quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Os amigos e os interesses (20/01)

No plano da solidariedade real, material, o governo do PT anda tímido. Não há sinal de que o software do poder esteja efetivamente mobilizado para levantar recursos para o Haiti

O ativismo planetário do presidente da República colocou o Brasil alguns degraus acima no jogo mundial da política. Tem um aspecto bom. Corrige a assimetria entre, de um lado, a nossa dimensão territorial, populacional e econômica e, do outro, nosso déficit de imagem e protagonismo — resultado talvez das dificuldades para superar a herança colonial. E tem uma faceta complicada, nas situações em que falta base material para sustentar a ansiedade por ser chamado para o baile.

A presença do Brasil no contingente e no comando das forças da ONU no Haiti permite agora, depois do trágico terremoto, um balanço inicial. Claro que ninguém poderia ter previsto a tragédia, só que as circunstâncias acabaram, a posteriori, por eliminar qualquer dúvida sobre a decisão de irmos para lá. Debater politicamente é sempre bom, mas inexistem hoje argumentos consistentes a sustentar que os haitianos estariam melhor sem nossas tropas.

A missão militar no Haiti vinha cumprindo bem a missão, conseguiu controlar a violência e neutralizou as gangues que detinham o poder nas comunidades mais miseráveis. Havia também movimentos iniciais para alavancar algum tipo de desenvolvimento econômico, sem o que — e o governo foi informado pelos militares — qualquer pacificação seria provisória. E desenhavam-se ainda avanços institucionais.

Este último aspecto talvez seja o mais importante. O Haiti teve uma bela luta pela independência, mas fracassou historicamente na tarefa de construir um Estado, se não democrático, pelo menos operacional. E sem poder público organizado e legítimo não há como fazer valer o interesse coletivo. O resultado desse fracasso eram, mesmo antes do terremoto, uma elite corrupta e egoísta, que produziu o maior cenário de pobreza e miséria das Américas, e um povo sem futuro.

E veio o desastre geológico. Aqui, infelizmente, fez-se notar de novo um certo descompasso entre nossa capacidade política, ou autoridade moral abstrata, e nossa eficiência operacional. Não na esfera militar, mas na civil.

O governo movimenta-se bem para defender a posição no tabuleiro. O ministro de Relações Exteriores reclamou quando sentiu que os Estados Unidos estavam tratando o Brasil de um jeito inadequado, dada a importância dos brasileiros no teatro de operações. E a autoridade e o prestígio de Luiz Inácio Lula da Silva mostram-se necessários para dar cobertura à presença de tropas americanas no Haiti. Somos um certificador de “não imperialismo”.

Mas no plano que mais importa neste curtíssimo prazo, o da solidariedade real, material, o governo do PT anda tímido. Não há sinal de que o software governamental esteja efetivamente mobilizado para levantar recursos. Os montantes divulgados correspondem a um punhadinho de emendas individuais de parlamentares. Coisinha pouca.

Quanto doaram até agora os empresários do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, que de tempos em tempos vêm a Brasília bater continência para o poder? E as centrais sindicais? E as grandes empresas que fazem negócios com o governo? Não seria bacana se fossem instadas a soltar recursos para o Haiti?

Nem seria preciso muita imaginação. Bastaria usar os argumentos que as levam a desembolsar um dinheiro digno desse nome nos períodos eleitorais.

Ainda aprendiz na cena mundial, o Brasil ameaça copiar um velho defeito (ou qualidade, conforme o ângulo) dos americanos. Os Estados Unidos criaram a reputação de não terem amigos ou inimigos, apenas interesses.

O governo do Brasil opera bem para defender nossos objetivos no Haiti. Mas não mostra a mesma eficiência para defender os interesses dos nossos amigos, hoje irmãos, haitianos.

Competentes

Erra quem acusa a oposição de desleixo na missão de preparar um discurso para a campanha eleitoral. O PSDB dá tanta importância à tarefa que decidiu produzir não um, mas dois discursos. Um para ele e outro para a adversária.

E foram tão camaradas com o PT que antes mesmo de providenciar o deles próprios já finalizaram o de Dilma Rousseff, ao dizerem que se eleitos vão acabar com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Deve ser a tal “competência gerencial”, aqui aplicada na situação concreta de uma campanha política.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (20) no Correio Braziliense.


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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Eu quase não acreditei quando li que Sergio Guerra disse que o PSDB iria acabar com o PAC.
Como torcedor pela eleição de Dilma, faço um pedido a Sérgio Guerra: que o PSDB passe a chamar o Bolsa Familia de Bolsa Esmola.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 09:36:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Parabéns pelo "tom", Alon. Está perfeito, e foge dessa briguinha burra "tucanos x petralhas". Adorei o blog, e passarei a frequentá-lo.

João Vergílio G. Cuter

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 10:59:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Se o governo brasileiro incomodou-se tanto com a presença americana no Haiti deveria ter, no mínimo, a sensibilidade de manifestar-se ao governo americano através dos famosos canais competentes diplomáticos. Mas não, o grande negócio do governo é a propaganda. É bater o bumbo e agir para o público interno e anunciar que, "apesar da torcida antipatriótica", acabou-se a herança do complexo de vira-lata e que "nuncantes" blablablabla...

Quanto à real sensibilidade das grandes empresas amigas-dependentes do Estado, sindicatos e do PT para com os filhos do Haiti, basta tomar como medida a presteza com que tais grupos concorreram para a arrecadação dos quase US$ 10 milhões, que pôs nas telas dos cinemas brasileiros aquele que seria "o filme" sobre "o cara" e capaz de superar em bilheteria o ótimo "Dois Filhos de Francisco".

Sim. Li que o mercado estima que o "Filho do Brasil" deve arrecadar nas bilheterias algo próximo de US$ 600.000.

PS: Nada contra e tudo a favor dos nossos valorosos soldados em missão no Haiti (e demais voluntários anônimos civis). Só acho que eles não merecem o comando que têm.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 11:28:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Aviso

A estimativa de faturamento do filme que escrevi está errada. Fiz confusão com algo que havia lido sobre o número de espectadores.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 12:04:00 BRST  
Anonymous Chesterton disse...

A falta de meios é o gargalo essencial para uma ascensão do Brasil no cenário mundial. Cadê o porta-aviõs? Era francês. Cadê os aviões e helicópteros? Lula deveria estar agradecido aos americanos que lá chegaram e tentam arrumar a casa para devolver à ONU e seus representantes. Imperialismo? Ora, os haitianos só teriam a ganhar se fossem parte de algum império. Dali nunca saiu nada.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 12:06:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Realmente. A oposição deveria ter deixado para a candidatura do governo a proposta de acabar com o PAC. Agora, eles (governistas) terão obrigação de tentar fazê-lo existir e convencer as pessoas disso.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 12:50:00 BRST  
Anonymous Arturo A. disse...

Alon, concordo bastante com a análise. Não acho, entretanto, justa a afirmação de que o Haiti tem uma bela história de independência mas falhou na construção de um Estado. Esse tipo de afirmação desconsidera a teia social clivada de conflitos.
O que ocorre, na verdade, é que o Haiti paga até hoje pela ousadia histórica a que se atreveu.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 15:17:00 BRST  
Blogger Laguardia disse...

Alguns comentários:
1. PAC nada mais é do que um conjunto de obras que já estavam em execução por estados e municípios que recebeu o carimbo de PAC. Tal como o Bolsa Família que foi a união de diversos programas sociais e de distribuição de renda de governos anteriores. Portanto esta história de que se a oposição ganhar vai acabar com programas que ela criou quando era governo é puro terrorismo eleitoreiro de quem não tem um programa sério de governo para apresentar.
.
2. Realmente as Forças Armadas Brasileiras fizeram e estão fazendo um bom trabalho no Haiti. Mas Lula e o PT só sabem reclamar. Se tivessem deixado por conta do Brasil muitos mais já teriam morrido. Não sabemos nem controlar nossos aeroportos em condições normais que dizer de um aeroporto em condições de emergência recebendo mais de 100 aviões cargueiros por dia tendo que organizar toda a logistica de descarga dos mesmos.

3. Estas opiniões anti-americanas são infantis e irresponsáveis, típicas do esquerdismo ultrapassado e retrógrado dos anos 60.

4. Muitos se esquecem que quem manda no Haiti chama-se Rene Preval, o presidente do país. Obama conversa com ele sobre a ajuda. Hilary Clinton vai ao Haiti e fala com Preval. Agora Lula reclama com Obama de que o Brasil não tem condições de fazer o trabalho todo sozinho. Amorim reclama com Hilary Clinton de que os controladores de vôo estão discriminando aeronaves brasileiras. Este sim é o verdadeiro imperialismo brasileiro que não considera o Haiti uma nação soberana.

5. Espero sim que a oposição se eleita, acabe com o PAC

P de Prepotência
A de Arrogância
C de Corrupção

O governo Lula após 7 anos de governo tem a cara de pau de dizer que o povo está na m*, o que demonstra que ainda não sabe a que veio.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 17:54:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, o Brasil não é garantia de relações não imperialistas, entenda-se por isso o que se quiser. O Haiti é um país prostrado, já era antes do terremoto, sequer possui forças armadas, não é capaz de resistir a ninguém. Essa questão somente faz sentido no contexto dos pesadelos da esquerda. O que não impede, muito pelo contrário, que o governo produza bravatas, tendo em vista o público interno pertencente a essa mesma esquerda. É do jogo, apenas não vale uma linha de comentário. Não ter amigos, apenas interesses, não é uma invenção americana em política internacional, é a constatação de uma circunstância que se impõe a todos. Quando aparecem "amigos" é hipocrisia certa, e nem todo interesse é escuso -- como seria, por exemplo, se for interesse exclusivo do grupo no poder e não do Estado em questão. Agora, os US$ 15 milhões prometidos pelo governo brasileiro me pareceram uma soma significativa, comparando com a oferta de outros países. O Brasil ocupa seu espaço sim, o que não que dizer que possa suplantar os americanos, é sempre bom repetir porque parece que mitos não vêem o óbvio.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 18:40:00 BRST  

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