terça-feira, 31 de março de 2009

Quanto à data (31/03)

Quanto à data de hoje, nada tenho a acrescentar ao que escrevi três anos atrás no post 31 de março, há 42 anos. Um texto muito atual, como você poderá constatar.

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segunda-feira, 30 de março de 2009

Ladeira abaixo (30/03)

Deflação forte no IGP-M:
    O Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), referência para o reajuste de aluguéis, registrou em março uma queda bem maior que a esperada pelo mercado, refletindo uma forte diminuição nos custos no atacado. O indicador declinou 0,74%, ante alta de 0,26% em fevereiro, informou a Fundação Getúlio Vargas (FGV) nesta segunda-feira. Esta foi a maior retração desde junho de 2003, quando o índice recuou 1%. No ano, o IGP-M acumula queda de 0,92%, mas nos últimos 12 meses tem alta de 6,27%.
BC e mercado reduzem ainda mais a projeção de crescimentodo PIB. O BC:
    O Banco Central (BC) reduziu para 1,2% a previsão para o crescimento do do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009. Há três meses, a expectativa da autoridade monetária era de evolução real da atividade em 3,2% neste calendário. Essa mudança, conforme o Relatório de Inflação de março, é "consistente com a evolução na margem dos principais indicadores do nível da atividade da economia brasileira e com a deterioração das expectativas, registradas no início deste ano".
O mercado:
    O mercado financeiro brasileiro continua vendo a economia estagnada e a inflação abaixo do centro da meta este ano e começa a sinalizar um corte maior na taxa de juro em abril, segundo o relatório Focus divulgado nesta segunda-feira. A previsão para o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009 caiu de 0,01% na semana anterior para zero. O cenário para 2010 permaneceu em 3,50%.
Mas o BC, segundo o mercado, parece perseguir uma inflação abaixo do centro da meta:
    A estimativa para a alta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano caiu de 4,42% para 4,32%, enquanto para 2010 ficou estável em 4,50%. O número previsto para este ano está abaixo do centro da meta perseguido pelo governo, que é de 4,5%.
Todos os textos são de reportagens no globo.com. E uma observação: os números do mercado para a inflação estão defasados. A prova é que a deflação do IGP-M (-0,74%) veio bem mais forte que se previa (-0,34%). Alguém pode explicar qual é o sentido de se perseguir uma inflação abaixo do centro da meta numa economia que afunda?

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Não façam o que eu faço (30/03)

Um ótimo cassino para jogar hoje em dia é o Brasil de Lula. 100% de chance de ganhar. É só pegar dólares emprestados, o que anda baratinho, trocar por reais e comprar títulos do governo brasileiro

Uma das coisas mais curiosas dos últimos dias foi o presidente da República dizer que não estabeleceu prazo para a construção do um milhão de habitações do novo, e elogiável, programa federal. Daí que, segundo Luiz Inácio Lula da Silva, o governo não deva ser questionado no futuro sobre o ritmo da execução do programa. Lula parece que descobriu a fórmula para manter o monarca sempre feliz, a salvo da cobrança dos súditos. O governo vai erradicar a tuberculose. Quando? Sei lá. O governo vai acabar com o analfabetismo. Quando? Não enche. O governo vai duplicar a rodovia do litoral. Para quando vai ser? Vê se não amola.

O Brasil parece mesmo um país vocacionado para coisas bizarras. Investigação aponta grave suspeita de que o senador fulano de tal recebeu dinheiro de uma empreiteira. E não é que o senador recebeu mesmo? Dinheiro legal, com recibo, declarado à Justiça Eleitoral. Custava as autoridades checarem, antes de divulgar a informação? Vai ser uma pena se escorregões assim acabarem atrapalhando o importante trabalho das instituições na luta contra os malfeitos.

E as prévias do PSDB? A Justiça Eleitoral decidiu que elas podem sim acontecer, desde que na clandestinidade. Os “pré-candidatos” tucanos não podem fazer propaganda nos meios de comunicação. Nem mesmo montar um modesto web site para explicar por que desejam sentar naquela cadeira do Palácio do Planalto. Ah, sim, podem mandar e-mails, mas só para filiados ao partido. E se um filiado qualquer pega o e-mail e manda a um não filiado, estará cometendo crime eleitoral? E se o sujeito imprimir o e-mail e mostrar para um amigo, pode ser multado?

Em Viña del Mar (Chile), no encontro de presidentes progressistas, Lula empostou a voz para dizer que "o mundo está pagando o preço do fracasso de uma aventura irresponsável daqueles que transformaram a economia mundial em um gigantesco cassino”. É verdade, Lula tem razão. Há porém um problema. Um dos melhores cassinos para jogar hoje em dia é o Brasil governado por Lula. O apostador joga com 100% de chance de ganhar. Basta tomar emprestados dólares, ou euros, ou ienes (tudo muito baratinho hoje em dia), trocar por reais e comprar títulos do governo brasileiro. É filé sem osso. O único cassino em que o dono (o contribuinte brasileiro) sempre perde.

Lula disse também que é hora de fortalecer o Estado. Possivelmente para que não aconteça como no Brasil, onde o governo federal terceirizou para uma instituição controlada pelo setor privado (o Banco Central) a execução da política monetária, dando no que deu. Isso foi mais uma piada minha. Mas só até certo ponto. Lula deveria ser mais cuidadoso em situações como a do Chile. Normalmente, reuniões de chefes de Estado são convescotes bem-educados. Mas vai que alguém cobra do nosso presidente por que ele não dá um jeito no spread bancário nacional. Pior ainda se Lula acabar sendo chamado às falas por um colega loiro de olhos azuis.

País bizarro, mundo bizarro. Nos próximos dias, vamos ter a reunião do G20 para discutir o andamento da crise mundial. Vai ser um desfile de governantes pregando contra o protecionismo, enquanto cada um deles dá tratos à bola sobre a melhor maneira de proteger o seu próprio mercado da concorrência estrangeira. Lula também está nessa. Quando a Embraer pôs na rua mais de 4 mil funcionários, Lula questionou por que as empresas aéreas nacionais compram aviões lá fora, em vez de encomendar à nossa Embraer. É lógico. Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço.

No seu furor antiprotecionista, Lula deveria sair na frente. Baixar a zero, por exemplo, as altíssimas tarifas de importação para produtos de informática. Seria um passo e tanto no rumo da inclusão de milhões na era digital. Mas Lula parece andar ocupado demais para se preocupar com coisas assim, banais. Outro dia ele afirmou peremptoriamente que não é hora de os sindicatos pedirem aumento de salário. Ora, deve haver setores em que isso é verdade. Em outros, talvez não. Seria melhor deixar esse assunto para os sindicatos. O que é que o presidente da República tem a ver com isso?

Bizarro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 27 de março de 2009

Mais perto do terceiro mandato (27/03)

Da consultoria americana Eurasia Group:
    President Alvaro Uribe's chances of running for a third consecutive term in 2010 got a significant boost on 24 March when the ruling Uribista coalition turned around in the face of heavy government pressure and informally agreed to clear the way next month for a bill calling a referendum to remove constitutional term limits and allow Uribe to run again. The bill is favored to clear congress and the constitutional court, paving the way for a referendum in October or November of this year, according to our conversations with leading senators and other sources in Bogota this week. The biggest obstacle will be Uribe's ability to secure a minimum required turnout of 7.2 million votes on the day of the referendum in the face of an aggressive abstention campaign from the opposition and Colombia's sharp economic slowdown. We have increased the probability that Uribe will be able to seek and win a third term from 30% to 55%, posing downside risks to Colombia's institutional stability and integrity.
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O verbo e a verba (27/03)

A hora não é de análises estruturais, nem de teses. A hora é de proteger os municípios da quebra. De proteger a economia do interior

Três meses atrás, escreveu-se aqui que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva estava a fazer cortesia com o chapéu alheio, quando renunciava ao Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na indústria automobilística e aliviava o Imposto de Renda. São receitas que a União divide com estados e municípios. Já no caso das contribuições, que Brasília não divide com ninguém, a conversa é outra.

Aliás, renúncia fiscal numa crise como esta, em que o consumidor anda (muito) desconfiado e o governo tem papel decisivo na expansão do gasto, é coisa mais do que duvidosa. Especialmente da maneira como tem sido posta em ação na Esplanada. Serve para aliviar momentaneamente o caixa das empresas, e só. Ademais, renúncias fiscais por setor evocam balcão de negócios. Favorecimento seletivo. Infelizmente, o Planalto continua assistindo com ar bovino à festa dos juros promovida pelos bancos, com a orquestração da autoridade monetária. Na falta de coragem para agir onde deve, age onde e como não é recomendado.

É verdade que a isenção do IPI deu um fôlego momentâneo à indústria automobilística. Por outro lado, as renúncias fiscais vêm aprofundando a crise nas prefeituras. Sem que haja um plano federal para evitar a quebra dos municípios. “Economizem”, é o que recomenda o governo aos prefeitos. Uma recomendação cruel, ao estilo de Maria Antonieta. Não tem pão? Então comam brioches.

Prefeitos e governadores estão submetidos à Lei de Responsabilidade Fiscal. O governo federal, não. Aliás, alguns prefeitos já vivem a ameaça da ilegalidade, gastando com salários mais do que a proporção permitida. Não aumentaram os vencimentos dos servidores, mas a queda de receita vem reduzindo dramaticamente o denominador. Esse é o lado político-legal. No econômico-social, o que se desenha é uma crise brutal nas cidades, especialmente nas pequenas, e mais especialmente ainda nas regiões mais pobres, onde maior é a dependência do repasse de verbas federais.

Mas o poder sempre tem como fazer do limão uma limonada para si próprio. Caíram os repasses compulsórios? Que se recorra então aos voluntários. O problema é a tesoura da equipe econômica para equilibrar um orçamento baleado pela crise. Daí por que a vida dos prefeitos ficará ainda mais infernal. Sem o dinheiro do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), eles precisarão bater de pires na mão na porta de Lula, ou do deputado, ou do senador. Só para ouvir que a hora é difícil, e que é melhor voltar outro dia.

Não isento de responsabilidade os prefeitos, os políticos municipais e os seus eleitores. De tempos para cá, criar novos municípios no Brasil virou a farra do boi. E sempre às expensas, para usar novamente a expressão, do chapéu alheio. Municípios são criados no Brasil sem as mínimas condições econômicas para exercerem a autonomia política. Desprovidos da mínima receita para viver sem depender dos outros.

Mas a hora não é de análises estruturais, nem de teses. A hora é de proteger os municípios da quebra. De proteger a economia do interior. Assim como é preciso resguardar a capacidade de as cidades executarem políticas públicas. Elas são uma viga-mestra do nosso arcabouço social. Como sempre dizia o saudoso Franco Montoro, que governou São Paulo pelo PMDB entre 1983 e 1987, ninguém vive na União ou no estado: as pessoas moram no município.

Semanas atrás, o presidente da República e sua candidata à sucessão, a ministra-chefe da Casa Civil, protagonizaram um magnífico encontro em Brasília com alcaides recém-eleitos. Na ocasião, as autoridades municipais foram conclamadas pelo governo federal a não esmorecerem, a investirem, a lutarem contra a crise. Nada mais justo. Mas quando os prefeitos voltaram às suas cidades encontraram uma realidade diferente. Simplesmente não há dinheiro para fazer o que o presidente lhes pediu. E de quem é a responsabilidade? Do governo federal.

Lula foi pródigo ao prover verbo para os prefeitos. Excelente. Que mostre agora a mesma prodigalidade para prover a verba.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 26 de março de 2009

Fim de festa (26/03)

De O Globo. Os negritos são meus:
    Crise econômica global derruba três governos no Leste Europeu em pouco mais de um mês

    RIO - A crise econômica mundial desabou sobre os países do Leste Europeu como uma tsunami, fazendo três governos caírem em dominó em pouco mais de um mês, revela reportagem publicada na edição desta quinta-feira do jornal O Globo. Depois dos líderes da Letônia e da Hungria, agora foi a vez do primeiro-ministro tcheco, Mirek Topolanek, anunciar a renúncia, na última terça-feira. Na Sérvia, na Romênia e na Ucrânia a situação é das mais críticas desde o início da era de transformação do comunismo para regimes democráticos. (...) Embora a coalizão de governo em Praga já fosse frágil, sem a crise econômica o premier não teria sido pressionado a renunciar enquanto ocupa a Presidência da União Europeia, até o final de junho. Segundo o jornalista Till Janzer, de Praga, a situação tcheca é um pouco melhor do que a de Hungria, Ucrânia ou Romênia, mas o país foi afetado em cheio pela crise, pois 60% de sua economia dependem das exportações. De uma forma bastante polêmica, Topolanek acusou o programa de conjuntura do presidente dos EUA, Barak Obama, de ser "um caminho para o inferno". Depois, reagindo às criticas, ele explicou que no Leste Europeu as pessoas veem os EUA como o iniciador da crise econômica, que a região teve "um efeito de dominó", fazendo cair uma pedra depois da outra.(...) As populações desses países são vistas como mais resistentes, por terem ainda na memória a era de escassez durante o comunismo. Mas o clima é de insatisfação, sobretudo entre os jovens, que cresceram na prosperidade. Eles veem, por exemplo, o desemprego aumentar ainda mais com a incorporação de cidadãos que tinham ido trabalhar no exterior e agora, despedidos, voltam para seus países. É uma mudança de cenário em relação aos últimos anos, quando investimentos estrangeiros e as remessas em moeda forte de quem foi trabalhar fora seguravam a economia.
Um assunto para acompanhar são os efeitos da crise sobre a estabilidade política na Europa do leste. Os países da região têm historicamente oscilado entre as órbitas russa e alemã. A Alemanha recém-unificada, por exemplo, teve nos anos 90 papel decisivo na desagregação da Iugoslávia. O país que mais bem expressa essa divisão talvez seja a Ucrânia, dividida quase geograficamente entre germanófilos e russófilos. Aliás, a Ucrânia anda flertando com a falência. Na Europa Oriental, crises econômicas sempre foram o caldo de cultura preferido para explosões de origem nacional e étnica, ainda que embaladas em discursos sociais. Vamos ver como será desta vez.

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quarta-feira, 25 de março de 2009

Jogo do Poder com Ronaldo Caiado (25/03)

O líder do Democratas na Câmara dos Deputados, Ronaldo Caiado (GO), é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também a jornalista Denise Rothenburg, do Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, clique aqui e role a página para baixo.



Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5


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O problema, a solução (25/03)

Guerra contra o tráfico no Rio e na fronteira dos Estados Unidos com o México. O secretário de Segurança do Rio dá declarações sensatas:
    “As ocupações que estamos fazendo não vão acabar com o tráfico, não vão acabar com a violência. Isso vai existir e o tráfico vai migrar. O tráfico vai sempre aonde existir viciado. O que nós não vamos admitir é essa territorialidade que o tráfico tem”, afirmou Beltrame, que voltou a afirmar que o usuário tem uma participação importante nessa cadeia, assim como o produtor e o fornecedor. “As pessoas brigam, no fundo, por dinheiro. E de onde sai o dinheiro? De quem consome. Naquelas áreas se paga e se paga muito bem”.
Hora de lembrar o que se escreveu aqui em Financiadores do terror:
    Na sua configuração atual, o crime está indexado ao tráfico de drogas. E só se traficam drogas onde existe mercado. Então, para combater o crime na sua versão mais moderna (a criminalidade terrorista), o melhor a fazer é achar um jeito de travar a guerra total ao tráfico de drogas. Aí aparece um problema: não há como combater radicalmente o tráfico de drogas sem atacar o mercado de consumo da droga. O terreno para que prosperem o crime e o terrorismo no Brasil vem sendo adubado pela tolerância ao consumo das drogas. Você, que além de desfilar de branco pedindo paz também gosta de consumir sua droga na intimidade, é o principal financiador da barbárie que ameaça os seus entes queridos.
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segunda-feira, 23 de março de 2009

Do pescoço para baixo (23/03)

Se a solução da crise no Senado exige mais concursos em vez de terceirizações, e mais aperto nas licitações, por que fazer justamente o contrário no Poder Executivo?

O leitor que acompanha o noticiário da crise no Senado poderá imaginar que uma consequência positiva da confusão será mais rigor nos gastos públicos, com mão-de-obra e contratos em geral. Afinal, é evidente que no Senado as terceirizações saíram do controle, assim como é inexplicável o aumento explosivo de despesas. Um caminho para corrigir as coisas é fazer concursos em vez de terceirizar, e endurecer as licitações em vez de deixar o gasto flutuar ao sabor das conveniências políticas.

Mas em Brasília, como se sabe, enquanto um diabo é expulso pela porta outro já pensa em como entrar pela janela. Alguns ministros estiveram recentemente no Congresso para pressionar a favor do projeto que cria as assim chamadas fundações estatais de direito privado. O nome diz bem do que se trata: instituições que combinariam docemente a garantia de receitas característica do Estado com a liberdade de gestão característica da empresa privada. Parece-lhe levemente semelhante com o que se passa no Senado? Pois é.

Seria uma espécie de paraíso na terra. Os dirigentes das tais fundações, que por serem estatais teriam caixa garantido, poderiam gastar o dinheiro público sem ficarem submetidos a essa coisa chata de fazer concursos e licitações nas regras atuais. Se nos métodos para administrar o Senado a fórmula colhe rejeição geral, no caso do Executivo a ideia vem preventiva e espertamente embalada com os notórios e sempre à mão rótulos de “modernidade”, “desengessamento”, “meritocracia” e “eficiência”.

Se a solução da crise no Senado exige mais concursos em vez de terceirizações, e mais aperto nas licitações em vez de mais facilidades aos ordenadores de despesa, por que fazer justamente o contrário no Poder Executivo?

Os ministros acaso consideram que determinada atividade é incompatível com as duras regras que devem balizar o gasto público? Proponham transferi-la à esfera privada. Os ministros eventualmente acham que funcionários públicos estáveis não são adequados para ocupar certas funções? Proponham privatizar o serviço. Mas o que vem por aí, como acontece amiúde, é a dissimulação. Privatização é palavra que anda fora de moda. Defende-se então o direito de gastar com liberdade, lastreado numa teoria supostamente meritocrática, mas aplicada apenas do pescoço para baixo.

Ministros geralmente não precisam se preocupar em excesso com o próprio desempenho. Afinal, eles estão ali para garantir ao governo o apoio de um naco do Parlamento. Quantos ministros do governo Luiz Inácio Lula da Silva passariam no vestibular da eficiência, se a nota de corte fosse uma destas exigidas nas melhores faculdades do país? Talvez alguns. Já outros gostam de peneirar desculpas e explicações para a própria inação. O meu ministério vai mal? Premiem-me, deem-me mais liberdade para gastar.

A tese das fundações estatais de direito privado encontra especial acolhida na área da Saúde. Melhor dizendo no Ministério da Saúde, pois a última conferência nacional do setor rejeitou a ideia. O que parece não sensibilizar a pasta. A política costuma ter coisas assim. Gente que gosta de democracia e participação popular quando é a favor. Quando é contra, manda-se ao arquivo a opinião majoritária e toca-se a vida como se nada tivesse acontecido.

O presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), parece ter decidido colocar em pauta os projetos polêmicos, como uma maneira de tirar a Casa do atoleiro do noticiário negativo. Um desses projetos é o das fundações estatais de direito privado. Será certamente um belo debate. Teremos a oportunidade de entender por que algo péssimo para o Legislativo seria ótimo para o Executivo. Veremos quiçá os argumentos de sempre contra o concurso público e a favor da terceirização, contra a “excessiva dureza” da legislação sobre licitações. Possivelmente vindos dos mesmos que hoje exigem “mais rigor” no Senado.

Vai ser divertido.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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sábado, 21 de março de 2009

A conta do almoço começa a chegar (21/03)

A popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva caiu, dizem o Datafolha e o Ibope. Pouco, mas caiu. Quanto mais ela cairá? Sei lá. Discutir isso agora é meio bizantino, não acham? O importante é que houve a inflexão. Ela pode ser revertida? Claro. A queda pode se aprofundar? Claro. Então deixemos essa polêmica para os apostadores. Por que Lula desce a ladeira? Na minha opinião (bom de blog é poder dar opinião à vontade), pela relativa inação diante da crise. Não é só porque a crise está batendo mais na vida das pessoas e das empresas. É porque o governo, convenhamos, está aquém das necessidades do momento. Eu escrevi em dezembro, três meses atrás, com o título Faltam os meios para a vitória:
    Seu [de Lula] governo (...) ficará marcado pela maneira como tiver enfrentado a crise planetária da economia. E até aqui Lula vai bem, ao menos no terreno simbólico: ele é o governante que se recusa a aceitar a derrota, o líder que preparou o país para os tempos difíceis, o dirigente que nos fará atravessar a tempestade com o menor dano possível, desde que todos colaboremos e não paremos de consumir. (...) Lula, portanto, faz bem uma parte do serviço quando se comunica adequadamente. Mas comunicação não é tudo. Além de símbolos, líderes precisam dar aos liderados meios materiais para alcançar a vitória. Do contrário, o moral da tropa não resiste. Propaganda sozinha não enche barriga. Se a César deve ser dado o que é de César, dele também se exige que cumpra suas obrigações. E o nosso presidente, infelizmente, tem deixado a desejar num aspecto. Lula pede ao brasileiro que consuma com firmeza, mas não faz a parte dele para garantir que isso aconteça em circunstâncias minimamente seguras. Vejamos. Ou o cidadão consome com dinheiro próprio ou pega emprestado. Dinheiro próprio para o consumo, hoje em dia, só se o sujeito for rico ou tiver estabilidade no emprego. Se Lula deseja que o brasileiro fique firme na guerra do consumo, precisa dar um jeito de fornecer as armas e a munição: crédito abundante e barato. Mas o que se vê é o contrário: cada dia na crise é um dia a mais para os bancos aumentarem sua aversão ao risco, restringindo o volume de crédito e encarecendo os juros. (...) As nossas autoridades gabam-se de que a saúde dos bancos brasileiros vai muito bem. O que é bom. Lamentavelmente, porém, essa saúde se deve em boa parte a uma deformação. Os bancos brasileiros emprestam pouco e mal para os cidadãos e para as empresas. Os bancos no Brasil são um sucesso porque têm lucro garantido emprestando dinheiro para o governo a taxas siderais e cobrando tarifas escorchantes dos clientes. Além dos spreads indecentes. Ou seja, no caso brasileiro os bancos serem saudáveis é um sintoma de que o país está doente.
Sobre a saúde dos bancos brasileiros, a revista britânica economist.com traz uma reportagem que aborda nosso spread. Uma reportagem simples, mas com dois detalhes interessantes. Um é o gráfico com a comparação entre os spreads praticados nos Brics.


O gráfico é autoexplicativo. E tem também um trecho da reportagem que vale a pena transcrever:
    Brazil’s banks may be expensive, but at least they are safe. None has yet been troubled by the world financial turmoil. That may be because their profits from everyday banking were so high that they had no need to take silly risks.
    [Traduza com o http://translate.google.com]
Isso você já leu aqui neste blog, inclusive em Faltam os meios.... No Brasil, banco virou negócio de risco zero. Bom para os banqueiros. Mas, como não existe almoço grátis, quem vai pagar o pato é Lula. Já está pagando. O presidente pode sair desta? Pode, afinal ele é um gênio da política. Só que o povo não é bobo. Percebe que é perto de nenhum o senso de urgência do governo diante da secura do crédito e do assalto que os bancos promovem ao bolso das pessoas e das empresas.

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sexta-feira, 20 de março de 2009

Simples e esclarecedor (20/03)

Do blog de Paul Krugman no nytimes.com:
    Life is easy if you’re a conservative. Even if conservatives fail completely while in power, they can turn around and say, “See — that proves our point. Government doesn’t work!”.
Leia o post Our failure proves our point.

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Boas notícias de Washington (20/03)

Os Estados Unidos têm problemas suficientes para se darem ao luxo de arrumar confusão no quintal de casa. É só disso que se trata

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva alcançou sucesso no ponto mais delicado de seu encontro com o colega americano, Barack Obama. Os Estados Unidos manifestaram com clareza o desejo de restabelecer completamente a normalidade das relações com a Venezuela. A posição de Washington nada tem a ver com algum viés ideológico. Trata-se simplesmente de ratificar a essência da arquitetura diplomática vigente na Era Bush para a região. Manter a América Latina como esfera de influência, fazendo para isso as concessões políticas necessárias. Concessões cujo limite, naturalmente, é a segurança nacional dos Estados Unidos.

Mas não se trata só de replicar a doutrina, dado que sua aplicação nos oito anos de George W. Bush foi assim meio aos trancos e barrancos, por conta de um detalhe: algumas vezes, a desejada pax americana entrava em contradição com outro vetor, a “expansão da liberdade”. Daí que os Estados Unidos tenham assumido, no mínimo, uma atitude equívoca diante do golpe de estado que em 2002 derrubou Hugo Chávez, antes do contragolpe que o recolocou no poder. Também decorre dessa tensão entre dois vetores contraditórios que Washington se tenha deixado enlevar pelo canto de sereia do separatismo da meia-lua boliviana. Nos dois casos, a Casa Branca colheu derrotas que poderia ter evitado, se o approach tivesse sido mais pragmático.

São as ironias da história. Agora, com Barack Obama, há melhores condições para resgatar a essência pragmática da política de Bush. Os Estados Unidos têm problemas suficientes para se darem ao luxo de arrumar confusão no quintal de casa. Por mais crua que seja a descrição, é só disso que se trata. O bom é que a circunstância cria condições objetivas para o prosseguimento do avanço democrático no subcontinente. Desde, é claro, que se respeitem as regras do jogo.

Escrevi aqui em “Integrar para não entregar”, antes da viagem presidencial: “Os americanos precisam do petróleo venezuelano, e Caracas precisa vender petróleo a Washington. Os americanos acham que Chávez pode muito bem um dia fechar a torneira. E Chávez acha que, pelo petróleo, os americanos estão dispostos a fazer com ele e o seu país o que fizeram com Saddam Hussein e o Iraque. E tudo isso logo ali na nossa fronteira norte. Ao Brasil interessa desarmar a bomba”.

Mas como desarmá-la? A Venezuela deve garantir que não irá representar, em nenhuma circunstância, ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos. Em troca, os EUA não se metem nos assuntos internos da Venezuela. A reação suave do Departamento de Estado aos resultados do último referendo venezuelano foi um sinal de que essa linha está em curso. E o que Lula ouviu de Obama confirma o diagnóstico. Mas como assegurar que o pacto será cumprido?

Quando, depois da Crise dos Mísseis, Cuba obteve dos Estados Unidos a garantia de não intervenção, desde que a ilha nunca se transformasse em plataforma de agressão à potência vizinha, o aval veio da União Soviética. Não chega a ser só coincidência, portanto, que Chávez busque na Rússia o contrapeso para o que considera ser uma ameaça real vinda do norte. E aí chegamos ao ponto: quanto mais o Brasil estiver de mãos amarradas diante da tensão regional, mais espaço haverá para que a América do Sul sofra ingerência externa. Visto ao contrário: quanto mais o Brasil assumir o natural papel de liderança, menor será a probabilidade de intromissões alheias.

O conflito entre a Venezuela e os Estados Unidos arrasta todo o continente para uma lógica de confrontação. O que temos nós a ver com a disputa entre Washington e Moscou sobre o escudo antimísseis na Europa Oriental? Ou com o veto europeu e americano ao programa nuclear iraniano? Em teoria, nada. Mas, se a Venezuela for instada a se aproximar cada vez mais da Rússia e do Irã, nosso continente será lançado a um cenário de lutas que não são nossas. Se isso afinal se precipitar, a liderança brasileira passará a ser não mais do que ornamental.

Por isso é que são boas as notícias que vêm de Washington. A política tem mesmo horror ao vácuo. É ótimo que nós ocupemos o nosso espaço.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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quinta-feira, 19 de março de 2009

Inundação de dinheiro (19/03)

Você leu os posts Um apelo à ortodoxia e Deflação? Então leia a coluna de hoje de Vinicius Torres Freire na Folha (Pau na máquina de dinheiro). Aí alguém dirá: isso é nos Estados Unidos, onde eles podem imprimir dólar -e sempre haverá gente disposta a confiar no dólar. Claro que nós não somos os Estados Unidos, mas ou nós encontramos um caminho para afrouxar imediatamente a política monetária ou nós vamos para o buraco. Pode-se até discutir a profundidade dele, mas será sempre um buraco.

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quarta-feira, 18 de março de 2009

Jogo do Poder com Pedro Simon (18/03)

O senador Pedro Simon (PMDB-RS) é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também o jornalista Otávio Cabral, da revista Veja. Para ver os programas anteriores, clique aqui e role a página para baixo.



Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5


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O nonsense (18/03)

Escrevi em A reforma que eles não pedem sobre o nonsense da legislação eleitoral no Brasil. Agora veja trechos de reportagem sobre o voto do juiz que relata no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a consulta do PSDB sobre as possíveis prévias partidárias para a escolha do candidato a presidente da República. O PSDB pergunta (os negritos são meus):
    Excluídas as possibilidades de propaganda intrapartidária por rádio, televisão e outdoor, conforme o artigo 36, §1º, da Lei 9.504/97, pode a propaganda intrapartidária ser realizada com o uso de página na internet, mensagens eletrônicas (...)?
Diz o juiz:
    A divulgação das prévias não pode se revestir de propaganda eleitoral antecipada. Razão pela qual se limita à consulta de opinião dentro do partido. A divulgação das prévias por meio de página na internet extrapola o limite interno do partido e, por conseguinte, compromete a fiscalização pela Justiça Eleitoral do seu alcance. Contudo, a mera divulgação da data das prévias, sem referência aos pré-candidatos, não compromete essa restrição. Tendo em vista a restrição de que a divulgação das prévias não pode ultrapassar o âmbito intrapartidário, as mensagens eletrônicas são permitidas apenas aos filiados do partido. A divulgação das prévias não pode se revestir de propaganda eleitoral antecipada. Razão pela qual se limita à consulta de opinião dentro do partido. A divulgação das prévias por meio de página na internet extrapola o limite interno do partido e, por conseguinte, compromete a fiscalização pela Justiça Eleitoral do seu alcance. Contudo, a mera divulgação da data das prévias, sem referência aos pré-candidatos, não compromete essa restrição. Tendo em vista a restrição de que a divulgação das prévias não pode ultrapassar o âmbito intrapartidário, as mensagens eletrônicas são permitidas apenas aos filiados do partido.
Eu fiquei com uma dúvida. Já que fazer site não pode, porque site pode ser acessado por todos os eleitores, mas email pode, porque seria só para os filiados ao PSDB, o que vai acontecer com o sujeito que recebeu um email com propaganda do "pré-candidato" e repassa o email para um monte de gente que não é do PSDB? Estará cometendo crime eleitoral? Vejam a que ponto chegamos.

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O ônus do poder (18/03)

Armínio Fraga e Affonso Celso Pastore acham que os juros reais podem cair para 4%. Leia aqui. Outra coisa. O debate em torno da caderneta de poupança, cujo rendimento atual é um limite à redução da Selic, indica que o governo não se preparou adequadamente, previamente, para um cenário de queda forte dos juros. Se estivesse preparado, teria a solução já engatilhada. É visível que o governo -ou as autoridades econômicas- acharam que iriam atravessar a crise sem precisar derrubar o juro a machadadas. Vai ver acreditaram na "pressão inflacionária devido ao câmbio", tese que deve ter feito a alegria de muita gente esperta nos últimos seis meses. Gente que hoje incha a veia do pescoço para dizer o contrário. Daí o atraso do Banco Central no afrouxamento da política monetária. O governo tem mesmo que mexer na poupança, e que pague o custo político por isso. É o ônus do poder. O principal agora é derrubar os juros. Do jeito que for.

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segunda-feira, 16 de março de 2009

Deflação (16/03)

De Alvaro Gribel (no blog da jornalista Miriam Leitão):
    Inflação segue perdendo força

    O IGP-10 de março registrou deflação de 0,31%, divulgou hoje pela manhã a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em fevereiro, a taxa havia registrado alta de 0,54%. Tanto os preços agrícolas quanto os industriais no atacado sofreram deflação. Os agrícolas sairam de uma alta de 3,24% em fevereiro para queda de 1,49% em março. Os industriais, de -0,45% para -0,26%. Na avaliação do economista Gian Barbosa, da Tendências Consultoria, os IGPs devem continuar perdendo força no acumulado em 12 meses ao longo do ano, (...) hoje estão em 6,97% mas devem fechar na casa dos 3%. Para o IPCA, a previsão da Tendências é de 4,2%, já abaixo do centro da meta de 4,5%, e a consultoria ainda avisou que vai refazer os cálculos para baixo. A mesma coisa vai acontecer com a previsão para a taxa Selic, que hoje está 10,25%. (...) o economista acredita que o repasse cambial na indústria já foi feito, ou seja, não existe mais risco inflacionário por conta de desvalorização do real.
Leia a íntegra. O Banco Central deveria convocar uma reunião extraordinária e baixar a Selic mais uns dois pontos percentuais. Alguns leitores questionaram a minha conta de que um juro nominal em torno de 9% representaria um juro real de 6% (Inação desastrosa). Está aí: "Na avaliação do economista Gian Barbosa, da Tendências Consultoria, os IGPs devem continuar perdendo força no acumulado em 12 meses ao longo do ano, (...) hoje (...) em 6,97% mas devem fechar na casa dos 3%". Outro detalhe: estamos só em março mas as projeções do IPCA já ficam abaixo da meta. Qual é o sentido de empurrar a inflação para um alvo abaixo da meta numa situação como a atual? Alguém pode explicar?

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A reforma que eles não pedem (16/03)

Ninguém pede a democratização da vida interna dos partidos, a imposição legal de regras que obriguem os donos dos cartórios a levar em conta a posição dos filiados

De todos os detalhes que frequentam a nossa legislação eleitoral, talvez um dos mais inexplicáveis seja a fixação de data para o início oficial das campanhas. Antes do dia tal, não pode fazer campanha. Depois, pode. Não, não é aquele quadro humorístico dos sábados à noite na televisão. É a política brasileira.

Vamos supor que o PSDB decida convocar a tal consulta prévia entre os filiados para a indicação do concorrente à presidência da República. Isso implicará a mobilização partidária para ouvir os candidatos, que antes da convenção o nosso faz-de-conta chama de "pré-candidatos". Mas, será que "pré-candidato" pode fazer campanha? Pode reunir pessoas para dizer o que acha de errado no governo e o que -se eleito- vai fazer de diferente? Pode produzir e distribuir material com suas ideias? Se pode, isso não se choca com o espírito da lei?

Mas não precisaríamos nem chegar a esse assunto das prévias. Se candidato só pode fazer campanha depois da convenção, como fica o direito de fazer campanha para a convenção? Como conquistar o apoio político do partido? Quem consegue responder?

Já houve caso no Brasil em que se disse o seguinte: antes da convenção, o jornal até pode entrevistar o possível futuro candidato e a este é permitido, vejam só!, dizer o que acha do governo. Mas na entrevista o candidato está impedido de 1) afirmar que é candidato ou 2) revelar o que faria para resolver os problemas que apontou na administração. O ridículo da situação deveria produzir alguma reflexão sobre o tema.

O nonsense nas regras eleitorais do Brasil é uma construção a muitas mãos. Os adestradores da opinião pública exigem cada vez mais normas, como se a profusão delas representasse alguma garantia contra malfeitos. E os políticos espertos no poder (sim, quem costuma promover mudanças nas regras é quem está no poder) usam a demanda por reformas como um recurso maroto para reduzir e circunscrever a participação dos eleitores no processo.

Daí que tenhamos chegado à situação atual. Na qual é impossível, por exemplo, garantir a realização de debates no primeiro turno de eleições majoritárias. Sonega-se o direito do eleitor à informação, graças ao poder de veto dos partidos. Que cavalgam uma legislação supostamente criada para garantir o acesso do eleitor à informação. Tem algo de muito errado nisso tudo.

Outra consequência da fúria legiferante é que a cobertura jornalística no rádio e na televisão praticamente cessa quando a campanha (oficial) começa. Tevês e rádios podem cobrir a campanha jornalisticamente enquanto ela "não existe". Depois que ela tem início oficialmente, não podem. Parece-lhe incrível? Tem mais: dada a largada, ninguém pode usar esses meios eletrônicos para emitir opinião. A não ser no horário obrigatório.

Nem vou me deter aqui nas limitações impostas ao uso eleitoral da internet. Seria um capítulo à parte. Depois da derrota do seu partido, a Arena (Aliança Renovadora Nacional), na eleição de 1974, o governo do general Ernesto Geisel manobrou sucessivamente para modelar regras eleitorais que impedissem a ascensão do Movimento Democrático Brasileiro (MDB, de oposição) ao poder. Usava-se na época a expressão "casuísmo". Pois não é que, três décadas depois, a nossa democracia produziu um cipoal de casuísmos a pretexto de aperfeiçoar-se como democracia?

Fala se muito em reformas, mas há uma reforma que ninguém, entre os políticos, quer. Eles não falam dela, nem ela é exigida pelos adestradores da opinião pública. A reforma que jaz esquecida em algum escaninho é a democratização da vida interna dos partidos, é a determinação de regras que obriguem os donos dos cartórios a levar em conta a posição dos filiados.

Os partidos políticos no Brasil são sustentados com dinheiro público, mas não aceitam que a lei determine regras mínimas de funcionamento interno democrático. A qualquer momento a direção partidária pode destituir um diretório eleito e trocá-lo por uma comissão provisória escolhida a dedo.

Dado que o sujeito só pode ser candidato a algum cargo eletivo se estiver filiado a um partido, estabeleceu-se aqui um oligopólio da política. Oligopólio que agora os donos da bola pretendem aperfeiçoar, com a implantação da lista fechada, do financiamento exclusivamente público e da cláusula de barreira.

E tudo, naturalmente, em nome do melhoramento institucional. Igualzinho como era trinta anos atrás.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sábado, 14 de março de 2009

Como previsto (14/03)

Você que leu ontem o meu post Integrar para não entregar já estava preparado para esta notícia do nyt.com (doravante, não mais colocarei nomes de veículos, só os endereços):
    Russia Said to Weigh 2 Latin Bases

    A top Russian Air Force official said that the government was weighing whether to base strategic bombers out of Cuban territory or on a Venezuelan island that has been offered by President Hugo Chávez, according to the Interfax news service. In comments made at an awards ceremony on Friday night, Maj. Gen. Anatoly Zhikharev, chief of staff for Russia’s long-distance aviation division, told reporters that either option would be practical. “There are four or five airfields in Cuba with 4,000-meter-long runways, which absolutely suit us,” he said. “If the two chiefs of state display such a political will, we are ready to fly there.” He confirmed that Mr. Chávez had offered the use of a military airfield on La Orchila island. “If a relevant political decision is made, this is possible,” he said.
Leia a reportagem.

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Um apelo à ortodoxia (14/03)

O mais triste nos monetaristas é eles nos faltarem quando mais precisamos deles. Estudaram tanto e estão ausentes na hora H. Não sei se o monetarismo chega a ser uma corrente econômica, mas sei que funciona. Retire-se o dinheiro da praça e a inflação despencará. Se inflação é a desvalorização da moeda, reduza-se a oferta de moeda que esta se valorizará -e assim se combaterá a inflação. Dada a plena vigência da lei da oferta e da demanda. Os americanos mataram desse jeito a sua inflação dos anos 70. Aqui no Brasil, o Plano Collor fez o mesmo duas décadas atrás e funcionou temporariamente. Quase todo mundo elogiou na época, inclusive gente que hoje critica. Gente que quando Fernando Collor caiu em desgraça política virou rapidamente crítico do "sequestro da poupança". Mas este post não é sobre as convicções flutuantes e de conveniência. É sobre o silêncio dos monetaristas. Puxa vida, se o monetarismo vale para combater a inflação, por que não vale para atacar o antípoda, a deflação? Se retirar dinheiro de circulação é uma boa medida para impedir a corrosão monetária, inundar o mercado com dinheiro é uma ótima providência para ajudar a lubrificar as engrenagens de uma economia que breca. E quando ela breca por absoluta falta de demanda, então, é sopa no mel. Injete-se dinheiro no mercado até ele dar sinal de vida. É como num pronto-socorro. Você toma uma série de medidas para salvar o paciente. Uma vez salvo, você adota providências para atacar as sequelas das medidas que você tomou. Assim deveria ser no monetarismo. A deflação é um horror, entre outras coisas porque as pessoas adiam suas compras à espera de que os preços caiam. Uma vez debelada a deflação, combater-se-á a inflação resultante. Então, eu sinceramente não compreendo a timidez dos monetaristas. Tão ciosos quando se trata de combater a inflação. Tão ausentes e passivos quando o risco é de deflação. Ao pedir um ataque rápido e radical aos juros, não se está praticando qualquer tipo de heterodoxia. É um apelo à ortodoxia. Mas parece que os nossos ortodoxos monetaristas operam em mão única. Eles gostam mesmo é de fazer o país brecar. Quando se trata de reanimar o paciente, eles desaparecem.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Para os críticos (13/03)

Bom texto de Delfim Netto sobre a arrogância dos economistas. Saiu no Valor Econômico. O fracasso da economia acadêmica é indicado para internautas que se valem da fórmula "você sabe com quem está falando?" para tentar desqualificar argumentos alheios. Aliás, tenho uma sugestão para os que se julgam muito sabidos: abram um blog e se arrisquem a dar opinião a quente. Inclusive sobre assuntos que vocês não tenham aprendido na escola. Bem, este blog já vinha dizendo desde outubro que era hora de cortar radicalmente os juros, pois não havia risco de inflação. Que a valorização do dólar não tinha como ser repassada aos preços. Por que escrevi essas coisas? Talvez por eu não ser economista. O que hoje em dia, convenhamos, não chega a ser um defeito.

O Galileu do spread (13/03)

O economista Márcio Nakane, professor da USP e coordenador técnico da consultoria Tendências, é um Galileu Galilei do spread bancário. Clique na imagem abaixo para ver reportagem de ontem do Jornal Nacional da TV Globo sobre os juros.



Separei o trecho da reportagem referente a Nakane. A transcrição:
    Os juros regulados pelo Banco Central servem de referência para o mercado. É o valor que o governo paga quando pega dinheiro emprestado. Mas empresas e as pessoas pagam taxas bem maiores. Elas também vêm caindo, mas muito devagar. Um estudo mostra que, entre janeiro e fevereiro deste ano, a taxa básica dos juros caiu 7,27%. Já os juros para o consumidor tiveram uma redução menor: de 1,81%. Para as empresas, em média, não houve redução. Enquanto a taxa básica do governo está em 11,25%, a do empréstimo pessoal, por exemplo, chega a 90% ao ano. Márcio Nakane, professor de economia da Universidade de São Paulo (USP), estuda os motivos que fazem essa diferença tão grande. Ele diz que, nos juros que os bancos cobram, estão incluídos vários custos, como impostos e despesas administrativas, além do lucro. Mas o peso maior hoje por causa da crise é o da inadimplência. “Como o risco é maior, ou seja, existe uma boa probabilidade de que, ao emprestar, o banco não receba de volta esses recursos, ele, de alguma forma, embute nesse risco o preço que ele cobra que é a taxa de juros”, explica o economista.
Agora vejamos o que Nakane escreveu pouco mais de um mês atrás sobre o spread bancário (a diferença entre o juro que o banco cobra do tomador de dinheiro e o juro que o banco paga ao poupador) . O texto, com o título "Spread bancário e Inadimplência", está na Análise Semanal que a Tendências distribuiu na época aos clientes e motivou um post neste blog (Sem argumentos). Os negritos são meus:

    Existe alguma relação entre os movimentos de inadimplência e o spread bancário? A inadimplência aumentou porque o spread bancário se elevou? Ou a causalidade seria inversa: o spread bancário se elevou porque a inadimplência aumentou? Esta nota realiza um exercício simples de causalidade para tentar lançar alguma luz sobre a questão. (…) Em especial realiza-se o teste de causalidade de Granger entre as séries. A idéia deste teste é de precedência temporal, ou seja, se uma variável x causa (no sentido de Granger) uma variável y então valores passados daquela ajudam a prever o valor corrente desta (…) Os resultados do teste (…) indicam que tanto para pessoa física quanto para pessoa jurídica existe evidência de que o spread bancário causa inadimplência. Ou seja, aumentos na inadimplência podem ser atribuídos a elevações no spread bancário. Por outro lado, não existe evidência de causalidade no sentido reverso, ou seja, não há evidência de que a inadimplência cause o spread bancário. Ressalte-se que para pessoa jurídica o resultado do teste é mais duvidoso, uma vez que o p-valor do teste é de apenas 5,05%. (…) ressalva importante é que os resultados de não-causalidade da inadimplência para o spread não devem ser interpretados como uma desconsideração do risco de crédito na precificação de operações de empréstimo pelo setor bancário. A série utilizada de inadimplência diz respeito ao passado, ou seja, aos atrasos de empréstimos que foram concedidos no passado. Do ponto de vista do spread bancário, pode ser que o mais relevante seja um prêmio de risco associado à inadimplência esperada.
Mais claro impossível. O professor chegou à conclusão técnica de que não há como justificar o spread pela inadimplência passada. E que o spread abusivo é sim causa de inadimplência. Ele adverte para senões metodológicos, mas sentiu-se seguro o suficiente para assinar um texto com essas conclusões. E a sua declaração diante das câmeras é de uma sutileza fantástica:
    “Como o risco é maior, ou seja, existe uma boa probabilidade de que, ao emprestar, o banco não receba de volta esses recursos, ele, de alguma forma, embute nesse risco o preço que ele cobra que é a taxa de juros”.
Claro, o banco projeta uma inadimplência futura e parte para arrancar o couro dos clientes no spread. O que naturalmente resultará numa inadimplência alta, que por sua vez poderá ser evocada pelo banco na hora de explicar por que o spread é alto. O que isso tem a ver com projetar o spread a partir de uma inadimplência passada? Nada. Eu comparo o professor a Galileu Galilei porque
    se Giordano Bruno morreu na fogueira, Galileu Galilei preferiu um bom acordo com a Igreja e resmungou intimamente que, apesar de tudo, a Terra se move.
Clique nos links dos dois personagens para saber mais. O trecho está em Confissão obtida sob tortura não vale, um post velho. Ainda não chegou o dia em que alguém poderá dizer em rede nacional que a principal causa do juro alto é o cartel financeiro, que promove o assalto ao Tesouro e ao bolso do cidadão. Mas uma hora a ditadura do cartel vai acabar. E Márcio Nakane estará vivo para continuar seus estudos e seu trabalho. Assim como fez Galileu Galilei, que diante da Inquisição achou melhor não insistir na ideia de que a Terra se move. Sem porém abrir mão de resmungar, entre dentes, que ela se move. Até porque ela se move mesmo.

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O consumidor é a esperança (13/03)

Do globo.com:
    RIO - As vendas no varejo brasileiro surpreenderam positivamente em janeiro, voltando a crescer após três meses de quedas, puxadas por uma maior demanda no setor automotivo. As vendas aumentaram 1,4% em janeiro sobre dezembro e 6% ante igual mês de 2008, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nesta sexta-feira. A previsão de analistas consultados pela Reuters era de queda de 0,20% na comparação com o mês anterior e de alta de 3,9% sobre o mesmo período do ano passado. O IBGE acrescentou que a receita nominal do comércio varejista avançou 2,1% em janeiro sobre dezembro e 11,9% na comparação com igual mês do ano passado. Em janeiro sobre dezembro, as vendas aumentaram em sete das dez atividades pesquisadas, com destaque para Veículos e motos, partes e peças, que subiu 11,1%. Também tiveram performances positivas na comparação mensal os setores de Livros, jornais, revistas e papelaria (7,6% de alta); Móveis e eletrodomésticos (7,1%); e Outros artigos de uso pessoal e doméstico (5,8%). Entre os setores em queda, destacou-se Equipamentos e material para escritório, informática e comunicação. Na comparação com janeiro do ano passado, apenas um setor teve queda das vendas, o de Tecidos, vestuário e calçados. Entre as altas, destacaram-se Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo e Móveis e eletrodomésticos.
Se o Banco Central for mais agressivo no corte do juro básico e o governo apertar os bancos para que emprestem dinheiro barato, o consumidor faz o resto. Da parte do consumidor, disposição pelo visto não falta.

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Uma questão de lógica (13/03)

Do globo.com:
    BRASÍLIA - A Justiça Federal absolveu integrantes do governo Fernando Henrique Cardoso da acusação de terem conduzido ilegalmente a privatização da Telebrás. Eram réus no processo o então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, dois ex-presidentes do Banco Nacional de Desenvolvimentos Econômico e Social (BNDES), André Lara Rezende e José Pio Borges, além do ex-presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Renato Guerreiro. A decisão foi tomada pelo juiz da 17ª Vara Federal em Brasília, Moacir Ferreira Ramos, no último dia 4, uma década após o início do processo.(...) A ação foi proposta pelo Ministério Público, a pedido de integrantes do PT - que, na época, era da oposição. Segundo o juiz, o partido poderia ter contribuído com as investigações a partir de 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência da República. O juiz ressaltou que a falta de provas foi um dos motivos que o levou a inocentar o grupo. "Ora, se havia a preocupação com a apuração destes fatos, tanto que foi promovida a representação junto ao Ministério Público Federal, por que esses nobres políticos não interferiram junto ao governo atual (já renovado pela reeleição), ao qual têm dado suporte, para que fosse feita, a fundo, a investigação dessas denúncias - sérias, enfatize-se - que apontaram na representação? Creio que, dando o suporte ao Governo, estão legitimados para a cobrança. A eles - os políticos -, portanto, compete a resposta da indagação, inclusive para que não deixem resíduo de dúvida quanto aos reais propósitos de que estavam imbuídos quando fizeram as denúncias", escreveu o juiz. E concluiu: "Como não há nos autos esta indicação de apuração dos fatos, no contexto do Governo, já que nada foi juntado, penso que as provas são aquelas decorrentes da apuração feita pelo Tribunal de Contas da União, o qual concluiu - e que me respalda no veredicto - que não houve irregularidade a ser atribuída aos réus em decorrência da privatização das empresas federais de telefonia". O Ministério Público ainda pode recorrer da decisão.
Leia a reportagem. É óbvio. Se o PT dizia que a privatização da Telebrás foi uma fraude, por que no governo o PT não trabalhou para revertê-la? Por que não a investigou? É tão lógico que até eu já tinha escrito isso, bem antes do juiz Moacir Ramos. Está em Estratégias frágeis de petistas e tucanos, um post de fevereiro de 2006, três anos atrás:
    (...) o governo do PT não revisou nenhuma das privatizações de FHC, nem avançou na investigação das supostas irregularidades da administração tucana. Então, ou bem o PT é conivente com ações lesa-pátria, ou o alarido deve ser debitado na conta do velho ditado: "Em tempo de guerra, mentira como terra".
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Integrar para não entregar (13/03)

Nossa soberania depende do exercício de uma liderança regional construtiva e agregadora. Se não o fizermos, alguém o fará por nós

O título desta coluna é o antigo lema do Projeto Rondon. Lema algumas vezes esquecido pelas nossas autoridades. Tem a ver com a Amazônia, ou com o festival de mesuras recebido pelo príncipe Charles, em visita à nossa terra. O eterno herdeiro do trono britânico veio a nós para fiscalizar como cuidamos da floresta. O assunto é nosso, mas Sua Alteza age como se fosse dele. São os resquícios da colonização. É mais fácil expulsar o colonizador da colônia do que extirpar a submissão colonial da alma do colonizado.

Semana que vem será a vez de Luiz Inácio Lula da Silva ir aos Estados Unidos, para o primeiro encontro com Barack Obama. Fotos recentes mostram o cabelo do presidente americano cada vez mais branco. Sem a crise, Obama não teria chegado tão cedo onde chegou. Mas não foram os próprios americanos que inventaram a história de não haver almoço grátis? Uma hora a conta vem. Ela veio. Lula e Obama se reunirão premidos por circunstâncias difíceis. Obama enfrenta ameaças que colocam em risco o Império, e Lula está acossado pelo espectro de perder em dois anos o que conquistou em seis.

Obama tem pouco a oferecer, nas circunstâncias. Talvez alguma coisa no etanol, área em que o Brasil quebra a cabeça para achar mercado, coisa complicada com o barril de petróleo a US$ 40. Os dois podem alcançar alguma convergência verbal sobre a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio, mas isso não será novidade. Já faz algum tempo que Brasil e Estados Unidos estão essencialmente de acordo quanto ao tema. O problema é convencer chineses e indianos de que devem abrir seus mercados aos produtos americanos e europeus. Não será fácil.

É melhor ter cautela quanto aos resultados práticos da cúpula entre os dois presidentes. Ainda que estejam de acordo na retórica, a vida costuma impor limites. Lula, por exemplo, critica dia sim dia não o protecionismo. Mas quando a Embraer colocou 4 mil na rua, a primeira ideia que veio à cabeça do nosso presidente foi perguntar por que as companhias aéreas brasileiras compram aviões americanos e europeus, em vez de encomendar à brasileira Embraer. Pois é.

Na esfera regional, Cuba já deixou claro que não precisa do Brasil e não quer intermediários na interlocução para por fim ao bloqueio americano de quase cinco décadas. Paciência. Já o caso da Venezuela é diferente. Lula recebeu de Hugo Chávez um mandato para debater as relações bilaterais com Obama. Trata-se de um assunto importantíssimo para o Brasil, pelos interesses envolvidos. Os americanos precisam do petróleo venezuelano, e Caracas precisa vender petróleo a Washington. Os americanos acham que Chávez pode muito bem um dia fechar a torneira. E Chávez acha que, pelo petróleo, os americanos estão dispostos a fazer com ele e o seu país o que fizeram com Saddam Hussein e o Iraque. E tudo isso logo ali na nossa fronteira norte.

Ao Brasil interessa desarmar a bomba. Uma América do Sul não hostil aos Estados Unidos, pacífica e livre de armas de destruição em massa é condição sine qua non para mantermos e ampliarmos a liderança regional. Então, nem que seja por puro pragmatismo, dada a dimensão relativa dos envolvidos, ou nós cuidamos da área ou se criará um cenário propício à intervenção externa. Em outras palavras, o exercício de nossa soberania depende também de como seremos capazes de exercer a nossa influência sobre os vizinhos, de modo construtivo e agregador. Se não o fizermos com competência, alguém o fará por nós.

Além do mais, discursos globalizantes à parte, a crise impõe aos países a busca e a defesa de mercados. No nosso caso, antes de qualquer outra coisa, trata-se de consolidar e ampliar o Mercosul. Se possível, estendê-lo a todo o continente. E isso só acontecerá se as diferenças políticas forem deixadas de lado em nome do nosso interesse nacional maior. Ou seja, evocando o antigo lema do Projeto Rondon, trata-se de integrar a América do Sul para não entregá-la. Política, comercial e militarmente falando.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 11 de março de 2009

Protecionismo ruim é o dos outros (11/03)

De Luiz Inácio Lula da Silva hoje, no estadao.com.br:
    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou em entrevista ao Wall Street Journal, realizada ontem, que uma crescente onda de protecionismo das nações mais ricas do mundo ameaça as economias emergentes. Lula criticou duramente as recentes medidas protecionistas tomadas por nações que normalmente promovem o livre comércio. Entre as medidas citadas por Lula está a cláusula "Buy America" do último pacote de estímulo aprovado no Congresso americano, apesar de ter sido modificada para garantir que os EUA cumpram as regras do comércio internacional. (...) Lula alertou que a crise financeira mundial ameaça o crescimento econômico que foi reduzindo a pobreza nos países em desenvolvimento, e apelou por ajuda financeira e outras medidas a fim de impedir a propagação dos efeitos da crise. "Nós não podemos aceitar a ideia de que, por causa da irresponsabilidade dos banqueiros e de alguns dirigentes, que não fiscalizaram e não regulamentaram, o resto do mundo acabe pagando a conta e, sobretudo, os seus pobres", afirmou o presidente.
Leia a reportagem. O mesmo Lula semana passada, no dci.com.br:
    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (2/3) que o crescimento da aviação regional pode dar um novo fôlego à Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer). Em entrevista coletiva em São Paulo, Lula evitou fazer novas críticas às recentes demissões na empresa e disse que os cortes eram esperados. “A Embraer tem 90% de suas vendas para o exterior. À medida que as encomendas caem, os empregos também caem”, afirmou o presidente. “Temos que resolver o problema da aviação regional para ver se compramos mais aviões da Embraer”, acrescentou Lula. Para ele, é preciso também que a preferência nas compras aéreas nacionais passe a ser pelos aviões produzidos aqui. “Não podemos nos queixar dos outros países, porque as próprias empresa brasileiras não usam os aviões da Embraer. Não dá para entender por que essas empresas usam Boeing e Airbus e não usam os aviões da Embraer.” Lula destacou que o controle do protecionismo será o tema prioritário a ser debatido na reunião agendada com o presidente Barack Obama no próximo sábado. "O protecionismo pode parecer benéfico num primeiro momento, mas, no longo prazo, ele afeta os países, sobretudo as nações pobres que têm de vender as suas mercadorias para os países ricos." O presidente brasileiro tem cada vez mais se posicionado como um defensor mundial dos países emergentes em fóruns, como a reunião de líderes do G-20, que ocorrerá em abril, em Londres.
Têm posts que são assim, curtinhos, pois os textos dos outros fazem o serviço por mim, falam por si. Quer dizer que o "buy america" é ruim por ser protecionista? E o "compre aviões brasileiros", é o quê? Globalizante? Uma bandeira do livre-comércio? Vai lá, Lula, vê se enrola os gringos.

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Insuficiente (11/03)

Paul Krugman desce o sarrafo na timidez do plano econômico de Barack Obama. Aqui.

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Jogo do Poder com Cândido Vaccarezza (11/03)

O líder do PT na Câmara dos Deputados, Cândido Vaccarezza (SP), é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também a jornalista Izabelle Torres, repórter do jornal Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, clique aqui e role a página para baixo.



Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5 - Parte 6


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Inação desastrosa (11/03)

Hoje termina a reunião do Comitê de Política Monetária. Vamos ver quanto o juro básico vai cair, depois do desastre do PIB do Q4 de 2008. A queda do juro deveria ser de pelo menos uns quatro pontos percentuais, para que a taxa real chegasse a algo em torno de 6%. E isso para começar. Para não haver risco imediato de fuga de dólares (vejam como estou sendo conservador). Juro real de 6% num mundo de taxas reais negativas ainda será uma ilha da fantasia. Hoje, meu colega de muitos anos Clóvis Rossi, que teve que trabalhar em dobro durante a cobertura da Olimpíada de Barcelona (1992), quando tive uma crise renal, faz uma referência em sua coluna na Folha de S.Paulo a eu ter dito um dia que no Brasil os pessimistas sempre têm mais chance de estarem certos do que os otimistas. Parece que infelizmente a regra está valendo. Mas não se trata de uma fatalidade, de um destino. Nesta crise, por exemplo, os pessimistas estão sendo fortemente ajudados pelo próprio governo, que há seis meses assiste à secura do crédito interno sem reagir. E dando trela à conversa fiada do "risco inflacionário". Isso vem sendo notado aqui neste blog desde outubro. E por que o governo não reage? Talvez por acreditar numa retomada mais rápida da economia global. Talvez pelo excesso de compromissos com o capital financeiro. Talvez por acreditar que a sorte de Luiz Inácio Lula da Silva nos tirará desta de forma relativamente indolor. O fato é que a inação de Lula diante da ditadura financeira num cenário benigno era não apenas tolerável, mas até defensável. Por razões políticas. No cenário atual, quando a secura do crédito simplesmente trava a economia, a passividade governamental é o caminho para o desastre. O governo precisa urgentemente encontrar um jeito de fazer os bancos emprestarem dinheiro a um preço razoável para as empresas e as pessoas. Deveria, por exemplo, tabelar e congelar as tarifas bancárias num nível bem abaixo do que estão hoje. A redução radical da Selic também ajudará. Enquanto os bancos puderem viver bem sem ter que cuidar do que deveria ser o core business (emprestar dinheiro para as empresas e as pessoas), estaremos todos atolados. Ah, sim, e a queda dos juros, ao reduzir a despesa financeira do Tesouro, abrirá espaço para que a contenção dos gastos de custeio se faça de maneira socialmente mais justa. Talvez sobre dinheiro para aumentar ainda mais o salário mínimo e, por que não?, a renda dos aposentados. Pobre e aposentado não poupa, consome. A hora é de colocar dinheiro na mão de quem vai consumir. Para estimular quem pode investir. Leia o que venho escrevendo sobre o assunto desde a eclosão da crise. Ou faça uma busca seletiva neste domínio (blogdoalon.com.br) por crise+juros+lula. Pode ser na caixinha no alto à esquerda desta página ou nas opçao de busca avançada no Google.

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segunda-feira, 9 de março de 2009

O analista e o presidente (09/03)

Lula ter mais ou menos razão quando analisa as origens da crise faz pouca ou nenhuma diferença para o trabalhador que perde o emprego porque o patrão acha que as vendas vão cair

No próximo domingo, completam-se seis meses desde a quebra do Lehman Brothers, origem da crise planetária que começou na esfera das finanças e se estendeu pelo resto da economia. Seis meses costuma ser também um tempo suficiente para que inflexões na política monetária se reflitam na assim chamada economia real, a das coisas tangíveis. Ou seja, se o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tivesse adotado medidas rápidas quanto aos juros quando a crise deu as caras, estaríamos agora começando a boa colheita.

Mas o que estamos a recolher, infelizmente, não são bons frutos de uma política acertada, são sinais cada vez mais claros de que tempos piores vêm aí, favorecidos também por decisões erradas, ou pelo medo de tomar as decisões certas. Os números da produção industrial divulgados semana passada foram muito ruins. Depois da queda vertical em dezembro, esperava-se uma recuperação razoável em janeiro. Mas a retomada foi insignificante, dando sinais de que o sonho de uma curva em V (ascensão rápida depois da queda) se foi. Já estamos na curva em U, com seu vale de estagnação. E corremos o risco real de escorregar para uma curva em L, sem saída visível para a pasmaceira.

Onde o governo errou? Não foi no investimento público. A administração Lula faz o que pode para acelerar o gasto estatal, dando felizmente de ombros para os que pedem “austeridade”. O problema está em outro lugar. Inacreditavelmente, o Banco Central tem aumentado os juros reais, dado que a desaceleração e a queda dos preços acontecem numa velocidade maior do que a da redução do juro básico. Além disso, as autoridades políticas e econômicas assistem passivamente à secura do crédito e ao aumento do “spread” bancário (a diferença entre o juro que o banco paga ao poupador e o que cobra do tomador de dinheiro).

Os bancos emprestam para cada vez menos gente e cobram cada vez mais caro. É um hábito econômico conhecido dos monopolistas. Se menos pessoas vão comprar o teu produto, aumenta a tua margem unitária. Ótimo para os bancos brasileiros, que assim se blindam para a travessia. Péssimo para as pessoas, para as demais empresas e para o país, que naufragam enquanto o capital financeiro fica só na calculadora, na observação excitada da própria capacidade de boiar enquanto os outros afundam.

O governo gastou tempo demais dando trela para conversa fiada, dando ouvidos para teses estapafúrdias sobre um risco inflacionário sabidamente inexistente. Ali pela virada do ano, os economistas de sempre, zelando pelos interesses de sempre, advertiam sobre o impacto que a depreciação do real teria nos preços internos, Só que ali já estava cristalino, até para os neófitos, que não havia nenhuma condição de as empresas repassarem a um consumidor intimidado a alta no custo dos insumos comprados em dólar ou euro. Mas essa picaretagem interessada andou frequentando o noticiário e o colunismo por tempo suficiente para legitimar uma “cautela” trágica, que agora vem apresentar a conta.

O presidente da República gosta de dizer que a crise começou lá fora. É verdade. E que estamos mais bem preparados para enfrentá-la do que no passado. Também é verdade. Mas quem vive de ter razão são os intelectuais. O fato de Lula ter mais ou menos razão quando analisa as origens da crise e as circunstâncias dela faz pouca diferença para o trabalhador ameaçado de perder o emprego porque o patrão acha que as vendas vão cair.

Se é verdade que a crise começou lá fora, também é verdade que aqui dentro seus efeitos se agravaram por causa dos erros do governo na condução da política monetária desde setembro -e na frouxidão oficial diante da gula e da arrogância dos bancos. Em miúdos: quanto mais seguros estão os empregos da diretoria do Banco Central e dos lobistas dos banqueiros no governo, mais você e eu temos motivo para preocupações com o nosso ganha-pão. E quem pode enquadrar o BC e os bancos não somos nem eu nem você, leitor. Não é Barack Obama. Nem o Conselho de Segurança da ONU. Não é o Papa Bento 16. Quem pode tomar uma providência nesse caso é Lula. Não o Lula analista do colapso do “modelo neoliberal”, mas o presidente da República.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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sexta-feira, 6 de março de 2009

Tocando a bola de lado (06/03)

Há algum tempo não escrevo sobre os juros, até porque não há novidade a dizer. Eles seguem altíssimos e empurram a economia para a estagnação. Os números de hoje da produção industrial foram péssimos. As razões? A principal é a secura do crédito. Sobre esse assunto, tudo que precisava ser dito já foi. A decisão está nas mãos de Luiz Inácio Lula da Silva, que é quem nomeia e demite o comando do Banco Central. O Brasil precisa cortar a Selic não em um, mas em muitos pontos, e já. E precisa dar um jeito -qualquer jeito- no "spread" bancário. Este post é curto porque a hora de debater já passou. A hora é de agir. Vamos ver se o presidente, do alto de sua popularidade, tem a fibra necessária. Ou se vai continuar tocando a bola de lado no meio de campo.

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Um abadá sempre à mão (06/03)

A ação tucana contra Luciana Genro deve ser vista apenas como o que é: uma tentativa de intimidação

E o calendário da oposição nos últimos dias? No domingo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso publicou artigo com preocupações sobre a suposta insensibilidade do brasileiro diante da também suposta corrupção generalizada que assola o Brasil no governo do PT. Na terça, os senadores da oposição debruçaram-se sobre os microfones em solidariedade ao colega Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), que aponta o dedo ao seu próprio partido acusando-o de corrupção sistêmica. Jarbas não cita nomes nem exibe provas, e não consta que a oposição esteja incomodada com isso. Já no caso das acusações contra a governadora tucana do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, o PSDB acha um escândalo que se acuse alguém sem apresentar as provas. Por isso, na quarta-feira os tucanos pediram nada menos do que a abertura de um processo que pode levar à cassação da deputada federal Luciana Genro (PSol-RS), por ela ter colocado a boca no trombone contra a governadora.

Se a Câmara dos Deputados seguir o que diz a Constituição, o destino certo da representação do PSDB contra Luciana Genro é o arquivo. O mandato parlamentar é inviolável. Deputados e senadores podem fazer as denúncias que quiserem, e não precisam provar nada. Que o diga o senador Jarbas Vasconcelos. Daí por que a ação tucana contra a deputada do PSol deva ser vista apenas como o que é: uma tentativa de intimidação. Ainda está em tempo de o PSDB colocar a cabeça no lugar e recuar. Em vez de ameaçar Luciana Genro, os tucanos deveriam ser os primeiros interessados em esclarecer completamente se há ou não fundamento nas acusações contra a governadora do Rio Grande do Sul. Será um erro prejulgar Yeda Crusius, mas o esforço para calar os adversários e abafar o caso não ajuda quem luta para convencer os gaúchos e os demais brasileiros da inocência dela.

E o PT do Senado? Alguns senadores do partido de Luiz Inácio Lula da Silva ficaram chateados porque o coordenador político do governo, José Múcio Monteiro, apreciou a vitória do senador Fernando Collor (PTB-AL) sobre Ideli Salvatti (PT-SC) na disputa pelo comando da Comissão de Infraestrutura. Ora, o serviço do ministro de Relações Institucionais é ajudar a manter o governo de pé, impedir que ele seja inviabilizado pela oposição. É natural, portanto, que Múcio tenha ficado satisfeito com o resultado da refrega. Em busca de seus legítimos projetos de poder, o PT do Senado tem todo o direito de se aliar aos mais ferozes inimigos de Lula, mas não deve ficar de beicinho quando a articulação política do governo faz o seu trabalho e ajuda a impedir que a aliança PT-PSDB na Casa ganhe força. Lula tem mais dois anos de Planalto e pretende eleger o sucessor. Melhor dizendo, sucessora. Não tem motivo para dar sopa ao azar.

A aliança que elegeu Collor para a Infraestrutura foi chamada de “espúria” pelo líder do PT. Infelizmente para ele, trata-se da aliança que sustenta o governo a que o líder pertence. Volta e meia ressurge das cavernas o sonho petista de uma concertação com o PSDB, para escantear o PMDB e os demais aliados. Banzo de uma época já distante, na Constituinte, quando pré-tucanos e petistas se autonomearam paladinos da luta contra a corrupção e contra o fisiologismo —e fizeram disso uma escada para chegar ao poder. Eram os bons tempos em que, de mãos dadas, infernizavam o governo de José Sarney, para impor-lhe a amputação do mandato e o parlamentarismo. Mas como não aconteceu de alcançarem juntos o ambicionado posto, o esporte predileto de ambos na última década e meia tem sido acusar o outro de fisiologismo e corrupção. Ou de conivência com o fisiologismo e a corrupção. Daí que, compreensivelmente, o eleitor enxergue cada vez mais só farisaísmo nos alternados surtos moralistas da dupla.

Mas a vida segue. A única coisa garantida é que a tempestade de raios sobre o PMDB continuará nas próximas semanas. O presidente do Senado, em entrevista recente ao Valor Econômico, resumiu bem a situação. PT e PSDB querem o PMDB como aliado, mas enfraquecido. Querem atraí-lo, ou atrair pedaços dele, mas não desejam dar à musculosa sigla a prerrogativa de optar. Eis por que a pancadaria. O PMDB é a única válvula de escape que resta numa sucessão precocemente bipolarizada. Trata-se portanto de miná-lo. Para tal, nada melhor do que tirar do armário o abadá da “ética na política”. Desde que, naturalmente, o bloco não tenha que desfilar pelos pampas gaúchos.

Coluna (Nas entrelinhas) publcada hoje no Correio Braziliense.

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