terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Na hora e no lugar certos (09/02)

Com uma parte da elite desconfiada de que o PSDB vai enfiar os pés pelas mãos, as antenas começam a rastrear. Onde encontrar guarida para as demandas não propriamente petistas? Onde buscar proteção contra o jacobinismo? No PMDB, ora

Existe abundante material de análise sobre dois atributos do PMDB, pelo ângulo do desejo petista de continuar no poder. Nada a acrescentar sobre a importância do tempo de TV para a campanha, nem sobre o papel estabilizador na formação e manutenção da base parlamentar. Mas, da maneira como o quadro se desenha, talvez tão importante quanto venha a ser o PMDB no equilíbrio social e político (extraparlamentar) de um eventual governo Dilma Rousseff.

O desastrado — ainda que sincero — Programa Nacional de Direitos Humanos, por exemplo, reacendeu em segmentos da sociedade (Igreja, imprensa, Forças Armadas, agricultura) dúvidas sobre as convicções democráticas do PT. Vejam que não discuto aqui se o PT as tem. Discuto as percepções.

Com o PNDH, o PT marcou um ponto na turma fiel e espiritualmente radicalizada. Reendossou, no plano ritual, uma certa utopia basista. Foi como se o Copom, de pé, cantasse a “Internacional” antes de se reunir para, seguindo o hábito, proteger a rentabilidade dos bancos. O problema é que o PNDH abriu larga frente de contenciosos e desconfianças. Talvez na contabilidade eleitoral faça sentido, mas uma coisa é eleger-se, outra é governar. Quem elege é o povo, mas quem pode impedir de governar é a elite.

Daí por que o PMDB talvez esteja diante da maior oportunidade histórica desde quando elegeu Tancredo Neves, no colégio eleitoral em 1985. Vai a caminho de consolidar-se como força política decisiva, e não apenas no parlamento. Se o PT (o PT, não Luiz Inácio Lula da Silva) é incapaz de construir uma hegemonia político-ideológica que deixe confortável o conjunto da sociedade, e se o PSDB não consegue apresentar ao país um líder, um ideário ou um discurso, o nacionalismo diluído e a história antiditatorial do PMDB podem colocar-se como o seguro necessário para a democracia representativa, a economia de mercado e o estado de direito.

Uma certa opinião pública, nascida na segunda metade dos anos 1980 e cultivada nas campanhas “pela ética na política”, movimentos que viram a ascensão do PSDB e do PT como paradigmas de modernidade e pureza, acostumou-se a desprezar o PMDB, desde sempre apresentado como a personificação do atraso. Mas tucanos e petistas chegaram ao poder, os escândalos se espalharam por todo o espectro e o lacerdismo tardio deixou de ter força material. Ainda que, como toda construção ideológica, resista no plano imaginário ou no do simples entretenimento intelectual.

O jogo hoje em dia é outro. Com uma parte da elite desconfiada de que o PSDB vai mesmo enfiar os pés pelas mãos, as antenas começam a rastrear possíveis caminhos para a relação com o poder a partir de 2011. E onde encontrar guarida para as demandas não propriamente petistas? Onde, sem Luiz Inácio Lula da Silva em palácio, buscar proteção contra o jacobinismo? Obviamente que no PMDB, o fiel da balança.

Para os peemedebistas, é o “estar no lugar certo, na hora certa”.

Nunca antes na história deste país viu-se o PMDB tão unido. Não é sem motivo.

Claro que Dilma poderia embaralhar o script, sendo ela própria o pós-Lula. Mas esse é um capítulo ainda por escrever. E é preciso saber se o PT vai deixar.

Piada de francês

O agente secreto de certo país europeu (não digo qual é, para não ser politicamente incorreto) desembarca no Tom Jobim, recolhe a bagagem, entra no táxi. E fica em silêncio. Até que o profissional ao volante finalmente faz a pergunta de praxe:

— Para onde vamos, senhor?

A resposta vem na hora:

— Você não acha que está a fazer perguntas demais?

A piada é velha, eu não tenho talento para contar piadas, mas ela serve para ilustrar o comportamento dos governos brasileiro e francês quando questionados por que os negócios militares entre ambos são tão caros, tão mais caros do que o habitual.

A expressão da moda é “interesse estratégico”. Que pode significar qualquer coisa, até mesmo coisa nenhuma. Adequado seria se o país ficasse sabendo de quem é o interesse estratégico e qual o tamanho dele. Mas anda muito difícil hoje em dia em Brasília achar um político que esteja disposto a colocar a mão nessa cumbuca, a destampar o caldeirão.

Talvez o patriotismo esteja mesmo em alta na capital. Ou talvez haja muitos interesses estratégicos contemplados.

Coluna (nas entrelinhas) publicada nesta terça (09) no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Blogger pait disse...

Me ponha entre os que cresceram nos anos 80. Pmdb, pé-de-pato, mangalô, 3 vezes, mandinga....

Preço dos aviões, o embaixador francês explicou direitinho em entrevista à Folha: é o custo do voto da França a favor da entrada do Brasil no conselho de segurança:

"... nessa parceria ... os dois lados ganham....essa parceria tem um custo para a França... Seria muito mais fácil para nós se disséssemos que apoiamos o ingresso de um país latino-americano como membro permanente no Conselho de Segurança da ONU sem dizer quem é nosso candidato. Assim continuaríamos numa boa com México, Argentina etc. Mas fizemos uma escolha aberta em favor do Brasil. Isso tem um custo político." Para conferir:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0802201014.htm

ou

http://www.aereo.jor.br/2010/02/08/parceria-estrategica-tem-custo-politico-diz-embaixador-frances/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+blogPoderAereo+%28%3A%3A%3ABlog+do+Poder+Aéreo%3A%3A%3A%29

Só não explicou qual o cenário militar no qual esses aviões caças poderiam ser úteis para o Brasil. Desconfio que não haja, independente da procedência.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 00:35:00 BRST  
Anonymous Chesterton disse...

Ilação impagável.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 00:40:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Sua análise sobre a janela de oportunidade que estaria se abrindo ao PMDB precisaria contemplar o fato de que o PMDB é uma federação de oligarcas que também não tem um líder. Faz-me rir que Michel Temer seria um.

E não vamos esquecer que o Pacificador no após 1930 foi o ditador apoiado nas oligarquias corruptas que dizia combater ao fazer a “revolução”.

Se Dilma faturar 2010 com os apoios que busca, a crise é certa. O pau vai comer intramuros no petismo e as oligarquias vão apresentar a salgada conta do apoio. Dilma “dama de ferro” é somente jogada de marketing.

Lula levou anos pisando em muita gente para chegar onde chegou no PT. Só depois de completar a obra de pacificação no petismo (carta aos brasileiros) é que ele conseguiu se eleger e governar.

Dilma está mais para “rainha da Inglaterra” do que para “dama de ferro”. E como fica pretensão de Lula de se tornar o primeiro Globetrotter sul-sul. O que podem fazer? Colocar o Lula na casa Civil? Vão trazer de volta o instituto absolutista da eminência parda? Não duvido, dado o nosso gosto político pelo poder executivo discricionário.

Essa “disputa” entre a “Montanheses” e a “Girondinos” no interior do PT é briga de branco para inglês ver. Napoleão da Silva é uma necessidade para ambas as facções. A bem da verdade, a disputa é movida muito mais pelo princípio universal do gosto doce da rapadura, ou, para usar uma expressão mais rústica: é grito “mamãe eu quero mamá”.

O que resta de “disputa” é para efeito de propaganda e marketing, a já conhecida, mas ainda bastante eficaz, oposição do bom e pragmático PT contra o jacobinismo apoiado nos “sem calção" organizados e beneficiários diretos das colocações e verbas do Estado.

Quanto ao udenismo ou “lacerdismo tardio”, já expressei aqui a minha discordância com o blogueiro que parece concordar bastante com este pensamento:

Maria Inês Nassif, Valor Econômico, 26/02/09, em uma frase sítese:

“A grande oportunidade dessas eleições, para todo o quadro político, é sair desse paradigma de oposição montado no discurso udenista.”

http://www.eagora.org.br/arquivo/um-novo-padrao-de-discurso-politico/

Sabemos desde Platão, ou mesmo desde os textos bíblicos, que a corrupção está na essência do mundo político. Na modernidade, com o advento dos segredos estatal e civil (a razão de Estado), a corrupção buscou proteção ocultando-se nos discursos moralistas, que instrumentalizam a ética como propaganda na disputa pelo poder de Estado (“partido da ética” X “farinha do mesmo saco”).

O “outro mundo possível” (o “idealismo” companheiro) pressupõe o seu oposto. Então, depois de chegar ao poder, os que antes pregavam a virtude praticam exatamente o que condenavam quando desprovidos do mando: o realismo da corrupção. Como dizem, pagando bem, que mal tem? E quem se recusa a enfiar a mão na latrina bettiana é, pois, “udenista”.

Estanislau Ponte Preta é atual: “Instaure-se a moralidade, ou locupletemo-nos todos!”

Abs.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 01:54:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Realmente será uma eleição difícil para os estorvos de sempre: os cidadãos. Ainda mais agora que chegam novas hostes pelo contingente migrado das classes D/E para C. A nova classe média C. De salvação, passará, logo logo, também a estorvo, caso não escolha o que o dedo indicador indica. E assim, pelo risco, dará margens a que, espero estar errado na interpretação do post, surja algum pretendente a tutor. Uma espécie de regente ou eminência nem tão parda. Ou, no popular, o dono da cocada. Uma vez que, na terra arrasada, só sobraram os migrados para classe C, emergente, o risco é que de estorvos, passem a estouvados e façam ruir o castelo, torre de marfim a torre de marfim.
Swamoro Songhay

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 11:59:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, não sei se compreendi bem. O PMDH foi direcionado a turma fiel e radicalizada, ok, e a esquerda do governo ali carregou demais a mão, o que parece ter contrariado um pouco o presidente, muito bom. Agora, daí você deduz que as elites ficaram desamparadas e podem buscar no PMDB um canal com o futuro governo? Se for isso, creio que você se engana: todo esse tetro, tão anterior às eleições, não se dirige ao eleitor, mas justamente às elites (e a turma do cercadinho, ou turma fiel e radicalizada, que não é elite, mas está mais longe ainda de representar o eleitor médio, este sim, basicamente conservador). Nossa elite é tudo menos conservadora, eu diria que é de centro esquerda. Ao se estabelecer do lado esquerdo do espectro político o governo busca jogar a oposição para o campo conservador, o que desagrada às elites do país, que está na oposição e perde seu discurso. Sintomático, por exemplo, foi quando Serra, ao mesmo tempo em que recebia manifestação de simpatia do presidente eleito no Chile (conservador), declarou que havia “torcido” por seu adversário, de centro esquerda. O PMDH criou atritos com setores específicos, alguns dos quais não pertencem ao que entendo serem as elites do país, sendo antes antipáticos a elas: militares e pecuaristas. A igreja foi contrariada em sua face mais conservadora, portanto em aspectos que nem toda elite digere bem. Portanto o único grupo da elite que foi efetivamente atingido em um ponto importante, dentre aqueles que você citou, foi a imprensa, na questão da liberdade de expressão. Engraçado é que assumir o lado conservador com consistência, e visar o eleitor, seria o caminho mais lógico para a oposição alcançar o poder.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 14:50:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Na verdade tem muito do viés conservador em sua análise. Vamos rever: "o PT é incapaz de construir uma hegemonia...que deixe confortável o conjunto da sociedade",- aí­ eu pensei - se vocé quer dizer que o conjunto seria na verdade o conjunto das elites, ou seja, Igreja, imprensa, Forças Armadas, agricultura; o que na verdade poderia ser lido assim - setores conservadores dessa Igreja, (já que há setores verdadeiramente revolucionários dentro dela), com a imprensa é a mesma coisa, com as Forças Armadas é bem diferente, (elas formam uma ordem unida), mas com a agricultura, você só pode estar falando da bancada ruralista (do MST é que não é). Quanto à sua conjectura sobre o PMDB, eu também poderia conjecturar em utra direção, e você iria me rotular de utópico, por exemplo, será que de fato não é chegada a hora de um reconhecimento democrático pela maioria da população de seu poder sobre o estado de coisas, e daí­ sobre o Estado mesmo como provedor dessa utopia. E, aí seria o PT arriscando uma estratégia dialética em cima do PMDB para em seguida superá-la com Dilma (nesse sentido concordamos, você acha que esse capí­tulo ainda tem de ser escrito). Bom nesse ponto se você me vê iludido, utópico, (já que as condições ainda não estariam dadas) eu te vejo conservador e paralisado.
Ismar Curi

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010 08:56:00 BRST  
Anonymous trovinho disse...

O que tem que ser tem força e o PMDB tem vocação para ser. Ele é a cara (de pau) do eleitorado; é barroco como o contorcionista que sobrevive de salário, mas tem uma sensibilidade que é abstração para quem amassa neurônios e não barro.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010 22:42:00 BRST  

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