segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Limões, discursos e limonadas (23/02)

Qual foi mesmo a grande vitória — material, concreta — obtida pela diplomacia ou pelos canhões brasileiros neste período? Não valem os prêmios recebidos por Lula, nem as reportagens favoráveis, nem os salamaleques a ele dispensados

No âmbito da política exterior dos países, não é tão difícil distinguir os líderes empenhados realmente na construção de um projeto nacional daqueles preocupados apenas em açular o nacionalismo “de boca”, para nele cultivar musculatura política.

Na primeira categoria estão os governantes voltados para a conquista de vitórias nas relações com outros países e nos organismos internacionais. Na segunda, os obcecados pela soberania retórica.

Para que possam, então, classificar os opositores internos de “inimigos da pátria” e, a partir daí, convergir o destino soberano do país com a perpetuação do próprio poder.

Reparem que nações como China, Índia, Rússia e África do Sul têm políticas externas caracterizadas por contenção verbal e pela busca agressiva de vitórias, ou, pelo menos, de posições estratégicas favoráveis. Moscou, por exemplo, vem de conseguir recuos de Washington no projeto do escudo antimísseis na Europa do Leste. E os chineses apertaram tanto os americanos que estes se viram obrigados a fazer movimentos para equilibrar a balança, daí o encontro entre o Dalai Lama e Barack Obama.

Qual é o balanço da política externa brasileira nos anos recentes? É um bom debate. Na historiografia oficial, os últimos sete anos representaram a emergência de um Brasil altivo e internacionalmente forte, em suposto contraste com os séculos precedentes.

Mas qual foi mesmo a grande vitória — material, concreta — obtida pela diplomacia ou pelos canhões brasileiros nesse período? Alguém poderia informar? Não valem os prêmios recebidos por Lula, nem as reportagens favoráveis, nem os salamaleques a ele dispensados por interessados em bons negócios. Falo de coisas tangíveis.

O Brasil apostou todas as fichas na conclusão da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio e perdeu. Quando eclodiu a crise mundial das finanças, em setembro de 2008, saiu a advertir contra a emergência do protecionismo e a defender o livre comércio. Deu em nada.

O Brasil apostou todas as fichas na emergência do G20 como organismo vocacionado para reformar o sistema financeiro internacional e perdeu. O G8 vai sendo substituído é pelo G2, com americanos e chineses de protagonistas.

O Brasil inicialmente apostou em liderar os emergentes contra metas de redução das emissões de carbono. Quando Estados Unidos e China mandaram avisar que Copenhague não iria chegar a nenhum acordo vinculante, nossa diplomacia viu uma janela de oportunidade para Lula fazer a flexão tática. Ele agora seria “o líder da luta contra o aquecimento global” (a custo zero, pois não ia mesmo acontecer nada na Dinamarca). Para no fim poder dizer que “a culpa não foi minha”.

Acabamos na mesa com Obama, para referendar a proposta americana. De saldo, só os aplausos que o presidente colheu por mais um bonito discurso.

Sem falar nas situações em que não restou nem o discurso, como Honduras. Das grandes iniciativas que ainda podem dar algum dividendo há o Irã, onde talvez o Brasil fature algo, no papel de mestre de cerimônias das manobras para disfarçar uma eventual rendição iraniana. Isso se Teerã render-se. Se não, nossa “vitória” dependerá da capacidade de os aiatolás imporem ao mundo um status de potência nuclear, no qual talvez peguemos carona.

Quem planejou isso merece uma medalha.

E assim por diante. Mas nada está perdido. Sempre poderemos recorrer à habilidade do presidente para transformar limões em limonadas e demonstrar por que, apesar de tudo, o saldo da nossa participação foi “muito positivo”.

Positivo para quem?

Herdeiros da derrota

A Argentina inquieta-se e protesta contra o fato de o Reino Unido prospectar petróleo nas Malvinas, que o colonizador chama de Falklands. A Argentina tem, em tese, razão. Mas o Reino Unido tem, na vida real, a força.

Um problema da esquerda argentina, hoje no poder, é ser herdeira política da derrota na guerra de 1982. Cristina Kirchner vai lutar agora contra o paralelismo que os adversários farão entre a fraqueza política dela e a fraqueza política dos ditadores que três décadas atrás tentaram retomar na marra o arquipélago, e fracassaram.

O derrotismo e o flerte com a subserviência colonial sempre cobram um preço. Pode demorar, mas a conta vem.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (23) no Correio Braziliense

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15 Comentários:

Anonymous Tovar disse...

Convém não esquecer nosso “sucesso” no Haiti.
Primeiro convalidamos a intervenção e o golpe de estado franco/americano que derrubou Aristides, que se santo não era, eleito fora.
Por muito menos nosso garboso e confuso Itamaraty condenou Honduras ao isolamento. Mas no caso haitiano Lula aceitou, sem hesitação, por convite de Baby Bush, a chefia das forças de ocupação, curiosamente sob a bandeira da ONU, com os olhos fixos na cenoura mostrada do assento no Conselho de Segurança e que tanta impagáveis bobajadas tem justificado.
E o Brasil lá está a colaborar para a continuidade de processo que não permitirá nem o retorno do Haiti à democracia nem os haitianos às praias da Flórida por muito tempo. Viramos vigilantes pros gringos e somos parte ativa na condenação do Haiti à pobreza absoluta.
Isso sem falar no recente chega-para-lá que nos foi dado pelo Obama (e a ONU) para pararmos de atrapalhar o salvamento das vítimas do terremoto naquele País, ao tentamos o vulgar golpe do protagonismo do bolso-furado ou a custa dos outros.
Impagável também a entrada com o pé esquerdo na questão palestina, com a estratégia e ações resumidas a um joguinho de bola. Ridículo.
E para terminar, sem encerrar, contudo, a lista de baboseiras cometidas à título de política externa pelo Governo Lula, é inesquecível a justificativa do Amorim para não apoiar sanções contra o Irã, eis que causariam sofrimento às classes mais baixas. Meses atrás, esse mesmo lúcido homem de estado defendeu o sofrimento das classes mais baixas hondurenhas, lutando pelas mais amplas sanções àquele País. Nem para ser chamada de pragmática serve essa política; leva pau sempre.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 12:17:00 BRT  
Anonymous F.Arranhaponte disse...

Alon, as Malvinas/Falklands têm uma população que está lá há um tempão, muitas e muitas gerações, e, tanto quanto sei, essa população é esmagadoramente a favor da soberania britânica nas ilhas. No seu grande esquema das coisas, isso conta alguma coisa, é levado em consideração, quando você diz que a Argentina tem razão?

Se você disser que sim, então acho que, na sua lógica, os índios no Brasil têm direito a todas as reservas possíveis e imaginárias, inclusive onde a sociedade brasileira atual já estiver instalada e funcionando, como qualquer grande cidade. Afinal, gerações e gerações atrás, os antepassados da maior parte da população brasileira tomaram as terras dos antepassados dos índios.

Ou a lógica vale num caso mas não vale no outro?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 13:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Mas talvez Lula tenha faturado alto em imagem menos pelo que você analisou e mais, muito mais, pelo reconhecimento do trabalho realizado no plano interno.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 14:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Concordo com o que você diz. Há pouquissimas vitórias concretas da diplomacia brasileira, se existe realmente alguma de peso. Por outro lado, ao se comparar do a diplomacia de FHC de subserviência pura e simples, me parece que houve um avanço.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 16:08:00 BRT  
Anonymous Também Anônimo disse...

Vamos comparar, Anônimo.
Por gentileza, aponte fatos que apóiem sua afirmação que a "diplomacia de FHC de subserviência pura e simples...".
Se puder e quiser defina o que você de "avanços" depois de reconhecer o fracasso da diplomacia brasileira neste Governo.
É sempre bom aprender.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 18:19:00 BRT  
Blogger Lauro Mesquita disse...

È pouco, mas acho que o mais substancial de paupável é o avanço nas exportações aos países em desenvolvimento. O governo Lula agiu rápido em reconhecer a importância da China e dos países da África no jogo global. Além disso, o Brasil se firmou como líder sem contestação na América Latina, deixando pra trás países como a Argentina e o México nas negociações internacionais.
A agenda do G20 tb começou a partir de uma articulação brasileira e chinesa. No Brasil, o trabalho está começando, em minha opinião.
A Rússia é uma ex-potência que submergiu, mas por anos foi um dos dois players globais mais importantes.
A China cresceu em importância lastreada no crescimento econômico, militar e no acesso aos papéis da dívida americana. A Índia no investimento em tecnologia e em serviços, no mercado interno gigantesco e noseu potencial de crescimento de uma economia com uma população enorme e que ainda vive o princípio da urbanização definitivamente.
Não sei qual a vitória substancial da África do Sul, mas o período de integração do Mandela e de inserção social com o fim do Apartheid é o que começou dar a eles legitimidade, a Copa do Mundo e tudo mais. O Brasil vive um período semelhante e invoca soberani, consegue Copa, Olimpíada etc. O Brasil ainda está nessa, mas vejo um potencial grande de melhora.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 19:04:00 BRT  
Anonymous Briguilino disse...

Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças
brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer
uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se
autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria
estar no lugar de quem me venceu.
( DARCY RIBEIRO )
Alon, fazendo uma analogia, esta frase do Darcy responde a tua pergunta?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 20:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Lula foi durante os oitos anos mascate e mascote do Brasil no exterior. Se a diplomacia brasileira não tiver nenhuma relação com isso eu gostaria de saber quem é que tem: só a história de Lula?
Há uma história parecida que permitiria tirar qualquer dúvida sobre esse assunto. Assim, pergunto, de quanto aumentou as exportações da Polônia depois que Lech Walesa virou Presidente da Polônia?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 23/02/2002

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 20:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Outra questão que eu venho repetindo muito aqui no blog é saber se o Brasil tem condições de assumir posição de destaque no cenário mundial. Relembro uma parte do artigo de José Luís Fiori, intitulado “A turma do "deixa disso"”, publicado no Valor Econômico de 23/05/2007. Diz ele lá para concluir:
“Mas o Brasil e a África do Sul não contam com a unidade, as ferramentas de poder e com os desafios externos indispensáveis, e devem se manter na sua condição de "Estados relevantes" mas não expansivos, porta-vozes pacíficos do "bom senso ético universal". Uma espécie de "turma do deixa disso".
Clever Mendes de Oliveira
BH, 23/02/2010

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 21:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pode deixar, Lula vai enviar o Porta Aviões São Paulo para tomar as Falklands dos ingleses.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 23:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado Alon,
Achei simplista seu comentário.Concordo com o Anônimo, pois para puder sentar no banquete do poder tem que ter musculatura econômica, militar,etc. Concordo que, as vezes faz-se muito barulho para pouco resultado, mas temos que convir que resultados sempre demoram para acontecer, afinal é a ordem mundial q dita a regras, ou seja, os países centrais. Para vc se tornar protagonista da ordem mundial falta-nos a musculatura militar, pois na ordem econômica estamos mais perto de nos acertarmos, em parte pela fragilidade que os centrais apresentarem no presente. Certamente que ainda temos muito que andar , seja no planejamento estratégico do espaço q queremos ocupar, seja em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias, mas fundamentalmente o espaço a ser ocupado será quando tivermos musculatuta militar. O espaço diminui muito quando começa a afunilar o jogo do poder. Enfim, são muitas coisas e variáveis a se analisar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 23:16:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

As vitórias foram não ter sofrido as seguintes derrotas goela abaixo:
1) Impedir a implantação da ALCA;
2) Impedir a vitória da rodada de Doha nos moldes Europeus e Estadunidenses;
3) Reduzir as pressões externas por abertura comercial, contra o ritimo soberano nacional.

Outra vitórias:
1) Revitalizar o Mercosul, a Unasul e agora a "OEA do B";
2) Assumir liderança ambiental em Copenhague;
3) Reocupar espaço geopolítico na África e América Latina;
4) Formar o G-20;
5) Estabelecer conferências dos países do Mercosul com os países do Oriente Médio;
6) O início da formação do mercado mundial de biocombustíveis;
7) Tornar a presença do Brasil relevant em todas as mesas de negociação multilaterais;
8) Trazer as olimpíadas 2016 para o Brasil;
9) Como disse o Clever acima, as conquistas de mercados no comércio entre países.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010 02:52:00 BRT  
Anonymous Flaubert disse...

Não entendi por que a Argentina tem razão quanto as Malvinas. Por quê? Eles perderam a guerra e põe novamente em discussão a posse das ilhas? Além do mais, graças à vitória britânica a Argentina se livrou de sua ditadura sangrenta. Acho que a visão inglesa não se coaduna muito com a filosofia latino-americana do “ganha, mas não leva”. Os argentinos deveriam mais é considerar esses paradoxos da História e se voltar para seus problemas domésticos, que estão se agravando. Ou então, tentar a sorte novamente...
Me parece que o propósito da presidenta é criar um sentimento de nacionalismo (o recurso comum dos governantes) para tentar ganhar apoio ao seu governo. Os britânicos estão lá desde 1833....os habitantes são britanizados e tudo mais.. Seria interessante saber como reagiria o governo brasileiro se ele descobrisse petróleo no Acre e o Peru exigisse a devolução daquele território.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010 13:25:00 BRT  
Blogger Roberto disse...

Como assim Alon? Qual fato concreto simboliza o sucesso da política externa chinesa? O encontro do Obama com o Dalai Lama? Se recusar a assinar compromisso em Copenhagen?

O Brasil é hoje, indiscutivelmente, o líder da América Latina. O Lula acabou de afirmar que as Malvinas deveriam ser da Argentina. Isso pode não gerar nada de concreto imediatamente mas conta muitos pontos com nosso vizinho e parceiro comercial. Ao longo do governo Lula o Brasil deixou claro a sua preferência pelos países da América Latina. Quem quiser entrar no mercado latino hoje em dia vai montar escritório em São Paulo. Isso não é uma vitória significativa? Qualquer coisa seria vitória se comparado à política externa inexistente anteriormente.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010 18:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caso o Brasil tivesse sua certidão de nascimento cravada antes de 2003, permitiria saber-se que a política externa já foi cunhada com: terceiromundismo, pragmatismo responsável, segurança hemisférica. Isto nos 70s, com a implicações que cada termo evocou à sua respectiva época. Como é um imberbe gigante em fase de crescimento, cerca de 7 anos e poucos, permite que se saiba apenas do que é transformado em vitórias.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 11:11:00 BRT  

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