sábado, 31 de outubro de 2009

Economia nos gestos e jogo duro (01/11)

Em Honduras, os Estados Unidos agiram como potência: economizaram nos gestos para a plateia e jogaram duro com quem interessava. Quem preferiu os aplausos da arquibancada acabou a partida no banco de reservas

Precipitou-se quem profetizou, diante das dificuldades iniciais, o inevitável fracasso da administração Barack Obama. Depois do Nobel da Paz, esta semana o presidente americano recolheu outros dois prêmios: 1) a solução do impasse hondurenho foi construída sob o tacão dos Estados Unidos -e debaixo dos aplausos de Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez; e 2) a economia da maior potência mundial trouxe números que mostram luz no fim do túnel da crise.

Em Honduras, os Estados Unidos agiram sem dúvida como potência: economizaram nos gestos para a plateia e jogaram duro com quem interessava. Os que preferiram aplausos da arquibancada acabaram a partida sentados no banco de reservas. Paciência. É o que os americanos chamam de "learning curve". Nossa curva de aprendizado. Potência não se senta na mesa do carteado para marcar posição, ou assegurar discurso. Entra para ganhar e sair com as fichas.

Se queremos ser potência de verdade, e não apenas no gogó, ou em reportagens e editoriais babosos da imprensa internacional, vamos aprender com quem já é uma. Usando o método japonês: em vez de reinventar a roda, copiemos. O comportamento da Casa Branca na crise de Honduras combinou dois vetores clássicos em sua política externa: a Doutrina Monroe, do presidente James Monroe, e seu complemento, o Big Stick de Theodore Roosevelt.

A primeira define, ainda que disfarçadamente, as Américas como área de influência natural dos Estados Unidos. A segunda diz como garantir isso (e outras coisas mais): falando macio e carregando um grande porrete.

“América para os americanos” permite uma dupla e conveniente leitura. Se “americanos” são só eles mesmos, a frase retrata um pensamento imperialista. Mas se somos todos americanos, do Alasca à Patagônia, então a interpretação é outra, mais comunitária. Já a fala doce e o porrete providencial saíram de um ditado africano, a que Roosevelt (não confundir com o outro mais famoso, Franklin Delano) deu ampla divulgação e expressão histórica.

O resultado está aí. Depois de passar quatro meses alternando o discurso de não ingerência e medidas econômicas e diplomáticas dolorosas, os Estados Unidos foram convocados pelo hemisfério e pelos hondurenhos a bater o pênalti decisivo. E o equilíbrio da balança mudou. Vamos aguardar as consequências.

Na Nicarágua, os sandinistas, sem apoio congressual para a reforma da Constituição, operam na corte suprema para qu os juízes simplesmente anulem a cláusula que proíbe reeleger o presidente.

O embaixador americano em Manágua andou criticando a manobra.

Claro que recebeu em troca a reação feroz do sandinismo. Ora, se os Estados Unidos são árbitro das pendengas internas em Honduras, por que não podem ser também na Nicarágua? Ou em Cuba? Ou na Venezuela? Ou em qualquer outro lugar?

Isso é apenas um exercício retórico, claro. Lula, Chávez e o nicaraguense Daniel Ortega apoiam a ingerência americana em Honduras porque é para reinstalar um aliado dos três na presidência do país. E defenderão furiosamente a soberania nacional de qualquer nação quando uma eventual intervenção americana ameaçar ali posições de poder “"amigas"”. É a diplomacia "à la carte". Só que falta sofisticação ao menu.

Essa precariedade doutrinária atrapalha no processo de liderança. Daí que a OEA tenha saído do episódio ainda menor do que entrou. Não foi chamada nem para recolher os salgadinhos que sobraram do coquetel. E daí que a formalização esta semana do pacto bilateral para o reforço da presença militar dos Estados Unidos na Colômbia tenha passado quase batida, como algo normal, natural.

Trio vencedor

O outro dado positivo para Obama, o crescimento do PIB americano, reforça uma constatação. O mundo entrou junto na crise e vem saindo também junto. Agradecimentos devem ser enviados principalmente a Pequim, Londres e Washington.

Os chineses estão dando um jeito de crecer 8% este ano, o que garante aos países parceiros uma boa expansão, agora e no futuro próximo. Os ingleses levarão para a História o mérito de terem dito, na hora exata, que nenhum preço seria caro demais para salvar os bancos. E os americanos entraram com a gastança.

O resto do mundo, de dedos cruzados e rezando, seguiu atrás do trio.

Pena que na ilha de Sua Majestade os ventos eleitorais sejam de ingratidão ao premiê trabalhista, Gordon Brown, que ordenou o toque de avançar a cavalaria na hora mais necessária, quando qualquer vacilação teria sido fatal.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de amanhã do Correio Braziliense.

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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Dando um jeito na porcaria (30/10)

Esta coluna foi fechada ontem antes do anúncio do acordo em Honduras. Parece ter sobrevivido.

*

Como o personagem “the cleaner” em Pulp Fiction, o filmaço de Quentin Tarantino, na política mundial que verdadeiramente conta os homens de ideias são chamados à cena para dar um jeito na porcaria deixada para trás pelos homens de ação

A regra nas relações internacionais é o cinismo. Especialmente quando países fortes buscam justificar moralmente seus interesses imediatos. Mas movimentos cínicos e dissimulados também são úteis às nações menores, no equilibrismo que praticam para sobreviver em um mundo dominado por outros.

A função dos ideólogos e doutrinários é acessória, subsidiária. Como o genial personagem (“the cleaner”, o limpador) vivido por Harvey Keitel em Pulp Fiction, a obra-prima de Quentin Tarantino. Na política mundial que conta, os homens de ideias são chamados à cena só para dar um jeito na porcaria deixada para trás pelos homens de ação.

O caso de Honduras é emblemático. Vamos recapitular. O presidente constitucional, Manuel Zelaya, ensaiou dar um golpe de estado. Como? Organizando uma consulta ilegal para angariar apoio à convocação de uma Assembleia Constituinte, que por sua vez revogaria a cláusula constitucional impeditiva da reeleição.

Zelaya diz que era só uma inocente “pesquisa de opinião”. Mas pesquisas se fazem por meio de empresas especializadas e gente com prancheta na mão. Não com urnas colocadas em quartéis. Elementar.

Só que o presidente de Honduras errou no cálculo e tomou o que classicamente é o golpe de estado preventivo. Foi capturado em casa pelos militares e posto de pijama para fora do país. Tempos depois voltou clandestinamente, para abrigar-se na embaixada brasileira em Tegucigalpa. Onde está até hoje.

Ao longo destes meses, os dois lados travam uma queda-de-braço. Zelaya tem, em teoria, amplo apoio internacional. Mas a “indivisível” frente mundial zelayista está na verdade dividida. Seus aliados bolivarianos lutam para reinstalá-lo com amplos poderes. Já os Estados Unidos querem recolocar Zelaya na cadeira mas de mentirinha, sem músculos ou hormônios suficientes para retomar o projeto original. O Brasil aceita a saída americana, mas gostaria de salvar as aparências diante de Hugo Chávez.

Se Zelaya tivesse em Honduras um décimo do apoio que vem de fora, já estaria de volta ao poder, dando as cartas e jogando de mão. Aí o primeiro erro brasileiro no caso. Quando houve o golpe, o Itamaraty superestimou a força do presidente hondurenho e subestimou os adversários dele. Na diplomacia, como na guerra, tomar decisões sem inteligência (informação) adequada é caminho certo para enrolar-se. E se você não tem informação, aja com cautela.

O Brasil enrolou-se em Honduras. Retirou de lá o embaixador, num gesto tão grandiloquente quanto inútil. E envolveu-se num bate-boca vazio com os golpistas. Como resultado prático, enquanto os Estados Unidos comandam o processo político local em busca de soluções, restou a nós oferecer hospedagem ao mandatário deposto. No que aliás fazemos bem. Melhor ser coadjuvante do que nada.

Feita a porcaria, agora aparecem os explicadores, “the cleaners”. Teoricamente, nossa posição “rígida” em Honduras decorre de firmes convicções democráticas, da repulsa a soluções autoritárias. Exigimos inclusive que os Estados Unidos promovam um bloqueio econômico àquele país. Ao mesmo tempo que pedimos o fim do bloqueio americano a Cuba, em nome da soberania que cada nação deve ter para conduzir sua política interna.

A posição brasileira sobre Cuba é plenamente defensável à luz da história diplomática do Brasil e dos nossos interesses nacionais. Já em Honduras, o resultado prático colhido até agora é o enfraquecimento da nossa posição relativa. Se Zelaya voltar com tudo, o vencedor terá sido Chávez. Se retornar desidratado ou se tiver que aceitar fora do poder o resultado da eleição marcada para este novembro, o troféu vai para Barack Obama e Hillary Clinton.

Neocons

Como já repisado aqui, os movimentos brasileiros na crise hondurenha servem para cristalizar e legitimar a ideia de que a “comunidade internacional” (as grandes potências) tem o direito de imiscuir-se na economia interna de países que estejam em “déficit democrático”.

Apenas para registro, é o pilar doutrinário central do neoconservadorismo que regeu a orquestra ideológica no governo George W. Bush. Claro que ali a ideia era os Estados Unidos funcionarem como “polícia democrática” do mundo. Mas o conceito é o mesmo. Relativizar a autodeterminação nacional diante da necessidade de expandir a liberdade.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Um obrigado ao COI (29/10)

O Brasil ficou repentinamente mais perigoso, mais inseguro? Ficou mais injusto socialmente, mais pobre? Os números mostram que não. A mudança foi outra. Agora temos Olimpíadas marcadas para o Rio

Os críticos das Olimpíadas no Rio “perderam”, para usar a expressão imortalizada no Tropa de Elite. Começa a valer —e para valer— o argumento, otimista, de que a Rio 2016 funcionará como catalisador de mudanças boas. A primeira mais visível é a guinada de 180 graus nos discursos do governo federal e do presidente da República sobre o combate à criminalidade carioca.

Ontem, na futura sede olímpica, Luiz Inácio Lula da Silva até exagerou, disse que bandidos não são pessoas “normais”.

Menos, presidente. Devagar com o andor. Indivíduos até outro dia perfeitamente enquadráveis na “normalidade” podem hoje cometer crimes terríveis. Antes de debater a sanidade psíquica dos bandidos, talvez seja o caso de organizar a sociedade e o Estado de modo a desestimular que se cometam crimes. E a punir quando são cometidos.

O crime no Brasil não é assunto primeira nem principalmente para a Psiquiatria. É para o Direito.

Tirante o exagero verbal de Lula, é positivo e deve ser saudado que finalmente o governo olhe o crime como algo que exige diagnóstico e terapêutica específicos, como um fenômeno que até pode ter conexão com a mecânica social, mas não se confunde com ela. Em boa hora, vai morrendo, no discurso governista, a mistificação de que o crime e a violência são função direta da pobreza, da desigualdade ou da falta de oportunidades.

O que mudou? O Brasil ficou repentinamente mais perigoso, mais inseguro? Não há elementos que comprovem. Ficou mais injusto socialmente, mais pobre? Os números mostram que não. A mudança foi outra. Agora temos Olimpíadas marcadas para o Rio daqui a menos de sete anos. Então é simples: o discurso que ontem convinha hoje não convém mais.

Exigir “coerência” dos políticos é atividade frustrante, e não caio na armadilha. Até porque coerência não é um valor em si. Se o sujeito milita no equívoco, é bom que mude de posição. Líderes que estão errados e colocam a coerência em primeiro lugar costumam levar seus liderados a grandes desastres. A História está cheia de exemplos.

O líder competente percebe a hora certa de guinar, e procura fazê-lo com o menor desgaste possível. E Lula ainda leva uma vantagem adicional. Como a crítica a ele no âmbito do governismo simplesmente desapareceu, pode fazer a guinada que quiser, pois estará invariavelmente certo. Antes e agora. Ainda que o “agora” seja o oposto do que era o “antes”.

Então parabéns a Lula. Vamos ver como o discurso se materializa em ação. O Ministério da Justiça propõe endurecer a lei para punir os grandes traficantes, afrouxando simultaneamente as penalidades aplicadas aos pequenos.

A ideia parece teoricamente razoável, mas embute um conceito que merece mais debate: será possível combater o tráfico de drogas feito em grande escala sem reprimir também, ainda que em grau distinto, o vendedor na ponta e o consumidor?

Até porque se consumir drogas é tratado condescendentemente, e se o varejo nessa atividade deve ser visto com leniência, por que então punir os que se dedicam ao comércio no atacado? Por causa da escala? Do volume? Mas qual é o limite exato que distingue o “pequeno” do “grande” traficante?

Enquanto se espremem as cabeças sobre essas e outras dúvidas conceituais, talvez seja o caso de promover, pelo menos num primeiro momento, o arrocho geral. Nem que por prudência. A situação não é de enfermaria. Está mais para UTI. Vamos primeiro salvar o paciente. Depois cuidaremos dos outros detalhes.

De todo modo, fica aqui o obrigado aos membros do Comitê Olímpico Internacional que votaram para trazer as Olimpíadas ao Rio. Só mesmo vocês para Lula finalmente enxergar a conveniência de abandonar certos preconceitos e encarar a realidade como ela merece.

O Rio e o Brasil sinceramente agradecem.

“Exemplar”

Sempre que o sujeito quer se mostrar durão contra os bandidos, fala em puni-los “exemplarmente”. Talvez a palavra devesse ser aposentada. O razoável é punir “na forma da lei”, “fazer justiça”. Tem mais a ver com uma sociedade civilizada.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Jogo do Poder com Cássio Taniguchi (28/10)



O secretário de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Distrito Federal, Cássio Taniguchi (deputado federal licenciado do DEM-PR), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Em discussão Brasília, com seus problemas e desafios urbanos. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Lilian Tahan, repórter de Cidades do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Imperialista, mas com jeito (28/10)

A reorganização do espaço político regional sob os auspícios do grande capital brasileiro é um fato do processo histórico. O melhor é cuidar para que se dê com parâmetros defensáveis

O assunto da hora no Mercosul é a entrada da Venezuela. Ainda que o Senado brasileiro ratifique a adesão, ficará faltando a concordância do Paraguai, onde a pauta virou objeto de disputa política entre o presidente Fernando Lugo —que apoia a incorporação do país de Hugo Chávez— e os oposicionistas, removidos do poder nas últimas eleições. Considerado o peso específico de cada ator, é provável que a chancela do Brasil, se acontecer, acabe removendo os obstáculos políticos colocados pelos paraguaios.

Grandes empresas brasileiras, especialmente na área de infraestrutura, têm forte interesse em que a dança com Caracas vire casamento. É um mercado e tanto, pois ao longo dos anos a Venezuela desperdiçou a riqueza petrolífera, não usou o capital para industrializar-se. Nosso vizinho do norte talvez seja o melhor exemplo de como muito petróleo não significa necessariamente desenvolvimento. A tradição ali, de longa data, é as elites econômicas e políticas parasitarem a riqueza do óleo e deixarem em enésimo plano a justiça social e o interesse nacional. Eis uma explicação, talvez a principal, para a emergência do chavismo.

A incorporação da Venezuela é também defensável de outro ângulo: a segurança coletiva. O regime de Caracas ensaia ser o catalisador de uma “globalização” desagradável. Dados os laços crescentemente íntimos com o Irã, Chávez ameaça arrastar nossa região rumo um protagonismo indesejado: meter-nos na disputa global em torno do programa nuclear iraniano. A América do Sul é um continente 100% livre do terrorismo e das armas de destruição em massa. Será ótimo que continue assim. Infelizmente, como já dito e ressaltado aqui, a diplomacia brasileira tem tido uma posição frouxa diante da ameaça de escalada nuclear regional.

A completa integração da Venezuela abrirá caminho para maior influência política do Brasil nos assuntos do parceiro caribenho. O que interessa também, e muito, aos Estados Unidos. Na estratégia global de Washington, cabe a nós zelar para que as coisas não saiam dos eixos na América do Sul. O que coincide com nossas próprias aspirações nacionais estratégicas. Também daí o ótimo momento que vivem as relações com os americanos, independendo até da cor do governo de plantão — lá e cá. Luiz Inácio Lula da Silva foi adulado publicamente por Barack Obama, mas com George W. Bush ele já era, na prática, “o cara”.

Assimetria

Um problema grave do Mercosul é a assimetria dos integrantes. Convém a nós que os vizinhos se desenvolvam, até mais aceleradamente do que o Brasil. Não apenas pelas consequências no plano migratório, mas para garantir um melhor equilíbrio político. Há porém resistências internas a que o Estado brasileiro alavanque a expansão do capital nacional na região. Argumenta-se que cada emprego criado lá fora é um emprego a menos aqui.

Talvez não seja bem assim, dado que a transformação de empresas brasileiras em multinacionais traz necessariamente resultados também no Brasil, inclusive com o surgimento de oportunidades de trabalho, talvez até mais sofisticadas. De todo modo, essa expansão, a reorganização do espaço político regional sob os auspícios do grande capital brasileiro, é um fato do processo histórico, contra o qual as lamentações e os apelos por cautela costumam adiantar pouco. Melhor cuidar para que se dê com parâmetros defensáveis, histórica e moralmente. E até hoje nenhum país se deu mal por praticar o —com o perdão da má palavra— imperialismo.

A diferença é que os sabidos fazem isso com jeito.

Israel

Ainda no âmbito do Mercosul, avança no Congresso Brasileiro a aprovação dos acordos de livre comércio com Israel. Uma vez integrada ao bloco, a Venezuela deveria teoricamente normalizar suas relações com o Estado Judeu, esgarçadas desde as duas últimas guerras movidas pelos israelenses, contra o Hezbollah e o Hamas.

Veremos como Chávez se sai dessa. E como agirá o Brasil no caso.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Mais ativismo de Lula em Cuba (27/10)

O governo Lula fará bem se olhar para o tema de Cuba sem preconceitos, sem viés ideológico. Aliás, o presidente fez questão de reafirmar em sua entrevista mais recente que nenhum movimento dele em política externa é movido a ideologia

O diário madrilenho El País transcreveu um diálogo entre o presidente democrata dos Estados Unidos, Barack Obama, e o colega espanhol, o socialista José Luis Zapatero. O assunto era Cuba, que entrou na pauta porque o chanceler da Espanha, Miguel Ángel Moratinos, estava de viagem marcada para Havana.

Em resumo, o que o chefe da Casa Branca mandou Moratinos avisar aos dirigentes cubanos foi o seguinte: ou eles dão passos visíveis para abrir o regime, ou será complicado para Washington seguir no caminho da distensão.

O impasse é simples de explicar.

A cúpula em Havana quer relações econômicas normais com os Estados Unidos, para oferecer prosperidade à ilha e solidificar o poder do Partido Comunista. Já a Casa Branca topa avançar no caminho da abertura econômica, desde que acoplada a uma transição política que, lá na frente, conduza os cubanos a um sistema democrático, com a possibilidade real de alternância no poder.

Disso o PC não quer nem ouvir falar.

É óbvio que a Obama faltará em algum momento apoio político para uma distensão com os Castro se a estratégia atual não mostrar resultados. Daí que o presidente americano tenha sido claro na conversa com seu par espanhol.

E nós? Bem, na lista de assuntos a que a política externa brasileira assiste com passividade estupenda, Cuba ocupa uma das primeiras posições, junto com a ameaça de nuclearização regional (assunto já tratado aqui). A passividade vem embrulhada num ativismo de fachada, que diz buscar o fim puro e simples do bloqueio econômico. Sem contrapartidas. Pois, afinal, Cuba deve exercer plenamente sua soberania.

Mas o desenvolvimento da crise política em Honduras, desencadeada pelo golpe de estado, mandou ao arquivo os princípios da não ingerência e da autodeterminação. E Luiz Inácio Lula da Silva está agora, vejam só!, diante de uma bela oportunidade: usar o capital acumulado e o novo ambiente de cooperação regional para ajudar Barack Obama a obter uma transição política negociada em Cuba.

Será o caminho mais curto para Lula ganhar o seu próprio Nobel da Paz. Desde, é claro, que nosso presidente considere que o melhor para Cuba é um regime plenamente democrático, com ampla liberdade de organização e expressão, e com o fim do monopólio do poder do PC.

Os defensores do governo cubano argumentam que operar essa transição sem garantias seria colocar em risco a soberania da ilha caribenha. E que o primeiro passo é simplesmente os Estados Unidos levantarem o bloqueio.

Talvez não seja uma posição realista, de alguns. Ou talvez embuta a ilusão, de outros, de que com a economia indo bem haverá um caminho para manter intocado o sistema político cubano.

Na conversa com Zapatero relatada pelo El País, Obama opinou que a América Latina está ok, que vai saindo satisfatoriamente da crise e que as instituições democráticas se consolidam, com exceção naturalmente do caso hondurenho. Mas resta Cuba como um problema sem solução.

O governo Lula fará bem se olhar para o assunto sem preconceitos, deixando de lado o viés ideológico. Aliás, o presidente fez questão de reafirmar em sua entrevista mais recente que nenhum movimento dele em política externa é movido a ideologia.

Então vamos aproveitar. E agir. Interessa ao Brasil que o impasse cubano seja um tema superado, uma página virada.

A guerra acabou

A eleição uruguaia vai para o segundo turno, entre o candidato da esquerda e o liberal. A novidade foi o crescimento da direita, ainda que ela tenha ficado fora da decisão. A esquerda, que já governa o país, é favorita para continuar no poder.

Mas os uruguaios não votaram só para presidente. Houve também dois referendos. A maioria rejeitou implantar o voto dos emigrados e também recusou anular a anistia para agentes do estado que cometeram crimes na ditadura dos anos 70-80 do século passado.

É um assunto interno do Uruguai, mas com reflexos continentais. E a decisão dos eleitores uruguaios é um serviço prestado à consolidação democrática na América do Sul.

Lá, como aqui, não é justo nem razoável impedir que familiares da vítimas da violência no período ditatorial saibam exatamente o que aconteceu com seus entes queridos e recebam a justa reparação. Mas esses são direitos privados, que devem ser reclamados no âmbito da Justiça.

Outra coisa, bem diferente, é querer reabrir um processo político já encerrado. Uma guerra civil que, como todas as guerras, esteve longe de ser bonita. E que felizmente acabou.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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domingo, 25 de outubro de 2009

Deu bom-dia ao cavalo e caiu dele (25/10)

Lula é o nadador que não pode parar de nadar, o ciclista que não pode parar de pedalar, o equilibrista que se desloca de uma vareta a outra para não deixar o prato cair. Ele não pode parar de falar

Diz o ditado que quem fala demais acaba dando bom-dia a cavalo. Mas como saber se a pessoa fala demais? É subjetivo. Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, fala dia sim outro também, às vezes mais de uma vez por dia. Trata-se de uma estratégia. Lula explora ao máximo sua aptidão para comunicar. Ronald Reagan fez assim nos oito anos na Casa Branca. Reelegeu-se e elegeu o sucessor. Foi o único presidente americano a conseguir a façanha no pós-guerra.

Lula fala muito também porque o governo é ele. O presidente é o principal ativo da administração. O governo é bem avaliado, e Lula é o mais prestigiado líder político-popular da História do Brasil. Mas em nenhuma área os resultados são excepcionais. Dois itens sempre centrais nas preocupações da população patinam: saúde e segurança. Depois da Copa e da Olimpíada, concorremos agora ao topo do ranking mundial nas mortes pela gripe suína (A H1N1). Já a violência urbana dispensa comentários. Os fatos recentes falam por si.

E a economia? Ela ia razoavelmente bem até o tsunami mundial das finanças e espera-se que vá bem em 2010. “Bem” pelo padrão brasileiro, pois habituamo-nos a pouco. E Lula perdeu na crise uma chance única de atacar o maior problema econômico nativo: o crédito. Mesmo num cenário de risco inflacionário zero. Depois de sete anos, continuamos na pole position do spread, e o capital financeiro reina soberano, recolhendo a parte do leão da renda nacional. A supervalorização do real tampouco foi atacada quando se devia (e se podia, sem ameça nenhuma de inflação). Como resultado, assistimos à perda de rentabilidade nas exportações. O governo tateia aqui e ali, mas os resultados são duvidosos.

Para o campo, Lula no Planalto não significou qualquer mudança no perfil da concentração da propriedade rural. Na cidade, não se ouve falar nem remotamente em reforma urbana. Tem o Minha Casa, Minha Vida, é verdade, mas ainda é uma operação de longo curso — e não se tem certeza de que vai romper com o padrão histórico de jogar os pobres cada vez mais para a periferia dos grandes centros. Na educação, alguém sabe se, depois de sete anos, as nossas crianças estão pelo menos saindo da escola pública sabendo ler e escrever? Ou a fazer contas? Você apostaria nisso?

Então, de onde Lula tira seu imenso capital? Da férrea vontade política de olhar para os pobres. Da capacidade de erguer a autoestima nacional. E da promessa de um futuro radioso, se, é claro, o país mantiver o rumo, concordar em deixar o manche nas mãos do grupo político do presidente da República. É pouco? Não, é muito. Outros tentaram acumular esse patrimônio e não conseguiram. Mas o cenário carrega um inconveniente. Lula precisa estar sempre no palco, atraindo a atenção, falando como o país encontrou, finalmente, o caminho que o transformará numa potência, como achou a estrada para acabar com a pobreza e a desigualdade, etc.

Lula é o nadador que não pode parar de nadar, o ciclista que não pode parar de pedalar, o equilibrista que corre de uma vareta a outra para não deixar o prato cair. Ele não pode se dar ao luxo de parar de falar. Daí que corra o risco permanente de dar bom-dia a cavalo. Um exemplo foi a frase confusa sobre Jesus Cristo e Judas. Eu entendo que o presidente disse o seguinte: no Brasil, não tem como o governante deixar de fazer aliança com adversários, para garantir apoio político. Mas Lula preferiu fazer uma graça. Deu um drible a mais. E caiu do cavalo.

Outro exemplo é o debate sobre as instituições que, segundo o presidente, atravancam os investimentos públicos e o desenvolvimento nacional. Lula diz que ele é superior aos antecessores porque, ao contrário deles, dá prioridade ao investimento público. Mas diz que não consegue investir o tanto que desejaria por causa dos órgãos de fiscalização. Ora, nenhum desses órgãos ou as regras que seguem foram criados no atual governo. Então, se eles atrapalham Lula, atrapalharam também quem veio antes de Lula. Então, talvez as dificuldades dos antecessores para investir não tenham decorrido de “falta de vontade política”, mas de condições objetivas que também afetam Lula.

E daí? Daí que quem fala demais acaba mesmo dando bom-dia a cavalo.

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Munição de anúncios para a candidata (23/10)

Nos programas, o espectador pode desligar e sair para fazer outra coisa. Já com as inserções é diferente. Ninguém desliga a TV ou o rádio por causa de publicidade curtinha: espera acabar

O quadro para 2010 está desenhado. Dilma Rousseff (PT) vai de uma megacoalizão, que lhe garante o dobro de tempo de rádio e TV do principal adversário, em teoria o nome que o PSDB indicar. Correndo por fora, Marina Silva (PV) terá de menos o que Dilma tem demais. Veremos como a ex-ministra do Meio Ambiente se vira com a escassez.

Há conversas aqui e ali sobre a relativização do tempo de TV e rádio, por causa da expansão do acesso à internet. O exemplo sempre citado é a eleição de Barack Obama. O paralelo é duvidoso. O Brasil tem bem menos população conectada do que os Estados Unidos, proporcionalmente. E dizer que a internet decidiu a eleição americana é, de cara, um exagero.

Barack Obama deixou os republicanos na poeira em arrecadação de recursos de campanha, o que lhe permitiu promover um massacre televisivo, com as inserções publicitárias. Elas são essenciais, para o ataque e a defesa. Com o dobro de anúncios, Dilma pode se dar ao luxo de falar de si e também desgastar os adversários. Tudo com sobras.

Quando se analisam os tempos de rádio e TV, o mais comum é comparar os horários dos programas, na hora do almoço e à noite. Mas as inserções são tão ou mais importantes. Nos programas, o espectador pode desligar e sair para fazer outra coisa. Já com os anúncios é diferente. Ninguém desliga a TV ou o rádio por causa de publicidade curtinha: espera acabar.

Esqueça a conversa bonita. O que o PT quer do PMDB é o tempo de televisão. E o governo Lula tem meios para se impor na convenção nacional do partido aliado, ainda que seções importantes estejam descontentes com a aliança. Risco? Só se Dilma chegar a meados do ano que vem como uma candidata inviável. Coisa pouquíssimo provável.

“Governar juntos”

Mudando um pouco o foco, e por falar em conversa bonita, véspera de eleição tem de tudo, especialmente quando os candidatos tentam seduzir políticos em busca de apoio. O mais divertido é ouvir as promessas aos aliados de que “vamos governar juntos”. Depois da urna, o eleito forma em torno dele um núcleo de confiança irrestrita nos cargos-chave, e distribui posições de bela execução orçamentária aos aliados para garantir apoio parlamentar e social. Mas sempre com o segredo do cofre bem guardado.

A questão-chave de todo processo político é saber quem, em última instância, detém o poder. Cada político é um ponto de aglutinação de certos interesses, especialmente empresariais. Que irão prevalecer caso o sujeito seja um jóquei do cavalo vencedor. Ou poderão afundar se o indigitado colocar as fichas na casa errada. Aí não tem partido. São tribos. E nessa guerra tribal o vencedor leva tudo.

Estrutura partidária

Um erro comum entre os políticos é — espantem-se! — subestimar a política. Figuras da oposição que gostam de fazer pesquisas localizadas têm histórias interessantes para contar. Semanas atrás, certo deputado encomendou um levantamento em cidades do interior do Nordeste.

Quando a cartela era Serra x Dilma, assim a seco, o tucano levava vantagem. Quando Serra era confrontado com “Dilma, candidata de Lula”, a situação passava a ser de empate. Que se desfazia, com Serra retomando a vantagem, quando o tucano aparecia apoiado pelo político local.

Aliado ao PMDB, o PT ganha em teoria uma bela estrutura para fazer campanha localmente. Há problemas em estados importantes, entre eles São Paulo (onde o PMDB é fraco), Rio Grande do Sul, Paraná e Pernambuco. Mas é um avanço e tanto em relação às campanhas que o PT costumava fazer, só aliado a partidos pequenos, ou nem isso.

Considerando que o PT não terá Luiz Inácio Lula da Silva na cabeça da chapa, vai precisar desse reforço.

Cálculos paulistas

Um obstáculo no PT à proposta de apoiar a possível candidatura do deputado Ciro Gomes (PSB) ao governo de São Paulo é a avaliação de que ele iria pior na eleição do que, por exemplo, Marta Suplicy ou Aloizio Mercadante. Com as óbvias consequências no tamanho das bancadas eleitas.

Outro fator é que se Marta concorrer à Câmara dos Deputados vai drenar muitos votos de aliados que hoje têm mandato.

Já no Planalto a avaliação é que o PT não tem chance nenhuma em São Paulo, e que caminha para um desempenho pífio, em qualquer caso. E que, portanto, a operação política de tirar Ciro do páreo nacional seria feita a custo zero.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Estratégia de supermercado (22/10)

A divisão interna deu lugar ao constrangimento externo. E como, um ano depois, a crise parece estar no fim, com a volta do crescimento virá também mais desmatamento, e haverá mais pressões

A política ambiental-agrícola do governo Luiz Inácio Lula da Silva é um frankenstein, um monstrengo. Não chega a resultar de algo calculado: antes, reflete as oscilações na posição da administração ao longo destes quase sete anos.

Desde que chegou ao Palácio do Planalto, o PT tem sido a favor dos organismos geneticamente modificados (transgênicos), mas também é contra. Apresentou o etanol de cana como a grande contribuição verde-amarela contra o aquecimento global, mas diz também que o futuro da nacionalidade repousa na exploração do petróleo do pré-sal, um combustível potencialmente recordista na emissão de CO2. E por aí vai. Essa “estratégia de supermercado” (a cada situação, você vai à gôndola e pega o produto, ou a explicação, que mais lhe convém) tem seus motivos.

O PT nasceu e cresceu dando gás a correntes políticas e sociais ideologicamente portadoras de uma visão que, na falta de algo melhor, chamamos de “ambientalista”. Uma turma que lhe trouxe belo capital político na oposição. Capital usado para alcançar o poder.

Uma vez lá, era necessário governar. E, como não havia condições políticas (nem vontade única) de implementar o projeto original, a administração transformou-se numa zona de conflito. Até o dia em que Marina Silva decidiu que era hora de sair do Ministério do Meio Ambiente.

A partir de então, nota-se certa homogeneidade, já que o substituto de Marina trafega mais na faixa do espetáculo do que da ação. Para sorte do governo (pelo menos neste aspecto), sobreveio uma crise global gravíssima, que fez a economia mundial andar para trás. A demanda pelos nossos produtos agrícolas caiu, e, com ela, o desmatamento. E as autoridades colheram números ambientalmente favoráveis para exibir.

Mas Lula deu azar em outro aspecto: a obtenção de um razoável consenso interno no governo a favor do que é chamado desenvolvimentismo coincide com a agudização quase insuportável das pressões externas para que o Brasil coloque limites draconianos à emissão de gases do efeito estufa.

A divisão interna deu lugar ao constrangimento externo. E como, um ano depois, a crise parece estar no fim, com a volta do crescimento virá também mais desmatamento, e haverá pressões. E sabe-se que o Brasil não chega a ser especialmente valente diante de certas pressões de fora.

Um resultado perverso da falta de unidade interna no governo e no PT é dificultar que se encontrem soluções equilibradas quando o Congresso Nacional tem que trabalhar questões polêmicas. Tome-se o atual debate do Código Florestal. A Câmara dos Deputados abriu a discussão, em meio a uma guerra entre as bancadas do meio ambiente e da agricultura. Os primeiros pressionam para manter regras draconianas de intocabilidade nas propriedades rurais. Os segundos, naturalmente, são contra.

O aspecto mais esdrúxulo dessas regras é que elas estimulam a concentração da propriedade, num governo que se diz propulsor da desconcentração. Se o sujeito só pode produzir em 20% de suas terras, o empreendimento fica viável economicamente a partir de uma área relativamente grande. Existem argumentos em defesa da possibilidade de explorar a terra sem afetar o ecossistema, mas isso, por enquanto, ou está na teoria ou mostra pouca viabilidade econômica.

Há também outras perversidades, decorrentes da justaposição irracional de normas. Que ameaçam jogar na ilegalidade populações inteiras de agricultores. E quem pode resolver esse imbróglio? O governo. Só ele. Entre um e outro jantar de articulação política, entre uma e outra reunião sobre 2010, talvez as autoridades possam encontrar um tempinho para ajudar a descascar o abacaxi.

Agora vale

Depois de Honduras, onde o presidente foi deposto por um golpe de Estado baseado em bizarra regra constitucional, agora é a Nicarágua que contribui para o nonsense político regional. A Constituição proíbe a reeleição do presidente, mas como o governo sandinista tem apoio na Corte Suprema um pedaço desta decidiu simplesmente que tal norma constitucional não vale. E ponto final.

Alguém poderá dizer que se trata de um golpe branco. E é. Mas não será condenado pelo governo brasileiro. O Itamaraty dirá que é assunto interno dos nicaraguenses. E é. Nossa chancelaria transformou-se nisto. Quando os amigos de Lula fazem estripulias, vale o justo princípio da autodeterminação dos povos. Quando são os adversários, ela não vale.

Não é novidade, mas não custa registrar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Jogo do Poder com Alexandre Padilha (21/10)



O novo ministro de Relações Institucionais (coordenador político do governo), Alexandre Padilha, é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Daniel Pereira, subeditor de Política e Brasil do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Patinhos no parque (21/10)


O que nós ganhamos se os Estados Unidos colocarem a Venezuela na lista de países que representam ameaça potencial à sua segurança? Nada. Ou melhor, vamos ganhar uma cadeira cativa na posição de alvo

Estranhei aqui outro dia que o Brasil não entre em disputa com o Irã para oferecer à Venezuela o desenvolvimento de plantas nucleares para fins pacíficos. O Brasil domina a tecnologia, é o líder regional natural e não possui qualquer contencioso territorial com o vizinho do norte. Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez entendem-se bem. Por que então andamos tão passivos nesse assunto?

Lula é conhecido por não resistir diante de um espaço vazio. Com ele na presidência, disputamos tudo que aparece pela frente. Para ganhar ou perder. É sem dúvida uma maneira de ocupar o vácuo. Também graças a isso, houve neste governo um salto adiante no reconhecimento da importância internacional do Brasil. Daí a estranheza diante da passividade.

Em meio às questões rotineiras de que se ocupa, talvez fosse o caso de o Congresso Nacional chamar o tema a debate. Em tese, por causa das leis em vigor, ao Brasil é vedado o desenvolvimento de energia nuclear para fins bélicos. E, bem agora, o Irã está em meio a um cabo de guerra internacional sobre o seu programa. As grandes potências, sem exceção, duvidam dos propósitos pacíficos de Teerã e pressionam o país dos aiatolás por garantias reais de que não vai produzir a bomba.

Independentemente das boas intenções dos dois parceiros, Irã e Venezuela, é inevitável que uma associação nuclear entre ambos arraste o Brasil para o turbilhão, no qual nossa capacidade de acumular ganhos é no mínimo duvidosa.

Os Estados Unidos readaptaram sua proposta de instalar um sistema antimísseis na Europa. A mudança parece ter tranquilizado a Rússia, porque agora o foco passou a ser o Irã. Ou seja, Washington trabalha com a hipótese de um ataque iraniano com mísseis nucleares contra suas posições e de seus aliados no Oriente Médio e na Europa. E a Rússia não acha isso um delírio. Vejam o rolo.

Voltemos para a América do Sul. O que nós ganhamos se os Estados Unidos colocarem a Venezuela na lista de países que representam ameaça potencial à sua segurança? Nada. Ou melhor, vamos ganhar uma cadeira cativa na posição de alvo. Patinhos de parque de diversões. Além do mais, uma escorregada para esse cenário acabará por legitimar eventuais ambições militares expansionistas estadunidenses na região. Quando lembramos que Brasil e Venezuela são vizinhos amazônicos, podemos calcular melhor o tamanho do risco.

Dado o peso específico dos dois polos na relação, será quase natural que a Venezuela tenha que considerar muito seriamente uma oferta brasileira de parceria. Há, claro, o aspecto da soberania nacional venezuelana e a autonomia que aquele país deve teoricamente possuir. Digo “teoricamente” porque o princípio da autodeterminação vem sendo relativizado pela diplomacia brasileira quando convém. E como convém neste caso!

Há também outra hipótese, meio esdrúxula. De que o Brasil faz um jogo calculado ao assistir quieto a movimentos que podem levar a uma escalada nuclear no vizinho. Seria o pretexto ideal para que, docemente constrangidos, nós também enveredássemos pelo caminho da bomba. Uma análise sem fundamento? Pode ser. Desde que o governo explique por que não faz nada para evitar a escalada nuclear regional.

Contraditório

Em defesa de sua política de juros, o governo diz que muito da valorização cambial deve-se à entrada de moeda estrangeira para atividades não propriamente especulativas, mas para investimentos. Só que quando toma medidas para enfrentar o problema ataca o dólar especulativo, e não o produtivo.

Aliás, essa distinção entre as duas categorias é complicada, porque empresas capitalizadas também especulam para obter receita não operacional. De todo modo, é interessante notar que o governo localiza o problema num lugar e está a atacar suas consequências em outro.

Campanha

Campanha eleitoral antecipada é a feita antes da hora. Mas, se é antes da hora, como caracterizar formalmente a existência de uma campanha eleitoral? Não estranha, portanto, que o assunto acabe ao sabor da subjetividade.

Para o bem e para o mal. Para livrar a cara do governante forte e para amputar injustamente o mandato do que não tem tanta força assim. Infelizmente, também nesse caso é a lei da selva que prevalece.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Um aspecto muito perverso (20/10)

A glamurização do crime, especialmente a cultural, é particularmente perversa com quem mais necessita do combate sem tréguas do Estado contra o crime

Sempre chega a hora em que Luiz Inácio Lula da Silva desiste de brigar com os fatos. Trata-se de uma qualidade. Ontem, em encontro com o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, o presidente se disse contra legalizar as drogas e responsabilizou o consumo nos países desenvolvidos pela criminalidade em nações como o Brasil. O governo de Barack Obama também foi por aí um dia desses, quando a secretária de Estado, Hillary Clinton, admitiu aos mexicanos que os problemas do México seriam bem menores caso os americanos não consumissem o tanto de drogas que consomem.

Fatos são fatos. Uma coisa é o sujeito ficar teorizando entre quatro paredes, outra é governar. Uma coisa é querer posar de “progressista”, para plateias seletas, outra diferente é precisar dizer alguma coisa para a imprensa e a população depois de episódios como o de sábado no Rio. São dois mundos.

Não há como governar sem cuidar dos fatos. Um deles: a violência e a insegurança no Brasil chegaram a níveis alarmantes. E isso tem relação direta com o tráfico de drogas. Que não existiria no nível atual se não fosse alimentado pelo consumo. Lula atacou o dos outros. Vai chegar o dia em que ele, ou quem o suceder, terá que tratar do nosso.

O assunto precisa ser enfrentado politicamente pelo governo federal. Não apenas com mais dinheiro e mais apoio para as polícias estaduais e maior vigilância nas fronteiras, mas com iniciativas no Congresso Nacional que permitam à Justiça colocar na cadeia quem nela deve ficar e de lá tirar quem deveria estar aqui fora. Mas não se nota vontade política no Planalto de fazer a lição de casa.

Um entrave, já abordado nesta coluna, é certo sentimento coletivo de culpa, decorrente da difusão maciça de uma tese: a repressão estatal numa sociedade profundamente desigual e injusta acaba se voltando contra os menos favorecidos.

Será? Talvez seja exatamente o contrário. Quem precisa da presença ativa do Estado contra o crime são exatamente os mais pobres.

Quem tem dinheiro suficiente pode morar em condomínios bem protegidos, ter segurança particular, comprar carro blindado e contratar guarda-costas. Quem não tem, espera que o governo cumpra a obrigação dele e dê um jeito de o cidadão sair de casa sem sofrer a ameaça de uma bala perdida ou de ser metralhado por bandidos só porque deu na telha deles. E isso, como se viu no Rio, não é só uma construção de linguagem.

A glamurização do crime, especialmente a cultural, é particularmente perversa com quem mais necessita do combate sem tréguas do Estado contra o crime. Trata-se de um óbvio ululante.

Alvo móvel

A disputa eleitoral já está na praça, e faz algum tempo. O assunto da hora são as diferenças dentro da oposição sobre o nome do candidato presidencial. É uma novela que se arrasta. A oposição leva no momento a desvantagem de não estar definida em torno de um candidato. Isso teoricamente facilita a vida dos governistas, que têm espaço para costurar a rede de alianças em torno de Dilma Rousseff.

Mas a oposição também retira uma vantagem do cenário. Em vez de apresentar um alvo fixo, exibe dois alvos móveis. Na hora em que o PSDB e o Democratas baterem o martelo, o raio laser do Planalto apontará diretamente para a testa do desafiante oficial.

Em palácio ainda há alguma dúvida sincera sobre quem vai enfrentar Dilma. E, como sempre, há a possibilidade de uma aproximação com quem for preterido do outro lado. Isso de algum modo dificulta os movimentos do situacionismo.

Os últimos dias têm registrado escaramuças verbais entre de um lado Lula e Dilma e de outro José Serra. É fichinha perto do que virá por aí quando houver a definição final da oposição. Qualquer que seja a definição.

E a chance se vai

O mercado já projeta crescimento dos juros num futuro não tão distante assim. Ontem o governo anunciou a taxação da moeda estrangeira que ingressa no país, para tentar evitar a valorização ainda maior do real. Veremos se funcionará. Uma coisa trabalha contra a outra.

O certo é que o governo, politicamente pressionado pelo calendário eleitoral, perdeu uma ótima chance de mudar as regras da caderneta de poupança e remover um obstáculo importante à queda do juro básico. É outro assunto que um próximo presidente terá que enfrentar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Os limites do sociologismo (19/10)

O discurso de Lula sobre a segurança esgota-se em si, vira fumaça quando encontra a realidade. O país precisa de escolas e também de prisões

A violência explodiu no Rio de Janeiro e deu as caras no noticiário. Acontece de tempos em tempos. Daqui a pouco ela submerge de novo. As horríveis consequências do câncer da droga e do narcotráfico só são notícia em situações muito particulares: quando produzem imagens fortes (como no sábado) ou quando a tragédia vaza dos bolsões sociais em que deveria ficar confinada. Quando isso acontece, o mercado consumidor e a turma do lado de fora do muro vestem-se de branco e pedem "paz".

Mas, e as Olimpíadas de 2016? De duas, uma. Ou dá-se um jeito definitivo até lá, o que é improvável, ou haverá um armistício. Não é por ser bandido que o traficante é burro. E governantes costumam ser pragmáticos.

O recrudescer da insegurança no Rio chama o debate. Além das estatísticas, que já não são boas, a vida tem revelado outro fato: o tráfico de drogas e a violência que ele produz deixaram de ser um problema só das grandes concentrações urbanas, espalharam-se pelo país. E seguem a rota do dinheiro.

Quanto mais dinheiro, mais crime. Óbvio. Não há comparação, por exemplo, entre as estatísticas de criminalidade na periferia de São Paulo, ou do Rio, e os números do sertão nordestino.

Mas a pobreza não é muito maior no sertão do Nordeste do que na região metropolitana do Rio, ou de São Paulo? E a taxa de criminalidade não deveria ser proporcional ao grau de pobreza, à escassez das oportunidades para ganhar a vida?

Tem algo que não fecha nesse diagnóstico.

Alguns anos atrás, com o governo Luiz Inácio Lula da Silva já de vento em popa, um estudo apoiado pelo Ministério da Saúde procurou desenhar o mapa da violência no Brasil. A conclusão foi interessante. As regiões mais pobres (semiárido nordestino, Vale do Jequitinhonha) são bem menos violentas do que as áreas metropolitanas, do que a fronteira agrícola do Norte e do Centro-Oeste e do que as fronteiras com o Paraguai e a Bolívia.

Querem mais? O governo Lula gaba-se de ter feito a maior inclusão social da História do Brasil. Segundo os governistas, nunca antes neste país tantos pobres passaram para a classe média e nunca tantos jovens pobres receberam oportunidades de estudo e ascensão social.

Dado que a violência e a insegurança também cresceram, estamos diante de um buraco na teoria. De duas uma: ou o governo Lula não é essa brastemp no campo social, ou então não dá para relacionar mecanicamente mais prosperidade com menos criminalidade.

Esta gestão melhorou a situação dos pobres, até os adversários reconhecem. O furo na tese está na segunda opção. Só melhorar os indicadores sociais não ataca os problemas da segurança.

É bonito o presidente da República dizer que prefere construir escolas a erguer presídios. Pega bem entre os intelectuais e coloca os críticos na defensiva. Mas é um discurso que, como outros, esgota-se em si, vira fumaça quando entra em contato com a realidade. O país precisa de escolas e precisa também de prisões.

Assim como precisa de uma Justiça que consiga traçar com clareza a linha demarcatória entre honestos e criminosos. Assim como precisa de leis que sirvam para punir proporcionalmente os crimes, de acordo com a gravidade.

Não pode querer paz verdadeira um país que deixa solto o jornalista famoso e influente que, em ato de fria vingança, mata com um tiro pelas costas a ex-namorada. E apesar disso continua a viver a vida aqui fora como se nada tivesse feito de errado.

O país precisa de um governo que seja duro contra o crime e os criminosos, sem "coitadismo" e sem sociologismo barato. Duro com a mesma intensidade que Lula impulsiona iniciativas para melhorar a vida dos pobres. O ideal seria juntar as duas características.

Dúvida nuclear

A Venezuela associa-se ao Irã para produzir energia nuclear. Caracas diz que é para fins pacíficos. Há quem desconfie. Um detalhe porém é intrigante além da conta. Por que o Brasil, tão cioso de sua liderança regional, não ocupa esse espaço, por que não se oferece para substituir o Irã na empreitada?

Qual é o interesse nacional atendido pela aceitação, nas nossas fronteiras, de uma potência nuclear associada a um inimigo dos Estados Unidos? O Itamaraty poderia fazer a gentileza de explicar?

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domingo, 18 de outubro de 2009

A arrogância e o bumerangue (18/10)

As ameaças à democracia decorrem menos da índole dos atores políticos e mais do desequilíbrio das forças em disputa

A democracia é indispensável para haver alternância no poder. Ou pelo menos para torná-la possível. Ou pelo menos para que aconteça sem rupturas graves da institucionalidade. Mas a alternância é também uma condição preliminar para haver democracia real. Quem veio antes: o ovo ou a galinha? A pergunta não faz sentido. Há todo um sistema, produto da evolução, que faz a galinha nascer do ovo, antes de ela própria botar ovos. Um modelo circular.

A política é um ecossistema. Quando está em equilíbrio, nenhuma espécie adquire, "naturalmente”, protagonismo tal que possa destruir esse equilíbrio. Que é necessariamente dinâmico. E involuntário. Cada elo da cadeia alimenta-se de alguém e serve de comida a outro alguém. Se uma determinada população alcança protagonismo excessivo, o sistema se encarrega de colocar as coisas no lugar. Sem pedir licença.

A democracia está bem de saúde quando se nota algum equilíbrio entre o governo e a oposição. Esta bate e aquele apanha. O poder é um bicho muito forte. Uma fera insaciável. Os governos sempre buscam meios de matar a oposição. E isso depende pouco de que grupo está no manche, ou das intenções autodeclaradas. Em Brasília, o PSDB é um bichinho manso que acusa o PT de querer sufocar a oposição. Já nos estados o PSDB trata mesmo é de governar na paz dos cemitérios. E é bom nisso, reconheça-se.

Governos precisam apanhar. O poder não se autorregula, não faz parte da sua natureza. Ele precisa ser controlado. E é natural que resista a sofrer controles. Luiz Inácio Lula da Silva reclama dia sim outro também do Congresso Nacional, do Ministério Público, do Tribunal de Contas, do Judiciário. Mas quem inaugurou a moda de propor, por exemplo, amarras à ação do Ministério Público foi Fernando Henrique Cardoso.

O PT é acusado de querer perpetuar-se no poder. E leva jeito mesmo de desejar. São as ilusões da teoria torta de que um “líder certo” vale mais do que a própria democracia. Mas quem verbalizou primeiro a necessidade de um “projeto” de duas décadas foi o tucano Sérgio Motta, então ministro das Comunicações de FHC. Presidente que aliás implantou a reeleição de ocupantes de cargos no Executivo, a começar pela própria.

Nesta semana, Lula explicitou o desejo de transformar a eleição num plebiscito. FHC fez isso com sucesso duas vezes. A primeira em 1994, quando reorganizou a base política que servira a um Fernando Collor recém-deposto e se lançou como o candidato ideal para “evitar a vitória de Lula e do PT”. Nos bastidores, e nem tão discretamente, além de soprar as brasas do antipetismo, cuidou de convencer o então prefeito paulistano, Paulo Maluf, a desistir de qualquer pretensão presidencial. Maluf na época estava bem. Foi antes da ruína definitiva dele, com Celso Pitta.

Quatro anos depois, os operadores de FHC trataram de esmagar na convenção do PMDB a possível candidatura de Itamar Franco. Episódio protagonizado por personagens que hoje circunstancialmente navegam com Lula. Os arquivos da imprensa estão aí para exibir a qualidade política e simbólica daquele episódio. Não chegou a ser um exemplo de etiqueta, ou da “superioridade civilizatória" que os tucanos gostam de alardear quando lhes convém.

O PT não é mais nem menos moderado no exercício do poder federal do que foi o PSDB. A diferença é que, na oposição, o petismo se dispunha a resistir politicamente, a criar uma alternativa. Não chega a ser novidade que o PSDB tenha abdicado disso. Menos por generosidade, que como vimos não faz parte do seu DNA. Talvez pela aposta, lá atrás, de que o PT se afundaria sozinho. Aposta que como se sabe deu errado. Arrogância intelectual que acabou virando bumerangue.

Patriota

O ministro Flávio Flores da Cunha Bierrenbach, que este colunista conheceu como vereador do então MDB em São Paulo nos tempos complicados do autoritarismo, aposentou-se esta semana no Superior Tribunal Militar. Seu discurso de despedida deveria, acho, ser enviado a todas as escolas do país para servir de roteiro quando um professor precisasse explicar aos alunos na sala de aula o significado de "patriotismo”.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Mau humor não dará as cartas (16/10)

O ambiente no país é otimista. E mau humor não combina com otimismo. O eleitor não sairá de casa no dia da eleição querendo comer o fígado de ninguém.

Uma característica desta sucessão presidencial é que ela vai ser disputada por gente assertiva e objetiva, ainda que cada um a seu modo. Uns menos suaves, outros mais. É a chance de uma campanha eleitoral razoavelmente “técnica”, o que seria uma bênção. Talvez nos aproximássemos de um cenário “americano”, com o carisma, a empatia e a simpatia servindo mais ao debate programático do que o inverso.

Qual será o foco da discussão? Se depender do que alardeia o governo, o país estará mobilizado para “evitar a volta da turma do Fernando Henrique”. Já a oposição procurará convencer-nos do quanto seria inconveniente “dar mais quatro anos ao PT”. Haverá certamente arranca-tocos relativos à “ética”. Mas todos sabem que não poderá ser só isso.

Agitar espectros não garante eleição, até porque os nomes do PSDB colocados têm garrafas para entregar em suas administrações. E o PT faz um governo com altas taxas de aprovação — e Dilma Rousseff é a ministra mais importante desse governo. E Marina Silva é uma candidata respeitável e consistente.

Teremos escaramuças. Mas, no fritar dos ovos, os concorrentes precisarão apresentar uma visão de futuro, com propostas inteligíveis em pelo menos alguns pontos estratégicos: educação, saúde, segurança e, principalmente, desenvolvimento. Não se trata de ficar debatendo tecnicalidades, mas de convencer o eleitor sobre a capacidade de o candidato ou candidata liderarem o país rumo à remoção das correntes que ainda nos amarram ao subdesenvolvimento.

Quem é o melhor para acabar definitivamente com o tratamento desumano dos pacientes que procuram atendimento médico? Quem é o melhor para fazer as nossas crianças saírem da escola sabendo ler, escrever e fazer contas? Quem é o melhor para reduzir os índices de criminalidade e proteger os cidadãos contra os bandidos? E quem é o melhor para conduzir a economia gerando ao mesmo tempo empregos e equilíbrio ambiental?

No fim das contas, o eleitor prestará atenção aí. Assim como elegeu Luiz Inácio Lula da Silva quando concluiu que a principal coisa a fazer era combater a pobreza e a desigualdade. E cada um dos candidatos terá trunfos. Todos têm currículos respeitáveis. Que a turma da campanha negativa tire o cavalinho da chuva: não será com ataques que vão derrubar Dilma, José Serra ou Aécio Neves e Marina Silva. Quem tentar vai desperdiçar energia, dinheiro e tempo de rádio e televisão. Talvez sirva para tirar o adversário do eixo, o que já é alguma coisa. Mas só.

Até porque o ambiente no país é de otimismo. E deverá continuar assim no ano que vem. E mau humor não combina com otimismo. O eleitor não sairá de casa no dia da eleição querendo comer o fígado de ninguém. Será um belo desafio para os candidatos e seus marqueteiros: como fazer uma campanha combativa, que enfraqueça o adversário, sem entretanto bater de frente com o espírito do tempo, com o sentimento geral.

Sinal dos tempos

Como previsto na própria coluna de ontem, as reações à opinião aqui exposta sobre a pesquisa da CNA evocaram o Censo Agropecuário, segundo o qual a agricultura familiar é produtiva. Mas o que está em debate não é a agricultura familiar tomada genericamente. São os assentamentos da reforma agrária do Incra.

Qualquer um que conhece esses empreendimentos sabe que há entre eles muitos bolsões de pobreza rural, em que as populações não conseguem tirar da terra o suficiente para sustentar-se. Dependem dos programas sociais do governo. É ou não um problema a tratar?

Se estivesse na oposição, o PT diria que os números da pesquisa da CNA mostram a necessidade de mais investimento nos assentamentos, de maior apoio ao pequeno produtor rural contemplado com sua terra pelo Incra. Como o PT está no governo, prefere dizer que a pesquisa não reflete a realidade.

E os assentados? Eles que se virem, enquanto os burocratas e apaniguados empilham estatísticas para garantir seus contracheques.

Multidão

É forçoso constatar que a classificação da seleção de Honduras para a Copa do Mundo provocou bem mais comoção e mobilização naquele país da América Central do que, em qualquer momento, a pendenga entre o presidente constitucional deposto, Manuel Zelaya, e Roberto Micheletti, que ocupa a cadeira desde o golpe de estado.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Responder com fatos, aceitar críticas (15/10)

Encharcado nos índices do presidente, o PT agora é assim: se o sujeito critica alguma coisa no governo de Luiz Inácio Lula da Silva é porque faz parte de uma conspiração qualquer contra Lula, contra o PT ou contra a candidatura de Dilma

A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) prestou um serviço ao Brasil, e ao próprio governo, ao divulgar pesquisa do Ibope com números deprimentes sobre a situação dos assentados pela reforma agrária. Registre-se que a parlamentar é também presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), contratante da pesquisa. Não significa muita coisa. Outro dia o PT divulgou um levantamento, encomendado por ele próprio, no qual quase um terço do eleitorado brasileiro declara apoio ao partido. O PT achou ótimo. Parabéns ao PT.

A reação no petismo aos números do Ibope/CNA foi a de praxe, pelo menos nos últimos tempos. Saíram rapidamente a desqualificar. Encharcado nos índices de popularidade do presidente da República, o PT agora é assim: se o sujeito critica alguma coisa no governo de Luiz Inácio Lula da Silva é porque faz parte de uma conspiração qualquer contra o presidente, contra o PT ou contra a candidatura de Dilma Rousseff.

É a era do primado da “luta política”, um cenário de primarismo mental, de regressão intelectual, em que o mérito dos assuntos deixa de ter importância, substituído pelo único critério aceitável no poder: se está conosco, está certo; se não, está errado.

Por que digo que a senadora ruralista, presidente da CNA e opositora ferrenha de Lula, prestou um serviço ao país e ao governo? Porque há duas hipóteses. Ou os números apresentados pelo Ibope refletem em algum grau a realidade, ou eles estão completamente divorciados dos fatos. Abre-se uma excelente oportunidade para o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Incra demonstrarem que a reforma agrária de Lula é um sucesso. Basta provar que os assentamentos no governo do PT se transformaram em polos dinâmicos de produção e prosperidade.

Mas não basta algum burocrata disciplinado convocar entrevista coletiva no ar-condicionado de Brasília para despejar números. Será mais adequado que também nisso o governo siga o exemplo do presidente. Ontem, Lula iniciou um périplo pelas obras de transposição do São Francisco. Ótimo. Por que não fazer o mesmo nos assentamentos do Incra?

E a coisa poderia ser montada de um jeito democrático. Um terço das visitas seriam feitas a locais indicados pelo governo, outro terço a áreas apontadas pela CNA e o terço restante a assentamentos listados pelos movimentos de luta no campo. Vejam que estou dando de lambuja ao governismo uma vantagem e tanto.

Ao longo de toda a administração Fernando Henrique Cardoso, o PT e Lula insistiram que a reforma agrária dos tucanos era insuficiente, porque distribuía pouca terra. No poder, o discurso mudou. Distribuir mais terra deixou de ser a prioridade, e os recursos passariam a ser empregados maciçamente em investimentos para melhorar as condições de vida e aumentar a produtividade nos assentamentos. Já foi um recuo programático e tanto. Será que mesmo assim o governo fracassou?

Diante da pesquisa, as autoridades responsáveis responderam de um jeito esperto. Argumentaram que os números dela devem estar errados, já que a produtividade da agricultura familiar é mais alta até que a do agronegócio praticado em grandes propriedades. Ora, a pesquisa não trata da agricultura familiar em geral; trata dos assentamentos da reforma agrária. Se o governo não sabe diferenciar os dois conceitos, estamos diante de um problema. Ou de uma esperteza. Ou das duas coisas.

No poder, o PT não acelerou significativamente a democratização da propriedade rural, preferiu aliar-se ao latifúndio monocultor modernizado. Verdade que as verbas destinadas à agricultura familiar cresceram expressivamente. Do que decorre uma conclusão: se os números do Ibope/CNA têm alguma conexão com a realidade, provavelmente a expansão do Pronaf não está sendo bem administrada. É possível que o dinheiro não esteja chegando onde deveria.

O governo que se explique. E que tome providências. É assim que funciona (ou deveria funcionar) na democracia.

Desmoralização

Por falar em democracia, é desmoralizante para o governo brasileiro que as autoridades de Cuba tenham impedido a visita ao Brasil da blogueira dissidente Yoani Sánchez. Ela viria ao nosso país lançar um livro.

Mais desmoralizante ainda é a proibição ter passado batida, sem reação à altura do Itamaraty. A mesma chancelaria que se empenhou tanto para a retomada da normalidade democrática em Honduras.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Jogo do Poder com Michel Temer (14/10)



O presidente da Câmara dos Deputados e presidente nacional (licenciado) do PMDB, Michel Temer (SP), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:50 na CNT. Clique na imagem (quando ela aparecer) para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Cristiane Samarco, do jornal O Estado de S.Paulo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Mudança de tática (14/10)

Agora, a cúpula nacional do PMDB quer fechar primeiro o acordo com Dilma, deixando as pendências regionais para depois. Aceitando, inclusive, palanques separados do PT em alguns estados

Em algum momento das últimas semanas, a cúpula nacional do PMDB percebeu que estava a caminho de uma armadilha. Como as negociações com o PT nos estados não parecem avançar, transformá-las em premissa do acordo nacional com a candidata Dilma Rousseff começava a ter cheiro de receita certa para ir a lugar nenhum. E as coisas caminhariam pelo rumo óbvio. A certa altura de 2010, governo e PT concluiriam, docemente constrangidos, pela impossibilidade de o PMDB unificar-se em torno de qualquer coisa. Em consequência, o partido ficaria fora da disputa nacional, abrindo talvez espaço para o PT compor com o PSB do pré-candidato Ciro Gomes.

Uma situação que não repercutiria tão mal assim no PMDB, dado que a força política da legenda localiza-se há muito nos caciques regionais. Que em 2011, vitaminados por um provável bom desempenho nas urnas (a julgar pelo resultados das eleições recentes), aliar-se-iam com o vencedor da corrida pelo Palácio do Planalto. E a vida seguiria, do jeitinho com que o PMDB está acostumado, desde pelo menos a volta das eleições diretas para presidente. Tampouco no Planalto e no PT esse desenlace faria brotar lágrimas de desespero. Ponto de honra para o governismo é o PMDB não caminhar com a oposição. O resto, discute-se.

Daí que a cúpula nacional do PMDB tenha tomado a iniciativa de inverter a equação. Agora, quer fechar primeiro o acordo com Dilma, deixando as pendências regionais para depois. Aceitando, inclusive, que o PT lance seus candidatos nos estados-problema, na fórmula de mais de um palanque presidencial em cada lugar. Onde for possível a composição, ótimo. Onde não for, que se multipliquem os palanques. Mas, como convencer os governadores e chefes locais do PMDB a aceitar o novo caminho? O argumento é direto: será melhor para os candidatos do PMDB dividir o apoio de Luiz Inácio Lula da Silva do que fazer campanha contra um presidente da República aprovado por quatro em cada cinco brasileiros. A tese encontra especial acolhida de Minas Gerais para cima.

Em resumo, o PMDB sinaliza que pode conviver bem com palanques separados no Pará, na Bahia e no Rio de Janeiro. E acredita que o PT vai acabar apoiando o atual ministro peemedebista das Comunicações, Hélio Costa, em Minas Gerais. Se a estratégia vai dar certo, o tempo dirá. Mas, como diria Ulysses Guimarães, nada como sua excelência, o fato político. Semana que vem, o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), formalmente licenciado da presidência do partido, vai aparecer numa foto com Lula e Dilma, possivelmente todos de mãos dadas e erguidas. Com a imagem na imprensa, um passo terá sido dado.

Se a política é feita também de símbolos, na próxima semana os aliancistas do PMDB e do PT terão obtido um valioso. Pena que da cerimônia pré-nupcial estará ausente o PSDB, que com seus votos decisivos nas duas últimas eleições para a Presidência da Câmara dos Deputados ajudou a consolidar a hoje bonita relação entre seus futuros adversários.

Zona cinzenta

Escrevi dias atrás sobre a situação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. O MST vem perdendo progressivamente apoio político e social, conforme sua luta contra o latifúndio improdutivo se transforma em luta contra o agronegócio. Além disso, em algum momento de sua trajetória o MST decidiu operar na margem das instituições. Meio dentro e meio fora. Usufrui de se associar ao Estado democrático, mas reserva-se o direito de confrontá-lo quando convém.

É óbvio que essa ambiguidade, a estratégia de ficar numa zona cinzenta da legalidade, essa falta de compromisso com as regras democráticas vigentes vai encontrando seu limite para o MST.

Freio

A PEC que ampliou retroativamente as vagas de vereadores teve, naturalmente, seus efeitos suspensos pelo Supremo Tribunal Federal. A PEC que efetiva donos de cartório sem concurso parece a caminho da gaveta. Quem sabe seja a oportunidade para a Câmara dos Deputados encontrar um equilíbrio. Derrotada a ditadura do Executivo, com a pauta livre do bloqueio das medidas provisórias, talvez seja preciso agora colocar um freio no apetite das corporações.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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terça-feira, 13 de outubro de 2009

As variáveis de Obama (13/10)

Eis um detalhe interessante da gestão do norte-americano: no governo, tenta fazer o que dizia na campanha que iria fazer se chegasse ao governo. É uma atitude pouco convencional entre políticos

As pesquisas divergem entre si, mas o fato é que Barack Obama enfrenta dificuldades políticas. Sua popularidade não anda mesmo uma brastemp. A lua de mel pós-eleitoral acabou faz tempo, e ele tem que encarar a realidade. A economia sai muito lentamente da crise, o Afeganistão parece cada vez mais um atoleiro e o viés liberal (palavra que os americanos usam para dizer “esquerdista”) do governo acendeu todos os fogos conservadores no grande país do norte. 



Em compensação, o capital político de Obama junto aos fiéis parece razoavelmente intocado. Nos Estados Unidos e fora dele. Com poucos meses na cadeira, o presidente americano já ganhou o Nobel da Paz. Por mais que haja reclamações na franja radical à esquerda, a figura política de Obama continua ligada aos elementos simbólicos que ele mobilizou na sua campanha liberal para chegar à Casa Branca. 



Eis um detalhe interessante: uma vez no governo, ele tenta fazer o que dizia que iria fazer se chegasse ao governo. Atitude pouco convencional entre políticos. Normal é o sujeito mobilizar sentimentos quentes antes da eleição e depois fazer uma administração morna, em nome do pragmatismo e da governabilidade. No poder, deslocar-se para o centro.

Barack Obama é um presidente eleito pelos urbanos, pelos instruídos, pelos negros, hispânicos e judeus, pelas mulheres, pelos gays, pelos pacifistas. Pelos ambientalistas. Nomeou uma mulher hispânica para a Suprema Corte, é simpático a medidas contra o aquecimento global e avança na igualdade de direitos para os homossexuais. Na política externa, procura aplicar o princípio da não intervenção. Surpresas? Nenhuma. 



Mas aonde esse comportamento levará o presidente americano? Ou, em outros termos, quanto tempo ele resistirá à pressão centrípeta do establishment? 



Vai depender dos resultados. No Afeganistão, seu abacaxi mais áspero, o presidente está espremido entre duas opções. Uma é apostar no isolamento da Al Qaeda e em algum compromisso com o Talibã. É a saída defendida pelo vice-presidente, Joe Biden. A cúpula militar é contra, prefere aumentar o esforço em homens e armas para derrotar o Talibã. Obama disse na campanha que faria tudo para ganhar a guerra. Seu poder terá grande dificuldade de conviver com uma possível percepção pública de derrota.

Já na economia a equação parece mais simples. Uma hora os Estados Unidos vão voltar a se expandir bem, e é provável que Obama enfrente a campanha reeleitoral em posição confortável no quesito. Os chineses fazem a parte deles, dando seu jeito de crescer 8% este ano e projetando um belo 2010. E o resto do mundo vai atrás. Uns mais rapidamente. Outros como o Brasil, constrangido pelos problemas estruturais no crédito, mais lentamente. Mas o pior parece mesmo já ter passado.

Com as coisas entrando nos eixos na economia, e se Obama conseguir salvar a face no Afeganistão, restará a reforma da Saúde. O governo democrata deseja avançar na universalização, enquanto os republicanos atacam o plano como “socializante”. Se fosse no Brasil, a acusação renderia votos, mas nos Estados Unidos tira. Pelo menos mais tira do que dá. Este ponto acabou virando uma disputa puramente política. Se não conseguir passar uma nova lei sobre o tema no Congresso, no qual tem ampla maioria, Obama terá transmitido uma imagem de fraqueza. 



Afeganistão, economia, reforma da saúde. Guerras que Obama precisa ganhar. Presidentes americanos fracos costumam ter muito prestígio fora dos Estados Unidos. Mas quem vota são os americanos. Se Obama chegar a 2012 politicamente enfraquecido, nem toda a simpatia mundial será suficiente para tirá-lo da zona de risco político. 



Discretos

A participação de Cuba na crise hondurenha vem sendo bem mais discreta do que, por exemplo, a do Brasil ou da Venezuela. O governo de Raul Castro está em outra. Aposta as fichas na normalização das relações com os Estados Unidos e, também por isso, não chega a ser fã de carteirinha do movimento bolivariano liderado por Hugo Chávez. 



O obstáculo maior é que Washington terá imensa dificuldade para vender internamente qualquer acordo que não implique a plenitude das liberdades democráticas em Cuba, com a possibilidade de alternância de poder na ilha. Coisa de que o Partido Comunista não quer nem ouvir falar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A alucinação e a obsessão (12/10)

O que Lula deseja mesmo é uma marca histórica permanente no campo social. É a busca obcecada por um legado que não se desmanche fácil com a passagem do tempo

O governo encontrou um meio para tirar o corpo fora da confusão em torno da fraude no Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio. Pôs para circular uma teoria da conspiração, segundo a qual o vazamento e o escândalo teriam sido armados por gente interessada em prejudicar politicamente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT. É uma teoria e tanto.

Esse meu lide pode ser criticado? Pode, e o governo tem os meios para mostrar que estou errado, que ele é vítima e não algoz no caso do Enem. Quando o presidente da República diz algo assim grave espera-se que as palavras sejam seguidas por atos. Então, de duas uma: ou o Palácio do Planalto prova que houve mesmo a tal conspiração, ou então concluiremos que alucinações pretenderam servir de biombo para a simples incompetência.

Incompetência movida a ambição, a que faltou a necessária prudência. Ambição sem prudência é um perigo. Qual a necessidade de fazer as coisas no atropelo? Só mesmo o desejo político dos personagens envolvidos, para quem 2010 poderia ser tarde demais para retirar da iniciativa o máximo de dividendos eleitorais. No fim, deu tudo errado. Como gosta de dizer o próprio Lula, mais uma vez a pressa acabou sendo inimiga da perfeição.

Mas, se a trapalhada do Enem foi um gol contra, o Planalto prepara na área social um passo importante à frente. Consolidar os programas sociais (todos, não apenas os de Lula) num código legal, a exemplo do que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) fez com os direitos trabalhistas, no governo Getúlio Vargas. O presidente responde com isso a uma das principais críticas a ele: de que não teria se preocupado em institucionalizar avanços, especialmente nas políticas voltadas aos mais pobres.

Não que haja preocupação real com a eventual revogação das ações numa possível troca de guarda em Brasília. Essa é outra conversa que deve ser debitada unicamente na conta da eleição. O Estado repassar dinheiro aos pobres, direta ou indiretamente, pelos mais variados meios, virou dogma de administração pública no Brasil.

O que Lula deseja mesmo é uma marca histórica permanente no campo social. É a busca obcecada por um legado que não se desmanche fácil com a passagem do tempo, busca que é um traço estrutural nas atitudes do presidente da República nos últimos tempos.

Não tivesse o governo qualidades, não teria a aprovação medida em todas as pesquisas. Só que um dos principais ativos políticos de Lula é a figura dele próprio. Eis uma curiosidade: como o governo Lula será avaliado quando o presidente não mais tiver as câmeras e microfones à disposição para o autoelogio? Não estranha que ele esteja empenhado em adiar ao máximo a chegada do futuro. Mesmo quando faz isso indiretamente. Como na eleição que vem aí.

Ginástica

O Brasil está para receber o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. A visita deveria ter acontecido no primeiro semestre, mas foi adiada. Oficialmente, por razões ligadas ao processo eleitoral iraniano. Extra-oficialmente, pela inconveniência de Lula ficar internacionalmente associado às posições do presidente persa.

De lá para cá, houve algumas mudanças. As discussões sobre a desnuclearização do Irã conheceram avanços, mas eles foram proporcionais aos retrocessos notados no cenário interno em Teerã. O capítulo mais recente é a pena de morte para participantes dos protestos contra o resultado das últimas eleições presidenciais.

Na teoria, o Brasil relaciona-se com o Irã sem se meter nos assuntos internos daquele país. Como já se repisou aqui à exaustão, é um princípio que a diplomacia brasileira aplica quando acredita que lhe convém. Em Honduras não convém, então o Itamaraty não aplica.

Se o cinismo em política externa é indicador de capacidade protagônica, não há dúvida de que Lula nos conduziu mesmo a um outro patamar.

Desconforto

No governo há quem deseje Henrique Meirelles como vice de Dilma Rousseff, mas há também quem tema o debate na eleição sobre os juros. Sempre se poderá dizer que no governo de Fernando Henrique Cardoso os juros eram maiores ainda, mas existe desconforto no situacionismo com a hipótese de a oposição encontrar uma maneira “popular” de entrar no tema

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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domingo, 11 de outubro de 2009

Um jogo por ser jogado (11/10)

O Palácio do Planalto sabe que a oposição tem uma chance em 2010, se estiver unida, se conseguir escapar da armadilha de olhar pelo retrovisor e se projetar uma visão esperançosa sobre o futuro

O que pode desandar no script rascunhado em palácio e no PT para alavancar uma invencível candidatura de Dilma Rousseff a partir da popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva? Em teoria, o roteiro é cartesiano. Dizem cientistas políticos especializados que acima de certo patamar de aprovação (uns 50%) o governante se capacita a fazer o sucessor, sem grandes contratempos. Essa é a teoria. Mas, e na prática?

Além da força de Lula, outra perna da campanha governista será a comparação entre os governos do PT e do PSDB. Como o PT tem dito que vai mesmo por aí, é provável que os oponentes também estejam a preparar os números. Independente, porém, das planilhas e gráficos, a falta de crítica e oposição programáticas nos últimos anos ajudou a consolidar a ideia — verdadeira — de que Lula foi bem melhor do que Fernando Henrique Cardoso. É realidade com que a oposição terá que se virar.

Mas será que líderes com grande aprovação, à frente de governos excelentemente avaliados, transformam a eleição do sucessor automaticamente num passeio? Os fatos dizem que não. O mais emblemático exemplo recente foi a escolha do prefeito de Belo Horizonte ano passado. Vamos recordar.

O então prefeito Fernando Pimentel (PT) e o governador Aécio Neves (PSDB), ambos muitíssimo considerados, julgaram ter descoberto a fórmula infalível da eleição faturada de véspera. Uma aliança entre ambos. Uma eleição sem oposição. E lançaram na empreitada um “técnico”, o secretário estadual de Planejamento, Márcio Lacerda (PSB). Um administrador competente, apoiado por dois governantes estimados, com a promessa de continuar uma administração bem avaliada. Tinha tudo para dar muito certo.

Quase deu muito errado. Apesar dos tanques de saliva investidos pelo prefeito e pelo governador, e apesar do peso das duas máquinas, Lacerda comeu poeira no primeiro turno, atrás de um supreendente e antes praticamente desconhecido Leonardo Quintão (PMDB). No segundo turno acabou dando o candidato do PSB, mas é razoável dizer que a corrida foi mais perdida por Quintão e suas fragilidades do que vencida por Lacerda e suas qualidades.

Duas lições da refrega belorizontina de 2008. A primeira: com todos os apoios que se possa ter, chega uma hora em que o eleitor presta mais atenção no candidato do que em seus apoiadores. A segunda: toda eleição é disputada contra alguém. O eleitor compara sim partidos, números. Mas quando vai decidir seu voto leva principalmente em conta as capacidades comparadas de liderança política e eficiência administrativa dos candidatos. E com alguma dose de subjetivismo.

Lula tem grande apoio, mas José Serra e Aécio Neves também têm, em seus estados. Lula faz um bom governo, segundo os números e as pesquisas. Os tucanos também, na área de responsabilidade deles. O PT esgrimirá que Serra ou Aécio no Planalto representarão a volta de FHC? É preciso saber se vai colar. Marta Suplicy (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB) tentaram usar uma carta algo parecida (o antimalufismo e o antiquercismo) contra Gilberto Kassab na última eleição para prefeito de São Paulo. Deram com os burros n'água.

Mesmo com todo o vento a seu favor, o Palácio do Planalto sabe que a oposição tem uma chance em 2010, se estiver unida, se conseguir escapar da armadilha de olhar pelo retrovisor e se projetar uma visão esperançosa sobre o futuro. Daí que governo e PT estejam empenhados em provocar alguma divisão séria nas hostes oposicionistas. Assim como o PSDB está empenhado em criar uma equação que dificulte a unidade política automática da base do governo em torno de Dilma Rousseff.

Os movimentos nervosos do governo e da oposição são o melhor sintoma de que o jogo ainda está por ser jogado.

Canonizado

É difícil acreditar que o Prêmio Nobel da Paz dado a Barack Obama vá ter algum efeito político interno. E não é porque são os Estados Unidos. Com o Nobel tem sido assim: muito confete e tapete vermelho do lado de fora, pouca luz do lado de dentro.

Há também alguma ranzinzice contra Obama nas críticas. “Não conseguiu nada até agora.” A turma do prêmio disse claramente que ele foi dado mais por causa das intenções, dos movimentos que faz o presidente americano para criar um novo ambiente internacional.

Aliás, se o cara fizer tudo o que pedem dele, a começar da paz definitiva entre Israel e Palestina, passando por um acordo para valer sobre o clima, e chegando ao desarmamento global, convenhamos que não se tratará mais de discutir um possível Nobel. Em certos círculos, Obama estará mais próximo é da canonização.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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