sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A vez do Brasil (15/01)

Há um imenso espaço a ocupar nas Américas, dado que os Estados Unidos estão mobilizados por outros vetores, como a guerra contra o terrorismo

Ninguém poderia ter previsto com precisão o terrível terremoto no Haiti, ainda que especialistas tenham advertido para a possibilidade. E seria também intelectualmente tortuoso tentar usar fatos pouco previsíveis de agora para justificar uma decisão tomada lá atrás. Mas algo é inegável: é ótimo que o Brasil e suas Forças Armadas estejam hoje bem instalados em terras haitianas. É a partir da posição brasileira ali que a comunidade internacional poderá intervir para evitar o caos absoluto.

Houve algumas resistências internas quando o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, com mandato da Organização das Nações Unidas, decidiu mandar tropas para a nação mais miserável das Américas, na esteira de uma conturbação política. Uns acusaram o Brasil de oferecer braços para manter a dominação colonial. Outros recorreram a uma crítica mais habitual. Por que gastar lá fora um dinheiro que poderia ser bem empregado aqui dentro, para coisas supostamente mais importantes?

O destino, com seus critérios obscuros, e neste caso trágicos, acabou transformando a empreitada haitiana num dos mais importantes investimentos desta administração no campo das relações internacionais. O Brasil é agora o jogador-chave no cenário da tragédia. E não era automático que fosse assim. A América Central não é área de influência natural nossa. Se há hoje ali uma disputa, é mais entre os Estados Unidos e a Venezuela, ainda que esta tenha perdido impulso depois do revés hondurenho. Sem falar nas dificuldades econômicas que atravessa o país de Hugo Chávez.

O Haiti é um lugar onde o governo brasileiro vem fazendo tudo certo (outro, após tropeços iniciais, é a Bolívia). Metemo-nos ali depois de chamados, e com amplo respaldo internacional. Quando decidimos entrar, foi para valer, mas com jeito. Teve até jogo da seleção brasileira em Porto Príncipe. E nossas tropas têm executado a missão com profissionalismo, sem os incidentes comuns em situações como essa, de quase ocupação.

Há um imenso espaço a preencher nas Américas, desde que os Estados Unidos estão mobilizados por outros vetores, como a guerra contra o terrorismo. É a hora do Brasil. Claro que sempre haverá tensões e divergências na relação do dia a dia com a superpotência, o que é normal. Parceria não é submissão. Mas é uma oportunidade de ouro que a situação tenha conduzido a isto: a consolidação da liderança regional, e ampliada, do Brasil interessa também, e muito, à Casa Branca.

E com a vantagem de o presidente americano ser Barack Obama. Sempre será mais fácil defender a legitimidade de uma cooperação com ele do que seria com outro qualquer.

Homenagem e obrigação

O governo prepara uma bela homenagem aos militares brasileiros mortos em consequência do terremoto. Mais do que justo. É preciso também que as famílias deles tenham o apoio material necessário para seguir suas vidas de modo digno.

Uma lupa

O Banco Central conseguiu. No ano da crise, com o crédito estrangulado, risco inflacionário zero e o mundo desesperado para escapar da recessão, a política da autoridade monetária conduziu-nos a uma inflação abaixo do centro da meta. Com crescimento zero, juro básico real bombando e os spreads bancários na lua.

Ainda bem que não são médicos. O sujeito entra no hospital para extrair o rim doente e, por via das dúvidas (ou para encorpar a conta), o cirurgião tira os dois. Vai que a mesma doença acomete amanhã o rim hoje bom? Melhor prevenir. Quando o paciente protesta, o hospital procura acalmá-lo dizendo que não cobrará nada pela retirada do segundo órgão.

No nosso caso foi pior. Fizeram a barbeiragem e ainda nos apresentaram uma conta adicional, em recessão.

Por falar em números, o Ministério do Trabalho informou dias atrás que os pedidos de seguro-desemprego bateram recorde em 2009. O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) apresentou o primeiro déficit operacional em duas décadas.

Num ano que, segundo o mesmo Ministério do Trabalho, foi excelente na criação de empregos formais.

Não faz sentido. Eu insisto que o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) está a precisar de uma boa lupa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (15) no Correio Braziliense.

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11 Comentários:

Blogger João Victor disse...

Alon,

A presença brasileira por lá é mais do que importante mas não pode submeter o Haiti a se portar como uma colonia brasileira (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2010/01/15/lula-quer-adotar-haiti-257831.asp).

Outro ponto, que descrevo melhor em meu Blog (http://joaovictorguedes.com.br/blog/?p=183) é sóbre a amplitude dos recursos. Estamos colocando cifras absurdas nas mãos de um governo corrupto e incompetente.

Será que não é o momento de começar a impor contrapartidas para que o dinheiro do contribuinte brasileiro não seja desviado?

Grande abraço.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 09:46:00 BRST  
Anonymous Marc disse...

Alon, seria otimo se tivesse explicitado de onde partiram " algumas resistências internas ". Aquardo!...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 12:40:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Ajuda humanitária ao Haiti é um dever de qualquer país civilizado dado que se trata de uma república paupérrima devastada por uma catástrofe natural.

Agora, interesse geopolítico em colocar o Haiti na esfera de influência do Brasil ou qualquer outro país só pode ser delírio de alguém que gosta de brincar de "rato que ruge". Na verdade, que tipo de interesse estratégico o Brasil pode ter em um "god forsaken country" como o Haiti ?

De resto, é hora de "cairmos na real". O Brasil é um país com PIB per capita apenas na média mundial ou até um pouco abaixo daquela. Tem indicadores sociais relativamente ruins, sério atraso educacional e tecnológico, participação relativamente baixa no comércio internacional, e muitos problemas de infraestrutura. Ao contrário da China por exemplo, não é uma grande potência militar, nem tem uma das 5 maiores economias do mundo em termos absolutos, nem tampouco tem crescimento de dois dígitos. O Brasil não é, nem se transformou agora por milagre em uma potência mundial.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 15:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Persiste,contudo ,o complexo de de vira-latas.Para muitos,missivistas,percebe-se um desconforto atávico pela posição que o país vai assumindo.Acostumados ao papel subalterno que por gerações nos foi designado e aceito. Curiosamente ,me vem à lembrança, as manifestações da platéia durante as sessões de cinema nos filmes nacionais ,em que o protagonista ,em determinada cena, confessava a sua parceira : " Eu te amo.",e o cinema vinha abaixo em histéricas gargalhadas.Era o inconsciente coletivo impregnado de nossa tutela colonial remanescente.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 18:20:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Nesta situação da catástrofe no Haiti, não vale achar que ajudar o Haiti, primeiro com forças de pacificação e agora com mais ajuda humanitária, vai transformar o Brasil em potência hegemônica e decisiva. Dado o estágio da capacidade de influir de forma mais incontestável, ou é ajuda humanitária ou não. Não adianta ficar bravo se os norte-americanos assumiram a operação do aeroporto de Porto Príncipe e vão enviar cerca de 10 mil soldados. Se é que existe ou existiu o tão brandido complexo de vira latas, não será o problema dos haitianos a favorecer que o mesmo venha a ser mitigado. E tentar peitar os EUA em meio a uma catástrofe de tais proporções soa meio que, ai sim, uma introjeção de incapacidades.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 20:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, o artigo não deixa claro, mas o Brasil assumiu a liderança dos esforços de paz no Haiti a pedido num acordo tácito, a pedido do Governo Americano, ainda na era Bush. Tudo como estratégia para ganhar o apoio ianque na verdadeira obssessão que é o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. A tão alardeada química entre Bushinho e O Messias de Caetés era basicamente isso. Além de, claro, como o ex-presidente representava, na metafísica mundialmente dominante, o mal absoluto, todos os "males relativos" da política externa tuponiquim (estender a mão a ditaduras dos mais diversos matizes, por exemplo) estariam, a priori, justificados. Com a chegada d'O Messias Ianque, tudo mudou, pois Barack além de não encarnava a faceta satânica do império, também se revestia daquela aura santa que sua história pessoal conferia (apesar de, na minha opinião, ele ser totalmente establishment). Como os EUA não encampara a ideia de apoiar o pleito brasileiro na ONU, houve uma nítida guinada antiamericanista na política externa. Honduras, o endosso explícito às eleições iranianas e o jogo pesado no Congresso para apoiar a entrada da Vnezuela no Mercosul são sinais disso. Por isso, concordo quando você diz que discordâncias entre nações são normais no jogo geopolítico, mas discordo quando afirma que são casos pontuais. Pra mim, há sim uma estratégia antiamericana a mover as peças, afinal a união de Samuel Pinheiro Guimarães e Marco Aurélio Garcia não poderia dar em outra coisa.

Abs

Kbção

sábado, 16 de janeiro de 2010 13:58:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Esqueci de uma coisa, duas ponderaçoes acima merecem reflexão. A questão dos gastos e o fato do Brasil se portar como um "novo rico" no cenário mundial, tentando, destrambelhadamente, meter o bedelho em diversos assuntos sem ter, ainda, conseguido uma status adequado para este tipo de atuação.

Kbção

sábado, 16 de janeiro de 2010 14:01:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Embora atrasado, deixo os votos para que 2010 traga ótimas realizações e muita saúde para você e a família e também aos leitores do blog.

Ao que parece o governo americano não é tão confiante na capacidade brasileira (leia-se ONU) de liderar a ajuda humanitária e manter a segurança dos cidadãos haitianos.

Obama oficializou hoje o “Fundo Clinton-Bush” com o objetivo de coordenar o envio de ajuda e garantir a segurança necessária aos trabalhos de distribuição de gêneros, resgate de vítimas, atendimento médico. Os ex-presidentes ficarão encarregados de reunir as contribuições de indivíduos, corporações, ONGs etc. Obama explicou que o esforço americano é similar ao que Bush conduziu com o pai e com Clinton em 2004 na ocasião do tsunami.

Hillary e o diretor da USAID, Rajiv Shah, já estão no Haiti e vão reunir-se com o presidente René Préval.

Rápido no gatilho, Daniel Ortega disparou hoje que “se está manipulando un drama para instalar tropas norteamericanas en Haiti [..] Espero que retire las tropas, porque al ocupar Haití está ocupando Estados Unidos territorio latinoamericano y caribeño”.

Neste sábado os jornais já trouxeram as previsíveis notícias de saques e violências em Porto Príncipe.

Eu faço votos que essa ridicularia geopolítica termine tendo como o melhor resultado o envio efetivo de todos os meios para minorar o sofrimento do povo haitiano e contribuir para a reconstrução do país.

PS: Pelo o que li, uma grande maioria do efetivo de 10.000 soldados não ocupa “territorio latinoamericano y caribeño“, mas aguarda estacionada em navios da marinha americana na costa do Haiti.

sábado, 16 de janeiro de 2010 20:23:00 BRST  
Anonymous Chesterton disse...

O Brasil ocupar posição de destaque fora das fronteiras requer diplomacia muito mais qualificada que Amorim et caterva, e o espaço foi ocupado pelos americanos apesar dos outros compromissos no mundo inteiro.

domingo, 17 de janeiro de 2010 11:52:00 BRST  
Blogger Conti-Bosso disse...

Caro Alon,

O Presidente Americano, mandou um recado para voce para mim e para o mundo.


(...) "E assim, os Estados Unidos da América vai liderar o mundo neste esforço humanitário. Essa tem sido a nossa história, e é assim que iremos responder o desafio diante de nós.".

Comentário:
A osquestração dos EUA, se não mais uma força hegemônica global (Giovanni Arrighi-Adam Smith em Pequim), ainda é e serão por um bom tempo, uma força dominante majoritária.
Cai como um recado do império e um "tapa de pelica" e aviso ao mundo, principalmente para quem deseja promover "bravatas" acima da nossa realidade, como uma suposta futura potência, que todos desejamos, mas que não somos hoje.


Na integra:
http://blogln.ning.com/profiles/blogs/barack-obama-newweek-porque-o

Sds,
Conti-Bosso
P.S.: A foto melhorou e muito.

domingo, 17 de janeiro de 2010 16:26:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Qual a relação entre a ajuda brasileira ao Haiti e anseio por uma vaga para o Conselho de Segurança na ONU? Há um interesse por trás disso, qual é?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 19:50:00 BRT  

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