segunda-feira, 1 de março de 2010

Chega de sofrimento (02/03)

Se o PSDB deseja tanto assim ser reconhecido pelo PT como igual, o melhor é apoiar Lula, o governo dele e a candidata Dilma Rousseff. O PT “reabilitou” personagens ideologicamente até mais distantes, e não teria dificuldade para dar mais este passo

Registrei em dezembro (“Rumo ao plebiscito”) que a oposição previa mudanças dramáticas nas pesquisas que viriam. Foi captado por estes tímpanos que a terra irá reciclar. Assim, se há alguém sem razão para surpresa com o estreitamento da margem entre José Serra e Dilma Rousseff, é a própria oposição.

Tal previsão, entretanto, não produziu um movimento capaz de colocar no jogo, para valer, o pessoal que deseja tirar o PT do Palácio do Planalto (cuja reforma, aliás, anda de vento em popa). As últimas pesquisas foram ruins? Sim, mas está longe de ser o maior problema de tucanos e democratas. Grave é não terem ideia de como tentar brecar o avanço do governismo e pelo menos zerar o vetor da iniciativa política. Se têm, escondem muito bem.

Por que a oposição não consegue retomar a iniciativa? Será porque o governo de Luiz Inácio Lula da Silva é bom? No passado, o PT conseguia opor-se até a aumento salarial para professor. Quem deseja, de verdade, travar a luta política acaba dando um jeito de encontrar a brecha.

Já tratei de uma dificuldade oposicionista: a falta de unidade. Mas reconheço que há aqui alguma tautologia. Esse tipo de unidade costuma ser catalisado pela expectativa de poder, algo que combina vetores quantitativos e qualitativos. Pesquisas têm lá sua importância, assim como as alianças. Mas o decisivo é projetar uma visão clara de futuro.

Pode até ser genérica, mas precisa encaixar no desejo do eleitor e formar um polo de aglutinação da opinião pública, tomada no sentido amplo. É uma tarefa difícil quando se enfrenta um governo popularíssimo, cuja mensagem é a continuidade. Difícil, mas não impossível.

O melhor exemplo é Marina Silva (PV), a cuja campanha os jornalistas e políticos temos prestado menos atenção do que seria saudável. A autocrítica não é tanto pelos índices dela, já bastante bons, e sim pela maneira cirúrgica e sempre adequada como a senadora do Acre intervém. Ela nunca bate de frente, mas invariavelmente busca um defeito no adversário. E assim, de modo objetivo e focalizado, vai minando o oponente e construindo um caminho. Como fazem os grandes pugilistas.

Claro que falar é fácil. Marina não carrega o estigma do passado nem precisa ficar explicando por que o governo dela não será uma volta aos tempos de Fernando Henrique Cardoso. Pode até dar-se ao luxo de fazer elogios a FHC sem abrir brecha para que colem nela o rótulo de “neoliberal”. E, se um dia crescer mais e virar ameaça, os ataques que certamente sofrerá por reunir eventuais apoios “neoliberais” terão tanto efeito quanto os sofridos por Lula devido aos aliados complicados dele: nenhum.

Marina é a prova definitiva de que na esquerda ou na centro-esquerda a oposição mais eficaz contra Lula deve ser executada na margem, como diriam os economistas. Para governar e perpetuar seu projeto de poder, Lula deslocou-se para um centro político, ali montou acampamento e ergueu muralhas. Mas sem descuidar dos elementos simbólicos que o unem à esquerda. Só que persiste uma tensão latente entre o discurso e a vida, entre as ideias originais e a prática, entre o sonho e a realidade. Há um espaço a ser ocupado, uma cabeça de praia a instalar.

Haveria também outra maneira eficiente de fazer oposição a Lula: pela direita. Para isso, precisaria surgir no Brasil uma força organizada, e combativa, efetivamente liberal. Um “Tea Party” verde-amarelo. Mas as circunstâncias do liberalismo brasileiro são conhecidas. Discursos, editoriais e artigos em jornais e revistas, mas sem renunciar aos empréstimos a juros subsidiados do BNDES, ao dinheiro do Banco do Brasil que não é preciso devolver e à ordenha do Tesouro.

Quanto àquele hipotético e teórico liberalismo, o PSDB está no pior dos mundos: leva a fama mas não consegue tirar vantagem. Pois não é liberal, nem tem vontade de parecer que é. No fundo, o que o PSDB talvez deseje é ser reconhecido pelo PT como um parceiro, como cofundador do sucesso petista, da hegemonia social-democrata. Um desejo irresolvido, e que insatisfeito desemboca em mágoas muito perceptíveis.

Se o PSDB precisa tanto desse reconhecimento, eu ofereço modestamente uma sugestão: passem a apoiar o governo, Lula e a candidata dele, Dilma Rousseff. Nem que só “criticamente”. Se o PT teve a frieza e o pragmatismo necessários para repaginar as relações com José Sarney, Fernando Collor, Delfim Netto e mais um punhado de personagens que combateu mortalmente no passado, não terá dificuldade de, caso seja conveniente, “reabilitar” FHC e o PSDB. Afinal, são primos e têm uma história até certo ponto comum. Se o PSDB sofre tanto com isso, se necessita tanto disso, talvez seja o jeito.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (02) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

12 Comentários:

Anonymous Duarte disse...

O PSDB se não é liberal, precisa pedir desculpas ao Brasil e dizer que errou ao vender a Vale, ao vender os bancos estaduais em vez de incorporá-los à rede do Banco do Brasil e da CEF, e vender os ativos da Telebras em vez de vender apenas concessões para empresas privadas concorrerem com a Telebras.
Aquela diferença entre quem estava comemorando a venda da Vale do lado de dentro da BVRJ e quem estava protestando do lado fora ainda existe. Por isso PT e PSDB são diferentes.

terça-feira, 2 de março de 2010 00:09:00 BRT  
Blogger Arlindo JOCI disse...

Sua campaña para Marina Silva está otima.
O texto é quase um: Serra como voce nao vai ganhar mesmo (jhahaha) apoie a Marina ela vai, pedagogica e "psicoanaliticamente" valorizar os esforços feitos por voces y inclusive poderá colocar voces juntinhos com o seu primo PT.

Com o filme alice e o pais das maravilhas ja vai para os cinemas com o brilhante Jonhy Depp quem sabe o conto é contemporaneo.

Falando serio... se o PSDB realmente quisesse construir o Brasil dividindo o poder teria feito a inflexao y mais apoiado o governo que dificultado a vida... mas nao preferiu a Veja, a folha, o DEM ex-PFL... radicalizando muitas das vezes contra o Brasil.

O PT fez esta aliança desagradavel... mas pelo menos o PMDB y esto inclui sarney e compania tem mais contribuido con as politicas sociais (capitalistas/focalizadas y otros adjetivos) que dificultado ... e o PSDB?

A Marina... ainda nao é claro mas o PSDB nao se tem Duvida! CPMF como principal exemplo para nao ficar so no discurso.

terça-feira, 2 de março de 2010 07:06:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

Calma Alon. Não seja mau desportista nem precipitado. No Brasil só o nada é previsível.
O jogo está no início, a obrigação de ganhar é todinha do Governo bem avaliado.
Aparentemente o scprit está sendo cumprido, só que a história mostra, por vezes, que o "sólido desmancha no ar".
Teremos quase 8 meses pela frente e alguns exemplos a considerar. Alckmin tinha 20% e chegou a 42% em outubro. Sem discurso, sem dinheiro e praticamente sem apoio partidário. E foi assim contra o próprio Lula.
Não fique chateado, não que sua tese seja errada ou não. O eleitorado é que é bem complicadinho, ainda mais depois que aceitou a ausência do quesito ética em suas avaliações. Vale tudo, como ensinava Tim Maia.

terça-feira, 2 de março de 2010 10:12:00 BRT  
Anonymous Charlot disse...

PSDB, pode vir a aceitar a esdrúxula sugestão de anexar-se à campanha de Dilma e admitir que são petistas pródigos que voltam as origens.
Difícil, será convencer a mídia oposicionista que teima em pautar
o discurso,a estratégia e a tática
dos que se opõe a candidata de Lula.
Segundo o fórum organizado pelo Instituto Millenium,que reune a mídia,pensadores e colaboradores,além dos proprietários dos veículos de oposição,sugere essa preocupação.

terça-feira, 2 de março de 2010 10:17:00 BRT  
Blogger Cadu Lessa disse...

Alon,

Perfeito este seu post! Parabéns! A sua análise é a síntese perfeito do nosso momento político, em nível nacional.

E complemento: a verdadeira oposição que se deve fazer a Lula é pela esquerda, pois Lula deixou muitas brechas a serem exploradas neste flanco. O que acontece é que, pelo fato de ser um verdadeiro MITO político, acima do bem e do mal, ele consegue neutralizar esta oposição à esquerda. A Marina poderia catalizar esta oposição, erguer essa bandeira e se tornar uma 3a. via, fugindo o fatídico maniqueísmo político, um verdadeiro Fla-Flu que se transformou a política nacional hoje, entre PT-PSDB.

Sobre oposição à direita, esquece. No Brasil, eles tem medo, vergonha de se assumirem liberais, de direita. A comprovação disso foi a mudança de nome do PFL. Além do mais, quem defende a bandeira "liberal" hoje em dia foi MUITO bem contemplado no governo Lula, não foi?

É isso aí. Parabéns pelo texto.

Abraços e bom dia,
@cadulessa

terça-feira, 2 de março de 2010 11:31:00 BRT  
Anonymous F.Arranhaponte disse...

Acho que a falta de equivalente ao "tea party" no Brasil vai além da causa que você apontou, a hipocrisia dos liberais que mamam nas tetas do governo. Acho que esse tipo de hipocrisia existe em toda parte. Todo liberal mamaria nas tetas do governo, se pudesse. Todo mundo mamaria, se pudesse,no fundo. E isso não impede que, em alguns países, haja uma fatia suficientemente grande de eleitorado de direita liberal para viabilizar políticos de direita liberal. No Brasil, ao que tudo indica, não há. Há algum tempo, a Economist fez uma materiazinha sobre isso. O liberalismo é de fato impopular no Brasil, e acho que isso vai muito além da qualidade das credenciais de quem defende o liberalismo aqui. Então, oposição à direita não existe porque não há respaldo popular. Talvez pudesse ter em temas como segurança e alguma coisa da agenda comportamental. Mas o eleitorado de instinto liberal e que se preocupa com o tamanho do Estado é minúsculo.

terça-feira, 2 de março de 2010 17:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O post abre espaços para várias elocubrações. À guisa de vaticínio: vai que o PT acredita, começa a fazer oposição ao governo Lula e apresenta uma candidatura petista à presidência. Desculpe Alon, mas foi difícil resistir. Ainda mais quando o Duarte fala exatamente o contrário do que fala a candidata governista: a Vale não será estatizada. E nem pediu desculpas aos seus apoiadores.
Swamoro Songhay

terça-feira, 2 de março de 2010 18:30:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Arranhaponte, o César Maia tem um diagnóstico interessante, q diz q no Brasil o povo é conservador nos valores e anti-liberal qto ao papel do Estado e economia de modo geral.

Veja, a agenda do PT é, no campo dos valores, progressista e, em economia, estatizante.

Haveria aí um problema ( falta do elemento conservador) q é suprida pelo perfil do Lula e suas opiniões na linha do senso comum do cidadão de classe média baixa.

O Lula, com seu estilo paizão, bonachão, q diz q dá "uns pegas" na Dona Marisa, q faz metáforas futebolísticas, etc., etc. é q resolve essa equação.

A Dilma teria (obviamente) mais dificuldades p/ preencher essa lacuna. Mas Lula colando nela parece ser suficiente p/ elegê-la.

terça-feira, 2 de março de 2010 22:21:00 BRT  
Anonymous F.Arranhaponte disse...

Bem pensado e bem dito, Frank

terça-feira, 2 de março de 2010 22:45:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Complementando o argumento do Arranhaponte, em termos históricos o que se pode definir como um movimento político de direita, que efetivamente conquistou o poder de Estado no Braisl, era programaticamente antiliberal e ideologicamente filiado ao nazismo. Getúlio Vargas, o grande ídolo dos nossos novos-desenvolvimentistas, ESCOLHEU como ministro da justiça o nazista Francisco Campos, autor da famosa "polaca" de 1937.

O constitucionalismo antiliberal prosperou no período que antecedeu a II Grande Guerra. Um dos seus mais importantes ativistas foi Carl Schmitt, o jurista de Hitler. No Brasil, Francisco Campos é o seu mais graduado discípulo. Este leu com bastante apuro os escritos do intelectual nazista, ao contrário dos atuais epígonos hoje alocados nas hostes ditas de esquerda. Agarram-se sobretudo ao antiliberalismo de Schmitt como tábua de salvação teórica após o naufrágio de 1989.

Não por acaso Campos recebeu de Getúlio a incumbência de redigir a Constituição de 1937, que preparou o Estado Novo. Francisco Campos foi também um dos principais artífices do Ato Institucional nº 1, o ato que decidiu sobre a soberania da “revolução” no estado de exceção, conferindo aos seus agentes poder constituinte.

Dizer que Chico Ciência era nazista não é figura de retórica. É fato. Basta ler o que ele escreveu e examinar o que fez. Não por acaso foi chamado pelos militares para redigir o ato fundador da ditadura.

Cito o AI nº1:

“O que houve e continuará a haver neste momento, não só no espírito e no comportamento das classes armadas, como na opinião pública nacional, é uma autêntica revolução (...). A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constitucional. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como o Poder Constituinte, se legitima por si mesma (...) Ela edita normas jurídicas, sem que nisto esteja limitada pela normatividade anterior à sua vitória”.

Ponha-se na boca de um marxista “socialista democrático” o que está acima. Onde a contradição com as justificativas das ditaduras do proletariado? Onde a contradição com as justificativas das atuais teses “socialistas democráticas’” sobre “a democracia plena exercida diretamente pelas massas”?

Parafraseando Foucault ( As palavras e as coisas), a divisão do mundo político entre direita e esquerda está no pensamento político até o século XX como peixe n'água: o que quer dizer que noutra parte qualquer deixa de respirar. Hoje, seus debates podem agitar algumas ondas e desenhar sulcos na superfície: são tempestades num copo d'água.

quarta-feira, 3 de março de 2010 09:15:00 BRT  
Anonymous João disse...

Alianças são importantes para que a política aconteça. Lula fez um bom trabalho com o apoio de outros partidos, inclusive de Sarney...é assim que funciona.

quarta-feira, 3 de março de 2010 09:37:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O professor Roberto Romano republicou em seu blog uma entrevista da Veja com a professora Maria Sylvia. A entrevista é pertinente ao post em vários momentos dela:

"Ideologia emburrece"

A filósofa diz que Lula age como um
tirano, afirma que Alckmin foi escolhido para perder e denuncia o oportunismo de intelectuais de esquerda

http://silncioerudoasatiraemdenisdiderot.blogspot.com/2010/03/e-que-tal-revisitar-uma-entrevista.html

quarta-feira, 3 de março de 2010 09:45:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home