quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Uma "CPI" da ditadura (31/12)

Desconfortável que a palavra “anistia”, resultado de belas e grandes lutas, vá sendo transformada em sinônimo de problema, esperteza, impunidade. Mas o fenômeno é com certeza passageiro

É bom que o país tenha conhecimento da sua História. Mas isso deve ser visto à luz do interesse nacional. E quem define o interesse nacional? Costumam ser os poderes constituídos. Então, é natural que a busca da verdade histórica se submeta à lógica da luta política. Eis (mais) uma qualidade da alternância no poder: quando os diversos grupos se revezam no comando do Estado, ao fim de certo tempo haverá alguma democratização dos “podres” divulgados.

O governo federal acaba de tomar iniciativas para repor na agenda a revisão dos atos cometidos por autoridades, especialmente militares, ao longo da ditadura de 1964-1985, com o objetivo de lançar luz definitiva sobre aquele período e, eventualmente, responsabilizar por crimes. Essa segunda parte é inócua. Nenhuma legislação pode retroagir, e quem vai decidir se a Lei de Anistia e suas ampliações valeram ou não para os torturadores não são nem o presidente da República nem o Congresso Nacional: será o Supremo Tribunal Federal (STF).

Por isso, é razoável concluir que o gesto presidencial, impulsionado pelas pastas dos Direitos Humanos e da Justiça, tenha também o objetivo de colocar pressão sobre o STF. Mas não apenas: com a medida, o governo reabre uma frente de combate para enquadrar as Forças Armadas num figurino mais adequado aos atuais ocupantes do poder. Tentou isso na rebelião dos controladores de voo anos atrás, quando o Planalto operou para minar a autoridade da FAB. Deu errado, talvez por falta de apoio social à ideia de deixar o controle do espaço aéreo nacional nas mãos de um sindicato.

Terá agora Lula força suficiente para empurrar as Forças Armadas contra o canto da parede? O presidente e o governo estão no ápice do poder, ou da sensação de poder. Afinal, se a guerra travada pelos que combatiam as organizações armadas foi em certas situações hedionda, tampouco a guerrilha de esquerda atuou como se colhesse rosas num jardim. Guerra bonita, só nos filmes. Mas o governo, aparentemente, julga que poderá passar a limpo apenas um lado da coisa, descascar apenas uma metade do abacaxi.

Os entes queridos dos mortos e desaparecidos na ditadura têm o direito inegável e inalienável de saber o que aconteceu. É um direito que em situação normal deveria ser buscado na Justiça. Mas o governo aparentemente considera que a situação não é normal, e que o assunto deve ser reaberto na esfera política, criando uma espécie de “CPI da ditadura”. Veremos no que vai dar.

Mas uma vitória pelo menos o governo já colheu: cada vez que mexe no tema, a administração do PT coloca-se num planto moral supostamente acima. De um lado, os que desejam apurar os crimes contra os direitos humanos e punir os culpados; do outro, os que não querem, por mera conveniência política. Fácil de explicar, fácil de faturar.

As circunstâncias da Anistia conquistada no final dos anos 70 do século passado são conhecidas. Ela resultou de um amplo movimento democrático, que havia criado no país um ambiente político propício. Um ambiente que, entre outras coisas, permitiu a emergência do movimento sindical do ABC e de Lula. Boa parte dos grupos que confluiriam depois para o PT não apoiaram a Anistia, ainda que dela tenham se beneficiado. Assim como tampouco viriam a apoiar Tancredo Neves no colégio eleitoral. Assim como resistiriam depois a endossar a Constituição de 1988.

O PT não parece se reconhecer como protagonista pleno da luta dos anos 70 e 80 pela redemocratização do país. Parece identificar-se melhor com as organizações que se levantaram em armas contra a ditadura nos anos 60, por projetos políticos que não necessariamente implicariam um desfecho como a Nova República, uma democracia representativa clássica.

É a política, e quem não tiver estômago que mude de ramo. Desconfortável, apenas, que a palavra “anistia”, resultado de belas e grandes lutas do povo brasileiro, vá sendo transformada em sinônimo de problema, de esperteza, de impunidade. Mas o fenômeno é passageiro. A ideologia –qualquer ideologia– é impotente para revogar os fatos. E todo poder que se considera absoluto um dia descobre que não é. Quando tem sorte, descobre a tempo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta-feira (31) no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Jogo do Poder com Paulo Pimenta (30/12)



O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), relator da CPI da Violência Urbana na Câmara, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Ricardo Brito, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

Clique com o botão direito do mouse para baixar os arquivos (.zip de 4M) do Pefron, o Projeto de Policiamento Especializado na Fronteira, tratado na entrevista.

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O limite da "intransigência" (30/12)

Uma boa política externa não é nem submissa nem inutilmente desafiante. Ela precisa ser feita na medida e oferecer argumentos para quem se dispõe a defendê-la

Vai animada a “briga de torcidas” em Teerã, com manifestações de rua, violência repressiva e mortos em profusão. A expressão foi lapidada por Luiz Inácio Lula da Silva meses atrás, quando correu a reconhecer a legitimidade do reeleito Mahmoud Ahmadinejad. A posição brasileira rendeu a Lula um reforço na relação com o presidente do Irã. Rendeu também ao Brasil um canal privilegiado com a atual liderança persa.

Foi bom ou ruim, certo ou errado? Já escrevi que essas coisas não se julgam a priori. Se a facção que comanda o Irã conseguir ficar em cima da sela, e se chegar a um bom acordo com as potências que pressionam por garantias reais sobre o caráter pacífico do programa nuclear, Lula será visto como visionário. Mesmo que um eventual recuo iraniano venha a resultar das pressões internacionais, o Brasil poderá dizer que na hora certa teve a coragem de abrir um caminho de diálogo. E será do jogo.

Mas se o desfecho for outro, se houver troca de guarda em Teerã, se a desconfiança planetária caminhar para sanções e se, no limite, o quadro evoluir para uma solução “iraquiana”, Lula e o Brasil terão restado com o pincel na mão. E a nossa influência ter-se-á reduzido a zero, fruto de uma aposta errada. Também será do jogo.

Política externa é isto, em boa medida: um olho no interesse nacional e outro nos cavalos, para adivinhar o que vai chegar na frente. Na Bolívia, a estratégia brasileira é um sucesso. Apostamos lá atrás na capacidade de Evo Morales conseguir a maioria política e manter o país unido. E tivemos a sábia flexibilidade tática para compreender os arroubos do presidente boliviano quando ele precisou nos confrontar para ganhar legitimidade interna.

Nos casos iraniano e boliviano, o Brasil leva ainda a vantagem de poder argumentar com o respeito à soberania das nações, à autodeterminação. A não ingerência é um princípio tradicional da nossa diplomacia. É sempre bom ter um discurso com começo, meio e fim para dar sustentação ao interesse puro e simples.

A ferramenta tem sido útil também na abordagem da guerra civil colombiana. Houve alguns resmungos quando a Colômbia fechou o recente acordo militar com os Estados Unidos, mas nossa posição logo evoluiu para caracterizar a coisa como assunto bilateral entre Bogotá e Washington. Mesmo que nos afete —e nos afeta, por causa da Amazônia— não haveria por que passar recibo. Hugo Chávez passou, e assinou em baixo de sua própria derrota.

Mas não chegaremos incólumes ao fim de 2009. Até a sorte de Lula tem limites. Fizemos a aposta errada em Honduras, colocamos todas as fichas na volta de Manuel Zelaya à cadeira e demos com os burros n’água. O resultado ali até o momento é a nossa neutralização e a expansão da influência americana, com a óbvia repercussão regional.

O reboquismo é sempre um caminho arriscado. Se é razoável que saibamos distinguir em cada situação entre os nossos interesses e os do ocupante da Casa Branca, também será adequado que não nos transformemos num avalista cego dos movimentos vindos de Caracas. Não há por quê. O Estado brasileiro deve sim estar a serviço da expansão dos negócios brasileiros, mas não pode se confundir com eles. Até para defendê-los em determinadas e embaraçosas ocasiões.

Uma boa política externa não é nem submissa nem inutilmente desafiante. Ela precisa ser feita na medida e oferecer argumentos para quem se dispõe a defendê-la. No caso de Honduras, restou-nos a “intransigência democrática” como rota de fuga verbal. Intransigência por sua vez engavetada na abordagem da crise iraniana, onde, a julgar pela passividade brasileira, acreditamos que o governo tem o direito de fuzilar nas ruas manifestantes desarmados. Em nome da não ingerência.

Crítica e aplauso

Barack Obama vai por um caminho diferente do seguido por Lula. Confronta o establishment econômico e avança na reforma do sistema de saúde. Fala menos e faz mais. Mas bater de frente com interesses tem um custo, e sua popularidade não anda uma brastemp.

Entre nós há uma torcida, à esquerda e à direita, para que Obama naufrague. A motivação dos conservadores é óbvia. Já a dos progressistas é menos. Talvez imaginassem que ele, eleito, organizaria a retirada estratégica dos interesses americanos no mundo. Imaginaram errado. Daí a frustração.

Mas se Lula merece aplausos por perseguir a ampliação da força do Brasil lá fora, por que Obama deveria ser criticado quando busca a mesma coisa, só que para os Estados Unidos?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta-feira (30/12) no Correio Braziliense.

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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A soberba do ano-novo (29/12)

Desqualificar a crítica pode ser útil a Lula. Mas será também útil a uma Dilma que precisa, urgentemente, aglutinar para buscar a maioria?

Quatro anos atrás, uma parte da oposição cruzou o ano-novo à beira da euforia. Luiz Inácio Lula da Silva e o PT pareciam batidos de véspera, supostamente feridos de morte pelos escândalos do 2005 que terminava. A economia tampouco mostrava exuberância suficiente para arrastar o cidadão a votar de olhos fechados na reeleição do presidente. Tratava-se apenas de escolher quem iria derrotar Lula e devolver o poder ao PSDB.

Escrevi “uma parte da oposição” para fazer justiça. Os mais profissionais entre os tucanos já anteviam que a disputa seria dificílima, que o Lula candidato à reeleição seria um osso duríssimo de roer. Mas onda é onda, especialmente na assim chamada opinião pública. Quando a onda vem, a prudência aconselha os políticos a não baterem de frente. Ou o cara pega a bichinha de jeito ou mergulha. Quando 11 em cada dez sabichões proclamavam a “morte do PT” em 2005, deram-se bem os caciques da oposição que decidiram mergulhar.

Um comportamento habitual entre políticos, jornalistas e torcedores é confundir a realidade com o desejo, tomar a nuvem por Juno. Acontece agora no PT. Uma pesquisa eleitoral feita imediatamente após o programa de tevê do partido deu Dilma Rousseff alguns pontinhos acima. Deu também um crescimento interessante dos votos espontâneos na ministra. Do outro lado, José Serra continuou onde estava, entre 35 e 40% das intenções estimuladas.

Os números foram razoavelmente bons para Dilma. A ministra vai superando paulatinamente o desafio de se tornar conhecida, 80% dos eleitores já dizem saber quem ela é. E o atributo de “candidata de Lula” dá o esperado gás para deixar na poeira o “concorrente interno”, Ciro Gomes (PSB). E o que mais? Mais nada. Na simulação de segundo turno, Dilma ainda está 15 pontos atrás de Serra, enquanto quase sete em cada dez eleitores dizem ser indiferentes ao fato de um candidato fazer oposição a Lula.

Com parte do petismo aderindo alegremente ao “já ganhou”, Serra e o PSDB estão a ponto a colher um presente de ano-novo. Parecido com o que o PT recebeu na passagem de 2005 para 2006. Quer presente melhor na política do que a soberba do adversário?

O que as últimas pesquisas mostraram de diferente na corrida sucessória? Nada. É impensável que a candidata de Lula fique fora do segundo turno, mesmo que a polarização aconteça no primeiro. E a diferença no mano a mano entre ela e Serra vai cair ainda mais. E se o PSDB conseguir fazer convergir os ativos político-eleitorais nos maiores estados estará bem posto para disputar com chance de vitória.

Aliás, para sorte do PSDB, até em alguns lugares onde o tucanismo vai mal, como no Rio Grande do Sul, o cenário ensaia uma base política vitaminada para Serra.

Há os políticos bons de agitação e há os bons de raciocínio. Quando alguém é craque nas duas coisas, como Lula, estamos diante de um fenômeno. O problema é que o culto à personalidade do presidente ameaça cegar. Bastou uma pesquisa razoável e o petismo já subiu no salto alto. Onde mesmo está o PT maravilhosamente bem colocado para a sucessão estadual? No Acre. Quais são os números a indicar que Dilma rompeu a barreira do um terço do eleitorado que gosta do partido? Por enquanto, número nenhum.

O endeusamento do presidente e a fé tão incondicional quanto interessada no líder funcionam como polo de aglutinação nesta reta final de mandato, um antídoto contra a expectativa da perda de poder. São úteis para levar o barquinho ao porto. Daí que Lula estimule sistematicamente essa deformação de comportamento. Quem o critica é porque “está contra o Brasil”, “não gosta de pobre” ou “não suporta a ideia de um simples torneiro mecânico ter dado mais certo do que os doutores na Presidência da República”.

Blá-blá-blá. O governo tem qualidades e defeitos. E a mitologia? Ela serve a um Lula que conta os dias para fazer companhia aos antecessores nos livros de História. Pode servir também, até certo ponto, a uma Dilma que precisa ganhar musculatura. Mas em eleição presidencial não basta ter muitos votos, é preciso buscar a maioria. Será que na hora “h” esse discurso primário e excludente vai dar conta?

Em 1989, 1994 e 1998 não deu.

Rejeitado

Persiste certa tensão no PT-DF sobre quem vai concorrer ao Buriti, se o favorito Agnelo Queiroz ou Geraldo Magela. Mas há um consenso. O único nome vetado até agora pelas correntes internas é o senador Cristovam Buarque (PDT).

Por isso, caiu bem no PT-DF a pesquisa recente que não apontou grande diferença entre os desempenhos de Agnelo e Cristovam.

A legenda nunca engoliu a saída do ex-governador do partido. E conta com a vantagem de poder colocar a culpa do “não” em Lula, que tampouco gostaria de ter que pedir voto para o desafeto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição desta terça-feira (29) do Correio Braziliense.

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Jogo do Poder com Renato Rabelo (23/12)



O presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Bernardo Mello Franco, d'O Globo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Boas Festas (21/12)

Volto a escrever na segunda-feira (28), para a edição de terça (29). Boas Festas a vocês e a suas famílias.

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A moda e a candidata (17/12)

A ex-ministra do Meio Ambiente leva uma vantagem importante sobre os corredores que hoje lideram: enquanto Dilma e Serra (ou Aécio) precisarão cada um fazer a própria campanha, a de Marina é feita pelos outros

A aritmética dos estrategistas no governismo calcula, com razão, que Ciro Gomes fora do páreo presidencial conduz a uma grande chance de a eleição ser decidida no primeiro turno. Nas contas deles, a ministra Dilma Rousseff capturaria três em cada quatro eleitores que hoje estão satisfeitos com o governo Luiz Inácio Lula da Silva. Chegaríamos assim aos cerca de 60% que Lula fez em 2002 e quatro anos depois. Ou um pouco menos, mas suficiente para estourar champanhe já na primeira rodada.

Na oposição também se avalia que a coisa pode mesmo ser resolvida de cara, mas a favor do candidato do PSDB. Que partiria do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste com uma margem impossível de reverter no Norte e no Nordeste. A oposição não é tão otimista quanto o governo, tampouco afunda no pessimismo. Para ela, Lula e Dilma falam sozinhos, e quando o candidato tucano alçar voo a coisa vai mudar. Como a estratégia do PT está mais do que anunciada, tempo de preparação é que não terá faltado, em meados do ano que vem, para o desafiante do PSDB entrar bem no debate.

Mas há uma variável que preocupa os dois lados hoje favoritos, e cuja dimensão ninguém consegue ainda medir precisamente: Marina Silva. A senadora vai tocando sua pré-campanha em quase silêncio. De vez em quando aparecem notícias sobre conversas com o PSol. E agora na Conferência do Clima, como era previsível, a ex-ministra do Meio Ambiente ganha mais um bom espaço na imprensa. E só. A aparente debilidade da postulação chega a suscitar especulações, palacianas e tucanas, de que o volume dos recursos necessários na campanha presidencial levará Marina a desistir.

Considerando a biografia dela, talvez não se trate de uma boa aposta. Até porque Marina leva uma vantagem importante sobre os corredores que hoje lideram: enquanto Dilma e Serra (ou Aécio) precisarão cada um fazer a sua própria campanha, a de Marina é feita pelos outros. Sei que é uma impossibilidade, mas e se algum especialista de agência de propaganda calculasse na ponta do lápis o tanto de mídia, espontânea ou não, obtida pela pauta ambiental nos últimos meses? O tanto que se falou em aquecimento global. O sentido de urgência urgentíssima atribuído à missão de, aqui e agora, salvar o planeta.

No Brasil, falou em meio ambiente, pensou em Marina Silva. Até porque o sucessor dela no ministério, Carlos Minc, tem sido politicamente suprimido. Não há alguém no governo que dispute a simbologia. Nem na oposição. O governador de São Paulo, José Serra, vem trabalhando para ocupar a área, como se viu em Copenhague. E Dilma deu um jeito de pegar o assunto a unha. Mas ambos entraram bem depois na corrida, e quem chega antes bebe água limpa, diz o ditado.

Quantos votos terá Marina num eventual primeiro turno? Ela não precisa de muitos, basta a quantidade suficiente para provocar o segundo e virar o fiel da balança, arrancando compromissos vitais para a agenda verde. Mas eleição não é raio em céu azul. Ela costuma ser preparada bem antes, nos discursos, nos programas, na ênfase dada aos assuntos, nos alinhamentos — ainda que potenciais.

Daí que Serra esteja a fazer a corte de Marina desde já, enquanto Dilma busca cortejar os eleitores da senadora. Pelo andar da carruagem, o tucano confia mais em sua capacidade de atrair a ex-ministra, enquanto Dilma, dado o histórico de disputas áridas entre ambas, sai em desvantagem. Outro detalhe fundamental para Serra: numa eleição em que os adversários trabalharão para rotulá-lo de “conservador”, não há hoje vacina melhor do que a identificação com a agenda verde, transformada universalmente em sinônimo de “progressismo”.

Desarranjo institucional

A Constituição de 1988 é boa e tem lastreado o mais longo período de estabilidade democrática na República. Mas a crise no Distrito Federal expôs um aspecto complicado da nossa institucionalidade: não parece haver mecanismos de correção quando um poder que deveria punir os desmandos de outro está ele próprio atingido pela mesma doença.

A Câmara Legislativa está metida no rolo, e impotente para julgar politicamente os atos do governador. É um caso típico de desarranjo institucional grave. Sem que se veja uma luz no fim do túnel.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Jogo do Poder com Paulo Teixeira (16/12)



O deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), que lidera na Câmara o debate sobre a conveniência de legalizar o consumo individual de algumas drogas, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Ilimar Franco, d'O Globo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Os limites da tecnologia (16/12)

É verdade que hoje qualquer um pode distribuir o que produz, desde que tenha acesso à rede. Mas para atingir massa crítica de receptores continua necessário o dinheiro

A evolução explosiva e a disseminação das tecnologias digitais criaram a infraestrutura para o salto democrático definitivo na comunicação. O fenômeno espalha-se como pandemia, e finalmente é possível quebrar a unidirecionalidade. O receptor de informação tem agora condições muito melhores para fazer também o papel de emissor. E as consequências da revolução atingem a todos, dos veículos profissionais às empresas não jornalísticas, das pessoas às instituições — estatais ou não.

Uso aqui a palavra “revolução” com uma elasticidade excessiva, porque a tecnologia é só uma das variáveis. Na abertura da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que acontece em Brasília, o presidente da República pintou um quadro talvez algo fantasioso sobre o novo grau de liberdade dos indivíduos e da sociedade diante de quem possa pretender controlar o fluxo das notícias e das ideias.

O que mudou? E o que não mudou? Caiu radicalmente o custo de distribuir informação, também chamada de “conteúdo”. Antes, os empreendimentos eram intensivos em capital. Um jornal, por exemplo, precisa de forte investimento em papel, gráfica e transporte. Já os custos de produção não mudaram muito. Ao contrário, a produtividade do trabalho deu um salto: com as ferramentas disponíveis, cada hora trabalhada cria bem mais valor do que no passado.

Algo que continua indispensável é capital para atrair audiência. Hoje qualquer um pode distribuir o que produz, desde que acesse a rede. Mas para atingir massa crítica de receptores é necessário dinheiro. Muito dinheiro. O desafio persiste, apenas mudou de departamento. Antes, o capital era fundamental também na produção e distribuição; hoje, é insubstituível na divulgação. Ainda mais diante da abundante oferta de conteúdos, uma concorrência feroz.

Todas as empresas de sucesso na rede, em algum momento, conseguiram capitalizar-se, criaram caixas robustos para pesados investimentos em marketing. Com a promessa de retorno lá na frente, pois audiência é sinônimo de receita.
Como o cidadão comum, cheio de boas ideias e de visões alternativas da realidade, vai competir nessa esfera?

Outro detalhe. Verdade que sempre haverá alguém capaz de escrever melhor do que o jornalista sobre determinado assunto. Mas é impossível para o médico, o dentista, o comerciário ou o professor largarem suas atividades no meio da tarde para cobrir uma sessão da Câmara dos Deputados, ou uma passeata na Esplanada dos Ministérios. Eis por que o jornalismo profissional vai bem, obrigado. Só que ele não vive de brisa.

A internet mudou a vida de quem trabalha com informação. A mudança fundamental: quando o consumidor não gosta, a pancada vem na hora, o sujeito não precisa ficar pendurado no telefone ou esperando na fila da seção de cartas. O que é ótimo. Está mais difícil a vida de quem não suporta a crítica e se vê acima do bem e do mal. Mas daí a achar que os papéis se inverteram tem uma distância grande.

Basta ver o que vai pelos blogs, pelo Twitter e por outras redes: quando o objeto é a notícia, ou a análise, a maioria se limita a comentar, atacar, elogiar, distorcer, criticar, endossar o que é criado profissionalmente por alguém. Conteúdo original e produzido ininterruptamente não é a regra. Uma expressão muito usada nos debates sobre o novo mundo é a capacidade da internet “empoderar” o indivíduo, ou a organização social não hegemônica. A tecnologia sozinha não tem esse dom.

A democratização da comunicação depende de os múltiplos novos atores encontrarem meios de financiamento. Talvez seja um tema para esta Confecom. Ou para uma próxima.

Dois anos perdidos

Falei aqui outro dia que 2009 foi um ano perdido na economia. Para a indústria, serão dois. O nível de emprego pré-crise só volta em dezembro do ano que vem. Ontem, saiu o acumulado da Fiesp até novembro. Na comparação com novembro de 2008, queda de 6,29%, uma perda de 150 mil vagas só em São Paulo.

Viúva Porcina

Acabou a CPI da Petrobras, aquela que foi sem nunca ter sido.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de amanhã co Correio Braziliense.

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O FMI do clima (15/12)

Sabe os montantes que nos comprometemos a colocar no Fundo Monetário Internacional? Vamos avisar aos amigos de Washington que, infelizmente, precisamos para coisas mais urgentes, como o combate ao aquecimento global

É boa e merece apoio a posição do governo do Brasil, representado pela ministra Dilma Rousseff, na Conferência do Clima em Copenhague. Metas de contenção das nossas emissões de CO2? Só voluntárias e determinadas soberanamente pelo país. E tomara que ela e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva consigam sustentar o princípio de não colocarmos nem um tostãozinho no tal fundo planetário destinado a combater o aquecimento global.

Nesse jogo nós somos receptores potenciais de recursos, não doadores. Mas também não estamos tão a perigo assim. Como bem disse a ministra, se quiserem mandar dinheiro para cá, ótimo. As coisas andarão num certo ritmo. Se não mandarem, paciência, irão num passo diferente. Em qualquer caso, entretanto, é preciso que fique claro: nós decidiremos o que fazer com nossos ecossistemas, e não vamos nos subordinar a nenhuma modalidade de governança global.

Costuma ser o problema do dinheiro que lhe oferecem: com ele, vem junto a perda de soberania. Não era desse jeito quando o Brasil vivia atrás dos trocados e do aval do FMI para fechar as contas? Esse tempo passou. Por que então caminhar para trás? Será mesmo bizarro o Brasil colocar recursos numa operação assim, para, depois, um burocrata qualquer de sobrenome complicado vir aqui dizer o que podemos ou não plantar (ou criar) no Pantanal ou na Amazônia. Ou quanto vamos desmatar.

Não seria bom ter dinheiro a mais para os programas de combate à emissão de CO2? Claro que seria. Eu tenho uma proposta. Sabe aqueles montantes que nos comprometemos a colocar no FMI? Vamos avisar aos amigos de Washington que, infelizmente, precisamos para coisas mais urgentes, como o combate ao aquecimento global. Até porque nosso aporte adicional ao Fundo tem uma única finalidade: permitir que Lula produza mais um belo discurso, dizendo que nunca antes neste país aconteceu de o Brasil não apenas pagar a dívida com o FMI, mas emprestar dinheiro a ele.

De volta à COP 15. Depois do longuíssimo debate, a coisa está empacada nos mesmos impasses de sempre. Quem vai dar quanto? E quanto cada um aceitará conter seu desenvolvimento econômico? O justo seria jogar toda a conta do sofrimento dos ecossistemas nas costas de quem mais se beneficia da civilização. As duas contas: o dinheiro para cuidar da natureza e as metas rígidas de redução de gás carbônico.

Qual é a dificuldade? Convencer o eleitorado de lá.

Se você fosse eleitor europeu, americano ou japonês, aceitaria pagar mais impostos para alimentar um fundo cujos recursos irão passar pela ONU, pelo Banco Mundial e acabar nas mãos de líderes do Terceiro Mundo, que supostamente ficariam responsáveis por investimentos para proteger a humanidade contra a ameaça do aquecimento global? Difícil de engolir. Seria a receita certa para a derrocada política. Algum adversário defenderia alternativas mais em conta, como por exemplo usar no clima as verbas hoje desviadas na corrupção. Teria certamente boa acolhida.

Menos provável ainda é o eleitor americano — ou seja o Congresso americano — aceitar que um organismo supranacional estabeleça travas à recuperação econômica da superpotência. Se nós fôssemos americanos tampouco aceitaríamos.

Pagar para ver

O PMDB "neolulista" acredita que cabe a ele decidir o nome do vice de Dilma. Seria lógico, dado que esse núcleo diz garantir ao PT maioria na convenção nacional do PMDB.

Mas uma arma só é útil quando pode ser utilizada. O PMDB toparia levar às últimas consequências uma eventual ruptura com o projeto de continuidade do poder petista? Com todo o espaço que a legenda ocupa na Esplanada? Só vendo.

Nesta, o PT-governo dá sinal de querer pagar para ver.

Uma explicação

A Folha de S.Paulo revelou que o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães tem dado declarações surpreendentes sobre por que a Alemanha e o Japão penam politicamente desde 1945. Segundo o hoje ministro de Assuntos Estratégicos, é porque ambos se atreveram a desafiar a hegemonia dos Estados Unidos e do Império Britânico.

Cada um tem sua opinião, mas é mais provável que o nazismo alemão e o militarismo japonês tenham colhido a repulsa universal devido aos métodos que utilizaram para confrontar as potências hegemônicas da época. Foi que escreveu, com propriedade, neste domingo o jornalista Elio Gaspari.

Seria bom para o Brasil, para o governo e para a biografia do embaixador que ele explicasse melhor o que pretendeu dizer.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sábado, 12 de dezembro de 2009

À espera de um carinho (13/12)

Quando Lula apelou pela intervenção americana em Honduras, talvez devesse ter ponderado que, uma vez chamados a decidir, os americanos decidiriam conforme o interesse deles. E não conforme o de Lula, Hugo Chávez e Manuel Zelaya

A projeção internacional da imagem de Luiz Inácio Lula da Silva e a afirmação soberana do Brasil no cenário mundial são fonte de poder político interno do presidente da República e do partido dele. O tema foi bem explorado pelo PT no programa de tevê da legenda, na última quinta-feira. Fez-se a oposição entre o “Brasil altivo” de Lula e o “Brasil reverente” de Fernando Henrique Cardoso.

Aqui e ali ouvem-se resmungos tucanos de que a história não é bem essa, de que o PT deforma os fatos para adequar aos propósitos políticos dele. Ora, quem está atrás de justiça e honestidade intelectual a qualquer custo deve manter distância prudente da atividade política profissional. Especialmente em terras como a nossa, que engatinham na construção de instituições capazes de proteger a sociedade contra a selvageria e a mistificação inerentes à luta pelo poder.

Não dá para o sujeito querer ser simultaneamente político e crítico profissional da política.

Lula ordenha com método a vaca leiteira dessa fonte de autoestima nacional, e com razão. Num país marcado pelo complexo de inferioridade, e que a rigor nunca conseguiu —nem com Lula— uma vitória expressiva contra os polos hegemônicos, afrontar já é uma façanha. Ou, pelo menos, pode ser narrado como tal. Nunca fui ao Vietnã, mas amigos que lá estiveram contam o cuidado e a elegância dos vietnamitas quando falam da vitória na guerra contra os Estados Unidos. Quem ganha não precisa tripudiar. Já para quem perde, tripudiar é sempre um jeito de buscar compensação.

O Brasil enfrentou os americanos na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio e perdeu. Enfrentou também quando propôs a substituição do G8 pelo G20, e que os emergentes tivessem voz na eventual reforma do sistema financeiro mundial. Também deu em nada. O G8 vem sendo susbstituído é pelo G2 (EUA e China). Lula gingou, mudou sua posição sobre as metas de emissão de carbono para posicionar-se como o líder mundial da luta contra as mudanças climáticas, mas o Brasil não deixou de ser tratado como coadjuvante nos debates sobre o aquecimento global. Aliás, o nosso etanol, principal produto do caixeiro-viajante número 1, continua sem mercado lá fora.

E daí? E daí nada. O importante na estratégia não é obter vitórias materiais, mas reforçar a imagem de Lula aqui dentro, vitaminando a percepção de que nosso presidente “enfrenta os poderosos”. Um Gamal Abdel Nasser brasileiro. O líder egípcio perdeu todas as guerras em que entrou, mas construiu para si a biografia de comandante glorioso da luta anti-imperialista. O sucessor dele, Anwar El Sadat, reconquistou no campo de batalha e na mesa de negociações cada centímetro de território tomado do Egito nos revezes de Nasser, mas não alcançou o status simbólico do antecessor.

Nem sempre, entretanto, as coisas andam conforme o planejado. Em Honduras, Lula quebra a cabeça para encontrar um jeito de se declarar vencedor, algo que Nasser fazia com maestria a cada derrota. Lula tem dificuldades no caso, talvez por um erro estratégico da diplomacia brasileira: deixou de lado a defesa intransigente da autodeterminação dos povos e encampou o “intervencionismo justo”, quando praticado para “proteger a democracia”. Qualquer semelhança com a Doutrina Bush não é mera coincidência.

Antes de Lula apelar pela intervenção americana em Honduras, talvez devesse ter ponderado que, uma vez chamados a decidir, os americanos decidiriam conforme o interesse deles. E não necessariamente conforme o interesse de Lula, Hugo Chávez e Manuel Zelaya. Celso Amorim deveria ter alertado o presidente sobre isso. Não fez, por submissão e porque avaliou que restituir Zelaya seria um passeio, propício para Lula faturar.

Deu errado, e Lula ficou com o mico na mão. Foi passado para trás pelos americanos depois de pedir ajuda aos americanos. E a imagem interna do Lula “líder invencível dos pobres na luta contra os ricos” não pode se dar ao luxo de exibir rachaduras. Qual é hoje o principal problema nas relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos? É que Lula está tomando um baile de Barack Obama. E sob pressão Lula começa a errar demais. Como na coletiva em que desancou a chanceler alemã por causa do programa nuclear do Irã.

Talvez esteja na hora de Washington tomar um gol —nem que seja contra— , para acalmar o parceiro e adoçar a relação.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição deste domingo do Correio Braziliense.

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Discursos não pagam as contas (11/12)

Por que foi um ano perdido? Lula manejou mal as variáveis. Deixou o BC praticar juros reais estratosféricos enquanto o mundo corria para taxas negativas

Os números medíocres do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, divulgados ontem, fazem concluir que 2009 foi mesmo perdido para a economia brasileira. A dúvida é se o PIB deste ano vai crescer uma merrequinha, ou cair uma merrequinha. Agora, a estatística do IBGE permite finalmente um juízo objetivo sobre o discurso presidencial de que “o Brasil foi o último país a entrar na crise e o primeiro a sair”. Era mesmo só discurso. Vazio. Azar de quem acreditou. Ficou com cara de tacho.

Em maio, escrevi que o governo adotava uma estratégia de comunicação eficaz. Como estatísticas sempre descrevem o passado (ainda não inventaram estatísticas sobre o futuro), bastava martelar que “o pior ficou para trás”. Como havia 100% de probabilidade de um dia o pior ser efetivamente deixado para trás, a expressão tinha também 100% de chance de se encontrar com a realidade, um dia.

O malabarismo verbal das autoridades econômicas ao longo de 2009 é um portento. Um capítulo especial na retrospectiva do ano deverá ser dedicado às previsões flutuantes do ministro da Fazenda. Houve para todos os gostos. Mas o mistério mais recente são os dados do Caged, cadastro de empregados e desempregados organizado pelo Ministério do Trabalho. Segundo o Caged, a criação líquida de empregos este ano girará em torno de 1 milhão. Ano passado, com a economia crescendo 5%, foi de 1,5 milhão.

Não parece haver aí alguma inconsistência? À primeira vista, ou a criação de empregos em 2008 foi subestimada, ou a de 2009 está sendo superestimada. Ou então precisamos avisar em Copenhague que descobrimos a fórmula mágica para combater o aquecimento global sem sacrificar o desenvolvimento social: o pessoal do Caged deveria ir à Dinamarca e explicar a receita brasileira para criar empregos aceleradamente numa economia estagnada.

Por que 2009 foi um ano perdido para o Brasil? O resultado era inevitável diante da crise? Não. Luiz Inácio Lula da Silva manejou mal as variáveis. Deixou o Banco Central solto para praticar juros reais estratosféricos enquanto o mundo corria para taxas negativas. Assiste passivamente a um Henrique Meirelles que age como se fosse Nero em Roma, tocando a harpa da “ameaça inflacionária” enquanto o real sobe a ladeira e fecha as portas às exportações brasileiras.

Mas Lula deve saber o que faz, já que agora pensa inclusive em colocar Meirelles como vice de Dilma Rousseff. Para — quem sabe? — adoçar a boca da turma do cassino. Por que mudar uma fórmula vencedora? Por que mexer em time que está ganhando? Na pista da esquerda, paralisa-se a oposição tucano-democrata com discursos que evocam a superação do “neoliberalismo”. Na da direita, pratica-se a mais perversa e elitista política de crédito do mundo. Enquanto isso, o presidente vai controlando a situação com discursos diários, às vezes mais de um por dia.

Pena que os trabalhadores e os empresários não possam pagar suas contas usando os discursos de Lula como moeda.

Interesse geral

A desfiliação de José Roberto Arruda do Democratas é recuo tático, sob fogo cerrado. Já havia na Executiva do partido uma maioria expressiva e irreversível a favor da expulsão. Agora o governador vai lutar para tentar salvar o mandato na Câmara Legislativa.

A favor dele, o fato de a Casa estar tão enrolada quanto. Contra, o desaparecimento da expectativa de poder e do natural magnetismo, já que não mais será candidato à reeleição.

Mas Arruda tem uma chance de sobreviver. Fora do páreo, sua permanência na cadeira até o outro dezembro pode interessar aos potenciais candidatos ao Buriti. No cálculo frio, é possível que eles prefiram um Arruda eleitoralmente inviabilizado do que colocar ali alguém que, de caneta na mão, simpatize com a ideia de tentar continuar mais quatro anos.

Você votaria em quem?

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tinha um problema. O que alguém metido em duas guerras deve dizer na cerimônia em que vai receber o Nobel da Paz?

Obama resolveu o desafio com uma atitude à altura do cargo. Enfrentou. Disse que há guerras justas, e que elas às vezes são necessárias para alcançar a paz.

Trata-se de uma verdade. O prêmio, que eu saiba, não é dado postumamente. Mas se fosse, e se o consultassem, você votaria em quem para receber o Nobel da Paz: em Neville Chamberlain, que assinou o pacifista Pacto de Munique com Adolf Hitler, ou em Winston Churchill, que ganhou a guerra contra o nazismo?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O que falta na reforma (10/12)

Democracia interna nos partidos. Eis o detalhe sem o qual a reforma política se resumirá a tentar empurrar um veneno goela abaixo da sociedade

A tese da Assembleia Constituinte exclusiva para reformar o sistema político não é só uma rota de fuga do governismo, confrontado a cada novo escândalo com a necessidade de defender mudanças saneadoras no ambiente. Vai além. A Constituinte já é ideia que ganha força no núcleo mais central da candidatura Dilma Rousseff.

As razões são claras. Avaliam que não haverá como um novo governo continuar convivendo com escândalos seriais e com a instabilidade política deles decorrente. E acreditam também que o Congresso Nacional no atual formato é um terreno pantanoso, vocacionado para tragar os melhores exércitos reformistas.

Daí que o assunto tenda a receber alguma atenção no processo eleitoral do ano que vem. Não em nível propriamente popular, dada a aridez da agenda. Entre a elite. E sempre será possível traduzir a pauta dizendo que a candidata, uma vez eleita, vai reformar as entranhas da política brasileira. Mesmo sem detalhar, tenderá a atrair simpatia. Quem pode ser contra melhorar a política, arrancando dela as raízes do mal?

O modelo preferido no situacionismo é a lista fechada (preordenada) no âmbito do estado, com financiamento público exclusivo. O dinheiro seria entregue todo ao partido, que faria campanha pela sua chapa. Nos Legislativos municipais, estaduais e federal (Câmara) eleger-se-iam os “n” primeiros da lista pré-fabricada, conforme o número de cadeiras conseguido pela sigla ou coligação.

Esse é também o desenho amadurecido nos debates no Congresso. Mas há resistências, inclusive porque os atuais parlamentares temem ficar à mercê dos caciques estaduais na hora de ordenar a lista.

Em consequência do temor surgem iniciativas esdrúxulas. Prevê-se que os atuais deputados e vereadores terão preferência na composição da lista, de acordo com a votação obtida na última eleição. Seria quase um golpe branco, uma prorrogação informal de mandatos para algo como 70% a 80% da Câmara dos Deputados. Mesmo que passasse, enfrentaria dificuldades na hora do controle de constitucionalidade do Supremo Tribunal Federal.

Um ponto que empaca a reforma: na vida real, dar mais poder aos partidos do jeito que estão significará tirar poder do eleitor e da sociedade. Significará punir os eleitores pelos malfeitos dos políticos. É óbvio que haverá resistência feroz a uma manobra assim.

A Constituição Federal garante aos partidos autonomia para definir seu funcionamento. É bonito na teoria. Na prática, o sistema partidário brasileiro “evoluiu” para uma confederação de cartórios. Caciques dominam as siglas, cada um em seu feudo, sem dar satisfação a ninguém. E tudo alimentado a dinheiro do povo. O problema tenderia a se agravar com a lista fechada e o financiamento exclusivamente público.

Como sair do impasse? Estabelecendo em lei os mecanismos democráticos indispensáveis para oxigenar a vida das legendas. Eleições internas obrigatórias para a composição das direções, definição legal das situações em que cabe intervenção de cima ou dissolução do diretório, proibição de o partido disputar a eleição nos lugares onde só tem comissão provisória, proteção do direito de divergência política ou eleitoral, eleição direta obrigatória para decidir a ordem na lista.

Democracia interna nos partidos. Eis o detalhe sem o qual a reforma política se resumirá a tentar empurrar um veneno goela abaixo da sociedade: a tese de que a solução para atacar o mau comportamento dos políticos é dar ainda mais poder aos políticos.

Não tem a menor chance de colar.

Quem produz? E como?

Já foi escrito aqui, mas não custa repetir. Só pagar para alguém manter a floresta não é garantia de que a floresta será mantida. Com dinheiro na mão, o sujeito vai consumir. Vai comer, vestir-se, construir, divertir-se, viajar. E alguém terá que produzir para atender a esse consumo. O que colocará pressão adicional sobre os ecossistemas.

Além do mais, já está claro em Copenhague que os desenvolvidos não estão dispostos a tirar dinheiro do seu contribuinte para colocar nas mãos (ou nos bolsos) dos líderes do mundo em desenvolvimento.

Mais realista seria discutir, para valer, o desenvolvimento sustentável. Em vez de imaginar que o dinheiro europeu ou americano vai pagar o bem-estar de bilhões de excluídos enquanto se cuida de manter a natureza intocada.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Jogo do Poder com Ronaldo Caiado (09/12)



O líder do democratas na Câmara dos Deputados, Ronaldo Caiado (GO), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Ana Maria Campos, repórter de Política local do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista

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Os pobres, sem ter quem os defenda (09/12)

Como nós, da elite, temos à disposição todos os confortos da civilização, podemos também confortavelmente mobilizar-nos por um mundo com menos civilização. Desde que para os outros

A Conferência do Clima na Dinamarca e a imensa mobilização em torno dela transformaram-se num gerador poderosíssimo de consensos. O aquecimento global é o mais grave problema planetário, dizem, e deve subordinar os demais assuntos. Entre eles o desenvolvimento. Como se trata de uma ameaça global, deve ser enfrentada globalmente. Abre-se caminho para a relativização da soberania das nações e para alguma modalidade de governança supranacional.

O presidente da República é mesmo um sujeito de sorte. Ao longo dos dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, o crescimento anual médio do Produto Interno Bruto (PIB) ainda persegue os 4%, o que para um país como o Brasil é pouco. Só não é menos graças à desaceleração demográfica. A estabilização populacional -produto da urbanização- impede a corrosão do PIB per capita. Por que Lula tem sorte? Porque a centralidade da agenda ambiental reduz as pressões pelo crescimento acelerado, que aliás corre o risco de virar bicho-papão.

O PT batia sem dó nem piedade no governo Fernando Henrique Cardoso (FHC) porque o Brasil não crescia. Com Lula, o Brasil cresce um pouco mais, só que não chegou a dar o salto. Pode-se culpar a crise mundial das finanças, mas FHC também teve lá suas crises como desculpa. Lula pode argumentar que a dele foi mais aguda. Ao que FHC retrucará dizendo que as dele foram em maior quantidade e espalhadas no tempo. E seguirá o fascinante debate tucano-petista de sempre, enquanto o país patina. Mas como viramos os queridinhos da imprensa antes atacada como “imperialista”, então está tudo bem.

Fato é que nos dezesseis anos de ambos a China, por exemplo, cresceu bem mais do que nós. Apesar de todas as crises mundiais. Ainda bem que a China cresceu forte. Os combatentes do clima têm muito mais imprensa à disposição e melhores estratégias de comunicação -até por não lhes faltarem os recursos-, mas o desafio central da humanidade continua a ser o combate à pobreza e à desigualdade. E os chineses vêm sendo decisivos nessa luta. Mesmo ao custo de virarem alvo da ira mundial.

Não que as coisas na China corram sempre bem. Há um déficit democrático. E há problemas graves de poluição, de agressão ao meio ambiente. O tema adquire ali centralidade cada vez maior. Mas existe um consenso nacional básico. Ainda persistem centenas de milhões de chineses fora do mercado e da civilização moderna. Se a liderança ali ocupar-se demais em agradar ao público externo, sacrificará o interno e abrirá caminho para a desestabilização política do país. Óbvio que eles tentarão evitar isso por todos os meios.

Além do mais, a persistência do crescimento econômico acelerado na China vem sendo a grande responsável por o mundo sair da crise com menos danos do que previsto. Enquanto o Brasil festejará ao final do ano um crescimento do PIB de 1%, se tanto, a China terá expandido a economia a uma taxa oito vezes maior. O que não impedirá Lula de repetir que o Brasil foi o primeiro a sair da crise. Sem que seja questionado a sério, politicamente, pela audiência.

Por que Lula fala sozinho? Porque o discurso que deveria se contrapor ao dele, desenvolvimentista, é progressivamente empurrado para a criminalização.

Funciona aqui um mecanismo similar ao da escola pública. Como os filhos dos políticos, dos empresários, dos artistas e dos jornalistas estudam, em sua maioria, em escolas particulares, ninguém se ocupa a sério de oferecer ao filho do pobre uma escola pública de qualidade.

Como nós, da elite, temos à disposição todos os confortos da civilização, podemos também confortavelmente mobilizar-nos por um mundo com menos civilização. Desde que para os outros. Infelizmente, nesse debate sobre o aquecimento global os pobres não têm quem os defenda de verdade.

Poderia ser Lula, mas ele não mostra entusiasmo pelo papel. O Lula de 2009 pouco ou nada tem a ver com o de 2003.

De costas

Se o Democratas quer mesmo dar exemplo na crise política do Distrito Federal, tem à mão um coquetel de opções. Pode excluir o governador do partido, romper com o governo dele, somar votos pelo impeachment na Câmara Legislativa, intervir do Diretório Regional da legenda.

Mas pode também usar o expediente do sujeito que deixa uma sala andando de costas para a porta, para sair de um jeito que dê a impressão de que está entrando. Na missão de descascar o abacaxi, as pressões para que a cúpula do partido adote o segundo caminho são quase irresistíveis.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Rumo ao plebiscito (08/12)

As oposições acreditam que podem levar o troféu e derrotar o PT mesmo com Lula nas alturas. Parece uma opção arriscada. Ou talvez o PSDB e o Democratas não tenham outra

Escrevi semana passada que as dificuldades das oposições abrem a possibilidade de Dilma Rousseff ocupar uma fatia do potencial discurso oposicionista, apresentando-se como diferente do padrinho político dela, em certa medida. Ou na medida certa.

Numa coincidência feliz (para o colunista), naquele mesmo dia a ministra-chefe da Casa Civil fez um movimento inédito, marcou a diferença entre a posição dela e a de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Honduras. Ontem reforçou a estratégia, lembrando que ser o nome da continuidade não significa que um eventual governo Dilma será igual.

A candidata também deu suas cotoveladas, ainda que de leve, em quem insinua a tentação de aumentar os juros. Outra ampla avenida oposicionista à disposição dela. Registre-se que o maior combatente dos juros altos no governo Lula vem sendo o vice, José Alencar. Conte isso a alguém de fora e ele vai dizer que não somos um país normal. Talvez não sejamos mesmo.

Como o PSDB e o Democratas desistiram de fazer oposição programática, o movimento de Dilma é executado sem dar a sensação de recuo, sem perda de substância política, sem transmitir impressão de fraqueza. Tudo se dá naturalmente, como os sons saídos de uma orquestra bem afinada, comandada pelo maestro da República, Lula. A um sinal dele, o violino começa a executar o solo, enquanto a plateia assiste, embasbacada.

Ontem, mais uma pesquisa, desta vez do Ibope, mostrou Lula nas alturas. Mostrou também que as políticas de governo não vão tão bem quanto o presidente. O que vai prevalecer no final? A liderança de Lula? A necessidade de mudanças administrativas, novas ações na saúde, na educação, na segurança? Ou a satisfação com a economia vai se sobrepor, trazendo a prudência para o primeiro plano? “Melhor não mexer, já que está funcionando tão bem.”

A mesma pesquisa apontou oscilações dos pré-candidatos dentro da margem de erro. Outro dia, conversei com um político experiente das oposições, que fez uma observação curiosa sobre pesquisas a tanto tempo da eleição. “Todo mundo sabe que elas vão mudar no futuro, quando começar a propaganda, mas os políticos não têm outro instrumento objetivo para tomar decisões no presente”, disse.

Como os números reagirão ao início, para valer, da campanha? Como estará o eleitor na época em que efetivamente passar a se preocupar com o assunto? Pelo menos um dado parece certo. Lula vai atravessar 2010 fortíssimo, a não ser que haja uma surpresa. A hipótese no governismo é que na hora “h” o eleitor dará um voto de confiança ao presidente. A hipótese nas oposições é que o povo gosta de Lula, não de Dilma, nem do PT.

Daí as oposições acreditarem que podem levar o troféu e derrotar o PT mesmo com Lula nas alturas. Parece uma opção arriscada. Ou talvez o PSDB e o Democratas não tenham outra, e estejam a dourar a pílula. Mais provável é que alguma hora as oposições precisem enfrentar o presidente, nem que num segundo turno. Ainda que este aconteça já no primeiro. Como se diz no petismo, e com razão, será difícil os adversários escaparem do plebiscito.

No plural

Antigamente as pessoas não se referiam à esquerda brasileira, mas às “esquerdas”, dada a fragmentação surgida nos anos 60 do século passado. Isso foi antes de Luiz Inácio ter se transformado em Lula I, o rei sol. O critério parece bom. Por isso, a partir de hoje deixo de tratar a oposição como uma coisa só. Serão “as oposições”, até segunda ordem.

Lula tem razão

O ministro da Educação já viveu dias melhores. Seu nome andou frequentando listas de potenciais candidatos a todos os cargos mais ambicionados da República, sem que se soubesse exatamente por quê. Mas as confusões com o Enem e o Enade inverteram a tendência. O presidente da República tem mesmo razão: quando a dura realidade bate à porta, adianta pouco a doce simpatia dos “formadores de opinião”.

Oportunidade única

O Brasil estará em peso na Conferência do Clima, em Copenhague. É uma oportunidade única para os políticos, que poderão aparecer e tomar solenemente decisões de longo prazo. Tão longo que nenhum deles estará mais aqui quando vierem as consequências. Faturarão agora e deixarão a conta para os sucessores. Que político desperdiçaria uma ocasião assim? Nenhum em pleno gozo das faculdades mentais.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sábado, 5 de dezembro de 2009

Os "coelhos" da oposição (06/12)

Como um corredor contratado para forçar no início o ritmo da corrida, a oposição colhe flashes e exibe vigor nas largadas, e também uma total falta de fôlego nas chegadas

Faz tempo que não falo, para valer, mal da oposição nesta coluna. Para não ficar me repetindo (andei fazendo isso uma certa época, e colunistas políticos não devem cair no ramerrame) e também porque, convenhamos, não chega a ser um prodígio de coragem e criatividade bater na oposição brasileira nos dias que correm.

2009 está chegando ao fim. Vamos fazer um esforço e tentar lembrar algo produtivo que a oposição tenha feito nos últimos 12 meses. Eu, sinceramente, não me recordo. Se estiver sendo injusto, meu e-mail está à disposição.

PSDB e Democratas lutaram para instalar a CPI da Petrobras. O objetivo era impedir que a empresa continuasse —sempre segundo a oposição— a servir aos propósitos políticos do PT e aliados deste. A CPI foi finalmente instalada, e o que aconteceu? Nada. Morreu de morte morrida, como diria o João Cabral. Nem foi preciso o governo matá-la.

Diz a oposição que o desfecho é produto da acachapante maioria governista. Bem, mas esse é um dado da realidade, anterior à CPI. Parece o governo colocando a culpa do apagão nos fenômenos meteorológicos. Por falar nisso, você conhece alguém da oposição que ainda esteja a cobrar das autoridades uma explicação definitiva sobre por que faltou luz naquele dia?

Um ano depois da eclosão da crise planetária das finanças, a economia começa a recuperar-se. A oposição teve esse tempo todo para apertar o governo nas taxas de juros, no spread. Poderia ter exigido mais rapidez e eficiência no ataque ao estrangulamento do crédito. Poderia, mesmo antes da crise, ter assumido a defesa de quem pega dinheiro emprestado em banco e é esfolado. Ou denunciado a violência das tarifas cobradas do cliente bancário.

Você poderia me dar o nome de pelo menos um parlamentar do PSDB ou do Democratas que tenha tomado a si a tarefa de adotar o lado do cidadão, trabalhador ou empresário, na guerra contra a escravidão financeira? Que tenha se oferecido para a missão de organizar a resistência? Já que hoje é domingo, quem sabe você aproveita o tempo livre e me ajuda a fazer essa pesquisa. Mas reserve um tempo razoável.

São exemplos. Poderia citar outros, como o caso José Sarney. O importante é que o comportamento da oposição brasileira segue um padrão, que lembra os “coelhos” das corridas no atletismo. Muitos flashes e vigor na largada, total perda de fôlego na chegada. Falta tudo. Método, persistência, organização. Os projetos do pré-sal estão em votação no Congresso. Alguém conhece a opinião consolidada da oposição a respeito?

É na oposição que os partidos e os políticos se credenciam ao exercício do poder. É como um simulador de voo: ali o piloto mostra se tem ou não as qualificações necessárias para pilotar avião de verdade, cheio de gente dentro. Diz-se de Luiz Inácio Lula da Silva que, antes de ser presidente, nunca teve experiência administrativa, fora a passagem pelo sindicato. Falso. Seu simulador de voo foram os muitos anos em que liderou, organizou e fez crescer o PT na tarefa de infernizar a vida do governante de plantão.

Por que a oposição brasileira não consegue fazer oposição? Talvez porque os interesses que mais facilmente defenderia estão bem contemplados no governo Lula. Incluem-se aí os felizardos que arremataram as estatais na era FHC, os bancos, as empreiteiras. Também por isso, fazer oposição de verdade ao governo do PT não seria trivial. Exigiria um ajuste estratégico, aproximar-se de demandas que se opõem às dominantes. Daria trabalho, implicaria sacrifício. Menos ar condicionado e mais barro amassado. Muito mais fácil é esperar sentado pelo megaescândalo.

Infelizmente para a oposição, quando o “big one” finalmente aconteceu foi na turma dela mesma.

Experiência-piloto

O presidente da República expôs esta semana um ponto de vista fascinante e original sobre como o mundo poderia banir as armas nucleares. Segundo sua excelência, todos os países devem possuí-las e daí então, talvez numa grande conferência mundial coordenada por sua excelência (esse detalhe é ironia minha), bani-las coletivamente.

O mandato de Lula está chegando ao fim. Essa tese de o armamento nuclear universal ser um bom caminho para o desarmamento nuclear universal ficará como um momento singular da passagem dele pela Presidência. Daqui a pouco mais de um ano, Lula certamente terá tempo livre suficiente para desenvolvê-la.

Mas talvez fosse o caso de fazer, já, uma experiência-piloto aqui no Brasil. Promover o armamento geral (convencional, claro) da população e depois —quem sabe?— convocar uma Conferência Nacional pelo Desarmamento. Se funcionar, poderíamos inclusive exportar a ideia.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição deste domingo do Correio Braziliense.

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Oposição burila discurso de Dilma (04/12)

Com suas reações tíbias e desencontradas na crise, o Democratas e o PSDB ajudam Dilma Rousseff a, finalmente, encontrar uma janela para deixar de ser só a “candidata de Lula”

Qual é a situação ideal para um político? É a que transforma seus defeitos em qualidades e potencializa ainda mais os vetores positivos do personagem. É bom para o candidato quando ele se encaixa naturalmente na cena. Bom para ele e seus marqueteiros. O marketing eleitoral, como qualquer outro, só aparentemente vende produtos. Ele vende desejos. E o leitor há de convir que é bem mais fácil ganhar a vida vendendo picolé nas praias do Caribe do que nas do Alasca.

A crise desencadeada a partir das acusações contra o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), ainda está em desenvolvimento, mas alguns efeitos dela já são claros. Agudizou-se uma demanda crônica e difusa por providências saneadoras na administração pública. A análise apressada do quadro faria concluir que o assunto não será importante numa eleição marcada, como se dizia na Guerra Fria, pelo “equilíbrio do terror”: se cada um tem os seus próprios problemas, melhor deixar quieto.

Estaria perfeito, não fosse por um detalhe: quem raciocina assim esquece que existe o eleitor. A violência semiótica desta crise fará o dito cujo deixar para lá, mais ainda, a busca do “partido puro”, formado pelas “pessoas melhores do que as outras”. Esse mito foi mortalmente ferido na crise petista de 2005-06 e será enterrado sem honras daqui até a eleição presidencial, com o féretro coberto pela bandeira brasiliense, ladeada pela gaúcha e pela paraibana.

A exposição brutal dos costumes políticos cria uma demanda. Não pelo partido “portador da verdade”, coisa que o eleitor já concluiu não existir, mas pelo líder firme, até certo ponto autoritário, que seja capaz de enfrentar o sistema. Sem porralouquice, mas com método e obcecada tenacidade. Alguém que domine os políticos e não se deixe dominar por eles. Alguém que saiba “onde estão as sacanagens”. Que seja vivo o suficiente para não ser derrubado. Mas que não vacile na hora de mandar gente para a guilhotina.

A política é mesmo fascinante. E não é que a crise começa a abrir espaço para um certo “anti-Lula”? Desde que, é claro, preservem-se as melhores qualidades do presidente, como a preocupação genuína com os pobres. Mas desde que também se superem as circunstâncias nas quais o “filho do Brasil” (o verdadeiro, não o da ficção babosa) se enredou, a ponto de perder a sensibilidade, que era sua melhor característica. Ninguém passa incólume pelo poder.

Tudo isso seria espetacular para a oposição, debruçada sobre a tarefa hercúlea de achar uma brecha no discurso da continuidade. Qual é o problema então? Infelizmente para o PSDB e o Democratas, quem por enquanto melhor se encaixa no figurino é a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Verdade que ela própria precisa percorrer a curva de aprendizado, vide sua intervenção tosca quando precisou dar a cara a tapa por José Sarney.

Não será difícil para Dilma, porém, construir a narrativa de que precisa fazer concessões agora, mas que no governo, com a caneta na mão, vai ser finalmente ela mesma. Assim como Luiz Inácio Lula da Silva é ele mesmo, um conciliador. Interessante. Qual é talvez o grande desafio da ministra nesta eleição? Fazer crer que não vai ser só um fantoche de Lula, que não irá governar, nem comer, pela mão dos outros. Mas não basta dizer. É preciso construir a verossimilhança. E isso só é possível quando o perfil do candidato se encaixa naturalmente no cenário. É o caso agora.

O governo do PT reclama da oposição, mas ele tem, de longe, a melhor oposição que um governo poderia desejar. Com suas reações tíbias e desencontradas na crise cujo epicentro é o DF, o Democratas e o PSDB ajudam Dilma Rousseff a, finalmente, encontrar uma janela para deixar de ser só a “candidata de Lula” e se mostrar ao país como a mulher antipática, dura com os políticos e empresários, irascível e sem jogo de cintura, a presidente de que o Brasil tanto precisa.

E com a vantagem de não ser uma petista “de raiz”, de ser uma cristã nova no PT. Ou seja, tudo de bom

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A oportunidade do Democratas (03/12)

Apesar das imensas dificuldades atuais, o Democratas tem um ativo nos seus jovens. Resta saber se terá capacidade de fazê-lo render

O Democratas é como um bicho de duas cabeças: carrega a cara antiga do PFL e também uma cara nova, de jovens que pouco ou nada têm a ver com a história do partido. Isso porque o DEM fez, à brasileira, uma transição conservadora: encampou o liberalismo, mudou as figuras, o nome e os símbolos, mas preservou em boa medida a estrutura de poder.

É ela que está em xeque nesta crise. Basta observar, por exemplo, a movimentação na internet, onde o ambiente entre os jovens do Democratas é de quase rebelião contra a cúpula partidária por não ter expulsado sumariamente o governador José Roberto Arruda. O “quase” fica por conta da esperança generalizada de uma punição na semana que vem.

Pode parecer paradoxal, mas é um sintoma de vitalidade em meio à desgraça. O que mais se vê hoje em dia são juventudes partidárias pró-forma, amarradas por burocratas, incapazes de inspirar algum tipo de renovação política. O ambiente entre os jovens nos partidos brasileiros parece de ordem unida, o que nunca é bom.

Não é bom porque o novo nem sempre é facilmente perceptível. A força da inércia costuma ser avassaladora, até que um pedacinho da represa se desprende e a edificação aparentemente sólida vai abaixo. Leva vantagem quem possui sistemas de detecção mais sensíveis. E a juventude costuma ter mais aptidão para a tarefa.

A verdade é que o sistema político brasileiro se aproxima do esgotamento. O que pode estimular inclusive péssimas ideias. Uma já tratada aqui muitas vezes é implantar a ditadura definitiva dos partidos e diminuir ainda mais a participação da sociedade. É a tal “lista fechada”, acompanhada do financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais.

O caminho é outro: aumentar a intervenção dos cidadãos, seu protagonismo. Ou alguém apostaria que o modelo brasileiro ficará melhor se meia dúzia de caciques partidários tiverem o monopólio da decisão sobre quem vai ocupar o Parlamento? Ou se o partido do governo tiver sempre mais dinheiro do que a oposição para fazer campanha?

De volta ao Democratas. A legenda costuma ser alvo preferencial dos críticos, por ter nascido de uma costela dos grupos que deram sustentação aos governos militares. Também por isso é digno de nota que venha daí uma exibição de vitalidade interna, pelo menos potencial.

Exercício útil na análise política é prever de onde surgirá a próxima onda. Está na cara que a sociedade deseja algum tipo de renovação. Com continuidade, dada a satisfação na economia, se esta persistir. Para esse debate, o Democratas, apesar das imensas dificuldades atuais, tem um ativo nos seus jovens. Resta saber se terá capacidade de fazê-lo render.

Talvez o partido devesse dar algum poder real à turma. Aliás, até o presidente da República, que não nasceu ontem, ontem mesmo já deu uma ajustada no discurso.

Mais guerra

Barack Obama anunciou terça-feira sua nova estratégia para o Afeganistão. Em resumo, serão mais 30 mil homens e mulheres enviados para lá. A missão é estabilizar a dominação, reverter os avanços do Talibã, isolar as alas mais radicais da guerrilha, enfraquecer a Al Qaeda na fronteira paquistanesa e permitir o fortalecimento dos governos pró-americanos em ambos os países. E só então executar plenamente a estratégia de saída.

Tem chance de dar certo? O senso comum diz que o Afeganistão está na bica de ser o Vietnã deste início de século para os americanos, mas há algum exagero no paralelismo.

A história daquele conflito foi um pouco mais complexa do que conta a lenda. Nos combates contra os americanos, os vietnamitas estavam decisivamente aliados à outra superpotência de então, a União Soviética. Uma aliança militar e política. E havia a mobilização mundial contra a intervenção americana na Indochina. Hoje não há nenhum dos dois ingredientes.

Outra ideia comum garante que o Afeganistão é inconquistável, vide a recente tentativa russa. A comparação padece do mesmo mal: não leva em conta o sistema de alianças. A guerrilha islâmica não derrotou sozinha os russos. Recebeu apoio decisivo de americanos, sauditas e paquistaneses. Que hoje estão unidos contra o Talibã.

Mas prognósticos são sempre um risco, e vamos acompanhar para ver no que a coisa dá.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Jogo do Poder com Roberto Mangabeira Unger (02/12)



O ex-ministro de Assuntos Estratégicos Roberto Mangabeira Unger é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Tales Faria, diretor do portal iG em BSB. Para ver os programas anteriores, vá à lista

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Sem área de escape (02/12)

Este é o principal problema do governador: numa história em que não é possível não haver culpados, o candidato mais óbvio é ele próprio

De que modo o tsunami político que atingiu letalmente o governador do DF, José Roberto Arruda (DEM), vai se refletir nas eleições presidenciais do ano que vem? Um parâmetro é a crise do PT em 2005. O partido até sofreu ao ser desossado pela imprensa na esteira das acusações de Roberto Jefferson, mas o presidente da República reelegeu-se com folga dali a um ano.

Aliás, a candidatura de Geraldo Alckmin naufragou de vez quando o tucano decidiu trazer o assunto da "ética" mais para o centro da campanha. Abriu a —sem ironia— caixa de pandora e afundou.

Andei escrevendo sobre isso ao longo de 2006. Está nos arquivos. Disse que achava improvável o eleitor indignado com o comportamento do PT sair de casa no dia da eleição e, em protesto, votar na coalizão PSDB-PFL. Porque a dupla vinha de governar o Brasil e não levava jeito para vestir a roupagem virginal que serve aos campeões eventuais do que se convencionou chamar de "ética na política".

É possível que o PT tivesse conseguido eleger alguns deputados a mais se não houvesse o escândalo do dossiê, que estourou bem em cima do primeiro turno, causando certa turbulência. E só. Não há registro de candidato majoritário do PT que tenha sido derrotado por causa da sequência de confusões em que se meteu o partido naquela época. E os números da eleição interna do PT por estes dias mostraram que a sigla se recuperou com sobras e vai bem, obrigado.

Quatro anos atrás o petismo adotou uma providência eficaz, ainda que dolorosa: removeu cirurgicamente os focos de problema, oferecendo assim um discurso para o presidente e demais candidatos da legenda. Diferentemente dos adversários, dizia o PT, nós punimos nossos quadros e militantes que se desviaram do caminho virtuoso. Bem ou mal, essa narrativa blindou o presidente e, em boa medida, o próprio partido.

Agora, o desafio diante da oposição é semelhante: encontrar quem vai ser sacrificado no altar da opinião pública. Como a oposição não tem uma organicidade comparável à do PT, nem um líder para colocar ordem na casa, é para ela uma tarefa mais complicada. Uma cirurgia mais difícil. Com diversos cirurgiões-chefes debruçados sobre o paciente, a chance de cura é menor.

Será que o eleitor infeliz com o comportamento dos políticos do Distrito Federal, a começar do governador do Democratas, vai votar em protesto no PT, por todo o país? Difícil. Mais provável é que esse eleitor, em vez de prestar atenção nos partidos, feche o foco nos candidatos. Entretanto, assim como o presidente em 2006, o candidato precisará de um discurso. Pois, na democracia, partido que não dá satisfações ao eleitor cava a própria sepultura.

Este é o principal problema do governador do Distrito Federal: numa história em que não é possível não haver culpados, o candidato mais óbvio é ele próprio.

Piauiense

O PT se movimenta no tabuleiro da crise brasiliense para tentar impedir que o enfraquecimento de Arruda resulte no fortalecimento do ex-governador Joaquim Roriz (PSC). O petismo do DF enxerga a possibilidade de voltar ao poder depois de anos, mas para isso não pode permitir que a base tradicionalmente rorizista, hoje partilhada com Arruda, reaglutine-se em torno do ex-governador e lhe dê novamente a maioria.

Daí a súbita "civilidade" do PT. Em contraste flagrante com o tratamento que dispensou à governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB). Com Roriz e Arruda em guerra, o grupo que ficar fora de um eventual segundo turno poderia, ainda que não formalmente, dar aquela mãozinha para colocar um petista no Buriti.

No Piauí lá atrás foi assim. Hugo Napoleão conseguiu que a Justiça cassasse o governador Mão Santa e assumiu o governo. Mão Santa aliou-se ao PT, elegeu-se senador e ajudou a eleger o petista Wellington Dias governador, contra Napoleão.

Punir o eleitor

É só aparecer um novo escândalo e a turma já se assanha. A cada delito dos políticos, volta a ideia de punir o eleitor. A crise do GDF estimula a ressurreição da "lista fechada", o sistema em que o cidadão vota no partido e é este quem define quem serão os parlamentares.

Os advogados da superioridade do voto indireto para vereador e deputado precisariam provar que há menos escândalos onde vige esse sistema. Mas eles não se darão ao trabalho. Até porque seria impossível.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Brasília agradecerá (01/12)

Que se sigam as leis. Que se transfira, dentro da legalidade, o poder político a quem não esteja metido na confusão

A capital do país está enredada na mais grave crise política de seu quase meio século de existência. Um único episódio atingiu letalmente toda a cúpula do Distrito Federal, a começar do governador José Roberto Arruda (DEM). É compreensível que numa hora assim cada acusado pense, antes de tudo, em como salvar-se. O problema é saber quem vai dedicar o necessário tempo e a necessária energia para, enquanto isso, cuidar de Brasília.

Em abril a cidade faz 50 anos. Deve haver uma comemoração, pelo menos está marcada. Será uma data para todo brasiliense orgulhar-se. Quem vai representar nela o GDF? Mais: Brasília é uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Quem vai comandar as licitações, as obras, os empreendimentos necessários ao pleno sucesso do mais importante evento esportivo (depois da Olimpíada) que uma cidade pode pensar em sediar? E no dia-a-dia, quem vai zelar pelo funcionamento dos serviços essenciais para os cidadãos?

Já escrevi aqui que um risco frequente na cobertura política é encarar a coisa como se fosse um mero jogo, sem lembrar que enquanto os políticos se digladiam há um mundo de gente lutando lá fora para tocar a vida, cuidar da família, dos negócios, sobreviver com dignidade. O líder só se mantém enquanto há a percepção majoritária de que ele no poder traz mais benefícios do que prejuízos aos liderados. Daí que, na política, prestar atenção à arquibancada seja pelo menos tão importante quanto olhar para o campo onde vai a partida.

Antes da crise, o governo Arruda vinha embalado em índices favoráveis, ainda que se antevisse uma disputa duríssima na eleição do ano que vem. São reais as suas realizações administrativas, mas agora, depois das revelações trazidas pela operação Caixa de Pandora, não se trata de discutir a gestão do GDF: trata-se de saber que detentores de mandato continuam a reunir as mínimas condições para liderar esta coletividade.

Como todo acusado, o governador e os demais atingidos merecem o benefício da dúvida e devem ter garantido o direito de defesa, sem tergiversação. Mas a gravidade dos fatos torna indesejável que façam isso no poder. Um caminho assim teria como consequências a radicalização política, a desmoralização institucional, a paralisação administrativa e, portanto, o aprofundamento da crise - se é que se pode falar em "aprofundar" ainda mais uma crise dessas.

Como estamos numa democracia, não será tão difícil achar a solução. Que se sigam as leis. Que se transfira, dentro da legalidade, o poder político a quem não esteja metido na confusão. Brasília certamente agradecerá.

Pelo contrário

Se há uma péssima conselheira em política externa, é a ideologia. A boa diplomacia leva em conta antes de tudo o interesse nacional. E o interesse nacional brasileiro está em manter relações normais com todos os países e povos, dado que não temos contenciosos graves com ninguém.

A eleição de domingo em Honduras criou uma situação de fato, que o governo brasileiro deverá olhar com atenção. Importa menos nestas horas a vaidade do governante. Se o Brasil apostou no cavalo errado, que se façam então os necessários ajustes. Podem ser feitos lentamente, suavemente, pouco importa. O que interessa é o resultado final.

Fica de todo modo a lição. Há um risco na estratégia marqueteira de engordar o capital interno do presidente da República apresentando-o como o líder mundial indispensável, o homem que vai conseguir um acordo contra o aquecimento global, o estadista que alcançará a paz na Palestina, o visionário que trará um Irã nuclearizado para o concerto nas nações pacíficas, o líder que mostrará o caminho para uma nova ordem econômica mundial etc.

Qual é o risco? Dar errado. Porque tem pouco a ver com a realidade. O presidente é, merecidamente, um homem respeitado e admirado. O Brasil é um país em ascensão. É muito? É. Transforma-nos num jogador indispensável para todos os assuntos complicados do planeta? Óbvio que não.

Não é raro que o complexo de inferioridade se manifeste como o seu contrário. Aliás é frequente.

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