unidos, pelo peso geopolítico deles. Como conduzir a contradição?

O lógico seria cuidar preliminarmente da nossa soberania. É nosso principal ativo. Sem ela, o projeto de liderança vira fumaça. Todos os discursos incendiários de Sadam Hussein, bem como os vídeos e fotos dele empunhando armas, ou saudado pelas multidões, dormem num arquivo empoeirado e esquecido. Pois o Iraque deixou, na prática, de existir como nação independente.

Sadam está para o Iraque como Solano López esteve para o Paraguai. Se o objetivo era passar à História como heroi derrotado, mártir do império, tudo bem. Se era construir um grande país, deu errado.

Como defender melhor a soberania? Como calibrar as doses de confronto e cooperação com os Estados Unidos para o resultado final ser um Brasil mais forte? E não mais subordinado, ou isolado (no fim dá na mesma)? A nuclearização da América do Sul vai nos conduzir à hegemonia ou dará a Washington a legitimidade e o argumento necessários para construir um cordão sanitário?

Difícil acreditar que o Brasil vá deixar a Venezuela ter a bomba antes. E como reagirá a Colômbia a uma eventual bomba brasileira ou venezuelana? Neste caso ela vai ver a novidade como risco decisivo a sua soberania, dado o potencial desequilíbrio interno de forças em favor da guerrilha.

E a Argentina, com quem construímos lá atrás uma paz baseada precisamente na renúncia mútua a armas nucleares? Aceitará deixar o destino dela nas nossas mãos, sob o nome de fantasia de "Conselho de Defesa Sul-Americano"? Ou vai chamar gente de fora para a festa?

Os defensores do Brasil nuclearizado têm um argumento, recorrente. Os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e o Iraque, mas não invadiram a Coreia do Norte.

É um lado da verdade. O outro? A bomba protege o establishment político norte-coreano, mas a República Democrática e Popular da Coreia é um país completamente isolado, desprovido de relações estáveis com os vizinhos e cada vez mais dependente do poderio chinês para contrabalançar as pressões de Washington.

As vantagens de uma América do Sul desnuclearizada são evidentes. Diminuem os motivos para a ingerência extracontinental. Fica mais tranquilo e natural construir um mercado comum. Continua aberto o caminho para a ampla cooperação coletiva. Elimina-se uma barreira à política comum de Defesa, o meio mais eficaz de garantir a soberania regional.

No cenário pacífico, democrático e plural a liderança do Brasil é indisputável. No outro, não é. A Alemanha conseguiu em meio século de paz o que não obtivera em um século de grandes guerras: mandar na Europa. E Berlim não tem a bomba.

Os defensores do artefato brasileiro gostam de falar por códigos. Escondem-se atrás de comportamentos enigmáticos e sofismas. São os especialistas do “deixa comigo que eu sei o que estou fazendo”, ou do “vocês não têm moral para nos criticar”.

Seria bom se viessem a público defender suas posições abertamente.

Para que o país possa se defender delas a tempo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (22) no Correio Braziliense.

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24 Comentários:

Blogger Ligeirinho disse...

Perfeitamente construído seu artigo. Mas ainda fico com uma dúvida: o que fazer quando a Venezuela tiver a sua bomba?

domingo, 21 de março de 2010 23:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Cada novo país nuclearizado é um fator a mais de instabilidade. Cada nova peça no jogo pode conduzir a situação a uma imprevisibilidade caótica. É um jogo de soma zero. Realisticamente EUA, Rússia e China não podem abrir mão de seus arsenais. O que fazer? Congelar a distribuição atual de poder? Abrigar-se sob o guarda chuva de um desses três grandes? Desenvolver a tecnologia e abster da bomba, mas ter capacidade imediata de seu uso caso necessário? O que eu sei com certeza é que novos atores nucleares não devem ser tolerados.

segunda-feira, 22 de março de 2010 00:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Só teremos sossego quando as armas nucleares forem inúteis. Se alguma civilização extraterrena mais avançada pudesse passar por aqui e deixar algum dispositivo que fizesse as armas nucleares explodirem no colo de quem as lançasse, nosso problema estaria resolvido. Como acho que nosso planeta é nada no grande esquema das coisas, vamos ter de nos virar para inventar esse dispositivo. Se eu fosse o Bill Gates ou o Eike Batista lançaria um prêmio de alguns bilhões de dólares para algum estudo prático ou teórico que tornasse os artefatos nucleares inertes ou explodissem ao serem lançados. Caso esses biliardários não toparem a idéia ainda pode haver um consórcio de países que se interessem. Não tenho dinheiro nem capacidade científica e tão pouco influência política. Então acho que minha missão neste mundo é apenas lançar a idéia. Não me aplauda, me dê uns trocados que a vida está difícil.

segunda-feira, 22 de março de 2010 02:00:00 BRT  
Blogger pait disse...

Nome aos bois: quem são os defensores do artefato brasileiro, os gostam de falar por códigos?

segunda-feira, 22 de março de 2010 07:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Seu texto faz-me lembrar muitas lições que apreendi. No início fez-me lembrar de uma frase que uma professora de francês e francesa me dissera: “Charles de Gaulle dizia que ele gostava tanto da Alemanha que preferia que fossem duas”. Aliás, sem ser Charles de Gaulle, eu costumo replicar aos que falam da baixa representação parlamentar de São Paulo que para aumentar a representação de São Paulo basta dividir o estado em seis.
Outra lição mais recente, eu li em texto de José Luís Fiori que já reproduzi aqui. E são dois textos. Um diz respeito à força do Brasil no mundo. É o artigo publicado no Valor Econômico de 23/05/2007 intitulado “A turma do “deixa disso””. O próprio título do artigo já nos qualifica.
O outro artigo de José Luís Fiori que seu post me fez lembrar fala das forças que constroem a democracia na Alemanha. Não me parece ser só a força da Alemanha que está agindo. No título do artigo, publicado no Valor Econômico em 17/06/2009, está o outro parceiro da Alemanha: “Entre Berlim e o Vaticano”. Do título revela-se a composição das forças na Alemanha. Composição que parece ainda mais sólida quando se vê o lema da democracia-cristã alemã na campanha para o Parlamento Europeu no primeiro semestre de 2009: “Por Deus e contra a Turquia”, e que encimava o artigo de José Luís Fiori.
Quanto a Sadam Hussein, eu desenvolvi minha própria lição. Se o Iraque permanecer unido, ele ficará na história como quem uniu o Iraque. Se o Iraque for dividido, a história de Sadam Hussein será esquecida. De certo modo sua comparação com Solano López foi adequada.
Enfim, Berlim e o Brasil como Sadam Hussein não têm bomba, mas o poder de fogo da Igreja Católica é ainda muito grande e nem Sadam Hussein contava com ele, nem conta com ele o Brasil. Enfim, só nos resta torcer para o gogó de Lula. Confesso, entretanto, que até para ouvidos internos, eu sou mais otimista com o gogó de FHC, embora considero que Lula acredita no que ele diz enquanto FHC não. Há vinte anos, na eleição de Fernando Collor eu dizia a mesma coisa de Lula e de Fernando Collor e acrescentava que considerava que essa era até uma qualidade de Fernando Collor e um demérito de Lula. Com a evolução de Lula já não vejo a crença dele como demérito, como mostra o artigo recente de Fidel Castro explicando a posição de Lula em relação ao etanol. Pode ser que no estrangeiro o gogó dele junto às elites funcione
Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/03/2010

segunda-feira, 22 de março de 2010 08:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A pergunta a ser feita, a meu ver, não seria o que o Brasil faria quando tal ou qual país vizinho tiver a bomba. Seria o que o Brasil pode ou poderá fazer para que seja mantida a desnuclearização da América do Sul, Central e Caribe. Voltando à questão sobre a Venezuela, talvez a maior dissuasão seja a obtenção de um elevado nível científico e tecnológico. A tal ponto que só seria alcançado por terceiros mediante recursos impossíveis de serem conseguidos. Porém, ao que se pode observar dos posicionamentos, ainda que na base da retórica, a opção é pelo confronto. Tenta-se desqualificar as potências detentoras de força nuclear por manterem seus arsenais ao mesmo tempo em que movem pressões contra afoitos pretendentes à bomba. Conforme dito no post, a Alemanha e o Japão não possuem bombas nucleares. E ninguém duvida do fato de terem a ciência e tecnologia para tanto. Desconheço o estágio brasileiro, porém, ao que parece, não existem pressões sobre o programa de desenvolvimento pacífico do ciclo nuclear pelo Brasil. Contudo, a permanecer tal apetite pelo confronto, podem começar a existir. Discursar a favor de pogramas de terceiros países diante de lideranças internacionais é bem diferente de ter suas intenções criticadas, aliada às pressões por investigações nas instalações nacionais. Pode ser que uma campanha a bomba é nossa não tenha tanto apelo como o que teve o petróleo é nosso.

segunda-feira, 22 de março de 2010 11:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alemanha,Iraque,Venezuela,Paraguai(de Solano Lopez),Afeganistão ,Coréia do Norte .Faltou o sujeito oculto:Irã!
Alemanha privilegiada no pós guerra pelo plano Marshall, e seu berçário de cientistas nucleares.Von Braun colocou os EUA na Lua(literalmente).Precisariam os cavaleiros teutônicos da "bomba"? Estatégicamente colocada ,interpondo-se a URSS,a ex-pátria do nazismo tornou-se recepiente dos generosos investimentos americanos.As bombas já estavam lá,quando passaram a ser produzidas industrialmente.
Iraque,e seu líder ,ex-aliado do governo dos EUA,na guerra longa com o Irã,tinha cacoetes tribais.
Aliás, como os povos árabes do Oriente Médio,artificialmente reunidos em nações ,igualmente artificiais.A América do Sul,almeja ,tão somente, sua independência. Ao elegerem , operário,índio,ex-guerrilheiro,nacionalistas,presidentes,os cidadãos desses países manifestam repúdio as intervenções,arrogância e a imposição hegemônica que prevaleceu neste continente durante todo o século passado.

segunda-feira, 22 de março de 2010 11:42:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Concordo plenamente como artigo. Principalmente com a finalização:

"Os defensores do artefato brasileiro gostam de falar por códigos. Escondem-se atrás de comportamentos enigmáticos e sofismas. São os especialistas do “deixa comigo que eu sei o que estou fazendo”, ou do “vocês não têm moral para nos criticar”.

Seria bom se viessem a público defender suas posições abertamente.

Para que o país possa se defender delas a tempo."

segunda-feira, 22 de março de 2010 12:41:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Alon, o que o seu texto não considerou é a possibilidade de um cenário belicoso, não democrático e unilateral se estabelecer no continente a partir de uma ameaça externa a ele.

A sua análise é bastante factível dentro do contexto e das perspectivas que vislumbramos agora. Até aí, tudo bem.

Contudo, sempre devemos lembrar que a realidade é dinâmica, os pressupostos de hoje poderão ser considerados superados daqui a 60 anos, por exemplo.

E o que vai acontecer a partir de 2070? É claro que não tenho a mínima idéia.

Mas eu tenho duas certezas:

1) A água deverá se transformar em uma commoditie cobiçada, com grandes reservas na América do Sul.

2) Por mais que os países da América do Sul invistam nas Forças Armadas, nada será páreo para a capacidade de agressão e assalto das potências bélicas globais. Nesse ponto, a posse de arsenal nuclear poderia vir a ser um "diferencial".

E a respeito do 2º quesito, é sempre bom lembrar que é absurdo esperarmos que os EUA - por exemplo - sejam considerados, em termos de ação externa um Estado pacífico, democrático e plural.

Que fique bem claro, eu não sou defensor da criação da bomba. Mas também sei que a sede por recursos estratégicos faz com que países também estratégicos fiquem em uma situação, digamos, "perigosa".

Desse modo, eu fico na dúvida. Ainda não tenho uma opinião formada sobre o tema.

Sou pacifista, mas sempre lembro daquela frase, não sei ainda se de Cícero, Ápio Cláudio ou Publius Flavius: "Se você quer a paz prepare-se para a guerra"

segunda-feira, 22 de março de 2010 13:10:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Caro Pait

De um comentário no final do ano passado no blog.

As palavras do candidato a presidente em 13/09/2002, durante reunião com militares e ex-ministros do regime militar:

"Só teria sentido esse tratado [TNP] se todos os países que já detêm [armas nucleares] abrissem mão das suas. Ora, por que um cidadão pede para eu me desarmar, para ficar com um estilingue, enquanto ele fica com um canhão para cima de mim? Qual a vantagem que levo? O Brasil só vai ser respeitado no mundo quando for forte econômica, tecnológica e militarmente."

Devido a repercussão negativa dessa declaração no debate eleitoral de 2002 (também nos EUA), Lula teve que relativizar suas convicções armamentistas e desdizer em outubro do mesmo ano o que afirmara em setembro.

Recupere em pesquisa no google as declarações de Lula em 2009 na Alemanha perante Ângela Merkel e você poderá constatar que Lula não mudou seu pensamento sobre o TNP de setembro de 2002

A crítica de Lula ao TNP explicitada com todas as letras em 2002 para militares e ex-ministros do regime militar não é diferente da crítica que veio à tona na declaração a Ângela Merkel. O que eu estranho é o contorcionismo mental e retórico para dizer que Lula hoje faz e diz o contrário do que efetivamente fez e disse em 2002 e agora em 2010.

Se não for hegemônica em seu governo, a crítica ao TNP tem forte respaldo entre importantes setores civis e militares. Entre os mais ilustres bombistas e críticos do TNP no âmbito governamental, cito: o ministro da SAE Samuel Pinheiro Guimarães; o ministro Nélson Jobim; o secretário de política, estratégia e relações internacionais do Ministério da Defesa, general-de-Exército José Benedito de Barros Moreira; o ex-ministro de Ciência e Tecnologia Roberto Amaral; o vice-presidente José Alencar; um monte de malucos não tão ilustres que infestam a internet.

Em um dos seus melhores momentos de fina ironia, um blogueiro expressou-se assim sobre um certo ponto de vista. Esta valendo um cigarro Yolanda e duas mariolas para quem adivinhar a autoria.

Experiência-piloto

O presidente da República expôs esta semana um ponto de vista fascinante e original sobre como o mundo poderia banir as armas nucleares. Segundo sua excelência, todos os países devem possuí-las e daí então, talvez numa grande conferência mundial coordenada por sua excelência (esse detalhe é ironia minha), bani-las coletivamente.

O mandato de Lula está chegando ao fim. Essa tese de o armamento nuclear universal ser um bom caminho para o desarmamento nuclear universal ficará como um momento singular da passagem dele pela Presidência. Daqui a pouco mais de um ano, Lula certamente terá tempo livre suficiente para desenvolvê-la.

Mas talvez fosse o caso de fazer, já, uma experiência-piloto aqui no Brasil. Promover o armamento geral (convencional, claro) da população e depois —quem sabe?— convocar uma Conferência Nacional pelo Desarmamento. Se funcionar, poderíamos inclusive exportar a ideia.

segunda-feira, 22 de março de 2010 15:12:00 BRT  
Anonymous Mario C M Oliveira disse...

Alon, acho perfeitamente razoáveis suas ponderações, por outro lado, o clube do Bolinha dos detentores de armas atômicas têm avançado muito pouco no que tange às suas obrigações, assumidas no âmbito do TNP, quanto ao progressivo desmantelamento de seus arsenais. Se esse status quo persistir, não vejo como se possa impedir indefinidamente as pretensões de alguns não-sócios de entrarem para o clube.

segunda-feira, 22 de março de 2010 15:16:00 BRT  
Blogger Ligeirinho disse...

Paulo Araújo

Não vejo esse comentário de 2002 como uma adesão armamentista, e sim uma análise de que o tratado de não-proliferação de armas nucleares está assentado sobre alicerces desiguais.

segunda-feira, 22 de março de 2010 18:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Peraí, nem desenvolvimento tecnológico não pode? Tipo modelação por computador, armazenagem de material necessário com a coisa desmontada, pra ninguém dizer que a gente tem a coisa, mas, também ficar assim sem defesa nenhuma, logo um país rico em quase tudo como o nosso, não dá...Um crisesinha dessas do ano passado e muita gente já anteviu uma que poderia pipocar guerra para todo lado. Já pensou numa crise ambiental feia, faltando tudo, vai ser um cada um por si daqueles. Poderíamos pensar como o tal sionista que o Lula não quis visitar o túmulo. Ele dizia que só os israelenses é que poderiam garantir o país deles, e que não tinham que levar em consideração qualquer grita internacional. Sei lá, se eles os israelenses pensam mesmo assim, é bem possível que essa estória que eles tem 'n' bombas seja verdadeira. Quanto a nós que não moramos numa tripa desértica de território, seria bom uma dose de cautela sobre ter ou não ter eis a questão.
Ismar Curi

segunda-feira, 22 de março de 2010 20:00:00 BRT  
Anonymous JV disse...

de novo inspirado, de volta à boa forma.

segunda-feira, 22 de março de 2010 22:15:00 BRT  
Blogger Ligeirinho disse...

Concordo com o Ismar Curi.Tudo bem em não ter, mas deter a tecnologia é fundamental.

segunda-feira, 22 de março de 2010 22:28:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Ligeirinho

“Não vejo esse comentário de 2002 como uma adesão armamentista, e sim uma análise de que o tratado de não-proliferação de armas nucleares está assentado sobre alicerces desiguais.”

1. Os interlocutores de Lula nessa reunião de 2002 são militares e ex-ministros do regime militar.

2. O Brasil protelou por 30 anos a ratificação do TNP, que é de 1968. O tratado não proíbe o uso da tecnologia para fins pacíficos, mas veda aos países signatários o desenvolvimento de tecnologia para fabricação de artefatos nucleares.


3. A denúncia atual e a de 2002 da assimetria (“alicerces desiguais”) não faz o mínimo sentido, pois ela nunca foi omitida ou ocultada, mas sim consentida pelos signatários. Se Lula não sabia disso, deveria se informar melhor. É sabido desde 1968 que seria assim. O efeito prático do TNP é, em primeiro lugar, evitar uma corrida armamentista mundial.

4. Finalmente, em 1998 FHC submeteu ao Senado (inclusive com os votos favoráveis do PT) a RATIFICAÇÃO (os governos militares sempre foram contrários) E, CONSEQUENTEMENTE, OS TERMOS ASSIMÉTRICOS DO TRATADO, REAFIRMANDO O CONSENTIMENTO do Brasil para com um certo status quo nuclear mundial, em troca do gradual desarmamento.

5. Se não estou enganado, o TNP confere à AIEA dois objetivos fundamentais:
5.1. Promoção do uso pacífico da energia nuclear
5.2. Desencorajamento do seu uso para fins militares.

Assim, é papel da Agência assessorar os países no desenvolvimento de tecnologias para aplicações na geração de energia, na saúde, na agricultura e na indústria. É função da Agência o monitoramento das atividades privadas e estatais no campo da energia nuclear, podendo ser solicitada pelos governos para verificar se os materiais nucleares liberados para fins pacíficos estão ou não sendo redirecionados para uso militar.

Agora voltemos a Lula de hoje e ao Lula de 2002 e sua seleta plateia, reunida para ouvir o que o candidato tinha a dizer sobre o TNP.

O que Lula disse naquela ocasião? Que era contra o TNP.

E o que ele concluiu ao final da declaração? Ele concluiu que “O Brasil só vai ser respeitado no mundo quando for forte econômica, tecnológica e militarmente“.

Considerando a recusa dos governos militares em ratificar o TNP; o contexto da reunião (platéia de militares e ex-ministros da ditadura); os conteúdos das declarações de Lula, eu te pergunto: não é lógico concluir que o termo “militarmente”, empregado por Lula, está referido exatamente ao uso de tecnologia para fins de fabricação de armamento nuclear? Isto é, a o que mais Lula poderia estar se referindo, tanto hoje quanto em 2002, se todos sabemos que o ÚNICO limite para o desenvolvimento ou aquisição de armamentos para as FAs é que tais armamentos NÃO utilizem tecnologia de destruição nuclear?

Como disse Alon, passa da hora de nomearmos quem são hoje no Brasil os candidatos ao papel de Dr Strangelove na versão tupiniquim que se prepara do espetacular filme de Kubrick. Eu tenho um palpite. Mas acho que se eu citar o nome Alon, com razão, vetará o comentário.

PS: A versão para o título brasileiro do filme de Kubrick de 1964 é Dr. Fantástico. Em Portugal recebeu esta admirável versão literal do título em inglês: “Dr. Estranhoamor ou: Como Aprendi Deixar de me Preocupar e a Amar a Bomba”

terça-feira, 23 de março de 2010 00:32:00 BRT  
Blogger Ligeirinho disse...

Paulo Araújo

Não é segredo que Lula canta a música que a platéia gosta.

Em uma reunião de sindicalistas, chamará o demônio de patrão. Para empresários, falará dos juros altos (coloque mais itens a vontade).

Para militares, dizendo isso, disse certamente o que queriam ouvir.

De qualquer maneira, o consentimento prévio sobre a assimetria não faz com que ela deixe de existir, faz?

O Brasil fez o que devia ter feito. Assinou o tratado, e deve cumpri-lo.

Bravatas a parte, não vejo Lula como aquele que rasgará tal compromisso. Mudar a constituição e assumir uma postura militarista pode ser divertido, mas certamente não é inteligente, vantajoso.

Entretanto, assumir uma postura ingênua, passiva e silenciosa é não usar os dividendos 'políticos' de ter assinado o tratado sem antes ter construído a afamada bomba. É deixar de cutucar aqueles que 'espertamente' assim o fizeram.

terça-feira, 23 de março de 2010 08:07:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não existe nada mais lírico, depois de uma ode à infância por Cassimiro de Abreu, do que uma elegia à coerência por nosso isento Alon.
Será que aquilo texto sobre a coerência ainda está pregado no blog?

terça-feira, 23 de março de 2010 08:18:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Está aqui, caro anônimo -> http://goo.gl/Yzef

terça-feira, 23 de março de 2010 09:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Tem horas que a política é realpolitik. Tem horas que é um debate habermasiano na Ágora.
Tem horas que o ídolo é Lula, o bravateiro que rasga programa, a metamorfose ambulante que corre atrás da popularidade. Tem horas que é Obama, o homem que arrosta a impopularidade em nome da coerência.
É difícil entender...
Vou ler aquele texto de novo.

terça-feira, 23 de março de 2010 10:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Com perdão da piada sobre assunto tão sério. Mas, não dá para deixar passar. Da posição, ou várias posições, sobre a questão nuclear parece aquela hitória do pretenso valentão desafiador: me segura, senão eu mato. Quando contido: me larga, que eu mato.
Swamoro Songhay

terça-feira, 23 de março de 2010 11:58:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Ligeirinho

Corrija-me se estiver errado.

Do seu comentário devo concluir

1. Lula é um mentiroso contumaz. Isto é, o que diz nunca tem correspondência com a verdade. Logo, o que ele diz no presente, em qualquer presente, não se deve escrever porque será desdito amanhã, se lhe for conveniente. É isso? Se for, eu jamais compraria de Lula um carro usado.

2. O TNP não cria e nem descria assimetria. Ele a reconhece e, partindo desse reconhecimento, aceita-a como um fato.

Historicamente, o TNP não foi um truque das potências nucleares, mas resultado de um antigo debate iniciado por pessoas sensatas após o bombardeio de Hiroshima e a corrida armamentista nuclear subsequente.

terça-feira, 23 de março de 2010 12:11:00 BRT  
Anonymous Osvaldo disse...

Quem disse que o Brasil esta se nuclearizando? Não sei você ouviu falar, no brasil recente, de bomba atomica. America do Sul em corrida nuclear? Onde você ouviu isso?
Acho que aqui estamos muito preocupados com a pobreza, a corrupção e as drogas para pensar em bomba.
Nao existe nenhum armamento nuclear em desenvolvimento no país. Tem gente que gostaria, assim como tem gente que gostaria que isso aqui fosse os EUA, a França que houvesse neve, mas não sei de onde ele tirou esta ideia de que o Brasil acha que irá se defender com a bomba.
Parece até que já estamos nos estágios finais do desenvolvimento da bomba brasileira.
Você diz: "Os defensores do artefato brasileiro gostam de falar por códigos. Escondem-se atrás de comportamentos enigmáticos e sofismas.". E eu digo, e daí? Além de ser proibido pela CF, nao acredito que ninguém serio, mesmo os militares queira ter uma bomba no arsenal.
Quem fala isso não sabe da seriedade que é necessária para proteger uma arma assim.
Ainda assim, isso não tem nada a ver com a propulsão do futuro (distante) submarino de propulsao nuclear que não é considerado arma nuclear, caso o articulista nao saiba. Isto porque acho que é a única coisa nuclear a que você pode estar se referindo.
Tem que explicar que submarino de propulsão nuclear não é a mesma coisa que submarino com armas nucleares.
Talvez se você for mais específico no seu ponto eu entenda.
Um abraço
Osvaldo

quarta-feira, 24 de março de 2010 00:47:00 BRT  
Blogger Ligeirinho disse...

Caro P. A.

Eu sempre digo,entre amigos homens, que gostaria de ter um harém com 10 mulheres.Até hoje não tenho e não fiz nada a respeito para conseguir,mas mesmo assim poucos me consideram mentiroso por causa disso (e não minto:quem não gostaria?)

Há que se diferenciar um discurso para uma determinada 'platéia' de um plano de governo. Lula pode dizer que é contra a fome na África sem automaticamente ser obrigado a doar montanhas de grãos para os países africanos. Não?

No caso específico, eu tb entendo o TNP como imperfeito em sua assimetria, mas continuo sendo pacifista e pró-desarmamento. Melhor esse TNP do que nada, óbvio.

quarta-feira, 24 de março de 2010 09:13:00 BRT  

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