sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Um grito parado no ar (27/02)

O PMDB que se cuide. Por sua força e suas fraquezas, a agremiação está no alvo. E nele ficará, pelo menos até definir com quem vai casar em 2010

Enquanto em São José dos Campos os demitidos da Embraer constatam a inutilidade (para os trabalhadores, claro) do sindicalismo brasileiro, em Brasília a curiosidade converge para os próximos lances do affair PMDB. No chão das fábricas (e das lojas, e dos escritórios) Brasil afora o facão vai solto, mas nos carpetes da capital só se quer saber dos movimentos para atrair a noiva desejada. Atrair pela sedução ou pela força. Na base da conversa ou arrastada pelos cabelos. Ou ambas as coisas.

Nos muitos palácios de Brasília, entre uma e outra lamentação pública sobre a situação dos empregados postos na rua por causa da crise (ou a pretexto dela), o esporte da hora é bater no PMDB. Os mais otimistas (ou ingênuos) dirão que estamos diante de uma nova oportunidade para melhorar a política brasileira, para escoimá-la de alguns graves defeitos. Já os mais habituados a raios em céu azul procuram enxergar o que vai por trás das cortinas, tentam saber quem movimenta as cordas que fazem o boneco saltitar.

Desde que o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) abriu fogo contra o seu próprio partido, distribuindo acusações sem porém nomear os culpados, ficou um grito parado no ar. Um Gianfrancesco Guarnieri atualizado à Matrix. De onde virá a bala? Quem vai acender o pavio? Quem vai tomar o primeiro tiro? Quem vai estar, por falta de sorte, no caminho dos estilhaços depois que tirarem o pino da granada?

Mas essas são apenas especulações, enquanto o jornalismo vai à caça da materialidade, já que ninguém deseja ser furado. O PMDB que se cuide. Mercê de sua força e de suas fraquezas, a agremiação está no alvo. E nele ficará, pelo menos até definir com quem vai casar em 2010. Dependendo da escolha, pode continuar na mira mesmo depois.

Dos defeitos do PMDB fala-se muito. Aliás, segundo o senador Pedro Simon (PMDB-RS), falhas encontradiças em todo o espectro partidário. Mas as qualidades do PMDB também são conhecidas, ainda que menos comentadas. A sigla tem musculatura e capilaridade. Ao PT e ao PSDB, por exemplo, falta o segundo quesito. O peemedebismo ocupa no espectro político um centro de viés democrático e vagamente nacionalista, o que acaba ajudando a legenda a obter músculos e a se manter localmente enraizada. O PMDB, numa comparação, preenche o lugar que entre 1945 e 1964 era do getulista Partido Social Democrático (PSD), fundado basicamente pelos interventores estaduais que Getúlio Vargas havia nomeado no Estado Novo.

Há uma certa unanimidade, entre os historiadores, de que a estabilidade política brasileira da Segunda Guerra Mundial até a queda de João Goulart podia ser medida em função da solidez da aliança entre o PSD e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), também getulista mas vindo de outra vertente, o sindicalismo. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Se o PMDB é o herdeiro do PSD, o fio da meada leva a que o PT seja hoje o continuador de fato da velha tradição petebista. Ironias da história.

Daí que, agora como no passado, tanto a paz no que resta de governo a Luiz Inácio Lula da Silva como as perspectivas futuras do projeto de poder petista repousem na aliança que, aos trancos e barrancos, o antes antigetulista e visceralmente udenista PT foi obrigado pela vida a concertar com o mais do que pessedista PMDB. O PT parece ter compreendido isso bem. Assim como a oposição. O que torna arriscada a vida do PMDB, colhido no fogo cruzado.

Na política, assim como na guerra, as alianças costuram-se não principalmente pelas afinidades, ou por objetivos comuns. Tal visão idílica costuma frequentar os escritos dos teóricos, mas na vida prática os movimentos, aproximações e afastamentos são bem mais influenciados pelo temor do que pela paixão. O PMDB é um partido grande, porém flácido e dividido. Não tem uma cara, não tem um condutor que se coloque à frente dele e funcione como anteparo. Quando o PT foi alvejado na crise de 2005, havia Lula como reserva de força. Hoje, quando o PSDB tem um de seus governadores cassado e outra seriamente enrolada em todo tipo de confusão, o prestígio e o respeito angariados por José Serra e Aécio Neves funcionam como escudo.

Já o PMDB não tem quem o proteja, não tem um líder capaz de rivalizar com os demais caciques, não tem uma luz que aponte para o futuro. Não tem um projeto nacional. É situação de alto risco para um partido grande e que virou fiel da balança.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

The Economist: economia para baixo, sucessão disputadíssima (26/02)

A unidade de Inteligência da The Economist reviu as projeções para o crescimento brasileiro em 2009, de +1,6% para -0,5%. Ou seja, contração econômica. Para 2010, a previsão é de uma expansão modesta, de 3,2%. Daí que no finzinho do relatório (Set to shrink - Brazil's economy will probably shrink, despite official efforts) a revista afirme, sobre 2010, que:
    The Economist Intelligence Unit anticipates a high possibility of a close-run contest between Mr [José] Serra and Ms [Dilma] Rousseff in 2010.
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Jogo do Poder com Patrus Ananias (25/02)

O ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias (PT), é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também a jornalista Leila Suwann, repórter do jornal O Globo. Para ver os programas anteriores, clique aqui e role a página para baixo.



Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5 - Parte 6


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Um retrato realista da Europa na crise (25/02)

A newsletter de hoje da consultoria RGE Monitor (de Nouriel Roubini) desenha o mapa da Europa diante da crise, apontando especialmente a deterioração da situação econômica do Leste Europeu e algumas das possíveis consequências politicas. Leia a íntegra. Alguns trechos:
    The Central and Eastern Europe (CEE) region is the sick man of emerging markets. While the global crisis means few, if any, bright spots worldwide, the situation in the CEE area is particularly bleak. After almost a decade of outpacing worldwide growth, the region looks set to contract in 2009, with almost every country either in or on the verge of recession. The once high-flying Baltics (Estonia, Latvia, Lithuania) look headed for double-digit contractions, while countries relatively less affected by the crisis (i.e. Czech Republic, Slovakia and Slovenia) will have a hard time posting even positive growth. Meanwhile, Hungary and Latvia’s economies already deteriorated to the point where IMF help was needed late last year. The CEE’s ill health is primarily driven by two factors – collapsing exports and the drying-up of capital inflows.

    (...) Like the Asia crisis of 1997-98, a regional crisis in Eastern Europe would have far-reaching effects. As Harvard professor Kenneth Rogoff noted in a recent New York Times article: “There’s a domino effect. International credit markets are linked, and so a snowballing credit crisis in Eastern Europe and the Baltic countries could cause New York municipal bonds to fall.” Western Europe looks set to be particularly impacted via its strong trade and financial linkages. Of particular concern is the strong presence of Western European banks (via subsidiaries) in the CEE, where they hold 60-90% market share depending on the country, which paves the way for contagion.

    (...) Due to limited fiscal and monetary policy options, other CEE countries might need to follow in the footsteps of Latvia and Hungary and call on IMF help. In a nod to the difficult situation of many CEE countries, EU leaders called last week for IMF resources to be doubled to $500 billion to help head off new problems in crisis-hit countries. It remains to be seen, however, whether IMF help will be enough to return financial stability to the region.

    (...) The series of riots that erupted in Bulgaria, Lithuania and Latvia in January, followed by Latvia’s government collapse last week, raise concerns that Eastern European countries may experience a period of deep destabilization and social strife as the economic crisis deepens and unemployment rates soar. The recent wave of popular unrest was not isolated to Eastern Europe. Ireland, Iceland, France, the UK and Greece also experienced street protests, but many Eastern European governments seem more vulnerable as they have limited policy options to address the crisis and little or no room for fiscal stimulus due to budgetary or financing constrains. Deeply unpopular austerity measures including slashed public wages, tax hikes and curbs on social spending will keep fanning public discontent in the Baltic states, Hungary and Romania. Dissatisfaction linked to the economic woes will be amplified in the countries where governments have been weakened by high-profile corruption and fraud scandals (Latvia, Lithuania, Hungary, Romania and Bulgaria). The political forces most likely to benefit from public disaffection are those running on the populist platforms, which could disrupt efforts to battle the effects of the economic crisis. Latvia could be a case in point, as there are growing concerns that the coming election campaign might suspend the fiscal austerity measures required by the IMF bail-out package. Two other political hotspots that are at risk of early elections are Romania and Estonia, while Bulgarian national elections are due in mid-2009.

    (...) Overall, a big rise in support for populist and radical parties in the region could put social, structural and environmental reforms on hold in the region and could even call into question the economic and political model Eastern European countries have followed since the 1990s. The eastern EU member states’ decisions to open their markets and move toward greater integration with the EU are now being second-guessed by some. Moreover, the protectionist measures implemented in some western EU states in support of their automotive and financial sectors are threatening the EU’s single market rules and could particularly hurt Eastern European economies. Meanwhile, a backlash over immigrant labor is likely. With the 2009 unemployment rate set to rise to 8.75% in the EU27, according to the European Commission, member states are tempted to interpret the laws in a way more favorable to their nationals. This suggests that migration trends will reverse and the eastward flow of remittances will dwindle. The return of Eastern European migrant workers, in turn, may add to social discontent in their countries of origin.

    (...) The financial crisis has exacerbated the East/West divide within the EU illustrated by the persistent bickering between the Czech Republic, the current holder of the EU presidency and France over trade and protectionist bail out packages that hurt automotive industries in Poland, Czech Republic, Slovakia and Hungary. So far, the EU has helped economically troubled Latvia, Poland and Hungary with swap lines and loans and called for the resources of the IMF to double in order to help the countries facing the crisis. Yet, there have been a growing number of calls for EU-led coordinated support to the Eastern European economies (recently echoed by the World Bank). If there is a perceived lack of help, the financial crisis could deepen the divide between so called “Old Europe” and “New Europe” and bring structural changes to the political landscape in Eastern Europe, such as strengthening the nationalist, euro-skeptic voices in Central Europe (Czech Republic, Poland) and the pro-Russian parties in the Baltic states.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Quer apostar? (24/02)

Quem lê este blog lembra que eu escrevi em dezembro, em O próximo passo será pedirem preço mínimo e estoques reguladores...:
    Vamos fazer uma aposta? O próximo movimento da turma [do etanol] será tentar repassar ao Tesouro, mais uma vez, o custo de seus equívocos empresariais. Sem ter onde enfiar o produto, vão pedir que o governo compre o álcool que não conseguem vender no mercado. E por um preço que remunere, inclusive, o dinheiro caro que tomaram nos bancos para não ter que esperar o dinheiro baratinho que, graças a Luiz Inácio Lula da Silva, o BNDES iria colocar à disposição dos de sempre. Para fazer o de sempre: embolsar os eventuais lucros e repassar ao contribuinte os eventuais prejuízos.
Bem, dias atrás o Valor Econômico trouxe uma reportagem com o título Usinas tentam renegociar dívidas de R$ 3,45 bilhões. Um trecho:
    Preocupada com o alto nível de endividamento e as dificuldades para levantar novos recursos no mercado, a indústria [do etanol] reclama dos baixos preços e pede um amplo plano de reestruturação com medidas emergenciais e ações estruturantes de longo prazo. O financiamento dos estoques de etanol daria, segundo dirigentes do setor, estabilidade de preços e garantiria o abastecimento do mercado interno. Sem capital de giro, algumas indústrias têm fabricado mais etanol para cumprir compromissos. Mas isso deprime ainda mais as cotações. Nem mesmo a entressafra provocou uma elevação dos preços.
Eu escrevi O tantinho e o tantão quatro dias depois dessa reportagem do Valor, a qual confesso não tinha lido quando rascunhei as idéias do artigo. A matéria do Valor fala em algo como R$ 6 bilhões de benemerência para os usineiros. É cerca de metade do orçamento anual do Bolsa Família. Você acha que alguém vai reclamar, ou pedir "portas de saída"? Você acha que alguém vai falar em "paternalismo estatal", em "clientelismo"? De novo, vamos apostar?

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Salve-se quem puder (24/02)

Um bom retrato do estado de espírito no mercado bursátil:
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Eles chegaram lá (24/02)

Escrevi quase três anos atrás, em Se querem copiar os americanos, copiem nos acertos:
    Por qualquer critério que se use, Cuba é o maior fracasso da política externa dos Estados Unidos. Mesmo o Vietnã, de onde tiveram que sair com o rabo entre as pernas, é hoje um país cada vez mais amigo de Washington. O Iraque, uma ação militar na qual os americanos parecem imobilizados na areia, deve completar seu processo político atual com o estabelecimento de um governo no mínimo não hostil a eles. Cuba não. Daqui a pouco menos de três anos, Fidel Alejandro Castro Ruz, se estiver vivo, alcança meio século no poder. A despeito de toda a vontade que os Estados Unidos têm de que se vá. Nesse período, dez presidentes já passaram pela Casa Branca. Um acabou morto a tiros (John Kennedy). Um renunciou em meio ao processo de impeachment (Richard Nixon). Um desistiu da reeleição (Lyndon Johnson). Três não se reelegeram (Gerald Ford, Jimmy Carter e George Bush, pai). Até a União Soviética já deixou de existir, mas Fidel continua firme em sua cadeira.
Quando escrevi isso, Barack Obama era ainda uma promessa, um jovem senador democrata por Illinois com uma promissora carreira pela frente. Hoje, três anos depois, leio que:
    As sanções econômicas impostas a Cuba durante 47 anos pelos EUA fracassaram e devem ser revistas, afirmou em relatório o senador americano Richard Lugar. "Após 47 anos, o embargo unilateral não conseguiu alcançar o objetivo de levar a democracia aos cubanos", escreveu o republicano mais graduado da Comissão de Relações Exteriores do Senado. "A política americana atual tem muitos defensores, e suas críticas ao regime cubano estão justificadas. No entanto devemos reconhecer sua ineficácia e lidar com o regime cubano de uma forma que ajude os interesses americanos", diz ainda o informe, intitulado "Mudando a política de Cuba - Para o interesse nacional dos EUA" e divulgado ontem.
Leia a íntegra na Folha de S.Paulo ou, se souber inglês, o caso em detalhes na time.com (Changing Cuba Policy — in the U.S.' National Interest).

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Demorou (23/02)

Do The New York Times:
    In Latest Plan for Banks, U.S. Could Demand a Voting Stake

    By EDMUND L. ANDREWS
    February 23, 2009

    WASHINGTON — The Obama administration put the nation’s biggest banks on notice Monday that the government could become their biggest shareholder if regulators decide they are not strong enough to weather a deeper-than-expected downturn in the economy. In an unexpectedly assertive joint statement, the Treasury Department, Federal Reserve and federal bank regulatory agencies announced that the government might end up demanding a direct ownership stake in major banks after they undergo a tough evaluation of their strength, which is to begin shortly. “The capital needs of major U.S. banking institutions will be evaluated under a more challenging economic environment,” the administration said. “Should that assessment indicate that an additional capital buffer is warranted,” it continued, the banks could be required to give the government a right to acquire common shares, with voting rights. The statement came as federal regulators confirmed that they were in discussions with Citigroup over precisely that kind of swap. Citigroup, which has received $45 billion in direct assistance and given the Treasury nonvoting preferred shares that pay a guaranteed dividend — is negotiating to swap the preferred shares for common shares that would give the government a stake as high as 40 percent.
Leia a reportagem completa. Leia também no NYT a coluna de ontem de Paul Krugman, Banks at Risk.

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Quando seremos um país melhor (23/02)

Será que deveríamos enveredar pelo caminho do qual os americanos estão doidinhos para sair? O do individualismo exacerbado?

Os programas sociais do governo têm lugar garantido entre os assuntos candidatos a virar polêmica na eleição de 2010. Segundo a oposição, uma suposta falta de “portas de saída” para os pobres beneficiários do programa Bolsa Família poderia levar —ou já está levando— a que a concessão do benefício acabe perenizando a dependência dos menos favorecidos em relação ao Estado, aos serviços públicos de assistência e promoção sociais.

Mas o que seriam as tais “portas”? Essa discussão é fácil de ser feita no plano abstrato. E no concreto? Qual é a porta de saída eficaz para um adulto pobre —ou miserável— cuja família sofre as consequências da degradação social? O que seria uma porta de saída viável para o núcleo familiar ferido pelo alcoolismo, pelas drogas ou pela prostituição de seus filhos?

Amiúde, o debate vem contaminado pelo preconceito. Devido a um elitismo ancestral, boa parte da sociedade brasileira olha os recursos públicos da proteção social, em particular o Bolsa Família, como um desperdício. Ou um mal necessário. Cuja vigência deve ser abreviada, e quanto mais cedo melhor. Como bem diz o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, o mesmo país que teve uma paciência de séculos para tolerar a escravidão agora se inquieta diante da perspectiva de o Estado precisar estender no tempo os programas sociais.

O Brasil é um país lindo, mas que continua a exibir algumas marcas tristes. Já conseguimos incluir maciçamente os pobres no sistema educacional, mas a criança pobre ainda recebe na escola pública um ensino inferior ao recebido pela criança rica e de classe média no ensino particular. Em outra área sensível, a saúde, as desigualdades são também enormes. Ainda que a vigência do Sistema Único (SUS) nas duas últimas décadas tenha conseguido o milagre de fazer do brasileiro pobre e doente um sujeito mais sortudo do que o seu congênere americano.

Aliás, uma pesquisa recente do jornal The New York Times e da rede de TV CBS dá pistas sobre o estado de espírito do cidadão daquele país quanto à necessidade de o poder público intervir na esfera social. A pesquisa perguntou às pessoas se o governo federal deveria prover um seguro de saúde nacional, ou se isso deveria ser deixado por conta de empresas privadas. A primeira opção teve 59% das preferências, contra 32% da segunda. O que mais impressiona é a mudança nas mentalidades. A mesma pesquisa feita há 30 anos dava à medicina privada uma vantagem de 48% a 40%.

Os Estados Unidos são um país admirável e admirado, mas em alguns aspectos nós estamos à frente. Um deles é a amplitude dos programas de apoio à população mais pobre e a rede de proteção e promoção social para os menos capazes. Os americanos construíram uma grande nação com base no princípio de cada um por si. Nós estamos ainda em fase de construção, mas já incorporamos à nossa obra nacional alguns elementos de cuja falta os nossos irmãos do norte se ressentem, por excesso de individualismo. Um defeito que agora, com Barack Obama, eles têm a oportunidade histórica de corrigir.

Será que deveríamos enveredar por um caminho do qual os americanos estão doidinhos para sair? O do individualismo exacerbado? Pois o incômodo diante da ajuda do governo aos pobres deita aí suas raízes. No fundo, ainda temos dificuldade de aceitar que os que podem menos sejam ajudados pelos que podem mais. Queremos a coesão social, a coesão nacional, mas resistimos a pagar o preço. Falamos em democracia, mas a democracia se enfraquece quando falta a noção de pertinência para uma parte.

Pensando bem, o Bolsa Família e as demais ações sociais do Estado brasileiro, nas suas diversas esferas, são um preço barato, que podemos pagar com tranquilidade. É uma fração pequena do orçamento público, diante de seus belos efeitos num país reconhecido mundialmente pela crônica e brutal desigualdade social. Melhor seria se essas políticas públicas fossem encaradas como um dado da realidade, um fato da natureza. No dia em que for assim, teremos nos transformado num país melhor.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

E quem defende o trabalhador? (20/02)

Do site Avião Revue, no Terra:
    A Embraer anunciou, nesta quinta-feira (19/02), que vai reduzir em 20% seu quadro de funcionários. A empresa comunicou que, devido à crise financeira internacional, tornou-se “inevitável efetivar uma revisão de sua base de custos e de seu efetivo de pessoal, adequando-os à nova realidade de demanda por aeronaves comerciais e executivas”. Pelo mesmo motivo, as projeções de entregas de aeronaves para o ano de 2009 também foram reduzidas de 270 para 242 unidades. A receita estimada da empresa para 2009 passou de US$ 6,3 bilhões para US$ 5,5 bilhões.
Leia a íntegra. Vamos fazer contas. A empresa vai cortar 20% da força de trabalho. As projeções de entrega de aeronaves para 2009 caíram 28 em 270 (10%). A receita estimada para o ano caiu US$ 800 mil em US$ 6,3 bi (13%). Resumindo, para uma queda de 13% na receita e de 10% na produção, cortaram 20% da força de trabalho. Como sempre, o capital (os ouvidos mais sensíveis que me perdoem) aproveita a crise para reduzir custos num nível maior do que o teoricamente necessário, para incrementar a produtividade, o que o velho (Karl) Marx chamava de mais valia relativa. Pesquisem. Para, uma vez magrinho, sair da crise com a lucratividade bombando. E com a ajuda do BNDES, cujo dinheiro vem sendo engordado pelo FGTS. Da Folha de S.Paulo de 11 de janeiro:
    O governo já autorizou o uso de R$ 23 bilhões de recursos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para finalidades que não têm nenhuma relação com habitação e saneamento, aplicações previstas originalmente na lei que criou o fundo em 1966. O valor desviado para outros projetos já supera 1% do patrimônio total do FGTS, que é de R$ 215 bilhões. Esse desvio de funções tem uma explicação: turbinado pelo crescimento do emprego e pelos ótimos resultados nos últimos anos, o FGTS tornou-se uma das únicas fontes de dinheiro para financiar projetos de longo prazo a um custo barato, especialmente depois que o mercado internacional foi afetado pela crise econômica. Somente para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), o FGTS já repassou R$ 13 bilhões. Uma parcela de R$ 6 bilhões foi retirada diretamente do patrimônio do fundo, que tinha títulos do governo em caixa e os repassou para o banco.
Leia a íntegra. Tudo isso num governo do PT. E a oposição? Fui ao site do PSDB e achei algo sobre o assunto:
    O corte de 20% do quadro de pessoal da Embraer, quarto maior fabricante de aviões do mundo, se concentrou no Brasil, onde emprega 18 mil pessoas. A empresa também tem 3 mil funcionários nos EUA, França e Cingapura. As demissões se devem à "crise sem precedentes" que afeta a economia global, informou nota da Embraer. O deputado Emanuel Fernandes (PSDB-SP), que é engenheiro aeronáutico e representante da região onde a empresa e suas principais parceiras estão, a expressiva inserção internacional deixou a fábrica exposta ao forte recuo da demanda, afetada pela escassez de crédito. Para ele, cabe agora à União manter o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao setor e mitigar dificuldades sofridas por milhares de famílias de desempregados. "O governo demorou a perceber a crise que todos já vinham alertando", finalizou o tucano, ex-prefeito de São José dos Campos (SP).
Leia a íntegra. Nenhuma crítica à empresa pelas demissões. Nenhuma menção a readmitir funcionários. Apenas a exigência de que o BNDES continue solícito, que o dinheiro baratinho continue à disposição do capital. E o desejo piedoso de que sejam "mitigadas" as dificuldades dos desempregados. Não deixa de ser uma síntese do Brasil de hoje.

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Por que eu não dou opinião sobre o caso da advogada brasileira supostamente (ela se disse) atacada por neonazistas na Suíça (20/02)

Quando eu souber o que aconteceu ali de fato, eu eventualmente darei uma opinião. Eu achei bom que a diplomacia brasileira tivesse reagido rapidamente, ainda que o tenha feito de modo meio destrambelhado. Melhor do que ficar passiva. Eu, como palpiteiro, posso esperar. Já o Itamaraty, é melhor que ele erre por tentar defender um brasileiro do que por não tentar.

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E aconteceu antes do Carnaval (20/02)

Como não há gente ingênua em posições de poder, cada lado trata de queimar a largada enquanto acusa o outro de não esperar pelo apito do juiz

Diz o ditado que nada acontece no Brasil entre o Natal e o Carnaval. Mas este ano vem sendo diferente. A corrida presidencial acelerou e a temperatura do ambiente político sofreu elevação sensível, mesmo antes da instalação da festa. Em plena preparação carnavalesca, os políticos começaram prematuramente a falar mal uns dos outros, a se acusarem dos piores defeitos.

Nesta altura, entre as pessoas comuns, até quem ainda não parou de trabalhar já ensaia a contagem regressiva. Com um olho no peixe e outro no gato, é claro. As nuvens da crise preocupam, ainda que os Estados Unidos pareçam ter encontrado um caminho de saída, por meio da intervenção maciça e sem limites do Estado na economia. E ainda que a China, com suas gigantescas gorduras, esteja a dizer ao mundo que melhores dias virão.

Deus ajude os nossos amigos americanos e chineses, e assim estará ajudando a todos nós. É a minha reverência ao sagrado, na véspera dos dias profanos. Mas esta coluna não é sobre o carnaval e a relação entre religião e prazer, é sobre a inesperada agitação entre os políticos na véspera do feriado, época em que eles já deveriam estar longe de Brasília, com seus assessores informando aos jornalistas que infelizmente o deputado, o senador, o ministro fulano de tal não está, que viajou e só volta depois da quarta-feira de cinzas. Ou então só na outra segunda. Pois ninguém é de ferro.

Mas em 2009 está sendo diferente. Porque 2009 foi transformado em ano eleitoral. Com cada político, como de hábito, acusando o adversário pela anomalia, pela antecipação do calendário. Na verdade, estamos diante de uma rara situação em que oposição e governo estão certos ambos. A campanha prematura é obra a quatro mãos. É criação coletiva.

A oposição gostaria que Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff passassem 2009 encerrados em palácio, de preferência quebrando a cabeça sobre como responder aos jornalistas sobre o mais recente escândalo, real ou fabricado pela oposição. Já o governo gostaria que a oposição assistisse passivamente ao desabrochar, Brasil afora, da candidatura do PT. Como em política tem de tudo, menos gente ingênua ocupando posições de poder, cada lado trata de queimar a largada enquanto acusa o outro de não esperar pelo apito do juiz.

Era ingenuidade achar que Dilma e Lula assistiriam de braços cruzados enquanto Aécio Neves e José Serra ocupariam o espaço ao longo de 2009, montados em números de pesquisas e na visibilidade proporcionada pelas máquinas que comandam. E vitaminados por uma disputa interna que lhes garantirá cadeira cativa no noticiário por um longo tempo. Era igualmente ingênuo imaginar que tucanos e democratas não iriam espremer os miolos para dar um jeito de atrasar a construção da alternativa governista. Qual é a novidade então?

A novidade é que uns e outros nem esperaram o Carnaval para colocar o bloco na rua. O motivo da pressa? O governo não aceita virar refém político da crise. E levantamentos recentes frustraram o desejo de quem sonhava com a corrosão da popularidade de Lula por causa das dificuldades econômicas. E o desdém diante da possível candidatura da caloura Dilma deu lugar a um certo temor. Tucano escaldado por duas derrotas tem medo de água fria.

Daí que os políticos tenham começado a brigar enquanto o resto do Brasil só pensa em brincar, ou descansar. Que briguem à vontade enquanto o povo brinca, ou descansa. E que tomem as providências para neutralizar o discurso dos adversários. O governo federal, por exemplo, precisará dar um jeito de o PAC emplacar 2010 podendo ser mostrado em fotos e vídeos, e não apenas em números. Já os dois candidatos a ocupar a vaga da oposição na corrida também precisarão cuidar, em seus respectivos estados, das garrafas que pretendem começar a entregar daqui a um ano. Quem sairá ganhando? O cidadão. Que aliás sempre se dá bem quando os políticos precisam se esfalfar pelo voto.

Este ano, o Carnaval dos políticos, especialmente dos mais graúdos, vai ser de tensão e atividade. Nem que seja ao celular. E depois ainda tem gente que diz que político não trabalha. Injustiça. Nem no carnaval eles param.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Aécio, Dilma, Serra (19/02)

O blog coloca à disposição dos visitantes a íntegra do vídeo das três entrevistas feitas por mim, de dezembro para cá, com os três nomes mais citados hoje para concorrer à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: Aécio Neves, Dilma Rousseff e José Serra. As entrevistas foram dadas no programa Jogo do Poder, que eu apresento todas as quartas-feiras na CNT. Cada uma delas dura cerca de 45 minutos e, por razões técnicas, foram divididas em blocos de no máximo dez minutos. Clique em cada nome para ver a respectiva entrevista. Ah, sim. Os nomes dos três, no título e no texto, estão em ordem alfabética. Mais Jogo do Poder.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Jogo do Poder com Aécio Neves (18/02)

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também o jornalista Gustavo Krieger, repórter especial e colunista do jornal Correio Braziliense. Para ver os programas anteriores, clique aqui e role a página para baixo.



Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5 - Parte 6


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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Tudo como antes (17/02)

Do UOL, hoje:
    Queda da Selic não reduziu juros que bancos cobram de clientes, diz pesquisa

    Brasília (Agência Brasil) - A redução da taxa básica de juros, a Selic, ainda não levou os bancos a cobrarem taxas mais baixas dos clientes, segundo pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). Em janeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a Selic em 1 ponto percentual, de 13,75% para 12,75%. Segundo a Anefac, se forem consideradas todas as quedas e elevações da taxa básica de juros desde setembro de 2005, houve redução da Selic em sete pontos percentuais (queda de 35,44%). Em setembro de 2005, a Selic estava em 19,75% ao ano. Nesse período de setembro de 2005 a janeiro de 2009, a taxa de juros média para pessoa física apresentou redução de 1,07 ponto percentual (queda de 0,76%), ao passar de 141,12% para 140,05% ao ano. Segundo a Anefac, nas operações de crédito para pessoa jurídica (empresas) houve elevação de 0,19 ponto percentual (0,28%), de 68,23% para 68,42% ao ano. "Apesar de não se justificarem, altas podem ser atribuídas à maior preocupação das instituições financeiras com a inadimplência", diz a Anefac.
Essa desculpa da inadimplência não cola mais. Já foi desmascarada por Márcio Nakane, da consultoria Tendências. Outra da Anefac, também hoje no UOL:
    Juros ao consumidor voltam a subir em janeiro, para 7,57% ao mês

    SÃO PAULO - Após registrar queda em dezembro de 2008, a taxa média de juros cobrada nos financiamentos à pessoa física voltou a subir em janeiro, passando de 7,49% ao mês em dezembro para 7,57% ao mês no primeiro mês do ano, mostrando alta de 8 pontos-base. Segundo dados divulgados nesta terça-feira (17) pela Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), tomando como base janeiro de 2008, quando o juro médio era de 7,23% ao mês, houve avanço de 34 pontos-base.
Leia a íntegra desta última reportagem. E o governo? Vai agir quando? Vamos ter que esperar pelo próximo?

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O tantinho e o tantão (16/02)

No Brasil, dinheiro público dado ao rico significa modernidade. Quando é dado para o pobre, representa atraso e clientelismo

Na entrevista que deu à edição desta semana da revista Veja, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), além de acusar o seu próprio partido de corrupto, disse que o Bolsa Família "é o maior programa oficial de compra de votos do mundo". Eu acho que entendi o que o senador quis dizer. Que a pessoa que recebe o Bolsa Família fica tão grata ao governo que se dispõe a votar em candidatos apoiados pelo governo.

Não vejo muita novidade nisso. Em geral é assim. Se o governo faz algo de bom para você, é natural que você fique mais propenso a votar na situação do que na oposição. Não sei se o Bolsa Família é —como diz o ex-governador de Pernambuco— "o maior" programa planetário de "compra de votos". Mas ele sem dúvida tem sido eficaz para trazer à administração federal e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva apoio político entre os mais pobres.

Por que o Bolsa Família é politicamente eficiente? Porque dá a um tantão de gente que não tem quase nada um tantinho de alegria para cada um. Há outras maneiras conhecidas de o governo proporcionar felicidade. Em certas privatizações, por exemplo, a turma que arremata ativos estatais a preço de banana fica tão agradecida ao governante que se dispõe a apoiá-lo politicamente. É do jogo.

A desvantagem eleitoral das privatizações localiza-se num aspecto muito particular. É que, amiúde, o tantão de alegria que elas proporcionam só beneficia um tantinho de gente. É diferente do Bolsa Família. O multiplicador eleitoral é mais modesto, dado o pequeno contingente de felizardos. Pois, infelizmente, muitas vezes o que sobra para o cidadão comum é a conta a pagar. O Brasil tem um dos serviços de telefonia celular mais caros do mundo. Para não falar na energia elétrica.

Voltando ao Bolsa Família, eu sempre me espanto com a virulência dos ataques ao programa, que do ângulo orçamentário é até relativamente modesto. Eu não vejo a gritaria contra o Bolsa Família reproduzir-se, por exemplo, quando o agronegócio vem a Brasília exigir o perdão das dívidas que fez no Banco do Brasil. Ou quando empresários tomam os palácios da capital a impor que o governo abra mão de impostos. No Brasil, dinheiro público dado ao rico significa modernidade. Quando é dado para o pobre, representa atraso e clientelismo.

Em relação ao Bolsa Família eu sou radical. Sigo a cartilha do senador Eduardo Suplicy (PT-SP). O programa deveria ser expandido a toda a população, na forma de um imposto de renda negativo. Todo mundo teria direito a uma renda mínima, capaz de evitar o mergulho na pobreza extrema. Para o meu gosto, o governo Lula é até tímido nessa área. Ele costuma ficar refém do discurso das "condicionalidades". Como se a mãe de família pobre precisasse ser coagida para mandar os filhos à escola. Ninguém é idiota por ser pobre.

Lembro bem da gritaria que houve na Constituinte quando se implantou a aposentadoria rural universal, independente de contribuição. Diziam que o país não suportaria. Pois bem, hoje a aposentadoria rural, somada ao Bolsa Família, é um poderoso instrumento para movimentar a economia dos pequenos municípios. Num Brasil em que a reforma agrária dorme na gaveta, o repasse de recursos públicos às populações mais pobres do interior ajuda também a evitar um fluxo ainda maior de gente para as regiões metropolitanas.

A oposição já perdeu uma eleição presidencial por não saber defender suas privatizações junto ao eleitor. Agora, a julgar pelo discurso articulado do senador pernambucano, arrisca-se a naufragar diante da acusação de que, se vencer em 2010, vai acabar com o Bolsa Família. A oposição nunca soube mesmo lidar com as políticas sociais de Lula. Azar dela.

Para quem precisa desesperadamente conquistar votos entre os mais pobres e no Nordeste, a oposição está começando a campanha eleitoral com o pé direito. Isso foi uma ironia. Ou, se quiserem, um trocadilho.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Não fique chateado com o garçom, senador. Reclame do dono do restaurante (14/02)

O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) deu uma entrevista à revista Veja ("O PMDB é corrupto") para espinafrar o seu partido e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A certa altura, o jornalista busca confrontar o senador com os fatos:
    Mas esse presidente que o senhor aponta como medíocre é recordista de popularidade. Em seu estado, Pernambuco, o presidente beira os 100% de aprovação.

    O marketing e o assistencialismo de Lula conseguem mexer com o país inteiro. Imagine isso no Nordeste, que é a região mais pobre. Imagine em Pernambuco, que é a terra dele. Ele fez essa opção clara pelo assistencialismo para milhões de famílias, o que é uma chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo.

    O senhor não acha que o Bolsa Família tem virtudes?

    Há um benefício imediato e uma consequência futura nefasta, pois o programa não tem compromisso com a educação, com a qualificação, com a formação de quadros para o trabalho. Em algumas regiões de Pernambuco, como a Zona da Mata e o agreste, já há uma grande carência de mão-de-obra. Famílias com dois ou três beneficiados pelo programa deixam o trabalho de lado, preferem viver de assistencialismo. Há um restaurante que eu frequento há mais de trinta anos no bairro de Brasília Teimosa, no Recife. Na semana passada cheguei lá e não encontrei o garçom que sempre me atendeu. Perguntei ao gerente e descobri que ele conseguiu uma bolsa para ele e outra para o filho e desistiu de trabalhar. Esse é um retrato do Bolsa Família. A situação imediata do nordestino melhorou, mas a miséria social permanece.
Ao dizer que o sujeito se recusa a trabalhar quando tem o Bolsa Família, o senador revela desinformação. Ele se aventurou num assunto para o qual lhe faltam elementos. O repórter Lúcio Vaz informou no Correio Braziliense de 23 de novembro do ano passado que:
    O cruzamento de dados do Ministério do Trabalho e Emprego com os registros do Bolsa Família em todo o país mostra que os municípios que mais receberam o benefício, proporcionalmente à sua população, apresentaram um crescimento do número de carteiras de trabalho assinadas bem maior do que a média nacional nos últimos cinco anos. Enquanto a média do país ficou em 31%, os 500 municípios que mais receberam o Bolsa Família tiveram um crescimento de 42% no emprego formal. Se forem considerados os 300 municípios mais contemplados no programa, o percentual de crescimento chega a 52,9%.
Eu já havia tratado do assunto neste blog, em Ninguém é idiota por ser pobre. E também em Foi mal na escola? Cuidado com o seu Bolsa Família. Um trecho de Ninguém é idiota..., sobre a exigência de "condicionalidades" para que o beneficiário do programa não seja descadastrado:
    (...) acham que o pobre é um idiota e precisa ser coagido a ingressar na civilização. Acham que se não houver a "obrigação" de mandar as crianças à escola e de vaciná-las a mãe pobre (que é quem recebe o dinheiro) vai preferir colocar os filhos para trabalhar em vez de estudar e vai deixar de levá-los para tomar vacina. (...). O Brasil será um país melhor no dia em que forem eliminadas as burocracias inúteis, dinheiro que poderia ser mais bem empregado em outras coisas. Ou então economizado. Para não dizerem que só critico, vai aí uma proposta: cortar toda despesa relacionada à (pretensa) fiscalização das condicionalidades do Bolsa Família. Muito ou pouco, tanto faz. Nem que fosse uma coisa só simbólica, melhor seria lançar esses recursos (gastos com a burocracia) no superávit primário, ajudar a controlar a inflação e, assim, permitir ao beneficiário do Bolsa Família comprar um pouco mais com o dinheiro recebido. Mas isso não será feito. O governo (qualquer governo) precisa ter argumentos para explicar ao contribuinte que o dinheiro dado aos pobres não está sendo "desperdiçado". Isso num país em que cada dois reais em crédito rendem a quem empresta (os bancos) quase um real em juros.
Senador Jarbas, converse mais com o seu colega Eduardo Suplicy (PT-SP). Ele explicará como os programas de renda mínima servem para tirar pessoas e famílias da pobreza extrema, oferecendo portanto uma oportunidade para que o beneficiado e seus entes queridos possam avançar socialmente ainda mais. Ele poderá contar também como o dinheiro injetado nos municípios (especialmente nos pequenos) por ações como o Bolsa Família e a aposentadoria rural serve para movimentar o conjunto da economia local. Daí que os programas de renda mínima acabem resultando num ritmo maior de criação de empregos, como constatou o Lúcio. Ao contrário do que reza o senso comum, segundo o qual o Bolsa Família desestimula o trabalho do pobre. E um detalhe final. O ex-governador de Pernambuco se incomodou quando o gerente do restaurante que ele frequenta contou que o garçom que costumava servir o senador largou o emprego, supostamente porque passou a receber dinheiro do Bolsa Família. Não fique chateado com o garçom, senador, fique bravo com o gerente. Ou com o dono do restaurante. Imagine, senador, o tamanhinho do salário do garçom, para ele ter decidido trocar o emprego por dois cadastros no Bolsa Família, um para si e outro para o filho. Foi o que escrevi num de meus posts mais sintéticos (É fácil: paguem mais), sobre a eventual dificuldade de contratar mão-de-obra com carteira assinada em áreas cobertas pelo Bolsa Família:
    Fácil de resolver. Mole. Simplesmente, ofereçam salários maiores. Até que o trabalhador considere vantajoso trabalhar com carteira assinada.
Ou seja, se o trabalhador prefere ficar na informalidade para continuar recebendo o Bolsa Família é porque o trabalho formalizado não o remunera adequadamente. Em vez de ficar reclamando disso, seria conveniente pagar mais. Eis um aspecto pouco explorado na análise desse belo programa federal: ele oferece um colchão de proteção para que o trabalhador não tenha que vender sua força de trabalho a qualquer preço. Daí por que podendo optar pelo Bolsa Família é natural que qualquer um se recuse a trabalhar em troca de um salário aviltante. Ainda mais num restaurante bom o suficiente para servir a um ex-governador e senador da República.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Bancos privados? Onde?

É hora de simplesmente nacionalizar os sistemas bancários insolventes, defende Nouriel Roubini. Um trecho de It Is Time to Nationalize Insolvent Banking Systems, de três dias atrás:
    Thus, paradoxically nationalization may be a more market friendly solution of a banking crisis: it creates the biggest hit for common and preferred shareholders of clearly insolvent institutions and – most certainly – even the unsecured creditors in case the bank insolvency hole is too large; it provides a fair upside to the tax-payer. It can also resolve the problem of avoiding having the government manage the bad assets: if you selling back all of the assets and deposits of the bank to new private shareholders after a clean-up of the bank together with a partial government guarantee of the bad assets (as it was done in the resolution of the Indy Mac bank failure) you avoid having the government managing the bad assets. Alternatively, if the bad assets are kept by the government after a takeover of the banks and only the good ones are sold back in a re-privatization scheme, the government could outsource the job of managing and working out such assets to private asset managers if it does not want to create its own RTC bank to work out such bad assets. Nationalization also resolves the too-big-too-fail problem of banks that are systemically important and that thus need to be rescued by the government at a high cost to the taxpayer. This too-big-to-fail problem has now become an even-bigger-to-fail problem as the current approach has lead weak banks to take over even weaker banks. Merging two zombie banks is like have two drunks trying to help each other to stand up. The JPMorgan takeover of insolvent Bear Stearns and WaMu; the Bank of America takeover of insolvent Countrywide and Merrill Lynch; and the Wells Fargo takeover of insolvent Wachovia show that the too-big-to-fail monster has become even bigger. In the Wachovia case you had two wounded institutions (Citi and Wells Fargo) bidding for a zombie insolvent one. Why? Because they both knew that becoming even bigger-to-fail was the right strategy to extract an even larger bailout from the government. Instead, with nationalization approach the government can break-up these financial supermarket monstrosities into smaller pieces to be sold to private investors as smaller good banks.
Leia a íntegra. Eu fico matutanto por que os bancos brasileiros estão melhores do que a média mundial. E por que, consequentemente, talvez não precisem ser estatizados. Ora, porque eles já são de algum modo "estatais". É um oligopólio, bem regulado para ter lucros garantidos. Emprestando pouco e caro ao público, muito e caro ao governo e explorando o consumidor com tarifas aberrantes. O problema no Brasil não é os bancos serem privados. Até porque privados mesmo eles não são. Só faz sentido falar em propriedade privada quando ela está "casada" com um mercado competitivo. O problema no Brasil é a quem serve o Estado que, de fato, controla os bancos.

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E a vida real mandou mesmo lembranças (13/02)

Duas leituras no The New York Times para os que sonham com a entrada em massa do etanol brasileiro nos Estados Unidos:Uma leitura, também no NYT, sobre as dificuldades da energia alternativa diante da crise planetária:Escrevi aqui em dezembro (A vida real manda lembranças), a propósito de uma reportagem publicada na revista Veja (Três ícones no abismo):
    A última moda é relacionar a crise das montadoras americanas à suposta perda de protagonismo do petróleo. Do petróleo caro. Ora, se o problema de Chrysler, General Motors e Ford fossem carros ávidos por gasolina cara, o cenário global seria de esperança para as três, e não de ameaça. O barril de petróleo, que esteve no patamar de 150 dólares, patina hoje na faixa dos 40. Está muito barato, e nada indica que vá voltar ao nível estratosférico de meses atrás. Até porque só uma parte do preço era consumo. A maior parte era demanda financeira superaquecida, dinheiro em excesso procurando o melhor destino. Um dinheiro que desapareceu, dado que não representava valor real. Daí que o mundo pós-crise esteja mais amistoso ao petróleo, e portanto mais complicado para as fontes alternativas de energia. Em que situação a energia dita verde será capaz de derrotar estrategicamente os combustíveis fósseis? Quando ficar mais barata do que eles. A não ser que você acredite em histórias da carochinha, de que a humanidade vai optar por uma energia mais cara só para combater o aquecimento global.
E não é que a vida real mandou mesmo lembranças?

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Faltou combinar com os russos (13/02)

O PSDB serrista parece ter percebido que não poderá ficar escondido na toca, só esperando chegar o dia em que a Presidência lhe cairá inevitavelmente no colo

Pelo jeito, esta será uma longa, muito longa campanha eleitoral. O PT precisa tornar conhecida a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, precisa movimentar-se para impedir que a inércia transforme a candidatura José Serra num fato consumado dentro do PSDB. E o governador de São Paulo tampouco pode ficar assistindo passivamente à ocupação de espaços pelos adversários, internos e externos.

Em tese, uma campanha curta e não polarizada seria ideal para Serra, que dispõe hoje de vantagem nas pesquisas de intenção de voto para 2010. Tratar-se-ia simplesmente de escolher um administrador capaz de continuar o que o governo Lula vem fazendo de certo, de fazer o que não vem sendo feito e de corrigir o que está errado. O discurso com que Serra derrotou a petista Marta Suplicy na corrida municipal de 2004 em São Paulo.

Mas nessas coisas é conveniente sempre antes combinar com os adversários. Já advertia Garrincha, um grande piadista, na brincadeira que fez com o técnico Vicente Feola nos vestiários da partida contra a Rússia na Copa do Mundo de 1958. E, já que nem Aécio nem Dilma parecem conformados com o papel de estender desde agora um tapete vermelho para que Serra suba a rampa no Planalto, o PSDB serrista parece ter descoberto a necessidade de sair da zona de conforto e ir à luta.

Quem torce por uma campanha curta dirá que desencadear agora a sucessão pode gerar paralisia administrativa e prejudicar o país. Já quem precisa se vitaminar no grande público dirá que quanto mais informação for dada ao eleitor, melhor. Que um eleitor bem informado vota de maneira mais consciente. Na política, como se sabe, há argumentos para todos os gostos. E para todas as conveniências.

Os últimos movimentos da ala hegemônica do tucanato, retratada no ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, refletem a constatação de que o PSDB não poderá ficar escondido, só esperando o dia em que a Presidência lhe cairá inevitavelmente no colo. Se quiserem chegar lá, os tucanos precisarão antes amassar barro, respondendo em primeiro lugar à seguinte pergunta: no que um Brasil governado pelo PSDB seria melhor do que o Brasil governado pelo PT?

O PSDB vem fugindo desse debate como o diabo foge da cruz. Só que, por mais que corra, dele não conseguirá escapar. É o que se escreve neste espaço desde tempos imemoriais. Os tucanos não têm conseguido fazer oposição programática ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Talvez porque Lula tenha incorporado boa parte do discurso do PSDB em assuntos como o controle da inflação e a responsabilidade fiscal. Ou os tucanos corrigem isso ou correm um risco enorme de ficar a ver navios no cais, enquanto a nau petista zarpa para um novo cruzeiro.

O quadro para o PSDB é complexo. Em entrevista esta semana a um canal de televisão, Dilma colocou na mesa a carta da reforma do Estado. Aumentar a eficiência da máquina pública. Com o movimento, a ministra prepara o ataque a uma das últimas fortalezas do discurso tucano. É uma manobra arriscada, mas compreensível: se tomarem a posição, as tropas do dilmismo terão reforçado o flanco e consolidado a sua defesa.

Se o PSDB for inteligente, buscará transformar o limão numa limonada. O PSDB perdeu nos últimos anos a oportunidade de construir socialmente uma agenda própria. Mas quem sabe se a disputa interna no tucanato não produz agora algo de útil? Uma ideia nova para o Brasil. Uma inspiração para despertar energias sociais hoje contidas.

O mundo mudou muito desde o início dos anos 1990, quando o PSDB se consolidou como força política. Naquela época, por exemplo, controlar o fluxo de informação era bem mais possível do que agora. Nos nossos dias, ou o sujeito mergulha na rede e trava a luta de ideias de maneira sistemática e contumaz ou então está fora da partida.

Nesse aspecto, o PT e o governo parecem mais adaptados à contemporaneidade do que o PSDB. Mas os tucanos têm massa crítica, intelectualmente falando, para equilibrar o jogo. Desde que queiram jogá-lo. Ou então podem continuar como estão: mirando obsessivamente o próprio umbigo, incapazes de projetar ideias que interessem de fato ao cidadão comum. Imbuídos da convicção de que mais dia menos dia estarão de volta ao poder. Por uma espécie de direito divino a ele.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Jogo do Poder com Dilma Rousseff (11/02)

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, é a entrevistada desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também o jornalista Cristiano Romero, repórter especial e colunista do jornal Valor Econômico. Para ver os programas anteriores, clique aqui.



Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5 - Parte 6


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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Podcast: Um sistema flexível (09/02)


Com apenas um voto a mais do que os sessenta necessários, o governo Barack Obama conseguiu derrubar a obstrução oposicionista no Senado e incluir na pauta de votações o megapacote de socorro à baqueada economia americana. O Partido Democrata não tem sessenta senadores (dos cem) e teve portanto que cooptar um punhadinho de republicanos. Como lá não existe esta coisa de fidelidade partidária, achou-se uma solução política. Os republicanos continuam na oposição, livraram a própria cara, mas o país não mergulhou num impasse. O sistema americano é bom, evita que a maioria fique refém da minoria para governar. Já no Brasil é o contrário. Se bobear, o governo é aprisionado pela oposição. Todos os mecanismos levam a isso. Graças também a regras draconianas de fidelidade partidária. Aqui, aliás, um parlamentar sozinho consegue evitar, se quiser, a votação do Orçamento, obstruindo a sessão do Congresso. Qual é o melhor sistema, o nosso ou o dos americanos?

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Jogo do Poder em vídeos (09/02)

Estão agora disponíveis no blog os vídeos das entrevistas em Jogo do Poder, programa semanal que apresento às quartas-feitas às 22:30h na CNT (veja aqui como sintonizar em sua cidade). Criei uma seção específica, na coluna da direita (clique aqui ou role a página para baixo). Você também pode acessar a qualquer momento fazendo uma busca na caixinha do alto à esquerda com as expressões "Jogo do Poder" e "CNT", simultaneamente.

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O omelete e os ovos (09/02)

A idéia de transferir para o Judiciário os julgamentos por quebra de decoro parlamentar é perigosa e inviável nos marcos da democracia

O deputado Edmar Moreira (DEM-MG) percebeu na própria pele que desafiar a cúpula do partido dele e concorrer à Mesa da Câmara como dissidente foi uma péssima ideia. Moreira recebeu uma ajudazinha vinda da base do governo e derrotou Vic Pires Franco (PA), o nome oficial do Democratas. Certamente feliz com o sucesso na urna eletrônica, Moreira resolveu então dizer o que pensa. E o céu desabou sobre a sua cabeça.

Há gente que gosta de viver no limite da irresponsabilidade. Ter problemas com o Fisco ou com a Previdência é coisa corriqueira, especialmente entre empresários. Já construir um castelo bizarro, como o que Moreira edificou em Minas Gerais, não é tão comum assim. O que leva alguém com um castelo daqueles e com rolos tributários pendentes a querer ser o corregedor da Câmara dos Deputados? A querer ocupar o cargo de inquisidor-mor? Só mesmo a imprudência.

Ou então o canto da sereia. É o caso de esclarecer quem meteu o deputado de Minas nessa fria. Quem levou a ele a proposta de disputar como avulso, para derrotar Pires Franco. Certamente foi alguém preocupado com a possibilidade de o paraense adotar uma linha mais dura na função. Ou, no jargão corporativo do Congresso, alguém preocupado com a possibilidade de Pires Franco fazer do cargo um palanque político contra o governo.

O resultado da eleição ainda estava fresquinho quando Moreira fez questão de deixar claro que com ele na corregedoria os julgamentos políticos seriam coisa do passado. Ou seja, o deputado, com uma única declaração, pretendeu decretar a capitulação incondicional da opinião pública. Que anda meio frustrada de alguns anos para cá, mas não é cachorro morto.

Em situações assim, quando se decide praticar o nobre esporte da caça à raposa, fica difícil manter o equilíbrio. O fato é que existe alguma lógica nas restrições do agora ex-corregedor aos julgamentos políticos. Segundo Moreira, tais processos são invariavelmente contaminados pelas relações pessoais entre os parlamentares.

É uma maneira torta de dizer as coisas. Nos julgamentos políticos do Congresso Nacional, a sentença habitualmente nada tem a ver com as provas (ou com a ausência delas). Ali, um culpado será absolvido se tiver a eventual maioria com ele, enquanto um inocente será condenado se uma maioria eventual cobiçar o pescoço do infeliz.

Daí que os juízos políticos tenham se transformado num traço regressivo do arcabouço institucional brasileiro. Se é verdade que não se faz omelete sem quebrar os ovos, é também sempre útil perguntar quanto custa o omelete antes de fazer o pedido ao garçom.

Não há solução fácil à vista. A opinião pública exige o direito de fuzilar sumariamente (no sentido figurado) os políticos que caem em desgraça. E a "doutrina Moreira", de transferir para o Judiciário os julgamentos por quebra de decoro parlamentar, é perigosa e inviável nos marcos da democracia. A não ser que se queira desmoralizar, em primeiro lugar, o Supremo Tribunal Federal (STF). A não ser que se deseje transformá-lo numa versão contemporânea do Tribunal do Santo Ofício —e no qual a opinião pública serviria de guardiã dos dogmas da fé.

É impensável qualquer juiz digno da função aceitar que a culpa de um réu deva ser verificada não nas provas, mas na convicção (ou não) da opinião pública de que ele é culpado.

Pressionado, o deputado Edmar Moreira decidiu bater em retirada. Vamos ver se o partido dele, o Democratas, continuará fazendo barulho em torno do caso, se vai manter a idéia de expulsá-lo. Não pelo que ele disse (até porque o mandato parlamentar é inviolável, o representante do povo pode dizer o que quiser) ou pelo seu castelo, mas por ter desafiado a cúpula e concorrido como dissidente na eleição da Mesa.

Vamos ver também se a Câmara dos Deputados mantém a idéia de instituir uma corregedoria nomeada pelo presidente da Casa. Há o risco de o novo órgão acabar se transformando numa espécie de polícia política contra os parlamentares. O presidente Michel Temer não precisa disso em sua biografia. Deve haver outra maneira de desatar esse tipo de nó.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Avançando (08/02)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Sem argumentos (07/02)

De reportagem hoje na revista Veja (Quanto custa o dinheiro):
    Os números são evidentes: a taxa média de juros cobrados pelos bancos subiu de 37% para 43% no último ano. Constantemente criticado por aqueles que defendem uma queda irresponsável da Selic, o presidente do BC, Henrique Meirelles, desta vez passou a bola: afirmou que a culpa pela alta nos juros deveria ser buscada nos bancos, que subiram excessivamente seus spreads. Na linguagem das finanças, recheada por termos em inglês, spread (pronuncia-se spréd) representa a diferença entre os juros que os bancos pagam para captar dinheiro no mercado (em geral, próximos da Selic) e as taxas que eles efetivamente cobram de seus clientes. Se o banco, por exemplo, toma dinheiro emprestado a 13% ao ano e o repassa cobrando 43%, o spread é de 30% (veja o quadro). Essa sobretaxa é cobrada pelas instituições financeiras para cobrir seus custos e também para auferir seus lucros, mas nela estão embutidas ainda a tributação e a inadimplência. Colocados contra a parede, os bancos argumentam que tiveram de subir suas margens de segurança por causa, principalmente, do aumento do risco de enfrentar uma onda de calotes. Já o governo considera a alta exagerada e inadmissível.
Eu coloquei aqui uma questão em Os burocratas e o tsunami:
    A explicação dos bancos para isso [spread alto] é o risco de inadimplência. Os bancos dizem que o spread é alto porque existe a ameaça de os empréstimos não serem pagos. Ora, uma das razões para a inadimplência é precisamente o juro exorbitante. Qual é o sentido de o banco cobrar do correntista 10% ao mês no cheque especial? O que isso tem a ver com as leis de mercado? Nada. Tem a ver é com cartel, com oligopólio.
Eis a dúvida central que precisa ser aclarada: o spread é consequência da inadimplência ou será que é justamente o contrário? Um interessantíssimo estudo de Márcio Nakane, publicado na Análise Semanal que a consultoria Tendências distribuiu semana passada aos clientes, mostra, tecnicamente, que os números apontam para a segunda alternativa. O economista concluiu que "existe evidência de causalidade do spread para a inadimplência, mas não no sentido oposto". Vai ficando cada vez mais difícil sustentar com argumentos o saque que o oligopólio financeiro promove no Brasil.

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Por quem ele reza (06/02)

Você leu aqui um mês atrás (Janela de oportunidade):
    É com os dedos cruzados de esperança que a área econômica do governo brasileiro aguarda a posse de Barack Obama na Presidência dos Estados Unidos no próximo dia 20. Quem olha para o Palácio do Planalto e se fia nas aparências pode até enxergar antiamericanismo em certos momentos das relações entre os dois países. Mas quem procura saber da vida real percebe que a reza brava na Esplanada é pela recuperação na economia americana. Nos ministérios que contam, essa é melhor aposta para evitar que o Brasil breque numa intensidade politicamente prejudicial ao governo.
Hoje está no estadao.com.br:
    Lula defendeu a adoção de medidas urgentes, por parte do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e dos governos europeus, para o combate a crise financeira internacional. O presidente observou, no entanto, que é difícil resolver o problema. "Ser presidente dos Estados Unidos é bom, mas o nosso querido companheiro Obama está com um ''pepinaço'' na mão", disse. "Eu rezo para ele mais do que rezo para mim mesmo."
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Só para registro (06/02)

Como previsto aqui desde novembro (Cada um por si), o protecionismo está com tudo -e avançando.

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Como salvar o seu jornal (06/02)

Um assunto recorrente (06/02)

A oposição tem oscilado entre o denuncismo e a apatia. De vez em quando, sobrevêm surtos de radicalismo moralista. Ao falharem, são substituídos pelo nada

As recentes pesquisas de avaliação do governo federal e do presidente da República mostram aparente descasamento entre as realidades objetiva e subjetiva. Enquanto o quadro econômico se deteriora, crescem as aprovações de Luiz Inácio Lula da Silva e de sua gestão. Se a oposição estiver com sorte, trata-se de um acesso de ilusão coletiva, que não resistirá aos fatos da vida. Se estiver com azar, é possível que a crise esteja a reforçar a liderança de Lula.

Por falar em azar e sorte, sortudo é o governo que já tem um plano montado (e andando) de investimentos públicos, quando a crise planetária passa a exigir dos estados nacionais exatamente isto: que ocupem o espaço deixado por um capital privado receoso, e portanto recolhido. Ou talvez não seja sorte, mas resultado de uma opção política. Estivesse o Brasil ainda amarrado ao antiestatismo da década passada, estaríamos todos mais enrascados do que já estamos.

O fato é que os fatos trabalham a favor do presidente e companhia bela. Para que a oposição retome a iniciativa política, não basta ela dizer ao público o que o público já sabe: que as coisas estão ruins e podem piorar. Até porque nem o mais fanático anti-Lula culpa o presidente pela eclosão da crise. O que a oposição precisa apresentar são argumentos para convencer as pessoas de que é necessária a troca de liderança. Se não conseguir, corre o risco de virarem fumaça os atuais números das pesquisas de intenção de voto para daqui a dois anos.

E qual é a maior dificuldade da oposição na tarefa? Seu pouco apetite para combater programaticamente o governo. Nos últimos seis anos, a oposição tem oscilado entre o denuncismo e a apatia. Periodicamente, sobrevêm surtos de radicalismo moralista. Ao falharem, são substituídos pelo nada. A crise planetária começou em setembro, há quase meio ano. E até agora a oposição não respondeu a duas perguntas. O que o governo deveria fazer e não está fazendo? O que o governo fez e não deveria ter feito?

Enquanto a oposição não fizer a lição de casa, vai continuar tirando nota baixa. O Brasil enfrenta desafios imensos no curtíssimo prazo. Um deles, talvez o principal, é instituir um sistema decente de crédito. Qual é a razão de os bancos, por exemplo, cobrarem do funcionário público (que tem estabilidade no emprego) mais de 35% de juros ao ano no empréstimo consignado? É quase o triplo da taxa que o banco paga ao sujeito que investiu o dinheiro que o banco vai emprestar. O que a oposição acha disso?

Entre a meia dúzia de leitores deste colunista, há os amigos que mandam e-mail ou telefonam reclamando sempre que escrevo uma coluna assim, para falar mal da incompetência da oposição. Pedem que deixe de ser repetitivo. Infelizmente porém, repetitivos são os fatos. Para tristeza do leitor e do escriba, que adoraria escrever sempre sobre algo completamente novo. Nem nisso a nossa oposição ajuda.

O vice ou o titular?
Perguntinha feita de passagem numa das conversas sobre o PMDB, assunto que em Brasília vem ganhando corpo conforme o partido engorda sua fatia no poder. Se o PMDB não consegue se entender para indicar um candidato à Presidência da República, como vai chegar a um acordo para apontar o vice? Visto de outro ângulo: se o PMDB alcançar coesão interna em torno de um nome para a vice, por que não lançar logo um candidato à cadeira de Lula?

Daí que alguns vejam nas conhecidas dificuldades vividas pelo PMDB para emplacar um “projeto nacional” (no jargão político de Brasília) a origem de futuras turbulências, quando entrar em pauta o que a legenda vai fazer em 2010. PT e PSDB cobiçam o tempo de televisão dos peemedebistas. Com a ausência de verticalização, o comando nacional do partido terá liberdade para negociar seu rico ativo midiático. Mas PT e PSDB podem também chegar a uma conclusão comum: mais importante do que se aliar ao PMDB será impedir que ele se alie ao adversário.

Estão dadas as condições, portanto, para o PMDB caminhar rumo a mais uma de suas tradicionais conflagrações. O que o transforma num terreno minado para potenciais candidatos à Presidência da República. Basta ver por onde andam os dois últimos que arriscaram o pescoço na empreitada, Anthony Garotinho e Germano Rigotto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Escolha racional no bunker (04/02)

Há certa estupefação diante da (cada vez mais) alta popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva, dado que a curva ascendente coincide com a economia descendo ladeira abaixo. Uma explicação possível é que as pessoas ainda não têm a percepção da nova realidade. Eu prefiro outro caminho de análise. Lula está crescendo na crise porque quem se opõe a Lula não consegue responder a duas perguntas. O que o governo deveria fazer e não está fazendo? O que o governo deixou de fazer e deveria ter sido feito? Há os juros estratosféricos (do Banco Central para os bancos e destes para o tomador), mas a oposição não parece ter mais apetite para enfrentar o problema do que o governo. O ato de escolher um líder tem sempre a ver com a avaliação de seus atributos de liderança -e da adequação desses atributos aos desafios colocados. Imaginem um grupo de pessoas encerradas num bunker, enquanto suas casas são demolidas por bombardeios aéreos. E imaginem que o grupo não coloca em seu líder a culpa pelo bombardeio. A situação objetiva está piorando, já que eles estão perdendo suas casas. Mas isso não se reflete no prestígio do líder, já que ele, pelo menos, providenciou o bunker. Alguém vai morrer? É possível. Pode haver feridos? Sim. Mas se o líder tiver feito tudo que as pessoas acham necessário para enfrentar o problema é improvável que o grupo queira trocá-lo.

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Jogo do Poder com Renato Casagrande (04/02)

O senador Renato Casagrande (PSB-ES) é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também a jornalista Adriana Vasconcelos, repórter de O Globo.



Atualização - Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5


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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A cereja do bolo (03/02)

Na parceria entre PMDB e PT, o primeiro entra com o maior contingente de vereadores, prefeitos, deputados estaduais, federais e senadores. Tem também presença mais expressiva nos governos estaduais e nas prefeituras das capitais. Hoje, controla os principais ministérios. E acaba de ganhar o comando absoluto do Congresso. Já o PT tem Luiz Inácio Lula da Silva e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), tocado por Dilma Rousseff. A vantagem do PT é que se trata de um partido. Já o PMDB são pelo menos dois. O problema, para o PT, é se esses dois resolvem aliar-se. O PT está hoje na república como a cereja do bolo: vermelhinha, mas sempre uma cereja. Já o bolo continua essencialmente um bolo, com quase o mesmo valor. Ainda que não tenha sobre ele a cereja.

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O distrital misto (02/02)

Escutei com atenção o discurso do novo presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), na abertura dos trabalhos do Congresso. O que me chamou a atenção foi ele ter citado o sistema distrital misto, quando falou da reforma política. Bom sinal. Começam a ir definitivamente para o aquivo morto as teses governistas da lista fechada (preordenada) exclusiva para as eleições legislativas e seu irmão siamês, o financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais.

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A moratória do lero-lero (01/02)

Talvez os jornalistas e os consumidores de informação devêssemos fazer um pacto. Todos nos recusaríamos a gastar tempo, intelecto e energia com o que tucanos e petistas dizem uns dos outros

O Senado e a Câmara dos Deputados escolhem hoje os seus presidentes, e a esta altura o mais prudente é esperar o resultado aparecer em cada um dos dois painéis eletrônicos. Já existe porém um vitorioso no terreno moral -o que em política não é pouco. Isto de “campeão moral” ficou meio estigmatizado desde a derrota do Brasil na Copa do Mundo de 1978, na Argentina. Na política, de todo modo, pessoas ou partidos capazes de ostentar o trunfo moral obtêm uma vantagem competitiva e tanto.

O campeão moral desta eleição é o Partido dos Trabalhadores. O PT arrebatou o troféu com a participação decisiva do seu suposto arqui-adversário, o PSDB. E graças ao competente trabalho de articulação política do senador Tião Viana (PT-AC). Partamos da premissa de que é sincera a versão tucana sobre o apoio ao petista no Senado. A adesão se explicaria não por apetites fisiológicos desatendidos, mas pela necessidade imperiosa e inadiável de “limpar” a Casa. Assim, em resumo, o PSDB acha que a questão central da hora é “varrer a sujeira” do Salão Azul -e que o mais apto para a tarefa é um candidato indicado pelo Partido dos Trabalhadores.

É uma mudança e tanto para quem até outro dia catalogava o PT no índex dos “quadrilheiros”, “mensaleiros”, entre outras qualificações pouco amigas. O que mudou? É possível que nem o PSDB acreditasse no que dizia do PT nos tempos duros, em que os tucanos afirmavam ver nos petistas a personificação do mal. Ou pode ser que, para os tucanos, o PT de hoje seja essencialmente diferente da sigla abalada anos atrás no escândalo desencadeado pelas acusações de Roberto Jefferson. Teria havido portanto uma “refundação”. Se aconteceu a tal “refundação”, o jornalismo comeu mosca, pois ninguém noticiou o fato relevante.

Há também a explicação mais confortável. De que Tião Viana é do PT, mas não é “do PT”. Um estranho no ninho. Um ponto fora da curva. É uma explicação fraquinha. A análise política é como o futebol. O sucesso na maior parte das vezes está em não fazer firula, em buscar o mais simples. O PSDB, na sua autonomeada e recém-proclamada missão de realizar uma “faxina ética” no Senado, escolheu um senador do PT para comandar os exércitos na guerra. E não se trata de um dissidente. É alguém indicado pelo PT, um quadro orgânico do partido. Ainda que o PSDB tenha desejado homenagear o indivíduo, não há como a homenagem não se estender à agremiação. Parabéns ao PT.

Os acadêmicos deveriam estudar a sério o fascínio que o PT exerce sobre o PSDB. Já há massa crítica para a análise de cientistas políticos. Ou de psicólogos políticos. O apoio a Tião não é inédito. Dois anos atrás, vieram da bancada tucana os votos que deram a Presidência da Câmara dos Deputados ao PT. Talvez o tucanato veja o petismo como o que ele próprio desejaria ser, mas não consegue: uma social-democracia com base popular. Talvez o PSDB tenha se proposto como meta “catequizar” o PT, expurgá-lo de seus supostos excessos jacobinos. Ou bolcheviques. Sei lá. Gente estranha.

Enquanto os especialistas tentam decifrar a alma tucana, eu vou aproveitar melhor o meu tempo, seguir o meu próprio conselho e fazer o simples. O arroz com feijão. Não vou fugir da raia, vou dizer ao leitor o que acho mais adequado. Pronto. Talvez os jornalistas e os consumidores de informação devêssemos fazer um pacto. Todos nos recusaríamos a gastar tempo, intelecto e energia com o que tucanos e petistas dizem uns dos outros. Desconsiderar esse aspecto da realidade. Olhar apenas os fatos. Desprezar as declarações.

É isto: está na hora de uma moratória jornalística do lero-lero tucano-petista. Para não ser radical, e não sonegar notícias ao consumidor, talvez fosse o caso de criar uma seção específica nos diários. Algo como “o que eles falaram ontem uns dos outros mas que não tem nenhuma importância”. Seriam notinhas curtas, sem encheção de linguiça. Aí, petistas e tucanos trocariam recados, mas poupando o preciosíssimo tempo do cidadão. A imprensa não está permanentemente em busca de novas maneiras de ser útil ao público? Eis uma.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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