sábado, 23 de janeiro de 2010

Vísceras expostas (23/01)

Se o jogo da política é selvagem, por que sonegar o espetáculo ao eleitor? Não seria mais democrático a coisa correr à luz do dia?

Qual a melhor definição para "baixaria" na campanha eleitoral? Eu vou sugerir uma. Baixaria é toda afirmação para a qual o candidato não tem resposta convincente. Em situações assim, a saída normal é fazer-se de ofendido e evocar a necessidade imperiosa de voltar ao "alto nível". Ou seja, retornar aos assuntos mais confortáveis.

Se você aceitar que eu use a definição, também concordará que "baixaria" é um aspecto fundamental nas disputas políticas. É uma maneira de revelar algo que o poder (ou o candidato a tê-lo) não quer ver revelado. Daí que, para o meu gosto, campanha paradigmática seja a americana. Ali não há assuntos proibidos, pode mais quem chora menos.

Melhor assim. Há um preço a pagar, em injustiças e brutalidades morais, mas a relação custo-benefício é boa. Vale mais uma campanha eleitoral de embrulhar o estômago do que o país descobrir, depois, ter eleito um desconhecido, um farsante, um mistificador. E a coisa tem mão dupla. É bom ver o líder dissecado, mas tão importante quanto é conhecer a alma de quem acusa, de quem ataca.

Se o sujeito não tem limites antes da eleição, se recorre a qualquer coisa para tentar vencer nas urnas, como será quando chegar ao poder? Eis uma informação relevante.

Entre nós, no país do não me toques, nesta simbiose política que casa etiqueta com selvageria, valem os bons modos na superfície, o formalismo na Casa Grande. Mas só na superfície. Aí é o caso de perguntar: se o jogo da política é selvagem, por que sonegar o espetáculo ao eleitor? Ao da Senzala. Não seria mais democrático a coisa correr à luz do dia? Para que o cidadão, bem informado, possa fazer o próprio juízo?

Nos últimos dias, tucanos e petistas andaram engalfinhando-se. Sérgio Guerra escorregou na casca de banana do "vamos acabar com o PAC" e abriu espaço para a candidata do PT agitar o espantalho do retrocesso. Ao que o presidente do PSDB respondeu acusando Dilma Rousseff de não ter apreço pela verdade. Ao que o presidente da República reagiu chamando o senador pernambucano de um nome feio, por ele não reconhecer méritos no governo do PT.

As questiúnculas não importam. Que batam boca à vontade. Em meio ao mafuá, o que interessa? Saber o que o PSDB faria com as obras do Programa de Aceleração do Crescimento. E conhecer como está o PAC na vida real. Deve habitar algum ponto intermediário entre a ficção, conforme a oposição, e a maravilha desenvolvimentista, segundo o governo. Qual é esse ponto? A ministra Dilma diz a verdade sobre o PAC ou mistifica? Ou é a oposição que exagera? Independentemente disso, o que fazer para alavancar os investimentos no Brasil? Quem sabe? Se sabe, por que não se fez até agora?

O investimento público é essencial para impulsionar o crescimento sustentado da economia? Em tese, sim. Na prática, o volume de recursos orçamentários para inversão parece estar hoje no mesmo nível (baixo) em que vegetava na administração Fernando Henrique Cardoso, apesar de todas as declarações de amor do PT ao papel do Estado na economia. E daí? O que fazer?

Se o debate puder ser feito de maneira educadinha, ótimo. Mas se precisarem recorrer à baixaria para desentocá-lo, paciência. O que não dá é o presidente do PSDB deitar falação sobre o PAC num dia, para no dia seguinte engavetar o assunto a pretexto de retomar o "alto nível" da disputa.

Vale para questões programáticas, e vale também para as demais. Eleição é escolha de um líder, e o processo eleitoral é rito de passagem. Um ensaio das pressões e constrangimentos que o vencedor vai enfrentar no cargo. Quanto antes e mais duramente ele for exposto à fogueira, melhor.

Eleição não é chá das cinco. Quem se sentir ofendido, recorra à Justiça. Mas não soneguem ao eleitor a possibilidade de ver expostas as vísceras dos políticos. Conhecer esse ângulo da anatomia deles é fundamental para a democracia. E eleição é uma chance quase única de o cidadão e a cidadã terem acesso à privilegiada paisagem intestina de suas excelências.

Indiretas já

O governo de Angola aboliu a eleição direta para presidente. A medida foi votada pelo Congresso e só depende da aprovação da Corte Constitucional, uma formalidade.

O Itamaraty tem posição a respeito?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste sábado (23) no Correio Braziliense.

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14 Comentários:

Blogger todanoticia disse...

Muito bom, alon. Sempre achei "tenho jatinho por que posso", entre outras, muito didático.

sábado, 23 de janeiro de 2010 01:36:00 BRST  
Blogger João Victor disse...

Alon,

Achei interessante a sua definição de "baixaria" e realmente pode valer para a manifestação do PT. Seria ótimo, alias, que eles abrissem a caixa preta que afirmam ter desde que ainda eram oposição ao Governo Federal.

No entanto, a população precisa ser respeita. E esse respeito que digo não é só pelo fim da politicagem, do disse-me-disse e da sujeira dos bastidores. É respeito em relação a educação sim, porque ela demonstra o grau de civilização do povo.

Nos Estados Unidos vemos a "baixaria" da troca de acusações (sempre com provas) sim! Mas não vemos um chamando o outro de jagunço, babaca ou o que for. Se chama de algo tem que provar e, convenhamos, é bem dificil provar que alguém é (ou não) babaca.

E esse tipo de falta de respeito é complicado, ainda mais quando hoje se chama de babaca e amanha de "caro amigo" (http://www.joaovictorguedes.com.br/blog/?p=208).

Mais complicado que isso, abordando a sua definição de "baixaria", é quando quem diz que vai usá-la, ao invés de falar verdades sobre o oposição acaba inventando mentiras sobre si mesmo (http://www.joaovictorguedes.com.br/blog/?p=215) até mesmo com um filme fantasioso.

O cenário é complicado e as "baixarias" devem ser medidas com muita ética e respeito. Seja qual for a definição que ela tiver.

Grande abraço,
@VictorGuedes

sábado, 23 de janeiro de 2010 02:08:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Me parece que a grande diferença nos investimentos entre os governos do PT e do PSDB, não é no investimento através do Orçamento da União, e sim nas estatais.
Os maiores investimentos do PAC são da Petrobrás, por exemplo.
As estatais no governo Lula tem investido bem mais, apesar de levar uma tremenda desvantagem em relação ao governo anterior: FHC teve nas mãos muito mais estatais gigantes durante boa parte de seu governo. Nos primeiros 4 anos teve a Embratel e o Sistema Telebras. Teve a Vele por 2 anos e meio.
Além disso em 2003 e 2004, o governo Lula estava bastante limitado às voltas de se livrar do acordo com o FMI feito em 2002 por FHC.
FHC recebeu o país em melhores condições de Itamar Franco no primeiro mandato. No segundo, iniciado em 99, recebeu uma herança maldita dele mesmo, e a repassou adiante ao sucessor em 2003.

sábado, 23 de janeiro de 2010 02:40:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Explique melhor a questão de Angola. Houve golpe de estado? Pelo seu texto não parece ser o caso.
No Brasil, há poucos anos houve um plebiscito sobre a adoção do parlamentarismo. Se passasse o parlamentarismo monárquico, não haveria eleição nem para presidente (e obviamente não haveria para primeiro-ministro). E não seria golpe de estado. Porque uma reforma constitucional soberana haveria de precisar da anuência internacional?

sábado, 23 de janeiro de 2010 02:48:00 BRST  
Anonymous trovinho disse...

Achei sua análise benevolente com o PSDB ao nivelá-lo com o PT como se fosse quase a mesma coisa. Tucanos venderam as estatais numa época de exuberância irracional, pleno emprego nos EUA do petróleo a U$20, subiram os impostos que ficaram mais regressivos, cortaram direitos sociais, mas Dom Sebastião dos investimentos não voltou e o país foi ao Fundo... Sob o PT foi preciso toda uma reengenharia financeira construída com os terríveis superávites, para administrar a dívida quintuplicada e Zeca Pagodinho virou o ícone daquela época decantada como de viracasacas. Também por golpismo midiático, questões pontuais ganharam ares de quintessência só para deslocar o debate, enquanto 20 milhões saíam da miséria. Não nivelem por baixo, lá fora essa falácia não colou.

sábado, 23 de janeiro de 2010 02:53:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Concordo com o seu comentário.
Não concordo com o comentário de João Victor de 23/01/2010 às 02h08min00s BRST na parte em que ele diz que nos "Estados Unidos vemos a "baixaria" da troca de acusações (sempre com provas) sim! Mas não vemos um chamando o outro de jagunço, babaca ou o que for". Não acompanho as eleições americanas tão de perto, mas pelo que eu leio no noticiário brasileiro na época de eleição lá há todo o tipo de baixaria. E é uma baixaria para um povo com um grau de formação em nível superior no mínimo umas duas vezes maior do que a nossa.
Concordo também com o comentário de Duarte enviado em 23/01/2010 às 02h40min00s BRST. E penso que ele tem razão em indagar no comentário enviado em 23/01/2010 às 02h48min00s BRST sobre o que você queria dizer na sua referência sobre as eleições angolanas. Parece que em Angola vigora o parlamentarismo. A eleição direta de presidente no regime parlamentarista é um engodo na população. Para que serve ao povo eleger uma rainha da Inglaterra? Embora considere o parlamentarismo um regime mais próximo da democracia representativa proporcional, ou seja, mais próximo de uma democracia que não tenha a prevalência de grupos majoritários com a exclusão dos grupos minoritários, exclusão que ocorre na democracia direta e na democracia representativa majoritária (como é a eleição para o presidente da república), eu sou a favor do presidencialismo.
Sou a favor do presidencialismo porque considero que na eleição para presidente da república se reforça ao máximo o princípio da igualdade que é o mais importante princípio que eu considero que deva fundamentar o regime democrático.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 23/01/2010

sábado, 23 de janeiro de 2010 09:56:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Esqueci um ponto importantíssimo: as compras governamentais passaram a ser feitas no Brasil, na medida do possível.
O investimento na indústria naval brasileira feito pela Petrobrás no governo Lula, multiplica os ganhos para a nação, em relação a um valor equivalente investido em encomendas em Singapura ou na Noruega.

sábado, 23 de janeiro de 2010 09:57:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Li hoje no Globo declarações de Marina Silva criticando o PAC. Estou esperando para ver a troca de chumbo dos valentões do PT com a ex-ministra do governo Lula. Será que vão chamá-la de Maria Bonita ou algo parecido?

sábado, 23 de janeiro de 2010 10:18:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O jornalista bem que poderia fazer a pergunta sobre Angola aos Tucanos.
Mudar a regra eleitoral para presidente em beneficio do governante da ocasião foi e é exclusividade Tucana.

sábado, 23 de janeiro de 2010 10:41:00 BRST  
Anonymous Briguilino disse...

Ler uma postagem desta - que eu concordo em número, gênero e grau - e lembrar que comentário meu não foi publicado neste blog porque escrevi TUCADEMOPIGANALHA...

Depois desta postagem acho que este nome pode ser publicado aqui, ou não? Sei lá, mas tenho a impresão que sei não.

Lembrei de uma frase: " Infeliz daquele que prega uma moral que não pratica".

sábado, 23 de janeiro de 2010 13:14:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

me incomoda um pouco a sua constante afirmação de que os investimentos do governo Lula se encontram no mesmo patamar do FHC.
Você não leva, conforme o comentário de um colega acima já mencionou, o aumento dos investimentos das estatais?
Além disso, será que você não tem uma concepção rasteira do que significa "investimento público"?! Digo isso porque já li milhares de textos jornalíticos e acadêmicos, falando sobre a importância da ampliação dos programas sociais do governo no sentido de movimentar as economias regionais e locais.
Além disso, acho que você não leva em consideração a "percepção" dos sujeitos sobre estes mesmos investimentos.
Por exemplo, sou aluno de uma universidade federal há dez anos... Passei pelo governo FHC e Lula... E lembro que, durante o governo FHC, a universidade não tinha, sequer, dinheiro para pagar a conta de energia. Esta conta era paga pelos contratos firmados pela fundação da universidade. A situação era difícil.
Agora, quando o Lula entrou a coisa mudou da agua para o vinho... Em dois anos, o orçamento da universidade triplicou, e, além disso, o consenso entre meus colegas é que o investimento nas universidades aumentou significativamente... Mesmo que não tenham uma visão mais fria dos números.
Daí que acho interessante pensar, não apenas a questão econômica e numérica dos investimentos, mas também a percepção social disseminada por tais iniciativas...

É isso.

Abraço.

Daniel Menezes / Natal-RN

sábado, 23 de janeiro de 2010 14:56:00 BRST  
Anonymous Chesterton disse...

A hora é essa. Campanha tem que ter sangue.

sábado, 23 de janeiro de 2010 15:45:00 BRST  
Blogger Janny Heyre disse...

Alon, e a nossa politica externa no haiti?
vai uma matéria não? falta muito pras eleições,vc só fala nisso.
Afinal o que esta acontecendo lá?
guerra de vaidade do exercito brasileiro ou..sei lá!!
Não é uma fria se meter por lá?
e aquela besteira que o Chaves falou que os US causaram o terremoto segundo relatório da marinha russa?
DEixa a buxa no haiti pros americanos já que eles estão querendo aperecer bastante!!!
O brasil tem que se preocupar em ser forte militarmente não com cadeira no conselho de segurança da ONU, ninguem respeita as deliberações do conselho quando é contra seus intereces!!
fica a dica...muitos querem saber sobre isso

sábado, 23 de janeiro de 2010 18:58:00 BRST  
Blogger CrápulaMor disse...

Concordo. Boa abordagem. Tem essa coisa hipersensível, de ser politicamente correto, que não acrescenta muita coisa. As pessoas esperam uma liturgia, um cerimonialismo, uma formalidade dos políticos, que serve pra quê? A quem? Hoje, eu também prefiro o debate apaixonado, acalorado e - eventualmente - com ofensas, do que a indiferença, ou a pasmaceira.

Alon, passa no meu blog! Escrevi sobre as eleições chilenas. Já ficou mais claro porque a Bachelet não apareceu no programa do Frei... Olha o vídeo lá, achei bem emocionante a parte do "no dá lo mismo".
http://crapula-mor.blogspot.com/

Abraço

sábado, 23 de janeiro de 2010 20:21:00 BRST  

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