sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A esperteza do momento (22/01)

Em qualquer item será possível encontrar um país que vai adiante do Brasil. Bem como algum que vai lá atrás. É errado então comparar? Não

As previsões otimistas sobre a economia da China confirmaram-se: o gigante do Oriente cresceu 8,7% em 2009, recuo suave em relação aos índices de dois dígitos nos anos anteriores à crise planetária. A China toma oficialmente o lugar que o Brasil desejava e dizia guardado para si: o de primeiro país a deixar para trás a turbulência. E a locomotiva puxa os vagões, entre eles o nosso. De dedos cruzados, a humanidade torce para a máquina chinesa não soluçar.

Há entre nós um mecanismo curioso, estimulado pelas autoridades e docemente propagado pela elite. “Comparar o Brasil com a China não vale”, dadas as diferenças entre os dois países. Seria razoável, se fosse uma regra fixa. Mas quando o governo quer falar bem de si mesmo no enfrentamento da crise compara-nos, por exemplo, à Rússia, que amargou recessão brava em 2009. E também à Europa, aos Estados Unidos e ao Japão, que não sofreram tanto quanto os russos, mas vêm de um ano bem ruim.

Não deixaria de ser válido se o governo do PT aceitasse então comparações com europeus, americanos e japoneses em temas como educação, saúde, outros serviços públicos e infraestrutura. Ou com os russos em desenvolvimento científico. Mas aí não vale. Como fazer paralelos nessas questões entre o Brasil, uma nação apenas emergente, e as áreas mais desenvolvidas do globo? Seria injusto.

Eis um método. Como transformar o Brasil no melhor país do mundo, ao menos na esfera das percepções? Como criar aqui um caudal de autoestima? É fácil. Crescemos bem mais do que os russos em 2009, nossos direitos trabalhistas dão de dez nos dos chineses, nosso dinamismo econômico deixa o Japão na poeira e os estrangeiros, inclusive vindos dos países mais pobres, são muito mais bem tratados aqui do que na Europa. E apesar de a segurança pública não ir bem, esse é um problema de todos os países com graves desigualdades sociais.

Neste ponto você já percebeu que o método serve também para dizer que o Brasil é uma droga, quando for politicamente adequado. Relativamente a outros, há comparações disponíveis para atestar que nossa saúde pública é tosca, nossa educação pública idem, nosso crescimento é medíocre, nossos índices de violência urbana são de espantar, a produtividade das nossas universidades é baixa e não temos capacidade militar real de dissuasão.

Em qualquer item será possível encontrar um país que vai adiante do Brasil. Bem como algum que vai lá atrás. É errado então comparar? Não. As comparações são boas, valem como parâmetro para ver se estamos fazendo o melhor possível. Deveriam servir para estimular a superação dos limites, ajudar a avançar, para cultivar a insatisfação com nossas fraquezas, debilidades.

Deveriam. Infelizmente, o papel reservado a elas é outro. São, alternadamente, apenas pretexto para condescendência ou autoflagelação. Uma ou outra, sempre a que convier à esperteza do momento. Só depende se o esperto está no governo ou na oposição.

Nicho

O ministro Guido Mantega prevê que a economia vai crescer mais de 5% este ano. É possível que cresça mesmo. Tomara que 2010 não repita 2009, quando Mantega —já em plena crise— previu um crescimento de 4% e a economia acabou flopando.

Mas não deve haver grandes preocupações. A previsão deste ano do ministro é para valer, enquanto a do ano passado era só para distrair a plateia.

Eis um nicho de mercado a ser bem explorado pelas empresas de consultoria: dizer aos seus clientes quando o ministro da Fazenda do Brasil faz previsões em que acredita e quando ele coloca para circular informações em que sabidamente não acredita.

Vai ter gente ganhando um bom dinheiro.

A meio caminho

As recentes eleições avulsas nos estados americanos não têm sido boas para Barack Obama. A última derrota, na disputa da vaga do falecido Ted Kennedy no Senado, fez o presidente perder a maioria de três quintos na Casa.

A popularidade de Obama anda “normal” para um presidente americano a esta altura, mas ele enfrenta o desafio clássico: como manter unida e mobilizada uma base política cultivada antes na utopia e agora confrontada com a realidade do poder.

Nestes meados de primeiro mandato, Obama está um pouco como Luiz Inácio Lula da Silva à mesma altura.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (22) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFeuerwerker

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

As previsões da Fazenda são um tanto interessantes. Parece que sempre que as faz com viés otimista, há um problema a ser resolvido, como a crise financeira internacional eclodida em 2008. Agora, é o déficit em conta corrente de US$ 24,2bi em 2009, pressionado por serviços e rendas. Ainda falta muito para o final de 2010 e nem dá para falar nada sobre influências do sinal negativo na conta corrente na evolução do PIB. De todo modo, é bom torcer que haja algum acerto desta vez.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010 14:23:00 BRST  
Blogger pait disse...

Já que o assunto são previsões, eu arrisco que o Bill Clinton vai se candidatar a senador por Massachusetts em 2012 e vai dizer que o peladão eleito essa semana está nu. Provavelmente estou errado, mas se estiver certo posso dizer que vocês leram aqui primeiro.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010 16:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O mesmo "Economist",que se revela crítico cinematográfico , previu ,na sua seção de paranormalidades econômicas ,crescimento de 8%,para este 2010.
Como é um ano eleitoral, o único em que o "cara',não disputará, há muito em jogo e jogadores de latitudes diversas apostando com seus pesados cacifes no futuro do país do presente.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010 17:18:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Eu não tenho dúvida que o sistema político chinês é mais eficiente que o brasileiro para assegurar crescimento econômico. O sistema brasileiro é apenas bem mais democrático que o modelo chinês.
É com base na minha crença na ineficiência do modelo democrático brasileiro para assegurar um crescimento econômico forte e contínuo que eu sempre combati os que diziam que no regime democrático governo bom o povo põe e governo ruim o povo tira e diziam isso sob o aspecto econômico.
Como saber se um governo é bom? Se a definição de um governo bom é aquele que é eleito ou reeleito pelo povo é claro que o slogan faria sentido. No entanto, o slogan era mencionado para dizer que com bons governantes o crescimento econômico seria maior.
É claro que sendo países com regimes políticos diferentes o Brasil não pode ser comparado com a China. E mesmo que os regimes políticos não fossem diferentes não se poderia querer comparar países sabendo que um deles possui uma herança maldita praticamente impossível de se desvencilhar: câmbio flutuante/livre fluxo de moedas, Lei de Responsabilidade Fiscal, Regime de Metas de Inflação, Comércio Exterior liberado, Superávit primário para pagamento da dívida. Esses entraves deveram perdurar no Brasil pelo menos por mais uma década. Eles não existem na China. Assim fica mais fácil para a China enfrentar problemas da monta como o da última crise.
De qualquer modo volto a insistir, pois venho dizendo isso desde o início do ano passado, só que lá não imaginava que o Brasil cresceria de forma tão forte como vem crescendo. A realidade é que provavelmente desde março de 2009 que a economia brasileira vem crescendo em uma taxa superior a 3% ao ano atingindo no último trimestre do ano uma taxa, que se anualizada, superior a 6% ao ano.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/01/2009

sábado, 23 de janeiro de 2010 00:52:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
É melhor deixar aqui o conserto na frase "Esses entraves deverão perdurar no Brasil pelo menos por mais uma década" que no meu comentário de 23/01/2010 às 00h52min00s BRST (e equivocadamente datado de 2009) eu escrevi "deveram".
Clever Mendes de Oliveira
BH, 23/01/2010

sábado, 23 de janeiro de 2010 10:06:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home