domingo, 21 de fevereiro de 2010

Os fatos e as versões (21/02)

É obrigação do jornalismo divulgar as versões. Mas é também obrigatório cuidar dos fatos e tentar enxergar o encadeamento entre os movimentos da comunicação oficial —e confrontá-los com a realidade

Levou um tempinho na última quinta-feira para o Planalto e o Buriti convergirem numa única versão do que houve na conversa entre o presidente da República e o governador interino do Distrito Federal. Ao final, divulgou-se unanimemente que Luiz Inácio Lula da Silva não chegou a pedir ao interlocutor para permanecer no cargo e aguardar a decisão da Justiça.

É obrigação do jornalismo divulgar as versões. Mas é também obrigatório cuidar dos fatos e tentar enxergar o encadeamento entre os movimentos da comunicação oficial —e confrontá-los com a realidade. Para poder interpretá-los.

Do que Lula e o governador interino verdadeiramente conversaram no Centro Cultural Banco do Brasil, só eles e os outros presentes sabem. Eis um fato. Daí que só os envolvidos possam emitir versões oficiais sobre a conversa.

Outro fato é que depois do encontro, em meio ao estica-e-puxa de versões, contraversões, pressões e contrapressões, o governador sentiu-se suficientemente forte para, ao contrário do que lhe propunham muitos (e muito próximos), não renunciar.

Pano rápido e a cena volta para alguns meses atrás. O presidente do Senado é José Sarney (PMDB-AP), eleito com apoio do partido dele e do Democratas, derrotando Tião Viana (PT-AC), apoiado pelo PSDB. Fustigado por todo tipo de acusação e evidência, Sarney recebe uma estocada que parece fatal: o DEM sai do barco e junta-se a petistas e tucanos na oposição.

Quem salvou Sarney? Lula, que estendeu o escudo protetor e garantiu a permanência do veterano político no comando da Casa, mesmo ao custo de avalizar os desmandos senatoriais. Lula calculou e concluiu que a relação entre o preço e o benefício era boa, pois Sarney e o PMDB ficariam devedores e a maioria do governo no Senado se consolidaria. Foi o que aconteceu. Sendo que agora o presidente repassa a posição credora à candidata Dilma Rousseff, sem ônus.

O roteiro volta ao DF deste começo de 2010. O PT está diante da mais bela possibilidade de voltar ao comando do “quadradinho” desde que perdeu a eleição de 1998 com o então governador Cristovam Buarque, hoje senador pelo PDT. Qual é a principal ameaça ao projeto de poder local do PT? A possibilidade de a antiga base de Joaquim Roriz convergir em peso para uma possível candidatura do ex-governador, hoje no PSC.

A neutralização definitiva do polo político comandado pelos atuais governantes do DF aceleraria essa convergência, e portanto não interessa ao PT. Aliás, se a situação for bem administrada até outubro não é improvável que uma parte das forças tradicionalmente antipetistas e hoje mergulhadas na desgraça política aceitem trabalhar, ainda que subterraneamente, para ajudar a derrotar Roriz.

Com a vantagem de dividir o potencial “palanque” local do candidato do PSDB à Presidência. Tudo pelo projeto nacional.

O que não podia, desta vez, era Lula ficar misturado na confusão, pelo grau de letalidade política dos fatos. Sempre os fatos. Mas esse detalhe foi bem resolvido ao longo daquela conturbada quinta-feira.

Quem pode atrapalhar agora a dança? Só o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal. Ou o descontrole na Câmara Legislativa.

A família

O presidente da República e os líderes do petismo dizem que uma coisa é o programa do partido e outra é o programa de governo.

Traduzindo, o PT no governo gostaria de aplicar seu programa, mas não irá fazê-lo porque não tem força para tal. Mas como no poder o PT certamente trabalhará para ganhar força, é razoável concluir que se o PT ganhar a eleição estará historicamente mais próximo de conseguir executar o que realmente deseja.

O que quer o PT, além de continuar no poder? Isso também tem mudado de acordo com as circunstâncias. As ideias originais perdem força quanto mais a hegemonia se aproxima.

De todas as transformações programáticas e ideológicas vividas pelo partido ao longo destes 30 anos, faltam as duas mais dolorosas: o reconhecimento da superioridade da democracia representativa sobre as demais e a essencialidade do capital privado para a geração de progresso, bem-estar e liberdade.

Elas virão. Aos trancos e barrancos, com idas e vindas, é para aí que caminha o PT. Só não contaram ainda para a família. O que de vez em quando cria alguns problemas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo no Correio Braziliense

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Muito bom este post. Eu poderia ter as idéias, mas apresentá-las assim, com as imbricações todas, mesmo sem a clareza como você as apresentou, eu não conseguiria.
Agora quanto a dizer que faltam ao PT as duas mais dolorosas transformações programáticas e ideológicas:
"o reconhecimento da superioridade da democracia representativa sobre as demais e a essencialidade do capital privado para a geração de progresso, bem-estar e liberdade"
Eu penso que seria necessário um trabalho de pesquisa aprofundado sobre o que acontece no interior do PT para estar seguro dessa afirmação.
Você é jornalista e deve ter chegado a essa avaliação após análise aprofundada. A análise superficial que eu faço não me permite essa conclusão. Para mim o PT sabe da superioridade da democracia representativa sobre a democracia direta. Penso apenas que o PT, nesse caso até por ter insistido na fórmula, não abre mão da democracia direta, pois acredita, e eu também acredito, que todos os modelos que ensejam a democracia participativa devem ser exercitados e aperfeiçoados para o próprio bem da democracia representativa. E penso também que a crença na essencialidade do capital privado é aceito pelo PT.
Não creio, entretanto, que o PT, e ainda não vi jornalista que professe a mesma fé, acredita que a democracia representativa é essencialmente fisiológica. Os representantes não podem renunciar do interesse que representam, ou seja, não podem agir com ética nem sabem em cada caso concreto qual é o interesse maior da nação (salvo quando ele já foi previamente e numericamente definido como no caso em que se sabe que é interesse maior da nação gastar 30% dos gastos públicos com educação).
Alem disso, penso que quando o mundo não puder mais crescer e tendo em vista a natural tendência de aumento dos gastos públicos como proporção do PIB e o necessário crescimento da arrecadação tributária, vai ficar muito difícil arranjar um lugar de essencialidade para o capital privado. Pode até ser que seja privado na medida em que não seria estatal, mas dificilmente poderia deixar de ser público (capital de todos – fundos de pensão, e assemelhados)
Clever Mendes de Oliveira
BH, 20/02/2010

sábado, 20 de fevereiro de 2010 23:56:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Quanto à diferença de programa do partido e de governo, ela existe de fato pelos motivos:

1) Um programa de partido pode ter objetivos de longo prazo, enquanto um programa de governo deve ter a visão realista da conjuntura dos próximos 4 anos (ou 8, se considerar a possibilidade de reeleição). Ignorar essa realidade levará a prometer o que não poderá cumprir.

2) Uma candidatura de uma coalizão de partidos, precisa ter um programa de governo reduzido à instersecção dos programas dos partidos da coalização, retirando os temas onde os partidos divergem.

3) Em programas partidários há temas que são da alçada legislativa. O poder executivo não poderá agir contrariamente a leis, enquanto não forem modificadas pelo Congresso. Em nossa democracia, sob a legitimidade da constituição, o eleitor pode tranquilamente votar em um governante que acredite ser melhor executivo na conjuntura do momento, mesmo ignorando questões ideológicas que dependem de mudanças em lei. Só não pode votar em parlamentares contrários à sua ideologia, se não quiser ver mudanças que não concorda nas leis. De certa forma foi isso que aconteceu em 2002 e 2006. Parte da classe média perdeu o medo de votar em um executivo progressista, garantindo a manutenção do status quo vigente com o voto em um parlamento conservador.

domingo, 21 de fevereiro de 2010 03:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bem Alon, se o PT reconhecer a essencialidade do capital e a democracia representativa como você cita, então ele deixa de ser PT assim como parece que você deixa de ser de esquerda. O que sobra para a esquerda?

domingo, 21 de fevereiro de 2010 10:58:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"De todas as transformações programáticas e ideológicas vividas pelo partido ao longo destes 30 anos, faltam as duas mais dolorosas: o reconhecimento da superioridade da democracia representativa sobre as demais e a essencialidade do capital privado para a geração de progresso, bem-estar e liberdade.

Elas virão. Aos trancos e barrancos, com idas e vindas, é para aí que caminha o PT."

Tudo indica que caminha sim. Mas como sou cético, eu ainda vou esperar um pouco mais para afirmar que essas linhas de força que agem no sentido da social-democracia estão consolidadas no PT.

Embora exista no PT uma minoria historicamente ligada à matriz social-democrata, resta ainda influente uma maioria cuja matriz é a militância no doutrinarismo marxista-leninista, ou seja, tem origem no âmbito da III Internacional.

Para uma grande maioria do PT o alvo estratégico ainda é o seu (dele PT) difuso socialismo de inspiração revolucionária e soviética (“a democracia plena exercida diretamente pelas massas”).

Li a entrevista do André Singer na revista Época. Pelo que me lembro, na época da Ventania (era esse mesmo o nome da sua tendência política no movimento estudantil?) seu posicionamento político social-democrata era bem menos tímido. Agora ele surgiu com o conceito de lulismo, talvez em contraponto à crítica de que o lulismo é um misto de peronismo e varguismo com alguns salpicos de bolivarianismo.

Essa turma gosta de inventar palavras novas para antigos conceitos. Por que não reafirmar claramente as antigas convicções social-democratas? Por que esse pisar em ovos do Singer ao se declarar favorável a que o PT se afirme como um partido social-democrata?

ÉPOCA – Como o senhor define o lulismo?
André Singer – O lulismo é a execução de um projeto político de redistribuição de renda focado no setor mais pobre da população, mas sem ameaça de ruptura da ordem, sem confrontação política, sem radicalização, sem os componentes clássicos das propostas de mudanças mais à esquerda. Foi o que o governo Lula fez. A manutenção de uma conduta de política macroeconômica mais conservadora, com juros elevados, austeridade fiscal e câmbio flutuante, FOI O PREÇO A PAGAR a pagar pela MANUTENÇÃO DA ORDEM (vale dizer, do capitalismo e da sua economia de mercado. Os grifos são meus). Diante desse projeto, a camada de baixa renda, cerca de metade do eleitorado, começou a se realinhar em direção ao presidente.

Mas na pergunta seguinte ele revela a sua matriz social-democrata:

ÉPOCA – Quando isso aconteceu?
Singer – Em 2006. Houve um realinhamento eleitoral, um deslocamento grande de eleitores que ocorre a cada tantas décadas. A matriz desse tipo de estudo é americana. Lá, eles acham que aconteceu um realinhamento eleitoral em 1932, quando (Franklin) Roosevelt ganhou a eleição presidencial. Ele puxou uma base social de trabalhadores para o Partido Democrata que não havia antes. Aqui, em 2006 a camada de baixíssima renda da população, que sempre tinha votado contra o Lula, votou a favor dele. A diferença entre 2002 e 2006 foi que Lula perdeu base na classe média, seu eleitorado tradicional, e ganhou base entre os eleitores de baixa renda.

Eu acrescentaria, Alon, que o parto mais difícil e, portanto o mais doloroso para o petismo, é aceitação de fato e de direito de que a alternância de partidos no poder é fundamental na democracia.

domingo, 21 de fevereiro de 2010 12:25:00 BRT  
Anonymous Eustáquio Dantas disse...

Poxa, quer dizer então que aquela história do Partido conquistar o poder para implantar seu Programa Partidário era pura abobrinha?!
Que coisa mais feia!
O lance é chegar no poder para exercer o poder. E aí ajeitar a vida de uns & outros. Programa pode ser até o do adversário e vale o mesmo que o Partido: pn (p... nenhuma).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010 17:12:00 BRT  

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