segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O recuo de Lula (31/08)

Perguntei para um sujeito que entende de Lula por que Luiz Inácio da Silva recuou nos royalties do pré-sal. Ele me diz que Lula só transferiu o debate para o Congresso Nacional. Assim, neutraliza o discurso de Sérgio Cabral e tira o corpo fora do desgaste, pois evita aparecer como "inimigo do Rio". Essa fonte acha também que Cabral terá muita dificuldade se quiser obter do Legislativo apoio para que a receita do pré-sal siga o figurino das regras atualmente em vigor, e que favorecem muito os estados produtores.

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domingo, 30 de agosto de 2009

Os insatisfeitos se revezam (30/08)

O STF é infalível? Longe disso. Só que o Brasil está muito mais bem servido com o atual Supremo do que estaria com um tribunal de última instância composto pelos críticos habituais do STF

Talvez algum bacharel em direito ou cientista social devesse, em trabalho acadêmico, enveredar pela análise do viés ideológico deste Supremo Tribunal Federal (STF). Ele foi majoritariamente (7 em 11) indicado por Luiz Inácio Lula da Silva, um presidente de esquerda. Entretanto, por mais que esprema a cabeça, não consigo chegar a uma conclusão definitiva e irrespondível. Mesmo olhando para algumas decisões da Corte que tiveram grande repercussão política e social.

Vamos pegar oito delas: mensalão, Palocci, células-tronco, Raposa Serra do Sol, Lei de Imprensa, diploma de jornalista, importação de pneus usados, Daniel Dantas. Em quantas o STF foi “de esquerda” e em quais foi “de direita”? Quando o Supremo “dobrou-se aos poderosos” e onde “cedeu ao populismo”? Se você tem tempo, uma bolsa de pós-graduação e acha o tema relevante, boa sorte.

Mas se a dificuldade para classificar ideologicamente este Supremo é um obstáculo na esfera puramente intelectual, em outro aspecto é um ótimo sinal. Mostra que a Corte talvez constitua um espaço real de construção democrática. Uma instância para dirimir pacificamente divergências tão agudas quanto econômica, política e socialmente motivadas. O que não deixa de ser um alívio. Pelo menos para quem prefere a democracia à ditadura.

O STF é infalível? De jeito nenhum. Só que o Brasil está muito mais bem servido com este Supremo do que estaria com um tribunal de última instância composto pelos críticos habituais do STF. Que Deus nos proteja desta segunda opção.

O tribunal deve pairar acima das críticas? Óbvio que não, mas convenhamos: do que a turba gostaria mesmo seria um STF que decidisse automaticamente a partir da pressão da imprensa, dos decibéis da rua ou da vontade e conveniência do poder. O tribunal tem agido assim? Não, e o melhor sintoma é precisamente o revezamento dos insatisfeitos. Uma hora uns, outra hora outros.

Interessado em identificar potenciais ditadores? Procure pelos donos da verdade. Aliás, o número deles vem crescendo conforme a radicalização e a luta sem limites se consolidam no modus operandi da política pátria. Aqui, um problema: se a verdade tem cada vez mais donos, também é fácil verificar que eles, infelizmente, nunca estão todos de acordo entre si.

E então, como resolver? No braço? No grito? Na desqualificação?

Escorregando

Ontem, nesta coluna, Daniel Pereira lembrou a velha história em que Magalhães Pinto comparava a política às nuvens do céu, que num momento se dispõem de um jeito e no instante seguinte, de outro. Aplica-se perfeitamente a como vai a sucessão de Lula.

Responda rápido: dos pré-candidatos até agora colocados, quais você garante 100% que estarão na cédula ano que vem? Bem 100% talvez nenhum. Mas a mais garantida até agora é Marina Silva, pelo PV. Que até outro dia nem estava na disputa. A postulação de Dilma Rousseff está excelentemente encaminhada, mas no governo e no PT há algum desconforto com as dificuldades que a ministra exibe quando precisa escapar das cascas de banana.

Sapo

Os governadores que pedem mais tempo e mais participação no debate sobre as normas do pré-sal enfrentam realidade espinhosa. Seu pedido até poderia ser atendido, caso não representasse um transtorno para os entendimentos entre o governo e um pedaço do PMDB para 2010. O governador do Rio, Sérgio Cabral, amigo de infância de Lula desde o fim de 2006, deu azar de estar no lugar errado na hora errada.

Aqui, Lula aplica uma lei básica da política. Não se una a um amigo a ponto de não poder se afastar dele quando convier. Porque você nunca sabe quando vai precisar se aliar a quem hoje você combate. Sobrou para Cabral. Que ou engole o sapo ou vai operar uma flexão arriscada.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Nem o espetáculo como punição? (28/08)

Caminhamos para uma situação de poucos controles, ou nenhum. Sobra o controle do próprio príncipe. Uma contradição em termos. Quando só resta o poder para controlar o próprio poder, é sinal de que alguma coisa vai mal

Há algo de desajustado num país quando o terreno da disputa pelo poder passa progressivamente à esfera da Justiça. Ontem, as atenções do mundo político estavam voltadas para o Supremo Tribunal Federal (STF), que decidia sobre aceitar ou não a denúncia do procurador-geral da República contra o deputado federal e ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. Disso dependiam alguns caminhos da refrega eleitoral no ano que vem.

Mas não é só. Um punhado de governadores percorrem o mandato à espera da decisão final dos tribunais, para saber se vão completar os quatro anos no cargo ou serão trocados pelos adversários vencidos nas urnas. Verdade que há argumento jurídico a embasar a posse dos derrotados, tanto que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) assim vem decidindo. Mas soa antinatural. Como explicar ao cidadão comum que quem ganhou a eleição simplesmente vai ser substituído pelo que perdeu? Não seria melhor fazer outra eleição?

Por que chegamos ao atual estado de judicialização? Os otimistas dirão que é manifestação da crescente eficiência dos controles sobre os políticos. Já os pessimistas argumentarão que é sinal apenas de uma, cada vez maior, preferência dos políticos por hábitos que se chocam com o ordenamento legal. É possível que ambos —pessimistas e otimistas— tenham uma parte da razão. Há mesmo uma forte pressão social para reforçar as amarras legais sobre as figuras públicas. E anda cada vez mais difícil achar um político que não esteja às voltas com alguma consequência de ter afrontado a lei.

Mas quem tem mais razão? Os pessimistas ou os otimistas? O senso comum supõe que é impossível o sujeito passar pelo poder e não ser alvejado por acusações, denúncias e processos. Mas o mesmo senso comum garante: a coisa mais difícil de achar é político condenado em última instância por crimes cometidos no exercício do cargo.

Assim, o que resta à sociedade como forma de controle e punição é o espetáculo. Algo que só pode ser exercido na esfera da opinião pública. Pode-se resumir assim: “Já que no final não vai dar em nada mesmo, vamos malhar o Judas aqui e agora. Talvez não saibamos por que estamos batendo, mas eles certamente saberão por que estão apanhando”.

Parece-lhe algo selvagem? Pois é. Assim se faz no Brasil o controle social sobre a política (além do voto, claro): malhando os Judas. Daí a frustração com o desfecho, até agora, da crise do Senado. Como o cidadão sabe que no fim das contas os atos administrativos condenáveis devem ficar por isso mesmo, restar-lhe-ia a satisfação de ver o presidente da Casa, José Sarney, percorrer a via crucis do Conselho de Ética e de uma votação em plenário, com o sofrimento decorrente. Nem isso o eleitor vai ter. Os políticos festejam. Já os mais prudentes esperam para ver como será a reação da rua.

Os anos 1990 assistiram aqui à construção de uma cultura política, cujo paradigma foi o impeachment do então presidente Fernando Collor. A ideia de democracia ficou associada ao poder dado à opinião pública para colocar freios e limites aos políticos. Mas, pelo abuso desse poder ou por cansaço, ou então pela emergência de um presidente da República suficientemente forte para se contrapor a essa hegemonia, o fato é que caminhamos para uma situação de poucos controles, ou de controle nenhum.

Sobra o controle do próprio príncipe. Uma contradição em termos. Quando só resta o poder para controlar o próprio poder, é sinal de que alguma coisa vai mal

No jogo

O STF reintroduziu ontem Antonio Palocci na disputa por cargos majoritários em 2010. Há dúvidas sobre o efeito do Caso Francenildo numa campanha. Como o eleitor reagirá a propaganda que explore o “drama do homem comum do povo que enfrentou os poderosos mas deu-se mal”?

Difícil prever com certeza. Até porque Palocci sempre terá a seu favor o argumento de que, afinal, a Justiça concluiu que ele nada teve a ver com a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo.

Meu palpite? Se Palocci for mesmo candidato em 2010, isso não terá qualquer efeito no resultado da disputa.

Coluna (nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Turbulências na relação (27/08)

A conversa recente entre Lula e as cúpulas do PT e do PMDB ficou longe de ser uma Brastemp. Nesse tipo de encontro, tão importante quanto os fatos é como são divulgados pelos interlocutores

Não vai tão bem quanto se imagina a relação do governo com o PMDB. O principal ocupante do Palácio do Planalto anda desconfortável com a reiteração do modo peemedebista de ser. Há mesmo alguma angústia, alguma ansiedade diante da inércia do aliado. Ansiedade e angústia que devem ter piorado depois das manifestações de dois governadores peemedebistas, do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, infelizes com as regras que o governo federal imagina para o pré-sal.

A conversa recente entre Lula e as cúpulas do PT e do PMDB ficou longe de ser uma Brastemp. Nesse tipo de encontro, tão importante quanto os fatos é como são divulgados pelos interlocutores. Segundo o PT, a reunião foi ótima, porque avançou na necessidade da aliança para 2010. O PMDB também acha que foi ótima, mas por não ter decidido nada. E segue o baile.

Um ano antes de definir candidaturas e alianças, o quadro está bem menos amarrado do que gostaria Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ontem com o senador Wellington Salgado (PMDB-MG) para um canal de televisão, perguntei qual é a probabilidade de o PMDB não fechar formalmente com nenhum candidato a presidente. “95%”, foi a resposta.

Ainda que esteja exagerando, é um sintoma. Verdade que o partido hoje é comandado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (SP), ele próprio um forte pré-candidato a ocupar a vice na chapa do PT, que deverá ter a ministra Dilma Rousseff na cabeça. Mas os problemas regionais continuam pendentes. Em particular o de Minas Gerais, o que talvez explique parte do que motivou Salgado a dar sua resposta.

Sem acordo no Rio Grande do Sul, em São Paulo, em Minas Gerais, na Bahia e em Pernambuco o cenário começa a ficar nebuloso. Ainda mais se entrar areia nas relações entre Lula e o governador peemedebista do Rio, Sérgio Cabral. Se houver conflito nesses estados entre os dois partidos, como Temer vai chegar à convenção nacional e propor que a legenda engate seu vagão na composição dilmista?

Outra dor de cabeça para o PT, esta inesperada, vem da candidatura Marina Silva, pelo PV. Quando ela apareceu, procuraram reduzi-la a uma postulação “temática”, fechada no cercadinho do ambientalismo. Mas bastaram alguns dias para o discurso mudar. Difunde-se agora a tese de que “o PV não é um partido confiável”, e também que “Marina não tem como defender a passagem dela pelo Ministério do Meio Ambiente”. Se a campanha negativa vai ou não colar, o tempo esclarecerá. Mas não deixa de ser outro sintoma de nervosismo.

Humanistas quando convém

O tema da Anistia tem sido abordado neste espaço, a propósito dos movimentos, dentro e fora do governo, para rever a lei de 1979, ampliada na década seguinte. O pedaço da administração que adota o revisionismo histórico veste-se de roupas humanistas, mas sua posição só pode ser entendida politicamente.

É hediondo e inaceitável submeter alguém a tortura. Também é inaceitável e hediondo o que acontece na Colômbia, onde a guerrilha das Farc mantém inocentes seqüestrados por anos, sem que suas famílias saibam onde e como estão, ou se vão revê-los um dia. É uma forma de tortura, sem dúvida.

Nossos governantes têm manifestado repetidamente apoio a uma solução pacífica e acordada para o conflito naquele país, que incluiria uma anistia ampla à guerrilha.

Não me lembro de ter visto gente do governo Lula defender que a única proposta razoável a fazer às Farc é a rendição incondicional, rumo ao banco dos réus e à cadeia. É isto: o pedaço revisionista do governo deveria vir a público defender a posição de Álvaro Uribe, para quem qualquer anistia aos guerrilheiros atentaria contra os direitos humanos e contra as leis internacionais.

Óbvio que não vai acontecer. Outro argumento dos revisionistas: uma coisa é anistiar quem, lutando contra a ditadura, cometeu crimes políticos hoje considerados hediondos; outra, diferente, é perdoar os funcionários e dirigentes do regime que transgrediram as leis da própria ditadura e cometeram atos que hoje a legislação diz serem hediondos.

Como exemplo de pensamento tortuoso, é sem dúvida singular.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Jogo do Poder com Wellington Salgado (26/08)



O senador Wellington Salgado (PMDB-MG) é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Clique na imagem para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Vera Magalhães, da Folha de S.Paulo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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O Congresso e seus cadáveres na sala (26/08)

Embrenham-se os senadores por complicadas discussões sobre como fazer um conselho de ética de tipo inteiramente novo, vacinado contra a vocação para a guerra política e para a autopreservação a qualquer custo. Tarefa tão possível quanto achar a quadratura do círculo

Ambos os conselhos de ética do Congresso Nacional estão mortos, restando a dúvida sobre como fazer o enterro. Foram vitimados por um mal de nascença: todas as decisões no Legislativo são político-partidárias, mas os conselhos surgiram para, em teoria, funcionar como algo diferente, como instrumentos da opinião pública. Não podia durar para sempre.

Os conselhos, criação recente, até que tiveram algum papel, por algum tempo. Mas encontraram seu limite quando a revelação de desmandos e absurdos passou a colocar em risco o establishment do Legislativo, que, naturalmente, agiu para sobreviver. Nem que para isso precisasse matar os conselhos de ética. E o fez, sem piscar.

Agora, Câmara e Senado estão com um cadáver na sala cada um. No Senado, mais exposto nos últimos tempos à luz, alguns desejam maquiá-lo para o funeral. Embrenham-se por complicadas discussões a respeito de como fazer um conselho de tipo inteiramente novo, vacinado contra a vocação de suas excelências para a guerra política e para a autopreservação a qualquer custo. Tarefa tão possível quanto achar a quadratura do círculo.

Mas, dado que a Constituição prevê processos por quebra de decoro, é preciso encontrar uma saída. Que não seja jogar o abacaxi no colo do Supremo Tribunal Federal (STF). Até por não haver lei dizendo especificamente o que é quebra de decoro, detalhe que transforma a coisa toda em algo bastante subjetivo. Como já escrevi aqui, talvez seja mesmo melhor deixar o STF fora dessa.

Uma solução possível e prática seria voltar os processos para as comissões de Constituição e Justiça, que costumam ser formadas com base em critérios mais sólidos. Mas mesmo assim permanecerá o viés partidário. O que poderia ser atenuado com a garantia de recurso ao plenário, nem que só para obrigar a algum debate público, para colocar algum limite ao partidarismo estrito.

Ontem no Senado, em meio à ressaca, especulava-se nos bastidores sobre como sair da confusão sem mais ferimentos além dos já visíveis. Senadores envolviam-se em complexos debates sobre a "composição ideal" do Conselho de Ética e argumentavam sobre o quixotismo de prosseguir o embate contra José Sarney, agora com o resultado já definido.

Falava-se também sobre como no passado figuras de destaque no Congresso conseguiam ficar acima das pendengas. Evocava-se a histórica votação em que a Câmara negou licença a que o então deputado Márcio Moreira Alves fosse processado. Negativa a que se seguiu o Ato Institucional número 5.

Um clima de velório. Ambiente ideal para um enterro de luxo.

Abacaxi

Correndo tudo dentro do previsto, o STF decide nos próximos dias se aceita ou não a denúncia contra o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci no caso do caseiro Francenildo. Em meio ao deserto de líderes, o PT espera ansiosamente que o hoje deputado federal esteja, após longa inatividade, liberado pelo departamento médico para entrar em campo.

Fala-se de uma candidatura em São Paulo para governador, ou mesmo de um plano B para o Planalto. Mas pelo que se vê na Receita Federal talvez Luiz Inácio Lula da Silva devesse considerar a hipótese de devolver Palocci a seu antigo posto por uns meses. Para colocar ordem nas coisas antes de se desincompatibilizar no ano que vem.

Puxador

O PSB anda mesmo entusiasmado com a possível candidatura de Ciro Gomes para a Presidência da República. Entre os parlamentares do partido, há inclusive quem ainda trabalhe com a hipótese de ele trazer o apoio do PT, se este não conseguir levar o PMDB para o barco de Dilma Rousseff.

Sonhos e devaneios à parte, os socialistas estão convencidos de que com um nome forte para puxar a eleição têm condições de fazer uma grande bancada na Câmara e ampliar bem a presença no Senado. A cada dia que passa esse sentimento fica mais forte. Se o movimento não for travado rapidamente, o Palácio do Planalto terá dificuldade de interrompê-lo lá adiante.

De garantido mesmo, Dilma hoje só tem o PT e o PCdoB. O que pode destravar o cenário é um apoio do PMDB. Que se vier cedo dará a Lula argumentos para tentar arrastar o resto da base. Daí a movimentação do presidente.

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terça-feira, 25 de agosto de 2009

No PT, dias de inquietação (25/08)

Uma aliança íntima com o PMDB convém a Lula e a Dilma se trouxer depois, de arrasto, o restante da base. Se for a senha para a debandada, não convém

O aparte ontem de Eduardo Suplicy (PT-SP), quando o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), discursava sobre Euclides da Cunha, é sintoma de que a Casa ainda não convive bem com a paz dos cemitérios instituída pelas decisões do Conselho de Ética. Sarney tem com ele a maioria interna, mas não tem a maioria externa. E essa assimetria gera instabilidade.

A assimetria incomoda também, e profundamente, o Partido dos Trabalhadores. Que busca um caminho para sair da tenaz, após ter dado os votos decisivos e arquivar os processos contra Sarney. A situação mais emblemática é a do líder, Aloizio Mercadante (SP). Ele explicou o recuo da semana passada (dissera antes que deixaria a liderança do PT) por ter recebido um pedido pessoal do presidente da República.

Na carta em que lhe solicita que continue líder, Luiz Inácio Lula da Silva aceita que Mercadante e a bancada mantenham a posição crítica ao establishment do Senado. E agora? O que os senadores do PT vão fazer com a missiva? Emoldurá-la e pregá-la na parede, como indaguei aqui na coluna de domingo? Ou seguir com as pressões pela ampla reforma política e administrativa do Senado?

A situação do PT tem sido objeto de muitas análises nas horas recentes. Se é ufanismo dizer que o partido nada sofrerá por causa do voto pró-Sarney, talvez seja catastrofismo imaginar que o petismo está à beira da hecatombe final. O que mais há na história brasileira recente são políticos e partidos cuja morte definitiva é anunciada com antecedência e que ressurgem, lépidos, logo adiante. Prudência, então.

O PT tem uma base firmada, de pelo menos 25% do eleitorado. É altamente duvidoso que esse “núcleo duro” do petismo abandone Lula e seu projeto, e tome a direção da aliança PSDB-DEM-PPS, só porque o PT se faz acompanhar de figuras complicadas da política brasileira. Olhando realisticamente, a “gordura ética” da legenda já foi queimada em 2005-06, e a perda não foi suficiente para desalojar a sigla do Palácio do Planalto.

Em 2006, o PT fez no segundo turno os mesmos três votos em cada cinco para a Presidência da República que fizera em 2002. Os eleitores que o haviam abandonado, eventualmente decepcionados com os escândalos, foram substituídos por outros, gratos a Lula pelos avanços econômicos e sociais. Nas duas ocasiões o percentual petista da sociedade brasileira manteve-se firme. E é provável que continue assim em 2010. Daí que Lula tenha no Acre minimizado a capacidade de a senadora Marina Silva (sem partido-AC) dividir o voto do PT.

Não é essa a dúvida. Ela está no risco de o pedaço não petista da base do governo encontrar outros caminhos, não opostos a Lula, mas não limitados à continuidade estrita. As pesquisas eleitorais estão aí. Mesmo que os números frios possam ser objeto de divergência, um ponto é comum: hoje o cenário governista está mais para a fragmentação do que para a consolidação. O que aumenta a inquietação do PT. E coloca uma interrogação sobre a garantia de que o PMDB vá ter a vice na chapa de Dilma Rousseff.

É verdade que há também interesses locais a considerar, mas a entrevista de domingo neste jornal com o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel deve ser vista atentamente. Uma aliança íntima com o PMDB convém a Lula e Dilma se trouxer depois, de arrasto, o restante da base. Se for a senha para a debandada, não convém.

Valor universal

A passagem de três décadas da Anistia agitou o revisionismo pátrio. O que na época foi uma bela conquista das forças democráticas é agora apresentado como “imposição do autoritarismo”. Não se trata de um debate novo. Correntes hoje bem presentes no PT e no governo opunham-se então a que a oposição ajudasse a aprovar a Anistia no Congresso.

Assim como recusavam a ideia de lutar por uma Assembleia Constituinte, depois de terem resistido o quanto puderam a endossar a luta pelas liberdades democráticas, desprezadas como “burguesas”. Do mesmo modo que se negaram a apoiar Tancredo Neves.

Foi um debate importante na passagem dos anos 70 para os 80, esse sobre o valor universal ou não da democracia. Uma discussão aliás muito atual.

Coluna (nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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domingo, 23 de agosto de 2009

100a. nossa, 10a. dele, 1a. no ano (23/08)

Enfeite de parede? (23/08)

A válvula de escape dada por Lula a Mercadante indica que o presidente talvez não esteja assim tão confortável com o entorno político que a crise do Senado produziu para sua excelência e sua candidata

Esta crise do Senado é daquelas para valer. O presidente da Casa, ele próprio um ex-presidente da República, vem sobrevivendo à refrega, mas agora anda de muletas. Made in Palácio do Planalto. O partido condutor do governo toma tiro de todos os lados e exibe suas fraturas. Três em cada quatro líderes da oposição foram parar na UTI, já que cometeram a imprudência de entrar na batalha sem colete à prova de balas. E o Senado propriamente dito está pela bola sete, tido crescentemente como desimportante, ou mesmo desnecessário.

Em meio à carnificina, eis que Luiz Inácio Lula da Silva decide jogar uma boia para o líder do PT na Casa, Aloizio Mercadante (SP).

Um parêntese. A primeira coisa que você deve aprender quando chega a Brasília —se tiver sorte, você aprende a tempo— é que aqui existe algo chamado “o poder”. A segunda lição é que “o poder” jamais comete gestos inúteis. Ele invariavelmente se movimenta para adquirir mais força, ou pelo menos proteger a que já tem. E esses são seus únicos critérios. Mesmo que às vezes ele os disfarce sob a máscara da “amizade”, da “generosidade” ou da “lealdade”.

Dito isso, chega a ser espantoso que Lula tenha feito com Mercadante o que não fizera antes a nenhum aliado, dos que se aventuraram em projetos com algum grau de independência diante do príncipe. Lula poderia ter simplesmente aceitado os fatos, deixado Mercadante caminhar rumo ao exílio interno no partido e imposto, finalmente, a paz dos cemitérios na conturbada bancada senatorial do petismo.

Será que o presidente ficou com receio do estrago que Mercadante poderia fazer numa eventual luta interna dentro do PT? Chance zero. O partido nunca esteve tão coeso, em torno da candidata Dilma Rousseff e do projeto de continuar mais quatro anos (por que não mais oito?) na cadeira. Ficou com dó dele? Esqueçam. Em outras ocasiões, Lula já moeu impiedosamente velhos companheiros, quando foi conveniente.

Então, trata-se de saber por que não convinha ao presidente dar uma lição definitiva ao líder do PT no Senado, que conduziu ali as coisas de modo a transferir a Lula e ao governo todo o ônus político da operação para proteger José Sarney. As respostas parecem óbvias. A primeira delas: se a força da oposição na Casa incomoda o presidente da República, tampouco convém a Lula um Senado totalmente dominado pelo PMDB e satélites. A segunda: o presidente sabe que uma candidatura Dilma só sustentada num PT desossado e em aliados de imagem complicada entra em zona de risco eleitoral.

Na política, como na profissão de goleiro, não basta ser esperto e competente: tem que ter sorte. Foi o que teve Mercadante. Na comparação com os pares, suas escoriações talvez sejam as mais fáceis de tratar. Até porque ele continua na liderança do partido. Não rompeu o elo histórico com Lula e ganhou de presente uma carta em que o presidente foi obrigado a estimulá-lo a continuar a luta contra o establishment do Senado.

Resta saber que uso Mercadante fará da carta. Se ela lhe servirá apenas como enfeite de parede, ou se vai servir para algo politicamente mais útil. A ele e ao Brasil.

Deixem o STF em paz

Depois de matar o Conselho de Ética, o presidente do Senado agora propõe o enterro formal. Quer que os processos de quebra de decoro passem ao Supremo Tribunal Federal. Complicado. Como “quebra de decoro” é algo subjetivo, o resultado seria transformar o STF num tribunal 100% político. Que naturalmente evoluiria para uma corte 100% partidária. Como aconteceu no Conselho de Ética.

Mais prudente seria jogar os processos para a Comissão de Constituição e Justiça, com recurso garantido ao plenário. Assim, já que tudo agora é “luta política”, as coisas seriam resolvidas no voto. E ninguém —acho— teria coragem de propor a extinção da CCJ. E o Supremo Tribunal Federal seria, mais adequadamente, deixado em paz, fazendo o serviço previsto na Constituição.

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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Dia movimentado no blog (21/08)

O blog recebeu hoje a segunda maior audiência diária nestes pouco mais de quatro anos.

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Tuitadas num dia quente (21/08)

Tem que ser lido de baixo para cima (é um saco, eu sei, mas pior seria arriscar um empastelamento; se tiver erro, avisem por favor). Intervenções num debate no Twitter sobre Aloizio Mercadante:

# Não, @da_cia, Lula foi driblado pelo @mercadante. Para um político do PT, uma carta dessas vale por um mês de porrada na imprensa

# O irrevogável na política está aí para ser revogado. Maquiavel. A ética do poder é outra, @anaestela

# Não sei se foi tudo combinadinho assim, @mauriciodf1, mas o jogo é de profissionais. Um pôquer. Quem aposta alto é bom que tenha cartas

# "florentina", @msoares? Só me esforço para não fazer confusão entre a realidade e meus próprios desejos

# @nortonlimajr, vc acha que Sarney/Renan preferiam @mercadante na liderança ou fora dela?

# @nortonlimajr, na política vale a força que vc tem. O PT e o PalPlanalto dobraram-se a que @mercadante tem a maioria da bancada do PT/Senado

# Por isso o desgaste, @msoares. Mas não se faz omelete sem quebrar ovos

# Irrevogável para ele, @fangelico. Não para o pres da República. @mercadante não vai romper com Lula. Lembre que ele foi vice de Lula em 94

# [Dividir para reinar] É (sempre) a receita clássica do príncipe, @fangelico

# Em vez do suicídio glorioso, manteve-se na liderança, @torredemarfim. Com aval do partido e do governo

# Ele conseguiu o melhor, @anaestela, alternativa 3, com carta pessoal de Lula para que ficasse. Há desgaste. Mas boa relação custo/benefício

# 1) Dobrar-se a Sarney/Renan, 2) virar dissidente no PT, 3) manter-se na liderança podendo divergir abertamente da posição partidária

# Tem mais, @anaestela. Diferente de Marina, não há espaço para o @mercadante fora do PT. As alternativas para ele eram as seguintes:

# E Lula não gosta de ficar refém de ninguém, @anaestela

# E outra coisa, @anaestela: Lula certamente pesou o fato de que sem @mercadante ele entronizaria Sarney/Renan como imperadores do Senado

# E sem recuar da posição inicial dele, @anaestela. Pelo jeito, Lula achou que a fatura (Marina, Arns) já estava muito alta

# @anaestela Se ele (@mercadante) aguentar o tranco vai apanhar uns dias e só. Ele foi confirmado na liderança, com aval do presidente e do PT

# É sempre bom tomar cuidado, na análise política, para não escorregar rumo ao subjetivismo

# Com menos poder: José Sarney, Arthur Virgílio

# Com mais poder: Renan Calheiros, José Agripino e Aloizio Mercadante, confirmados e reforçados como líderes de suas bancadas

# Vou analisar o desfecho da crise no Senado exclusivamente pelo ângulo do poder. Quem saiu com mais poder e quem com menos

# Escrevi na coluna/blog ontem que @mercadante tinha se fortalecido junto à bancada

# Hoje na coluna/blog escrevi que a crise no PT não duraria mais que horas

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Ética: sozinha ou acompanhada? (21/08)

O pavor do petismo não é o questionamento “ético”. Isso ele acredita que tirará de letra. O problema está em outro lugar. O risco se encontra numa possível novidade

Almoçava com dois amigos quando surgiu a pergunta. O que seria do PT sem o PSDB? O que o partido teria a dizer na eleição sem recorrer ao “risco da volta ao passado”? À “ameaça do retorno dos neoliberais”? Ou ao “espectro da retomada das privatizações”? Houve um certo silêncio. É possível que o PT, nessa situação, tivesse até como expor seus feitos. Onde estaria a dificuldade? Em oferecer uma visão consistente de futuro. Neste ponto o leitor poderá imaginar que a coluna é uma suíte (continuação) da de ontem. Terá razão.

Não chega a ser novidade na História do Brasil. Dada a nossa instabilidade democrática estrutural, aqui a renovação política acontece como eliminação e entronização cíclica de partidos — e não só de líderes. Pelo menos desde a Revolução de 1930, quando de fato se proclamou a nossa República. Tivemos a hegemonia do Partido Social Democrático (PSD) de 1945 a 1961. Depois da rápida gripe janista, ensaiou-se uma oportunidade para o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), abortada pela ruptura militar de 1964.

Daí veio a Aliança Renovadora Nacional (Arena), que só brilhou de verdade no “milagre brasileiro”, graças ao crescimento explosivo da economia e ao voto nulo pregado por boa parte da oposição. O fim do “milagre” e a completa derrota militar da luta armada abriram caminho ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Que depois virou PMDB, ganhou com Tancredo Neves no colégio eleitoral e afundou-se no dilema hamletiano de ser ou não governo com José Sarney. Do que resultaram tanto a festejada Constituição de 1988 quanto a odiada hiperinflação.

Então chegou o tsunami Fernando Collor, com Luiz Inácio Lula da Silva na cola. Collor foi um Janio Quadros tardio, no apelo e no destino. O impeachment, hoje objeto de revisão histórica por alguns protagonistas, como Lula, abriu a temporada de predomínio dos “éticos na política”. Natural, assim, que PSDB e PT tenham ocupado o palco nas últimas duas décadas, nascidos que foram da negação da “política como ela é”. Ojeriza que precisaram arquivar quando chegaram ao poder. Coisa que aliás não exigiu tanto sofrimento.

Nessas nossas idas e vindas, volta e meia aparece o discurso de “evitar a volta ao passado”. Ele costuma ter um componente sincero, que convive bem com o natural desejo de se segurar no poder. É humano que os detentores deste em algum momento passem a enxergar a própria continuidade como absolutamente fundamental para o interesse pátrio. Mas costuma marcar também uma certa propensão ao declínio. Pois é um sintoma de que o príncipe tem dificuldade de falar sobre o futuro. Ora, se é preciso fazer, e se vai fazê-lo, por que não fez até agora?

A notícia das últimas horas é a crise no PT por causa das confusões no Senado. Talvez ela deva ser relativizada. Já faz algum tempo que o partido se estranha com o udenismo, marca registrada de sua infância e juventude. Uns vão sair, outros vão ficar e nada, ou quase nada, vai acontecer de sério. Daqui a algumas horas estarão todos reunidos matutando sobre a melhor maneira de continuarem depois de 2011 nas cadeiras que ocupam hoje. O caso tomará certo espaço na imprensa, dado que esta gosta de novidades, de boas imagens e de boas frases, como as que podem ser pinçadas das duras declarações do senador Flávio Arns (PT-PR). E só.

O pavor do petismo não está aí, no questionamento “ético”. Isso ele acredita que tirará de letra. O problema é outro. Qual é a proposta da candidata do PT para que as crianças e jovens saiam da escola sabendo ler, escrever e fazer contas? Qual é a proposta para humanizar o atendimento nas portas de entrada do sistema de Saúde? O que o governo federal pode fazer a mais para enfrentar a gravíssima situação da segurança pública, do narcotráfico e do crime organizado? Como finalmente conseguir o crescimento sustentado e sustentável, num planeta em pânico com o papel do Brasil no aquecimento global? E, sobretudo, se o PT sabe como fazer essas e outras coisas, por que não fez nos oito anos em que esteve lá?

Lula deixará aos brasileiros um país com menos pobreza e um pouco mais de crescimento. Mas entraremos em 2011 sendo ainda a tartaruga dos Brics, o território livre dos piratas da banca, o maior spread do mundo, o paraíso da ciranda financeira. Teremos perdido também uma oportunidade única de enfrentar a absurda concentração de terras. Ao contrário, a obsessão pelo etanol terá contribuído para piorá-la.

Talvez seja mesmo o caso de o PT rezar e, principalmente, trabalhar por uma eleição sem novidades. A ética sozinha não faz verão. Problema será se ela vier acompanhada à festa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Fatura remetida ao Planalto (20/08)

O PT está ficando com uma cara de coisa antiga. Menos do que a do tucanato associado a FHC, mas ainda assim antiga. Um eventual governo Dilma corre o risco de nascer velho? O que o eleitor vai achar disso?

A bancada do PT no Senado tem uma dívida com o líder, Aloizio Mercadante (SP). Ao insistir que José Sarney (PMDB-AP) devia explicações ao Conselho de Ética, Mercadante ajudou a proteger os colegas, deixando mais que claro de onde vinham as pressões pelo arquivamento sumário: do Palácio do Planalto. O senador João Pedro (PT-AM) também contribuiu, quando leu no conselho um texto com a posição pública do presidente do PT, deputado federal Ricardo Berzoini (SP).

Assim, se manter Sarney na Presidência do Senado interessava antes de tudo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o próprio assumisse o ônus. A posição de Mercadante serviu também de escudo a dois colegas em particular, Delcídio Amaral (MS) e Ideli Salvatti (SC). Ambos candidatos ano que vem poderão dizer que votaram com o partido, com o presidente Lula, que fizeram esse sacrifício em nome do projeto maior. A única coisa que não pode faltar a um político é o discurso. Se o líder não consegue oferecer aos liderados a vitória, que pelo menos dê o discurso.

Lula desenvolveu ao longo dos anos uma tecnologia. É a história do técnico de futebol para quem “eu ganhei, nós empatamos, eles perderam”. Tudo vai se desenhando para que 2010 represente o ápice da estratégia. Será a eleição do tudo ou nada. A cúpula do PT opera para não ter candidatos viáveis nos maiores colégios eleitorais. Uma exceção será o ministro da Justiça, Tarso Genro, que deu o drible da vaca na direção nacional do partido e foi também beneficiado pelo desastre político do tucanato no Rio Grande do Sul.

A tese predominante no PT é abrir mão de tudo que possa representar risco para a montagem de um palanque invencível na sucessão presidencial. Teoricamente faz sentido. O tempo de televisão do PMDB dará um belo trunfo a Dilma Rousseff, ainda mais se houver mesmo o desgarramento de outros pedaços da base do governo. O problema, de novo, é o discurso. Ao PT resta hoje a tese de que fez um governo melhor do que fizera o PSDB. É verdade. Se for só por isso, Dilma pode preparar o tailleur.

Eleições são apostas sobre o futuro. O presente pode ganhar, desde que dispute com o passado, já que em relação ao passado o presente é o futuro. Fernando Henrique Cardoso reelegeu-se em 1998 porque as pessoas não queriam de volta o passado de inflação. E Lula venceu em 2006 porque os eleitores não desejavam a volta do passado representado por FHC.

Aliás, talvez os tucanos nunca tenham entendido como a história das privatizações rendeu tanto ao PT naquele ano. Não foi porque o brasileiro se tornou um estatista fanático, mas talvez porque o ambiente de polarização ideológica tenha reavivado as brasas adormecidas da péssima memória popular sobre o segundo quadriênio do PSDB no Planalto. Que persiste até hoje. Basta olhar para as pesquisas, nas quais invariavelmente o campo político tucano-democrata aparece em minoria quando se pergunta sobre o sucessor de Lula.

Mas o discurso da continuidade encontra o limite quando se vê diante do apelo do futuro. Não qualquer futuro. Um viável. Esse é o risco do caminho pelo qual o situacionismo conduz a guerra. O PT está ficando com uma cara de coisa antiga. Menos do que a do tucanato associado a FHC, mas ainda assim antiga. Um eventual governo Dilma corre o risco de nascer velho? O que o eleitor vai achar disso? E qual é a liderança partidária que poderia encarnar hoje o sentimento de renovação política?

Não é à toa que Lula se movimenta para matar as alternativas. Ele sabe o que faz.

Homenagem

Um último detalhe. O PMDB que representou contra o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) votou no Conselho de Ética para arquivar sumariamente o mesmo processo que o partido havia apresentado. Foi uma posição transparente, a admissão de que a coisa se reduzia apenas à política. O PMDB poderia ter votado para abrir o processo contra o líder tucano. Não mudaria o desfecho. Mas preferiu dar os votos que garantiram a unanimidade a favor de Virgílio. Talvez tenha sido uma homenagem.

Sofisticado

Como foi notado ao longo do dia, e finalmente verbalizado pelo senador Pedro Simon (PMDB-RS), a senadora Marina Silva (sem partido-AC) escolheu deixar o PT no dia em que a legenda votou para impedir qualquer investigação sobre o presidente do Senado. Talvez agora os que a reduzem a uma “candidata temática” percebam que estão diante de algo mais sofisticado.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Jogo do Poder com José Carlos Aleluia (19/08)



O deputado federal José Carlos Aleluia (DEM-BA) é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Clique na imagem para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Tiago Pariz, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Liberdade de imprensa e autorregulamentação (19/08)

Não faz sentido um direito de resposta esperar indefinidamente por decisão judicial, quando poderia ser dado a partir da autoridade moral de uma instituição reconhecida pelos jornalistas, pelas empresas e pela sociedade

Tive a oportunidade de participar ontem aqui em Brasília de um painel promovido pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), na comemoração dos 30 anos da entidade. Jornalista discutir liberdade de imprensa (o tema) é sempre bom, mesmo correndo o risco de aparentar que legisla em causa própria. No mundo ideal, jornalista deveria “jornalistar”, deixando a outros o debate sobre as circunstâncias da atividade. Talvez como no futebol, onde comentarista não joga bola profissionalmente e jogador não ganha a vida comentando.

Isso no plano ideal, que não existe. Na vida real as coisas estão misturadas. Também pela perplexidade nascida da revolução nas comunicações. Nunca se discutiu tanto o jornalismo. E nunca houve tamanho mercado para ele, ainda que as formas tradicionais de distribuição estejam às voltas com o desafio de se renovar, de encontrar caminhos econômicos num mundo onde as pessoas não mais dependem de uma ou duas fontes informativas.

Voltando ao tema. A liberdade jornalística em nosso país está balizada pela Constituição de 1988, que vem de ser interpretada duas vezes pelo Supremo Tribunal Federal (STF), nos julgamentos da Lei de Imprensa e da obrigatoriedade do diploma profissional universitário específico. Em ambos o STF firmou a posição de que todo limite legal prévio ao acesso e ao exercício afronta o direito à livre expressão das ideias, consagrado na Carta.

Assim, não é que a liberdade de imprensa seja absoluta: ela só não pode ser previamente limitada. Cada um diga o que quiser, mas responda pelo que disse, a posteriori. Parece razoável, pois se houver o poder de impedir a veiculação a priori de material jornalístico alguém necessariamente terá adquirido o direito de censurar previamente. Coisa que a Constituição proíbe.

E os direitos à imagem e à privacidade, também não estão garantidos na Carta? Estão, mas, segundo a Suprema Corte, não podem ser usados para cercear a liberdade de expressão. Pelo mesmo motivo já citado, pelo veto constitucional à censura prévia. Então, segundo o texto de 1988 e as interpretações posteriores, fica claro que o controle público sobre a atividade da comunicação deve sim ser feito, pela Justiça. Com base nas leis votadas pelo Congresso Nacional e submetidas ao controle de constitucionalidade.

Outro tema abordado pelos colegas participantes foi a necessidade de autorregulação, nos moldes do conselho existente no mercado da propaganda. Defendi isso cinco anos atrás, em artigo publicado na Folha de S.Paulo. Sugeri formar um comitê com representantes das entidades dos jornalistas (Fenaj, ABI), das empresas de comunicação e de órgãos de defesa do consumidor. Seria uma instituição não governamental. Ficaria proibida de ter qualquer relação de dependência com governos. Exerceria “vigilância ética”.

Provocada, pronunciar-se-ia sobre o que considerasse antiético ou imoral, ainda que não necessariamente ilegal. O comitê faria recomendações, aprovadas por pelo menos dois terços de seus membros. O quorum alto forçaria decisões quase consensuais do colegiado, para evitar que se tornasse palco de disputas corporativas entre jornalistas e veículos. Ou de guerras partidárias. Não faz sentido, por exemplo, um direito de resposta esperar indefinidamente por decisão judicial, quando poderia ser dado a partir da autoridade moral de uma instituição reconhecida pelos jornalistas, pelas empresas e pela sociedade.

Esta é uma sugestão estritamente pessoal, assim como as opiniões expostas no painel da ANJ. Deve haver muitas outras ideias, bem melhores. De todo modo, fica o debate.

Retomada

Antes do painel, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, falou sobre a economia. Disse que depois de dois trimestres de recessão teremos um de forte crescimento. Segundo ele, os números de abril a junho de 2009, anualizados, trarão uma expansão econômica de mais de 6%. Tomara.

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terça-feira, 18 de agosto de 2009

Comida, diversão e arte (18/08)

Se o brasileiro comum não vai ficar contra Lula só porque tem gente bem nascida e bem posta falando mal do presidente, tampouco vai apoiar Sarney só porque isso convém aos propósitos políticos de Lula e do PT

A esta altura, parece óbvio que o PT e o governo fazem uma leitura torta do episódio que envolve o presidente do Senado, José Sarney. Segundo o Datafolha, os que pedem a saída dele do cargo, temporária ou definitiva, superam inclusive o portentoso contingente de apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva. Existe um monte de gente por aí que gosta do governo Lula mas também acha razoável que Sarney se afaste.

Constata-se novamente que a consciência do cidadão não tem outro dono a não ser o próprio. Se o brasileiro comum não vai ficar contra Lula só porque há pessoas bem nascidas e bem postas falando mal do presidente, tampouco vai ficar a favor de Sarney só porque isso convém aos propósitos políticos de Lula e do PT. O cidadão-eleitor é cada vez mais dono do nariz. Até porque tem cada vez mais acesso a informação. Alguns só se lembram disso quando é a seu favor. Acabam quebrando a cara.

Os números do Datafolha sobre Sarney são um retrato dos furos da estratégia política do PT e do Palácio do Planalto neste caso. Segundo os petistas e o governo, as pressões contra o presidente do Senado são manobras para enfraquecer Lula. Isso pode ser lido assim: se você quer proteger Lula, precisa apoiar a manutenção de Sarney. Mas também pode ser lido assado: Lula usa sua força política para garantir a impunidade de gente que se não tivesse essa proteção ficaria em maus lençóis.

É óbvio que uma hora vai bater em Lula. Se não diretamente (pois o brasileiro comum confia nele e é grato pelos resultados de seu governo, como mostra o Datafolha), com certeza no processo eleitoral. Algum candidato vai dizer assim: “Eu vou manter o Bolsa Família e todos os programas sociais, mas não vou acobertar irregularidades dos meus aliados, não vou fechar os olhos às coisas erradas só por conveniência política”. Parece uma mensagem fácil de difundir por quem tenha credibilidade e identificação com o campo político de Lula.

A pesquisa também permite contestar outra tese, de que o eleitor pobre não está nem aí para os maus costumes políticos, desde que a economia caminhe bem. É uma versão repaginada do preconceito que produz expressões como “bolsa-esmola”. Alguns da oposição dizem que os programas sociais compram a consciência dos beneficiados. Ao argumentar que o pobre se lixa para o papel de Lula nas confusões do Legislativo, pois tem comida na mesa todo dia graças ao governo, o PT reforça “pela esquerda” os conceitos que gosta de espezinhar na direita.

Talvez porque tanto na direita como na esquerda brasileiras os formuladores e estrategistas nunca tenham sido pobres de verdade um dia. Historicamente, ambas conhecem o pobre só de estudar, só de ouvir falar. Daí a tendência ao pensamento elitista. Se Lula ajudou a tirar milhões da pobreza, então os gênios acham que esses milhões seguirão cegamente o presidente, como antes seguiam os coronéis que lhes lançavam algumas migalhas dos banquetes da oligarquia.

Errado. Quando o sujeito sai da pobreza, ele adquire também a possibilidade material de exercer, de fato, sua capacidade crítica cidadã. Como na música dos Titãs, as pessoas não querem só comida: elas querem comida, diversão e arte. Todas essenciais para encontrar a saída, para qualquer parte que seja.

Capacidade de fechar

Quem está melhor numa pesquisa? Quem lidera ou quem vai atrás? A pergunta parece estúpida e a resposta, óbvia. Mas numa eleição em dois turnos a dúvida se justifica. O que vale mesmo é a capacidade de fechar a maioria absoluta do eleitorado. Usain Bolt não foi o melhor em todas as eliminatórias dos 100m do Mundial de Atletismo, mas na final ganhou a prova e incinerou o recorde planetário.

Numa eleição em dois turnos, mais importante do que liderar o primeiro é, além de ir ao segundo, construir no processo eleitoral a condição de reunir em torno de si os 50% + 1 no fim. Aí entram as alianças políticas e o discurso. Que devem ser cultivados com a maior antecedência possível.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Comida (17/08)

domingo, 16 de agosto de 2009

Administradores da inércia (16/08)

O líder da mudança acaba reduzido ao papel de administrar avanços apenas incrementais, marginais. Conforme o tempo passa, a angústia cresce, pois afinal é preciso “fazer algo”, “deixar uma marca”, enquanto a realidade impõe administrar a inércia

Barack Obama corre o risco de atolar já na largada, no mesmo pântano que travou Bill Clinton: a reforma da Saúde. Obama trabalha para cumprir o programa eleitoral e universalizar o sistema, mas a classe média não quer pagar a conta. Habilmente, os republicanos desengavetaram o sempre à mão fantasma do “socialismo” e Obama parece emparedado. Veremos como ele reage.

Antes de seguir, registro um fato: se aqui o sujeito fica doente e não tem dinheiro suficiente para o tratamento adequado, ele deve agradecer a Deus por estar no Brasil, e não nos Estados Unidos. Adoeça sem dinheiro ali para ver o que é bom para a tosse. Literalmente.

Mas Obama está longe de entregar os pontos e tem procurado mesmo reagir. O The New York Times de sexta-feira traz o esforço do obamismo para mobilizar, agora na reforma da Saúde, os milhões de apoiadores que deram duro para eleger o primeiro negro à Casa Branca. Segundo a reportagem, o resultado é, por enquanto, apenas parcial.

Uma coisa foi tirar as pessoas de casa lá atrás para algo apaixonante e abstrato, a ideia de que, “sim, nós podemos”. Outra bem diferente, muito mais trabalhosa, é entusiasmar agora por assuntos naturalmente áridos. Pedregosos, como são os temas das políticas públicas.

A vida real manda lembranças. Eis um problema habitualmente enfrentado pelos governantes que chegam lá impulsionados por plataformas mudancistas. Quando a eleição acaba, boa parte da energia transformadora se dissipa, enquanto o peso da inércia continua firme. E o líder encontra pela frente estruturas construídas precisamente para resistir.

Da guerra de movimento, o príncipe passa à guerra de posição. Para Obama, ela é até um pouco mais complicada de travar, dado que os partidos americanos são visceralmente eleitorais. Não há propriamente uma militância. A rigor, aqui tampouco. Faz tempo. A não ser para as câmeras.

Lá e cá, como nas demais formações desenvolvidas, democráticas, de sociedade civil complexa, é como se o impulso entrópico, caótico, característico da nossa época, teoricamente progressista, operasse o paradoxo de debilitar o vetor da transformação, dando uma vantagem decisiva à inércia.

Para que tudo continue como está, basta não fazer nada e deixar rolar o Woodstock. Já quem deseja mudar, este precisará reunir a imensa energia social indispensável, num cenário superfragmentado e vocacionado para divergir. Nunca para convergir.

Missão de sísifo. Falei disso dias atrás, quando desenhei o universo das organizações ambientalistas como uma federação de vetos. Não à toa o Partido Verde está em busca de sua refundação.

Assim, se bobear, o líder da mudança acaba reduzido ao papel de administrar avanços apenas incrementais, marginais. Conforme o tempo passa, a angústia cresce, pois afinal é preciso “fazer algo”, “deixar uma marca”, enquanto a realidade impõe administrar a inércia, para não ser completamente paralisado por ela. E isso tem um custo. Ainda que não perceba, o meio transforma você enquanto você peleja duramente para deixar sua marquinha nele.

Eu vi pedaços do discurso de Luiz Inácio Lula da Silva esta semana em Goiás e fiquei com duas impressões. O entusiasmo popular não estava uma Brastemp e o presidente anda mesmo ocupado demais em escrever sua biografia antes de terminar o mandato. Vai ver que é o fantasma da inércia.

Faca paulista

Tempos atrás, o PT ensaiava ameaçar o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), com uma candidatura própria no estado caso os socialistas não apoiassem Dilma Rousseff. Agora, depois de os principais nomes do petismo estarem bem ajeitados no governo local, e com Campos bem nas pesquisas, fica um pouco mais arriscado para o PT executar a ameaça.

Melhor para Ciro Gomes, que, aliás, surpreendeu em entrevista outro dia ao dizer que o tucano José Serra é um “grande governador”. Como alguém pode ser candidato do PT em São Paulo depois de dizer isso?

Não é por acaso que Marta Suplicy já está afiando a faca.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O arquivo do blog, em pdf (14/08)

Coloquei para download em Posts velhos que talvez valha a pena ler de novo um arquivo zipado com toda a memória deste blog, em pdf. Compilei para um trabalho, e resolvi deixar disponível. Se for baixar, use banda larga, pois são mais de 20M.

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Um bom teste para Dilma (14/08)

Resta rezar para que das disputas intestinas no Palácio do Planalto sobre o pré-sal nasça um projeto que não represente a rendição completa dos objetivos nacionais estratégicos aos interesses eleitorais imediatos

No aeroporto de Brasília, a caminho de São Paulo, topei outro dia com um ex-ministro do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Nossos voos estavam ambos atrasados, o que permitiu cerca de uma hora de boa conversa. Com ironia, ele observou: “Lá no começo do governo, o Lula não quis fazer a aliança com o PMDB que o Zé (Dirceu) costurou. Depois, o presidente teve que ceder. Agora, de recuo em recuo, chegamos a um ponto em que o governo e o PT têm grande dificuldade de dizer não quando o PMDB pede alguma coisa. Qualquer coisa”.

Síntese precisa. Vale para a crise no Senado, mas não só. Nos próximos dias deve aterrissar no Congresso Nacional a proposta de criar uma nova estatal apenas para cuidar do pré-sal. Sem que haja ainda uma explicação razoável sobre por que não deixar a coisa toda aos cuidados da Petrobras. O governo diz que faz isso em defesa do controle estatal, pois a Petrobras tem ações em bolsa. Mas diz também que a nova empresa não vai operar os campos, tarefa para a Petrobras. Ou seja, os acionistas privados da velha estatal vão se beneficiar indiretamente.

Então, para que exatamente uma nova estatal, num arcabouço institucional que já tem a empresa criada por Vargas e também a Agência Nacional do Petróleo? É uma dúvida razoável, ainda mais quando o governo se ocupa de difundir que a CPI da Petrobras está aí somente para enfraquecer a empresa. Mas essa contradição entre palavras e atos seria apenas bizarra, caso não trouxesse uma desconfiança sobre o eventual papel da nova estatal como moeda de troca política. Especialmente quando se observa o entusiasmo peemedebista com o projeto, desde o início da discussão.

Será prudente que o Congresso Nacional faça um debate detido sobre o tema. Mas eu não apostaria nisso. Mais provável é que PT e PMDB tentem aprovar o texto governamental a toque de caixa, numa celebração antecipada da coalizão para 2010. Dada a maioria acachapante da aliança governamental na Câmara dos Deputados, resta rezar para que das disputas intestinas no Palácio do Planalto saia um projeto que não represente a rendição completa dos objetivos nacionais estratégicos aos interesses eleitorais imediatos.

O governo tem insistido na necessidade de garantir uma destinação social para os recursos provenientes da extração de combustível do pré-sal. É o caso de ficar de olho e ver se esse “social” não será apenas um biombo, como já aconteceu no passado. Como foi o Fundo “Social” de Emergência, na criação do Plano Real.

Vai ser um bom teste para a ministra Dilma Rousseff. Para sabermos se um eventual governo dela será dela mesmo, ou se ali o PT vai ser só a cereja do bolo num governo do PMDB. Das diversas e felizes alas deste.

Paz precária

Maior reserva de raposas políticas de Brasília, o Senado enrolou-se na crise e agora tenta sair dela como se nada tivesse acontecido, com o PT buscando um jeito de mostrar que não está amarrado aos que dizia combater. Não se sabe quem são os culpados pelos atos secretos, que já batem na casa do milhar. E o mesmo grupo responsável pela administração da Casa na última década e meia promete agora corrigir tudo que há de errado. Da paz construída nessas bases, só se pode dizer uma coisa: ela vai ser precária. Mesmo com uma oposição intimidada.

Talento dos pampas

O desastre político no Rio Grande é um buraco e tanto na estratégia eleitoral do PSDB para 2010. Um rombo, daqueles, na meta de abrir uma bela vantagem sobre o PT no sul do país. A governadora tucana Yeda Crusius e o partido dela sustentam que tudo é uma grande armação, da Polícia Federal e, agora, do Ministério Público.

É a desculpa costumeira de políticos em dificuldades com os fatos. Mas, se a governadora tiver razão e todas as acusações contra ela e companhia bela forem invencionices, talvez seja o caso de descobrir quem é o autor do enredo. Pois a riqueza de detalhes, a coerência da trama, o encadeamento lógico e a verossimilhança fazem crer que estamos diante de um gênio da dramaturgia. Um fenômeno da criação literária. Quem será esse talento oculto dos pampas?

Descubram-no, para glória da cultura nacional.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Para fora do cercadinho (13/08)

É preciso saber o que deseja Marina. Ela quer usar a eleição para fazer propaganda de teses? Ou pretende construir uma alternativa de poder? Se for a segunda opção, a senadora do Acre precisará dar um jeito de achar seu caminho para sair do cercadinho

A eventual candidatura de Marina Silva à Presidência pelo PV vai enfrentar de cara uma dificuldade programática: como tirar o discurso e a militância ambientais do cercadinho, do microcosmo de fiéis falando a si mesmos, prevendo o apocalipse e condenando ao fogo eterno os céticos. A então ministra tentou fazer essa ampliação de horizontes no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Os resultados foram limitados. O termo era “transversalidade”, a tentativa de introduzir a pauta verde no universo mais amplo das ações governamentais.

Não funcionou a contento, por razões várias. Uma delas, que talvez sintetize as demais: a agenda ambiental no Brasil construiu-se nos últimos tempos como uma federação de vetos. Para toda iniciativa de desenvolvimento, haverá pelo menos uma organização não governamental a afirmar, sem dúvida nenhuma, que aquilo constitui gravíssima ameaça ao meio ambiente. E que portanto não é o caso de fazer. Assim se passa com as hidrelétricas na Amazônia, com a termoeletricidade de origem nuclear, com as hidrovias, com as sementes geneticamente modificadas, etc.

Conversa difícil de emplacar num país cujos maiores desafios são acelerar o desenvolvimento e ocupar efetivamente o território. Dá para fazer isso respeitando 100% a sustentabilidade? É possível (provável) que sim. Só que até agora ninguém disse como. No debate sobre a energia, por exemplo, acena-se com as ditas alternativas, como as provenientes da luz solar e dos ventos. Mas será realista falar em desenvolver o Brasil no ritmo desejado (e necessário) renunciando às demais fontes energéticas?

Outro capítulo é o aquecimento global. Se o fenômeno for mesmo consequência do excesso de civilização, é razoável que a conta seja transferida principalmente a quem já alcançou o patamar superior no quesito. Uma tese bastante difundida diz que o planeta não suportará se o padrão de consumo (emissão de carbono) dos Estados Unidos e da Europa for estendido ao conjunto da humanidade. Tudo bem, mas o que fazer? Reduzir principalmente a emissão dos ricos ou distribuir o sacrifício também pelos pobres, já que em teoria estes serão os maiores prejudicados se nada for feito?

Junto com o Brasil, a China vem recebendo muitas críticas por resistir a metas de emissão de gases causadores do efeito estufa. A posição dos líderes políticos chineses deve ser analisada à luz de um fato. Nenhum governo ali fica na sela se não propiciar um crescimento econômico, sustentado, em torno de 10% ao ano. A necessidade política está também na base das posições dos governos na Europa e nos Estados Unidos, confrontados com uma opinião pública cada vez mais preocupada com a defesa dos ecossistemas.

Trata-se, assim, de uma disputa de poder. E há o risco de a agenda verde radical ser recebida como antinacional nos países do mundo subdesenvolvido. Mais ainda nos Brics, nações que finalmente ameaçam romper a hegemonia do Primeiro Mundo. Não é um xadrez fácil de jogar. É um jogo perigoso, que embute riscos a serem bem explorados em períodos eleitorais.

Se Marina Silva sair mesmo do PT e virar candidata a presidente (ou será presidenta?) pelo PV, e se ela mostrar viabilidade eleitoral, não terá como avançar sem enfrentar esse debate com algum grau de pragmatismo. É preciso saber o que deseja Marina. Ela quer usar a eleição para fazer propaganda de teses? Ou pretende construir uma alternativa de poder, ainda que estrategicamente?

Se for a segunda opção, a senadora do Acre precisará dar um jeito de achar seu caminho para sair do cercadinho.

Questão de lógica

Não havia mesmo como o senador Paulo Duque (PMDB-RJ) aceitar a abertura de processo contra o líder do PSDB depois de mandar arquivar as ações contra o presidente do Senado. Iria para o currículo de José Sarney como um ato de violência política. E Sarney, convenhamos, não está em situação de agregar mais dores de cabeça ao currículo. Resta saber se o arquivamento foi ou não peça de um acordo para empurrar sob o tapete os malfeitos que infernizam a vida do Senado nos últimos meses. A posição do PT no Conselho de Ética vai desfazer o mistério e revelar se a chantagem deu certo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Jogo do Poder com Arthur Virgílio (12/08)



O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Clique na imagem para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Roseann Kennedy, da CBN. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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O mapa do tesouro (12/08)

As mudanças no ânimo do eleitor amadurecem silenciosamente, imperceptivelmente. São catalisadas por fatos que, sozinhos, podem não ter maior significado, mas que vão formando uma cena. Eis uma arte do político: saber até onde o bom senso ajuda e quando ele começa a atrapalhar

Sempre que a reforma política entra em pauta, percebe-se uma convergência dos partidos grandes, com o objetivo de fechar a porta aos demais. O oligopólio partidário é vendido como "a" solução para os males da política em geral — e do Congresso Nacional em particular. O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) retomou ontem a ladainha. Pois a atual crise do Senado talvez seja um bom exemplo dos furos nessa teoria. Só comparecem ao noticiário PMDB, PSDB, PT e Democratas. Bingo.

Um risco grande na análise política é aferrar-se ao pensamento convencional, baseado principalmente no bom senso. Diz o bom senso que é melhor haver menos partidos do que mais. Por que exatamente? Ou então, mudando a pergunta, é melhor para quem? Ora bolas, para o consórcio que detém o poder numa certa circunstância. Daí que as propostas de reforma política mais costumeiras entre nós proponham, invariavelmente, reforçar o oligopólio.

Lista fechada, com financiamento exclusivamente público, mais cláusula de barreira e fidelidade partidária estrita. Pronto. O Executivo terá em mãos todos os instrumentos para garrotear ainda mais o Legislativo, bastando que se acerte com os donos das maiores legendas. O que, convenhamos, não é coisa difícil de conseguir com um gordo orçamento na mão.

Mas esta coluna não é sobre reforma política, é sobre o pensamento convencional. Segundo ele, estaríamos condenados, ano que vem, a uma polarização entre o PT e o PSDB. E de fato é grande a probabilidade de isso acontecer. Eis algo que costuma reforçar a tendência ao pensamento convencional: ele sempre permite aproximar o futuro mais provável. Qual é o problema, então? É quando o futuro prega peças.

Leitura obrigatória para quem se aventura pela política recente são os livros de Elio Gaspari sobre a ditadura. Uma passagem imperdível aborda as eleições de 1974 e a surpresa que as urnas pregaram no partido da situação, a Aliança Renovadora Nacional (Arena). A leitura vale especialmente pela descrição dos bastidores do regime no período pré-eleitoral. Mostra como aquele poder sofria do vício da cegueira, incapaz de prever o tsunami de votos que seria destinado ao partido da oposição, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

Doença que também acometeu o PMDB (herdeiro do MDB) na reta final do governo Sarney. Quem poderia prever um ano antes que o segundo turno da eleição para presidente em 1989 seria disputado por Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva? Não conheço quem tenha apostado suas fichas nisso, a não ser os dois citados. E olhe lá.

Em geral, as mudanças no ânimo do eleitor amadurecem silenciosamente, imperceptivelmente. São catalisadas por fatos que, sozinhos, podem não ter maior significado, mas que vão formando uma cena. Eis uma arte do político: saber até onde o bom senso ajuda e quando ele começa a atrapalhar. Se Marina Silva e Ciro Gomes estiverem guiados apenas pelo bom senso, preferirão acomodar-se na longa composição armada para levar Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto em 2011. Mas o excesso de bom senso poderá eventualmente levá-los a jogar fora a oportunidade de pegar a onda do cansaço com o status quo, já perceptível aqui e ali. Qual será o timing dessa onda? Quem souber a resposta estará com o mapa do tesouro na mão.

Dúvida cruel

O presidente da República diz, com razão, que a política brasileira está habituada a condenar antes de julgar, a trucidar o alvo da vez sem lhe dar o direito de defesa. Que é necessário primeiro investigar para só depois formar juízo.

Só que, infelizmente, a base do governo no Senado acena que pretende encerrar as ações contra o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), sem permitir qualquer investigação sobre os atos secretos. De duas uma: ou o governismo senatorial está na contramão do Palácio do Planalto, ou as palavras de Lula estão sob suspeição.

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terça-feira, 11 de agosto de 2009

Paz e amor aposentados (11/08)

É possível um governo dar-se bem atuando estrategicamente na ofensiva. Mas isso é menos provável quanto mais democrática é uma sociedade. Na democracia, como no basquete, eficaz mesmo é uma boa defesa

É perceptível a mudança de estilo no presidente da República e entorno. Lulinha paz e amor parece ter-se aposentado. Para garantir o controle do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), Luiz Inácio Lula da Silva não hesitou em dar uma bicuda nas antes prestigiadas entidades empresariais. Deve ter calculado que o desgaste compensaria o risco político de ver o FAT presidido por um representante da Confederação Nacional da Agricultura, comandada pela senadora Katia Abreu (DEM-TO).

Não se trata de raio em céu azul. Qual foi a última vez em que se ouviu falar do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social? E aquela ideia de transformar o Palácio do Planalto na grande mesa de negociação entre contrários? Deve dormir em alguma gaveta. De tempos para cá, os fatos pendem para o bateu, levou. Coisa de outras eras. É o governo da luta política, que não leva desaforo para casa. E alguns ainda pedem mais belicosidade.

Sempre que possível, tenta resolver as coisas na base da força. E sem disfarçar. Talvez a guinada tenha começado na crise dos cartões corporativos, quando do Planalto vazou um dossiê, uma planilha com informações selecionadas de um banco de dados que o palácio montava com despesas pessoais de Fernando Henrique Cardoso e familiares. Gastos de quando o tucano era presidente da República. Funcionou. A oposição enfiou o rabo entre as pernas e deixou para lá. Depois desse sucesso, a coisa se transformou em regra. Pavlovianamente até.

O governo vem reagindo com a medula —e não com o cérebro— nesta confusão em torno do presidente do Senado. A consequência é que a crise só piora, sem que o situacionismo mostre força para resolvê-la no braço. Para isso, precisaria formar uma maioria sólida em torno de José Sarney (PMDB-AP). Para matar as investigações e administrar a vitória depois. Só que a tática de tratorar os líderes oposicionistas não tem dado o resultado que se esperava. Em termos práticos, vem induzindo à aproximação entre o PT e a oposição, sem que o Planalto mostre capacidade de intervir diretamente, por causa do elevado custo político.

Não chega a haver uma regra universal. É possível um governo dar-se bem atuando estrategicamente na ofensiva. Mas isso é menos provável quanto mais democrática é uma sociedade. Na democracia, como no basquete, eficaz mesmo é uma boa defesa. É eficaz por ser natural. Funciona como um freio, um contrapeso ao poder, produzindo na sociedade uma confortável sensação de equilíbrio. Lula se deu bem no primeiro mandato seguindo a regra. Reelegeu-se. A mudança agora será positiva? Só saberemos depois da eleição do ano que vem.

Me engana que eu gosto

Balança o projeto de Lula de transformar a sucessão num plebiscito. O problema menor são as fraturas regionais no PMDB, do qual o governismo quer somente o tempo de televisão. Transtornos maiores podem vir de outras eventuais candidaturas no campo da esquerda. Do PSB, com Ciro Gomes, e do PV, se Marina Silva completar o passo que ensaia.

Quem observa a alma de Lula desconfia que ele prefere passar o poder à oposição do que entregá-lo a um presidente que possa colocar em risco a hegemonia do PT na esquerda. Ainda mais quando se olha para os estados e se veem as reduzidas chances de o PT empunhar canetas estaduais mais robustas a partir de 2011.

Hipocrisia

Barack Obama notou ontem a hipocrisia da posição de quem sempre pediu aos Estados Unidos que respeitassem a autodeterminação das nações hemisféricas e agora exige que Washington reponha à força o presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya.

À parte a retórica, o cenário regional mostra-se favorável à estratégia americana de fortalecer as relações bilaterais. A ideia de unir a América do Sul enfraquece-se conforme se aprofunda a divisão entre os países que seguem a liderança da Venezuela e os demais. Uma pena.

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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

The end (10/08)

Barack Obama, hoje (cbsnews.com):
    "The same critics who say that the United States has not intervened enough in Honduras are the same people who say that we're always intervening and the Yankees need to get out of Latin America," said Mr. Obama. The president said the U.S. has done everything it could, including condemning the coup and calling for an immediate reinstating of President [Manuel] Zelaya. "If these critics think that it's appropriate for us to suddenly act in ways that in every other context they consider inappropriate, then I think what that indicates is that maybe there's some hypocrisy involved in their -- their approach to U.S.-Latin American relations," said Mr. Obama.
The end. Como nos filmes. E você que acompanha este blog sabe que não se trata propriamente de uma novidade. É dito aqui desde Obama aprende com Lula, horas apenas depois do golpe de estado que derrubou o presidente constitucional de Honduras.

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Blog + Twitter + YouTube = Blog 2.0 (10/08)

Nos últimos tempos, reclamações sobre a ausência de notas curtas no blog. Depois da explosão do Twitter (olha aí o passarinho azul, à direita!), ali é que é o lugar de colocar notas curtas, especialmente quando elas têm links que remetem a outras paragens. Aliás, Blog 2.0 é uma combinação de Blog, Twitter e YouTube.

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domingo, 9 de agosto de 2009

Dia dos Pais (09/08)

(via o ótimo @bombou):



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Calculistas e apavorados (09/08)

É intrigante que na CPI da Petrobras o governismo tenha optado fria e calculadamente por uma investigação controlada, enquanto no Conselho de Ética não consegue disfarçar o pavor

Será que na Coréia do Sul ou em Taiwan trocar sopapos em plenário é quebra de decoro parlamentar? Pelas brigas feias que a gente vê ali, é possível que não. Ou então estariam todos cassados. Mas talvez eu esteja errado, pois se todo mundo sai no braço ninguém tem moral para cassar ninguém. Ainda que haja norma proibindo sopapos entre suas excelências. Lembra-lhe algo?

Decoro parlamentar é coisa relativa. Desconfio que existe só para dar base legal a punições políticas. O que é mais grave, o sujeiro xingar o outro no plenário ou levar a família a Paris usando a verba de passagens, teoricamente reservada para atividade política? Eu voto na segunda opção. Mas ninguém propôs arrastar à guilhotina os mandatos da turma que saiu por aí com a parentada, às custas do contribuinte. Ainda bem, pois seria uma carnificina. Mais ou menos como degolar os briguentos em Seul e Taipé.

Se eu pudesse escolher, preferiria um Congresso Nacional com menos salamaleques. E mais controles. É impossível um deputado ou senador entrar no plenário sem gravata. Mas se o sujeito tiver o apoio da maioria ele pode, por exemplo, deixar de divulgar medidas administrativas que talvez pegassem mal. Eu proponho uma inversão. Fica abolida a gravata, e se algum ato não for publicado num certo prazo o presidente e o primeiro-secretário da Casa perdem automaticamente os cargos, além de sofrerem processo de cassação.

Claro que ninguém perderia cargo nenhum, nem seria cassado por isso, pois os comandantes do Legislativo destacariam exércitos de funcionários de confiança para garantir a publicação de seus atos. E não é que eu acabo de chegar a uma proposta prática para o senador José Sarney (PMDB-AP)? Implante essa regra já, presidente, definindo que ato secreto (não publicado num certo prazo) é quebra de decoro. Independente do desfecho desta confusão, estará firmada uma norma para adiante.

E quando disserem que a crise dos atos secretos acabou em pizza, vossa excelência demonstrará que não, pois ela terá servido pelo menos para fechar uma brecha, uma rachadura no estado de direito democrático. Não cansarei de repetir. Ato secreto é um atentado grave à democracia, pois se o cidadão não fica sabendo do que o Estado faz não tem como se defender de eventuais ilegalidades e abusos dos poderosos.

De volta ao decoro. Baixarias no Parlamento são reprováveis. Mas o escandaloso nesta crise em particular é achar que ela vai morrer espontaneamente, só porque os aliados do presidente do Senado têm a maioria no Conselho de Ética e no plenário. Ou porque ameaçam cassar o mandato de líderes da oposição. E se cassarem mesmo? E se calarem a oposição na base da ameaça? E daí? A crise voltará logo adiante, com virulência multiplicada.

O presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque (PMDB-RJ), mandou arquivar todas as ações contra Sarney. É um direito que o cargo dá ao senador fluminense. Há porém pelo menos um caso em que as acusações estão documentadas, e que portanto mereceria o exame mais detalhado no colegiado. São precisamente os atos secretos. A documentação foi, aliás, fornecida pelo próprio Sarney, ao projetar em plenário uma tabela com a distribuição deles ao longo dos anos.

Será razoável que o conselho aprecie esse documento, a tabela, que nada tem a ver com "recortes de jornaïs". Poder-se-ia, por exemplo, ouvir o ex-diretor-geral, nem que seja só para ele repetir -mas agora em público- que nunca mandou ninguém deixar de publicar nada. O que traria a necessidade de ouvir também o diretor então responsável pela gráfica, para ele exlicar o porquê da não publicação.

Coisa simples, banal. Tão simples e tão banal que chega a ser intrigante o pavor desencadeado pela mera hipótese de investigar os atos secretos. Num cenário bem mais complexo e arriscado, a CPI da Petrobras, a base do governo vai bem, com o líder Romero Jucá (PMDB-RR) nos controles. Usando a maioria para dizer o que pode e o que não pode ser feito. Jogando o jogo, com as cartas na mão mas sem truculência explícita.

A mesma base, no mesmo Senado e com os mesmos personagens. Mas com dois pesos e duas medidas. Alguém anda nervoso demais, jogando muita água para fora da bacia.

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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Marina não está blefando (07/08)

Segundo Lula, o Brasil está completamente preparado para eleger uma mulher, desde que tenha história, coragem e compromisso com as grandes causas sociais. Se serve para uma, por que não para duas?

A arrogância instintiva levará alguns a concluir, apressadamente, que o gesto suavemente favorável da senadora Marina Silva (PT-AC) a respeito de uma possível candidatura presidencial pelo PV é só um balão de ensaio, fadado a murchar logo ali. Um movimento para cacifar-se e reverter o esvaziamento do capital político dela no PT. Coisa para ser resolvida com alguns telefonemas (um deles de Luiz Inácio Lula da Silva), palavras doces em público, ameaças veladas em privado e acenos de poder futuro. E bola pra frente.

Eu tenho sinceras dúvidas sobre esse enredo. Eis um capítulo complicado na análise do teatro político: diagnosticar o que percorre o espírito dos atores que fazem os personagens. O problema é que sem tal diagnóstico o analista corre um risco grande: ao auscultar só o que vai pela própria alma e enxergar o exterior apenas “objetivamente”, acaba confundindo a realidade com o desejo dele próprio. Como se o seu desejo fosse o único. Claro que não é.

O desejo sincero e profundo no PT é que a candidatura da ex-ministra do Meio Ambiente seja mesmo só um blefe. Já no PSDB, o desejo é que seja para valer, mas nem tanto. Um vetor que complique a vida de Dilma Rousseff no primeiro turno, ajude a provocar um segundo turno (ou mesmo um triunfo oposicionista no primeiro) e evite o cenário de plebiscito que Lula arquiteta 24 horas por dia para 2010. Mas que fique por aí. Uma linha auxiliar.

Daí que no PT pululem teorias sobre o dedo tucano nessa história. Se o PSDB estiver mesmo por trás do assédio do PV a Marina Silva, o partido de Aécio Neves e José Serra está de parabéns. No PT não se discute outra coisa nos últimos dois dias. Nem que seja nos intervalos da reflexão sobre como conseguir ao mesmo tempo apoiar José Sarney e ficar bem com a opinião pública.

Mas, e Marina, o que quer? Talvez a análise devesse fugir um pouco do achismo e das teorias conspiratórias e concentrar-se aí. Ela deseja cacifar-se no Acre? Para que exatamente? O estado é dominado pelo PT e ali a eleição está definida antes de começar. Se o próximo governador não for Tião Viana e se os senadores não forem Jorge Viana e Marina Silva (no caso de ficar no PT), vai ser a maior zebra das eleições brasileiras em todos os tempos. Algo como o Fluminense ganhar este Campeonato Brasileiro de 2009.

Marina tampouco será vice. E voltar ao Ministério do Meio Ambiente num governo do PT? De novo: para quê? Para ficar demissível por Dilma? Políticos não caminham voluntariamente para trás, e por esse estágio Marina já passou. Aliás, sobreviveu à experiência. Conseguiu inclusive um feito: surpreender com a demissão um Lula habituado a fritar, desidratar e demitir na hora que mais lhe convém. Como aliás faz todo príncipe.

Tive a oportunidade de entrevistar por quase uma hora Marina Silva há pouco mais de um mês na tevê. Ela havia falado ao Valor Econômico, com críticas ao governo. A ex-ministra acusou haver um desmonte da agenda ambiental. Na tevê, Marina não só repetiu a crítica como incluiu o PT no rol de partidos que não têm compromisso estratégico com tal agenda. Ela sequer se preocupou em fazer a gradação de praxe, habitual na política. Foi na jugular.

Se eu tivesse que apostar, apostaria que a senadora não está blefando. Se for isso mesmo, e se o PV resistir às inevitáveis pressões palacianas para que desista do projeto, Lula, Dilma e companhia bela estarão com um belo abacaxi para descascar. Segundo nosso presidente, o Brasil está completamente preparado para eleger uma mulher, desde que ela tenha história, coragem e compromisso com as grandes causas sociais. É isso que Lula vem repetindo sempre que pode. Se serve para uma, por que não para duas?

Bósnia

Quando Lula ameaçava ser arrastado para a crise em 2005, outros absorveram o choque, assumiram a responsabilidade e salvaram o presidente da República. Nesta crise do Senado, há aparentemente o desejo de matar o caso sem que haja culpados. Centenas de atos deixaram de ser publicados, como Sarney exibiu em plenário, mas nenhum presidente nunca soube. Difícil. Talvez por esse motivo o Senado ameace se transformar numa Bósnia.

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