sábado, 6 de fevereiro de 2010

Cortina de fumaça (07/02)

Quando na política alguém se fixa demais em questões metodológicas, é invariavelmente sintoma de dificuldades políticas. A oposição diz que Dilma cresce por estar em campanha antes da hora. Será?

Já tratei aqui da inutilidade de debater a “campanha eleitoral antecipada”. Primeiro, não há como determinar precisamente o dia em que a corrida por um cargo eletivo vai começar. Até porque esse tipo de corrida é perene. Segundo, não há uma linha demarcatória definitiva entre o “administrativo” e o “político”.

Desafio qualquer jurista a redigir um texto que deixe resolvida, para todas as situações razoáveis, a diferença entre essas duas esferas da atividade pública.

A lei pode proibir liberação de verba a certo prazo da eleição. Pode proibir uso de recursos públicos em eventos eleitorais oficiais. Pode proibir alguém de se dizer candidato “antes da hora”. Mas não há regra que consiga anular a política. É fisicamente impossível. Algo como querer chegar ao zero absoluto, a completa dormência da matéria.

Aliás, no afã de regular (somos bons nisso, agradeçamos aos portugueses), produz-se uma contradição destrutiva. Se existe certo dia antes do qual a campanha eleitoral “ainda não começou”, não há como acusar o governo, qualquer governo, de fazer proselitismo eleitoral antes do dia. Tomados alguns cuidados formais, o governante poderá trafegar à vontade. E, assim, a lei acaba produzindo resultado contrário ao desejado. Bingo.

Quando na política alguém se fixa demais em questões metodológicas, é invariavelmente sintoma de dificuldades políticas. No discurso oficial do PSDB Dilma Rousseff está em ascensão porque subiu no palanque prematuramente. Na realidade crua, a diferença entre as duas situações, do PT e da oposição, não é essa.

Dilma tem estrada livre para trafegar porque os principais problemas políticos no campo dela estão solucionados, ou a caminho de uma solução razoável. E ela tem um discurso.

Já a coligação PSDB-DEM-PPS está enrolada por não ter resolvido a equação entre São Paulo e Minas Gerais. Se resolveu, ainda não achou o jeito de contar que resolveu. O que no final das contas dá na mesma. E, pior, ainda não encontrou o discurso para enfrentar o PT. Se encontrou, ainda não parece ter chegado o dia de revelá-lo aos mortais. O que no final das contas também dá na mesma.

O governo e sua candidata têm outro trunfo: o líder. Luiz Inácio Lula da Silva é um ponto de aglutinação, um ímã. Especialmente quando todas as projeções apostam que ele chegará forte em outubro. Já a oposição tem mais de um líder. Como a política não se confunde com a matemática, aqui um é sempre maior (melhor) que dois, ou três. Quem tem mais de um líder não tem nenhum.

Parece faltar na oposição alguém que os demais tenham receio de enfrentar. Enquanto não aparece, recorre-se à cortina de fumaça.

Marina

É bom ficar de olho em Marina Silva. Seu programa de televisão quinta-feira foi muito bom. Obedeceu a um mandamento vital: autenticidade. Políticos falando no horário eleitoral (ou partidário) dão sempre a ideia de estarem lendo um texto escrito por outros. Parecem fantoches. Marina não. Ela consegue evitar o incômodo (para o telespectador).

Na era da informação abundante e disseminada, a tendência é o marketing eleitoral ser substituído pelo jornalismo. Tem que ter a musiquinha, a lagriminha, mas o central é conhecer o candidato em situação verídica. Olho no olho. É por sinal um combustível de Lula. Você pode concordar ou discordar, mas ele dá a impressão de acreditar no que diz. Mesmo quando diz uma coisa hoje e outra diferente amanhã.

E tem a questão técnica. Se o público estivesse só atrás de apuro técnico, a TV aberta não estaria tendo que trazer o YouTube para a programação. O público quer menos burilação e mais conteúdo.

A conta do almoço

A crise na periferia da Europa é simples de explicar. Não existe almoço grátis. Os países endividaram-se para brecar o colapso depois de setembro de 2008 e uma hora a conta iria chegar.

Pior, para nós, é que junto vem uma nova rodada de queda nos preços da commodities. Assim, a fraqueza do comércio se soma vetorialmente à covardia do capital em momento de incerteza.

Qual é a nossa situação? Dependendo de dinheiro dos outros para fechar nossas contas externas e pendurados cada vez mais na exportação de commodities.

Se eu fosse Lula, estaria de dedos cruzados para a coisa só complicar mesmo em 2011.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (07)no Correio Braziliense.

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8 Comentários:

Blogger pait disse...

Minha opinião, se interessar, é que o Brasil está bem melhor que a dos PIIGS. A economia e o Lula ajudam a Dilma. O problema é ela mesma, e os petistas. Olhando para ela via twitter e blog, dúvido que o próprio Lula salve.

domingo, 7 de fevereiro de 2010 01:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Como sempre não concordo 100% do post. Mas, é muito bom. Se tivesse de dar uma nota seria 99,99 censure!!! rssss

domingo, 7 de fevereiro de 2010 08:04:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Falando em antecipação de campanha,nada como lembrar a sucessão de Lula:tanto faz Serra como Aécio, a mídia oposicionista(existe a situacionista?) lhes promove as qualidades(?!),há tempos.
O "Mensalão" do PT,entre outras investidas,que tiveram inicio desde 2003,preparavam o terreno sucessório.
Falando sério, Marina,pode ser considerada como candidata viável à presidência?Alguém , consegue honestamente, vê-la investida como suprema magistrada?Como papisa ,talvez... O PV e o PSOL, agem como linhas auxiliares do DEM,PPS e PSDB e seu cortejo de reacionários.Portanto,se é para opor-se à Lula,que seja Serra, e sinceras condolências.

domingo, 7 de fevereiro de 2010 12:14:00 BRST  
Anonymous Chesterton disse...

Me permito duvidar dos indices das pesquisas que mostram Dilma ascendendo. Ela que não se fie.

domingo, 7 de fevereiro de 2010 13:14:00 BRST  
Anonymous Helen disse...

Sua colocação sobre a liderança de Lula como marco diferencial é muito pertinente e precisa.

Por outro lado, lamento discordar com sua opinao sobre o publico televisivo brasileiro. Eles não querem conteúdo...Antes fosse verdade, mas não é. Basta uma rápida análise da programação de TV brasileira.

Duvido que um produtor de sucos ia insistir em vender suco de uva se o consumidor buscasse por suco de laranja! É a mesma coisa com a TV brasileira, eles fazem lixo porque é isso que o povo quer consumir. Afinal, todo mundo é livre para mudar de canal ou ler um livro.

domingo, 7 de fevereiro de 2010 16:29:00 BRST  
Anonymous Too Loose Lautrec disse...

Por mais que procure solucionados os “principais problemas eleitorais” de Da. Dilma, as notícias são em sentido contrário.
O PMDB não somente recusou o script do Presidente Lula, como demonstrou enfática e faticamente que o vice-presidente, sendo do Partido, será da escolha da cúpula. O PMDB perde eleição mas não o governo.
E não será coadjuvante. Signifique o que isso significar, será o “Dilmo da Dilma”.
Alianças estaduais, no entanto, mostram pugilismo explícito a valer.
No RS, SC, BA e MS a bordoada come solta e as vísceras expostas. Riscos de cenas iguais incluem MG e PA. No PR nada está fechado. O GO ainda não se acomodou.
E teriam alguns casos mais, mas no MA, AP, AL, MT, AC, AM, SE, PI, RN e ES a coisa estaria tranqüila
É certo, porém, que no CE e em PE há riscos nada desprezíveis.
Aliás, e o imbróglio Ciro G.? Tudo certo, tudo normal e resolvido?
Ele continuará livre e solto como a certeira oposição a Da. Dilma? Vai colocar o rabo entre as pernas e voltar “num pau-de-arara”? Ou será O Vice e mandar-se-á o “semeador” PMDB plantar batatas na Oposição?
Ou ainda servirá para que o mico em SP continue a comer solto? Afora o fracasso da estratégia do PT perder por WO, a incapacidade do mentor maximus - e autor único de Da. Dilma - em resolver a tempo os dramas decorrentes da sua genial invenção, traz disputas internas quanto ao direito à oportunidade de não levar previsível e sonora traulitada eleitoral.
A tese simplista do “palanque duplo” mostra fragilidades logo no RJ. Uma vela a “deus” e outra ao “diabo” no mesmo tempo e espaço dará certo?
E o discurso de Da. Dilma estará pronto? Qual seria: o do antes (lula) contra o antigamente (FHC) ou o do Plano de Direitos Humanos? Os números do PAC estarão firmes ou serão contraditados como, por vezes, o é a palavra da candidata?
Ainda bem que, como afirma o Blogueiro, as principais questões políticas estão resolvidas e o discurso está pronto. Tudo feito então. É deixar passar o tempo e correr para o abraço.
Não é, pois, sem sentido a cogitação que a Oposição, coitada, privada do ser contra, limitada a fazer as mesmas coisas só que pessoa diferente - o que não parece muito, convenhamos -, tal qual o PT de SP, prefira perder por WO ao vexame da derrota para iniciante tida maldosamente por alguns como pouco mais do que tapa-buraco-ideal-enquanto-Lula-não-volta.
Em realidade, governo com índices de aprovação deste, é obrigado a fazer seu sucessor. E com os pés nas costas. Os riscos que corre, se existem, teriam, portanto, origem nas suas próprias decisões, só que essas, como afirmam tantos analistas brilhantes, estariam afastados porque, acima de tudo, o “melhor político brasileiro” é o Diretor e Autor da peça.

domingo, 7 de fevereiro de 2010 16:56:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, o Serra já é o líder unânime da oposição, até a The Economist já cobra que ele assuma a candidatura. O Serra não nasceu ontem, então porque permanece inerte enquanto vê ser corroído seu capital eleitoral? Em comentário a um post que já deve ter mais de mês eu dei meu pitaco, mas você vetou. Tudo bem, não é simpático, mas são coisas da política. Serra espera para reagir bem mais perto das eleições, com uma campanha para abater rapidamente a candidata do governo, e sem dar tempo para que possa se recuperar... quem viver verá. E eu não quero votar no Serra, ele só será o candidato do cidadão conservador por falta de opção para esse eleitor.
Abs.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010 11:24:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

É engano tratar a questão do vice de Dilma como se fosse um grande problema não resolvido. Nesse tema não há pressa, até porque o tempo está correndo favoravelmente à ela. Quanto mais Dilma vislumbrar a possibilidade de vitória, mais fraco é o cacife do PMDB.

A política é como um jogo de xadrez. Dilma moveu sua peça, e espera a oposição fazer seu lance, para decidir o próximo. Se candidatura tucano for Serra e um candidato a vice sem grande expressão, o vice de Dilma pode ser qualquer um, como Temer. Se for Serra e Aécio de vice, Dilma precisará de um nome de peso para vice.

Além disso, o vice do PMDB fará parte de um amplo pacote envolvendo os palanques dos governadores do PMDB. Hoje todos dizem que apoiam Temer, mas amanhã podem trocar por outro nome, em troca do apoio do PT, do PSB em arranjos de palanques regionais.

O programa da Marina Silva foi bom no formato, só não consegui enxergar que trata-se de uma candidata à Presidência da República, nem o que pretende fazer se chegar ao cargo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010 15:06:00 BRST  

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