sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Genericamente abstrato (26/02)

As circunstâncias podem empurrar o governante a não cumprir em detalhes o que prometeu. Ele às vezes é levado até a fazer o contrário do que dissera. Só não pode cometer a insanidade de transmitir ao eleitor que vai, sem um bom motivo, no caminho oposto ao combinado

É um hábito forçar políticos a assumir compromissos antes das eleições. Entre nós, o aspecto mais recente e bem particular é impor aos candidatos a apresentação de programas de governo razoavelmente detalhados. No extremo, para “registrar em cartório” as “propostas”.

Segundo os marqueteiros, o eleitor adora acreditar nelas e exige que o pleiteante se dê ao trabalho de elaborá-las. Daí que em algum momento apareçam nos blocos televisivos as indefectíveis letrinhas na tela dizendo o que sua excelência “vai fazer”, se eleito (ou eleita).

Há ainda a moda de distribuir calhamaços, estes demandados pelo jornalismo. O destino da papelada? O “caderno especial” e depois a gaveta. Até que lá na frente, num plantão modorrento ou num feriado desesperador, alguém pega o material e propõe ao editor a pauta originalíssima: “Vamos comparar o que o candidato prometeu com o que ele fez até agora?”.

A menos que sobrevenha um terremoto político para lá de haitiano daqui até dezembro, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva vai fechar os oito anos regulamentares como belo sucesso de público e crítica. E no entanto todas as principais “propostas” televisivas apresentadas pelo candidato Lula em 2002 deram com os burros n`água.

O Fome Zero, o dos comitês analisando notas fiscais apresentadas pelos beneficiários para comprovar que gastaram “direito” o dinheiro da ajuda, virou uma espécie de Eletronet dos programas sociais, sem a rede de fibra óptica. Está na memória como boa ideia (dar ao muito pobre dinheiro suficiente para as necessidades básicas, para não passar fome), mas conceitualmente foi aposentado. Hoje, o PT diz que em espírito ele sobrevive no Bolsa Família.

O Primeiro Emprego morreu de morte morrida, sem esse detalhe causar ao ministro do Trabalho responsável, Jaques Wagner, qualquer prejuízo político: elegeu-se até governador da Bahia. A maior utilidade do programa foi ter desaparecido, pois seu fracasso ajudou a engrossar a desconfiança na tese de que abolir direitos e conquistas trabalhistas levaria as empresas a contratar mais gente. Parecido com a história de que o fim da CPMF faria baixar o preço dos produtos. Lembram disso?

E o Farmácia Popular está aí por estar, talvez para certo dia alguém explicar por que o governo precisa ter um programa de remédio mais barato se o próprio governo tem a obrigação de dar o mesmo remédio de graça.

O Fome Zero, o Primeiro Emprego e o Farmácia Popular, na genial elaboração de Duda Mendonça, cumpriram a função em 2002: mostrar ao público que a marca de Lula seria a busca da justiça social. E Lula está bem, obrigado, porque na visão da maioria dos eleitores ele cumpriu esse contrato genérico e abstrato, foi fiel aos movimentos simbólicos que fez quase oito anos atrás para vencer aquela disputa.

O núcleo do segredo do sucesso no governo está aí: a lealdade à ideia geral e abstrata que levou o eleitor a apertar o botãozinho na urna eletrônica ou a depositar o voto convencional. As circunstâncias podem empurrar o governante a não cumprir em detalhes o que prometeu na campanha. Ele às vezes é levado até a fazer o contrário do que dissera. Receberá a pressão dos jornalistas se acontecer, mas isso não terá qualquer importância, desde que não cometa a insanidade de transmitir ao eleitor que vai, sem um bom motivo, no caminho oposto ao combinado.

Há aqui uma vantagem de Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) sobre o provável candidato do PSDB, José Serra.

As duas têm a minuta já bem rascunhada. A ministra vai propor simplesmente a renovação do contrato de 2002, já prorrogado uma vez em 2006. Com novos detalhes? Claro, sempre é preciso pintar um quarto aqui, consertar uma persiana ali, acabar de vez a construção da piscina. Talvez até derrubar uma parede para ampliar a sala. A senadora também vai bem no quesito: dirá que hoje em dia lutar pela salvação do planeta é o único jeito de ser progressista e ficar a favor da justiça social.

Mas o discurso tucano ainda permanece em aberto, especialmente porque não tem sido arquitetado publicamente no pré-eleição, algo que pareceria essencial. No último fim de semana, Serra enveredou pelo campo propriamente político, com seu artigo sobre o quarto de século da Nova República.

O PSDB está atrasado? Sim e não. Comparado aos adversários, sim. Considerando que em 2002 o PT fez a Carta aos Brasileiros com a eleição já em curso, não. De todo jeito, há um efeito-expectativa: o PSDB está tão ensimesmado que quando apresentar seus trunfos para a guerra simbólica certamente atrairá atenção.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (26) no Correio Braziliense.

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1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, seu blog é genial. É uma pena que comecei a ler hoje e já dou de cara com um artigo chato. Não por ser político, mas porque revela que seremos enganados mais uma vez. Com truques diferentes, mas enganados. Gostei do seu artigo de maio de 2007. Mas você se esquece de uma coisa. Joseph Stalin, Franklin Roosevelt e Winston Churchill sabiam que os judeus, ciganos, homossexuais, deficientes etc. estavam sendo exterminados pelos nazistas e só se empenharam pra valer em derrotar os alemães quando seus quintais foram ameaçados. Aliás, Stalin fez seu Holocausto particular...
acm

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010 23:59:00 BRT  

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