quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O PT chega bem aos 30 (18/02)

O socialismo restará como objeto de desejo, cultuado ritualmente e deixado para um futuro intangível. Na vida real, o PT migra para o nacional-desenvolvimentismo

De qualquer ângulo que se olhe, a trajetória do PT nestes 30 anos é um sucesso. O partido está no ápice do seu poder. Mais significativo é que deixou na poeira seus concorrentes na esquerda, reduziu-os à irrelevância ou, quando não, tomou-lhes o protagonismo e impôs uma hegemonia política e ideológica. Se toda sociedade tem uma fatia “de esquerda”, no Brasil o espaço está ocupado pelo PT e ninguém se atreve a desafiá-lo.

Como o PT alcançou tal status após três décadas? Por uma razão essencial: firmou na percepção e no pensamento coletivos a marca de que veio ao mundo para defender os pobres, os assalariados, os historicamente marginalizados. O PT foi alterando ao longo da vida suas posições teóricas, ao ponto de não sobrar quase nada do estoque original de teses da fundação, mas não descuidou de estar ali, colado, quando a base social exigiu.

Um exemplo? O PSDB vive a reclamar de que o PT tomou algumas belas ideias dos tucanos e agora as exibe como genuinamente petistas. Um caso típico é o Bolsa Família. É verdade que o governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) tinha boas ações sociais, só que Luiz Inácio Lula da Silva as ampliou bastante, e aqui quantidade é qualidade. Mas o pior, para o PSDB, é que enquanto Lula colocava mais dinheiro no programa criado por FHC os tucanos davam curso à estupidez do “bolsa-esmola” e centravam as críticas na “ausência de portas de saída”. Coisa de gênio.

Como resultado da abordagem, hoje o PSDB precisa gastar preciosos tempo e energia para negar que vá acabar com o Bolsa Família, ou restringi-lo. Já o PT, confortável na sua imagem solidamente construída de distribuidor de renda, dá-se ao luxo de dizer que a prioridade no próximo período será reduzir a importância dos programas sociais à medida que forem crescendo as oportunidades de trabalho. É lógico, mas o PSDB teria mais dificuldade para dizê-lo, considerada a duvidosa reputação que construiu para si nos últimos sete anos.

Daí que no seu 30o. aniversário o PT esteja a operar talvez a mais radical guinada estratégica, desde 1980, sem que isso implique risco real de perda de substância. Na prática, o PT irá trocar definitivamente o socialismo pelo capitalismo de estado, com todas as consequências. Na economia e na política. O socialismo restará como objeto de desejo, cultuado ritualmente e relegado a um futuro intangível. Na vida real, o PT migra para o nacional-desenvolvimentismo como etapa política bem demarcada -e sem data para acabar.

Mais por precisão do que por boniteza, diria Guimarães Rosa. Para manter-se no poder, agora e mais adiante, o PT sabe que precisa acenar com a ruptura de um modelo de baixos crescimento e investimento. Até porque nos próximos quatro anos não haverá Lula no Planalto a hipnotizar a galera com discursos diários e a fantástica habilidade de combinar, no mesmo recado, vitimização e liderança. Nem é possível expandir indefinidamente o custeio da máquina pública.

Agora, com Dilma Rousseff (o PT nem pensa em perder a eleição), a sigla de Lula vai precisar mais que nunca da voracidade do grande capital “amigo”-inclusive agrário- em sua busca de reprodução e acumulação. E oferecerá a ele a proteção e a sociedade estatais.

É uma operação política que não se dá sem tensões, sem algum choro e ranger de dentes. Quem ainda se lembra de algo chamado “orçamento participativo”? Também por isso, é preciso oferecer compensações para o conforto espiritual. E elas vêm na forma, por exemplo, de um Programa Nacional de Direitos Humanos. Que cumpre dupla função: exibe a renovação retórica do compromisso com certas transformações e, convenientemente, desloca-as para uma esfera quase “comportamental”, bem longe da polarização crua entre o capital e o trabalho. E serve também de instrumento de pressão. “Só nós podemos evitar o radicalismo. Então nos apoiem.”

Maria Antonieta

O Brasil propõe que o álcool de cana seja um combustível global, mas o governo Lula não consegue se organizar nem para atender o mercado interno.

Lá atrás, a escassez de demanda de etanol e o excesso de estoques levaram os empresários a migrar para o açúcar, de preços mais atrativos. Aí começou a faltar álcool e o preço subiu. Aí a turma começou a colocar mais gasolina e menos etanol no tanque. E agora o Brasil pode ter que importar gasolina.

Talvez nos falte uma Maria Antonieta. “Não tem álcool? Ora, por que não abastecem o tanque do carro com açúcar?”

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11 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Muito boa a definição de que a quantidade pode funcionar como uma qualidade. Em filosofia se diz que intensidade é uma qualidade da quantidade, e cá pra nós, o que importa sobre qualquer coisa que façamos é quão intensa ela seja, daí a pouca importância da jus sperniandis psdbista. E pra finalizartem mais, a tal da Bolsa, seja do PSDB, seja do PT, é apenas uma forma legal de regulamentar um artigo da Constituição de 1988 de autoria do Senador Suplicy, qual seja: O imposto negativo, que nas palavras do próprio senador essa bolsa só faz tangenciar o que poderia ser realizado. De qualquer modo fica a concordância sobre a cola do PT com sua base social.
Ismar Curi

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010 23:22:00 BRST  
Blogger pait disse...

Brilhante análise!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 00:30:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Na vida real, o PT migra para o nacional-desenvolvimentismo".

E com todo jeito de ser um "novo-desenvolvimentismo" de face isebiana-keynesiana. Não duvido nada se em breve assistirmos, por exemplo, Bresser Pereira filiar-se ao PT.

Outro dia eu estava relembrando as polêmicas do Bernstein com o Kautsky e com a turma do "leninismo" (o próprio, Rosa e Plekhanov) no início da II Internacional.

Bernstein: a história caminha no sentido de uma evolução que gradualmente realiza os objetivos do socialismo. Portanto, o que importa para os socialistas é aprofundar a democracia representativa (fortalecer o Partido pela via eleitoral) e, desse modo, acelerar as reformas sociais.

Embora condenado, o que se assistiu na prática nos anos subsequentes à revolução bolchevique de 1917 foi a vitória das teses revisionistas de Bernstein, as quais se constituem até os dias de hoje como o fundamento do "socialismo democrático".

Lendo o post, concordo que o PT hoje está bem mais próximo do revisionismo de Bernstein do que do leninismo, que em todos os tempos caiu de pau nesses renegados da II Internacional.

O que resta de "leninsmo" no PT e fora dele (deixando de lado os pitorescos trotskistas e stalinistas) é figuração na briga de foice e martelo dos grupos pelas $lucrativas$ posições de mando nas burocracias partidária e sindical, bem como a consequente expropriação dos "fundos públicos" (vale dizer, os impostos pagos pelos cidadão contribuintes que desse modo sustentam a farra) na etapa histórica da "economia de mercado socialmente regulada" (expressão cunhada pela social-democracia alemã e hoje largamente utilizada pela esquerda ara justificar a intervenção governamental na economia, que também chamam de regulação keynesiana).

Um primor de síntese, formulada pelo Hélio Jaguaribe. Os petistas falam do santo mas não citam o nome :-).

“A formação do excedente econômico é confiada á empresa privada, com maior ou menor co-participação de empresas públicas e com maior ou menor intento programador, por parte do estado. Ao empresário privado, a quem se assegura a liberdade e as condições de produção da riqueza, não se lhe confere, todavia, o direito de livremente dispor o excedente que gera. O Estado social-democrata [observo: o autor marca a social-democracia como a fase histórica de superação do Estado burguês, isto é, liberal], predominantemente por via por via tributária mas, também, por outros meios, dispõe de sorte a que, preservadas as convenientes reservas para a reprodução, modernização e expansão do processo produtivo e razoável margem de lucro, para estimular a gestão empresarial e a inversão de capitais, o restante do excedente seja encaminhado, direta ou indiretamente, para dar atendimento a um GRANDE PROGRAMA SOCIAL [grifo meu]. Esse programa visa a assegurar uma equitativa igualdade de oportunidades, entre todos os cidadãos, uma eficaz proteção aos setores menos amparados e um conjunto de medidas que reduzam as desigualdades sociais a níveis socialmente toleráveis”

A versão da passagem citada foi publicada em 1991. Pode até ser mais antigo. “A Social Democracia e as condições da América Latina e do Braisl”. Hélio Jaguaribe. Íntegra aqui:

http://www.cervantesvirtual.com/servlet/SirveObras/08146282288281351910046/207874_0052.pdf

Palavras do pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém.
Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.
Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?
Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. [..]
O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.
Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.
Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois. (Eclesiastes)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 10:01:00 BRST  
Blogger Felipe Belotto Santos disse...

Em SC, a experiências de OP estão crescendo junto com o número de administrações petistas. é um fenômeno para ser olhado com melhores olhos. Nem todo o PT nacional tem a cara e o pragmatismo do PT paulista.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 10:21:00 BRST  
Anonymous Tiago Aguiar disse...

Foram textos como este que me fazem ter o seu blog como leitura freqüente.

Em meu sentir, a questão entra em mais dois aspectos, no particular da linha editorial de parte da mídia, e de se subestimar as instituições.

Percebo no primeiro aspecto citado, que a falta de criatividade e atitudes construtivas por parte de muitos congressistas, que em muitas estações embarcaram em escândalos não confirmados, e acabaram por "blindar" a opinião pública sobre alguns fatos e querelas.

Por fim, o PSDB governou com a certeza de que continuaria a governar para sempre (mas para sempre, sempre acaba), utilizando a sua máquina para aumentar os poderes do Executivo, enquanto Lula soube se aproveitar tão bem ou melhor destes mecanismos que o próprio PSDB criou, e que este último não esteve pronto para combater na oposição.

Lula não precisou ter o desgaste que FHC teve para ser reeleito, por exemplo, e talvez por ser menos preparado intelectualmente, esteve preocupado em ser bem aconselhado.

No fim das contas, os fatos espelham que a tarefa não concretizada por FHC, parece acabada por Lula - a estabilização econômica.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 12:53:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

O socialismo deverá ser implantado pela cultura das pessoas e não pelos governos, senão a experiência mostra que redunda em ditadura. Por isso o PT está sendo o partido mais contemporâneo, que melhor compreende a sociedade do início desse século XXI.
No século XX as famílias se tornaram socialistas em seu seio por vontade própria, sem qualquer imposição (todos os filhos são criados iguais e recebem a mesma herança, acabando com privilégios de primogênitos e com discriminação contra mulheres). Observe que o socialismo familiar não implica em uniformização, respeitando as características individuais de cada membro da família.
No século XXI o que é bom para as famílias deve ser estendido à sociedade.
O neoliberalismo do final do século XX retardou o processo, quando as famílias procuraram se isolar em suas propriedades privadas como se aglutinassem em tribos, abandonando o espaço público e conquistas civilizatórias como a escola e a saúde pública universalizada. Mas as preocupações ecológicas, a necessidade de pensar as cidades e países como um todo, senão a enchente e a violência chega à porta também dos condomínios "tribais", obrigará as pessoas a repactuarem melhor suas preocupações com o espaço público e com a harmonia social coletiva, reduzindo os contrastes sociais extremos, para reduzir conflitos.
Na sociedade da informação do século XXI não existe mais lugar para a manutenção de bolsões de pobreza sossegada, silenciosa e apartada do restante da sociedade, como era no século XX.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 13:30:00 BRST  
Anonymous Chesterton disse...

" oferecerá a ele a proteção e a sociedade estatais."

chest- mas isso é nada mais nada menos que chantagem!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 18:23:00 BRST  
Anonymous marcelo augusto disse...

Olá!

Quanto ao PT e seus 30 anos de existência... É um partido que chega aos 30 anos mais enfraquecido. Teve que expurgar antigos companheiros quando estes não mais eram necessários enquanto idiotas úteis do petismo e acabaram politicamente aniquilados pelo próprio PT pelo simples fato de terem discordado e mostrado sinais de que poderiam causar ao PT os mesmíssimos "sofrimentos" que o PT tanto causou aos seus adversários (o PSDB que o diga!). Vai para as próximas eleições representado por uma candidata sem nenhuma história no partido e que fez alguns dos membros históricos engolir brasa e/ou irem para o exílio.

Talvez, essa falta de alguém historicamente ligado ao PT para representá-lo nas próximas eleições tenha alguma relação com o que o Gilberto de Carvalho disse sobre o vício da corrupção que o partido "adquiriu": Tendo as principais figuras do alto escalão do partido sido consumidas pela corrupção, não restou outra saída para o Lula e chegados a não ser inventar um sucessor e disso tudo saiu Dilma Roussef. Triste.

Até!

Marcelo

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 18:44:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Em um futuro, que reconheço ainda está muito distante (Uns 50 anos à frente) o mundo estára voltando-se para o ensinamento do judeu e romeno Nicholas Georgescu-Roegen. Em um futuro assim, o desenvolvimentismo deverá estar sepulto e o PT terá um bom nicho para recuperar as teses antigas do partido. Provavelmente com ajuda dos Verdes, se a Marina Silva tiver realizado o bom serviço de eugenização do partido (Perdoe-me a brincadeira da eugenização que acabou ficando de mal gosto aqui no seu blog, mas é como eu vejo o papel da Marina Silva).
Clever Mendes de Oliveira
BH, 18/02/2010

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 21:13:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, a história do PT é realmente notável, mas é importante precisar mais um ponto: o PT não apareceu “para defender os pobres, os assalariados, os historicamente marginalizados”, isso todos sempre fizeram ou disseram fazer, mesmo os militares, este é ironicamente um país “de esquerda”. O PT apareceu como uma tentativa de organização a partir de baixo, ao contrario da experiência comum da esquerda, que costuma organizar-se em torno de meia dúzia de intelectuais iluminados. Era acusado de basista por outros setores da esquerda, parecia condenado ao fracasso. Digamos que havia “socialismos” para todos os gostos. De lá para cá o partido realizou a proeza de deixar o “cercadinho”, como diria você, e alcançar o ápice do poder, mas a grande vitalidade que o partido demonstra ainda decorre desse compromisso de dar voz, mais que representar, os setores que congrega. Mas o PT mudou também, claro. Inicialmente, pelo menos em seu segmento sindical, o estado corporativista de origem getulista era o adversário, a CUT se batia contra os “pelegos” que se perenizavam grudados ao imposto sindical e pela flexibilização da CLT em favor das negociações coletivas. Em algum momento, desfrutando então dos recursos captados compulsoriamente, o Estado corporativo cooptou os bravos sindicalistas. Segundo você o PT estaria migrando para o nacional desenvolvimentismo, coisa velha de 60 anos, de quando o sucesso inicial da industrialização soviética ganhava corações e mentes no ocidente. Trocando os termos e a perspectiva, estamos falando a mesma coisa, né não? Mas as conseqüências são opostas: você diz que o PT “precisa acenar com a ruptura de um modelo de baixos crescimento e investimento”, eu digo que é impossível: com as opções que faz o PT aprofunda esse modelo.

Maria Antonieta estava certa, o álcool não veio para garantir a fartura perene de combustíveis, mas o modelo bicombustível permite que os preços de gasolina e álcool estabilizem-se mutuamente -- frente as variações de oferta e demanda inevitáveis em ambos os mercados --, o que não impede que subam. Quando não tínhamos brioches para substituir o pão o pessoal reclamava menos, povinho mal agradecido, né não?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010 08:28:00 BRST  
Blogger DILMA: A ZEBRA disse...

Alon
Ainda passam por minha cabeça um bando de dúvidas:
Quais são hoje as bandeiras do PT? Quem pode dizer, ideologicamente, o que o PT defende? E qual é, objetivamente, o "esquerdismo" que o PT alega ter, tendo em vista sua política econômica e a prática de suas alianças?
Por que o PT está "engulindo" a candidata que lula deseja?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010 20:16:00 BRST  

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