sexta-feira, 31 de julho de 2009

O limite da “diplomacia dos amigos” (31/07)

São desejáveis a manutenção da América do Sul como área livre do terrorismo e das armas de destruição em massa e também a garantia coletiva de que os países da região, sem exceções, poderão exercer livremente sua autodeterminação

Estados Unidos e Colômbia caminham para estreitar ainda mais as relações militares, com a instalação de bases norte-americanas em território colombiano. Se concretizado, o passo será uma estaca no peito da integração, projeto central da nossa diplomacia. Não à toa reagiu incomodado o Itamaraty. Cada acréscimo de presença bélica norte-americana no subcontinente é uma derrota nossa, um desafio direto à liderança regional.

Acordos militares bilaterais com Washington não combinam com a intenção de coordenar a América do Sul nas políticas de defesa. Trata-se de assunto abordado aqui algumas vezes. As alternativas são claras: ou nós cuidamos da área, ou alguém virá cuidar por nós, e de nós. Parece que a segunda opção ameaça impor-se. E qual é a nossa capacidade de reação? Nenhuma. Ou quase nenhuma, além dos discursos de praxe.

Por que ficamos reduzidos ao jus esperneandi? Eis um bom debate. Afinal, Luiz Inácio Lula da Silva já caminha para o termo de seus oito anos. E após suceder outro presidente, Fernando Henrique Cardoso, que também teve dois mandatos. Boa ocasião para um balanço. Visto que PT e PSDB se mostram tão sabidos, talvez eles possam nos explicar o que foi feito nas últimas quase duas décadas para dotar o Brasil de massa crítica operacional na Defesa.

Infelizmente, nossos bem-elaborados discursos não têm como se fazer acompanhar dos necessários meios materiais de convencimento. E a política tem horror ao vácuo. Como a guerra é só a continuação da política por outros meios, ela também tem aversão ao vazio. Que rapidamente é preenchido por alguém preparado e capacitado. Assim é a vida.

Mas nem tudo está perdido. Deve haver saídas. O Itamaraty poderia aproveitar a inédita unidade hemisférica alcançada no caso de Honduras e costurar uma oferta à Colômbia. Precisaríamos de amplo apoio, mas temos um presidente e diplomatas competentes para consegui-lo. Duas ideias iniciais, peneiradas em conversas com gente do ramo: 1) o desarmamento unilateral e imediato das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), com sua transformação em partido político, no âmbito de uma anistia ampla; e 2) um pacto hemisférico para garantir que qualquer país atacado receba incondicional e automaticamente ajuda militar dos demais para defender-se.

As Farc não terão outra saída caso todos os governos da região se unam de fato para desarmá-las. E a Colômbia não terá pretextos para se abrir à presença bélica dos Estados Unidos se tiver a garantia real, inclusive dos Estados Unidos, de ter sua soberania defendida a todo custo. Regra que os colombianos não seguiram quando bombardearam no Equador um acampamento das Farc e liquidaram um alto comandante da guerrilha. Mais ainda: a Venezuela terá a segurança que pede para seguir em paz seu processo político, que é assunto só dela.

A hora é de encontrar soluções práticas para questões idem. São desejáveis a manutenção da América do Sul como área livre do terrorismo e das armas de destruição em massa e também a garantia coletiva de que os países da região, sem exceções, poderão exercer livremente sua autodeterminação, desde que não interfiram na autodeterminação dos demais. São velhas e boas premissas, que nos últimos tempos têm sido escanteadas pela estranha “diplomacia dos amigos”.

Ela funciona mais ou menos assim: os princípios só valem quando nos interessam, ou aos nossos aliados. A OEA deve readmitir Cuba, porque as limitações à democracia na ilha são assunto interno dos cubanos e o melhor caminho para resolver o problema é o diálogo. Mas a OEA deve também ameaçar expulsar Honduras, pois ali houve um golpe de estado que merece não só uma reação de todo o hemisfério, mas a intervenção ativa nos assuntos internos de Tegucigalpa. Nada há de errado em Manuel Zelaya convocar uma consulta popular rechaçada pelo Congresso e pela Justiça, mas quando a oposição iraniana pede um referendo para validar (ou não) o resultado das últimas eleições isso é inadmissível, coisa de mau perdedor.

É óbvio que uma ginástica assim não se sustenta. O máximo que ela consegue, com seus movimentos espasmódicos e dificilmente explicáveis, é abrir espaço para outros players, mais consistentes. E mais equipados para oferecer soluções a problemas concretos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Auschwitz e a Filosofia (30/07)

Ainda falta a solução (30/07)

Os senadores acham que vai ficar por isso mesmo? Eles têm estrada suficiente para saber que é completamente impossível. Não adianta enfiar a cabeça sob o travesseiro e esperar passar o pesadelo

A reação do PMDB às representações do PSDB contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), coloca mais lenha na fogueira da crise, mas não servirá para aliviar os problemas políticos do comandante da Casa. Nesta altura, estratégias de intimidação têm efeito relativo, porque as coisas já foram longe demais. Não há como os tucanos dizerem que vão recuar porque o líder, Arthur Virgílio (AM), está sob ameaça. Não seria defensável. Nem o próprio senador amazonense teria condições de operar o recuo, pelo risco da completa desmoralização. Para ele, o mais adequado será ir à guerra total.

O cenário então caminha para radicalizar. Há um punhado de representações contra Sarney, mas Renan Calheiros (PMDB-AL) também está no alvo. Não foi só — nem principalmente — sob Sarney que aconteceram atos secretos. De Garibaldi Alves (PMDB-RN) pode-se até aceitar, com alguma boa vontade, que não conhecia os subterrâneos da sua interinidade. O mesmo não se aplica a Renan. Se a cabeça de Sarney rolar ensanguentada para a bacia, será a senha para colocarem Renan, um ex-presidente em plena atividade e pleno poder, na fila da degola.

Sarney, Renan... Qual será o alvo seguinte? Eis uma variável fora de controle nesta confusão: ninguém sabe exatamente onde ela pode ou vai terminar. Quando Renan esteve na berlinda, dois anos atrás, ele enfrentou o processo basicamente sozinho, também porque as acusações tinham foco na sua vida pessoal. Matou no peito. Na época, Sarney simplesmente desapareceu do plenário. Mas, por diversas razões, seria difícil para o ex-presidente da República travar solitariamente agora o mesmo combate. E o assunto hoje não é pessoal, é político-administrativo, envolve a estrutura do Senado.

Escrevi aqui tempos atrás que um combustível da crise era a falta de um “Sarney do Sarney”. Algum senador com estatura política para reunir os pares e liderar a discussão sobre quem, afinal, deverá pagar a conta do furdunço. Porque, como também se afirmou aqui, alguém vai ter que absorver a dolorosa. Ou os senadores acham que vai ficar por isso mesmo? Eles têm estrada suficiente para saber que é completamente impossível. Não adianta enfiar a cabeça sob o travesseiro e esperar passar o pesadelo.

Outra complicação é o Conselho de Ética. O bloco de Sarney tem número para arquivar o que quiser, mas não reúne as condições políticas ideais para fazer assim, a seco. O presidente do conselho, por exemplo, é acusado de colocar um funcionário fantasma pendurado no próprio órgão, ainda que a nomeação tenha acontecido antes de Paulo Duque (PMDB-RJ) assumir o comando do colegiado. Então, se o PMDB vai representar contra o líder do PSDB por ter mantido um fantasma, é bem possível que o próprio Duque seja alvo de uma representação semelhante Por isonomia.

Isso enfraquece a possibilidade de Duque simplesmente jogar ao arquivo o que for inconveniente ao PMDB do Senado. Até porque ele é segundo-suplente do hoje governador do Rio, Sérgio Cabral. O primeiro suplente está alojado no secretariado fluminense. Mais sombras de confusão. Dois anos e meio após deixar o Senado, Cabral é outro candidato a absorver parte dessa conta. E com uma reeleição para disputar ano que vem. Isso para não falar de Luiz Inácio Lula da Silva, que parece cada vez mais incomodado com o pessoal da bagunça sacando dia sim outro também na gorda popularidade presidencial.

A solução lógica seria Sarney abrir mão da Presidência e negociar um processo suave no Conselho de Ética, sem maiores constrangimentos pessoais. Com uma absolvição garantida em plenário. Nesta altura, o próprio governo — que tem maioria no Senado — já começa a cultivar a possibilidade, com o cuidado de não dar sinais de estar sacrificando o aliado antes da hora. Mas todo político sabe: quando começa a conversa sobre a sucessão, é porque o quadro mudou.

Vapor e contravapor

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva espera dar um calor na oposição em 2010 com a inauguração de belas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Já a oposição afia as facas para provar que o governo é só conversa, e que nada sai do papel. Este vai ser um semestre daqueles para a ministra-chefe da Casa Civil e candidata de Lula ao Planalto, Dilma Rousseff. A vantagem é que poucas vezes um político teve, como ela tem hoje, tantos e tão bons instrumentos para influir no próprio destino.

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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Jogo do Poder com Sérgio Guerra (29/07)



O presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), é o entrevistado desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Clique na imagem para assistir. Participa também Eliane Cantanhêde, da Folha de S.Paulo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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O crepúsculo do campeão (29/07)

Barack Obama está a um passo de colocar o freio em Hugo Chávez. Sem disparar um tiro, sem gritar, sem ameaçar. Sorrindo, posando para fotos e dizendo palavras doces

Faz um mês que o presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya, foi deposto e expelido do país. Suas tentativas de voltar ao poder nos termos dele próprio têm esbarrado na falta de apoio efetivo, interno e internacional. Internamente, o governo recém-instalado parece controlar as rédeas do Estado. No resto do mundo, o suposto consenso em torno da volta incondicional de Zelaya é apenas suposto.

O caminho oferecido pelos Estados Unidos para o retorno à normalidade é humilhante para o mandatário literalmente defenestrado. Ele teria que desistir da consulta popular que convocou para pressionar pela Assembleia Constituinte. E teria que dividir poder com os algozes: a cúpula do Judiciário, o Congresso e as Forças Armadas. Estaria impedido, por exemplo, de demitir o comandante do Exército, que o depôs. Ficaria na prática sob tutela. Dos inimigos locais e da Casa Branca. Assim seria o seu patético epílogo.

Como Zelaya tampouco mostra força para voltar “nos braços do povo” e remodelar a República ao seu feitio, chegou-se a um impasse. O problema é que o relógio trabalha contra. O poder tem magnetismo. E o tempo favorece a acomodação. Zelaya teria que criar uma alternativa política, se necessário pela força. Mas, convenhamos, ele não leva jeito. Zelaya não é um Fidel Castro. Nem mesmo um Hugo Chávez.

Zelaya acena com a resistência em outros termos, não propriamente pacífica. Veremos. Trata-se de um oligarca que certo dia engatou seu vagãozinho no trem da Alba (Aliança Bolivariana para as Américas, liderada pela Venezuela) e se deixou encantar pela perspectiva de reformar a Constituição hondurenha (a que proíbe o sujeito até de pensar em reeleição). Sem porém ter os votos ou os meios para tal. Só que os adversários foram mais rápidos e eficientes. Agora é ele quem corre atrás do prejuízo.

Que não é só dele. Por enquanto, o maior ameaçado de sofrer uma derrota retumbante é Chávez —que nesta altura deve estar querendo arrancar o couro de Zelaya pela trapalhada e pela incompetência. O venezuelano está como o boxeador quase invicto (perdeu uma, por pontos, no primeiro referendo pela reeleição ilimitada, mas retomou o cinturão na revanche), quando enxerga, espantado, o perigo de sofrer o primeiro nocaute, numa luta que antes de começar parecia fácil. Uma espécie de Myke Tyson enrolado com a surpresa James “Buster” Douglas, naquele hoje distante, mas inesquecível, fevereiro de 1990 em Tóquio.

Todo campeão tem um encontro marcado com o desafiante que irá derrotá-lo. Por enquanto, Chávez não vem sendo páreo para a dupla Barack Obama/Hillary Clinton. Ela é uma profissional. Ele, um mister simpatia. Os Estados Unidos estão a um passo de colocar o freio em Chávez. E sem disparar um tiro, sem gritar, sem ameaçar. Sorrindo, posando para fotos, dizendo palavras doces e celebrando a “unidade hemisférica”.

E acercando-se de Havana. A evolução das relações entre Cuba e Washington parece irreversível —com todos os riscos que a palavra carrega no jornalismo. Será que Raul Castro vai comprometer o quase noivado com Obama só para oferecer uma saída honrosa para Chávez, sem nenhuma garantia prática de que a coisa irá vingar? Ora, se nem Luiz Inácio Lula da Silva está nessa...

É a volta da política do big stick. Fale macio e carregue um grande porrete. No pós-golpe de Honduras, e a não ser que Zelaya entre em Tegucigalpa à frente de sua revolução bolivariana, os adversários continentais do chavismo já saberão que a invencibilidade do campeão de Caracas encontrou o seu crepúsculo.

Aprendeu com Maluf

Atolado em confusões, a partir de certa altura Paulo Maluf desenvolveu um método. Os jornalistas perguntavam uma coisa e ele respondia sobre outro assunto. O expediente está sendo útil agora, nas barricadas que defendem o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

E o ato secreto que nomeou o então namorado da neta? Ora, todo mundo nomeia, trata-se da ocupação de espaço político. Claro, presidente. Nomeia mas publica. A pergunta não é sobre a nomeação, é por que a esconderam!

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terça-feira, 28 de julho de 2009

Digestão de jiboia (28/07)

Na História do Brasil, as grandes ondas de destruição de oligarquias locais são consequência de rupturas no centro do poder. O século 20 assistiu a três desses tsunamis

O mecanismo mais comum de reprodução de oligarquias é bem conhecido. O acúmulo de poder político em sociedades de economia concentrada no Estado acaba parindo um sistema que se autoalimenta. Se você está bem com o oligarca, sobreviverá. Se não, sempre restará a opção de atravessar o deserto. Seja você empresário ou empregado. Esteja atrás de uma licitação ou de uma colocação.

As oligarquias locais são um traço permanente na história brasileira. Nem vou remeter aqui às capitanias hereditárias. Para pegar o tema apenas do Império em diante, a tensão entre centralizar e descentralizar tem sido o metrônomo a marcar o ritmo da nossa evolução social e política.

A revolução de 1930, por exemplo, foi promovida por oligarcas dissidentes. Que quando chegaram ao poder tiveram que se haver com as oligarquias derrotadas, mas ainda robustas em grandes estados. Como São Paulo, que patrocinou uma “revolução constitucionalista” em 32 contra o novo regime.

O “constitucionalismo” paulista, saudoso da República Velha, a do café-com-leite, era então bem conhecido e caracterizado. Das eleições decididas no bico da pena (fabricação de resultados) à Comissão de Verificação de Poderes (cassação de mandatos), passando pelo direito seletivo ao voto. Mulher era uma que não votava. Curioso que as comemorações lacrimosas de 32 nunca se recordem desses pequenos detalhes.

Não à toa o antifederalismo acabou sendo um dos vetores do Estado Novo de 1937, nossa aventura caricatural no fascismo, patrocinada pelos sobreviventes políticos de 30. Um momento de forte simbolismo foi a incineração pública das bandeiras estaduais em cerimônia no Russel, Rio de Janeiro. O filmete do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão oficial de informação do estadonovismo, pode ser visto no YouTube. Só fazer uma busca por “cremação das bandeiras estaduais”.

O Estado Novo morreu em 1945, liquidado com o colapso bélico de suas fontes inspiradoras, e o pêndulo foi para o outro lado. Apenas para pender mais uma vez ao centralismo em 1964. Levaria daí mais um quarto de século para a nova flexão, agora patrocinada pela Constituinte de 1987-88. Se bem que o resultado prático dela é duvidoso, já que boa parte dos estados e municípios hoje não conseguem se sustentar sozinhos. São filiais do poder central. É o nosso federalismo de mentirinha.

Na História do Brasil, as grandes ondas de destruição de oligarquias locais são consequência de rupturas no centro do poder. O século 20 assistiu a três desses tsunamis. Exatamente nos três episódios citados, nos anos 30, 60 e 80. Nos dois primeiros, pode-se dizer que houve renovações bastante radicais. Desta vez a coisa vem sendo mais lenta. Dado que a interrupção do ciclo militar teve que vir pactuada com um pedaço da turma do lado de lá.

José Sarney é o último exemplar da espécie, do pessoal que ganhou em 1964 e se manteve no poder local após a redemocratização graças a arranjos em Brasília. O sobrevivente dessa digestão de jiboia, longa e trabalhosa. E tudo tem um custo. Os números econômicos e sociais do Maranhão são uma boa medida da conta do “prussianismo”.

Agora, Sarney sangra em praça pública, moído pela azeitada máquina brasiliense de trucidar reputações. Máquina ora alegremente abastecida pelos órgãos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Que do Palácio do Planalto externa “toda a solidariedade do presidente da República ao importante aliado”. Um retrato do Brasil.

O tira-teima

O ministro de Relações Institucionais, José Múcio, disse que a nota da bancada do PT no Senado contra Sarney foi para inglês ver, coisa de um ou dois senadores no máximo. É o conteúdo do que afirmou o ministro, pessoa sabidamente elegante e cortês.

Com isso, o PT do Senado está diante de um desafio. É para inglês ver ou é para valer? Fácil de verificar. Se a bancada, por meio do líder, engrossar os movimentos práticos para tirar Sarney da cadeira, a nota terá sido para valer. Se não, foi para inglês ver. Para tentar livrar a cara do pessoal junto ao eleitor enquanto, com a outra mão, acomodam-se as coisas na Câmara Alta.

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domingo, 26 de julho de 2009

Um retrato (26/07)

Elio Gaspari hoje na Folha de S.Paulo e n'O Globo:
    O serviço de banda larga da Telefônica de São Paulo capotou. O ministro das Comunicações e a Anatel não se entendem e (...) as tarifas para celulares estão entre as mais altas do mundo. Diversas ferrovias operam abaixo das metas contratadas. Os trens da Central do Brasil e as barcas do Rio estão à espera de quem os compre. Há geradoras de energia que não cumprem os planos de expansão. A Eletropaulo desmanda-se em apagões que incentivam um mercado paralelo de geradores a gás para condomínios de gente endinheirada. (...). Em todos os casos, as agências reguladoras queixam-se da falta de investimentos dos concessionários que, por sua vez, reclamam da burocracia. (...). Iniciou-se o processo de sucateamento de algumas dessas companhias. Coisa incipiente, porém estratégica (...)
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No Twitter sobre Felipe Massa (26/07)

Tem que ser lido de baixo para cima

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Vai passar? (26/07)

Infelizmente, nossa pátria-mãe acostumou-se a dormir tão distraída, sem muitas vezes perceber quando é subtraída, por mais tenebrosas que sejam as transações

Tem algo que não fecha no debate em torno do pré-sal. O governo deseja criar uma nova estatal, com o argumento de que a Petrobras não é 100% do Estado brasileiro. Parece patriótico. Mas a nova empresa seria desprovida de capacidade operacional. Teria portanto que ir ao mercado para cumprir sua missão. Ou não. Pois ela poderia conceder a exploração à Petrobras. Ora, então por que não deixar a própria Petrobras cuidando da coisa toda, já que os seus acionistas privados acabariam de qualquer modo se beneficiando do modelo? Qual o sentido de criar mais um guichê?

Se Getúlio Vargas tivesse ido pelo caminho hoje acenado por Luiz Inácio Lula da Silva, certamente sua vida teria sido bem mais fácil, e talvez não terminasse como terminou. Vargas poderia ter criado a Petrobras, mas sem a atribuição de explorar petróleo. Apenas com a tarefa de coordenar a exploração por terceiros. Engenhoso. Teria argumentos para alimentar o discurso eleitoral nacionalista e evitaria chocar-se com os donos do mundo. Em vez de se matar em palácio, talvez se aposentasse como secretário-geral da ONU. Ou cônsul honorário dos Estados Unidos.

Mas Vargas sabia que proclamar o monopólio estatal sem criar as condições para implementá-lo seria um gesto vazio. O caudilho era homem de ação. Até demais. Junto com Juscelino Kubitschek e Ernesto Geisel, forma na História do Brasil o tripé de presidentes que evitaram a nossa transformação numa Argentina. Os hermanos não devem se ofender, pois imagino que até eles hoje em dia lamentem a desindustrialização sistemática, promovida especialmente pelos militares. Graças a Deus, nossas Forças Armadas foram pelo caminho oposto quando tiveram o poder.

É curioso que o governo federal proclame a CPI da Petrobras como “a grande ameaça para enfraquecer a empresa e facilitar a privatização”, enquanto ele próprio está para debilitar estrategicamente o gigante. As crianças se entretêm no quintal com o brinquedo novo (combater a CPI) e os adultos conversam na sala sobre os assuntos reservados às gentes grandes.

E que gentes grandes! Até por isso, conviria tratar o tema com mais cautela. Afinal, estamos em véspera de eleição. Não é razoável decidir com pressa excessiva, bem agora que o Executivo anda naturalmente mais permeável às pressões dos grandes financiadores de campanha, dos caciques do Congresso Nacional e dos donos de tempo político grátis no rádio e na televisão.

Volta e meia comparece ao noticiário a tese de que a relação entre o PMDB e o governo poderia estremecer por causa da crise que vem engolindo o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Duvido. Escrevi aqui há exatamente três semanas que o presidente do partido e da Câmara, Michel Temer (SP), não derramaria uma lágrima pelo colega senador, não comprometeria a bela aliança com Lula e o PT por causa de algo quantitativamente menor, como é a guerra política no Senado.

Menor? Só olhar para o que está em jogo, por exemplo, no pré-sal. A nova estatal desenhada no Planalto é objeto intenso de desejo no PMDB. Nos vários grupos do partido, sem exceção. Gente cuja queixa é a “falta de cintura” da chefe da Casa Civil e candidata de Lula à sucessão, Dilma Rousseff. Que elogio! Espera-se que, nesse particular, continue faltando flexibilidade à cintura da ministra. Ela só terá a ganhar se assim acontecer. E o país agradecerá.

O governo está obrigado a provar que o discurso nacionalista em torno do pré-sal não é só um biombo para ocultar negócios que não resistiriam à luz do dia. Não basta costurar um texto em palácio e botar a turma para gritar na rua que “o pré-sal é nosso”. É preciso explicar de quem se trata quando se fala em “nosso”.

A política nativa é useira e vezeira num certo tipo de malandragem. O primeiro programa de estabilização fiscal na época do Plano Real recebeu o pomposo nome de Fundo Social de Emergência. “Social” era o rótulo ideal para vender a impopular austeridade. Agora, um nacionalismo de fachada é o candidato a ser a muleta. Infelizmente, nossa pátria-mãe acostumou-se a dormir tão distraída, sem muitas vezes perceber quando é subtraída, por mais tenebrosas que sejam as transações. Com a licença do poeta.

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sexta-feira, 24 de julho de 2009

No cheque especial de Lula (24/07)

Uma coisa é o sujeito anistiar eventuais erros de Lula, “menino pobre que saiu do Nordeste para chegar à Presidência e governar para os pobres”. Outra é perdoar Lula quando abriga “o político matreiro que se encostou no Lula para não perder a boquinha”.

Afinal de contas, qual é o impacto que a revelação de maus hábitos políticos tem sobre o ânimo do eleitor? Eis uma incógnita. Há situações em que o cidadão comum simplesmente dá as costas ao acusado e este cai em desgraça. Mas elas convivem com outras, nas quais o desvio é tolerado. Existe uma regra? Ou os casos devem ser avaliados um a um? Nesta segunda hipótese, que parâmetros usar para conhecer o dano potencial de um ataque?

Tome-se por exemplo a crise de 2005, detonada pelas entrevistas do então deputado federal Roberto Jefferson. Ela teve sérios desdobramentos políticos, ao ceifar toda uma camada de dirigentes do PT. Mas, para surpresa de alguns analistas, não chegou a impactar significativamente o resultado eleitoral no ano seguinte. Nem na reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva nem no desempenho geral do petismo. O eleitor aparentemente achou que a coisa não era tão grave assim que merecesse mandar Lula e o PT de volta para casa.

O caso clássico na outra ponta foi a disputa para governador de São Paulo em 1998. Paulo Maluf era favorito quando entrou no segundo turno. Mas acabou derrotado por um Mário Covas que se reelegeu fazendo talvez a campanha mais brutal da história recente das eleições brasileiras. Inteiramente baseada em ataques no terreno moral. As intenções de voto de Maluf foram dissolvidas em ácido quando a marquetagem covista fez o eleitor lembrar do currículo do oponente.

Os cínicos assumidos (ou realistas) dirão que o eleitor não está nem aí para denúncias, desde que o governo faça algo por ele. O caso de Maluf-98 mostra que a tese não pode ser absolutizada. No outro extremo, a insistente sobrevida de políticos cravejados de complicações prova que apontar o dedo acusador não é panaceia para quem precisa tirar da frente o antagonista.

Talvez um critério para medir impactos potenciais de denúncias deva ser importado do jornalismo, onde algo é tão mais notícia quanto maior a probabilidade de se ligar à vida do consumidor de informação. Um avião de passageiros que cai no Brasil será mais notícia aqui do que no Uzbequistão, assim como um desastre aéreo naquele país dificilmente merecerá aqui em situações normais algo além de uma nota.

Se for descoberto que um secretário de Saúde pegou para si o estoque disponível de remédios contra a gripe suína e distribuiu aos parentes dele, estará politicamente liquidado. Mas, se um deputado ou vereador cair em desgraça por ter recebido dinheiro ilegamente para apoiar o Executivo é possível que escape na eleição seguinte. Porque a política sensu strictu está distante do dia-a-dia das pessoas. Já se faltar remédio contra o vírus A H1N1 mais gente irá morrer. Você olha para o seu filho e percebe que por causa da corrupção ele está desprotegido.

E como repercutirá a crise do Senado? De um lado, ela é “dos políticos”. Que procuram reforçar esse vetor, lembrando sempre do suposto “caráter cultural” do também suposto “patrimonialismo brasileiro”. Mas há outra variável. E o garoto ou garota que se esforçam para estudar, para vencer na vida, especialmente quando vêm dos grupos sociais mais pobres? O que devem (eles e suas famílias) estar achando da festa privada com os gordos empregos públicos distribuídos às escondidas no Senado?

Suspeito que neste caso os aliados de Lula metidos —como ele costumava dizer— em maracutaias estejam a sacar da conta que o presidente da República mantém junto aos trabalhadores e trabalhadoras comuns. Pois uma coisa é o sujeito anistiar os eventuais erros de Lula, “o menino pobre que saiu do interior do Nordeste para chegar à Presidência e fazer um governo para os pobres”. Outra, bem diferente, é perdoar Lula quando abriga, por puro interesse, “o político matreiro que se encostou no Lula para não perder a boquinha”. Ou bocona.

Com o juro do cheque especial no nível em que está, talvez Lula devesse tomar cuidado com a evolução dessa fatura.

Unanimidade?

Repisar a máxima rodrigueana de que toda unanimidade é burra costuma ser a saída fácil e óbvia de quem deseja destoar da unanimidade. É o meu caso aqui. Não há motivo para o Copom ameaçar com a parada na queda dos juros, como fez na quarta-feira. Basta a economia dar sinais de que vai crescer alguma coisa e esse pessoal se alvoroça todo.

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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Por quanto tempo a tropa resistirá? (23/07)

É verdade que as pressões políticas pela saída de Sarney vêm da oposição, mas é fato também que o noticiário que alimenta a crise alimenta-se ele próprio de material investigativo produzido no âmbito dos poderes, inclusive o Executivo

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), luta como pode para se desvencilhar da crise, mas ela está cada vez mais perto de feri-lo mortalmente. A principal linha de defesa do senador é afastar-se dos tais atos secretos, debitando-os na conta do então diretor-geral. Uma blindagem relativa, pois é pouco razoável a versão de que a burocracia da Casa mexeu nos cargos reservados a suas excelências sem combinar com o dono da vaga. Isso já foi abordado aqui, mais de uma vez.

O agora comprovado elo de Sarney com movimentações funcionais complicadas seria entretanto apenas mais um capítulo dos conhecidos hábitos políticos nacionais, não fosse exatamente o detalhe da falta de publicidade. E o ciclo se fecha. Em situação normal, não haverá como Sarney deixar de ir ao Conselho de Ética, inclusive para ser confrontado com servidores que supostamente agiram nas suas barbas, mas sem (?) o seu conhecimento.

Digo "em situação normal" para ter o devido cuidado, pois o ambiente no Senado anda bem distante da normalidade. Em teoria, o governo tem número para evitar que Sarney precise ir ao conselho. Tem maioria ali e no plenário. A questão é saber por quanto tempo a tropa resistirá. Porque todo dia tem novidade. E a fonte de constrangimentos para o presidente da Casa parece mais parruda até do que os poços do pré-sal, tão festejados. E no ano que vem tem eleição para renovar dois terços do Senado. Os hoje aliados de Sarney balançam, como se sabe, entre a fidelidade ao grupo e o medo que sentem do eleitor.

Por falar em governo, é verdade que as pressões políticas pela saída de Sarney vêm da oposição, mas é fato também que o noticiário que alimenta a crise alimenta-se ele próprio de material investigativo produzido no âmbito dos poderes, inclusive o Executivo. Não há neste caso denúncias anônimas a comprovar ou ataques políticos que demandem provas ainda a colher: o que existe são resultados de investigações e sindicâncias oficiais. Tudo no papel. Preto no branco.

Luiz Inácio Lula da Silva tem razão quando observa que Sarney deve ser tratado com o respeito merecido por quem já exerceu a Presidência da República, um político ao qual o país deve (a ele e a outros) a transição civilizada da ditadura para a democracia. E Lula tem razões adicionais para ser grato a Sarney, que no nervoso Senado vem dando a Lula nestes anos todos o respaldo necessário para impedir que o governo do petista seja inviabilizado por crises em sequência. Para Lula, Sarney não é mesmo alguém "comum".

Até por isso, talvez seja o caso de o PMDB, o PT e o Palácio do Planalto começarem a pensar a sério numa alternativa, num plano B. Se lá atrás poderia ser entendido como manobra para debilitar Sarney, agora não é mais assim. A saída desejada pelo senador é conhecida: ele no comando de uma ampla reforma administrativa na Casa. Mas começa a ficar difícil, desde que, como sempre se soube, a origem dos problemas administrativos é política.

Não se deve subestimar a resistência de Sarney. Quem viveu nos anos 1980 foi testemunha de como ele enfrenta o quadro adverso. Há porém algumas diferenças. Remover o então presidente da República representaria um golpe na estabilidade da transição. E manter Sarney fraco no Planalto interessava aos políticos que ambicionavam a cadeira dele. Nenhuma das duas variáveis está presente hoje.

Quem segura Sarney no cargo? Ele próprio, Lula e o temor de um efeito dominó que arraste ao cadafalso outros figurões. É muito, mas talvez não o suficiente. Até porque, como o próprio senador deve saber melhor do que nós todos, o aliado de hoje pode se tornar o Judas de amanhã, se e quando convier.

Cotas no STF

Será uma pena se o STF atender ao Democratas e suspender as cotas na UnB. Numa sociedade desigual, elas são um vetor de justiça. Cabe sim ao Estado dar um empurrãozinho para que os excluídos cheguem mais rapidamente onde os demais já chegaram. Mas é preciso dizer também que quem tenta levar as cotas a extremos irracionais acaba ajudando quem é contra elas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Jogo do Poder com Lúcia Stumpf (22/07)



A (até domingo passado) presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Lúcia Stumpf, é a entrevistada desta semana em Jogo do Poder, programa que eu apresento todas as quartas-feiras às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Clique na imagem para assistir. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Guilherme Queiroz, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Política 2.0 (22/07)

Com o twitter, os políticos finalmente desembarcaram na rede. Falta agora captar o verdadeiro sentido da coisa e render-se ao ambiente de diálogo. Usar twitter e blog para "disponibilizar conteúdo" equivale a fumigar uma plantação com jatinho

Os políticos descobriram o twitter.com. Para quem ainda não sabe, trata-se da ubíqua ferramenta de microblog. Por que "micro"? Porque limita as postagens a 140 caracteres. Você se cadastra como "seguidor" de alguém e recebe um aviso quando esse alguém "tuíta" (escreve) algo. Você também é avisado quando falam de você. E pode também conversar em particular. Para quem viu a web nos primórdios, óbvio está que o twitter é a evolução das antigas salas de bate-papo, que fizeram a festa da audiência nos grandes portais da virada do século.

Uma diferença do twitter sobre os blogs tradicionais é que a exiguidade de caracteres favorece a homogeneização. A chance de o sujeito passar vergonha escrevendo 2 linhas é bem menor do que escrevendo, por exemplo, 60. Você dá o recado sem correr grandes riscos. Isso para quem escreve. Para quem lê, a vantagem é não ter que "navegar". Em vez de pular de site em site, você usa uma central que lhe avisa quando algo é posto num dos locais que você segue. Uma espécie de "leitor de rss" mais dinâmico e proativo.

Para os políticos, estar no twitter é uma maneira de distribuir instantanamente as realizações, para a rede de seguidores e interessados. Que poderão reenviar a informação, numa sequência de contágio viral. Mais ou menos como a propagação da gripe suína, neste caso para nossa apreensão. Teoricamente, reduz-se a dependência de intermediários, como a imprensa. E a um custo baixíssimo. Uma pena é que a distribuição via blog, youtube e twitter não pode ser anabolizada como "divulgação do mandato" no uso da verba indenizatória. Isso foi uma piada.

Ponha a turma para se cadastrar no seu twitter e você terá uma rede estruturada de comunicação instantânea. Desvantagem não tem nenhuma? Tem. Quando você ocupa um lugar institucional na rede, seja pessoa física ou jurídica, também facilita a vida dos seus críticos. Claro que mesmo antes do twitter todo mundo podia falar mal de todo mundo, mas agora há um detalhe, com requintes de crueldade: cresceu muito a chance de você ficar sabendo quando o detonam.

E, como ninguém em pleno gozo das faculdades mentais pode seguir tanta gente, se você bobear daqui a pouco tem um pessoal descadastrando você. Ou você pode virar alvo de alguma campanha orquestrada de descadastramento (o #unfollow). Mas mesmo isso não deve ser motivo para grande preocupação, pois o resultado prático de campanhas assim é que você acabará ficando mais conhecido, e não menos. Mesmo falando mal, estarão falando de você.

A observação mais cuidadosa da atividade dos políticos no twitter mostra que, se tecnologicamente estão atualizados, conceitualmente eles ainda só enxergam a internet 1.0. Aquela onde as pessoas, empresas e insituições cuidavam de "disponibilizar conteúdo". Acionar twitter e blog para "disponibilizar conteúdo" equivale a fumigar uma plantação com jatinho. Já que é fácil recorrer às ferramentas para falar, natural que logo todos os políticos estejam usando assim, unidirecionalmente. E quem terá vantagem competitiva? Quem aceitar usar para ouvir, como comentei na coluna do último domingo.

Com o twitter, os políticos finalmente desembarcaram na rede. Falta agora captar o verdadeiro sentido da coisa e render-se ao ambiente de diálogo. Mas não apenas para ouvir elogios e tratar de banalidades, ou assuntos pessoais. Aceitar, sim, questionamentos sobre o que interessa: a atividade política. Quando fizerem isso, é possível que os nossos representantes venham -quem diria!- a sentir saudades da imprensa.

Sem razão para timidez

Esquentou nos últimos dias o lobby para refrear a queda da taxa de juros. Mesmo com o real lá em cima e com a deflação (especialmente no atacado) teimando em não ir embora, a turma insiste em se agarrar ao osso.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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terça-feira, 21 de julho de 2009

Vídeo: 30 anos de reconstrução da UNE (21/07)

Clique para assistir ao documentário feito pela TV da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul por ocasião da homenagem, em maio de 2009, aos 30 anos de reconstrução da União Nacional dos Estudantes. São três blocos em sequência, basta clicar e eles passarão um após o outro.



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Sessão solene na AL-RS em homenagem aos 30 anos de reconstrução da UNE (21/07)

Apoia também o referendo no Irã, presidente (21/07)

Luiz Inácio Lula da Silva disse o seguinte sobre a consulta popular que o deposto (mas constitucional) presidente de Honduras, Manuel Zelaya, queria (quer) fazer (da Agência Brasil):
    “O que o presidente queria fazer? Um referendo. O que o referendo tem de criminoso? Qual o medo de ouvir a vontade do povo?”
Agora, quem propõe um referendo é a oposição no Irã, que contesta a vitória eleitoral do presidente Mahmoud Ahmadinejad (de O Globo):
    O ex-presidente iraniano Mohammad Khatami propôs que se realize um referendo sobre a legitimidade do governo do Irã, num desafio ao líder vencedor da polêmica eleição presidencial de junho.
O establishment persa não gostou (da France Presse):
    Os conservadores iranianos criticaram duramente nesta terça-feira (21/07) o projeto de referendo proposto pelo ex-presidente reformista Mohammad Khatami para "sair da crise atual", por considerarem-no um complô estrangeiro. "Ao propor um referendo, dão continuidade a outra parte do roteiro já preparado pelo Ocidente para fazer complô contra o regime iraniano", escreveu em um editorial Hossein Shariatmadari, diretor do grande jornal conservador iraniano Kayhan.
Lula deve receber Ahmadinejad no Brasil proximamente. Pois eu tenho uma sugestão ao nosso presidente e ao chanceler Celso Amorim. Quando o líder iraniano estiver entre nós, defendam publicamente o direito de o povo daquele país irmão fazer o referendo proposto pela oposição. Afinal, "o que o referendo tem de criminoso, qual o medo de ouvir a vontade do povo?". A não ser, naturalmente, que Lula e Amorim considerem isso uma inaceitável intromissão nos assuntos internos do Irã. Se for assim, alguém poderá concluir que a diplomacia brasileira apoia referendos propostos pelos amigos de Lula, mas não apoia as consultas populares defendidas pelos adversários dos amigos de Lula. Daí a atualidade deste trecho de O valor de uma amizade:
    (...) em política externa é o que Lula vem sinalizando nas últimas semanas. Há os maus golpistas, como os de Honduras, e os bons ditadores e genocidas, como alguns da África recentemente visitada pelo presidente. Aos amigos, tudo; aos inimigos, os princípios morais. Como é bom ser amigo de Lula!
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Culpa de todos. E de ninguém (21/07)

Recorrer a explicações culturais, além de ajudar a aliviar o passado, serve como garantia antecipada do perdão futuro

Virou moda no Brasil atribuir desvios individuais de comportamento a um traço qualquer da formação histórica nacional. A desculpa preferida é que políticos desviados do bom caminho são, na verdade, vítimas de um patrimonialismo supostamente arraigado na nossa cultura. Vítimas da falta generalizada de limites claros entre o público e o privado. É uma saída engenhosa. Se a culpa é do patrimonialismo, ela não é de ninguém. Se for de alguém, é de gente que morreu há muito tempo, e portanto não pode ser punida. Os pais da pátria, fundadores do tal patrimonialismo.

Tome-se o caso das passagens aéreas no Congresso. O deputado ou senador sabia que o dinheiro era para ser usado no exercício do mandato. O bom senso mandava que não fosse empregado para viagens com a família ao exterior, em férias. Pois passear com os familiares em Paris nada tem a ver com o mandato. Parece razoável. Então, se o sujeito pegou a grana e usou para fazer a alegria da turma de casa, isso nada tem a ver com patrimonialismo coletivo, mas com algo que está na esfera de uma decisão absolutamente individual. Fazer ou não fazer o que se sabe que não é certo.

Outro exemplo são as irregularidades do Senado. Entre elas a aberração maior, os atos oficiais a que não se deu publicidade. O que essa transgressão tem a ver com o patrimonialismo? Nada. Tem a ver com a certeza da impunidade, com a convicção de que no Brasil a Justiça tarda mais do que seria razoável, quando não falha. Mas, de novo, se o parlamentar embarga a voz para apontar o dedo ao “patrimonialismo” fica liberado de tomar as providências e de lançar o problema nas costas dos responsáveis. Confortável, não?

O mesmo truque é aplicado com outra categoria sempre à mão na hora do aperto: a reforma política. A autoridade foi pega com a boca na botija? Lamentamos, mas é culpa do nosso péssimo sistema eleitoral. Afinal autoridades não se metem em rolos para benefício pessoal, é sempre para abastecer o caixa de campanha. Ninguém compra casa, fazenda ou carro com dinheiro do caixa 2. E, quando compra, é só para vender o bem na véspera da eleição. Como se sabe, é um hábito dos políticos queimar patrimônio para financiar a carreira. Você acredita nisso?

Recorrer a explicações culturais ou sociológicas tem outra vantagem. Além de ajudar a aliviar o passado, serve como garantia antecipada do perdão futuro. Afinal, a reforma política vai demorar para sair. Enquanto ela não acontece, sua falta fica aí à disposição como desculpa. Com o patrimonialismo, é melhor ainda. Não há sinais de que para acabar com ele vá haver proximamente uma revolução cultural no Brasil. Enquanto isso, rola o som na caixa, e a festa vai a todo vapor. Se aparecer a polícia, mande reclamar com o patrimonialismo. Ou com o voto uninominal.

E a teoria vai sofisticando-se, ao sabor do momento. A melhor dos últimos tempos veio do governo, na crise do Senado. Segundo a explicação, não adianta trocar dirigentes da Casa, porque muitos já foram trocados e os problemas continuam. “Eu bebo sim e estou vivendo. Tem gente que não bebe e está morrendo.” Uma coisa é concluir, a partir do histórico, que a degola de protagonistas não é suficiente. Mas o Planalto preferiu chegar à conclusão de que não é necessária. Como se sabe, insuficiente e desnecessária são duas palavras de significados completamente diferentes. Menos na política. Quando interessa.

Como dito

Como se disse nesta coluna que certamente aconteceria, o PT do Rio Grande do Sul ignorou o calendário imposto pela direção nacional do partido e lançou Tarso Genro ao governo do estado. A situação caminha de maneira semelhante em Minas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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domingo, 19 de julho de 2009

Estamos no mesmo barco, senador (19/07)

O fiscal do jornalista e o do político são a mesma pessoa. Só o papel muda, conforme o político que está no alvo, amigo ou inimigo do tal fiscal. É como no antigo teatro grego, só muda a máscara do ator

O presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque (PMDB-RJ), é mais um a relativizar o peso da “opinião pública”. Coloco entre aspas só para manter aberto um conceito que, ao significar muitas coisas diferentes, não explica exatamente o que é. Quando políticos dizem estar “se lixando” para a opinião pública, é óbvio que eles não usam a expressão como sinônimo, por exemplo, de “eleitorado”. Você não vê o sujeito que depende de voto sair por aí alardeando que se lixa para o eleitor. Seria suicídio.

Então, quando o presidente do Conselho de Ética fala, a coisa precisa ser compreendida na dimensão certa. Eu entendi que o senador não está nem aí para aquele pedaço da população cujas ideias supostamente flutuam ao sabor do que é veiculado em jornais, revistas, rádios e tevês, ou então, em canais da internet controlados pelas empresas de comunicação. Até porque, segundo Duque, é cada vez mais relativa a influência dos meios tradicionais da imprensa na assim chamada “formação de opinião”. Eis aí um fato.

Deduz-se então que os agentes públicos estariam à beira de ingressar numa nova realidade, mais confortável. Por causa da revolução introduzida com a tecnologia digital e as redes, as instituições poderiam agora fazer a própria comunicação, e ela seria suficiente. Quem tiver a curiosidade de saber o que vai pelo Senado deverá buscar no senado.gov.br. Valerá também para o camara.gov.br, ou para o planalto.gov.br. Ou então, sei lá, para o cocacola.com.br. Além da onipresente comunicação institucional, sobraria um universo pulverizado de blogueiros, ativistas e curiosos digladiando-se nos orkuts, twitters e blogs.

Será que o futuro vai ser mesmo assim? Aposto que não. Do lado da oferta, sempre haverá a necessidade de que alguém, com foco profissional e independência diante da fonte, vá atrás do fato em estado bruto, transforme em notícia ou análise, empacote e distribua. Porque sempre haverá demanda por algo com tais características. É insensato imaginar que uma sociedade aberta, mergulhada em informação e completamente interconectada, irá satisfazer-se com notícias produzidas por fontes oficiais. Por mais competentes que sejam. E, aliás, têm sido.

É provável que o jornalismo do futuro pareça-se com o atual, diferenciando-se nos mecanismos de distribuição e — importante — nas crescentes e instantâneas possibilidades de crítica e controle social. É algo a que os jornalistas — seres tendentes à autossuficiência — devemos nos habituar. Morreu o jornalismo acostumado apenas a dizer, sem conseguir ouvir. São milhares, milhões de pedras atiradas no lago em intervalos curtíssimos, ou mesmo simultaneamente, apenas para usar a imagem da teoria célebre. O reinado da meia dúzia de “formadores de opinião” não existe mais. Se é que existiu um dia.

Assim como está morta a política que se acha dispensada de dar satisfações à sociedade. Eu tenho aqui uma péssima (ou ótima, conforme o ângulo) notícia para o senador Paulo Duque. Pau que dá em Chico dá também em Francisco. O fiscal do jornalista e o do político são a mesma pessoa. Só o papel muda, conforme o político que está no alvo, amigo ou inimigo do tal fiscal. É como no antigo teatro grego, só muda a máscara do ator.

No mundo que vem aí, jornalistas e políticos deveremos habituar-nos à duríssima fiscalização do público. Como nos bons call-centers, ela será 24x7x365.

Se eu escrever uma bobagem, o leitor não precisará esperar na fila pela publicação de uma cartinha, nem implorar por uma rápida e protocolar conversa telefônica. Ele poderá me detonar em tempo real na rede. A mesma coisa com os políticos. O eleitor não precisará esperar pela distante eleição para se vingar.

Bem vindo ao admirável mundo novo, senador.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 17 de julho de 2009

O diabo sempre cobra o acordo (17/07)

Uma notícia e um bastidor. A notícia:
    IGP-10 tem deflação de 0,35% em julho

    (Valor Online - Rio) - Seguindo uma baixa de 0,03% em junho, o Índice Geral de Preços-10 (IGP-10) diminuiu 0,35% neste mês. Influenciou no aprofundamento do ritmo de queda o comportamento dos preços no atacado, que tiveram recuo mais marcado, e dos custos da construção, que subiram menos. Pelo levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no acumulado do ano, o indicador cedeu 1,54%. Nos 12 meses terminados em julho, o indicador declinou 0,06%.
Leia a íntegra. Agora o bastidor:
    Incertezas políticas afetam juros

    (Valor Econômico) - Incertezas políticas. Esta é a principal explicação encontrada pelos economistas do governo para o descolamento da taxa de juros futuro, em relação às projeções de inflação para 2010 e 2011. Fato que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, voltou a salientar esta semana. A justificativa parece vaga, mas é o que técnicos oficiais ouvem de agentes do mercado, ao buscarem explicações para um problema que o governo vem identificando desde a reunião de abril do Comitê de Política Monetária (Copom). Na ata dessa reunião, divulgada no início de maio, o Copom chamou a atenção para o fato de os juros futuros não estarem incorporando as melhoras detectadas nas projeções de inflação. Desde então, o mercado reage com queda da taxa imediatamente após as intervenções verbais ou escritas do BC, mas logo volta a empinar a curva para os próximos dois anos, introduzindo um pessimismo traduzido em prêmio de risco. Os temores do mercado, no momento, pelas informações oficiais, não estão relacionados ao comportamento da inflação doméstica no horizonte visível, nem a uma eventual expectativa de repique da crise financeira global - que pode aparecer sob a forma de forte inadimplência nos cartões de crédito dos consumidores americanos e nos financiamentos de imóveis comerciais. Governo e analistas privados não encontram o menor sinal de recrudescimento inflacionário no Brasil nos próximos seis a nove meses, e novos ventos da crise não estão nos preços.
Leia a íntegra. Em ambiente de deflação (a notícia), "incerteza política" é a explicação que o oligopólio dá quando não tem outra (o bastidor). Mas não deixa de ser irônico que a mistificação esteja sendo usada agora contra o PSDB, ele que se cansou de "explicar" que o descontrole de 2002 se deveu não principalmente à fragilidade fiscal intrínseca ao governo Fernando Henrique Cardoso, mas ao "risco Lula". O diabo sempre aparece um dia para cobrar o acordo. Quer um exemplo? Clique na imagem.

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Sarney não passa recibo (17/07)

Crivado das balas disparadas no papel e na rede, o presidente do Senado não passa recibo. Leiam o artigo dele hoje na Folha de S.Paulo. Sarney é assim. Já era assim na Presidência da República. Quem espera pelo recibo pode esperar sentado. O que não significa que a vingança não venha depois.

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Sim, mas e daí? (17/07)

O Brasil tem sido o país do excesso de conversa, da profusão do lero-lero e da falta de ação. Dos debates intermináveis e da mesmice administrativa

A grande notícia de ontem foram os números da retomada do crescimento chinês. Os últimos índices mostram que a China alcançará este ano a almejada expansão de 8%. Ou seja, perdeu somente cerca de um quarto do que crescia antes da megacrise mundial da economia. Incrível. Aqui no Brasil, em contraste, perdemos quase tudo. O debate nacional é se vamos crescer 1%, segundo a última das múltiplas previsões do ministro da Fazenda (ele parece ter uma para cada ocasião), ou se iremos retroceder o mesmo tanto. Um debate medíocre, sobre alternativas medíocres.

Na China, a retomada da aceleração sustenta-se em três pernas: a sólida retaguarda estatal ao setor financeiro, a guinada decidida para o mercado interno e os maciços investimentos públicos. E o resultado aparece. No Brasil, não houve maior necessidade de proteger os bancos. Eles já estão suficientemente protegidos pelo ambiente oligopolista e pelas normas nascidas do Proer. O mercado interno vai mais ou menos, estimulado pelos programas sociais mas tolhido pela incapacidade governamental de fazer os bancos emprestarem dinheiro barato. E o investimento público anda do jeito que conhecemos: barulho demais para resultados nem tanto.

Mais incrível é que a mediocridade do nosso desempenho não parece incomodar ninguém. A oposição em Brasília passa ao largo do tema. Até porque crescimento não foi propriamente uma prioridade do PSDB quando teve a caneta na mão. Já o governo, à frente o presidente da República, anda mais preocupado em repisar uma ficção, uma fantasia: a de que fomos o último país a entrar na crise e seremos o primeiro a sair dela. Nem uma coisa, nem outra. As notícias que vêm da China comprovam. E a banca faz a sua parte, abastecendo os dutos da opinião pública com a mistificação de que nossos juros astronômicos são necessários, devido a uma suposta propensão nacional ao calote.

No Brasil, tudo que é bizarro pode ficar ainda mais. A melhor dos últimos tempos foi o movimento para pressionar o Conselho Monetário Nacional a baixar a meta de inflação. O que daria mais legitimidade ainda ao Banco Central, na obsessão dele de garantir ao Brasil um lugar no pódio dos maiores juros reais do mundo. Pode ter sido um lapso meu, mas procurei saber de outro país que, nesta altura, abrigue algum tipo de preocupação com a inflação e não achei. Se você sabe de um caso, avise-me, por favor. Aliás, encontrei o contrário: gente torcendo por um pouco de inflação, um sinal de vida do consumo.

Ontem, a Fundação Procon divulgou o levantamento mensal sobre as taxas médias de juros para empréstimo pessoal e cheque especial. Elas vêm caindo. Mas tão suavemente quanto a descida do Amazonas na sua longa corrida em direção ao Atlântico. Os juros “declinantes” estão hoje em 5,3% mensais para o empréstimo pessoal e em 8,8% mensais para o cheque especial. Escrevi o “mensais” duas vezes, de propósito. Para você comparar com a inflação projetada para o ano todo, algo um pouco acima de 4,0%. Vamos reforçar: 5 a 8% ao mês de juros para uma inflação de 4% ao ano.

Em outros lugares seria motivo para providências radicais. Mas o Brasil tem sido o país do excesso de conversa, da profusão do lero-lero e da falta de ação. Dos debates intermináveis e da mesmice administrativa. Um ponto bastante repisado por Luiz Inácio Lula da Silva é que o Estado brasileiro foi estruturado nos últimos tempos para não agir. Um exemplo que Lula sempre dá é a diferença no tratamento 1) aos funcionários públicos voltados a atividades-fim e 2) aos encarregados de controlar e fiscalizar. Sim, mas e daí? É verdade, mas o que se fez de prático nos últimos anos para inverter a equação? Afinal, já são seis anos e meio. O governo não começou outro dia. Está é acabando.

São Nunca

Lula diz que o Senado tem bons pizzaiolos. É fato. Mas eles existem também em profusão na Câmara dos Deputados, nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais. Legislativo no Brasil reduziu-se a sinônimo de empreguismo, desperdício e submissão ao Executivo. Sabe quando vai emplacar aqui a ideia do parlamentarismo? No dia de São Nunca.

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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Transparente demais (16/07)

“Por que não vão investigar nada? Ora, porque temos a maioria.” Queriam transparência? Pois nunca se viu tamanha transparência na política nacional

Próceres do grupo dominante no Senado estão em busca de um partido, dos nanicos, para ameaçar com representações no Conselho de Ética contra luminares da oposição que não suportariam uma investigaçãozinha. Pode ser uma novidade na volta do recesso, se até lá PSDB e aliados dele não se enquadrarem no roteiro reservado pelos governistas: tudo bem fazer barulho, mas chega de pressionar pela saída de José Sarney (PMDB-AP) da cadeira de presidente. Até porque, raciocina o grupo, Renan Calheiros (PMDB-AL) seria o próximo a ter a cabeça na bandeja. E a base de Luiz Inácio Lula da Silva viraria uma geleia.

Governo que para se manter no leme depende do patriotismo da oposição não é governo. O primeiro dever do poder é defender-se dos adversários.

Terça-feira, em Alagoas, Lula fez questão de elogiar Renan. E ontem o senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE) renunciou ao Conselho de Ética, depois de lançado no dia anterior como potencial candidato a presidente do colégio. Valadares houve por bem declinar do pacote, que com certeza incluiria receber todo tipo de pressão para arquivar sumariamente as representações contra Sarney. Seria deselegante eleger-se com o apoio do sarneyzismo para logo depois esfaquear o líder do grupo. O Senado ainda tem regras de cavalheirismo. Por enquanto.

Valadares presidente era sinal de uma condução equilibrada dos trabalhos do Conselho de Ética. Mas o núcleo do bloco Sarney-Renan não quer correr riscos. Ou não pode. Talvez por avaliar que o presidente do Senado não aguenta um processo político, qualquer que seja. Por razões objetivas e subjetivas. Também e especialmente quando as acusações envolvem familiares.

Não será mesmo razoável fazer Sarney passar por isso, com a biografia dele. Ninguém merece, muito menos um ex-presidente da República. Se houver risco real de tamanho constrangimento, Sarney preferirá renunciar ao comando do Senado. No que fará bem. E aí virá uma crise de verdade para Lula administrar.

Daí que o grupo, com o apoio decidido do Palácio do Planalto, esteja a lutar pelo controle do Conselho como se disputasse um copo d'água no deserto.

Por falar em regras, há uma que vem sendo revogada no rebuliço dos últimos tempos. A nossa política vê esmaecer pouco a pouco sua face teatral. O que antes se dizia só nos camarins passou a ser dito no palco. “Por que não vão investigar nada? Ora, porque temos a maioria.” Queriam transparência? Pois nunca se viu tamanha transparência na política nacional.

Outro exemplo de transparência excessiva é a troca de comando na Receita Federal. Trata-se de um cargo-chave na administração, mas o governo não consegue dar uma explicação plausível, que ajude a esconder a explicação óbvia. A versão sobre o suposto mau desempenho da titular foi rapidamente rechaçada. E ela estava no cargo só há um tempinho, não havia motivo cronológico para a movimentação. Havia as razões políticas.

Trocar gente do governo por motivo político é coisa normal. Não é normal essa instabilidade na Receita, sem que o poder tenha uma singela satisfação a oferecer. Umazinha só, que não seja a de que a secretária incomodou quem não gosta de ser incomodado.

Haja transparência! A política brasileira vai sendo empurrada para uma beirada perigosa, em que a eventual maioria aritmética exime o protagonista de fazer as encenações teatrais de praxe. Pode funcionar por um tempo, mas a conta acabará vindo. Tenho insistido nisso.

Premonição

A governadora Yeda Crusius parece ter decidido aproveitar a onda de que tudo é “luta política” para dizer que a impressionante sequência de acusações contra o governo dela (e contra ela) é fruto de uma conspiração. A julgar pelos índices de popularidade da governadora, ela terá imensas dificuldades para convencer o eleitorado gaúcho disso.

A luta de Yeda é para terminar o mandato. Que se não fosse pelo PMDB (sempre ele!) já teria ido para o vinagre. Como aliás temiam líderes tucanos quando ela se elegeu.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Jogo do Poder com Flávio Dino (13/07)



Clique na imagem para assistir à entrevista no Jogo do Poder com o deputado federal Flávio Dino (PCdoB-MA), relator da reforma eleitoral. Eu apresento o programa todas as quartas-feiras às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Denise Madueño, de O Estado de S.Paulo. Para ver os programas anteriores, vá à lista.

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Solidários, pero no mucho (15/07)

Zelaya está agora amarrado à iniciativa de paz costa-riquenha, com a Casa Branca no comando dos cordeis. Ou pode jogar o tudo ou nada, em desvantagem estratégica. Fora do poder, do país e com limitada capacidade de mobilização interna

O deposto (e constitucional) presidente de Honduras, Manuel Zelaya, anda inquieto. Se as negociações na Costa Rica não derem certo para ele, promete usar “outros meios” para voltar a ser de fato o chefe do governo. Essa inquietação de Zelaya tem fundamento: a saída para o impasse hondurenho está sendo produzida devagar o suficiente para evitar a volta do status anterior à ruptura. Assim, todos podem solidarizar-se com o mandatário removido do cargo e posto para fora do seu país. Sem que isso implique reconduzir Zelaya ao patamar político que ocupava antes do golpe.

Na prática, o hemisfério está com Zelaya, pero no mucho. Com exceção, naturalmente, dos bolivarianos. Por trás da impressionante unanimidade continental, mora a divisão; num lado, Hugo Chávez e aliados; no outro, Barack Obama, Luiz Inácio Lula da Silva e sócios menores. A Venezuela entendeu que uma solução negociada, que inclua bloquear a reforma constitucional tentada por Zelaya “na lei ou na marra”, vai representar a contenção do projeto regional de Chávez. E a balança terminará de pender para o lado de Estados Unidos e Brasil. Ambos interessados numa fórmula que reponha Zelaya na cadeira, mas que também o impeça de levar adiante o plano bolivariano original.

Zelaya está, então, preso a um processo cuja lógica o enfraquece. Isso interessa muito a Washington, que desta vez opera com amplo apoio externo. Quando a Organização dos Estados Americanos (OEA) deu o passo para revogar a diáspora cubana, comentei aqui que o “soft power” de Obama tinha se tornado um sucesso latino. De lá para cá, as coisas só avançaram (ou retrocederam, conforme o gosto do freguês). Em um semestre, a nova administração na Casa Branca conseguiu inverter completamente o jogo. A situação hondurenha é só a face mais visível da virada.

Com Bush na cadeira, Chávez era o vetor em expansão, enquanto países como Brasil e Chile estavam constrangidos a apoiar o venezuelano, dado o confronto geopolítico e retórico com o adversário imperial ao norte. Agora, especialmente depois da fraqueza operacional exibida pela Venezuela na crise de Tegucigalpa, os jogadores regionais já sabem que o centro de poder deslocou-se novamente no sentido de Washington, restando a Caracas a retórica e o nervosismo. A não ser, claro, que Chávez e aliados decidam jogar a carta militar. E que obtenham sucesso na empreitada. Seria um risco e tanto.

Sempre é complicado analisar a História em tempo real, mas, se o desfecho do golpe hondurenho for mesmo a amputação (total ou parcial) do projeto bolivariano de Zelaya, estará se fechando o ciclo aberto na fracassada tentativa de derrubar Chávez em 2002. Ali houve mobilização popular, mas decisiva mesmo foi a posição das Forças Armadas. Que recolocaram Chávez na cadeira quando perceberam que a intenção dos golpistas era implantar uma ditadura.

Também agora os militares, desta vez em Honduras, parecem deter a posição-chave. E Zelaya não está bem nesse campo, desde que tentou sem sucesso decapitar a cúpula do Exército, por ela se opor, com apoio da Justiça e do Congresso, à consulta popular convocada pelo presidente em torno do tema da Assembleia Constituinte.

Qual é a diferença entre os dois episódios, a Venezuela em 2002 e Honduras agora? O respeito à legalidade. Você pode não gostar do rumo por que vai a Venezuela, mas não há acusações críveis de que Chávez tenha rompido a constitucionalidade. Similar é a situação de Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador. Nas condições particulares da América do Sul, continente historicamente infestado por casuísmos e casuístas, aqueles três países conduzem seus conturbados processos políticos dentro da lei. Mas em Honduras foi diferente. Zelaya quis dar o pulo do gato. Sem rede de proteção.

O resultado: Zelaya está amarrado à iniciativa de paz costa-riquenha, com a Casa Branca no comando dos cordeis. Ou pode jogar o tudo ou nada, em desvantagem estratégica. Fora do poder, do país e com limitada capacidade de mobilização interna. E tendo que confrontar Barack Obama. Não será uma escolha fácil para Zelaya.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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terça-feira, 14 de julho de 2009

O desafio de trocar a clientela (14/07)

Quando você transforma a realidade, ela também transforma você. Arrastado a uma composição estratégica com o PMDB, o PT vai adquirindo traços do parceiro. O que impõe novos desafios

A crise política de 2005 fez surgirem previsões catastróficas sobre o Partido dos Trabalhadores. A sigla estaria condenada, depois de decepcionar quem enxergava nela o vetor de renovação dos costumes políticos no Brasil. Mas os prognósticos negativos –frequentemente, torcida travestida de análise– falharam. O PT viu Luiz Inácio Lula da Silva reeleger-se e manteve a presença no Congresso Nacional. E continua sendo a legenda orgânica do portifólio. Mais de 300 mil filiados participaram da última eleição interna. Todas as pesquisas mostram o PT na dianteira da preferência popular, bem na frente dos demais.

Qual é o desafio, então? É transformar a força em hegemonia. O partido surgiu nos anos 80 do século passado como uma espécie de anti-PMDB. Era a agremiação vertebrada, que se opunha conceitualmente à geleia-geral da frente política de resistência ao autoritarismo. O partido-partido em vez do partido-frente. O porta-voz do segmento mais moderno e dinâmico da sociedade. Ganhou musculatura após o impeachment de Fernando Collor. E chegou ao governo mantendo a essência de suas concepções. Você se lembra da profusão de petistas no primeiro ministério de Lula, em 2003?

Como inexiste almoço grátis, nem exercício pacífico do poder sem hegemonia, a vida o fez dobrar-se à realidade: ou moderava o apetite, convidando mais gente para o banquete, e abria a administração, ou seria despejado do Éden. Ou entrava no jogo para valer, ou caía fora. Entrou e gostou. Daí que, numa ironia típica, eis o PT fazendo de tudo e mais um pouco para segurar junto dele o PMDB. O petismo poderá argumentar que cuida de sobreviver enquanto preserva sua pureza, por existir uma linha divisória entre os partidos. Mas a velha dialética já observava: quando você transforma a realidade, ela também transforma você.

Arrastado a uma composição estratégica com o PMDB, o PT vai adquirindo traços do parceiro (é também o que acontece na relação do Democratas com o PSDB: eis um assunto para outra coluna). Ao ponto de assistirmos hoje no Senado a um sintomático casamento de conveniência: o PT ajuda o PMDB a salvar a pele do presidente da Casa, José Sarney (AP), e em troca o peemedebismo ajuda a vacinar o PT na CPI da Petrobras.

Ambos parecem muito satisfeitos com os termos do contrato nupcial, convenientemente esquecidos de que talvez interesse ao cidadão conhecer o que vai pelos intestinos da vetusta Casa e também da nossa querida estatal. Mas, dada a dificuldade de pescar no cenário brasileiro massa crítica de políticos que ao menos simulem preocupação com o interesse público, não parece haver motivo para alarme.

No atual esforço para caracterizar tudo como “luta política”, e assim justificar o injustificável, o PT vai fechando os últimos dutos que o ligam àquele veio da “ética”. Esses votos vêm sendo permutados, com vantagem numérica, pelo apoio de outro pessoal: os mais pobres e os do Nordeste. Os pobres, gratos pelos belos, justos e agressivos programas sociais, terreno em que quantidade é qualidade: o sujeito que inventa a vacina contra uma doença letal ganha prestígio, mas os votos irão para o político que adotar as providências práticas e erradicar o mal. Já o Nordeste está cativado pelo crescimento “chinês” da economia regional.

Aqui aparece um problema. Os aliados do PT têm revelado mais competência para enraizar-se no novo público-alvo do partido de Lula do que os petistas. Especialmente o PMDB e –no Nordeste– o PSB. Também por isso, bem no momento em que deveria buscar estrategicamente a hegemonia, o PT precisa dobrar-se aos parceiros num grau antes impensável, à luz da ambição partidária e também dos princípios fundadores da legenda “diferente de tudo que está aí”.

A saída defendida por Lula para 2010 é conhecida: concentrar esforços para eleger Dilma Rousseff e ampliar com força as bancadas no Congresso. Por incrível que pareça, talvez o primeiro desafio seja mais alcançável do que o segundo, dada a expertise dos aliados em usar o poder de Brasília para alavancar força regional. Diria Arquimedes, se fosse um político brasileiro: deem-me um bom cargo federal, com uma caneta cheia de tinta, que eu garanto os votos. Desde a Antiguidade se sabe que um ponto de apoio adequado permite mover o mundo.

O PT quebra a cabeça para decifrar esse enigma, barreira entre o partido e o projeto de, a partir de 2011, construir uma hegemonia “por cima”, de Brasília para o resto do país.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Sarney agiu. Ótimo (13/07)

O presidente do Senado fez o que tinha que fazer. Demorou, mas fez. Anulou os atos secretos. Agora, a luta será para implementar a decisão. Mas José Sarney recebe o crédito por ter dado o primeiro e importante passo. É o que escrevi na coluna de domingo (post anterior) do Correio Braziliense. O Senado não terá sossego enquanto essa história pairar por aí como um fantasma. Pode ter o apoio que for do Palácio do Planalto, que não terá sossego. E Sarney sabe, melhor que ninguém, que só há uma saída nesta crise: agir. Bom que tenha começado a fazê-lo.

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domingo, 12 de julho de 2009

Uma palavrinha a menos (12/07)

“É injusto responsabilizar Sarney por tudo de errado que acontece no Senado.” Falta uma palavra nessa frase: “só”. O problema é que, sem o “só” antes de “Sarney”, ela pode ser lida assim: “Como muitos são culpados, que não se puna ninguém”

É perigoso o Senado achar que vai contornar a crise sem que nenhum político pague a conta. Algum tipo de conta. Isso já se escreveu aqui e continua valendo. O sistema tem sua lógica, ou pelo menos deveria ter. Teoricamente, funciona assim: quando aparece um problema grave na esfera política, algum político deve arcar com a fatura. É o caso dos atos secretos. Passar uma borracha na sua existência, ou reduzi-los a disfunção administrativa, introduziria no mecanismo institucional uma taxa intolerável de insegurança.

Em meio ao hábito de achar tudo escandaloso, o verdadeiro escândalo corre o risco de se misturar à multidão. Os atos secretos do Senado são um atentado direto à democracia, muitos degraus acima do ramerrame da politicagem diária e do assim chamado denuncismo. E se a moda pega? E se ela se estende aos demais poderes? O Executivo poderia, numa hipótese hoje bizarra, montar um sistema paralelo de espionagem e perseguição contra os adversários. Por que não? E por que não deixar também na escuridão uma parte da execução orçamentária? Por que não acabar com o Siafi?

Um fundamento da democracia é que o cidadão tem mecanismos para se proteger do Estado quando este exorbita. O princípio da publicidade dos atos oficiais está longe de ser uma firula. Se você desconhece o que fazem as autoridades, como vai poder controlá-las? Como vai se defender? Sem a publicação das ações do poder, o cidadão fica à mercê dos poderosos.

Enquanto o Senado não colocar os pingos nos is, a ebulição política não vai passar. O presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), tem suporte do presidente da República e conseguiu uma neutralidade favorável do PT, com as resistências de praxe. Os operadores de Sarney vêm insistindo que ele controla a maioria dos votos no plenário, bem como no Conselho de Ética. É verdade. Na aritmética as coisas vão bem. Mas no mérito vão mal. Os números são sólidos, o discurso nem tanto. E na política democrática o número acaba sucumbindo ao argumento. É sempre uma questão de tempo.

Sarney tem um belo estoque de apoios políticos, mas vem falhando na hora de contar histórias com começo, meio e fim. Nos atos secretos, chegou-se a um jogo de soma zero, em que todas as excelências escapam. O ex-diretor de Recursos Humanos diz que recebia ordens do então diretor-geral. Mas o ex-diretor-geral nega que tenha dado as ordens na época. O estica-e-puxa passa ao largo dos senadores beneficiados pelas centenas de medidas ocultadas. No plano jurídico, pode ser brilhante. Politicamente, é um desastre. Como é que funcionários do Senado deixaram de publicar centenas de atos ao longo de anos e nenhum senador percebeu? Nem reclamou?

“É injusto responsabilizar Sarney por tudo de errado que acontece no Senado.” A afirmação é aparentemente lógica, mas nela falta uma palavra: “só”. O problema é que, sem o “só” antes de “Sarney”, a frase pode ser lida assim: “Já que muitos são culpados, que não se puna ninguém”.

Vai ser difícil enfiar essa conclusão goela abaixo do distinto público.

Mais um abacaxi

A equiparação dos sites de empresas às concessões de rádio e televisão é uma aberração. Mas foi o que decidiram os deputados, quando normatizaram o uso da internet nas campanhas eleitorais. Mesmo que o Senado mude, a Câmara pode repor o texto original na volta. E o presidente, sancionar. Daí ser possível que tudo acabe na Justiça.

Pode o Congresso, a seu critério, restringir a liberdade de expressão num canal de comunicação que não é concessão do Estado? Depois de revogada a Lei de Imprensa e abolida a exigência do diploma de jornalismo para jornalistas, será mais um abacaxi para os tribunais. Se alguém recorrer a eles, claro.

Disse o ministro Carlos Ayres Britto no julgamento do diploma: “A meu sentir, a Constituição fez uma opção pela liberdade de imprensa. Deu-lhe precedência, de sorte que tudo o mais é consequência ou responsabilização a posteriori”.

Isso vale na eleição? Vai ser um bom debate.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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