terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Os políticos e o feriado (05/01)

Se a presença dos políticos é dispensável quando o povo está sofrendo, tampouco deveria ser necessária quando o povo está celebrando

O governador Sérgio Cabral pôs em circulação uma teoria sobre por que o governante não precisa estar presente em situações nas quais sua participação direta é operacionalmente inútil: o contrário seria demagogia. Afinal, o governante ele próprio pouco ou nada pode fazer na hora, por exemplo, de tragédias como as deste ano-novo, em que as águas tiraram a vida de dezenas de pessoas no sudeste do país.

Segundo a teoria cabralina, o Estado tem funcionários capazes de lidar com o quadro, e nessas ocasiões os políticos só atrapalham.

Há dois problemas aí. Vamos ao primeiro. Nas mais de 24 horas em que nem o presidente da República conseguiu localizá-lo, o governador teve como enviar o vice a um dos locais afetados. Então, em lugar da suposta demagogia, viu-se no Rio o quê, a vice-demagogia? Agora o segundo. Se a presença dos políticos é dispensável quando o povo está sofrendo, tampouco deveria ser necessária quando o povo está celebrando.

Por que Cabral organiza e festeja inaugurações de escolas, de postos de saúde, de obras em geral?

Ficou pronto? Põe para funcionar. Para que fazer festa, chamar a imprensa, juntar as pessoas e discursar? Poderia ser interpretado como demagogia.

Políticos são seres comuns, com defeitos. Bom é quando o defeito gera benefício para o eleitor-cidadão. Por isso a demagogia não pode ser listada como o pior pecado de um político. Ela perde de longe para a omissão. O demagogo quer saber o que fazer para ser bem visto pela gente a quem governa. O omisso não está nem aí. Especialmente quando se sente protegido da crítica.

Mas não sejamos injustos com o governador do Rio de Janeiro. Ele está muito bem acompanhado. Pouco a pouco, implanta-se um modelo gerencial e de comunicação nas nossas administrações, em todos os níveis. Autoelogio maciço e sistemático, criminalização da crítica e achincalhamento dos críticos, difusão regular de teorias conspiratórias sobre a motivação de quem critica. O governante está sempre certo. Se você enxerga problemas, é porque tem alguma intenção oculta — e maligna.

Só que de vez em quando o sistema falha, com os custos políticos decorrentes. Infelizmente para as autoridades (e mais infelizmente ainda para as vítimas e seus familiares e amigos), aconteceu uma desgraça brutal bem no meio do feriadão da passagem do ano. E toda a cadeia hierárquica da política nacional estava de folga. Quem reagiu mais rapidamente (ou menos lentamente) foi a equipe de comunicação da Presidência da República, que defendeu o chefe e fez divulgar a conversa telefônica entre Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Geddel Vieira Lima, da Integração Nacional e responsável pelas verbas federais para a Defesa Civil.

Lula leva a vantagem de ter sensibilidade política alguns graus acima. Mas mesmo o presidente, que gosta de falar sobre tudo e está sempre a se comunicar, não julgou relevante dar, ele próprio, uma palavra solidária aos atingidos.

O governador de São Paulo, José Serra, que passava o feriado na Bahia, não teve a socorrê-lo um esquema de comunicação tão azeitado, que pelo menos fizesse circular a tese de que tinha tomado providências telefônicas. O governador foi aparecer na inundada São Luís do Paraitinga só no domingo, depois que o caos já havia alcançado proporções dantescas. E quando o feriado já estava no fim. Já o colega de Minas Gerais, Aécio Neves, preferiu atravessar os dias de chuva em completo silêncio.

E não é só. Além do “esqueçam de mim no feriado”, os políticos recorrem a outro expediente engenhoso. Conforme a conveniência, alternam entre o papel de governante e o de ombudsman. Tampouco nisso os concorrentes são páreo para Sérgio Cabral. Segundo ele, a tragédia do ano-novo era uma “crônica anunciada”. Mas, se estava anunciada, por que não tomaram as providências antes de acontecer?

Sem falar no “a culpa é das vítimas”. Em São Paulo, há bairros que ficam sob a água por longo tempo quando chove muito. A prefeitura diz que a área é inadequada para moradia, por estar na várzea do rio.

Mas não é exatamente a prefeitura quem deveria controlar isso? Só descobriram agora?

Governar no Brasil hoje em dia é uma grande moleza.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na ediçào desta terça (05) do Correio Braziliense.

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12 Comentários:

Anonymous Duarte disse...

O argumento do governador Cabral é válido, sempre que a administração pública funciona a contento. Em todo o serviço público de necessidade, a população quer a presença do estado e não de políticos.

Se o meu prédio pegasse fogo, eu preferia receber a visita imediata do corpo de bombeiros, dispensando a visita de qualquer político. Só se o corpo de bombeiro não funcionasse, faria sentido reclamar aos políticos.

Para quem assiste na TV, a presença de um governante visitando locais de tragédias pode impressionar bem, mas para quem é vítima no local da tragédia, a visita de autoridades realmente atrapalha. Consome recursos, como barcos, helicópteros e pessoal qualificado para acompanhar que deveriam estar alocados para prestar socorro.

Já em inaugurações, a presença de políticos não atrapalha ninguém. Racionalmente seria razoável dispensar, mas quando autoridades não comparecem é considerado pela própria população local, desprestígio. Não culpe apenas os políticos quando eles atendem os rituais reclamados por seus representados (ainda que movidos por busca de votos).

Há críticas mais produtivas a serem feitas a governantes, principalmente aquelas que concentram-se no que estava ao alcance do governante fazer e não foi feito para evitar tragédias e transtornos.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 03:31:00 BRST  
Anonymous Pedro Leme - Macaé (RJ) disse...

Entendi, Duarte, o seu raciocínio. Tenho acompanhado seus comentários neste e noutros posts. Resumo da ópera: tudo que vem de Lula ou de algum aliado de Lula é bom, certo e merece ser elogiado. Você é um bom exemplo do que o Alon descreveu no comportamento dos críticos da mídia. A atitude do Cabral foi bizarra. E o argumento dele é ridículo. Ele não precisava ficar no meio dos escombros, com os bombeiros. Poderia ter instalado um QG provisório na cidade, conversado com parentes de vítimas, cobrado pessoalmente os chefes da operação sobre o andamento da coisa, etc. Conta outra.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 08:41:00 BRST  
Anonymous Marola disse...

Parabéns Alon, o melhor artigo que li a respeito das recentes tragédias. A atuação desses "governantes" foi abaixo de crítica. Me faz lembrar o episódio do vazamento de mercúrio em uma fábrica localizada em Minas e que poluiu o Rio Paraibuna afetando populações ribeirinhas no Estado do Rio. Questionado sobre a precária fiscalização exercida pelo governo mineiro, Aécio prontamente se enrolou na bandeira de Minas e saiu-se com aqueles velhos chavões de que Minas não foge de suas obrigações e patati patatá. Ora o problema não era com Minas ou os mineiros, mas sim de incompetência do governo DÊLE. São todos bisonhos, independente de partidos.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 10:49:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Realmente, para alguns governantes, até os eventos climáticos param de ocorrer. Só ocorrem no quintal do governante oposicionista vizinho. Ou se o vizinho aponta, é só por pura incompetência. Porém, aos bafejados, quando algo ocorre, ai sim os raios, a precipitação pluviométrica, os deslizamentos etc. são os maiores, como nunca antes. Além das distâncias, que são amazônicas, mesmo que Mangaratiba situe-se cerca de 50km de Angra. No caso de São Paulo e o bairro na várzea, todo dia há informações da imprensa sobre as medidas e deslocamento das pessoas para outro local.

Swamoro Songhay

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 11:12:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Pedro Leme, se você não percebeu, meu comentário isenta José Serra também de não ter visitado o Vale do Paraíba até Domingo, portanto, apesar de eu ser eleitor de Lula (e não de Cabral) é engano seu abordar meu comentário sob o ângulo partidário.

Esse QG provisório que você sugere, é exatamente o que digo que atrapalha: um governador precisa ir acompanhado de segurança, precisa proporcionar acesso à imprensa para fazer cobertura, e todo esse movimento prejudica o trabalho local dos bombeiros e da defesa civil.

Além disso um governador é um só, a baixada fluminense também estava inundada, com menor cobertura da imprensa, em parte por ter menos vítimas fatais (mas também teve), em parte por Angra ter mais glamour, local de residência de famosos. Onde deveria ser esse QG de um governador? Em Angra ou na Baixada?

É por isso que defendo que a imprensa pare com essa obssessão de presença de políticos em tragédias, e seja mais obstinada com a ausência de estado.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 14:18:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Se o Sérgio Cabral tivesse ido imediatamente ao local da tragédia e permanecido lá, já que estava a 60 km do local, com certeza todos os servidores trabalhariam mais a contento, seriam mais prestativos, especialmente no trato com a burocracia (claro, não falo dos bombeiros e da defesa civil, que já estavam fazendo o melhor que podiam independente de alguém estar ou não de olho), mas todos os recursos são mais rápidos e mais precisos se o Big boss está à frente. Ótimo comentário. Discordo totalmente do Duarte.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 16:45:00 BRST  
Anonymous Gnomo disse...

Discordo radicalmente da discordância a radical defesa do Governo e seus aliados, ocorra o que ocorrer. É só o sagrado exercício radical de cega boa fé.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 17:51:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Discordo totalmente do Anônimo.
O funcionalismo público deve ser profissional, de carreira, e agir independente de motivações políticas para trabalhar mais a contento.
O servidor público de carreira serve ao cidadão e não o governo de plantão.
É absurda essa cultura de servidores trabalharem mais a contento só quando há presença de autoridades ou da imprensa.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 18:19:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Acrescentando que apesar do falado glamour de Angra, várias das vítimas são pessoas simples, trabalhoras na cidade. Não trata-se de isentar uns e outros. A moda vigente é ver se o vizinho oposicionista foi ou não foi, fez ou não fez, falou ou não falou. Pouco importa o que fez o situacionista. Assim, parece que o governador de São Paulo não precisaria de tal tipo de isenção. Nem o do Rio, que estava a cerca de 50 km do local e levou 24 horas para aparecer.

Swamoro Songhay

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 19:09:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pedro Leme,

Concordo contigo plenamente. A descrição do Alon enquadra bem o primeiro comentarista do post.
Moro aqui em Natal/RN e, mesmo afirmando para os meus amigos da universidade que sou de esquerda e que sempre votei neste grupo político, sou sempre enquadrado como "conservador" porque faço, aqui acolá, algumas considerações críticas em relação ao Lula e a governadora local, que é da base do PT.
Esta maquinaria maniqueísta vem corroendo qualquer possibilidade de discussão crítica.
A visão plebiscitária pode até ser válida enquanto estratégia política. Porém, não pode nortear qualquer tipo de discussão analítica.
Não é porque beltrano é da base governista, que estará isento de uma análise mais profunda dos seus erros e acertos.

Daniel Menezes / RN

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 19:38:00 BRST  
Anonymous Spassos-RJ disse...

bem, mas quando se trata de viajar para a Europa, aí o Cabral acha relevante sua presença.
Por exemplo, quando foi anunciada as Olimpiadas de 2016, precisava do Cabral lá na Dinamarca, ou bastava o secretário dos esportes ?
Eu acho que não precisava do Cabral, Lula e Paes, mas eles estavam lá, claro.
No melhor hotel, com tudo do bom e do melhor, pago com o dinheiro do contribuinte.
Mas quando se trata desses pobres ....
que gente chata, que só traz problemas e ainda atrapalha as férias dos governantes !

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 21:45:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Parece que tanto o Lulismo como o anti-Lulismo desperta paixões que inibem a razão.
Eu não sou defensor de Cabral por ele ser um aliado de Lula, e ele sequer é meu candidato preferencial em 2010 (eu moro no Rio, e se tiver um candidato mais a esquerda terá meu voto).
Tanto é que não fiz nenhuma reparo ao resto desta nota do Alon onde crítica as falhas de governo como dizer que era uma “crônica anunciada”, então por que não tomaram as providências antes de acontecer?
Assinei embaixo desta critica ao não contestá-la.
Meu argumento foi claro: não considero relevante tapinhas nas costas de vítimas nas tragédias.
Considero relevante o que é feito para evitá-las e socorrê-las.
Uma boa crítica objetiva, fugindo de picuinhas, quem fez foi a reportagem da TV Brasil (logo a TV pública "do Lula", segundo a oposição), que dia 4 exibiu reportagem com críticas à um decreto de Sérgio Cabral assinado poucos meses atras (e contestado pelo Ministério Público), que afrouxou o licenciamento ambiental no Estado, inclusive na região de Angra, para beneficiar a especulação imobiliária, o que poderia expor moradias a riscos futuros. Isso sim interessa ao cidadão.
Curiosamente, jornais comerciais, que não são empresas públicas, recheados de anúncios imobilários, evitaram enfocar estas críticas, preferindo o jogo de esconde-esconde "Onde está Cabral"?

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 23:53:00 BRST  

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