quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Uma bela sociedade (04/02)

O PT protestava nos anos 90 contra a interdição do debate econômico. Hoje quem interdita o debate é o PT, em aliança com os mesmos vendedores de ilusões do primeiro mandato de FHC. Uns lutam para manter as posições de poder. Outros, os lucros

Ciro Gomes e o PSB experimentam as vicissitudes de um projeto político que não se encaixa no do presidente da República. O script é velho e repetido. Vazam do palácio as manifestações de “carinho”, "apreço” e "consideração” de Luiz Inácio Lula da Silva pelo sonhador da vez. Pode haver até "gratidão” e, no limite, um “apoio”, que nunca se materializa. Enquanto isso, é colocada para rodar a máquina de moer outros sonhos que não os de sua excelência.

Resistirão Ciro e o PSB à blitzkrieg do Planalto? Um vetor da operação política palaciana nos últimos meses tem trabalhado para desidratar quaisquer possíveis alianças do eventual candidato socialista. A razão é sabida. O PT temia que Ciro, podendo apresentar-se como alguém do “campo lulista”, acabasse tomando o lugar de Dilma Rousseff na polarização.

Como me disse um deputado do PT-SP no fim do ano passado. "O problema do Ciro é encarnar melhor que Dilma o espírito do confronto com os tucanos. Num ambiente de disputa feroz, ele estaria mais à vontade do que ela."

Mas esses são assuntos de Ciro, do PSB, do PT e das relações mútuas. Que resolvam como acharem melhor.

E o distinto público, teria algo a ganhar com a entrada do deputado e ex-ministro na corrida? Teria sim. E muito. A começar pela desinterdição de certa agenda, a do não financismo. O PT ameaça agitar na campanha a ameaça de que o PSDB vai “mexer na economia”. Dado que os tucanos passarão os próximos meses lutando para escapar da excomunhão do mercado, por que não abrir espaço para alguém disposto a assumir o risco político de dizer que vai alterar o que precisa ser alterado?

O PT protestava nos anos 90 contra o que chamava de interdição do debate econômico. Criticou especialmente a cortina de fumaça erguida em 1998, com a colaboração da imprensa, para mascarar as fragilidades da economia na véspera da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Hoje quem interdita o debate é o PT, em aliança com os mesmos vendedores de ilusões do primeiro mandato de FHC. Uns lutam para manter as posições de poder. Outros, os lucros. Uma bela e rentável sociedade.

Com um agravante: FHC pelo menos tinha o argumento de que precisava da âncora cambial para quebrar a espinha da inflação inercial. Agora, nem isso.

Um sintoma do ambiente é a presença de Henrique Meirelles na lista de possíveis vices de Dilma. O presidente do BC, aliás, está em plena campanha, cuidando de produzir factoides para distrair, enquanto protege os juros altos. O alvo agora são os bônus dos executivos de bancos. Mas não deixa de fazer algum sentido. Em ambos os casos, ao propor conter os bônus e ao colocar lenha na fogueira dos juros, zela em primeiro lugar pelos dividendos dos acionistas das instituições financeiras.

A projeção realista do déficit nas transações com o exterior este ano corresponde a um quarto das nossas reservas internacionais. A conta vai fechar por causa dos investimentos diretos, que o governo espertamente chama de “produtivos”. Como se o dinheiro nas bolsas carregasse automaticamente esse rótulo. Como se não fosse um maravilhoso negócio captar dinheiro lá fora para gerar aqui dentro receitas não operacionais.

Esta semana, a produção industrial de 2009 confirmou-se desastrosa. Talvez no fim de 2010 a indústria volte ao nível de 2008. Mas há por acaso alguém estrategicamente preocupado com a indústria, com as exportações, com a geração acelerada de empregos? No establishment econômico e político, pelo jeito ninguém. Para que se ocupar disso se o dólar barato funciona como anestesia? Se coloca mais comida na mesa do pobre, garante as viagens e os gastos da classe média no exterior e alivia a vida de todo mundo que precisa importar?

Nesse ambiente, ideal para o petismo será enfrentar adversários manietados pela necessidade de defender a administração FHC. O PT poderá desfilar na campanha como o partido da "ruptura com a herança maldita”, enquanto cultiva a continuidade do que ela tem de pior.

Ciro Gomes, assim como Roberto Requião (PMDB), representaria pelo menos a possibilidade de discutir esses temas. Suas dificuldades políticas são um retrato da miséria do debate político e intelectual hoje em dia no Brasil.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (04) no Correio Braziliense.

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13 Comentários:

Blogger pait disse...

"Âncora cambial" e "inflação inercial" eram e são bobagens. Se voltarmos àquela conversa mole, volta a confusão do tempo do Delfim, boi gordo, e Sarney. Depois que real começou a flutuar, temos mais de uma década de comida na mesa do pobre, e crescimento econômico constante. Talvez até seja melhor não termos muito debate, porque tem muita gente inteligente que quando chega no assunto de política cambial começa a se confundir.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010 23:44:00 BRST  
Anonymous André disse...

Pois é. Para a Dilma é muito mais cômodo ter que se defender de uma ficha falsa do Dops do que de um crítica consistente da política econômica. Mas enquanto o Ciro ficar nessa ladainha de criticar o esgarçamento moral da aliança PT-PMDB ele não fará falta no debate.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010 09:16:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O Alon bate e rebate na tecla de que 2009 poderia ter sido melhor. Alon Só se esquece de dizer aos seus leitores que o mercado interno foi muito bem, obrigado. Todo o problema se concentrou nas exportações.
E foi bem por causa das medidas adotadas pelo governo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010 11:56:00 BRST  
OpenID muitopelocontrario disse...

Esqueceu que alem dessa area que só o Ciro e o Requiao batem (mudanças na politica economica como um todo).

O Ciro é o unico que cita sistematicamente a Inovação, e o papel dela no futuro do desenvolvimento economico. Alias o trabalho do PSB no MCT tem que ser ressaltado. Os indicadores estao ai pra todos verem.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010 12:20:00 BRST  
Blogger Andre disse...

Em novembro de 1994, quando um grupo de empresários foi ao Ministério da Fazenda para se queixar da apreciação do real, Ciro Gomes disse o seguinte: "Esqueçam o câmbio. Não falem mais disso".
Bom conselho para Ciro-2010.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010 18:45:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Que um concorrente quer vencer o outro - Ok. Por isso o nome.

Que Ciro e Requião qualificam o debate não resta dúvida.

Agora tem uma coisa que não entendo? PQ o Ciro tem esse discurso e apóia o Tasso Jereissati, que defende FHC, Malan, Armínio Fraga e cia*?
Ciro tbm disse que apóia Aécio que tbm apoiou/apóia essa turma. "Se ele for candidato, não tem pq eu ser." E pelo que entendi, independente da vontado do PSB.

Últimas perguntas:
Com quem Ciro iria compor para "disputar pra valer" a presidência? (Em 1998 foi o PPS do Roberto Freire; em 2002 quem inicou comandando a campanha pelo PTB foi o Martinez...)

E quem seria o ministro da Fazenda e o presidente do BC de um eventual governo Aécio (com apoio do Ciro)?

Do ponto de vista do debate de idéias é melhor, mas na prática...

*Meireles tbm faz parte dessa turma, a diferença é o Mantega e a Dilma.

Abs
Rafael

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010 23:30:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Ou eu errei a mão no comentário e foi bloqueado, ou errei ao enviar. Envio de novo só o essencial:

Não vejo Requião e Ciro enriquecerem o debate, porque eles não explicam o que fariam de concreto para baixar os juros.
Enquanto os bancos privados tiveram o controle da maioria do dinheiro de aplicadores na dívida, qualquer presidente do Banco Central não terá cacife para enfrentar o "mercado" com sucesso.
Os dois presidenciáveis precisam explicar o que vão estatizar no setor financeiro, para tirar esse poder de barganha dos bancos privados. Sem isso, para mim, não passa de discurso populista.
Dilma, poderia até ser acusada de gradualismo em excesso, mas está com uma proposta bem mais consistente, e já em curso, ao expandir os bancos estatais (inclusive com aquisições de outros bancos).

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 00:30:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Estou em uma guerra. Meus adversários são poderosíssimos (Globo, Estadão, Fôlha, Veja, etc. etc.). Depois de lêr seu artigo "Campeões de Casuísmos", sinceramente, não consigo te entender.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 00:43:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 00:57:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon arrasou nesse post dele! Ciro fará muita falta na campanha e esta será a mais chata da história política nacional.Todos veremos uma coisa ridícula:"eleição plebiscitária",com Lula fazendo campanha deslavada(já começou) para garantir que voltará em 2014. Dilma serve a esse projeto de poder de Lula-2014.Ciro tem ideias próprias.Isso incomoda Lula,que tem receio que Ciro,em se tornando Presidente,consiga a reeleição em 2014.E,para os que perguntam,Ciro não ataca Tasso simplesmente por amizade mesmo, e não por concordar com ele.Quem conhece a política cearense já viu exemplos disso e verá em 2010, quando Cid Gomes (irmão do Ciro) se reelegerá governador apoiando veladamente (ou não) Tasso para o Senado.Quem viver, verá.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 03:10:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Dizer como ou o que fazer para baixar os juros básicos, equivaleria a dizer como seria estruturada a DP e seu financiamento. A SELIC é a única taxa que, em tese, o eleito teria ou imaginaria ter remota influência mais direta. Nos juros de mercado não têm influência alguma. A taxa básica está muito mais ligada à necessidade de rolagem da DP do que da estabilização da moeda e manobrada para inibir repiques inflacionários. Mesmo que algum pretendente tivesse a mais tênue ideia sobre isto, jamais a tornaria publica. Neste ponto o debate continuará interditado, talvez até mesmo após as eleições. Seja com sistema financeiro estatizado ou privado ou misto. E a taxa básica continuará com viés de alta.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 11:54:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 19:22:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Às vezes, eu tenho tido problemas ao enviar meu comentário. Lembro que parei de enviar no meu nome pela minha conta no ig porque sem razão clara, às vezes o email não era publicado. Em um momento passei a enviar como anônimo e ficou mais fácil, com menos cortes. Aqui no seu blog eu evito fazer referências de comentários meus enviados para outros blogs, se bem que às vezes não resisto, por que me pareceu que esse poderia ser um motivo para a retirada de um ou outro comentário que eu escrevi. Continuo às vezes fazendo a referência mais sei que há razão para você proceder assim, pois seria como ter que administrar o seu e outros blogs.
Agora, eu não encontrei explicação para a remoção dos dois comentários que eu escrevi para este seu post “Uma bela sociedade” de 04/02/2010, um enviado sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 às 00h57min00s BRST e o outro enviado sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 às 19h22min00s BRST.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 09/02/2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 13:18:00 BRST  

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