quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Bomba de nêutrons (25/02)

O governador está preso, o vice renunciou, o noticiário vem impregnado da palavra “intervenção”. Diante do quadro, os outros políticos de Brasília dividem-se em duas categorias: os espectadores e os comentaristas

Um aspecto intrigante na atual crise do Distrito Federal é a parcimônia dos políticos ao ocupar o espaço aberto com o colapso das estruturas oficiais. Em situação normal, estariam todos a surfar na tragédia alheia — é da vocação. Disputariam a tapa o privilégio de serem vistos pelo eleitor do DF como a alternativa saneadora e salvadora. Entre cotoveladas e pontapés, lutariam bravamente pelo protagonismo diante das câmeras, pela pole position no grid eleitoral.

Mas não. A imagem espelhada da desgraça de uns não aparece como a ambição de outros, vem como prudência. Excessiva até. Ao menos para consumo externo. O governador está preso, o vice renunciou, o noticiário anda impregnado da palavra “intervenção”. Diante do quadro, os políticos restantes de Brasília dividem-se em duas categorias: os espectadores e os comentaristas. No frigir dos ovos, ninguém está dando a cara a tapa. Apertem os cintos, porque os candidatos a líder sumiram.

Além do caos produzido pelo situacionismo, esse é outro vetor que alimenta as especulações em torno da intervenção federal. A parte do sistema político brasiliense que ainda não necrosou está paralisada. Dá a impressão de temer algo. O que exatamente?

Desde o início da crise, ainda no ano passado, estava claro que as revelações tinham potencial para levar à morte boa parte do tecido político do “quadradinho”. Houve em seguida a época da calmaria, quando o jogo de perde-perde entre o Buriti e a Câmara Legislativa desenhava-se para ser um esperto ganha-ganha. Como estavam todos enrolados, todos sobreviveriam. Tratar-se-ia apenas de aproveitar as chicanas jurídicas para vencer a corrida contra o relógio neste último ano dos quatro regulamentares.

Era um equilíbrio em si instável, pois ninguém parecia ter boas ideias para atacar a questão-chave: a legitimidade. Nas sociedades democráticas, toda vez que se faz um cálculo político é preciso saber também o que pensa sua excelência, o eleitor. Até por haver entre nós mecanismos independentes de defesa da coletividade. Por exemplo, o Ministério Público.

As revelações mais recentes, que levaram à prisão do governador, vieram desequilibrar novamente o jogo, reabrindo as possibilidades políticas dos que ao longo dos anos costumavam perfilar-se como alternativa a tudo. Mas a montanha está a parir o rato. Parece que uma bomba de nêutrons, a que extermina os seres vivos e preserva os edifícios, estourou sobre a política da capital federal.

Esquerdos humanos

Quando governos se metem a patrocinadores de cruzadas morais, o risco de desmoralização é latente.

A administração Luiz Inácio Lula da Silva vem de criar um bafafá com o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), que pretende ditar regras sobre tudo e para todos, transformando os atuais ocupantes do Executivo em juízes da moralidade.

Mas Lula, sempre tão sortudo, desta vez deu azar.

Poucas semanas depois da polêmica aberta com o PNDH, eis que nosso presidente visita Cuba nos dias da morte, por greve de fome, de um assim chamado “preso de consciência” cubano. O termo designa o sujeito que está detido só pelo que pensa — e por tentar colocar em prática suas ideias sem recorrer à violência.

Claro que Lula não vai se meter nos negócios internos da ilha caribenha, afinal o Brasil respeita a soberania das demais nações e não tem a vocação de ditar regras.

A não ser quando interessa.

Como em Honduras, alvo de diretrizes imperiais emanadas do governo brasileiro sobre como, por que, em que ritmo e rumo a que objetivos os hondurenhos devem tocar seu processo político.

Talvez estejamos diante de uma releitura do célebre bordão malufista: direitos humanos sim, mas para os humanos direitos. No caso específico, para os humanos esquerdos. Categoria generosa que, em último caso, pode abrigar todos os amigos e companheiros de viagem.

Terá gás?

Era mesmo um exagero convocar Dilma Rousseff para falar do PNDH no Senado. Sobre o assunto e seus detalhes, qualquer jornalista pode fazer as perguntas necessárias, se julgar conveniente.

Mas é bom e democrático que o ministro da área explique a coisa toda na Câmara Alta. Resta saber se desta vez a oposição vai se preparar adequadamente para duelar no mérito. Um terreno em que ela costuma perder gás rapidinho.

Coluna (Nes entrelinhas) publicada nesta quinta (25) no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Anonymous Fernando Lemos disse...

Cabe sim à Ministra Dilma responder por sua assinatura e que está no Decreto do PNDH, envolvendo multiplicidade de direitos tais como: à propriedade, à liberdade de expressão, ao devido processo legal, à liberdade religiosa e trocentos mais, até um ou dois tratando de DH.
E que mais não fosse, o Senado a pode convocar porque incumbe à Casa Civil a revisão das propostas legislativas – mesmo as não lidas – da alçada do Presidente da República.
Concordamos, porém, em ponto fulcral: a imprensa pode e deve questionar a Ministra Dilma sobre o PNDH ou a quem bem entender. O que, surpreendentemente, não faz, ainda que os temas compreendidos no PNDH impactem a vida da população e as eleições.
Por que será que a dita imprensa livre agirá assim? Receio de ser classificada de PIG? Interesses outros? Receio de desqualificar a candidata governista? Ou haverá bloqueio no acesso à Ministra, impedindo que a mesma possa expor seu entendimento sobre tal matéria e até reconhecer, se for o caso, que tal qual o Presidente Lula afirmou – para aumento de indiscutível popularidade - que “assinara sem ler”.
Alegação medíocre e mediocrizante, assim como a clássica “não sabia”, passivamente aceita, quiçá estimulada,pela imprensa e por seus admiradores.
Indiscutível também a postura da maioria da bancada oposicionista no Senado, que julga dever ser a política tratada com luvas de pelica e com direito a férias. Não entendem que para o adversário – e boa parte do eleitorado – o feio é perder eleições.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 11:37:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Essa versão do "assinar sem ler" ou a versão de que, como afirmou o seu entrevistado de ontem, houve um equívoco na redação do texto do Decreto do PNDH, posteriormente corrigido pelo executivo, me faz rir, que é o que me resta. Tais versões são tão críveis quanto a afirmação do chefe do executivo brasileiro em Cuba sobre o desconhecimento da terrível situação em que se encontrava Orlando Zapata porque a carta dos dissidentes pedindo apoio ao presidente do Brasil não foi devidamente protocolada na embaixada brasileira de Cuba.

Governos manobram para esquivarem-se de situações que possam constrangê-los por esta ou aquela razão.

No caso dos dissidentes, está claro que o governo brasileiro submeteu-se ao governo cubano, mandando às favas a tão decantada soberania brasileira em política externa, como gostam sempre de dizer os áulicos.

Quanto ao esforço da manobra que livrou Dilma de comparecer ao Senado para explicar o Decreto, basta apenas analisar o denodo de Romeiro Jucá para substitui-la por Vannuchi e teremos um exata medida da paúra que a presença de Dilma no Senado provocou no seus marketeiros.

Como você sempre diz, manobrar e driblar faz parte do jogo político. Concordo. O que não concordo é com os floreios da retórica, que muitos ativam na esperança vã de que isso funcione como um perfume para o disfarçar o fedor que exala dessa substância bettia que, dizem, é constitutiva da política.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 13:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Dentro da redoma politica construida ao longo desses 121 anos, a republica, como qualquer cassino de Las Vegas, se protege , e aos seus, mantendo todos nós brasileiros sob rédeas. Essas rédeas nos impedem de agir fora dos regulamentos aperfeiçoados para a perenidade do regime e da eterna locupletação dos seus mandatários. Nós passamos esses anos todos aceitando que pessoas de origem humilde se transformassem em politicos milionarios , sem qualquer pista do dinheiro na declaração do IR. Aceitamos que o congresso fosse tornado assalariado do governo sem necessariamente culpar o presidente que afinal é um irresponsável e assina documentos sem ler. Nós achamos interessante no 2o. turno o Alckmin não só ser repelido por TODO o eleitorado dos outros candidatos do 1o. turno, mas também PERDER 2,5 milhoes de votos que ele já havia ganho no 1o.turno. Nós não ligamos do Congresso , em peso, ser acusado de práticas de fraude, prevaricação, peculato, e quantos outros sejam os tipos de crimes cometidos por políticos eleitos. Enfim, para não ter que listar mais 3 mil itens, eu pergunto?. O que importa quem seja o próximo presidente? Se ele pode ou ela pode ser ou ser eleito. O que importa qual o passado da pessoa que se cogite? SE não se exige dessas pessoas nada do que para nós pobres mortais é obrigatório? Sim , porque se eu assino qualquer coisa sem ler, e eu sou presidente de uma empresa eu posso estar passando as ações para o meu cachorro sem saber, e vai ser muito dificil explicar o canino na reunião do conselho. Portanto,discutir politica e falar de lulas, dilmas, genoinos, sarneys e outros abjetos seres é irrelevante. Uma coisa nós podemos ter certeza, e somente essa coisa é certa. Seja quem for o proximo presidente, pelo andar da carruagem será uma pessoa da maior relevancia entre aqueles que compoe a escória desse país, que deve se orgulhar de ser o maior país do mundo governado pela camada mais réles da sociedade.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 16:00:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

O Lula não só não sabe, como faz questão de não responder.
O Processo do Mensalão está parado no STF desde Novembro último. 4 meses portsnto.
Espera respostas de Lula às questões encaminhadas pelo Min. J. Barbosa.
Lula está impedindo a Justiça. Ainda que não lhe caiba prazo certo para responder, nem ele e nem o Ministro podem se furtar, ad infinitum, de cumprir a obrigação de responder e a de julgar.
Por quê será que Lula calou-se?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 17:53:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

Paulo Araújo,
A menos que Serra tenha aderido à Dilma, pode ter certeza de que o assunto PNDH voltará continuadamente durante a campanha.
Vai ser interessante conhecer o pensamento da ex-doutora Dilma sobre a propriedade, liberdade de imprensa, liberdade de religião, aborto etc.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 17:58:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Em mais de 500 tópicos do PNDH-3, conta-se nos dedos os que geraram polêmicas, e foram revistos os que expressavam posição de minorias barulhentas sobre supostas maiorias silenciosas. Tanto que a CNBB (Conf. Nac. Bispos do Brasil) em sua reunião recente debateu um estudo "Análise da Conjuntura" (está disponível no blog oficial da entidade) que elogia o PNDH-3 como conquista da maioria das coisas que as pastorais defende, minimiza as polêmicas, creditando ao calor eleitoral, e elogia o comportamento do ministro Paulo Vanucci por ter dialogado na questão do aborto e nas demais onde a entidade tinha restrições.

Será muito bom ver debates entre presidenciáveis abordando o PNDH-3. Dilma terá oportunidade de repetir coisas como o que disse no Congresso do PT:

"Quem duvidar do vigor da democracia em nosso país que leia, escute ou veja o que dizem livremente as vozes oposicionistas. Mas isso não nos perturba. Preferimos as vozes dessas oposições - ainda quando mentirosas, injustas e caluniosas - ao silêncio das ditaduras."

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010 07:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Os tópicos do PNDH3 que causaram mais discussões/rejeições referem-se exatamente a aspectos que podem ser entendidos como o bode colocado na sala: todos preocupam-se com o bode, só que quem desaparece é a sala. No estágio democrático em que está o País, confusões do tipo não têm a mínima necessidade e nenhuma função. Injustiça e calúnia é ficar brincando de botar fogo no circo.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010 11:34:00 BRT  

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