domingo, 29 de novembro de 2009

A “Suíça” da esquerda (29/11)

O Uruguai é, como a maioria do continente, um país de colonização espanhola e economia baseada na grande propriedade rural. Por alguma razão, porém, vem escapando do destino caudilhesco que seria “natural"

O Uruguai é um país pequeno, e talvez por isso as coisas dali não repercutam tanto aqui. Pena. Lembro bem como o Uruguai era motivo de admiração nossa na passagem dos anos 70 para os 80, por ter uma esquerda que combinava o pluralismo, a clareza dos princípios democráticos e a unidade de ação, na Frente Ampla (FA). O partido-frente permanece até agora e hoje deve eleger o novo presidente, José Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro de 74 anos.

Quando se preparava para disputar a indicação dentro da FA, Mujica fez um gesto bacana: deixou o comando político da facção ex-tupamara para apresentar-se como candidato de todos os frenteamplistas. E teve sucesso. Derrotou internamente Danilo Astori, o preferido do popularíssimo presidente Tabaré Vázquez. E Astori virou vice de Mujica, evitando assim que uma cisão pudesse ameaçar seriamente a continuidade do projeto. Agora, praticamente certo da vitória, Mujica fala em abrir o governo à oposição.

O primeiro líder da FA foi Líber Seregni. Curiosamente, era um general. Um velho amigo e companheiro de lutas da juventude, Pablo Magnoni, de origem uruguaia, costumava contar a piada favorita da direita na derrotada campanha eleitoral de Seregni em 1971. Com bem menos canais de comunicação do que os partidos tradicionais -o Colorado e o Nacional (Blanco)-, a FA ocupou os troncos das árvores de Montevidéu com seus banners. E virou alvo da gozação dos adversários: “Seregni, idiota, los árboles no votan.”

Nem Seregni era tão idiota assim, nem o quixotismo da FA foi inútil. E imagino que o Pablo, a quem não vejo faz tempo, deve estar contente com a nova face do seu Uruguai. É sem dúvida uma cara boa. Esquerda e direita participam do jogo político, alternando-se no poder, sem que uma aponte a possível eleição da outra como o advento do apocalipse. Melhor: cada facção opera com naturalidade -ainda que com disputa feroz- a sucessão dos líderes. São todos sinais de sanidade democrática.

Antes de mergulhar nas trevas, em meados dos 70, o Uruguai era conhecido como a “Suíça sul-americana”. A expressão ficou meio desmoralizada quando os cisplatinos foram arrastados pela onda ditatorial, mas é sintomático que após a redemocratização os elementos civilizatórios da tradição política uruguaia tenham reaparecido com força. Um belo exemplo de como certos vetores de continuidade prevalecem, mesmo nas rupturas mais radicais.

O Uruguai é, como a maioria do continente, um país de colonização espanhola e economia baseada na grande propriedade rural. Por alguma razão, porém, vem escapando do destino caudilhesco que seria “natural”. E a esquerda uruguaia é simultaneamente agente e beneficiária dessa originalidade. Sorte dela. Ou competência.

Tora! Tora! Tora!

O Itamaraty enfiou o presidente da República numa gelada em Honduras, e agora tem a obrigação de dizer qual é a porta de saída. Honduras é um país independente e precisa de um governo. O Brasil reconhecerá Manuel Zelaya como presidente mesmo após o final do mandato dele na data prevista pela Constituição? Ou vai enfiar a viola no saco e aceitar o presidente escolhido numa eleição condenada pelo governo brasileiro? Ou vai decidir unilateralmente que Honduras é um país sem presidente?

O Itamaraty também meteu o chefe do governo numa fria ao não insistir com ele num ponto importante das relações entre o Brasil e o Irã: quando Mahmoud Ahmadinejad veio para cá, teria sido desejável que o Brasil manifestasse ao líder persa, claramente, o apoio às iniciativas conjuntas da China, da Rússia e dos Estados Unidos para colocar um ponto final no impasse sobre o programa nuclear iraniano.

É razoável que o Irã controle o uso pacífico da tecnologia nuclear. É também razoável que o mundo receba garantias de que o “pacífico” é para valer. Daí a solidez da unidade de russos, chineses e americanos. Um Irã com armas nucleares seria potencialmente desestabilizador das relações na fortemente islâmica Ásia Central. Basta olhar para as repúblicas ex-soviéticas e para a tensão permanente nas minorias muçulmanas da órbita de Pequim.

Em consequência da nossa orientação diplomática, o Brasil conseguiu ficar encalacrado numa posição oposta à da aliança Washington-Moscou-Pequim. O fato é vendido como prova de “independência”. O último que teve a luminosa ideia de trilhar um caminho assim foi o Japão em 1941. Mas nós temos mais sorte: ao contrário do país em que reinava então o imperador Hirohito, não somos ameaça militar a ninguém.

Coluna (Nas entrelinhas) pubicada hoje no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Surpresas são difíceis de prever (27/11)

De todos os números, qual o mais importante? O mano a mano do segundo turno, o termômetro da polarização entre Dilma e um tucano

Desconfiar da informação que chega é essencial nesta profissão. Daí por que não cabe aos jornalistas torcer o nariz para políticos que desconfiam de pesquisas. Ciro Gomes reagiu à última Sensus/CNT com coerência. Mostrou desdém, mesmo com o resultado supostamente bom para ele. É uma notável exceção.

Políticos adoram pesquisas favoráveis —e detestam as desfavoráveis. O caso mais agudo na minha lembrança é um do comecinho de 2006, quando Luiz Inácio Lula da Silva apareceu pela primeira vez em muito tempo na frente de José Serra, segundo a mesma Sensus/CNT. Tucanos reagiram com fúria, apenas para enfiar a viola no saco um pouco mais adiante.

Desenvolvi meu método para desconfiar das pesquisas: acredito em todas. Há quem busque a pesquisa 100% certa (uma contradição em termos, diante da margem de erro). Eu procuro tentar achar em cada uma o que ela possa ter de verdadeiro. A pesquisa absolutamente errada é tão improvável quanto a completamente fiel. Então sempre há algo que se aproveite. Trata-se apenas de garimpar.

Mesmo a pesquisa fajuta tem sua utilidade. Nem que só para conhecer o que motivou a fabricação. Felizmente, o mercado de pesquisas profissionalizou-se bastante nos últimos anos, especialmente nos períodos eleitorais, quando os levantamentos se submetem a uma legislação algo rigorosa.

A lei dos grandes números também ajuda. Se você olhar para uma quantidade suficiente de pesquisas, acabará chegando a um ponto próximo da realidade. Minha sugestão para quem aprecia o assunto é esta: colecionar e seguir o máximo de pesquisas possíveis.

E o que observar então nos próximos números presidenciais?

Um detalhe é como e quanto Dilma Rousseff vai chegar em José Serra (ou por quanto irá eventualmente ultrapassá-lo) num primeiro turno sem Ciro Gomes. Outro detalhe é o ritmo de crescimento de Aécio Neves, com que velocidade o mineiro chega no potencial de votos mínimo de um candidato da oposição, cerca de 40% dos válidos. Outro ainda é como se estreita a margem entre Serra e Dilma num eventual segundo turno.

São todas coisas que vão acontecer, com alguma certeza, à medida que a taxa de conhecimento efetivo dos candidatos começar a nivelar-se. E à medida que os eleitores começarem a prestar mais atenção na corrida presidencial.

Outra providência boa é cultivar algum ceticismo diante dos motivos apresentados para eventuais oscilações. Dilma deu uma estagnada tempos atrás, depois que mergulhou. Disseram que foi por causa do caso Lina Vieira. A mim soou, com todo o respeito, um chute.

Ela caiu porque sumiu. Tanto que voltou a crescer quando reapareceu. Serra vem perdendo alguma substância, aproximando-se do estoque real de votos dele. Disseram que tem a ver com a associação a Fernando Henrique Cardoso. Outro chute. Mais provável que tenha a ver com o ânimo geral. E o fato é que Serra vinha meio escondido.

A última Sensus/CNT mostrou Dilma em leve alta. Coincide com a melhora no ambiente econômico. Outra coisa útil de acompanhar são os índices de confiança do consumidor. Com algum atraso, sua tendência acaba se refletindo na avaliação do governante. Avaliação que influi nos números da eleição.

O que não é chute para 2010? O óbvio. Que a polarização deve se dar entre um candidato do PT e outro do PSDB. É inimaginável que Lula não leve sua candidata ao segundo turno. E por enquanto nem Ciro nem Marina Silva mostram musculatura para deslocar o tucano que entrar na corrida.

E qual é o número mais importante? Talvez o mano a mano do segundo turno, o termômetro da polarização. Se todo mundo sabe que no fim das contas a parada será decidida entre Dilma e um peessedebista, que se monitore o cenário de uma eventual segunda rodada. É o que vou procurar fazer.

Pode haver surpresas? Sempre pode. Mas se existe algo difícil de prever são as surpresas.

Acacianas

A Venezuela e o Brasil não reconhecerão um eventual governo de Honduras saído da eleição marcada para este fim de semana. Os Estados Unidos reconhecerão. Cada um na sua.

É uma diferença que vai se propagar, especialmente na América do Sul. Com o tempo, todos os países irão alinhar-se. Uns de um lado, outros do outro. A unidade continental terá virado ficção.

Lula e Hugo Chávez liderarão um bloco que vai tratar Honduras como pária. Do jeito que os Estados Unidos se habituaram a tratar Cuba.

Como diria o Conselheiro Acácio —que bem poderia ter sido o autor do título desta coluna—, uma particularidade das consequências é que elas vêm depois.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Capitalismo popular (26/11)

Falta na banda larga um grande jogador, que esteja disposto a entrar na partida com capacidade de investimento e coragem (e caixa) para praticar uma política de preços agressiva

O governo federal está metido numa boa empreitada: criar as condições para universalizar o acesso à internet de alta velocidade. Avalia inclusive entrar no mercado de provimento ao consumidor final. A iniciativa deverá servir, pelo menos, para forçar as companhias de telecomunicações a ampliar os serviços e baixar os preços. Se conseguir avançar aí, Lula merecerá aplausos efusivos.

É curioso que exatamente no ramo econômico onde as privatizações são mais festejadas, a telefonia, o poder estatal precise ameaçar com intervenção para colocar as coisas em ordem e atender ao interesse público. Hoje no Brasil quase todo mundo tem telefone, uma realidade muito diferente do que se via no começo dos anos 1990. Mas pagamos preços inexplicáveis. Ou que só encontram explicação no oligopólio.

Eis a desgraça das privatizações brasileiras. Em vez do “capitalismo popular”, expressão do thatcherismo, elas promoveram uma troca de guarda: o espaço que era do Estado foi ocupado por um pequeno grupo de empresas que repartiram o mercado entre si, e operam num ambiente de negócios marcado pelo deficit de regulação. É um modelo que se esgotou. Um exemplo? A banda larga, cara e de qualidade e cobertura inferiores às dos países comparáveis.

Seria ilusão imaginar uma telefonia operando com base na concorrência perfeita. Isso exigiria grande multiplicidade de provedores do serviço, coisa impossível na prática. Daí a necessidade da regulação, e daí o problema de mercados —como o nosso — que apresentam deficit no quesito.

Mas como regular o mercado? Em teoria, com agências reguladoras e boas normas, que deveriam incluir o combate à cartelização. Ainda na teoria, nós temos tudo isso. Temos as leis, os decretos, as portarias, os órgãos governamentais encarregados de zelar pela concorrência e uma agência reguladora bem estruturada e bem dirigida, com quadros competentes a operá-la.

O que falta, então? Um grande jogador, que esteja disposto a entrar na partida com capacidade de investimento e coragem (e caixa) para praticar uma política de preços agressiva. Um jogador cuja lucratividade seja função principalmente da fatia de mercado conquistada, e não da margem unitária no negócio. Alguém que tope lucrar um pouco com cada cliente, para ter muitos clientes e lucrar muito ao final.

Quem se habilita? Se ninguém se apresentar, que venha a estatal de banda larga preparada nos laboratórios do Palácio do Planalto. Pior do que está não vai ficar.

Falta o líder

Os principais quadros brasilienses do PSDB, Democratas e PPS reuniram-se esta semana e, segundo disseram, planejam acertar as pontas na operação política. Querem mais coordenação e melhor comunicação, especialmente na internet. Para quem deseja voltar ao poder, é um passo sensato.

Mas o problema maior não é operacional, é político. Falta a oposição definir se sua prioridade é fazer a luta interna ou combater o adversário. Falta definir o que é essencial: quem é o inimigo a derrotar.

É preciso saber se cada uma das facções oposicionistas está disposta, inclusive, a apoiar de verdade um eventual concorrente interno, se isso for necessário para evitar nova vitória do PT em 2010. Sem esse detalhe fundamental, pouco adiantará o resto.

Qual foi a principal vantagem competitiva do PT nestas três décadas? A existência de um líder, Luiz Inácio Lula da Silva.
Quando o PSDB ganhou duas eleições presidenciais? Quando teve um líder, Fernando Henrique Cardoso. Como o PMDB chegou ao poder? Pelas mãos de Ulysses Guimarães, que apoiou Tancredo Neves quando percebeu que não seria o melhor candidato a presidente em 1985.

Quem é o líder da oposição? Alguém sabe?

Blefe?

Os Estados Unidos apreciam que o Brasil tenha bons canais com o Irã, mas gostariam também que o Brasil defendesse junto ao Irã a posição unânime das grandes potências sobre o programa nuclear iraniano.

Esse foi o sentido da carta de Barack Obama a Lula. Não há antagonismo entre a satisfação dos americanos com as iniciativas diplomáticas brasileiras e o desconforto com o fato de o Brasil estar mais próximo do Irã do que seria desejável na Casa Branca.

Escanteado em Honduras, em Doha, com o G20 e com o etanol, o Brasil aproveitou a visita de Mahmoud Ahmadinejad para mandar o recado de que pode sair da área de controle.

Blefe? Vale a pena acompanhar esse pôquer para ver quem, no final, terá cartas para arrastar as fichas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Jogo do Poder com Carlos Zarattini (25/11)



O deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP) é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Izabelle Torres, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista

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De volta à prancheta (25/11)

Liderar o mundo não é trivial. Se nos atrapalhamos num assunto menor, como esse de Honduras, é razoável que outros aproveitem a oportunidade para tentar nos mandar de volta à prancheta

O assessor especial de Luiz Inácio Lula da Silva para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, manifestou ontem certa decepção no governo brasileiro com a política externa do novo presidente americano, Barack Obama. Entre os pontos de atrito, Garcia citou o debate sobre o clima, a abordagem da crise de Honduras e a pouca atenção à América Latina.

É visível que o governo brasileiro se dava melhor com o Departamento de Estado e a Casa Branca na época de George W. Bush. Apesar do elogio público de Obama a Lula (“ele é o cara”), as relações entre ambos são frias, quando comparadas ao calor que marcava as conversas de Lula e Bush. Também porque, com Obama, os principais itens da agenda bilateral foram para a geladeira. Inclusive a redução das barreiras protecionistas contra o etanol brasileiro nos Estados Unidos.

Entre os pontos abordados por Garcia, pelo menos um não se sustenta. O Brasil resistiu o quanto pôde a aceitar metas de emissão de carbono. Os arquivos guardam os discursos e posições do presidente da República e da candidata dele à sucessão, Dilma Rousseff, sobre o tema.

O que mudou? Quando americanos e chineses mandaram avisar ao mundo que não iriam endossar conclusões radicais em Copenhague, abriu-se para Lula a chance de converter-se, ele próprio, a um radicalismo verde tardio. E a custo zero. Já que nada de importante vai ser decidido na Dinamarca, não custa dar uns dribles para a plateia.

E a “atenção à América Latina”? A expressão deve ser lida como o que é: o desejo de receber dos Estados Unidos o tratamento de interlocutor qualificado.

Quando eclodiu a crise econômica, há 14 meses, nossa diplomacia apostou em dois cavalos: a retomada da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio e uma reforma do sistema financeiro global, comandada pelo G20. Em ambos os casos deu em nada. Com a ajuda decisiva dos americanos.

Fez bem o Brasil ao apostar na liberalização do comércio mundial numa época de pressões crescentes pelo protecionismo? Os fatos dirão. E qual é o cacife real do G20 para dizer a americanos, chineses e europeus o que fazer ou deixar de fazer com a economia planetária? Relativo. Lula parece estar amuado com a realidade. Melhor faria se tivesse alguma autocrítica sobre suas próprias ações.

E em Honduras? O Brasil avaliou mal o quadro. Superestimou a força de Manuel Zelaya e acabou fora do jogo, que hoje é disputado entre os Estados Unidos e a Venezuela. Pior, deixou no ar a dúvida sobre nossa capacidade de liderar a região. Faltaram-nos ali inteligência (informação) e estratégia.

Segundo Washington, uma saída para o rolo hondurenho é fazer eleições, empossar o novo presidente e tocar a vida. Nós propomos a volta incondicional de Zelaya ao cargo como requisito para o reconhecimento do processo eleitoral. É bonito, mas não tem correspondência na realidade local. Pois Zelaya não reúne a confiança da maioria das forças políticas. E Washington não vai operar na América Central para ampliar a influência venezuelana. Como resolver o problema? Mandando tropas brasileiras a Tegucigalpa? Impondo a Honduras um bloqueio econômico nos moldes do que desejamos eliminar em Cuba?

Se queremos ter liderança, ser reconhecidos, ocupar no palco um lugar à altura da nossa dimensão, precisamos antes de tudo cuidar das redondezas, da área onde nosso protagonismo é natural.

É meritório que o Brasil deseje contribuir para a solução dos graves impasses no Oriente Médio, para a criação do Estado Palestino, para a garantia da existência de Israel em segurança, para a integração plena de um Irã pacífico ao mundo. Mas não basta querer. Liderar o mundo não é trivial. Se nos atrapalhamos num assunto menor, como esse de Honduras, é previsível que alguém aproveite a oportunidade para tentar nos mandar de volta à prancheta.

Como Lula gostava de dizer tempos atrás, vai mal o país que procura nos outros a culpa pelos seus próprios problemas.

Será?

A resiliência dos números de Ciro Gomes e o fato de os votos dele não irem automaticamente para Dilma colocaram uma pulga atrás da orelha de alguns petistas. Ciro tem dito que o melhor seria Lula disputar o primeiro turno com dois candidatos, para criar as condições políticas de uma convergência natural no segundo turno.

Tem gente graúda no PT que concorda com ele.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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terça-feira, 24 de novembro de 2009

O cerne da questão (24/11)

Certas horas, o debate sobre o Oriente Médio envereda pela busca da “fórmula ideal” para a paz, não sem antes se deter exaustivamente na procura pelos “verdadeiros culpados”. Tempo desperdiçado

Um trecho da fala de Luiz Inácio Lula da Silva ontem em seu programa semanal de rádio Café com o presidente merece ser olhado com muita atenção. Diz Lula: “Por exemplo: você tem, dentro da Palestina, a Autoridade Palestina, que quer a paz. Mas você tem o Hamas, que não quer a paz. Então, é preciso que, primeiro, tenha um acordo interno dentro da Palestina para saber se eles são capazes de produzir uma proposta única de paz que atenda os interesses de vários grupos.”

Lula (que ontem recebeu em Brasília o presidente do Irã) tocou no cerne do problema. Na mesma entrevista, o presidente também se refere a divergências internas em Israel, mas está implícita a diferença. Israel tem um governo, com autoridade sobre o país. A Palestina tem dois, rivais. Em Gaza manda o Hamas; na Cisjordânia, a Fatah (Autoridade Palestina). O senso comum diria que quando Irã e Síria armam o Hamas ajudam o partido islâmico a combater Israel. Talvez o senso comum esteja errado: as armas de Teerã e Damasco nas mãos do Hamas têm como alvo principal a Fatah, e não Israel.

As nações alcançam sua independência quando preenchem certos requisitos. Um deles é existir o núcleo dirigente hegemônico, capaz inclusive de reprimir eventuais dissidências. Por essa razão, talvez nunca os palestinos estiveram tão distantes como agora da autodeterminação. É mais fácil hoje em dia surgirem duas Palestinas do que uma só. Ou alguém enxerga no horizonte a possibilidade de dar certo um único país onde Hamas e Fatah coabitem democraticamente, inclusive alternando-se no poder? Só se for um país tutelado de fora.

A falta de uma hegemonia clara ali decorre, também, da falta de clareza sobre o projeto nacional. A base da disputa é a ambição de cada grupo pelo poder. Mas como é preciso ter discurso, há dois bem demarcados. A Fatah é uma organização historicamente (no período recente) propensa a aceitar, como dado permanente, um Estado judeu num pedaço do território que vai do Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo. Já o Hamas é contra. O partido islâmico chegou a propor uma “trégua de longa duração” com Israel, mas não renuncia ao objetivo de riscar o vizinho do mapa.

Daí a dificuldade de um acordo. Certas horas, o debate sobre o Oriente Médio envereda pela busca da “fórmula ideal” para a pacificação, não sem antes se deter exaustivamente na procura pelos “verdadeiros culpados”. Tempo desperdiçado. Se um dia houver paz estável ali, ela nascerá não da mente genial de alguém que decifrou a quadratura do círculo, ou de uma conclusão definitiva sobre quem possui a superioridade moral, mas de ter surgido a solução política.

Infelizmente porém, as soluções políticas são como a vida: não se consegue produzi-las a partir do zero em laboratório. Elas costumam surgir é da relação de forças nascida da luta (política), entendida amplamente — o que inclui a guerra. Qual é a situação de fato no Oriente Médio? Nenhum dos dois lados está 100% convencido de que a continuação do uso da força é prejudicial a seus objetivos nacionais. E enquanto permanecer esse “equilíbrio da convicção na via bélica” pouco adiantarão os apelos piedosos pela paz.

Quando recusou em 2000 a proposta feita por Bill Clinton e Ehud Barak em Camp David, Yasser Arafat mostrou que já não detinha as condições ideais para aceitar sacrifícios em nome de todo o povo palestino. Se endossasse ali algum tipo de compromisso em torno de Jerusalém ou do direito de retorno ao atual território israelense de todos os descendentes do êxodo (forçado ou voluntário) de 1948-49, possivelmente desencadearia uma guerra civil. Certamente teria apoio externo para esmagar o Hamas e correlatos, mas preferiu não seguir por esse caminho, talvez por imaginar que poderia obter mais na mesa de negociações se começasse uma nova Intifada.

Engenharia de obra feita é sempre fácil, mas vista retrospectivamente a decisão de Arafat em Camp David não legou a seu povo uma situação mais favorável. Ao contrário. Aliás, a história das escolhas árabe-palestinas de um século para cá não é propriamente uma parada de sucessos. Apoiaram o Império Otomano contra os ingleses na Primeira Guerra Mundial. Apoiaram a Alemanha nazista na Segunda. Alinharam-se com a União Soviética na Guerra Fria. E Arafat apoiou Saddam Hussein quando este anexou o Kuait.

Não se discute aqui se foram escolhas “certas” ou “erradas”, de um ângulo programático, ou moral. Ou se decorreram de uma posição anticolonial ou anti-imperialista. O fato é que adotaram os lados perdedores em todos os momentos cruciais. E essa circunstância tem mais a ver com a atual situação do projeto nacional palestino do que pode parecer ao observador eventual.

Será diferente desta vez?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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sábado, 21 de novembro de 2009

A importância da política (21/11)

No governo e na oposição, os candidatos trabalham para mostrar capacidade de chegada, de atrair a maioria absoluta do eleitorado na hora da polarização

O ponto mais ansiosamente debatido nas especulações sobre a sucessão presidencial é quanto Luiz Inácio Lula da Silva transferirá de votos para Dilma Rousseff. Um deputado do PT me disse dias atrás, animado, que as pesquisas mostram Dilma com potencial para receber até 75% dos votos de Lula. Aí eu fiz as contas para ele. Como Lula teve 60% dos votos válidos no segundo turno contra Geraldo Alckmin, 75% disso dá 45% dos votos válidos. Uma aritmética insuficiente para a vitória.

Em eleição majoritária, ter muito voto nada adianta se você não tiver a maioria. Considerando que Dilma certamente estará no segundo turno (ainda que ele aconteça já no primeiro), o problema dela é fechar a corrida, conquistar os 50% mais um. E aí não será com Lula, será com ela mesma.

O mesmo problema enfrenta a oposição. Qual é a dúvida no PSDB? José Serra está bem na largada mas precisa, segundo os correligionários, demonstrar capacidade de chegada. Seu concorrente interno, Aécio Neves, explora bem essa brecha, apresentando-se como mais capaz de fazer a costura política que garanta uma maioria na hora da polarização.

Pois a política costuma ser mesmo soberana nessas horas. A não ser que se consiga descontruir o adversário. Coisa improvável de acontecer numa corrida presidencial tão prematuramente desencadeada a tão escancarada desde já. Então, o punhado de votos obtido no sufoco para amarrar aquela aliança aparentemente desimportante pode fazer toda a diferença na hora de ver o que deu na urna.

Lula ganhou em 2002 e 2006 porque uniu seu campo e dividiu o do adversário. Trabalha para tentar repetir a fórmula em 2010. E na oposição cada um dos corredores procura demonstrar que é capaz de impedir essa repetição.

A rigor, é a única coisa importante que acontece nas últimas semanas na política brasileira. Eis um paradoxo da marquetagem. Quando a economia vai mal, ela tende a ser decisiva na eleição. Quando vai bem, e quando as pessoas acham que ela continuará indo bem, independentemente das escolhas à disposição, é a política quem tem a oportunidade de adquirir protagonismo.

Dramáticos

Não sei exatamente de onde vem a vocação nacional para o drama. Tome-se como exemplo a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre Cesare Battisti. O tribunal decidiu qual é a esfera de competência dele e qual é a do presidente da República. Uma hora Luiz Inácio Lula da Silva dirá o que vai fazer com o italiano. Daí, se alguém recorrer ao STF, como é provável, teremos uma nova rodada de discussões e deliberações na corte suprema.

Tudo normal, corriqueiro no âmbito da democracia. Mas houve quem criticasse o STF por supostamente ter "decidido não decidir", ao consolidar o entendimento de que extradições, por envolverem potencialmente assuntos das relações entre o Brasil e outros países, estão também na esfera da autoridade do chefe do Executivo. Ora, se o STF pode tudo, pode também concluir que em determinado assunto a última palavra não é dele. Por que não?

É normal que o sujeito goste mais de algumas decisões da corte que de outras -e mesmo que desgoste completamente de algumas. O problema está em certo comportamento, frequente nos últimos tempos, na esquerda e na direita: ou é como eu quero ou então a democracia brasileira corre um risco grave, as instituições caminham para a derrocada e o futuro do país está seriamente ameaçado.

Menos, pessoal. Menos.

Perda de tempo

A permanência da obra artística no tempo costuma vincular-se a sua complexidade. Não, claro, no plano formal. A peça pode ser formalmente simples, mas trazer situações e personagens complexos. Isso é mais verdade ainda quando o objeto da dissecção é a alma humana, complicada por si.

Essa é a razão por que o filme sobre a vida de Luiz Inácio Lula da Silva não tem maior valor artístico. A simplificação extrema da realidade é útil para exacerbar o maniqueísmo, mas não se sustenta no tempo. Tanto que a única coisa que se discute sobre a película de Fábio Barreto é seu efeito político potencial. O melhor sintoma de que como arte ela é irrelevante.

Já como obra política seus efeitos só serão conhecidos a posteriori. O que transforma todo o debate sobre o filme numa -perdão- imensa perda de tempo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de domingo (22) do Correio Braziliense.

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Trocar umas figurinhas (20/11)

A decisão de Lula sobre Battisti se dará numa moldura complexa. Vai exigir muito trabalho jurídico e, talvez, muita conversa com a Itália

Acompanhei com atenção (para tentar compensar minha ignorância) o julgamento do caso Battisti quarta-feira no Supremo Tribunal Federal. Aliás, suspeito que estudar Direito hoje em dia ficou bem mais interessante e fácil. O sujeito assiste pela TV às sessões do STF e aprende muito. Vale por um curso.

O ponto mais crítico do debate foi se a decisão do Supremo de autorizar a extradição do italiano era obrigatória para Luiz Inácio Lula da Silva. Chocaram-se ali dois conceitos bem claros: 1) as sentenças do STF são definitivas e irrecorríveis e 2) quem faz política externa não são nem o Legislativo nem o Judiciário, é o Executivo, na pessoa do presidente da República.

Assim, o Supremo pode autorizar a extradição de alguém, mas o presidente pode também entender que mandá-lo embora não interessa ao Brasil. Pelo menos foi o que compreendi. Só que, naturalmente, o chefe do Executivo precisa justificar seus atos à luz da legislação vigente. Então, como desfazer o nó? Ora, se nem os ministros chegaram a uma conclusão definitiva, muito menos eu me arriscaria.

Eis o abacaxi que está com Lula para descascar. O STF já desfez a decisão do ministro da Justiça de conceder o refúgio. Está esgotada a disputa legal sobre o caráter dos crimes de que Battisti foi acusado e pelos quais foi julgado na Itália. E entra em cena um vetor mais delicado: a relação entre os Estados brasileiro e italiano.

Ao longo de todo o processo, a defesa política e legal de Battisti argumentou que quando dos atos a ele imputados -e também por ocasião de seu julgamento- a Itália vivia um regime político que não podia ser enquadrado nas formas clássicas do estado de direito. Essa tese foi derrubada no STF por 5 a 4, com a maioria seguindo o voto do relator, Cesar Peluso.

As informações palacianas davam conta ontem que Lula estava inclinado a esperar o acórdão do tribunal antes de bater o martelo. Parece prudente.

O ato de mandar Battisti cumprir pena na Itália ou segurá-lo aqui será visto como o que é: um posicionamento político. Era o que Lula queria evitar.

Há também um aspecto humanitário, mas a ênfase nele não resolve o problema do presidente. Se a decisão final for não extraditar Battisti, Lula terá afirmado, mesmo que implicitamente, que a Itália não tem hoje um regime político nem condições carcerárias que garantam os direitos fundamentais do condenado.

Será uma crise diplomática e tanto. E a situação se complica mais porque praticamente todas as correntes com alguma densidade política na Itália defendem a extradição. Da direita, a pressão é natural. Mas é na esquerda italiana que as pressões para reaver Battisti são maiores.

A esquerda na Itália é majoritariamente, esmagadoramente, herdeira do Partido Comunista Italiano. E o banditismo dos grupos armados de extrema-esquerda naquele país trinta anos atrás tinha como objetivo principal minar a hegemonia do PCI e sua política de alianças com a Democracia Cristã.

Por outro lado, se seu fosse Lula não ia querer carregar para a minha biografia, faltando tão pouco para o fim do mandato, o registro de ter enviado um sujeito supostamente de esquerda, e condenado por crimes com alegado nexo político, para apodrecer por mais de vinte anos em uma prisão italiana.

Mas uma coisa é o presidente querer. Outra, é poder. No Brasil, como na Itália, vige o estado de direito. Pelo menos até segunda ordem.

Lula precisa mesmo de tempo para dar tempo aos doutores do Planato, para que tentrem encontrar uma saída. Nesse intervalo, vai ter também que trocar umas figurinhas com a Itália.

Simancol

Vamos ver como o presidente sai dessa. Por enquanto, seria útil injetar alguma moderação no debate.

Não é de bom tom, por exemplo, comparar o caso de Battisti ao de Olga Benário, judia, alemã, militante da 3a Internacional e mulher de Luiz Carlos Prestes. Ela foi presa depois da rebelião comunista de 1935 e entregue, grávida, pelo governo de Getúlio Vargas aos alemães.

Olga foi mandada para um campo de concentração, onde morreu.

A Itália de hoje não é a Alemanha nazista. E, nem que seja só para evitar situações de mau gosto e constrangimento, o governo brasileiro deveria fugir de assuntos relacionados ao nazismo e aos judeus nesta época, em que vai receber o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.

Errei

Escrevi na coluna de ontem que o diretor do filme sobre a vida de Lula é Bruno Barreto. Eu errei. É Fábio Barreto, seu irmão.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Diversos pesos, diversas medidas (19/11)

A operação política para salvar Battisti decorre de ele ter origem na esquerda. Fosse um militar argentino condenado por crimes na ditadura, estariam os mesmos exigindo, já, sua extradição para Buenos Aires

A polarização política no caso Cesare Battisti está bem delineada. Desde o início. A mesma liberdade que teve o ministro da Justiça para negar a posição do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados) devem ter os críticos para considerar que foi politicamente motivada a concessão do refúgio por sua excelência. E daí saíram a buscar-se as razões jurídicas.

Uma parte da esquerda brasileira luta com firmeza para que Battisti continue aqui -e não volte à Itália para cumprir pena. O raciocínio é objetivo. Os crimes de que o acusam são políticos, ainda que hediondos. E o Brasil deve manter a tradição de oferecer abrigo quando criminosos politicamente motivados vêm ao Brasil em busca de proteção.

Isso em tese. Se não for meticulosamente procurada, a simpatia pelas circunstâncias da história de Battisti não aparece.

O governo brasileiro vem operando para segurar Battisti aqui porque a trajetória do italiano relaciona-se à esquerda. Especialmente à esquerda armada, cujos herdeiros estão solidamente instalados no atual sistema de poder. Estivesse ligada à direita, o quadro seria diferente.

Vamos supor que descubram dia destes no Brasil um militar argentino dos anos terríveis, com condenações nas costas. Os mesmos que hoje se levantam em defesa de Battisti levantar-se-iam para exigir a devolução do dito cujo a Buenos Aires, para que ali pagasse pelos seus crimes.

A esta altura o leitor já percebe que a coluna enveredou por um caminho pouco habitual. O da suposição, da inferência. É verdade, mas os passos são dados sobre terreno sólido.

Os mesmos órgãos estatais e forças políticas que militam na linha de frente a favor de Battisti defendem posição oposta em outro assunto relacionado, a anistia aos torturadores. Como Battisti tem origem na esquerda, merece ser defendido e não deve pagar pelos seus crimes. Como os torturadores torturavam para defender um regime de direita, é inaceitável que se considere terem sido benefiados pela Anistia de 1979 e pelos textos legais que a aperfeiçoaram, já na democracia.

Menos mal que a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) tenha sido técnica. Ainda bem.

Fim da feira

Por falar no STF, o ministro Marco Aurélio usou uma imagem feliz dias atrás quando afirmou que a Constituição está se transformando num periódico. O Congresso Nacional corre o risco de autonomear-se Assembleia Constituinte permanente, sem ter recebido mandato para isso.

Mas há uma luz no fim do túnel. Semana passada a corte rejeitou retroagir o aumento das vagas na Câmaras Municipais, mesmo aprovado por PEC. Controle constitucional é também rejeitar as mudanças na Carta que atentem contra a essência da Carta.

Neste fim de governo, que corre o risco de virar um fim de feira, ou então a festa da uva com o dinheiro público, vai sobrar serviço para o STF.

Rei Lear

Por algum motivo, Luiz Inácio Lula da Silva aceitou ser incensado em vida no filme de Bruno Barreto. Motivação eleitoral? Sim, mas talvez não principalmente.

Como já escrevi aqui, Lula exige o julgamento histórico já, quando ainda no poder. É uma obsessão curiosa, mesmo que legítima, de sua excelência.

O único problema é que costuma ter pouca eficácia. Há exceções, mas a regra é que estátuas de líderes erguidas com eles ainda em vida -ou no poder- são derrubadas mais facilmente.

Parece faltar alguma frieza ao presidente diante da chegada de janeiro de 2011. Quando ainda estava no PT, a senadora Marina Silva (PV-AC) tratou do assunto, evocando o Rei Lear, de Shakespeare. Foi premonitória.

O fantasma

Agora que até no governo se nota desconforto com o real superforte, voltam as advertências para os riscos inflacionários embutidos numa eventual desvalorização da moeda.

De fato, desvalorizar com a economia acelerando tem lá seus problemas. Mas o maior problema é outro: os mesmos críticos que hoje pedem cautela trabalharam um ano atrás para manter os juros lá em cima. Quando já estava claro que inexistia risco inflacionário, dado que a demanda tinha ido para o buraco.

Esse pessoal gosta mesmo é de defender os juros. Os argumentos buscam-se depois. Como no caso Battisti.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Jogo do Poder com Beto Richa (18/11)



O prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Luiz Carlos da Rocha, da CNT do Paraná. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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A confiança no calendário (18/11)

O PSDB consumiu todo o ano de 2009 sem avançar um centímetro na busca por métodos consensuais e democráticos para resolver sua disputa interna. O partido parece ter uma fé ilimitada na folhinha

O PSDB colhe pelo menos uma vantagem da indefinição sobre a candidatura presidencial: o adversário não sabe por enquanto em quem concentrar o fogo. O PT está como o gato que tem dois ratos a perseguir. Na dúvida, mais provável é que não capture nenhum.

Se o tucano na corrida presidencial for Aécio Neves, o Palácio do Planalto espera a neutralidade de um José Serra ilhado na luta para reeleger-se em São Paulo e ferido em seus brios de líder nas pesquisas — e mesmo assim preterido. Se for Serra, o PT sonha com um Aécio à moda Pilatos, lavando as mãos e deixando em aberto o rico estoque de votos de Minas Gerais — onde Luiz Inácio Lula da Silva fez a festa em 2002 e 2006.

Enquanto não acontece a definição, os canhões palaciano-petistas operam a meia força. Fora isso, amontam-se os problemas políticos do PSDB. Que se ressente de não ser um partido, mas vários. Ou pelo menos dois. O que define um partido? O líder. Vide o PT. E quem, como o PSDB, tem mais de um líder, na prática não tem líder algum.

Os tucanos podem argumentar que não é bem assim, que ao contrário do PT não são uma legenda controlada por um caudilho. É verdade, o PSDB ainda não chegou a esse estágio. Está num inferior. Tem vários candidatos a caudilho, sem que nenhum mostre força para prevalecer sobre os demais. Força ou habilidade. Aliás, a observação fria leva a concluir que, ali, quem tem força a mais tem habilidade de menos. E vice-versa.

O PSDB consumiu todo este ano de 2009 sem avançar um centímetro na construção de métodos razoavelmente democráticos e consensuais para desfazer o nó. Nesse particular, o PT está anos-luz à frente da concorrência. As regras no partido de Lula são claras. Quem tiver pretensões, que trate de arrumar votos e disputar eleições internas. Além de Lula, o PT tem o método. O PT é nosso único partido “americano”. E quando o jogo tem regras claras, a chance de acabar em facada e tiro é menor.

Já o PSDB parece ter eleito o calendário para comandar a legenda. Como se num dia marcado na folhinha os tucanos fossem acordar com todos os problemas resolvidos. Até lá, é cada um por si e — quem sabe? — Deus por todos.

Ontem, Aécio deu uma cartada importante. Recebeu o apoio de Ciro Gomes (PSB). O deputado federal eleito pelo Ceará — mas de título recém-transferido para São Paulo — assumiu na prática o compromisso de apoiar o governador de Minas caso ele ganhe a corrida dentro do PSDB.

É possível que Ciro nutra a esperança de receber ele próprio o aval de Aécio caso a sorte não sorria para o mineiro internamente, mas na política não há gestos inúteis. A política é como um trilho de trem: depois que você começou a rodar numa certa linha, não é tão simples sair dela sem descarrilhar.

Limão, limonada

Gente que andou assuntando pesquisas qualitativas nos últimos dias detectou dano para a imagem da ministra Dilma Rousseff por causa do colapso no abastecimento de energia elétrica semana passada. Mais que dano direto, detectou-se desconfiança. O cidadão está a desconfiar que não lhe dizem toda a verdade sobre as causas e circunstâncias do apagão/blecaute.

Pesquisas quantitativas a esta altura têm valor apenas relativo, ainda que os políticos não deem um passo sem ouvi-las. Já com as qualis é diferente. Como a imagem de Dilma está sendo construída praticamente do zero, um dano agora pode ter gravidade. Mesmo que não se reflita, em tempo real, nos números.

A entrevista coletiva das autoridades da área depois do blecaute/apagão tem boa chance de entrar na galeria onde descansa, entre outros episódios jornalísticos inesquecíveis, a explicação dada pela equipe econômica aos jornalistas no dia do Plano Collor.

Criticar depois é fácil, mas talvez Dilma tenha feito uma má escolha ao deixar o assunto, que impactou a vida de tanta gente, aos cuidados de pessoas que não se mostraram suficientemente preparadas para a ocasião. É um mistério por que a ministra não fez o óbvio: reconhecer que havia um problema e assumir a linha de frente para solucioná-lo. Por que não simplesmente espremeu o limão e o transformou numa limonada?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

O G2 espreme o G20 (17/11)

Pelo visto, foram prematuras e excessivamente otimistas as previsões de que a crise de hegemonia do G8 (ricos) daria lugar a uma governança mais multipolar

Pelo menos num aspecto, o planeta unipolar pós Muro de Berlim é pouco proveitoso para os Estados Unidos: tomar conta sozinho de tudo custa caro. No aspecto monetário também, mas não só. Nem todo o dinheiro é suficiente para formar um exército se você não tem gente disposta a lutar, e a apoiar a luta. Uma hora o cidadão cansa e deixa de sustentar a empreitada. Aconteceu com os Estados Unidos no Vietnã e com a União Soviética no Afeganistão.

Se você precisa cuidar de um mundo conturbado, está apertado de grana e com seu eleitor cansado de guerras, procure sócios. É o que faz o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Dias atrás esteve na Rússia. Agora foi à China, para acertar as pontas. Sai de cena a doutrina Bush, de hegemonia moral e ideológica a qualquer custo, e entra a Obama-Hillary, que pôde ser detectada já na noite da vitória, no discurso do presidente eleito: a liberdade e a democracia à Washington são importantes, mas não devem ser obstáculo para a vigência da pax americana.

Os temas centrais de Obama na Rússia foram militares (escudo antimísseis, Irã). Com a China, são econômicos. Até porque a política externa chinesa é não expansionista, discreta, um “soft power”. Ao contrário do Brasil, a China, mesmo podendo muito, costuma falar pouco. Talvez seja sabedoria milenar. Ou a memória das diversas intervenções estrangeiras em território chinês nos últimos dois séculos.

A China é ciosa de sua integridade territorial (que naturalmente inclui o Tibet e Taiwan), então procura não se meter desnecessariamente na vida dos outros. Para que não se metam na dela. Sábio. Talvez valha um benchmark para Luiz Inácio Lula da Silva e o pessoal do Itamaraty.

Os chineses exercitam seu protagonismo de outra maneira: com políticas comerciais agressivas, baseadas numa moeda fraca. O que estimula a exportação de produtos e a importação de empregos. Isso incomoda os Estados Unidos, que entretanto precisam ter cuidado ao queixar-se: a gigantesca poupança chinesa financia a gastança americana. E o que preocupa a China? Saber se os americanos vão continuar pagando direitinho os juros da dívida. E saber se o dólar não vai se desvalorizar demais. Pois as aplicações nos Estados Unidos são em dólar.

Se os Estados Unidos e a China têm lá suas diferenças, num ponto parecem estar de acordo: a cautela diante das pressões verdes para conter o crescimento mundial. Daí por que o G2 tenha bypassado o G20. Pelo visto, foram prematuras e excessivamente otimistas as previsões de que a crise de hegemonia do G8 (ricos) daria lugar a uma governança mais multipolar, por meio do G20 (ricos e médios). Se chineses e americanos não quiserem, não vai ter acordo, para valer, na Conferência do Clima agora em Copenhague.

Aos demais, resta torcer e exercitar o jus esperneandi. Previsivelmente, Lula e seu inevitável colega francês, Nicolas Sarkozy, chiaram, mas no íntimo o presidente brasileiro deve estar comemorando, pelo menos um pouquinho. Agora pode fazer algo que sempre aprecia: terceirizar uma decisão impopular e que, no entanto, traz benefícios a sua excelência. A atitude de Washington e Pequim tira a pressão de cima do Brasil, que seria apertado —e muito— na Dinamarca para endossar metas draconianas de não desmatamento. É tudo o que não querem o presidente e a candidata dele, Dilma Rousseff.

Sem cerimônia

Vai chegando ao fim este 2009, que oficialmente é o Ano da França no Brasil. Mas talvez nem os franceses imaginassem lá atrás que este seria mesmo “o” ano deles aqui. Pelo volume de contratos fechados, digo.

Sarkozy tem ladeado Lula nas mais diversas situações. À luz das encomendas brasileiras para a indústria bélica gaulesa, é razoável supor que hoje em dia o presidente da República sinta-se à vontade para convocar o colega francês quando necessário, sem muita cerimônia.

Ingleses corteses

Diz uma máxima que caprichar no título e nas imagens é essencial no jornalismo impresso, pois nem todo mundo lê o texto até o fim.

Os petistas comemoraram a capa da Economist e seu Cristo Redentor decolando como foguete do Corcovado. Só que o texto se derrama em elogios a Fernando Henrique Cardoso e define Lula como um presidente de continuidade.

Os petistas poderão usar a foto na campanha. Já os tucanos poderão usar o texto. Os ingleses são mesmo corteses. Ou espertos. Fazem RP, mas não metem a mão na cumbuca.

Coluna (Nes entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sábado, 14 de novembro de 2009

A História e sua caçamba (15/11)

A atitude de Lula diante do Irã será avaliada no futuro conforme o desfecho da trama. Nesse assunto nosso governo é movido a dinheiro, não a ideologia

A diplomacia é também, e talvez principalmente, a arte de prever cenários.

Neville Chamberlain foi o primeiro-ministro britânico que assinou o Pacto de Munique com Adolf Hitler em setembro de 1938 e entregou a Tchecoslováquia ao líder nazista na esperança de apaziguá-lo. Foi recebido em Londres na volta como heroi, um campeão da paz. Só que suas fotos desembarcando e agitando o papelucho do acordo com o Führer -e seu discurso sobre a “paz para o nosso tempo”- passaram à História como ícones do fracasso, do ridículo.

Dali a um ano o Reino Unido era obrigado a entrar em guerra com a Alemanha, quando esta invadiu a Polônia.

E se o desfecho tivesse sido outro? E se, como desejavam britânicos e franceses em Munique, a Alemanha atacasse a União Soviética e depois, saciada de "espaço vital", aceitasse a paz com os vizinhos da Europa Ocidental? Chamberlain e seu colega francês, Édouard Daladier, teriam se imortalizado como gigantes da estratégia. Os estadistas que desviaram Hitler para leste e deram cabo de Joseph Stalin sem derramar uma gota de sangue inglês ou francês. Gênios.

Daqui a alguns dias, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, visita o Brasil. Receber o polêmico líder iraniano é mais um passo da diplomacia brasileira para projetar a imagem do país como peça importante no tabuleiro. E a aproximação entre Brasília e Teerã tem a simpatia ativa da Casa Branca, que vê nas relações de Luiz Inácio Lula da Silva com Ahmadinejad um mecanismo a mais de contenção do presidente persa.

O governo brasileiro responde aos protestos contra a visita argumentando que não é nossa tradição filtrar ideologicamente os parceiros de outros países. É um fato. Nem a circunstância de adotar posição diametralmente oposta em Honduras deve servir como pretexto ou desculpa: a história da diplomacia brasileira tem sido cada vez mais a história da defesa da autodeterminação dos países e dos povos. Isso nos rendeu, por exemplo, uma relação privilegiada com as ex-colônias portuguesas na África.

O que está em jogo na visita de Ahmadinejad não são só, nem principalmente, teses sobre o Holocausto ou sobre o futuro do Oriente Médio. O Brasil busca agressivamente relações econômicas com o mundo árabe e a Pérsia. E Lula concluiu que seria adequado oferecer aqui a Ahmadinejad mesuras e gentilezas que o negacionista do Holocausto dificilmente receberia em outro país da dimensão e da importância do Brasil.

Tudo, repito, combinado com a Casa Branca. Que opera adequadamente, à luz de seus interesses. Se se pode tirar a castanha do fogo com a mão do gato, por que chamuscar a própria?

Não é a primeira vez que o Brasil joga um jogo assim. Foi igual com Saddam Hussein, o que transformou o Iraque da época num paraíso para os exportadores brasileiros. O paraíso do Passat e do frango. E também um eldorado para empreiteiras nacionais. Só que certo dia o presidente iraquiano teve a péssima ideia de invadir o Kuait. E o Brasil foi pego no contrapé, na contramão. Hoje o Iraque tem problemas de todos os tamanhos e tipos, e seu futuro é duvidoso. Nem se sabe se continuará a existir como nação. Mas uma coisa é certeza: nossa presença e influência ali são nulas. E sem perspectiva de futuro.

Se o Irã caminhar para um entendimento com as grandes potências, se abdicar do vetor nuclear como instrumento de hegemonia e agressão regional -e confessional- e se retomar os vetores democráticos da Revolução de 1979 as empresas brasileiras terão aberto um lindo mercado e Lula comparecerá aos livros de História como alguém que enxergou longe, enfrentando as incompreensões.

Se Ahmadinejad preferir o caminho da ditadura e envergar a fantasia de um Saddam Hussein com -agora sim!- armas nucleares é possível que na Pérsia do futuro, assim como no Iraque de hoje, a influência brasileira vá ser comparável, digamos, à do Lichtenstein. Ou de Andorra. Mais ou menos o que acontece agora em Honduras.

E o retrato do Lula sorridente com Ahmadinejad no tapete vermelho de Brasília irá repousar na mesma caçamba da História onde descansa a foto da chegada de Neville Chamberlain, e seu papelucho assinado por Hitler, ao aeródromo de Heston, periferia de Londres, naquele hoje distante 30 de setembro de 1938.

Coluna (Nas entrelinhas) na edição deste domingo no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

De costas para o campo de jogo (13/11)

Na vida real, a planilha de investimentos do governo federal em energia elétrica não serve para religar a luz quando ela falta

Um risco do jornalismo político é a tentação de cobrir e analisar os fatos como se tudo fosse uma partida de futebol. Dois times, em lados opostos, cada qual com sua técnica e tática. Onze contra onze. Um jogo decidido dentro de campo. No futebol, a turma da arquibancada não aparece nas reportagens ou análises sobre a partida, a não ser em situações inusitadas.

Na política é diferente. A prudência manda imitar aqueles policiais que ficam de costas para o espetáculo, só de olho no pessoal atrás do alambrado. O futebol se decide dentro das quatro linhas, inclusive quando o juiz faz das suas. Na política democrática o resultado final vem do público. Aliás, é assim também na política não tão democrática. No Coliseu o sujeito vivia ou morria conforme o sentido dos polegares da platéia. A regra vale até hoje.

Em Parque dos Dinossauros, o magnata John Hammond (Richard Attenborough) gosta de ressaltar que mandou não economizar no projeto. Tudo ali é top de linha. E no entanto dá errado. Se não desse, aliás, não tinha o filme.

A administração Luiz Inácio Lula da Silva respondeu ao colapso do abastecimento de energia elétrica da terça-feira com dados que mostram o grande, segundo o governo, investimento na trasmissão de eletricidade. E daí? Como em Parque dos Dinossauros, o projeto pode ser uma beleza, o dinheiro pode ter sido muito e as intenções, as melhores. Mas, e se deu errado?

Com os dados à mão até agora, seria irresponsável acusar o governo de negligência. Até porque a última coisa de que Lula e a candidata dele à Presidência, Dilma Rousseff, precisavam era um apagão como o da terça-feira. Mas na vida real do sujeito sentado na arquibancada a planilha de investimentos e os organogramas de gestão do governo federal no setor de energia elétrica não servem para ligar a luz quando ela falta.

Imagine que você tem um problema com o celular e chama a operadora. Em vez de ser atendido por alguém que possa resolver a falha, você é direcionado para um atendente que passa a listar os investimentos da companhia em infraestrutura, as medidas projetadas para garantir um sinal perene e de boa qualidade. Enquanto isso, seu celular continua sem sinal.

O governo diz que faltou luz na terça-feira por causa de chuvas, ventos e raios. Como essas três coisas vão continuar a existir até o fim dos tempos, será razoável que as autoridades digam, então, como fazer para que os próximos relâmpagos, ventanias e precipitações pluviométricas não derrubem de novo o abastecimento. Se essa for mesmo a razão. É preciso, antes de tudo, saber se os especialistas que contestam a versão do governo estão errados. E só quem pode provar isso é o próprio governo.

O presidente da República tem repisado em seus discursos a crença de que os impasses econômicos planetários vieram reforçar a necessidade de empresas estatais fortes e de uma presença ativa do Estado na economia. Mas se o Estado quer cumprir um papel importante na prestação de serviços ele precisa comportar-se como um prestador eficiente.

Do contrário, apenas reforçará a tese de que o estatismo serve aos ocupantes do Estado bem mais do que à sociedade.

Desmatamento

Ansioso por uma agenda positiva, o governo festeja a queda do desmatamento. Como ela se deve principalmente à violenta retração da atividade econômica, haveria também motivo para lamentar o belo índice.

O tira-teima vai ser quando a economia entrar num ritmo mais acelerado.

Gesto calculado

As palavras estimulantes da direção do PSDB nos últimos dias em direção ao governador Aécio Neves resultam, também, da constatação de que há uma chance real de a divisão tucana de 2002 e 2006 repetir-se agora. É tudo o que o PSDB quer evitar.

Aposentados

O governo pressiona a base para que o reajuste dos aposentados não seja votado pela Câmara dos Deputados. Em troca, Lula emitiria duas medidas provisórias, uma para quem ganha benefício de até um salário mínimo e a outra para os demais. Estes, naturalmente, teriam um aumento menor que aqueles.

Lula não quer o desgaste de vetar o reajuste em linha das aposentadorias pela variação do mínimo. E sabe que se o assunto for a voto a chance de derrota é grande. Mas o presidente já foi avisado de que eventuais medidas provisórias também serão emendadas, e que dificilmente haverá como escapar do veto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O meu apagão e o seu (12/11)

Quem está interessado em saber se o apagão de Lula é melhor ou pior que os de FHC? Petistas, tucanos e agregados de cada um dos dois. Só

Quais os maiores desastres de comunicação do governo George W. Bush? Um com lugar cativo no alto do pódio é o furacão Katrina, quando o presidente projetou uma imagem de distanciamento. Outro vistoso no portfólio é a cerimônia no convés do porta-aviões Abraham Lincoln, em maio de 2003, quando Bush discursou tendo atrás dele um banner com “Mission Accomplished” (missão cumprida), referência ao fim das principais operações de combate na Guerra do Iraque.

O Katrina virou símbolo de insensibilidade diante do sofrimento humano. O “missão cumprida” tornou-se ícone de como o excesso de marketing acaba atrapalhando, quando a realidade vem colocar dúvidas sobre a verossimilhança do palavrório. Tecnicamente, Bush podia mesmo dizer que a guerra de alta intensidade tinha acabado. O problema foi que depois veio uma de baixa intensidade. E o “Mission Accomplished” virou motivo de chacota.

Ao enfrentar o apagão da noite de terça-feira, e descontada a proporção dos fatos, o governo Luiz Inácio Lula da Silva dá sinais de querer combinar os dois erros.

Há um “efeito Katrina”. Os porta-vozes governistas estão mais preocupados em explicar por que o apagão de Lula é diferente dos de Fernando Henrique Cardoso. E não em pelo menos simular que a prioridade é com a segurança e o conforto dos cidadãos, suas famílias e seus negócios. E há um “efeito missão cumprida”, já que o governo vinha dizendo, insistentemente, que fato como esse não mais iria ocorrer.

É o risco que Lula corre. O triunfalismo virou peça permanente da sua retórica. E o triunfalismo tem seus problemas. Ele passa razoavelmente ileso pelos “pequenos” transtornos (como o número de mortos pela gripe suína), especialmente quando mascarados pelas boas notícias que saem da linha de produção. Mas se tem um apagão —e que apagão!— o contraste entre o discurso e a realidade fica evidente demais.

Ainda que Lula possa ter razão quanto às diferenças entre o apagão dele e os de FHC. E ainda que Bush estivesse realmente certo quanto ao fim das grandes operações de guerra no teatro iraquiano.

Quem está interessado em saber se o apagão de Lula é melhor ou pior que os de FHC? Petistas, tucanos e agregados em cada um dos dois lados. Além, naturalmente, da turma que espera por uma beirada no Orçamento, ou pela nomeação para um cargo de confiança, a partir de 2011, conforme quem levar vantagem na urna.

O resto do país está mais ocupado em entender como o governo vai fazer para evitar que se repita. Quer saber as iniciativas que vão ser tomadas (e que já foram tomadas) para aumentar a confiabilidade do sistema. Que é inconfiável, óbvio. E as pessoas querem saber também por que aconteceu. E se poderia ter sido evitado. Neste caso, vão querer o nome de quem vai pagar o pato, politicamente falando.

Assim é que funciona. Ou deveria funcionar. Não dá para Lula querer enfrentar o assunto na base do “meu apagão não é tão grave quanto foi o seu” ou do “deixem comigo, pois meu governo tem 70-80% de aprovação e eu sei o que estou fazendo”. Ou do “eu fiz o máximo, não encham”. Não é assim que funciona na democracia. Ou não deveria ser.

Imprevistos levam esse nome não à toa. Quando finalmente acontecem, vêm os sabichões de todos os tipos para explicar por que o desastre era absolutamente previsível. São os engenheiros de obra feita.

Existem, por exemplo, as mais variadas teorias conspiratórias sobre o 11 de setembro de 2001, e as investigações posteriores levantaram falhas decisivas para que o ataque ao World Trade Center tenha tido sucesso.

Mas o fato é que George W. Bush cumpriu sua missão como presidente dos Estados Unidos ao deixar o governo, sete anos e alguns meses depois, sem que o país fosse vítima de mais nenhum atentado terrorista.

O abastecimento pátrio de energia elétrica expôs terça-feira sua grande fragilidade. Como ela vai ser enfrentada? É só isso que o país quer saber.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Jogo do Poder com Aldo Rebelo (11/11)



O deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), relator das mudanças no Código Florestal, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Diego Escosteguy, da revista Veja. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Um gol do Itamaraty (12/11)

Não é razoável que o Lula fique excessivamente identificado com Mahmoud Ahmadinejad. Daí a bola dentro com essa agenda multicor

A diplomacia brasileira marcou um gol de placa ao conseguir programar na mesma época as visitas aqui dos presidentes de Israel, do Irã e da Autoridade Palestina. Para um país que busca cadeira permanente do Conselho de Segurança da ONU, é demonstração de densidade diplomática no mais alto nível.

A projeção da força do Brasil nos assuntos internacionais tem sido quase uma obsessão do presidente da República. É um bom projeto, que busca corrigir a óbvia assimetria entre o que somos de fato e nossa influência, ainda relativamente reduzida. Quando executado com profissionalismo, merece aplauso e alcança resultado.

Mas, o que é “profissionalismo”? Em primeiro lugar, compreender que papel internacional não é o direito irrestrito de se meter na vida dos outros e ditar regras ao alheio. Em Honduras, colhemos infelizmente os frutos de uma ação atrapalhada, que no começo se baseou em inteligência precária e depois evoluiu para a irrelevância.

Já a agenda levantina está montada com base nas melhores tradições do Itamaraty. O Brasil não é parte diretamente envolvida nos conflitos do Oriente Médio, defende o direito de todos os povos locais à autodeterminação em seu Estado nacional próprio e pode servir como ponte para diálogo entre países que hoje são inimigos. Tampouco temos contencioso com o Irã.

Mais: o Brasil não tem qualquer interesse em que o conflito ali seja transplantado para a América do Sul. Se acontecer, será uma derrota na construção da unidade continental, peça central do projeto nacional brasileiro. Como mostram os acontecimentos recentes entre Venezuela e Colômbia, cada rachadura no bloco é uma nova oportunidade para países de fora virem meter o bedelho.

A agenda de visitas destes dias também é competente para tirar Luiz Inácio Lula da Silva de uma arapuca.

O Brasil deseja estreitar os laços com o Irã, o que é visto com simpatia na Casa Branca. Esse movimento disputa espaço com a aliança entre Teerã e Caracas. E coloca o Brasil como interlocutor legítimo no debate sobre as reais intenções de Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad ao aproximarem seus dois países.

O projeto da atual cúpula iraniana — cada vez mais contestada internamente — é conhecido: levantar a bandeira da eliminação de Israel como estado judeu, fazendo desse objetivo um vetor de ampliação da influência regional. Para reforçar seus argumentos, Teerã cuida também, com carinho, de desenvolver tecnologia nuclear própria. O Irã afirma que ela será usada para fins pacíficos, mas é razoável haver dúvidas.

Será péssimo para nós se a aliança entre Chávez e Ahmadinejad evoluir para algum tipo de nuclearização da América do Sul. Uma corrida bélica regional nesses moldes seria o túmulo do nosso projeto de liderança. Que sirva de alerta o que aconteceu em Honduras, quando caímos na irrelevância e vimos a reinstalação — sob aplausos gerais — do diktat americano.

Então, é razoável que o Brasil adote uma política ativa diante da Venezuela, integrando-a no Mercosul, e do Irã. Não é razoável, porém, que Lula fique excessivamente identificado com Ahmadinejad. Daí o gol marcado pelo Itamaraty com essa agenda multicor.

Brasil, capital Buenos Aires

A produção industrial deve fechar este ano 9% abaixo de 2008, no acumulado. Mesmo que cresça por volta do mesmo tanto em 2010, apenas alcançará o patamar anterior à crise. Serão dois anos perdidos. Metade de um mandato presidencial.

O governo festejou ontem números a sair do forno, mostrando bom crescimento da economia no terceiro trimestre. Tomou o cuidado de anualizar o cálculo, para apresentar um algarismo gordo.

Do que o governo falou com menos entusiasmo? Das notícias de desaceleração no quarto trimestre, por causa exatamente do câmbio, que funciona como uma trava às exportações. A taxação recente da entrada de capitais — tão festejada — resultou em nada, ou quase nada.

Enquanto isso, o Enade deu de barato que houve a tal “marolinha”, recorrendo à autoridade da “imprensa internacional”. Se amanhã, digamos, o New York Times publicar uma reportagem dizendo que a capital do Brasil é Buenos Aires talvez a turma do Enade adote a informação como correta em seus testes.

Números inconsistentes

O Ministério do Trabalho diz que o saldo de empregos formais em 2009 será positivo em 1 milhão. Contra 1,5 milhão ano passado.

Só que em 2008 o Brasil cresceu acima de 5%. Deveria então ter criado muito mais empregos. Ou bem menos este ano.

São números inconsistentes, que merecem uma explicação.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

O limite de um modelo (10/11)

É curioso que na História do Brasil a esquerda esteja intelectual e socialmente vinculada ao “industrialismo” mas que no poder tenha se acomodado alegremente ao “agrarismo” clássico da velha direita

Na superfície, o debate sucessório deverá contrapor a mudança à continuidade. Especialmente na economia. Para ser intelectualmente honesta (coisa improvável na política), a discussão deveria lançar luz sobre uma ruptura necessária: como elevar a taxa de poupança para garantir um crescimento sustentado (não confundir com crescimento sustentável) e diversificado?

Foi um dos pontos em que Luiz Inácio Lula da Silva pouco ou nada avançou nestes sete anos. A distribuição de dinheiro pelo Estado aos mais pobres e a política de aumentos reais para o salário mínimo não foram acompanhadas por ações decisivas destinadas a incrementar a poupança nacional. Lula preferiu, também aqui, a contemporização. Até porque mais poupança implica menos consumo. De alguém.

É curioso que na História do Brasil a esquerda esteja intelectual e socialmente associada ao “industrialismo” mas que no poder tenha se acomodado alegremente ao “agrarismo” clássico da direita. A conversa é a de sempre, reembalada: nossa "vocação" para "celeiro do mundo". É a maldição de Pero Vaz de Caminha, originalmente vista como bênção e bem lembrada por Lula e Dilma Rousseff nos debates sobre o pré-sal. Ser uma terra “em que se plantando tudo dá” (ou “em que se perfurando tudo dá”) não é necessariamente bom.

Nossa história colonial é conhecida. Abundância de terras, uma elite litorânea, de costas para o interior e com a cabeça na metrópole, proibição de manufaturas, uma monarquia importada, a escravidão. Tudo a convergir para o modelo brasileiro clássico: por que o esforço individual, a poupança, a busca da inovação, a conquista de mercados, se tudo pode ser mais confortavelmente resolvido recorrendo à feliz combinação entre um Estado generoso, mão de obra barata e terras agricultáveis para, literalmente, dar e vender?

Nem Fernando Henrique Cardoso, originalmente um social-democrata, nem Lula, montado num partido inicialmente socialista, tiveram coragem, ou vontade, ou condições políticas de romper com isso. Ao contrário, FHC e Lula usaram e abusaram da ciranda financeira para captar no exterior o combustível que faz rodar a bicicleta. De olho na urna, apostaram no real forte. O futuro? Problema de quem vier mais à frente.

A esperteza de FHC rendeu-lhe um segundo quadriênio, ainda que anêmico. A de Lula, um final de governo apoteótico e a chance real de eleger a sucessora. De olho nisso, Lula desperdiçou a maior oportunidade de um presidente brasileiro, em todos os tempos, para desvalorizar a moeda sem impactar a inflação. Vistas retrospectivamente, as advertências sobre a “pressão inflacionária do câmbio” agitadas um ano atrás vão passar à história das análises econômicas como piada. Trágica no presente, mas piada engraçadíssima para quem se debruçar sobre o tema no futuro.

Lula gaba-se de praticar o menor juro nominal de todos os tempos, esquecendo convenientemente de que na comparação com o resto do mundo nós atravessamos a crise como o maior e melhor paraíso para a especulação -e como mercado ávido para importar e assim proteger o emprego dos outros. Na tradição dos papagaios que Caminha encontrou aqui há mais de cinco séculos, achamos lindo quando a “imprensa estrangeira” se derrama em elogios ao Brasil enquanto torce o nariz aos chineses. Mas nós sabemos como agradecer. A última é propormos à China que adote o câmbio flutuante. Lembra um pouco as razões que levaram à Guerra do Ópio.

O problema é que o modelo vai encontrado um limite. Especialmente se, sob pressão mundial, paralisarmos mesmo a expansão da fronteira agrícola. Nossa hora da verdade está chegando. Não vai ser fácil para quem estiver no comando.

Dizer que um eventual governo Dilma será a continuidade da gestão de Lula pode servir na campanha para arrumar votos. Mas mesmo a ministra -ou talvez especialmente ela- precisará encontrar um caminho para cortar o custeio estatal, aumentar a eficiência do setor público, abrir espaço ao capital privado e oferecer condições de competitividade à indústria nacional no exterior.

Um abacaxi e tanto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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domingo, 8 de novembro de 2009

A boa cautela de Lula (08/11)

Se não nos convidaram para o banquete, soa um pouco excessivo que nos intimem a participar de igual para igual na hora de rachar a dolorosa.

É bom que o presidente da República esteja cauteloso nas discussões sobre o papel do Brasil na Conferência do Clima. E é curioso que os críticos do "protagonismo a qualquer custo" sejam agora os primeiros a exigir de Luiz Inácio Lula da Silva que coloque o Brasil na linha de frente das medidas contra o aquecimento global. É a dança da política.

O debate está claro desde o começo. Se o aquecimento global é mesmo um problema grave, e se deve ser enfrentado globalmente, é preciso saber para quem irá a conta. O lógico será repassá-la aos que, até o momento, mais se beneficiaram do progresso humano. Se é mesmo verdade que o mundo não suportaria a globalização dos padrões europeu e americano de consumo, que os americanos e europeus se contenham, para começo de conversa.

Qual é o problema? É que países como a China e o Brasil estão pelo meio do caminho. Não podem ser considerados tecnicamente "subdesenvolvidos", mas ainda têm milhões de pobres para colocar no mercado, alimentar, vestir, educar, divertir. O Brasil não é a Noruega, ou a Suécia, onde tudo está mais ou menos resolvido. Temos um país a construir. Então, ou bem encontra-se um jeito ambientalmente correto de fazê-lo, ou paciência.

Se não nos convidaram para o banquete, soa um pouco excessivo que nos intimem a participar de igual para igual na hora de rachar a dolorosa. Também porque as bolas estão invertidas. Pedem-nos o sacrifício à vista, com a promessa de benefícios no longo prazo. Exigem que renunciemos à expansão da fronteira agrícola, sem a garantia de que o aumento de produtividade será capaz de atender à demanda explosiva por comida numa sociedade em que, finalmente, os pobres começaram a comer direito.

Isso significa que nada temos a ver com o desafio? Ou que não podemos contribuir para resolvê-lo? Negativo. Apenas é preciso cautela. Daí a razoabilidade da posição de Lula e da candidata dele à Presidência, Dilma Rousseff.

Até porque -e infelizmente- as opções a nós propostas são no mínimo nebulosas. A primeira é exatamente congelar a expansão da área plantada, com a premissa de aproveitar melhor a área já desmatada. É um debate bonito de se fazer no carpete e no ar-condicionado, mas enfrenta problemas na vida real. E olhem que Lula deu sorte, ao ver fracassar seu projeto delirante de transformar o etanol em combustível planetário. Tivesse dado certo, a soja e os bois estariam em marcha batida rumo ao norte, e Lula não poderia passar nem na porta do encontro de Copenhague.

Os créditos de carbono, outro ponto da pauta, não parecem ser capazes de dar conta do desafio. É uma conta que não fecha. Europeus e americanos pagam para que preservemos as nossas florestas. Ótimo. Mas ninguém come dinheiro, ou se veste com dinheiro, ou mora em casas de dinheiro. O dinheiro serve para comprar coisas. Que precisam ser produzidas. E que portanto implicam custo ambiental. Com dinheiro na mão, o pobre vai querer consumir. E alguém vai ter que produzir.

É um debate simples? Não. Temos as nossas próprias responsabilidades no assunto? Temos. Mas não implica que precisemos estar na linha de frente a qualquer custo. Os compromissos que vamos assumir precisam estar subordinados, em primeiro lugar, ao nosso projeto de desenvolvimento.

Nosso desafio não é crescer menos, é crescer mais. Os que nos pedem atitudes heroicas no combate ao aquecimento global precisam dizer, também, como fazer isso crescendo aceleradamente e combatendo mais aceleradamente ainda a pobreza. Na prática, não na teoria.

Estranhamento

As declarações pejorativas e mal-educadas de Caetano Veloso sobre Lula deram ao presidente a oportunidade de sacar seu roteiro favorito: o de vítima de preconceito.

Improvável que cole. O modelito agressivo, depreciativo e autossuficiente -que alguns podem ler como arrogante- adotado por sua excelência desde que abandonou o "Lulinha paz e amor" não combina com o papel de vítima, que tantos dividendos políticos já lhe rendeu.

Esse mix de coitadismo e soberba pode, no máximo, gerar algum estranhamento.

No teatro da política, Lula precisa escolher sua máscara na peça. Não dá para querer todas. Ainda que hoje em dia o presidente demonstre alguma dificuldade para entender que o poder dele tem limites.

Demagogia

O discurso da oposição "em defesa dos aposentados" não fica de pé. Por acaso algum dos presidenciáveis tucanos, se eleito, vincularia o reajuste dos benefícios da Previdência à variação do salário mínimo? Óbvio que não.

É apenas um caso agudo de demagogia.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Eles caíram como patinhos (06/11)

Com seu artigo, FHC pretendeu colocar uma cunha entre o governo Lula e os intelectuais, entre a administração do PT e a crescente classe média. O PT ajudou-o a atingir o alvo.

O PT mordeu a isca atirada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Caiu como um pato. FHC escreveu artigo em jornais no último domingo afirmando que o PT conduz o Brasil para um autoritarismo em moldes “subperonistas”, com partidos e sociedade civil neutralizados, organizações sociais cooptadas e empresariado dependente do capital controlado, direta ou indiretamente, pelo Estado.

Tudo, segundo FHC, encimado pela figura do líder supremo, inquestionável.

Por que o PT se enrolou na armadilha posta por FHC? Pela maneira como reagiu. Recebeu uma crítica política e não respondeu politicamente. As reações variaram, mas tiveram um traço comum: a desqualificação. FHC está com inveja do sucesso de Luiz Inácio Lula da Silva. Suas afirmações nascem do inconformismo, compreensível num intelectual ferido em sua vaidade, suplantado, como presidente, por um metalúrgico de escolaridade formal precária.

Mas, e daí se FHC estiver movido por péssimos sentimentos, ou pelo rancor? No que isso invalida a crítica? Estivessem Lula e o PT menos tomados pela apoteose mental, procurariam fazer algum esforço para rebater FHC no mérito. Nada porém foi dito. O poder comportou-se de modo a reforçar a acusação, colocando-se acima dela a priori, como se parte da sociedade brasileira, mais conservadora (ou mais liberal, ou menos petista), estivesse preliminarmente impedida de participar do debate político, ou de criticar o governo.

Acusado de bonapartismo, o poderoso reagiu com viés bonapartista.

Um comportamento nascido da autossuficiência. Defeito que aliás FHC conhece bem. Ele deve saber o prejuízo que lhe causaram gracinhas como chamar os opositores de “fracassomaníacos”, ou aposentados de “vagabundos”. O tucano foi um mestre da desqualificação. O PT vai pelo mesmo caminho. Turbinados pela popularidade do líder, epígonos elaboram o index de quem pode ou não pode falar, está ou não está autorizado a criticar. Saiu da linha, tomou porrada.

No artigo, FHC acusou Lula de tentar matar moralmente os adversários. E o PT reagiu armando o pelotão de fuzilamento.

O PT e Lula, pouco a pouco, desacostumam-se ao diálogo com quem pensa diferente. Outro dia, o presidente foi surpreendido por um cidadão que lhe disse que não votava nele. “Eu não estou precisando do seu voto”, respondeu Lula, na lata. Para delírio e gargalhadas dos bajuladores em volta. Está tudo no YouTube.

Cercar-se de bajuladores é confortável para o príncipe. Mas nem sempre é saudável.

O Brasil é um país complexo, e os sucessos do governo Lula tornaram-no mais complexo ainda. Segundo um raciocínio tosco, o pobre que saiu da pobreza neste governo vai ser eternamente uma cabeça de gado a mais no curral eleitoral do nosso presidente. Por que é tosco? Porque quem sai da miséria, ou da pobreza, quer mais é ser dono da sua própria vontade. Quanto mais desenvolvida uma sociedade, maior a demanda por um comportamento democrático do governante.

Com seu artigo, FHC pretendeu colocar uma cunha entre o governo Lula e os intelectuais, entre a administração do PT e a crescente classe média. Pretendeu plantar em quem não é ferrenhamente petista a dúvida sobre a sinceridade dos propósitos democráticos do PT.

O PT ajudou-o a atingir o alvo.

Lento

O ritmo político do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), é adequado ao espírito de corpo da Casa. Mas completamente inadequado à vida aqui fora.

As providências sempre parecem chegar atrasadas. Com o inevitável desgaste político.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Descendo na banguela (05/11)

O desenho da Previdência brasileira nada tem a ver com a atual realidade. Dado o aumento da expectativa de vida, daqui a pouco chegaremos a uma situação em que o sujeito ficará aposentado o mesmo tanto de anos que passou trabalhando

Qual é a lógica de indexar todas as aposentadorias e benefícios da Previdência Social ao reajuste do salário mínimo? Como o nome diz, o mínimo é um salário relativamente pequeno. Deve portanto ser objeto de políticas agressivas de recomposição e aumentos reais. Em teoria, pode-se defender que as aposentadorias muito baixas recebam também um tratamento especial. Mas todas? Qual é o sentido?

Os aposentados naturalmente defendem a indexação em linha. Estão no direito deles. Mas, e o governo? Este parece novamente contar em último caso com o patriotismo da oposição. Com honrosas exceções, é flagrante o pânico governista diante do desgaste de impor uma posição antipopular. Daí que o Palácio do Planalto prefira repassar o ônus aos senhores parlamentares. Que preferem um veto presidencial. Óbvio. Coisa de que Luiz Inácio Lula da Silva não quer nem saber. Mais óbvio ainda.

Como a popularidade do presidente é o maior ativo do situacionismo, vão de novo suas excelências congressuais para o sacrifício. Cést la vie. E segue o Congresso Nacional na dança maluca, desde que as medidas provisórias pararam de bloquear a pauta: 1) o governo finge que não é governo, 2) a oposição oscila entre o impulso do “quanto pior, melhor” e o medo de — se ganhar a eleição — receber um abacaxi e tanto lá na frente e 3) o Tesouro, tadinho, fica sem ter quem o defenda.

Discussão séria sobre a Previdência Social? Esqueçam. Pelo menos nestas vésperas de eleição. O governo tem suas razões para fugir do debate como o diabo da cruz. Qualquer passo “construtivo” seria tragado na voragem da luta política. E o estado gelatinoso da base governista — ao menos em pontos doutrinários — não dá margem de segurança para passar o trator.

Um dia o Brasil precisará voltar ao tema. Talvez já no próximo quadriênio. O desenho da Previdência brasileira nada tem a ver com a atual realidade. Dado o aumento exponencial da expectativa de vida, daqui a pouco chegaremos a uma situação em que o sujeito ficará aposentado o mesmo tanto de anos que passou trabalhando. E com uma vantagem: se vingarem as pressões por reajustes em linha vinculados ao salário mínimo, os vencimentos vão convergir para o que ganha o trabalhador da ativa.

É bom? Ótimo, desde que se saiba quem vai pagar a conta. Porque entra governo, sai governo e uma coisa não muda: os políticos enxergam o Tesouro como uma fonte inesgotável de maná, um saco sem fundo de bondades. Daí que, ciclicamente, o governante que dá azar de ser eleito na hora “errada” precise fazer um ajuste daqueles, enfrentando o desgaste alimentado exatamente pelos que criaram o problema.

Solução à vista? Estrutural? Esqueçam. Bem na hora que o Congresso Nacional redescobriu seu poder e o governo só quer saber da sucessão? Quem vier depois que fique com o mico. E que pague a conta. Até lá, o caminhão continuará a descer a ladeira na banguela.

Reforma


Por falar em pagar a conta, o único consenso entre governo e oposição é que o próximo presidente da República precisará fazer um belo ajuste no primeiro ano. Nos laboratórios do dilmismo, por exemplo, um tema presente é a reforma administrativa, com a busca de mais produtividade no serviço público.

Aliás, quem conhece Dilma diz que se engana quem imagina que um eventual governo dela será a festa do caqui do empreguismo partidário ou sindical.

Drogas

A propósito das colunas recentes em que abordei as drogas e da violência, tive a oportunidade de conversar ontem com o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), que lidera no Congresso Nacional um debate sobre a melhor maneira de enfrentar o problema.

Ele defende que o modelo atual faliu, e que é preciso buscar alternativas. Que, na sua opinião, deveriam incluir a descriminalização do uso pessoal de certas substâncias. Para tirar essa atividade da esfera da ação policial.

Eu expus minha opinião de que a solução de um caso de segurança pública não pode ter como custo o agravamento dos problemas de saúde pública.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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