quinta-feira, 30 de abril de 2009

Fingindo que nada acontece (30/04)

Os tucanos sabem que podem ganhar tudo, mas têm inteligência suficiente para entender que podem também perder tudo, inclusive o forte poder regional

O problema de saúde que atingiu a ministra Dilma Rousseff não parece ter gravidade suficiente para levar o Palácio do Planalto a pensar a sério numa alternativa para 2010. As informações médicas dão a ela, de fato, chances imensas de superar a doença. E há um outro ingrediente. No instante em que o oficialismo fizer o primeiro movimento para o plano B, este automaticamente se transformará em plano A. Numa situação assim, o mundo político entenderá qualquer marola como a senha para o desembarque.

Uma coisa são os eventuais aspirantes à vaga saírem por aí sondando o terreno. Outra, bem diferente, é imaginar que alguém esteja a fazer isso com o aval do presidente da República. Aliás, qualquer sondagem a esta altura nos grupos sociais e econômicos dominantes é em larga medida inútil. O candidato de Lula virá não “da sociedade”, mas do Palácio. E terá como trunfo o fato de ter sido indicado pelo mais popular presidente da História do Brasil. Daí que a sabedoria esteja a recomendar cautela para os pretendentes.

Preocupação maior nas hostes governistas, neste momento, é com um eventual acordo interno de pacificação no PSDB. Os sinais têm vindo tanto do Bandeirantes como das Mangabeiras. A dança entre José Serra e Aécio Neves é complexa e sinuosa. Aécio vem de mostrar flexibilidade quanto à data das prévias do partido. E Serra tem dito por aí que não afasta a possibilidade de se candidatar à reeleição em São Paulo.

Estão os dois, como dizia o ex-presidente Jânio Quadros, na posição do remador: fazendo força, mas de costas para o verdadeiro objetivo. Serra trabalha para aproveitar ao máximo a inércia, que o favorece. Aécio tem o grande trunfo de Minas. O estado foi a chave das vitórias de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 e 2006. Aliás, a esperança do PT para daqui a um ano e meio é repetir 1930. Uma aliança de Minas com o Nordeste contra São Paulo, abrindo espaço para a emergência política do Rio Grande do Sul. Com a vantagem de que Dilma pode ser gaúcha ou mineira, conforme a conveniência.

O problema do PT é que desta vez ele tem pouco a oferecer ao PSDB em Minas. Em 2002 e 2006, os petistas lançaram chapas menos competitivas no estado, um movimento que permitiu alianças informais. Assim, nas duas eleições Aécio e Lula venceram por ampla margem entre os mineiros. Desta vez, porém, PMDB e PT têm nomes fortes em Minas, no caso dos petistas mais de um. A eleição ali não será um passeio em céu de brigadeiro para ninguém.

Se o PSDB não pode bobear em Minas, tampouco pode dormir no ponto em São Paulo. Os tucanos paulistas são hoje favoritos a continuar, mas a soberba e as divisões internas sempre podem atrapalhar. Além do que, há uma certa fadiga de material e a pendenga não resolvida entre o prefeito da capital, Gilberto Kassab (DEM), e o ex-governador Geraldo Alckmin. E há também o movimento de Lula para tentar construir uma chapa competitiva em São Paulo, com uma cara nova, algo descolada da imagem tradicional do PT.

Para o PSDB, essa é uma diferença importante entre a eleição de 2010 e as duas anteriores. Em 2002 e 2006, a derrota nacional estava relativamente precificada e antecipadamente compensada pela quase certa conquista do poder nos dois maiores colégios eleitorais do país. A equação agora é um pouco diferente. Os tucanos precisarão fazer sua engenharia política nacional sabendo que podem ganhar tudo, mas com inteligência suficiente para notar que podem também perder tudo, inclusive o forte poder regional.

Daí a calmaria. De um lado e de outro, no PT e no PSDB, o que mais se faz nos últimos dias é fingir que não se está fazendo nada. O Palácio fareja o ambiente e mede as consequências do repentino obstáculo que apareceu diante da ministra Dilma Rousseff. A oposição tateia para evitar que, mais uma vez, sua divisão abra caminho para a continuidade do projeto de poder do PT. No meio dos dois, o PMDB aguça ao máximo seus já naturalmente aguçados sentidos, tentando desesperadamente antecipar para que lado a balança vai pender.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Jogo do Poder com Henrique Fontana (29/04)



O líder do governo Lula na Câmara dos Deputados, Henrique Fontana (PT-RS), é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Leandro Colon, do Correio Braziliense. Clique na imagem para ver a íntegra. Ou se preferir clique aqui. Para ver os programas anteriores, clique aqui e role a página para baixo.

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O texto do dia (29/04)

Vale a pena começar o dia de hoje lendo a coluna de Delfim Netto na Folha de S.Paulo, Keynes e Marx.

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terça-feira, 28 de abril de 2009

Imune ao striptease (28/04)

O que seria do Executivo se os processos decisórios do presidente da República fossem transmitidos ao vivo em rede nacional de rádio e tevê?

O presidente da República compareceu ao noticiário semana passada para comentar as dificuldades dos demais poderes da República. Tratou das confusões que envolvem o Congresso, e também dos duelos verbais entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O Executivo mostrou-se paternal, colocou-se num plano superior. O chefe do governo não perderia a oportunidade de vir a público como alguém diferente, a salvo das desventuras que afligem o Legislativo e o Judiciário.

O Palácio do Planalto leva algumas vantagens em relação aos outros dois vértices da Praça dos Três Poderes. Para começar, o Congresso e a instância máxima da Justiça trabalham sob o olhar atento das câmeras. O que é muito bom. Qualquer decisão dos deputados, dos senadores e dos ministros do STF é acompanhada em tempo real. E não é só. Há também amplo espaço para o contraditório antes das deliberações. Isso faz uma grande diferença.

O que seria do Executivo se os processos decisórios do presidente da República fossem transmitidos ao vivo em rede nacional de rádio e tevê? Talvez Luiz Inácio Lula da Silva não estivesse tão à vontade diante do constrangimento alheio. Imaginem, por exemplo, se todas as etapas que levam à assinatura de uma medida provisória tivessem obrigatoriamente que ser veiculadas pelos canais eletrônicos. E, melhor ainda, se houvesse espaço nesse ritual para a oposição questionar a iniciativa. Para debater o mérito, os interesses envolvidos, as alternativas, as motivações dos diretamente atingidos. Seria uma festa para os jornalistas.

E se a tevê e o rádio pudessem acompanhar as reuniões de Lula com os ministros? E por que não as discussões dentro de cada ministério sobre a execução do Orçamento? Por que liberar dinheiro para a obra A, mas não para a B? Por que usar o limite orçamentário para executar o programa C, mas não o D? Por que atender a demanda do deputado Fulano, mas não a de Sicrano? O que exigir do governador Beltrano para em troca concordar com aquele seu pleito? Pois é.

O Legislativo e a Justiça estão na berlinda, entre outras razões, porque avançaram muito na transparência, porque têm as vísceras expostas ao grande público. Já o governo se aproveita do fato de operar em relativa obscuridade. A política brasileira vai se transformando num amplo Big Brother, mas o fenômeno é discricionário. O Executivo, em larga medida, está imune ao striptease institucional.

Deixando para lá
Os deputados e senadores comem o pão que o diabo amassou quando a sociedade toma conhecimento da festa que fazem com o dinheiro público. Nessas situações, é comum os parlamentares reagirem cobrando da imprensa por que ela não se atira com mesma ferocidade sobre as despesas do presidente da República e de seus ministros. O expediente não costuma colar, porque se baseia na idéia furada de que deveria haver isonomia no direito de torrar o dinheiro do povo.

Além disso, mesmo quando o Legislativo tem a oportunidade de virar o jogo acaba colocando o rabo entre as pernas. Foi o que aconteceu, por exemplo, no caso dos cartões corporativos. Bastou que vazasse do Planalto um “banco de dados” com despesas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para que a oposição subitamente perdesse o ímpeto fiscalizatório.

Hoje a Câmara dos Deputados deve virar a página do escândalo das passagens aéreas. Os senhores parlamentares irão tomar a decisão com um gosto amargo na boca, pois vão perder benesses e confortos incorporados há décadas ao ativo dos detentores de mandato no Congresso. Bem que suas excelências poderiam se vingar indo para cima das despesas dos ocupantes do Planalto e dos Ministérios. Mas é só ilusão. Não vai acontecer. Como de hábito, suas excelências vão deixar para lá.

Dilma
Do líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP), médico: “Nestes casos, o prazo para saber se a pessoa está curada é de cinco anos. Vai coincidir com o fim do mandato dela. Se estiver bem, como esperamos, ela concorre à reeleição.”

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Que sinuca! (27/04)

Lula quer relações boas com o Irã, mas não deseja ser associado internacionalmente a uma posição política que nega o direito de Israel à existência e relativiza o Holocausto nazista

À medida que se aproxima a visita ao Brasil do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, marcada para a semana que vem, cresce dentro do Itamaraty a dúvida sobre a conveniência de receber agora o líder daquela república islâmica. E a interrogação não está apenas nas mentes de diplomatas que se opõem à política externa de Luiz Inácio Lula da Silva. O incômodo estende-se também a figuras alinhadas com a orientação das relações exteriores do Brasil nos últimos seis anos.

Não há restrição no Itamaraty a estreitar relações com a República Islâmica do Irã. A dúvida é se convém no momento a Lula aparecer numa foto com Ahmadinejad, ambos sorridentes e de mãos dadas. Aliás, a chancelaria brasileira poderia ter avaliado melhor a oportunidade da data da visita, prevista para acontecer poucos dias após o encontro da ONU em Genebra sobre o racismo, apelidado de Durban 2 (o primeiro foi na cidade desse nome na África do Sul). Reunião em que Ahmadinejad teve holofotes globais para defender suas teses.

Lula quer boas relações com o Irã, mas não deseja ser associado internacionalmente a uma posição política que nega o direito de Israel à existência, suaviza a condenação do Holocausto nazista e trabalha para que o poderio nuclear iraniano seja utilizado como vetor para remover do mapa o Estado Judeu. Seria lógico, então, que Lula deixasse clara ao visitante a repulsa brasileira a esses pilares político-ideológicos do atual governo iraniano.

Mas um gesto assim poderia produzir um mal estar diplomático. Você não convida alguém à sua casa para falar mal do sujeito na cara dele -e na frente dos outros. O ideal, tecnicamente falando, seria que o negacionismo e o antissionismo de Ahmadinejad fossem excluídos da pauta, para poupar Lula do óbvio perde-perde: ou afronta o colega ou corre o risco de ser marcado como um governante que fez média com o antissemitismo e com a revisão histórica do Holocausto. Mas o problema é que se Lula decidir não tocar no assunto poderá ser acusado de omissão e de endossar a doutrina iraniana. Quem cala, consente. Que trapalhada! Que sinuca!

Do ponto de vista político, a posição de Ahmadinejad sobre o conflito no Oriente Médio tem apoio no Brasil dentro do núcleo dirigente dos partidos de esquerda, especialmente no PT e no PCdoB. As duas legendas abrem cada vez mais espaço para formulações que negam o direito de Israel existir como um Estado Judeu, mesma posição de Ahmadinejad.

Em tese, em ambos os partidos não se recusa a solução de dois estados na Palestina. Mas defende-se que os exilados palestinos e seus descendentes devam ter todos o direito irrestrito de retornar não apenas ao futuro eventual país palestino, mas também ao território onde hoje é Israel. O que naturalmente inviabilizaria a solução dos dois estados. A não ser que fossem dois estados árabe-palestinos.

Lula tem conduzido sua política externa de modo bastante cuidadoso. São movimentos pendulares, mas que nunca tomam grande distância do centro. Nas Américas, por exemplo, o Brasil consegue ser ao mesmo tempo amigo dos Estados Unidos e da Venezuela. Quando o presidente está insatisfeito com o que vem de Washington, pisca para Caracas. Mas quando Barack Obama acena para Lula, este se afasta rapidamente de qualquer discurso que possa mandar água ao moinho de Hugo Chávez. Basta comparar o antiimperialismo de Lula em Santiago no encontro preparatório do G20 com o globalismo do presidente na reunião propriamente dita.

Como se diz em Minas, esperteza se é muita vira bicho e come o dono. O Itamaraty tem um problema. A ideia de convidar o presidente iraniano ao Brasil integra uma estratégia de apresentar Lula como pacificador global, como fator de neutralização do extremismo persa. Mas, infelizmente, e apesar de todas as boas intenções, o presidente brasileiro corre agora o risco de ser mal interpretado, mundo afora, como alguém que coonesta o antissemitismo e o filonazismo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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domingo, 26 de abril de 2009

Quem ganha na crise (26/04)

Do estadao.com.br:
    Spread elevado na crise custou R$ 8,2 bi

    O aumento do spread bancário em meio à crise financeira mundial custou R$ 8,2 bilhões aos brasileiros. Significa que o equivalente a nada menos do que 1,5% do total de investimentos em produção feitos no ano passado, ou cerca de 0,5% do consumo das famílias, foi pago a mais por causa dos aumentos do spread acima do valor correspondente à inadimplência entre setembro de 2008 e fevereiro deste ano. Spread é a diferença entre a taxa de juros cobrada por bancos e financeiras nas operações de crédito e a que eles pagam para captar os recursos. O custo de captação é balizado pela taxa básica de juros (Selic), que está em queda desde janeiro. As informações são de um levantamento feito por José Ricardo Roriz Coelho, diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Os cálculos tiveram como base dados do próprio Banco Central (BC). O trabalho da Fiesp contesta o argumento dos bancos, que alegam ter aumentado o spread por causa da maior exposição das entidades à inadimplência. "O efeito da inadimplência e de outros fatores que incidem sobre o spread não justifica as altas acentuadas dos últimos meses", diz Roriz Coelho. A inadimplência cresceu 19,5% entre setembro de 2008 e fevereiro de 2009. A Fiesp, no entanto, ponderou essa alta pela participação da inadimplência no spread, que era de 37,4% em 2007 (última estimativa disponível do BC). Chegou à conclusão de que o aumento do calote justificaria uma elevação de apenas 7,3% no spread, quase a metade dos 13% aplicados pelos bancos. Ao longo dos cinco meses pesquisados pela Fiesp, as despesas dos brasileiros com pagamento de juros somaram R$ 152,6 bilhões, conforme o BC. Nas contas da Fiesp, esse gasto deveria ter sido de R$ 144,3 bilhões. Segundo a entidade, os cerca de R$ 8,2 bilhões excedentes correspondem aos aumentos injustificados do spread.
Leia a íntegra. Mais um dado a reforçar a conclusão do professor da USP Márcio Nakane (O Galileu ...), de que não se pode explicar o spread pela inadimplência constatada.

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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Parlamento atuante ou itinerante? (24/04)

Vamos falar a sério. Para que o Congresso saia da crise, é preciso em primeiro lugar que os congressistas resistam à tentação de posar como vítimas

Está enganado quem vê nas atuais pressões sobre o Legislativo a intenção oculta de fechar o Congresso Nacional. É o contrário. O que se quer é abri-lo. Ou reabri-lo. Não apenas abrir as contas das passagens aéreas, da gasolina, da alimentação, das verbas de gabinete e das assemelhadas. Mas reabrir de fato a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, para que a agenda das benesses ocultas seja superada e o poder volte a suas atividades normais.

O que não se admite, entretanto, é chantagem. Algo assim como “se eu não puder usar a minha cota de passagens aéreas para viajar com minha mulher a Londres e Paris a democracia estará seriamente ameaçada; afinal, não se pode falar em democracia sem um parlamento atuante”. Parlamento atuante não é parlamento itinerante. O leitor já percebeu que os alhos nada têm a ver com os bugalhos. Já percebeu que o político poder usar o dinheiro do povo para passear com a família de avião não é requisito indispensável para que um regime seja caracterizado como democrático.

Vamos falar a sério. Para que o Congresso saia da crise, é preciso em primeiro lugar que os congressistas resistam à tentação de posar como vítimas. Até porque não pega bem. É preciso tratar o assunto com racionalidade. Você conhece por acaso algum emprego em que o sujeito, tendo que viajar regularmente, receba da empresa verba extra para levar junto a mulher e os filhos nas viagens profissionais?

O cidadão que mora fora de Brasília e se elege deputado ou senador tem duas opções. Ou continua residindo no estado e vem à capital só para trabalhar, ou se muda para Brasília e viaja ao estado apenas a serviço. Considerando que na prática só há sessões deliberativas da Câmara e do Senado às terças e quartas-feiras, a rotina de quem decida continuar morando no estado implicará duas noites por semana fora de casa. Ora, se o cidadão não acha razoável dormir fora de casa duas vezes por semana, que não seja senador, nem deputado. Que escolha outra atividade.

E sempre há a opção de se mudar com a família para Brasília. O que também resultará em algum sacrifício. Quando tiver que ir às bases eleitorais, não poderá levar a mulher ou os filhos junto. Mas isso não chega a ser problema. Qual é o deputado ou senador que carrega regularmente a família nos périplos dos fins de semana pelos municípios? Eu não conheço nenhum. Se você conhece, peço por favor que me apresente.

A proposta já aprovada no Senado e que deve ser referendada no plenário da Câmara dos Deputados é razoável. O sujeito tem uma verba para viagens políticas. É dinheiro para ser usado em serviço pelo parlamentar e por assesssores devidamente indicados. Se não for gasto dentro do período, deixa de estar disponível. Espera-se que os deputados tenham o bom senso de aprovar a regra, para que se vire essa página e se adote uma espécie de “jurisprudência” para os demais casos de “salário indireto” que vêm por aí.

30 anos de UNE
Pena que em meio à onda de absurdos o certo esteja pagando pelo duvidoso. Uma coisa boa da cota de passagens aéreas era os deputados e senadores poderem ajudar os representantes de movimentos sociais com deslocamentos para atividades políticas. Isso nunca causou escândalo, até porque é perfeitamente possível enquadrar tais gestos como relacionados ao mandato parlamentar.

Trinta anos atrás, quando recriamos a União Nacional dos Estudantes (UNE) ainda durante o regime militar, só conseguíamos viajar pelo país graças à ajuda dos bravos parlamentares da oposição, que nos cediam parte da sua cota. Os que agiam assim não eram muitos, mas eram corajosos. Como por exemplo o ainda hoje deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ), na pessoa de quem agradeço a todos que nos honraram na época com sua generosidade.

Por falar nisso, no dia 26 de maio a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul vai homenagear os estudantes que recriaram a UNE no Congresso de Salvador em maio de 1979, e também a primeira diretoria da entidade reconstruída, a chapa “Mutirão”, eleita pelo voto direto em outubro daquele ano. A iniciativa é do deputado Adão Villaverde (PT). Será uma oportunidade para reencontrar os amigos e companheiros que participaram dessa bela página da História do Brasil.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Alguma coisa deu errado (23/04)

Vinte anos depois de a Constituinte desenhar um sistema que deveria fortalecê-lo, o Congresso Nacional está mais fraco do que nunca esteve

Uma situação recorrente em filmes de ficção científica é quando o homem tenta o controle absoluto sobre a máquina mas algo dá errado. A primeira vez que vi isso foi com "2001: Uma Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick, nos anos 1960. Dois exemplos mais recentes são "Robocop" e "Homem Aranha". Acho que tem a ver com essa coisa de o humano querer ser Deus, com maiúscula. Se Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, o homem busca a elevação tentando ele mesmo construir a máquina perfeita, o sistema perfeito.

Lembrei agora de outro filme, "Jurassic Park". O personagem que nele mais chamou minha atenção foi o matemático. Invocando a Teoria do Caos, ele dizia que produzir apenas fêmeas de dinossauros não era garantia nenhuma de que os bichos não conseguiriam se reproduzir. Até porque, advertia, a vida sempre encontra um caminho para se perpetuar. Aconteceu. O parque deu errado e teve que fechar. Aliás, a falibilidade das teorias sobre a máquina perfeita e a organização absoluta é conhecida há muito tempo. Muito antes de existir o cinema. Desde pelo menos a descoberta das leis da termodinâmica.

Talvez a Constituinte de 1988 tenha sido contaminada por uma ilusão como aquela dos cientistas de "Jurassic Park". Em contraposição a duas décadas de predomínio absoluto do Executivo sobre os demais poderes, escreveu-se uma Carta que hipertrofiou a musculatura do Congresso. Mais poder para deputados e senadores era então o remédio receitado para combater os males da ditadura. Contribuiu também a circunstância de um presidente fraco, José Sarney, e de um Legislativo muito forte, comandado por Ulysses Guimarães, então celebrado como o líder inconteste da resistência institucional ao regime que se fora.

Vinte anos depois desses fatos, é preciso reconhecer que algo deu errado. Deus talvez esteja a se vingar de nós. Vinte anos depois de a Constituinte desenhar um sistema que deveria fortalecê-lo, o Congresso Nacional está mais fraco do que nunca esteve. E não há nem mesmo a saída de dizer que isso se dá porque nós, os eleitores, colocamos lá as pessoas erradas. Essa tese floresceu durante o tempo em que o PT esteve na oposição, apresentando-se como o partido “certo”, que deveria ser posto no lugar dos partidos “errados”. Felizmente, o PT no poder se mostrou falível. Ótimo para a democracia.

O que deu errado então? Eis um bom assunto para os especialistas. Uma possível explicação está em analisar até que ponto na política a força em excesso e a ausência de controles conduzem paradoxalmente a situações de fraqueza. Há algo sobre isso no quarto volume da obra de Elio Gaspari sobre a ditadura. Numa ocasião, o Palácio do Planalto está às voltas com a discussão sobre o preço cobrado pelos táxis em Curitiba. O que leva o então chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, a concluir: “Estamos mandando tanto que não mandamos mais nada. Concentramos o poder de tal forma que produzimos um buraco negro, capaz de absorver qualquer energia”.

Tudo hoje teoricamente passa pelo Congresso. Qualquer coisa precisa de uma lei. O que em tese deveria colocar o Executivo de joelhos diante do Legislativo. Mesmo nas medidas provisórias, bastaria que os deputados e senadores rejeitassem pelo menos as mais absurdas, por falta de relevância ou de urgência. Ou pala falta de ambas. Mas nada acontece. Dizer que é porque o governo controla a maioria é uma tautologia, uma justificação que se legitima a si mesma. Ora, todo governo no mundo ou tem maioria congressual ou cai, de um jeito ou de outro. Isso não é explicação que se dê.

A vida encontrou outros caminhos e o Congresso está de joelhos. E por onde começar a reengenharia? Uma coisa boa é atacar, como está finalmente sendo feito, os absurdos administrativos. Mas não basta. Deputados e senadores precisam encontrar caminhos para retomar as prerrogativas que, em meio ao excesso de poder formal, acabaram sendo absorvidas pelos outros dois vértices da Praça dos Três Poderes. O Congresso precisa dar um jeito, principal e urgentemente, de voltar a elaborar o Orçamento, em vez de preocupar apenas com as emendas que nele possa introduzir. Precisa também dar uma solução definitiva para as medidas provisórias, se possível extingui-las.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Uma homenagem a nós (22/04)

Por iniciativa do deputado estadual Adão Villaverde (PT), a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul homenageia no próximo dia 26 de maio os estudantes que recriaram a União Nacional dos Estudantes (UNE) 30 anos atrás. O convite é o da imagem (clique para ampliar). Uma oportunidade para reencontrar os amigos e companheiros que participaram do Congresso de Salvador, em maio de 1979, e da primeira diretoria da entidade, eleita pelo voto direto em outubro daquele mesmo ano.

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Jogo do Poder com Francisco Dornelles (22/04)



O presidente nacional do Partido Progressista (PP), senador Francisco Dornelles (RJ), é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Ricardo Amaral, da revista Época. Clique na imagem para ver a íntegra. Ou se preferir clique aqui. Para ver os programas anteriores, clique aqui e role a página para baixo.

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terça-feira, 21 de abril de 2009

O buraco a bombordo (21/04)

Para um partido que está disposto a abrir mão de quaisquer projetos regionais em troca de continuar na cadeira maior, a de presidente da República, um jogo de dois ou mais nomes na base governista em 2010 é arriscado além da conta

Pipoca no noticiário há meses a hipótese de Luiz Inácio Lula da Silva flertar com a assim chamada fórmula pernambucana na sucessão presidencial de 2010. O governo teria dois candidatos e um apoiaria o outro no segundo turno contra o nome do PSDB. Parecido com o que aconteceu em Pernambuco em 2006, quando Humberto Costa (PT) ficou fora da decisão e ajudou Eduardo Campos (PSB) a derrotar Mendonça Filho (PFL, hoje Democratas).

Neste fim-de-semana, porém, o repórter Daniel Pereira escreveu no Correio Braziliense reportagem onde reafirma que Lula vai mesmo trabalhar para que o governo tenha um único nome. Dilma Rousseff, do PT. E a operação política começa exatamente por atrair o PSB, única legenda do consórcio governista que tem um potencial contendor, Ciro Gomes, capaz de rivalizar com a chefe da Casa Civil.

Por que a fórmula pernambucana faz água e se mostra pouco atraente para o presidente? Ora, porque Lula é cada vez mais PT, assim como o PT é cada vez mais Lula. O presidente faz questão de eleger o sucessor. Até aí nada de mais. Mas não é qualquer sucessor, é alguém do PT. E não qualquer um do partido, mas um candidato ligado ao grupo político dele, Lula. Ou melhor, ligado ao próprio presidente. Com o compromisso de garantir a continuidade, sem vacilações ou concessões.

A fórmula pernambucana seria conveniente a Lula se ele tivesse a garantia prévia de que a candidata do PT estará no segundo turno. Ainda que esse cenário seja muitíssimo provável, não é 100% garantido num quadro pulverizado. Especialmente se a nau governista apresentar um rombo a bombordo, no casco da esquerda. Qual será o efeito, daqui a um ano, de alguém como Ciro a percorrer o país dizendo que vai fazer o que Lula não pôde, ou não quis? Dizendo, por exemplo, que vai baixar os juros, enquadrar os bancos e atacar o spread? Que vai avançar na reforma agrária e começar a reforma urbana?

A última coisa de que Lula e sua candidata necessitam é uma dor de cabeça assim. Pois Dilma, como todo postulante a um “terceiro mandato”, precisará responder durante a campanha à pergunta tradicionalmente repetida nessas ocasiões: “Se a senhora diz que vai fazer, por que ainda não foi feito, mesmo tendo sido a senhora a mais forte ministra do presidente Lula, a mãe do PAC, a ministra diante de quem os colegas tremiam?”

A receita de Lula de um governo de conciliação com o capital financeiro e ênfase nos investimentos sociais funciona bem, politicamente falando, quando não existem alternativas de poder real à esquerda. Em 2010, portanto, Lula trabalhará para que a polarização na campanha se dê entre os que “defendem um governo social comandado pelo PT” e os que “pretendem reinstalar em Brasília um governo neoliberal liderado pelo PSDB”.

Esse enredo, marqueteiramente bem construído, ficaria manco com a introdução de uma opção viável à esquerda. Ainda mais se a ex-senadora e hoje vereadora (Maceió) Heloísa Helena (PSol) também estiver na briga. Não é improvável que num quadro desses Dilma tenha que passar o primeiro turno sendo atacada por todos. Como aconteceu com José Serra em 2002.

O problema da fórmula pernambucana é que nela o PT pode perder. Como aliás perdeu em Pernambuco dois anos e meio atrás. E para um partido que está disposto a abrir mão de quaisquer projetos regionais em troca de continuar na cadeira maior, a de presidente da República, um jogo de dois ou mais nomes na base governista em 2010 é arriscado além da conta.

Claro que o poder tem seus trunfos. O PT pode ameaçar com candidatos petistas apoiados por Dilma e Lula nos estados onde os governadores do PSB querem a reeleição. Mas além dos tapas talvez o PT tenha que oferecer ao parceiro também alguns beijos. Daí por que não se estranha que dentro do petismo haja uma certa torcida para que o PMDB se enrole nas suas costumeiras confusões e fique impossiblitado de exigir a vice na chapa.

O PSB parece saber disso. Quem assistiu ao programa partidário dos socialistas veiculado em rede nacional na semana passada (veja no YouTube) verificou que eles começaram a colocar o foguete na rampa de lançamento. Se ele vai ser lançado, aí já é outra história.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Ensaio sobre a nossa cegueira (20/04)

Há um surto de falta de visão em Brasília. O poder não percebe que vem se descolando progressivamente do cidadão médio. E os políticos acreditam que o povo aceitará isso para sempre

O jornal O Estado de S.Paulo trouxe neste domingo a informação de que aumentaram os casos de cegueira no país. Uma explicação é o fim dos mutirões para cirurgia de catarata. Certo dia, um burocrata qualquer decidiu que seria melhor remodelar o sistema, colocando em uma cesta de intervenções cirúrgicas de média complexidade os recursos que antes serviam para pagar as operações de catarata.

Ah, uma coisa assim absurda deveria trazer duras consequências aos responsáveis. Alguém deveria ser punido. De preferência, quem teve a ideia e a implementou. Seria lógico. Mas se você apostar que nada irá acontecer certamente vai ganhar a aposta. Quem é que se preocupa com os portadores de catarata que não podem pagar uma cirurgia para retomar a visão? O que é o simples cego pobre quando comparado com o burocrata cheio de razão e poder “normatizante”?

É um caso pontual, mas emblemático. Ontem, o Correio Braziliense exibiu reportagens sobre como o dinheiro dos ministérios é generosamente destinado a organizações supostamente “não governamentais”, comandadas por aliados políticos dos ministros. É difícil arrumar dinheiro público para tornar mais ágeis as operações de catarata nos pobres, mas é fácil mobilizar dinheiro do povo para lubrificar os projetos dos donos do poder.

Assim como tampouco escasseiam os recursos para que deputados e senadores viajem com suas famílias ao exterior à custa do Tesouro. No que essas viagens ajudam o parlamentar a bem cumprir o mandato? O que tais passeios têm a ver com a tarefa de representar o eleitor no Congresso Nacional? Nada. Uma coisa é usar o dinheiro da cota de passagens aéreas para fazer andar o trabalho político. Outra é torrar o dinheiro dos impostos em atividades de lazer para suas excelências.

E o senador, riquíssimo, que converteu suas passagens e gastou meio milhão de reais com jatinhos? E o outro senador, morto há pouco, cuja viúva obteve do Senado, em dinheiro bem vivo, o saldo das passagens não utilizadas pelo falecido? Para essas coisas não falta verba. Mas se o sujeito é pobre, precisa operar a catarata e agora não tem mais o mutirão, que aguarde sentado. De preferência trancado em casa. Ouvindo rádio e tevê. Pois o governo decidiu combater o “populismo”.

Já nos estados, virou hábito o candidato derrotado a governador assumir o cargo quando o vencedor é cassado pela Justiça Eleitoral. Nada contra as cassações. Que os maus políticos sejam removidos. O problema começa quando os tribunais eleitorais passam a ocupar o lugar do eleitor. O que isso tem a ver com democracia? Nada.

Não estou aqui a criticar os tribunais. Eles apenas cumprem a função constitucional de interpretar e fazer valer a legislação. Se a lei diz que o segundo colocado deve assumir o cargo nessas situações, que a lei seja cumprida. O problema está no Congresso Nacional, que assiste passivamente ao absurdo e nada faz. Por que senadores e deputados não votam em regime de urgência uma norma que determine novas eleições quando o titular perde o cargo? Qual é a dificuldade de fazer isso num país de voto eletrônico universal, e cujas campanhas eleitorais acontecem praticamente só na mídia?

Mas isso significaria ampliar a soberania popular, aumentar o controle do povo sobre os políticos. E a coisa mais difícil de encontrar hoje em dia em Brasília é alguém sinceramente preocupado com o que o povo acha das coisas. Infelizmente, os nossos políticos parecem tomados por um espírito de gafanhoto. Comportam-se como enxames de gafanhotos. Por onde passam, não sobra nada. O normal seria eu escrever aqui “com as honrosas exceções de praxe”. Mas vai que amanhã a tal exceção aparece no noticiário mostrando que não é tão exceção assim?

Este texto começou tratando de pobres que ficam cegos porque não conseguem se operar de catarata na rede pública. Pensando bem, a doença não é só deles. Há um surto de cegueira em Brasília. O poder não percebe que vem se descolando progressivamente do cidadão médio. Em parte porque não há uma força real a se contrapor -como fazia o PT no passado. Em parte porque os políticos acreditam piamente que o povo aceitará isso para sempre.

O título da coluna eu tomei emprestado, é claro. Que o Saramago me desculpe, mas não achei um melhor.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Do que se trata (17/04)

Josias de Souza faz um apanhado dos temas em debate na Cúpula das Américas que começa hoje em Trinidad-Tobago. Como subsídio para quem se interessa pelo tema, talvez valha a pena recorrer a três posts publicados neste blog. Janela de Oportunidade e Obama seguiu meu conselho. E o "smart power" de Lula, de janeiro deste ano, e Integrar para não entregar, de março último. Não tem segredo. Enquanto Barack Obama mantiver aberta nem que seja um fresta para Luiz Inácio Lula da Silva enfiar nos Estados Unidos parte do encalhado etanol brasileiro, tudo estará bem entre ambos. É só disso que se trata.

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A federação do nada pode (17/04)

No universo ambientalmente correto, há vetos para todos os gostos. O movimento ambientalista no Brasil adquiriu a face de uma federação de vetos

A agenda ambientalista enfrenta entre nós sérias dificuldades para sobreviver e para se adaptar ao “fim do fim” da História, com a quebra da unipolaridade e a emergência de nações como a nossa, sedentas de progresso. A proposta de eliminar a exigência de licença prévia para asfaltamento e duplicação de rodovias já abertas, projeto em tramitação acelerada no Congresso Nacional, é pontual mas simbólica. Aliás, qual é mesmo o sentido de exigir licenciamento ambiental para asfaltar uma estrada? Ou para duplicá-la?

O debate do tema tem o mérito de escancarar um fato: ao longo de anos, a agenda ambiental brasileira foi infelizmente convertida em instrumento para travar o desenvolvimento nacional. O caso da Amazônia é emblemático: em meio a um gigantesco potencial hidrelétrico, queima-se óleo combustível para produzir luz. Por quê? Porque há todo um aparato ideológico e propagandístico a operar a tese de que usinas hidrelétricas na Amazônia são inaceitáveis, ambiental e socialmente falando. E a fumaça do óleo queimado? Dela ninguém fala.

O PT surfou em ondas ecológicas durante suas duas primeiras décadas de vida, nutriu-se dos movimentos ambientais e sociais, usou-os como escada para chegar ao poder, mas agora enfrenta um problema. Dado que no governo o partido não quis —ou não pôde— realizar qualquer reforma estrutural que envolvesse a propriedade, restou-lhe a bandeira do desenvolvimentismo. O PT não executou uma reforma agrária qualitativa ou quantitativamente diferente da que vinha sendo feita desde o governo Castelo Branco, nos anos 1960. Não avançou tampouco na reforma urbana.

Sobrou o desenvolvimento. Mas, na tentativa de anabolizar a tese, o partido enfrenta, além da sombra do discurso verde feito no passado, os aliados sociais históricos e a rede de contenção que esse discurso ajudou a tecer. Não se trata apenas de apagar ideias e substituí-las por outras, mais adequadas ao momento: é preciso enfrentar a resistência política do ambientalismo e da aliança deste com os movimentos sociais.

Quem conversa com militantes ambientalistas não alojados na máquina governamental percebe o crescente desconforto em relação à ministra Dilma Rousseff. Pouco a pouco, a chefe da Casa Civil e virtual candidata do PT ao Palácio do Planalto vai atraindo para si uma certa desconfiança dos verdes, para não falar de uma certa irritação. Nos encontros e debates da rede ambiental, a imagem dela aparece cada vez mais associada a essa guinada do PT. O fenômeno é conhecido: a flexão política é de Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto os custos ficam para os outros. No caso, para Dilma.

Mas já que a candidata desta vez é Dilma, e não Lula, eis um problema para o PT resolver nos próximos meses. Como expurgar dos movimentos sociais e da rede ambientalista a dúvida sobre as reais intenções programáticas da ministra em relação à agenda verde. Para complicar a missão, não há propriamente uma pauta ambiental no país, mas uma miríade de micropautas, patrocinadas cada uma pelo seu respectivo grupo de pressão.

Assim, ainda que eventualmernte um governo (ou um candidato) deseje rascunhar uma agenda ambiental pacificadora com A, B e C, sempre correrá o risco de continuar sendo atacado, por não ter contemplado as reivindicações de D. E daí ao infinito. No universo ambientalmente correto, há vetos para todos os gostos. Usina hidrelétrica? Não pode. Usina nuclear? Não pode. Estrada na Amazônia? Não pode. Hidrovias na Amazônia? Também não pode. A verdade é que o movimento ambientalista no Brasil adquiriu a face de uma federação de vetos. A federação do nada pode.

Obviamente que nenhum país com demandas econômicas e sociais represadas no grau do nosso aceitaria pacificamente uma situação assim. Daí que a agenda ambiental comece a mostrar vazamentos por todos os lados. Este texto é sobre a ministra Dilma. Mas poderia ser sobre qualquer outro candidato, pelo menos entre os viáveis. Quem vai ter coragem de chegar na campanha do ano que vem e dizer que o Brasil precisa conter o crescimento, precisa sacrificar empregos em nome da luta contra o aquecimento global?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Jogo do Poder com José Aníbal (15/04)



O líder do PSDB na Câmara dos Deputados, José Aníbal (SP), é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Vera Magalhães, da Folha de S.Paulo. Clique na imagem para ver a entrevista na íntegra. Para ver os programas anteriores, clique aqui e role a página para baixo.

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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Duas leituras complementares no feriado (09/04)

Santa semana (09/04)

Até depois do feriado. Volto na quarta (15).

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Finalmente (09/04)

O governo finalmente se mexeu, demitiu o presidente do Banco do Brasil e deu sinais de que vai lutar para reduzir o spread bancário. Gol de Luiz Inácio Lula da Silva. Vamos ver se vai funcionar, mas só o fato de o governo ter tomado a iniciativa já merece aplausos. O assunto vem sendo martelado aqui há meses, e nada tenho a acrescentar. O mercado reagiu mal, o que é bom. As ações do banco caíram, por causa das projeções de queda na lucratividade. Ótimo. Está mesmo na hora de bancos lucrarem menos. Ou então, se querem lucrar mais, que emprestem a mais gente, ganhando um pouquinho com cada um. Isso seria civilizado. Que o BB aumente sua participação no mercado. O Brasil sairá ganhando. Ainda que tenhamos de ouvir as lamúrias dos advogados do nosso capitalismo de mentirinha, que sob a máscara da defesa da livre-concorrência advogam mesmo é para os cartéis e oligopólios. Apenas para registrar, trechinho de um post do já distante 8 de outubro de 2008, no comecinho da crise (Estatais, graças a Deus).
    O título deste post? Trata-se de uma homenagem ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal. Espero que nos ajudem a sair desta. Graças a Deus, não conseguiram privatizá-los, quando isso estava na moda.
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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Que seja o primeiro de uma lista (08/04)

No globo.com:
    Lula demitirá presidente do BB por causa de juros altos

    RIO - O governo federal vem aumentando sua pressão para os bancos cortarem as taxas de juros, como forma de estimular a economia brasileira em meio à crise global. Desde o agravamento da turbulência financeira, em setembro do ano passado, o governo está centrando fogo na redução dos spreads bancários - a diferença entre o custo de captação dos bancos e o que eles cobram nos empréstimos a seus clientes. Insatisfeito com as altas taxas de juros cobradas pelo Banco do Brasil, o presidente Lula decidiu trocar o presidente da instituição, Antônio Francisco de Lima Neto, como informa Ancelmo Gois em sua coluna na edição desta quarta-feira do jornal O Globo.
Leia a íntegra da reportagem. Que tal fazer o mesmo no Banco Central?

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terça-feira, 7 de abril de 2009

Jogo do Poder com Álvaro Dias (07/04)

O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Leandro Colon, repórter do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, clique aqui e role a página para baixo.



Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5


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segunda-feira, 6 de abril de 2009

E o physique du rôle? (06/04)

O PT descia o sarrafo nos bancos e hoje anda de mãozinha dada com o cartel. Com tucanos e democratas seria diferente?

Um efeito palpável da crise é a revogação de vetos, a queda de barreiras que impediam o debate de certos assuntos. Um tema que deixou o índex é o spread bancário, a diferença entre o juro que se cobra de quem pega emprestado e o juro pago ao poupador. O spread brasileiro é de longe o campeão mundial da usura. Mas nunca tinha entrado para valer na pauta da opinião pública. Habituamo-nos a achar um escândalo o deputadozinho embolsar alguns trocados com falcatruas na verba indenizatória. E é mesmo. Já o banco cobrar, sei lá, 10% ao mês no cheque especial por um dinheiro que lhe custa 1% sempre nos pareceu normal. Coisas do Brasil.

Mas nada resiste aos fatos. Após um longo torpor, a megacrise mundial das finanças empurrou o tema dos juros para o primeiro ponto da agenda nacional. O crédito secou e ficou ainda mais caro. O crescimento brasileiro na Era Lula deve-se em boa medida ao crédito abundante. Com mais crédito, o governo criou a demanda -e os empresários saíram atrás dos clientes. Empresários munidos daquele “espírito animal” de que costuma falar o ex-ministro Delfim Netto. Mas o fenômeno tem duas mãos. Se as torneiras do crédito estão secas e a confiança do consumidor anda em baixa, é natural que os empresários se retraiam e deem prioridade ao caixa, em vez do market share.

O debate sobre os juros não é fácil de ser travado. Há todo um aparato ideológico a repetir incansavelmente que o alto spread nacional se deve à inadimplência. Ou seja, os bons pagadores pagam pelos maus. Isso é martelado como verdade absoluta. Falta porém a comprovação científica. Será que somos o povo mais caloteiro do mundo? Que números provam isso? A academia, aliás, começa a ir na contramão da tese. Um estudioso do assunto, o economista e professor da USP Márcio Nakane, após analisar tecnicamente as possíveis relações de causalidade entre spread e inadimplência no Brasil, descobriu que não se pode culpar a inadimplência passada pelo spread. Mas, vejam só!, o professor concluiu também que é possível dizer o inverso: que o spread é causa de inadimplência.

Mesmo sem ter estudado economia, qualquer cidadão sabe disso. Entrou para valer no cheque especial? Peça a Deus por sua alma. Ou então prepare-se para a quebra. Enrolou-se no empréstimo consignado? Reze, mas reze muito por um milagre. Aliás, o consignado é um exemplo das contradições da política de Lula. É bom que a modalidade tenha se expandido? É ótimo. Mas por que cobrar um spread de, digamos, 20 pontos percentuais numa modalidade praticamente sem risco? Ainda mais se o tomador é um funcionário público?

Infelizmente, parece faltar ao governo a vontade necessária para atacar o problema de frente. E isso quando temos em palácio gente que passou a vida dizendo que se chegasse ao poder daria um jeito nos bancos. Aliás, é hora de o PT abrir o olho. Num sistema como o nosso, com mandatos de oito anos na prática (com um plebiscito no meio), o nome que representa a tentativa de um terceiro período consecutivo para o mesmo grupo político precisa responder a uma pergunta simples mas potencialmente letal. Se diz que vai fazer tal e qual coisa, por que então não fez nos oito anos em que ocupou a cadeira? O povo é sábio.

Sempre há porém um jeitinho de construir o discurso para explicar os porquês. O PT pode dizer que o juro alto é herança estrutural, e que lamentavelmente não foi dado ao partido poder suficiente para mexer nesse vespeiro. A solução? Mais quatro anos para o PT. E com mais musculatura. Seria engenhoso. Transformar a fraqueza em força. Resta saber se colaria. Mas o PT tem outra carta na manga. O eleitor olha para a oposição e não vê nela o physique du rôle, para usar a expressão dos franceses quando querem designar alguém adaptado ao papel que desempenha. O PT descia o sarrafo nos bancos e hoje anda de mãozinha dada com o cartel. Com tucanos e democratas seria diferente?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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domingo, 5 de abril de 2009

Meirelles tem razão (05/04)

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, deu entrevista na edição de hoje do estadao.com.br. Um trecho:
    A última ata do Copom apontou que a poupança é um limitador para a queda dos juros. Como mexer em tema tão sagrado para o brasileiro comum?

    Em primeiro lugar, temos de separar o que é o pequeno poupador, que não tem conhecimento do mercado financeiro, dos grandes investidores. A segunda questão é que a sociedade brasileira está aguardando por muitos anos uma queda dos juros. Temos de ser consistentes com a queda dos juros. Não podemos ter uma queda para empréstimos e, ao mesmo tempo, dizer que não pode haver queda em alguns investimentos. A queda dos juros no Brasil, em ocorrendo, tem de premiar toda a economia.

    É possível preservar o pequeno poupador e mexer com o grande?

    Não há, ainda, nenhuma decisão tomada.

    Mexer na TR (taxa referencial, usada no cálculo da remuneração da caderneta de poupança) é uma possibilidade?

    Pode ser uma solução, dependendo da evolução no longo prazo. A longo prazo, temos um limite que é o rendimento real de 6%. Essa é uma questão que, cedo ou tarde, terá de ser encaminhada.

    O brasileiro está preparado para conviver com uma rentabilidade de suas aplicações bem mais baixa do que até agora?

    Esse é o desafio. Espero que daqui a pouco o BC não comece a ser criticado por manter juro muito baixo. Uma das coisas que muitas vezes algumas pessoas não gostam que se diga, mas é realidade: é a primeira vez em décadas que o BC pode, numa crise, baixar os juros para estimular a economia. Não temos mais de estar preocupados com vulnerabilidades. É um ganho do processo de estabilização da economia.
Leia a íntegra. O presidente do BC tem razão. Não faz sentido deixar a poupança intocada num ambiente econômico em que toda a pressão sobre o BC é para baixar os juros.

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sábado, 4 de abril de 2009

"Coisa de primeiro mundo" (04/04)

Já faz alguns dias que Pedro Dias Leite publicou uma boa entrevista com Anthony Giddens no caderno Mais!, da Folha de S.Paulo. Um trecho:
    FOLHA - O sr. fala que as nações em desenvolvimento deveriam ser autorizadas a emitir mais carbono no curto prazo, mas isso não funciona. Os EUA e a União Europeia, com medo de perderem competitividade, já disseram que isso é inaceitável. Como resolver essa equação?

    GIDDENS - Não podemos impedir os países em desenvolvimento de se desenvolverem. Não seria moralmente correto nem seria factível, na prática. Parte desse desenvolvimento tende a depender pesadamente de combustíveis fósseis e, logo, de emissões de carbono. É por isso que os países já industrializados têm de arcar com 95% do fardo pelos próximos 10, 15, 20 anos até, para reduzir as emissões. Por outro lado, é preciso que o mundo em desenvolvimento assuma um papel importante, não mais a posição passiva, de que isso "não tem nada a ver com a gente". Mas, no caminho, precisamos de avanços tecnológicos e de grandes áreas daquilo que chamo de "convergência econômica e convergência política", para que os países em desenvolvimento sigam um caminho diferente do que o que estão seguindo agora. Em primeiro lugar, estamos atrás de avanços tecnológicos que sejam capazes de levar os países em desenvolvimento a pular algumas etapas de desenvolvimento. Em segundo lugar, estamos procurando vários acordos bilaterais, não apenas a conferência de Copenhague, especialmente entre EUA e China, que produzem quase 50% das emissões. Idealmente, é necessário algum acordo entre os dois, como os EUA permitirem acesso a inovações tecnológicas, com a suspensão de patentes, em troca de algum tipo de concessão da China para os EUA. Mas isso é determinado politicamente. Se não há como repetir o modelo de desenvolvimento, temos de encontrar avanços. Até agora, não conseguimos. A China ainda está fazendo usinas de carvão. Os políticos se sentem muito confortáveis, prometendo cortar as emissões em 80% até 2050, mas não ficam nem um pouco felizes quando você diz que precisam começar agora. Existe muita retórica vazia nesse debate e temos de ver como superar isso para que os acordos sejam atingidos. Temos de olhar para o que pode ser feito, de modo a produzir uma combinação de competitividade e mudança tecnológica. Estou convencido de que países que seguirem o caminho tradicional de desenvolvimento industrial não serão competitivos no médio prazo.
Leia a íntegra. Giddens vem de lançar um livro sobre o assunto, "The Politics of Climate Change" (A Política de Mudança Climática). Vou ler. É óbvio que não dá para pedir aos pobres que diminuam as emissões de carbono. Giddens traz com ele muito do lero-lero da "terceira via", mas só fato de ter caído na real já merece palmas. Lero-lero é por exemplo dizer que não dá para os emergentes seguirem "o caminho tradicional de desenvolvimento". O problema é que o outro caminho, intensivo em capital e tecnologia, é mais caro. E quem vai pagar a conta? Uma regra de ouro das sociedades humanas é que elas invariavelmente se desnvolvem maximizando recursos e constrangendo custos. Ninguém derruba árvore por achar bonito. É que derrubar árvore, comercializar a madeira e soltar o gado sai mais barato do que as alternativas oferecidas pelo "primeiro mundo". Aliás, há quanto tempo você não ouve a expressão "coisa de primeiro mundo"? É, a turma anda em baixa. Santa crise.

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sexta-feira, 3 de abril de 2009

Grandes números, grandes diferenças (03/04)

Leia (em inglês) o texto do Financial Times (ft.com) Large numbers serve to hide big divisions. O site vai pedir que você se registre. É grátis, não tenha medo (nem preguiça). Um tradutor automático está em http://translate.google.com/. Tem também uma tradução na Folha de S.Paulo de hoje.

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Não é hora de ser bonzinho (03/04)

Orgulhe-se do seu prestígio, presidente Lula, mas se o dinheiro está sobrando invista-o aqui mesmo no Brasil

A reunião do G20 em Londres teve um resultado prático. Os países parecem ter concordado em fazer uma caixinha para reforçar o Fundo Monetário Internacional (FMI), e assim capacitá-lo a intervir nas nações mais sujeitas à bancarrota. No mais, o convescote londrino produziu as costumeiras declarações de intenção. Na vida real, por outro lado, os Estados Unidos rechaçaram a ideia de entregar o comando de sua economia a um hipotético órgão de governança global. E pouquíssimo foi feito de concreto contra o protecionismo.

Olhe-se o retrato oficial do encontro e observar-se-á um plantel de líderes impopulares, ou em grave risco de impopularidade. As notáveis exceções talvez sejam Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva. O americano é 100% inocente, não tem qualquer culpa no desastre econômico-financeiro global. Aliás, elegeu-se derrotando os que provocaram o tsunami. Já os demais, de um jeito ou de outro, andaram surfando na “exuberância irracional”, termo que leva mais de uma década mas que só agora parece ter adquirido o completo significado.

Então, todos precisam dar a impressão de que estão fazendo algo. A coisa não anda fácil para ninguém. O anfitrião do conclave dos salvadores do planeta, o premiê trabalhista Gordon Brown, até ganhou certo fôlego na passagem do ano, ao sair na frente e defender a intervenção estatal nos bancos. Mas o tempo passou e ele voltou a cair nas pesquisas. Está, como é seu hábito desde que substituiu Tony Blair, comendo poeira atrás dos conservadores.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, também desce a ladeira. Os levantamentos de opinião pública mostram que engorda a cada dia o já amplamente majoritário contingente que desaprova o governo dele. Os franceses, assim como os britânicos, pedem mais ação e menos conversa fiada. O problema é não haver dinheiro suficiente. Por quê? Porque a bonança pré-crise se devia em boa parte a uma riqueza fictícia, parida pelos (e para os) gênios do mercado financeiro. Aquele mundo não volta mais. E não é fácil para ninguém aceitar a ideia de estar mais pobre. E de que só será possível sair da situação com trabalho, muito trabalho.

Mas voltemos a Londres. Parece que agora os brasileiros vamos enfiar a mão no bolso para ajudar o FMI. Não há dúvida de que no plano simbólico é uma vitória e tanto para Luiz Inácio Lula da Silva. Um país que vivia de pires na mão a cada crise hoje é chamado a ajudar a enfrentar a tempestade financeira. Parabéns, presidente Lula. Dito isso, talvez seja o caso de questionar se, para além do orgulho e da satisfação pelo prestígio, haverá algum motivo adicional que nos leve a apertar ainda mais o cinto e ajudar a pagar a conta de uma crise criada pelos outros.

O Brasil não quebrou, é verdade, mas nossos números pedem cuidado. A curva das receitas públicas segue para baixo, enquanto a das despesas está, numa visão benigna, engessada. A balança comercial mal e mal se mantém num patamar medíocre, graças principalmente à queda das importações. Não que elas estejam sendo substituídas por produto nacional. É que a economia está atolada. Pior ainda, somos um país que não imprime moeda forte (por razões óbvias), nem se arrisca a fazer mais dívida (por falta de vontade política dos nossos governantes).

Quem deve pagar a conta da crise? Quem deve socorrer as nações falimentares, que acreditaram no “Fim da História” e abriram enlouquecidamente suas economias? Ora, quem imprime moeda forte e está disposto a se endividar. Você sabe de quem estou falando. Orgulhe-se do seu prestígio, presidente Lula, mas se o dinheiro está sobrando invista-o aqui mesmo no Brasil. E deixe que os Estados Unidos e a Europa, mais precisamente a Alemanha, absorvam o custo de suas aventuras imperiais das duas últimas décadas. Não foram eles que prometeram o paraíso da “globalização” ao Leste Europeu? Então que se virem para dar um jeito na situação.

Não é hora de ser bonzinho. Nenhuma potência, das dignas do nome, está sendo.

Coluna (Nas entrelinhas publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Jogo do Poder com Aloizio Mercadante (31/03)

O líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP), é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também Ilimar Franco, titular da coluna Panorama Político do jornal O Globo. Para ver os programas anteriores, clique aqui e role a página para baixo.



Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5 - Parte 6


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