sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Uma conversa mais "americana" (04/02)

Thomas Shannon procurou apresentar-se como pragmático. Disse perseguir uma “diplomacia de resultados”. Na teoria, faz sentido. Na prática, é preciso saber o que os EUA têm para entregar

O novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, assume o cargo num cenário desafiador. O Brasil cresce em importância estratégica para os interesses americanos na esfera regional, e mesmo global, mas a tendência recente é acumularem-se contenciosos. De Honduras ao Irã, da Rodada Doha ao papel do G20 na reforma do sistema financeiro, a regra nos últimos tempos é a dissonância.

Especialmente porque nas últimas disputas a balança tem pendido para eles, e não para nós. Isso embute um custo político, quando evidencia a assimetria entre o papel que o Brasil julga reservado para si e a falta dos meios para fazer valer nossas posições. Um capital interno muito explorado por Luiz Inácio Lula da Silva é a altivez diante das outras nações, inclusive das potências. Mas, se a altivez não traz resultados práticos, o efeito político aqui pode ser contrário ao desejado.

Com Lula, o Brasil entrou para valer no jogo, e quem está em campo deve estar também preparado para qualquer placar. Não dá para colocar nos Estados Unidos a culpa pelos nossos tropeços. Até porque ou nos enxergamos como jogador pleno ou pedimos para voltar aos juniores, aos tempos em que lançávamos nos outros a responsabilidade pelas nossas derrotas. Não dá para querer ser, ao mesmo tempo, protagonista e coitadinho.

Em entrevista ontem após reunir-se com Lula, Shannon mostrou querer contornar as diferenças e disse apostar nos pontos em comum. Procurou circunscrever ao âmbito comercial a concorrência para a compra dos novos caças da FAB. Ressaltou mais de uma vez que Suécia e França (os outros dois concorrentes) são aliados e amigos dos Estados Unidos. Em relação ao Irã, lembrou que o Brasil, como país soberano, não precisa de autorização alheia para conversar com quem quer que seja.

Sobre Honduras, disse ter esperança que a eleição do novo presidente tenha representado um ponto nodal para a normalização das relações hemisféricas, sem criticar a resistência brasileira à transição institucional ali apoiada por Washington.

Sobre um tema mais delicado, a Venezuela, arriscou-se um pouco além. Sugeriu ao governo de Hugo Chávez que evite reprimir as manifestações da oposição, ao opinar que nas crises políticas os espaços de liberdade podem servir para encontrar as saídas menos traumáticas.

Na sua chegada ao Brasil, Shannon procurou apresentar-se como pragmático. Disse perseguir uma “diplomacia de resultados”, baseada em fatos e não em debates ideológicos. Na teoria, faz sentido. Na prática, já que se trata de medir eficácia, é preciso saber o que os Estados Unidos têm para entregar.

Os americanos vão aceitar, como quer o Brasil, uma influência decisiva do G20 no redesenho das regulações financeiras globais? Vão aliviar a pressão para que os maiores países emergentes definam metas draconianas na emissão dos gases do efeito-estufa? Vão investir na ressurreição da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio? Vão suspender o bloqueio a Cuba? E, finalmente, vão topar abrir de vez o mercado deles ao nosso etanol?

Neste ponto, Shannon foi mais do que cauteloso. O Senado americano vinha bloqueando sua confirmação exatamente pelo temor de que os Estados Unidos reduzissem as barreiras ao biocombustível de cana. Aqui, não parece haver luz no fim do túnel protecionista.

São todos assuntos para o embaixador quebrar a cabeça. Mas em pelo menos um caso as diferenças do Brasil com os Estados Unidos são insolúveis, incontornáveis. Entre os principais dirigentes mundiais, Barack Obama é o único que não precisa de uma foto sorridente ao lado de Lula para obter certificado de “progressista”. Na prática, Lula nada agrega politicamente a Obama. Diferente da situação de George W. Bush, que cultivava sua amizade com o presidente brasileiro como antídoto à imagem complicada que sabia ter em escala planetária.

Também por isso, digamos que as relações e as conversas entre os dois países e os dois presidentes tenham entrado numa fase mais igual, mais objetiva, mais “americana”. Não era isso, aliás, que o Brasil queria?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (05) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFeuerwerker

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

7 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

A maturidade ,após uma adolescência irresponsável em meio a dissipação pródiga,vem a árdua tarefa
da credibilidade social. Como fazê-lo? Cercado de ceticismo,só resta infirmar as críticas e os céticos.Como na natureza animal, a nova pelagem se constitui lentamente e pouco vistosa.Só o tempo.Estável, ameno e sem arroubos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 09:53:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Se existe vaticínio válido, as respostas a todas as questões nucleares do post seria um redondo não.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 12:02:00 BRST  
Blogger pait disse...

Por outro lado, Serra, Dilma, ou Marina, não tem nem de longe o carisma do Lula, e vai adorar aparecer do lado do Obama. A equipe do hemisfério norte leva vantagem a partir de 2011. Para não começar o jogo com gol contra, quem for eleito vai precisar cortar as asinhas dos assanhados do Itamaraty , o que não atrapalha o Brasil em nada.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 12:20:00 BRST  
Anonymous Januário disse...

Bah tchê, ô comentário complicado. Não leva a mal, é na boa, mas tá parecendo que o reino do "nuncadantes" cativou mais um. Lástima.
Faça isso não, rapaz. Reescrever a história não é legal. Ficará menos ruim se optar por reinterpretar os fatos, sem negá-los.
Falando nisso, dá pra explicar por quê Lula e Obina seriam "progressistas"?
Não vale usar o discurso das intenções, mas o exame das praxis. O que fizeram ou fazem para os tornar "progressistas" e os outros, em consequência, "conservadorees".
Aposto que ao final tua nova lista vai mudar muito ou vais ter de reinterpretar muitos conceitos mais.
Abs.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 12:31:00 BRST  
Anonymous Luiz Albuquerque disse...

Caro Alon,
Adoro suas análises e tomei a liberdade de re´produzir este artigo no site do Observatório de Relações Internacionais (www.neccint.ufop.br), mais especificamente no link: http://neccint.wordpress.com/2010/02/07/alon-feuerwerker-uma-conversa-mais-americana-2/
Atenciosamente,
Luiz Albuquerque
Professor de Direito Internacional da UFOP

domingo, 7 de fevereiro de 2010 21:27:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Hoje mesmo pensei sobre esse protagonismo brasileiro em política externa. Primeiro não dá para desconsiderar que isso fazia parte do ideário de uma esquerda que está aí com o PT, e que qualquer país soberano pode demonstrar isso politicamente,(que eu me lembre só na época do Geisel os EUA protestaram contra o acordo soberano Brasil-Alemanha para os reatores nucleares, e ficou claro que o país tinha um bom espaço de soberania, já que o negócio foi para frente). Tem também as questões das coincidências vejamos: o Zelaya derepente esteve onde esteve no momento em que esteve e nós tivemos que nos posicionar, aliás, já estávamos posicionados; alinhados com a OEA, só não poderíamos recuar. O caso do Haiti também é sintomático, ninguém há de negar, que os brasileiros de novo no olho dos furacões,(ou terremotos para ser ,mais preciso) tornaram-se uam espécie de contrapartida para o sensacional voluntarismo yanke naquele país, eles mostraram toda sua potência, e isso foi ótimo para todos nós.
Mas há um fator que não se pode descartar: o carisma de um lider para esses momentos, e Lula está em seu melhor momento, o que faz nossa auto-estima deslanchar junto com o desenvolvimento econômico como nunca antes que eu me lembre ("como nunca antes na história desse país").
Ismar Curi

domingo, 7 de fevereiro de 2010 22:28:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Muito obrigado, Luiz.

domingo, 7 de fevereiro de 2010 22:53:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home