quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Otimismo nacional, angústia estadual (03/02)

O PT vai dividir Lula e Dilma com o PMDB e demais partidos da base, o PT não tem capilaridade compatível com o projeto de poder nacional e enfrenta fortes máquinas tucanas nos maiores estados

Ontem em Brasília, na reabertura do Legislativo, era de notar algum descompasso entre duas percepções no PT. Otimismo nacional e angústia nos estados. Otimismo explicável, dado o crescimento de Dilma Rousseff nas pesquisas. Angústia também, pelo vácuo de candidaturas competitivas próprias para governador.

Com a eleição de deputado federal e senador circunscrita a cada estado, uma cabeça regional fraca pode enfraquecer o corpo, afetando negativamente o resultado final na Câmara e no Senado.

Os petistas da planície querem muito eleger Dilma, mas desejam também — e muito — preservar os próprios mandatos. Resta pouca dúvida de que Luiz Inácio Lula da Silva conseguirá alavancar sua candidata para posição fortemente competitiva. Mas não existe a mesma certeza se a onda vai levar de arrasto a massa do partido.

Ao longo destas três décadas, o PT desenvolveu uma tecnologia bem própria para crescer a cada eleição. Postulações a cargos majoritários, mesmo sem chances iniciais de vitória, serviam para martelar o 13 na cabeça do eleitor. Daí que durante algum tempo a sigla tenha colhido votos de legenda em volume relativamente maior do que os concorrentes. E havia o monopólio de Lula.

Era o tempo do partido “diferente de tudo que está aí”. O PT beneficiava-se ainda do cidadão 100% alinhado, que entrava na cabine para votar nele de ponta a ponta, independentemente dos nomes.

Mas não existe mesmo almoço grátis, e com o poder veio a necessidade de adaptar-se a um novo ecossistema. A fúria militante diluiu-se no pragmatismo e as necessárias alianças acabaram impedindo o partido de abocanhar espaço político suficiente para compensar essa diluição. Até porque os novos aliados possuem mais expertise nas modalidades de operação político-eleitoral a partir da máquina.

Com a lista aberta e o voto uninominal, o candidato a deputado federal precisa de boas dobradas com candidatos a deputado estadual, precisa de prefeitos. Uma maneira de conseguir é adotando a política do “trem-pagador”, bancar as campanhas dos parceiros. Alternativa cada vez mais arriscada, pelos limites progressivamente restritivos da lei eleitoral e pela crescente eficácia da Justiça.

Outro jeito, mais institucional, é tecer uma rede de apoios a partir da execução orçamentária. O PT tem o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), mas ele é repartido com os aliados, especialmente com o PMDB. E a oposição também dispõe de orçamento nos estados, pois governa os maiores. É um jogo relativamente equilibrado.

Daí a necessidade de bons puxadores de voto, tanto dentro das chapas legislativas quanto nas disputas de governador e senador. Aqui levam vantagem os candidatos proporcionais do partido que encabeça a coligação, já que esta adota o número da legenda líder.

Nos estados em que o PT vai apoiar, por exemplo, o PMDB (15) para governador, não haverá como impedir que o eleitor tenda a repetir o 15 se desejar votar não em candidato mas em sigla para Assembleia Legislativa ou Câmara dos Deputados. É um fenômeno quase natural.

O PT vai dividir Lula e Dilma com o PMDB e demais partidos da base, o PT não tem capilaridade compatível com o projeto de poder nacional e ainda por cima enfrenta fortes máquinas tucanas nos maiores estados. Não é uma situação confortável.

Qual é a vantagem competitiva do petismo? Todas as pesquisas mostram o partido liderando na preferência popular. Os índices vão de 15% a 30%. Nenhum concorrente chega a dois dígitos. Eis por que o PT é ardoroso defensor da lista fechada, sistema em que o eleitor só vota na sigla, elegendo-se os primeiros nomes de uma relação elaborada pela direção partidária, até preencher as cadeiras conquistadas.

Seria sopa no mel para o partido de Lula. Hoje, entretanto, essa preferência teórica acaba muitas vezes neutralizada pelas circunstâncias políticas locais. É isso que teme o PT nos estados em outubro.

Menos Woodstock

Barack Obama opera um giro habitual em administrações de esquerda que irão dar certo, politicamente falando: marcha rumo ao centro. Foi assim com François Mitterand nos anos 1980 na França, entre outros.

Algo como produzir menos Woodstock e mais empregos, se é que se pode sintetizar assim.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (03) No Correio Braziliense.

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1 Comentários:

Anonymous Duarte disse...

O PT vai às urnas em 2010 bem mais confortável do que foi em 2006, quando precisou exorcisar o "mensalão".
Deve crescer a bancada em relação em 2006. Mas o fenômeno deve se repetir: o eleitor que votou em Lula fez uma miscelânea no voto legislativo, e isso deve se repetir com Dilma.

Discordo que o eleitor que vota na legenda, tenda a repetir o voto do governador. Porque não repetir o voto no presidente, se assim fosse?

Para o bem da oposição, a ordem de votação na urna eletrônica é inversa à hierarquia dos cargos, por isso não induz repetir o voto do cabeça de chapa. A ordem de votação é:
- deputado estadual;
- deputado federal;
- senador primeira vaga;
- senador segunda vaga;
- governador de estado;
- presidente da República.

Da realidade que conheço, quem vota na legenda quase sempre é o voto mais ideológico e faz a escolha bem consciente.

Votos menos conscientes, daqueles que não se lembram em quem votou para deputado na eleição passada, a maioria dos eleitores levam santinhos preenchidos distribuídos por cabos eleitorais, ou votam em algum candidato de um amigo ou parentes que pede nosso voto.

Concordo apenas que a falta de um cabeça de chapa a governador de qualquer partido, é uma liderança forte a menos para pedir votos para a bancada.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010 23:58:00 BRST  

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