terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Especialistas em casuísmos (02/02)

Lula está loucamente em campanha “informal” por Dilma, inaugurando qualquer rascunho de obra e falando bem de si próprio todo dia. E os líderes da oposição, estão fazendo o quê? A mesma coisa

É divertido assistir ao PSDB reclamar dia sim outro também contra a antecipação da campanha. A diversão fica por conta de um detalhe: no poder, o PT não cometeu casuísmos, não alterou uma vírgula das leis eleitorais para beneficiar-se. Nem precisou. Se o partido situacionista colhe os frutos de um arcabouço deformado e injusto, moldado para favorecer o continuísmo, deve gratidão especial ao PSDB, o verdadeiro pai da criança.

A começar da reeleição. Qual é a história dela entre nós? Depois do impeachment de Fernando Collor, a revisão constitucional acabou em fiasco. Um dos poucos temas aprovados foi reduzir o mandato presidencial de cinco para quatro anos. Quem era o favorito então para ganhar a corrida do ano seguinte? Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas vieram o Plano Real e a invencível candidatura de Fernando Henrique Cardoso. Instalados no Planalto, os tucanos trataram de continuar ali mais um quadriênio, com regras curiosas. O ocupante do Executivo pode pleitear um tempo extra na cadeira, sem precisar sair dela. Já quem o desafia é obrigado a desincompatibilizar-se.

O mesmo vale para vereadores, deputados e senadores, que podem lutar por mais um mandato sem renunciar. E têm o privilégio de concorrer com desafiantes que precisam obrigatoriamente estar desligados da máquina estatal. Não é uma beleza? Além disso, no poder os tucanos trataram de reduzir os dias reservados à campanha eleitoral no rádio e na TV.

Quando essas maravilhas foram incorporadas à legislação, o PSDB ocupava a Presidência da República e os governos dos principais estados, incluído o “Triângulo das Bermudas” da política brasileira: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Eis por que simplesmente não dá para levar a sério a choradeira.

O sistema eleitoral apresenta deformações? Sim. Há esperança de que o próximo governo tome a iniciativa de corrigi-las, para legar ao país uma moldura mais democrática? Esperança remota. Infelizmente, o aperfeiçoamento institucional não é uma preocupação dos nossos políticos. Talvez porque lhes falte tempo, ocupados que estão em espremer os miolos para encontrar o caminho da perpetuação.

“Casuísmo” é uma palavra nascida nos anos 70 do século passado, quando o regime militar alterou seguidamente as regras eleitorais para tentar evitar a chegada da oposição ao poder. No fim deu errado, porque o PMDB acabou derrotando o governo, mesmo com todos os truques. Na política, nada resiste à força da maioria. Pode levar um tempo, mas ela acaba prevalecendo.

Qual é o problema atual da oposição brasileira? É exatamente construir uma nova maioria. Ou então, por inércia, as urnas acabarão referendando a maioria que existe, e que sustenta o governo Lula. Como a oposição não parece ter a mínima ideia de por onde começar a tarefa, recorre ao formalismo. Sim, Lula está loucamente em campanha “informal” por Dilma Rousseff, inaugurando qualquer rascunho de obra e falando bem de si próprio todo dia. E os líderes da oposição, estão fazendo o quê? A mesma coisa.

Apenas, talvez, com menos competência.

Pesquisas

Em nenhum outro país as pesquisas eleitorais consomem o tanto de imprensa que lhes é dedicado no Brasil. Deve haver alguma explicação. Uma, conspiratória, é que enquanto se discutem as pesquisas não se discute o essencial: o que cada candidato quer fazer no governo.

O cenário eleitoral no Brasil é curioso. Para boa parte do eleitorado potencial da oposição (e da base social desta), o ideal a partir de 2011 seria um governo igualzinho ao de Lula, só que sem o PT. Nem é por resistência aos programas sociais, hoje consensuais por convicção ou conveniência. É mais por causa da dúvida sobre os reais compromissos estratégicos do partido com a democracia representativa e a economia de mercado. E não necessariamente nessa ordem.

Daí por que o nome de Henrique Meirelles pode agregar valor eleitoral a Dilma. Ele traria eventualmente também algum desgaste, caso a oposição decidisse colocar em debate o modelo econômico de escravidão financeira, farra cambial e baixo crescimento. Mas quem disse que a oposição está interessada em ir por aí? Ela parece mais empenhada é em vender-se como confiável à turma de sempre.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (02) no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Blogger Rodrigo Francelino disse...

Concordo, o ano eleitoral de 2010 será de fortes emoções. É aguardar para ver e crer. Bela coluna, excelente trabalho

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010 00:52:00 BRST  
Blogger Zezé Sette disse...

Grande Alon! Nada como uns quatro meses de trabalho, após retornar de férias, pra gente produzir de verdade...eita texto bom sô!
Caso vc não se recorde, fiz uma critica em um de seus posts há alguns meses, após seu retorno das férias, por estranhar demais a forma como vc vinha criticando o governo em prol da oposição. Nada contra criticas, desde que tenham fundamento, mesmo pq acompanho diariamente diversos blogs, de direita e de esquerda, mas achei as suas um tanto quanto sem sentido. Mas deixa pra lá.
A verdade é que esse texto está supimpa de lúcido, como nos bons tempos do Alon...rs. Crítica à oposição honesta, com muita lógica e elevado nível de argumentação. Parabéns!

PS: tá muito charmoso na nova foto do perfil.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010 10:27:00 BRST  
Blogger Marcos Diniz Ribeiro disse...

Alon, eu concordo com a crítica à oposição. Mas e ao TSE? O que vale para o governador do Maranhão não vale para o presidente?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010 10:29:00 BRST  
Blogger antonio cleriston de andrade disse...

Foi um prazer ler texto tão lúcido onde no espaço midiático só há "puxadores de farinha para o próprio saco (idológico)".
- Gostaria de sua autorização para republicá-lo em meu blog.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010 12:07:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Certa vez li aqui um desabafo seu sobre o afã jornalístico da análise da política brasileira.

O que se viu depois da festejada chegada dos éticos Lula e PT ao poder.

1. Dólares ocultos em cuecas e Lula declarando na TV que o empenho e os resultados do trabalho do PT em prol da governabilidade não era essencialmente diferente do que fizeram e faziam os outros partidos “farinha do mesmo saco”. Os amigos logo correram para reeditar aqui e ali um mote de sucesso: Abaixo o moralismo udenista! Afinal, como lembraria alguns anos depois Olavo Setúbal, um grande ideólogo do aggiornamento petista no pós-2002, “corrupção sempre houve no Brasil. É só ler Padre Vieira, que ele já fala da corrupção no tempo dos índios. Esse negócio de corrupção não é novidade, está nas raízes da formação do Brasil. Nas origens da colonização brasileira.”

A solução? Exatamente aquela "reforma política" proposta pelo PT e que você não se cansa de criticar no blog.

2. Assistimos em cadeia nacional Duda Mendonça declarar na CPI que recebeu do PT pagamento da campanha publicitária presidencial de 2002 em paraísos fiscais e com dólares que ninguém (claro que alguns sabem) sabia explicar a origem. Até hoje o judiciário não foi provocado para pedir que Duda e o PT expliquem essa história dos pagamentos em dólar "não contabilizado".

3. Finalmente, o ideólogo Olavo Setúbal, em antiga entrevista à FSP em 13/08/2006. Essa entrevista é magistral para a compreensão das pragas do autopropalado isentismo e do “tanto faz” na análise política. Pelo menos os epígonos deveriam citar a fonte original:

FOLHA - O governo Lula foi uma surpresa?

OLAVO SETUBAL - Havia uma grande dúvida se o PT era um partido de esquerda, e o governo Lula acabou sendo um governo extremamente conservador. Hoje em dia, é muito comum as pessoas falarem, inclusive o Lula, que ele encontrou o país quebrado e depois melhorou. Não é que o país estava quebrado. A visão era que o Lula iria levar o país para uma linha socialista. O sistema financeiro estava tensionado, mas, como ele [Lula] ficou conservador, agora está para ganhar novamente a eleição e o mercado está tranqüilo.

FOLHA - O sr. temeu Lula em algum momento?

SETUBAL - Quando foi eleito, tive uma preocupação de que ele levasse o governo para uma linha de esquerda, mas ele foi mais conservador do que eu esperava.

FOLHA - Se ele ou o Alckmin for eleito, para o sr. tanto faz?

SETUBAL - Não tem diferença do ponto de vista do modelo econômico. Eu acho que a eleição do Lula ou do Alckmin é igual.

FOLHA - Os dois são a mesma coisa?

SETUBAL - Os dois são conservadores. Cada presidente tem suas prioridades, mas dentro do mesmo leque de premissas econômicas. Acho que o Lula vai conservar a premissa da linha de superávit primário, de metas de inflação e tudo o mais. São evoluções que estão consolidadas no Brasil e serão mantidas por qualquer presidente.

FOLHA - O sr. acha possível baixar mais os juros?

SETUBAL - É claro que os juros podem e devem baixar. Agora, como? Isso é problema do governo, não meu.

Sobre pesquisas de intenção de voto, muito bons os posts sobre as últimas pesquisas no blog Coturno Noturno e o artigo de hoje de Augusto Nunes “Trapaceiros não poupam nem resultado de final de campeonato”.

E convenhamos, Alon, que eles (blog e coluna), embora cada um ao seu modo e apesar dos carimbos “esquerda” e “direita”, concordam bastante com o que já li aqui escrito por você.

Abs.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010 14:57:00 BRST  
Anonymous Leitura - Revista Eletrônica disse...

O olhar sobre as atuais pesquisas de opinião com relação as eleições presidenciais deve ser cauteloso.
A explicação encontra-se no nível de conhecimento do universo da pesquisa quanto aos possíveis participantes das próximas eleições - índice que ou não é divulgado ou sequer pesquisado.
Faça as contas: não está explícito na matéria, mas índice superior a 50% não indica qualquer candidato, enquanto quase 20% do eleitorado indica o presidente Lula, que não pode ser candidato. Isso nos remete ao fato de que o universo pesquisado ignora a realidade das eleições.
Ora, uma pesquisa onde cerca de 70% dos pesquisados não sabe a que se refere, estatisticamente serve para nada.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010 16:59:00 BRST  

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