terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Proprietários e funcionários (19/01)

Quer saber o erro que não se pode cometer numa eleição? É o mesmo que se deve evitar numa entrevista de emprego

A eleição chilena serve para tirar conclusões a respeito da eleição brasileira que vem aí? Se as pitonisas do Oráculo de Delfos estivessem operacionais, seria uma pergunta a fazer. Ou então alguém ansioso além da conta pode colocar a coisa mais diretamente: a vitória da oposição no Chile é a demonstração definitiva de que voto não se transfere?

Dizem que o oráculo famoso reinou por um tempão na Grécia Antiga, e tinha muita credibilidade. Segundo consta, seu cacife resultava também de certa metodologia, sábia. Depois de aspirar uns gases (provavelmente alucinógenos) vindos das pedras, as pitonisas davam respostas indiretas, oblíquas, que exigiam interpretação. Não era preto no branco, era mais sofisticado.

Talvez o jornalismo político deva aprender com as pitonisas gregas. Da minha parte, estou pronto a colaborar com o método. Esta vai ser uma campanha longa, passional e verbalmente selvagem. A cada momento vocês exigirão previsões definitivas, diagnósticos irreversíveis. Por que o sujeito quer isso, mesmo quando cheira a charlatanismo? Para conforto próprio, para se agasalhar na “certeza” alheia e não sentir o frio incômodo da própria dúvida.

O resultado no Chile permite alguma conclusão definitiva sobre a eleição no Brasil? Não. A única verdade reafirmada ali é que voto não tem outro dono além do próprio. O que não chega a ser uma novidade. Tratei do tema duas semanas atrás em “Lula na praia”. Não existe o “lulismo”. A expressão é uma peça do populoso universo ficcional da política, é uma bengala que ajuda a manter intelectualmente de pé quem previu um governo do PT catastrófico, e naturalmente quebrou a cara.

A maioria dos brasileiros enxergam o presidente como um ativo seu, e o protegem. Se há relação de pertinência, é mais razoável dizer que Luiz Inácio Lula da Silva é do eleitor, e não o contrário. O cidadão quando vota está contratando um funcionário, não um proprietário. Daí por que o candidato quebra a cara quando se comporta de maneira senhorial, arrogante, autossuficiente fora da medida. Ou quando dá a impressão de estar mentindo. Quer saber o erro que não se pode cometer numa eleição? É o mesmo que se deve evitar numa entrevista de emprego.

O eleitor está atrás de soluções e eleição é sempre uma oportunidade de escolher alguém que pode providenciá-las. Na escolha de um empregado, as referências são importantes. Assim como o currículo. Mas a decisão final é sempre algo subjetiva, vem de um detalhe, de uma impressão, da segurança que o candidato transmitiu ao lidar com assuntos que o contratador julga importantes.

Por que a aliança entre democrata-cristãos e socialistas perdeu no Chile? Por causa da pasmaceira econômica e do cansaço popular com a politicagem. E porque o eleitor comum, não engajado, de vez em quando gosta de promover alternância no poder. Para evitar a “síndrome da panelinha”. Isso fez um punhado de votos migrar de um lado para o outro, invertendo a maioria.

Como vai ser aqui em outubro? Qual será a principal preocupação de sua excelência, o portador de título eleitoral, quando começar a dar tratos à bola sobre a necessidade de trocar o presidente da República?

Eu confesso que ainda não tenho a mínima ideia, e portanto não vou colocar meu modesto carro na frente dos boizinhos. O PT aposta que o eleitor sairá de casa no dia da eleição para “evitar a volta da turma do Fernando Henrique, que vai acabar com as coisas boas que o Lula fez pelos pobres e pelo Brasil”. É uma tese a verificar, até para descartar a possibilidade de o petismo estar colocando o desejo no lugar reservado à realidade. E os tucanos, apostam no quê? Pelo jeito, nem eles descobriram ainda.

Sem alternativa

Sempre se aproveita algo de qualquer debate político, desde que bem peneirado. Mas mesmo essa regra admite exceção. Nos últimos dias surgem críticas relacionadas aos possíveis aspectos negativos da intervenção estrangeira no Haiti depois do terremoto. Queriam o quê? Deixar o povo à própria sorte, a pretexto de evitar a ingerência externa?

A hora não é própria ao blá-blá-blá. É momento de colocar 100% do foco na ação. O paralelo é com o paciente que chega acidentado à UTI. Primeiro é preciso fazê-lo viver. Depois se cuidará do resto, inclusive dos efeitos colaterais do tratamento, que podem durar pelo resto da vida. Mas, se a alternativa é morrer, não há de fato uma alternativa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta treça (19) no Correio Braziliense.

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15 Comentários:

Blogger pait disse...

Então arrisco eu uma previsão: ganhe um partido ou outro no Brasil, as coisas não vão ser muito diferentes, como não vai mudar muito o Chile com a troca de partido.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010 23:11:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Eu tô é cansado e enojado dos novos porcos. Que se faça um rodízio na fazenda.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 00:19:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Concordo em parte com suas ponderações sobre o pitonismo no colunismo político na imprensa. É que ali o pitonismo grassa. Salvo as honrosas exceções, as análises que leio são como previsões de horóscopo. A depender do humor ou da conjunção dos astros, dizem os pitonistas do colunismo, tudo ou nada ou talvez nem isso possa vir acontecer... :)

Discordo da unilateralidade expressa na sua “teoria da bengala”.

Antes de ser bengala dos críticos de Lula, o "lulismo" é uma construção ideológica muito bem elaborada e cuja origem deve ser investigada nas hostes intelectuais da antiga esquerda marxista-leninista desgarrada do Partidão, da igreja católica, do sindicalismo atrelado ao Estado. E com a chegada de Lula ao poder, o “lulismo” encontrou guarida entre as oligarquias ligadas aos grupos econômicos dependentes do Estado.

No entanto, concordo com você quando escreve que “voto não tem outro dono além do próprio” e que “a maioria dos brasileiros enxergam o presidente como um ativo seu, e o protegem”. Por quê? E eu sei lá o que se passa em cada cabeça de cada eleitor?. Se eu me propusesse uma investigação sobre a popularidade de Lula, eu trataria de pesquisar e responder apenas sobre o “como”.

Voltando ao assunto, eu penso que o “lulismo” é originalmente uma criação de indivíduos e grupos ligados pelos mais variados interesses (sobretudo, os ideológicos e econômicos) à chegada de Lula ao poder. A construção do "lulismo" beneficia tais setores. O “lulismo” hoje é parte integrante do nosso velho establishment econômico e político. Aliás, pelo campo da esquerda as melhores análises sobre essa integração do “lulismo” ao establishment ainda são as do Werneck Vianna.

Tanto é assim que, repetindo o que você escreveu, em fevereiro o PT vai homologar a candidatura presidencial única imposta pelo “lulismo” e apostar que o eleitor sairá de casa no dia da eleição para “evitar a volta da turma do Fernando Henrique, que vai acabar com as coisas boas que o Lula fez pelos pobres e pelo Brasil”. No meu entendimento, isso é “lulismo” em estado puro. É a “bengala” do oficialismo.

Sobre as razões da vitória do empresário e político chileno, nada tenho a dizer porque não acompanho com atenção a política chilena. Disso, o mais interessante até agora foi a declaração do centro-esquerdista (sigo o critério classificatório preponderante na imprensa sobre o direitismo de Sebastián Piñera e o centro-esquerdismo de Eduardo Frei) José Serra, que disse ter torcido pela vitória de Frei. Pela lógica proposta pela “teoria da bengala”, era de se esperar que o neoliberal e direitista José Serra saudasse a vitória do candidato que representa no Brasil o oposto do “lulismo”.

PS: O título do post sintetiza o principal significado da Revolução Gloriosa de 1688: a supremacia da representação parlamentar sobre a coroa. Depois da deposição de Jaime II, os novos monarcas são obrigados a jurar a Bill of Rights de 1689 (o texto está disponível na internet). Os novos monarcas devem a sua posição não mais a Deus, mas aos representantes do povo no Parlamento. Ou como você escreveu, Bill of Rights expressa com todas as letras que “o cidadão quando vota está contratando um funcionário”.

Abs.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 01:11:00 BRST  
Blogger CrápulaMor disse...

Respondam esta pergunta: quais são as chances da Dilma este ano, se o Lula não puder aparecer no Programa de TV dela?

Nulas. Absolutamente nulas. No Brasil, os programas eleitorais são as principais fontes de informação para a decisão do eleitor. No Chile, eu penso não ser muito diferente, mas foi exatamente o que aconteceu lá. Bachelet não deu as caras nos Programas do Frei. O motivo? Nem desconfio! Estranheza por madrinha e candidato serem da partidos diferentes? Estratégia totalmente equivocada da coordenação da campanha? Algum impedimento legal? A conferir. De qualquer forma, desconsiderar este fato compromete qualquer tentativa de paralelo entre cá e lá. Tá no youtube, os jornalistas não se dão sequer este trabalho de ir conferir.

Além disso, o tempo de TV parece ser igualmente distribuído lá, enquanto aqui a Dilma vai concentrar boa parte do espaço no Horário Eleitoral, o que tem sido determinante para o resultado final. As eleições em todas as principais capitais, em 2008, demonstram isso claramente. Somam-se a isso, a já citada fadiga material de 20 anos no poder, e o fato de Frei - ao contrário da Dilma - já ser bastante conhecido, pois foi presidente. Isto é um problema porque Frei saiu mal avaliado. Nada trágico tipo FHC, mas o suficiente pra não empolgar um eleitorado ávido por novidades.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 01:31:00 BRST  
Anonymous Tovar disse...

Sujeito aos equívocos das reduções simplistas, as estratégias - PT e PSDB - se diferenciam pelo período temporal a que estarão voltadas.
O primeiro com o olhar a ré, buscando comparar o governo que se vai com o que já se foi.
O segundo puxando a comparação para os candidatos propriamente ditos, seus curriculos e os desafios que virão.
Se o eleitor for saudosista, Da. Dilma estará eleita com facilidade.
Se a opção se der com base na melhor garantia curricular (sentido amplo), o Dr. Serra será o próximo Presidente.

Parece que, antes de tudo, a eleição no Chile apontou os olhos do eleitor a frente e a escolha com base no que foi percebido como melhor candidato.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 09:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, nem você nem a maioria dos colunista ainda não abordaram a realidade inespugnável que motivou o resultado da eleição no Chile: em menos e 1 anos a taxa de desemprego do Chile saiu de 6% para 12% (dobrou). Aí vem aquela frase do ecnomista que assessorou o Clinton justificando sua reeleição mesmo com o desgaste do caso com a estagiária: "É a economia estúpido". Mesmo a Michelle tendo 80% de aprovação dos chilenos, a alta de desemprego foi o preponderante no resultado.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 14:58:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O que aparenta que existe com certeza mo Brasil e que fica ressaltado a cada período eleitoral, é o situacionismo. Antigamente uma palavra era utilizada para definir o fato: adesismo. Às vezes, cunhava-se o termo situacionismo adesista, talvez para tentar mostrar que o processo era contínuo e sempre poderia ser aprofundado. Parece um termo atual.
Swamoro Songhay

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 15:37:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Amigo Alon,
Morei boa parte da minha vida no Chile e tenho algo a acrescentar ao debate. A derrota da Concerttación aconteceu pelo o que nós e nossos analistas políticos no Brasil chamamos de "desgate de material". Eles já estavam no poder há mais de 20 anos. Obtiveram ganho de desenvolvimento e distribuição de renda extraordiários se comporados ao Brasil, mas, o quer atraiu em Piñeira foi colocar um fim à corrupção de baixo escalão que é prima irmã do "desgaste de material" e que permite aos participantes de eleições migrar dos temas concretos para os tema morais, obtendo assim, os 4 ou 5% a mais que precisam para vencer.
Piñeira, durante todo o segundo turno defendeu a continuidade. Frei passou todo o segundo atacando Piñeira. Resultado, a direita levou com o compromisso de não mudar, que já começa a ser discutido agora, depois da vitória.
No Brasil, falar em corrupção no segundo escalão é pleonasmo. Infelizmente nosso eleitorado ainda se manifesta por outros caminhos, onde vale o ganho concreto que terão com um ou outro projeto independente de umas maldadezinhas aqui e alí.
Acho que a vitória de Piñeira contém sim um recado aqui pro pessoal: o buraco, amigos, é mais embaixo. Mas também concordo com a sua conclusão, é cedo para concluir algama coisa.

Paulo Cunha

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 17:39:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

o André Singer escreveu um interessante texto sobre as bases sociais e ideológicas do "lulismo". Vale a pena conferir...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 18:19:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Acho que não é boa idéia para a oposição fazer uma comparação com o Chile.
Afinal, se formos seguir o oráculo, faltam 12 anos para completar os 20, quando houve alternância lá.
Aliás se for fazer um paralelo com o Chile, a semelhança é mais com 2006.
Ricardo Lagos tinha aprovação popular, escolheu uma ministra sua, de seu partido, ex-militante rebelde, acusada de "terrorista" e, se não me engano, sem experiência nas urnas. Era Michele Bachelet. E Lagos fez a sucessora, a primeira mulher a presidir o país.
O perfil de Dilma se encaixa mais na Bachelet de 2006, do que no perfil de Frei de 2010.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 19:15:00 BRST  
Blogger Briguilino disse...

Alon, para acabar de vez com o candidato da oposição (seja qual for), basta no debate a Dilma deixar ele dizer o que fará se eleito for e depois perguntar: Por que não fez quando foram governos? E mostrar os numeros da oposição e do governo Lula.

Exemplo: Selic, emprego, inflação, investimento e por aí vai.

Faz tempo que escrevi isto http://blogdobriguilino.blogspot.com/2008/11/pergunta-decisiva.html mas tenho certeza que é atualissímo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 19:30:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O problema é saber até quando o Serra conseguirá manter afastado o fantasma da polarização. No Chile, havia apoio maciço a um governo. No Brasil, apóia-se uma pessoa, antes de mais nada. Se Lula começar a bater forte em Serra, ficará cada vez mais difícil encontrar a reação adequada.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 23:16:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Eu não vou me fazer de pitonisa, digo na lata: dona Dilma eh inelegível. Não sei quem vai ser o próximo presidente, se Serra, outro tucano, ou ate algum petista. Mas aposto com quem quiser que não vai ser Dilma. Uma candidata fraquíssima.

Juca Seborrezzi

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 03:13:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A idéia de comparação com o Chile é pior para a situação, caso tente vincular a posição política do candidato vencedor lá com eventual candidato da oposição aqui. E adicionalmente, tentar vincular perfis entre a atual presidente do Chile com eventual candidatura governista nas eleições brasileiras, mostrará exatamente que paralelos não se cruzam.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 08:55:00 BRST  
Blogger Guilherme Scalzilli disse...

O Chile é aqui

Semelhante ao mito do “renascimento conservador”, outro delírio provocado pelas eleições chilenas é o de que a imensa popularidade de Lula também poderia ser insuficiente para alavancar Dilma Rousseff. Poderia, claro, mas quem disse que não? Ninguém precisa da vitória de Piñera para reafirmar essa possibilidade.
Há uma curiosa precaução na escolha de exemplos exteriores. Michelle Bachelet não serve como símbolo feminino de sucesso e competência, por exemplo. E a derrota de Eduardo Frei não revela uma insatisfação com políticos tradicionais identificados com o centrismo, tendência que talvez prejudicasse o PSDB de José Serra e FHC.
Muitas dessas bobagens continuarão a ser testadas pela mídia, até o início da campanha eleitoral. Cada qual escolherá o alucinógeno mais conveniente para suportar o fel da realidade indesejável.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 12:15:00 BRST  

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