sábado, 31 de janeiro de 2009

Para que a ficha caia (31/01)

Um texto para ler na Carta Maior: Apocalipse now, de Bernardo Kucinsky, sobre o debate no Fórum Social Mundial a respeito da crise econômica planetária.

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Livre-comércio nos intervalos do FSM (31/01)

"Globalização" é um termo apenas da esfera da propaganda. Não há diferença essencial entre o que se quer dizer com "globalização" e o que já se dizia com imperialismo. Ou seja, não é uma categoria nova. Já escrevi isso outras vezes. A preferência por "globalização" em vez de imperialismo é uma herança do pós-colapso do socialismo europeu. Quando o paradigma intelectual passou a ser o "fim da históra", mandaram-se para o arquivo as categorias do marxismo assim dito clássico. Junto com imperialismo, aposentaram-se, por exemplo, a mais-valia e a luta de classes. O imperialismo passou a ser visto como um fenômeno quase natural, cuja superação passaria pela sua "humanização". Daí o surgimento de categorias como a "globalização solidária". O anti-imperialismo era bem identificado com os movimentos de libertação nacional. E a "antiglobalização"? É o quê? No máximo, um vetor associado a causas ambientais, ao multiculturalismo. Ao desejo piedoso de remodelar o imperialismo. O que leva a situações bizarras. Luiz Inácio Lula da Silva compareceu ao Fórum Social Mundial em Belém. Um evento assumidamente "antiglobalização". Num dos intervalos, o presidente foi conversar com os jornalistas, para manifestar sua preocupação com as tendências protecionistas deflagradas pela crise econômica mundial. Ou seja, Lula teme que o livre-comércio seja afetado pelas pressões que, em todos os países, trabalhadores e empresários fazem sobre os governos em busca de proteção para a mão-de-obra e o produto nacional. Mas, notem bem, o principal pilar da "globalização" é o livre-comércio. O bichinho era a menina dos olhos do odiado (no FSM) George W. Bush. Resumindo: Lula compareceu a Belém para falar mal da "globalização" durante as atividades oficiais e defender o livre-comércio nos intervalos. Talvez esteja em paradoxos assim a origem da perplexidade dos intelectuais.

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Uma leitura sobre as florestas tropicais (30/01)

Interessante reportagem no The New York Times sobre o reflorestamento natural de matas tropicais. O título é New Jungles Prompt a Debate on Rain Forests.

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De frente para a esfinge (30/01)

Sarney anda desconfiado do que ele considera uma propensão petista ao monopólio do poder. E Lula sabe disso

A esta altura, só uma zebra tira do senador José Sarney (PMDB-AP) a prerrogativa de sentar nos próximos dois anos na cadeira de presidente da Casa. Dando a lógica, a segunda-feira anoitecerá com Sarney a caminho da mansão no Lago Sul e Tião Viana (PT) passando a cuidar exclusivamente da sua favoritíssima candidatura a governador do Acre.

Qual seria o significado de um triunfo do petista? Talvez a renovação de certos costumes políticos no Senado. Talvez uma maior transparência da instituição. É verdade que as posições de Viana sobre isso só foram ficando mais explícitas à medida que suas chances de vitória minguavam, mas não importa: interessa mesmo é que ele se coloca a favor de um Senado mais próximo do povo. Eleição se perde e se ganha. O que não se deve perder são as convicções.

E a possível vitória de Sarney, representará o quê? Nos corredores do Senado, especialmente nas zonas de sombra, festeja-se antecipadamente o triunfo do establishment. Melhor dizendo, o establishment comemora por antecipação, convencido de que pouco vai mudar. Certo de que o uso dos gordos e belos recursos públicos colocados à disposição da Casa permanecerá protegido, blindado contra a fiscalização e a crítica dos que, afinal, pagam os impostos para que o Senado possa gastar o dinheiro.

Mas, quem sabe?, e lá vou eu no meu eterno otimismo, o establishment não possa vir a ter uma surpresa? Errar na análise política é humano, mas o analista subestimar Sarney seria burrice. A história do senador não autoriza que o subestimem. Sarney saiu da presidência do então PDS para a vice de Tancredo Neves na disputa presidencial de 1985. Teve que assumir na morte do titular e conseguiu promover uma transição política eficaz. Tão eficaz que ele próprio sobreviveu a ela. De todos os políticos que participaram da base de sustentação do regime militar, Sarney talvez tenha sido o que mais vezes e mais bem conseguiu se reinventar. A ponto de fazer Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, do alto de seus 80% de popularidade, ter que aceitar agora a frustração de não poder fazer muito pelo seu candidato preferido.

É improvável que Sarney, com seu mais de meio século de vitoriosa sobrevivência política, após uma bem operada transição da UDN e da Arena para a base de apoio de um governo do PT, caia na armadilha e seja tragado por um turbilhão nascido de interesses alheios. Mas vamos esperar para ver. Que o próprio José Sarney, a partir da terça-feira, se conseguir mesmo a vitória, diga a que veio desta vez.

Pensando prospectivamente, algo que o senador poderia fazer, desde que de fato chegue à cadeira, seria ajudar a resolver um problema criado por ele mesmo lá atrás. Quando presidente da República, lutou e conseguiu que a Constituinte mantivesse a figura do decreto-lei, com o nome novo de medida provisória. Hoje, a medida provisória é o pelourinho do Legislativo, sistematicamente acorrentado e chicoteado pelo Executivo.

A reforma da execução orçamentária é outro avanço institucional que Sarney talvez devesse estimular. Ainda agora, o governo vem de congelar todos os investimentos inseridos pelo Congresso no Orçamento de 2009. E manteve intocados todos os investimentos de iniciativa do Executivo. Não poderia haver sinal mais nítido de desprestígio do Legislativo. O senador Antonio Carlos Magalhães morreu sem ver realizado seu sonho de um orçamento impositivo. Quem sabe Sarney não destranca essa pauta?

Agora, dor de cabeça mesmo com José Sarney presidente do Senado quem pode ter é Hugo Chávez. O senador pelo Amapá vem sendo o mais duro opositor do líder venezuelano entre os seus pares. Basta pesquisar os discursos. E o problema não é só retórico. A absorção da Venezuela no Mercosul já passou pela Câmara dos Deputados e espera um lugarzinho na agenda do Senado, onde vai enfrentar resistência cerrada da oposição. E de Sarney.

Bem, vamos esperar para ver. E também, claro, aguardar a eleição, antes da qual um artigo como este não passa de especulação. Assim como há muita especulação sobre o que um eventual José Sarney presidente do Senado faria na sucessão presidencial. Lula prefere Tião Viana também por acreditar que o pai de Roseana pode eventualmente caminhar separado de Dilma Rousseff daqui a dois anos. Lula tem seus muitos defeitos, mas falta de olfato político certamente não é um deles. Sarney anda desconfiado do que ele considera uma propensão petista ao monopólio do poder. E Lula sabe disso.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Equilíbrio, mas com viés (29/01)

O site angus-reid.com traz uma série de pesquisas sobre o conflito entre Israel e o Hamas em Gaza. Há números do Reino Unido, do Canadá, da França, da Holanda, da Alemanha e dos Estados Unidos. As opiniões sobre o assunto estão bastante divididas, com algum viés anti-Hamas. Cada pesquisa tem perguntas diferentes, mas elas apresentam um quadro razoavelmente comum. Lembra um pouco a eleição presidencial aqui no Brasil em 2006. Nem sempre a opinião pública expressa com alguma fidelidade o que vai pela cabeça das pessoas. Um detalhe: a pesquisa com resultados mais anti-Hamas é a dos Estados Unidos. Lógico. Mas é bom também lembrar que o mesmo público vem de eleger Barack Obama.

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Esquenta a sucessão (28/01)

No vídeo, os sentimentos do presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), sobre a disputa pelo comando da Casa na eleição do próximo dia 2. O programa é o Jogo do Poder (CNT) veiculado semana passada. O outro jornalista é Fábio Zanini, repórter da Folha de S.Paulo.



Atualização - Clique nos links abaixo para ver íntegra da entrevista:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5


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Como nasceu a internet (28/01)

Em inglês. Imperdível.



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Jogo do Poder com Osmar Serraglio (28/01)

O candidato a presidente da Câmara dos Deputados Osmar Serraglio (PMDB-PR) é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também o jornalista Tiago Pariz, repórter do Correio Braziliense.



Observação: o deputado acabou depois renunciando à candidatura na véspera da eleição. Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5


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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Na Cisjordânia, uma exibição sobre o Holocausto (27/01)

Hoje faz 64 anos que as tropas soviéticas tomaram Auschwitz, no finzinho da Segunda Guerra Mundial. Todo ano, 27 de janeiro é o dia de lembrar o Holocausto. Uma interessante reportagem no site israelense ynetnews.com relata a exposição sobre o tema promovida na cidade palestina de Naalin, na Cisjordânia (clique na foto, copiada do site, para ampliar). Naalin foi um dos principais focos de resistência contra a construção do muro que hoje separa a Cisjordânia de Israel. Vale a pena ler Naalin holds Holocaust exhibit. Trechos:
    (...) Naalin, a village that has become the symbol for the Palestinians' battle against Israel's construction of a separation fence in the West Bank, erected a display of photographs purchased from Yad Vashem Holocaust Museum and invited the public to learn more about the persecution of the Jews.(...) Mohammad Amira, a member of the village's Land Defense Committee, said hundreds of people visited the exhibit by early afternoon. He said many had praised the initiative. "People are surprised at what they see here; there are people who are seeing images of the suffering in the Holocaust for the first time. There are people who didn't know anything about Jewish history," Amira said. Regarding the decision to present the exhibit to residents of Naalin, many of who have been harmed by the construction of the separation fence, Amira said, "We thought the public should understand the pain and suffering the Nazis caused the Jews. "Unfortunately, we are paying the price for the immense pain suffered by the Jews during the Holocaust. There is no comparison between our suffering and that of the Jewish people in the Holocaust, but everyone should understand that we are suffering too, as a result of what the Germans did to the Jews." [Khaled Mahmid] added, "All violence Palestinians perform on the Israelis is not effective, causes suffering, and summons Holocaust anxiety among the Jews." (...)
Leia a reportagem na íntegra. Palavras simples, dos protagonistas diretos, em geral ajudam melhor a compreender certos fatos intrincados.

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Concordâncias e discordâncias (27/01)

O que acho das mudanças constitucionais na Bolívia? Em primeiro lugar, de Bolívia eu entendo pouco. E duvido que haja fora da Bolívia muitos que dela entendam muito (excluo os emigrados, é claro). Daí que tenha ido atrás de referências. Achei um artigo interessante no site americano nacla.org. E descobri um blog muito bom sobre o país vizinho, de Miguel Centellas, professor de Ciência Política na Mount St. Mary University, em Mariland (EUA). É o Pronto*. O professor recomenda a leitura de uma reportagem da The Economist sobre o tema, A question of rights. Eu tenho concordâncias fundamentais com a nova Constituição boliviana: o avanço na reforma agrária e a nacionalização das riquezas naturais. E tenho uma discordância fundamental: a constitucionalização do conceito de plurinacionalidade. Autonomia para grupos étnicos constituírem países dentro do país. Se propuserem algo parecido aqui no Brasil, estarei na primeira fila da resistência. Talvez a plurinacionalidade tenha a ver com a realidade boliviana. Eu tenho dúvidas. Evo Morales pegou uma carona nos reclamos autonomistas (separatistas) das províncias e emplacou a autonomia dos grupos indígenas diante do Estado boliviano. Talvez tenha sido o passo decisivo para coesionar a Bolívia. Ou talvez vá ficar nos livros de História como a decisão que empurrou o país para sua definitiva fragmentação.

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No governo, o aperto; no Banco Central, a gastança (27/01)

O governo federal tomou fortes medidas fiscais para enfrentar a crise. É um passo importante, no rumo certo. Principalmente porque mais disciplina fiscal reduz o campo de manobra do Banco Central na sua eterna resistência à necessária queda dos juros. Perdeu de novo, politicamente, o Congresso. As emendas parlamentares foram congeladas, apesar de representarem essencialmente investimento. E o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foi preservado. Mas voltemos aos juros. O primeiro gráfico (clique para ampliar) traz o câmbio dos últimos dias, desde a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que reduziu o juro básico em um ponto percentual:


Não há oscilação significativa do câmbio de 22 de janeiro para cá. O dólar nem espirrou. Ou seja, havia mais espaço ainda para cortar os juros. Para poupar o tempo dos entendidos, responderei aqui o argumento de quem credita a estabilidade do câmbio pós-Copom à precificação do corte da Selic antes mesmo da reunião do BC. Segue abaixo o mesmo gráfico, só que de um mês para cá (clique para ampliar):


Não se deixe enganar pela curva. Olhe nos números e veja como não há variação expressiva no câmbio desde dezembro. E o corte na Selic não poderia estar mesmo precificado lá atrás, na época em que o BC segurava os juros e os analistas pediam cautela contra as supostas pressões inflacionárias decorrentes da desvalorização do real a partir do estouro da crise, em setembro. Seria uma contradição em termos. Ou seja, não se trata de precificação, mas de margem. Pegar dinheiro emprestado em moeda estrangeira, trocar por real e emprestar ao governo brasileiro continua sendo um dos melhores negócios do mundo. E continuaria assim, ainda que o BC cortasse imediatamente a Selic em mais dois ou três pontos percentuais. O país economizaria no ano algo em torno de 30 bilhões de reais, ordem de grandeza do que o governo vai congelar agora e contingenciar em março. Eis o problema. O governo aperta o orçamento, o que é bom, mas infelizmente o Banco Central continua com a gastança. E sempre em nome da austeridade. Coisa de gênio.

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Por que brigam os ministros? Não tinha terra sobrando?

Os ministros da Agricultura e do Meio Ambiente estão brigando. O primeiro quer liberar o plantio de cana-de-açúcar em certas áreas (segundo ele já degradadas) em Mato Grosso do Sul e no Mato Grosso. O segundo não quer. É estranho os ministros brigarem. O Brasil tem terra sobrando para plantar cana e produzir etanol, conforme vêm assegurando as nossas autoridades (leia Governo vegetariano e terras finitas, post de quase dois anos atrás). É verdade que até agora o governo não disse onde está a terra ociosa (no dia em que disser, talvez precise explicar por que não usa essas áreas improdutivas para acelerar a reforma agrária). Então, alguém precisa alertar os dois ministros: eles estão brigando sem motivo. E o melhor a fazer talvez seja irem juntos ao Palácio do Planalto pedir ao presidente da República o mapa com todo o monte de terra sobrando que existe no Brasil. Não acham uma ótima idéia?

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A luta pela máquina (26/01)

Quem resiste à dobradinha Temer-Viana, especialmente no campo governista, é porque não deseja um Lula de faca e queijo na mão em 2010. Políticos gostam de sobreviver; para isso, precisam ser necessários

O que tanto incomoda Luiz Inácio Lula da Silva na candidatura de José Sarney (PMDB-AP) à Presidência do Senado? Eis um mistério da atual disputa pelo comando do Congresso. Afinal, o senador talvez seja o mais leal entre os aliados de Lula. Nestes seis anos de governo, não há episódio em que o político maranhense tenha faltado ao presidente. Ao contrário. Num Senado conturbado pelo equilíbrio precário entre governistas e oposicionistas, Sarney tem sido um porto seguro para Lula, mesmo nos piores momentos.

Se a preocupação central do presidente fosse a boa governabilidade nos (pouco) menos de dois anos que lhe restam, não haveria por que Lula se incomodar com a candidatura Sarney. Outra hipótese é que o presidente está melindrado com a perda de espaço político do PT. Será? Desde que sentou na cadeira, há seis anos, Lula vem relativizando o poder do partido sem dó nem piedade, para felicidade do PMDB. Lula cultiva a força do PT, mas também a sua fraqueza, num jogo contraditório. Um PT suficientemente fraco deixa a sigla cada vez mais dependente do líder. Tem, por exemplo, que aceitar sem choro nem vela o nome do Palácio para 2010. Em se tratando de PT, não deixa de ser uma novidade e tanto.

Outra tese que vem ganhando pernas é a suposta resistência de Lula a um excesso de poder para o PMDB. Como se Lula acreditasse numa entidade chamada "PMDB". Como se ele ignorasse o fato de não haver um PMDB, mas pelos menos dois, se não mais. Aliás, a melhor maneira de manter o PMDB dividido é dar poder a todas as alas, a todas as ambições. Pois cada uma não se contenta apenas com estar saciada. Precisa sempre que a outra esteja à míngua. Um bom sintoma disso nos últimos dias são os termos em que os peemedebistas "da Câmara" se referem aos "do Senado" desde que a candidatura Sarney decolou.

Os políticos têm um relógio biológico muito particular. Só há uma coisa que eles apreciam mais do que ter poder na máquina de governo: ter poder na máquina do partido na hora certa, quando acontecem as definições eleitorais. Conforme vai chegando a eleição, a luta pelo cartório vai ganhando importância relativa em relação à batalha pelas benesses orçamentárias. Pois o controle do cartório costuma ser a chave para estender as benesses orçamentárias por mais quatro anos.

Lula prefere Tião Viana (PT-AC) a José Sarney porque tem certeza de que o acriano estará com o nome do PT em 2010. Já Sarney pode estar ou não. E Lula gostaria de ver Michel Temer (PMDB-SP) na Presidência da Câmara dos Deputados porque, no entendimento de ambos, o acordo dá a Lula a prerrogativa de indicar alguém de confiança para a vaga que um Temer presidente da Câmara deixaria aberta na Presidência do PMDB.

O Palácio do Planalto não tem agenda legislativa até a sucessão. De tempos em tempos, irá relembrar as reformas (tributária, política), apenas para entreter a plateia. E enquanto os cães latirem a caravana do PAC vai passar. Do Congresso, Lula só não quer confusão. Assim, o que vai estar em disputa no próximo dia 2 é principalmente o controle cartorial do PMDB. No desfecho desenhado a partir do Planalto, Lula vai amanhecer o dia seguinte à eleição das Mesas com a caneta do PMDB na mão. Com todos os instrumentos para atrelar a sigla ao projeto de continuidade em 2010. O que, além do mais, deixaria o presidente menos vulnerável às ambições de outros eventuais aliados na empreitada para eleger o sucessor.

Quem resiste à dobradinha Temer-Viana, especialmente no campo governista, é porque não deseja um Lula de faca e queijo na mão em 2010. Políticos gostam de sobreviver; para isso, precisam ser necessários, para o eleitor comum e para o poder. Pelo mesmo motivo, tanto o eleitor comum quanto o poder preferem depender o menos possível dos políticos. Assim funciona o ecossistema.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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domingo, 25 de janeiro de 2009

Isto não é um teste (25/01)

Os riscos crescentes para a solução de dois estados (judeu e árabe) na Palestina estão bem descritos em This is not a test, de Thomas Friedman, no The New York Times.

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sábado, 24 de janeiro de 2009

Inverteram a última tese de Marx sobre Feuerbach (24/01)

O ministro Tarso Genro diagnosticou outro dia na Folha de S.Paulo (Fala D'Alema) a anemia orgânica e intelectual da esquerda diante da crise econômica planetária. O diagnóstico foi certeiro. Os críticos do liberalismo e do imperialismo ("globalização") não poderiam sonhar com um cenário mais favorável: a desregulamentação do capitalismo e a atrofia do Estado não conduziram a humanidade ao paraíso prometido nos anos todos em que a liberdade do capital foi entronizada como dogma número zero da civilização. Entretanto, apesar das excepcionais condições objetivas, faltam as subjetivas. A esquerda parece contentar-se com o prazer de ver o adversário intelectualmente na lona. Satisfaz-se com o "eu bem que avisei". Propostas? Alternativas? Só nos limites do keynesianismo. O sujeito se levanta, incha a veia do pescoço, proclama a crise do "neoliberalismo" e da "globalização" e apresenta sua plataforma revolucionária: aumentar o investimento público. Parece pouco? É pouco. E isso quando a fórmula não vem acompanhada da liberalíssima "necessidade imperiosa de reduzir impostos". Daí que pessoas com ambições políticas e intelectuais além da média -como é o caso do ministro Tarso Genro- possam estar frustradas. Aliás, a crítica dele fez-me lembrar da décima-primeira e última tese de Karl Marx sobre Ludwig Feuerbach (o da foto). A tese é de Marx, mas quem a incluiu nas obras do filósofo alemão foi seu parceiro, Friedrich Engels:
    Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo [o mundo].
O que mais se vê hoje em dia é gente usando o brochinho do teutônico mas tocando a vida como se a tese tivesse sido escrita ao contrário. Antes, tratava-se de transformar o mundo. Agora, diante da suposta impossibilidade de mudar o mundo, o prazer está em interpretá-lo. Daí a satisfação em poder dizer o "eu não disse?". Clique aqui para conhecer essa e as demais teses de Marx sobre Feuerbach. Por que eu falo sobre a "impossibilidade" de mudar o mundo? O PT travou ao longo de anos uma feroz luta política em torno da reforma agrária. Sempre ressaltou que a concentração da propriedade fundiária no Brasil era um dos pilares da nossa cruel (falta de) distribuição de renda. Quando o PT estava na oposição, atacava sistematicamente os governos por distribuírem pouca terra, ajudando a perpetuar o latifúndio. Bem, o PT chegou ao governo e sua política agrária em nada difere do que vinha sendo feito antes. Distribui uma terrinha aqui e ali, enquanto promove a renegociação amiga das dívidas dos grandes proprietários rurais e é sócio da modernização conservadora, cujo exemplo mais emblemático é a indústria do etanol de cana-de-açúcar. Eu conheço esse pessoal há mais de trinta anos, e sei desde lá atrás que eles não dão a mínima para a reforma agrária. Que sempre a consideraram uma reivindicação pequeno-burguesa, superada historicamente pelo avanço do capitalismo no campo brasileiro, em parceria com a grande propriedade (via prussiana). Daí que eu não tenha me decepcionado, como se decepcionou por exemplo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST):
    "O presidente [Luiz Inácio] Lula [da Silva] diz por aí que ele é um aliado dos sem-terra. E também que é aliado dos latifundiários e do agronegócio. Então ele não é amigo de ninguém, ele é amigo dele mesmo. Ele não é nosso inimigo, mas também não é nosso amigo. Nós não convidamos o governo Lula para nossa festa porque vamos evitar constrangimentos."
A declaração é de João Paulo Rodrigues, da liderança nacional do MST. A festa de que ele fala? O Encontro Nacional da organização camponesa. Pois é, o radicalismo "socialista" dos críticos da reforma agrária nos anos 70 do século passado acabou nisto: na sociedade com o latifúndio capitalista. Ainda sobre a reforma agrária, é sintomático que o ministro de Lula mais preocupado com o assunto não seja nenhum petista, mas Roberto Mangabeira Unger. Que parece conhecer a importância de expandir a fronteira agrícola e ocupar os limites do Brasil com base na agricultura familiar. Escrevo aqui sobre a reforma agrária, mas poderia escrever sobre os bancos. Sobre a impotência governamental diante do oligopólio financeiro e da drenagem que o cartel promove na riqueza nacional. Ou poderia escrever sobre o contraste entre as declarações bombásticas de soberania e a submissão às pressões internacionais pela demarcação irracional de terras indígenas em área de fronteira. Ou sobre a ausência de uma reforma urbana. Quase uma década de governo petista terá se passado sem que o país progrida na democratização da propriedade nas cidades. Vejam que, exceto a demarcação das terras indígenas (assunto em que o ministro Tarso e eu temos posições bastante diferentes), são todos assuntos da agenda do PT na oposição. Eu faço este blog desde meados de 2005, quando voltei ao jornalismo depois de mais de uma década de "exílio interno". Sempre escrevi aqui que Lula faz um bom governo. Mas para a biografia dos protagonistas talvez seja insuficiente. Daí que de vez em quando certos assuntos saltem para a agenda, como que saídos do nada. É o caso do caso Cesare Battisti. Outro exemplo é o desejo recorrente de reinterpretar o alcance da Lei de Anistia. As coisas se passam como se de tempos em tempos, por espasmos, o presente se esforçasse para encontrar algum elo com o passado, para desesperadamente agarrar a mão do acrobata que balança no trampolim acima. Mas esse esforço de "coerência" só é visto em assuntos laterais. Ainda que úteis, nas circunstâncias. O governo Lula agora investiu mais de R$ 70 milhões no Fórum Social Mundial que acontece em Belém do Pará. O governo Lula nada tem a apresentar ali em assuntos como a reforma agrária, a reforma urbana ou o controle do sistema financeiro. Então, vai falar da punição aos torturadores e do refúgio concedido a Cesare Battisti. Ou, talvez, de como a aliança com o fundamentalismo religioso pode ser um caminho para o socialismo -por representar, quem sabe?, o elo mais fraco na cadeia imperialista. Não deixa de ser uma saída. Momentânea, mas certamente uma saída. Especialmente para quem se especializou em ler ao contrário a última tese de Marx (ou de Engels) sobre Feuerbach.

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Explicações (24/01)

Ainda sobre o caso Cesare Battisti, o presidente da República decidiu responder a carta que recebeu do colega italiano, Giorgio Napolitano (Proletários armados pela CIA). Vamos por partes.
    Senhor presidente, Giorgio Napolitano.

    Tenho a honra de acusar o recebimento da carta de Vossa Excelência, de 16 de janeiro do corrente, referente à decisão do Estado brasileiro de conceder o estatuto de refugiado ao cidadão italiano Cesare Battisti.
Protocolar.
    Desejaria, nesta ocasião, expressar a Vossa Excelência a plena consideração do Poder Judiciário italiano e ao Estado Democrático de Direito vigente nesse país, bem como afirmar minha confiança no caráter democrático, humanista e legítimo do ordenamento jurídico italiano.
Negativo. O refúgio foi concedido a Battisti sob o argumento de que as autoridades brasileiras não têm "confiança no caráter democrático, humanista e legítimo do ordenamento jurídico italiano", porque o Brasil acha que Battisti foi (e será) perseguido na Itália, sem o pleno direito de defesa diante da Justiça daquele país.
    Esclareço a Vossa Excelência que a concessão da condição de refugiado ao senhor Battisti representa um ato de soberania do Estado brasileiro. A decisão está amparada na Constituição brasileira (artigo 4º, X) na Convenção de 1951 das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados e na legislação infraconstitucional (Lei 9.474/97).
Aqui o presidente do Brasil diz ao presidente da Itália que o refúgio a Battisti foi concedido dentro da lei brasileira. Algo bizarro, um chefe de governo ter que se explicar nesses termos numa correspondência dirigida a um presidente de outro país.
    A concessão do refúgio e as considerações que a acompanharam restringiram-se a um processo concreto, tendo sido proferida com fundamento nos elementos e documentos constantes num procedimento específico.
Alguém poderia explicar o que isso quer dizer? E daí?
    Quero, nesta oportunidade, manifestar a Vossa Excelência minha confiança de que os laços históricos e culturais que unem o Brasil e a Itália continuarão a inspirar nossos esforços com vistas a aprofundar ainda mais nossas densas e sólidas relações bilaterais nos mais diversos setores.

    Cordiais saudações.
A carta é fraca e inconsistente. O Brasil concedeu refúgio a Cesare Battisti rigorosamente dentro lei (se não foi, o STF que o diga), mas por razões políticas. E o argumento utilizado pelo Brasil foi que as instituições italianas não são boas o suficiente para garantir um julgamento justo no caso de Battisti. O resto é conversa.

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Os burocratas e o tsunami (23/01)

Será que algum candidato à sucessão de Lula vai ter peito de defender na campanha eleitoral mais autonomia para o BC? O BC encarregou-se de desmoralizar a autonomia que lhe foi dada pelo presidente

A crise mundial já tem quatro meses e, finalmente, o Banco Central brasileiro começa a reduzir a taxa básica de juros. A explicação é que o BC estava esperando para ver se a economia nacional iria mesmo afundar. Como ela dá sinais de que está afundando, o BC decidiu agir. O Comitê de Política Monetária (Copom) recebeu as últimas estatísticas e concluiu que era preciso diminuir o custo do dinheiro.

Depois que os diretores do BC deixarem o atual emprego, tomara que nenhum deles seja nomeado para função pública que requeira capacidade de se antecipar aos fatos, ou aptidão para previsões. Deus nos livre, por exemplo, de o pessoal do Copom acabar designado para uma eventual unidade encarregada de alertar e proteger o Rio de Janeiro no caso de um tsunami.

Dá até para imaginar a cena. A central de monitoramento de tsunamis recebe a informação de que aconteceu um terremoto no meio do Oceano Atlântico. Os burocratas, no alto da serra, talvez em Teresópolis, começam a discutir o que fazer. Até que alguém coloca um ponto final na discussão. “Ainda não aconteceu nada. Por que então deveríamos nos precipitar? Não seria melhor esperar para ver com calma os efeitos do terremoto submarino e só depois agir? Com base em dados. E não apenas em suposições.”

É a lógica do Copom. De setembro para cá, a economia mundial vem brecando com violência, por causa da combinação letal de três fatores inter-relacionados: superprodução, escassez de crédito e queda na confiança do consumidor. E “mundial” aqui não é retórica. A crise está espalhada por todo o planeta, desde que se diagnosticou a fragilidade do sistema financeiro americano. Fragilidade que nasce de uma constatação: não há como a economia atual criar valor em ritmo suficiente para remunerar a massa de capital adiantado para produzir esse valor.

O terremoto submarino foi a quebra do Lehman Brothers. Desde então, o pessoal do BC está esperando para ver a força com que a onda vai bater no litoral brasileiro. Um primeiro impacto foram os 650 mil empregos formais perdidos em dezembro. Que, entre formais e informais, devem ter sido cerca de um milhão, se calcularmos o emprego total na proporção que o próprio governo usa para medir a criação de postos de trabalho, quando interpreta o saldo líquido do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) de carteiras assinadas.

Com um milhão de desempregados num único mês, o Copom decidiu agir. Mas seu movimento ainda é tímido. Quando a inflação cai muito rápido, reduções nominais expressivas do juro básico podem representar, paradoxalmente, aumento do juro real. Que os economistas façam as contas. Enquanto isso, o cidadão médio perde o sono, sem saber se amanhã vai ter como cumprir seus compromissos, sem a certeza de que na semana que vem estará empregado.

Isso para não falar no spread, a absurda diferença entre os juros que os bancos pagam ao poupador e os juros que eles cobram do devedor. A explicação dos bancos para isso é o risco de inadimplência. Os bancos dizem que o spread é alto porque existe a ameaça de os empréstimos não serem pagos. Ora, uma das razões para a inadimplência é precisamente o juro exorbitante. Qual é o sentido de o banco cobrar do correntista 10% ao mês no cheque especial? O que isso tem a ver com as leis de mercado? Nada. Tem a ver é com cartel, com oligopólio.

E os burocratas do Copom? Estes não precisam se preocupar. O emprego deles está garantido, por uma circunstância curiosa. O governo não tem coragem de mexer na autonomia operacional do Banco Central, para não melindrar o sistema financeiro. E a oposição construiu para si a tese de que a autonomia do BC deveria ser maior ainda, garantida por lei, para evitar que a condução da política monetária e cambial fique à mercê de injunções alheias à suposta tecnicalidade pura dos burocratas. Uma blindagem “moderna”.

Eu quero ver é algum dos candidatos à sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva ter peito de defender na campanha eleitoral mais autonomia para o BC. Pois o próprio BC encarregou-se de desmoralizar a autonomia que lhe foi dada pelo presidente.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Com meses de atraso (22/01)

Virou consenso o ponto de vista defendido insistentemente aqui desde a eclosão da crise econômica mundial, em setembro. O de que uma queda radical e imediata do juro básico não teria maiores efeitos sobre a inflação, por causa da imensa dificuldade (impossibilidade) de repassar a alta do dólar aos preços finais, dada a redução abrupta da demanda. Redução alimentada pela restrição (em volume e preço) do crédito e pelo declínio da confiança do consumidor. Se tiver curiosidade, pode percorrer os posts de outubro, novembro e dezembro. Verá quantas vezes o tema foi aqui repisado, enquanto em outros lugares você ouvia falar da "cautela" necessária para observar os efeitos da desvalorização cambial nos preços. Ontem, o Banco Central reduziu o juro básico em um ponto percentual. Poderia tê-lo reduzido em dois. Ou três. Quem fez a conta hoje foi o Leonardo Zanelli, no blog da Miriam Leitão.
    A redução da taxa de juros feita há pouco pelo Copom, de 1 ponto percentual, reduziu a Selic para 12,75% ao ano. Havia espaço para isso, a inflação está cedendo, o câmbio não afetou. Se o corte fez com que o Brasil caísse da segunda para a quarta posição entre os países com as maiores taxas de juros nominais do planeta, atrás de Venezuela (18,6%), Turquia (13%) e Rússia (13%), o país permanece na nada honrosa primeira posição entre os países com os maiores juros reais do planeta: 7,8%, bem acima do segundo lugar, a Hungria, que tem 5,8% de juros reais. É bom lembrar que em todos esses países a inflação é maior do que a do Brasil, e na Venezuela o último número divulgado de inflação foi 25%.
Esse é o resumo da ópera. O nosso juro básico real ainda é, de longe, o maior do mundo. Ou seja, pegar dólar (ou euro, ou libra) emprestado, trocar pela moeda brasileira e emprestar ao governo brasileiro continua a ser um dos melhores negócios do mundo. Filé de carne argentina sem osso. Uma delícia. Outra observação. No intervalo de pouco mais de um mês, o BC fez duas reuniões. Na primeira, deixou o juro como estava. Na segunda, baixou em 1 ponto percentual. Ora, por mais que a situação tenha se agravado, ela já estava bem grave em dezembro. E a crise começou em setembro. Em dezembro, até eu que sou leigo já tinha percebido o tamanho da onda. A discrepância radical entre as duas decisões mostra que o BC talvez esteja meio perdido. Ou ele estava errado em dezembro, ou está errado agora. Outra hipótese é que ele venha se conduzindo politicamente, num grau maior do que seria desejável. Mais preocupado em defender seu espaço de poder do que em agir profissionalmente. Espera-se que o próximo governo corrija isso, pois o governo atual parece impotente para lidar com a situação. Ainda sobre os quatro meses de atraso na inflexão do BC, alguém deveria fazer a conta do que (e quanto) isso vai representar numericamente em empregos perdidos. E mandar a fatura para Luiz Inácio Lula da Silva.

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Jogo do Poder com Arlindo Chinaglia (21/01)

O presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também o jornalista Fábio Zanini, repórter da Sucursal de Brasília da Folha de S.Paulo.



Atualização - Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5


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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Incrível propensão (20/01)

Militantes e dirigentes do PT soltaram uma nota criticando a posição oficial do partido sobre a guerra em Gaza. É uma continuação do assunto tratado no post O antissemitismo, o pragmatismo e o horror da guerra. Destaco um trecho da nota dos críticos:
    Em nossa visão, a nota [da direçào do PT] posiciona equivocadamente o PT em relação a um conflito de notável complexidade, devido, em síntese, aos seguintes pontos:
    (...)
    ii. banaliza e distorce o fenômeno histórico do nazismo;
    iii. não registra a necessária condenação ao terrorismo;
    iv. não afirma o reconhecimento do direito de existência de Israel negado pelo Hamas;
    (...)
Os dissidentes foram ao ponto. Quanto à "nazificação", acho que o assunto está esclarecido pelo texto de Robert Fisk cujo link coloquei em post anterior. E é verdade, a posição oficial do PT não condena o terrorismo, nem defende que Israel deve ter o direito de existir. A crítica à direção partidária gerou várias reações em defesa da cúpula, como pode ser verificado no site do PT (uma boa maneira de localizar é fazer a busca por "Gaza"). Dois nomes chamaram minha atenção entre os críticos da posição oficial: os ministros Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vanucchi (Direitos Humanos). Quem lê este blog sabe das minhas diferenças com ambos quando o assunto é a reinterpretação da Lei de Anistia. A posição deles na polêmica petista sobre Gaza faz sentido. Seria complexo defender que a tortura é imprescritível e, ao mesmo tempo, relativizar a condenação do terror. Não ficaria bem. Ainda sobre o PT e Gaza, a resistência petista a condenar o lançamento de foguetes pelo Hamas contra a população civil de Israel faz crer que o PT considera essa uma forma legítima de luta, nas circunstâncias. Assim como é perceptível que há uma pressão no PT (e no PCdoB) para rever a defesa do direito de Israel à existência. Talvez por Israel ter virado um aliado fiel dos Estados Unidos. O curioso é que as relações entre a esquerda e o sionismo nem sempre foram ruins. A União Soviética reconheceu Israel logo de cara. Do outro lado do espectro, o Reino Unido se absteve na votação da ONU em 1947 que dividiu o território do mandato britânico na Palestina, entre um estado judeu e um árabe. Com o passar do tempo, e com a progressão da Guerra Fria, o nacionalismo árabe acercou-se da URSS enquanto Israel buscou apoio nos Estados Unidos. E houve então um realinhamento da esquerda mundial. Por falar em reposicionamento, as dificuldades atuais dos árabes da Palestina explicam-se também pela incrível tendência de seus líderes escolherem nas guerras o lado que vai perder. Estavam com o Império Otomano entre 1914 e 1918 (enquanto a Legião Judaica combatia no exército de Sua Majestade). Quando chegou a Segunda Guerra, inclinaram-se para a Alemanha de Adolf Hitler. Da Wikipedia, sobre o esforço britânico para recrutar gente na Palestina para as fileiras da luta contra o nazismo:
    Despite the efforts by the British to enlist an equal number of Jews and Arabs into the Palestine Regiment, three times more Jews volunteered than Arabs. As a result, on August 6, 1942, three Palestinian Jewish battalions and one Palestinian Arab battalion were formed. At this time, the Regiment was principally involved in guard duties in Egypt and North Africa. The British also wanted to undermine efforts of Hajj Amin al-Husayni who successfully drummed up Arab support of the Axis Powers against the Allies. (...) After early reports of the Nazi atrocities of the Holocaust were made public by the Allied powers, the Prime Minister Winston Churchill sent a personal telegram to the US President Franklin D. Roosevelt suggesting that "the Jews... of all races have the right to strike at the Germans as a recognizable body." The president replied five days later saying: "I perceive no objection...". After much hesitation, on July 3, 1944, the British government consented to the establishment of a Jewish Brigade with hand-picked Jewish and also non-Jewish senior officers. On September 20, 1944, an official communique by the War Office announced the formation of the Jewish Brigade Group of the British Army. The Zionist flag was officially approved as its standard. It included more than 5,000 Jewish volunteers from Palestine organized into three infantry battalions of the Palestine Regiment and several supporting units.
Vale aqui um link para Mohammad Amin al-Husayni, o Grande Mufti de Jerusalém (foto). Foi o fundador do moderno nacionalismo árabe palestino, cujas origens devem ser buscadas na revolta árabe de 1936-39. Durante o conflito mundial de 1939-45, o Mufti aspirava fazer aos judeus da Palestina o que os alemães faziam aos da Europa. Em frente. Logo depois da derrota do nazismo veio a Guerra Fria, em que o mundo árabe alinhou-se maciçamente à União Soviética. O resultado da Guerra Fria também é conhecido. Vejam que não estou aqui a dizer que o nacionalismo árabe ficou do "lado errado" nessas guerras todas. Eu apenas registro a insistência em escolher o lado que vai acabar perdendo. O exemplo mais recente foi dado por Yasser Arafat, que apoiou a tomada do Kuait pelo Iraque de Saddam Hussein, que depois seria derrotado na Guerra do Golfo. A História costuma cobrar um preço alto de quem fica do lado que perde. Especialmente de quem perde as guerras em que se envolve. Direta ou indiretamente.

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Comunicação (20/01)

A maior novidade do dia é o renovado site da Casa Branca (whitehouse.gov). Veja aqui uma explicação sobre as funcionalidades. Tem um blog e seu RSS. Vamos ver qual será, ao longo do tempo, a real transparência da coisa toda.

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Duas leituras úteis sobre Gaza (20/01)

1) Q. and A. With Taghreed El-Khodary in Gaza - thelede.blogs.nytimes.com (leitores de blog do NYT entrevistam a correspondente -palestina- do jornal em Gaza).

2) When it comes to Gaza, leave the Second World War out of it - Robert Fisk, The Independent (o cara dispensa apresentações, creio).

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Proletários Armados pela CIA (19/01)

Talvez fosse adequado renomear o bando de que Battisti participava na Itália. Poderia ser, por exemplo, Proletários Armados pela CIA. Nem a sigla precisaria mudar

O ministro da Justiça, Tarso Genro, agiu politicamente quando impediu a extradição de Cesare Battisti, condenado na Itália por atos criminosos três décadas atrás, época em que o italiano participava de um tal "Proletários Armados pelo Comunismo". Não há nada de errado em Tarso agir politicamente. O ministro achou que deveria tomar a decisão e tomou. O Brasil já deu asilo e proteção a um monte de gente, da esquerda e da direita. Se o ministro agiu dentro da lei, aos que discordam dele resta apenas o jus esperneandi. Vamos ver o que dizem a Procuradoria-Geral da República e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Eu fui à Wikipedia saber o nome original do grupo de Battisti em italiano. Era "Proletari Armati per il Comunismo". Por que a curiosidade? Porque encasquetei com a tradução. Mesmo sem conhecer bem o idioma do país peninsular, acho que uma versão melhor para o português seria "Proletários Armados para o Comunismo". "Pelo" pode dar a impressão -errada- de que era o comunismo quem armava os tais "proletários" -e não que eles se armavam para supostamente alcançar o comunismo.

Pensando bem, nem uma coisa nem outra. Os grupelhos de extrema-esquerda que azucrinaram a Itália nos anos 70 do século passado nada tinham a ver com o comunismo, e portanto não poderiam ter sido armados por ele. Ao contrário, desempenharam na época o papel histórico -hoje já bem esclarecido- de força auxiliar e braço armado da direita italiana e dos Estados Unidos, para impedir que o Partido Comunista Italiano (PCI) chegasse ao governo em aliança com a principal sigla de centro-direita, a democracia-cristã. Então, se é para manter o "pelo", talvez fosse adequado renomear (em português) o bando de Battisti. Poderia ser, por exemplo, Proletários Armados pela CIA. Nem a sigla precisaria mudar. E aí não haveria mais dúvidas. Linguísticas ou políticas.

Todo esse debate seria cômico, se a coisa não tivesse sido trágica. Um caso clássico, sempre lembrado, foi o sequestro e morte do ex-premiê Aldo Moro, democrata-cristão que trabalhava para levar o PCI ao governo. Foi raptado e friamente assassinado pelas autonomeadas Brigadas Vermelhas, outra quadrilha, assemelhada aos tais "proletários armados" de Battisti. Eram os tempos da Guerra Fria. Os Estados Unidos vetavam a presença do PCI no governo italiano, também porque a Itália, membro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), tinha obrigações militares na confrontação com o Tratado de Varsóvia, a aliança bélica do então campo socialista, liderado pela União Soviética.

Hoje tudo isso é História. Mas, para azar do governo do Brasil, ainda tem gente por aí que acompanhou aquele processo e sabe distinguir o preto do branco, sabe quem foi quem naqueles anos. Um dos remanescentes é o atual presidente da Itália, Giorgio Napolitano. Enquanto a extrema-esquerda italiana se pintava de vermelho para ajudar a CIA, Napolitano era dirigente do PCI e trabalhava por um compromisso histórico que permitisse a real alternância no poder. Por causa da decisão de Tarso, Napolitano mandou dias atrás uma carta brava para Luiz Inácio Lula da Silva. Se quando concordou com o abrigo a Battisti Lula pensava numa desfeita dirigida ao premiê direitista Silvio Berlusconi, nosso presidente atirou no que viu e acertou no que não viu.

Mas política é política, e justiça é justiça. Vamos ver, repito, o que fará o STF. Enquanto isso, mais uma vez, o ministro Tarso Genro vai apanhando em público por tomar decisões alinhadas ao pensamento do chefe. Tarso é um ativo valioso para Lula. Faz o que Lula deseja que seja feito e depois absorve todo o desgaste. Tarso não é um ministro "do PT", até porque a força dele no partido não é lá essas coisas. Tarso é um ministro "de Lula". Para sorte de Cesare Battisti.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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sábado, 17 de janeiro de 2009

Obama seguiu o meu conselho. E o "smart power" de Lula (17/01)

Antes que você suspeite da minha sanidade mental (já que blogueiros são seres especialmente vulneráveis à megalomania), note que a primeira metade do título deste post deve ser lida como uma piada. Eu não resisti, quando vi esta notícia no estadao.com.br:
    Obama manterá Sobel na embaixada no Brasil, diz 'Post'

    AE/AP - Agencia Estado - WASHINGTON - O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, prorrogou por um período não definido a permanência do embaixador dos EUA no Brasil, Clifford M. Sobel. A informação foi atribuída a um importante membro do círculo de amigos do presidente George W. Bush e publicada hoje pelo jornal The Washington Post. A publicação não aponta as razões de Obama para manter Sobel. Aparentemente isso se deve ao desejo do futuro presidente de que o embaixador siga em suas gestões com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem o democrata espera trabalhar em um plano energético regional. Ex-dirigente do Partido Republicano, Sobel foi peça-chave no trabalho da administração no entendimento de Lula e Bush no setor dos biocombustíveis. Em uma reunião há dois anos em Washington, ambos concordaram em empreender um plano piloto de ajuda ao desenvolvimento de tecnologia em vários países do hemisfério ocidental. Sobel, a quem o Post identifica como "um importante doador" da campanha de Bush, também foi embaixador na Holanda.
Leia o resto da reportagem. Vamos resumir. Sobel foi um "importante doador" da campanha presidencial de Bush. Com a eleição do amigo, virou embaixador no Brasil. Onde articulou a agenda bilateral do etanol. Agora, segundo o "Post", Obama deve manter Sobel no cargo. Precisa explicar mais? Se não entendeu, leia de novo desde o começo. Num artigo de uma semana atrás (Janela de oportunidade), eu sugeri ao novo chefe da Casa Branca que nas relações com o Brasil combinasse os ensinamentos deixados por dois presidentes americanos: Calvin Coolidge e Franklin Delano Roosevelt. Ao primeiro atribui-se o esclarecimento de que o negócio dos Estados Unidos são os negócios. O segundo baixou aqui em 1941 e, em troca de dar o impulso decisivo à nossa siderurgia, conseguiu fazer o Brasil parar de flertar com o nazi-fascismo. O presidente da época, Getúlio Vargas, ponderou bem a situação e concluiu que só tinha dois cenários possíveis pela frente, mutuamente excludentes: ou fechava com Roosevelt ou o Brasil seria invadido pelos Estados Unidos, dada a nossa posição estratégica no Atlântico. Como Getúlio era um gênio da política, em vez de optar pelo filofascismo e por terminar pendurado num poste, escolheu o lado certo e ainda levou de troco, entre outras coisas, a construção da Companhia Siderúrgica Nacional. Agora, releia um trecho do que escrevi aqui em Janela de oportunidade:
    Luiz Inácio Lula da Silva é o presidente brasileiro politicamente mais capaz desde Vargas, e certamente saberá extrair o máximo de Barack Obama. Nem o cenário mundial tendente à proteção das economias nacionais desautoriza o otimismo. Para ter sucesso, porém, Lula precisará encaixar a agenda certa. Um ponto de honra é o etanol. O governo e os empresários brasileiros montaram uma espécie de “invencível armada” dos biocombustíveis, vislumbrando um passeio em mar de almirante, com as velas enfunadas pelo preço explosivo do petróleo e pelo pavor planetário com as mudanças climáticas. Só que as embarcações do álcool da cana-de-açúcar, a exemplo da esquadra de Felipe II da Espanha no século 16, ameaçam ir a pique, pela falta de mercado. Já faltava antes da crise global, quanto mais agora. Depois de investimentos maciços no setor, o cenário brasileiro é de oligopolização acelerada, estoques lá em cima, preços lá em baixo, rentabilidade em risco e empresários de pires na mão rumo a Brasília atrás de socializar os prejuízos.
Enquanto vizinhos e um pedaço da esquerda brasileira se esgoelam no antiamericanismo, Lula dá um jeito de que os bons negócios com os americanos continuem caminhando bem. É o preço (barato) para que o Brasil prossiga equilibrando o jogo com os "radicais" (na terminologia preferida dos gringos), os daqui e os das redondezas. A nova secretária de Estado, Hillary Clinton, disse na sabatina dela no Senado (de lá) que, doravante, o governo americano vai ser mais esperto, um poder inteligente, o "smart power". Desculpe Mrs. Clinton, mas em termos de esperteza, de "smart power", enquanto a senhora está se dirigindo ao galinheiro o presidente do Brasil já está voltando com o omelete. Como escrevi quase dois anos atrás, quando Bush nos visitou (As crianças estão brincando lá fora):
    Por enquanto, fica a impressão de que as crianças obtiveram permissão para brincar de anti-imperialismo no quintal, enquanto os adultos conversam na sala sobre grandes negócios.
Santa mudança ortográfica. Agora eu sei, com certeza, que "anti-imperialismo" tem hífen. Desdenhar da reforma é uma roubada. É a minha segunda reforma (a primeira foi em 1971), e vou tentar me adaptar rapidinho. Outra roubada? Ler só as seções de política internacional, sem ler as de economia.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Só descobriram agora (16/01)

Do Valor Econômico:
    O IGP-10 de janeiro mostrou a maior deflação da história. A queda foi de 0,85%, mais que o dobro das projeções dos analistas. O IPA, o índice que deveria estar acusando com mais intensidade as pressões cambiais, é justamente o que mais recua, caiu 1,5% no mês. Os juros declinaram pesadamente ontem no mercado futuro. A taxa para o fim do ano cedeu de 11,59% para 11,41%. O juro do swap de 360 dias baixou de 11,56% para 11,45%. Amplia-se a cada dia o contingente de analistas que passa a ver no corte imediato da Selic em 1 ponto uma providência natural e inescapável. Duas das mais importantes consultorias do país, a AC & Pastore e a MB Associados, revisaram suas expectativas de corte para 0,75 ponto.
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Andando em círculos (16/01)

A cartilha “antineoliberal” do PT anda mais encalhada do que os dicionários que foram editados antes da reforma ortográfica

Quando os ministros da área econômica voltarem das férias, o presidente da República promete anunciar novas providências para enfrentar a turbulência econômica, especialmente a ameaça do desemprego. Depois dos países centrais, as economias dos países emergentes também caminham para um pouso forçado, ainda que com graus diferentes de risco. Então é bom mesmo se precaver.

México e Argentina, por exemplo, têm encontro marcado com a retração nominal do produto. Crescimento negativo do PIB. A situação do Brasil é um pouco melhor. As previsões mais realistas são de um crescimentozinho, medíocre. Os conformados dirão que será uma vitória, diante da crise planetária. Os nem tanto perguntarão se, afinal, não daria para fazer melhor.

Entre uns e outros, o governo, como já se escreveu aqui, cruza os dedos para que a economia americana arremeta, saia rapidamente do buraco e arraste para cima as demais. Inclusive a nossa. Enquanto não acontece, vamos nos segurando no invejável mercado interno e nas oportunidades abertas lá fora pela desvalorização do real. Se o Banco Central vê o dólar caro como problema, os exportadores festejam-no. São, literalmente, os dois lados da moeda.

A dúvida é saber se o governo está fazendo tudo o que pode e deve fazer na situação. E se está no caminho certo. As renúncias fiscais, por exemplo, servem para angariar apoio político e produzir eventuais suspiros apaixonados dos felizardos, mas o efeito macroeconômico é duvidoso. Numa crise como esta, que combina venenosamente iliquidez e deflação, o já naturalmente medroso capital fica ainda mais covarde. E a mesma coisa acontece com o consumidor.

A preocupação das empresas, das famílias e das pessoas hoje em dia é só fazer caixa e reduzir o endividamento. Ficar no azul e limitar os compromissos com despesas futuras. Claro que há exceções, os endinheirados que aproveitam o momento para comprar bem e barato. Mas não é essa a realidade para a maioria que faz o mercado, que faz girar a roda da economia.

Reduções de impostos e liberação de recursos para empresas têm efeito limitado num quadro assim. Se o consumidor segue atemorizado, o dinheiro a mais que sai do governo para as empresas não vai ser investido. Vai fazer caixa e abater dívida. Por isso a importância do crédito barato, para estimular as pessoas e as empresas. Uns precisam dele para se animar a consumir. Outros precisam dele para produzir o que vai ser consumido.

Até o momento, infelizmente, o desempenho do governo Luiz Inácio Lula da Silva no quesito do crédito barato é um fracasso retumbante. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) insiste que a taxa básica de juros poderia ser reduzida agressivamente, e que nada de ruim aconteceria à economia brasileira por causa disso. O presidente da Fiesp é conhecido pelas críticas sistemáticas ao Banco Central, mas desta vez as circunstâncias dão razão a Paulo Skaf.

Taxa Selic real de 3 ou 4 pontos percentuais continuaria sendo superatrativa num cenário de juro zero -ou negativo- nas principais economias. E não há espaço para repassar a preços finais os custos adicionais de importação, decorrentes do real fraco. Onde houver esse perigo, o governo pode intervir controlando o mercado. Coisa que um dia fez parte da cartilha “antineoliberal” do PT. Agora, com o partido confortavelmente acomodado na Esplanada, a cartilha anda mais encalhada do que os dicionários editados antes da reforma ortográfica.

Outro dia, o presidente do Banco Central bateu boca elegantemente com o presidente do Bradesco. O banqueiro reclamou da Selic alta. O ministro rebateu, reclamando do spread alto. Ambos têm razão, mas há uma diferença. Os bancos não podem impor a redução da Selic. Já o governo pode obrigar os bancos a reduzir o spread. Como? Levando os bancos a uma situação em que emprestar dinheiro a juros razoáveis seja a única forma de lucrar.

Enquanto os bancos puderem realizar lucros gigantescos emprestando dinheiro a juros estratosféricos para o governo e arrancando o couro dos clientes com tarifas absurdas (sem falar no serviço horroroso prestado nas agências), nada vai mudar. O presidente e os ministros vão sair e voltar de férias, vão organizar importantes — e ansiadas — reuniões em palácio e vão prometer as necessárias providências, que não virão. Vão continuar andando em círculos. De prático mesmo, só a torcida para que o governo Barack Obama comece bem.

Coluna (nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Para conferir depois (14/01)

No Financial Times, um resumo do que Hillary Clinton disse no Senado ao ser sabatinada para a chefia do Departamento de Estado. A promessa do novo governo é uma abordagem mais pragmática e multilateral dos assuntos internacionais. Em mais pragmatismo eu acredito, visto que os Estados Unidos estão sedentos de aliados. Já o multilateralismo é um pouquinho mais difícil. É inevitável que as projeções sobre o governo Barack Obama em política externa se referenciem na memória da administração do marido de Hillary (1993-2001). Multilateralismo no governo Bill Clinton? Perguntem aos sérvios (A morte de Milosevic e o duplipensar ocidental). O Bill governou os Estados Unidos quando a Rússia estava de joelhos, a China não era o que é hoje e os americanos tinham um belo coelho para tirar da cartola na economia: a explosão da exuberância irracional das pontocom. O mundo mudou desde lá. Vamos ver. Multilateralismo é bom no discurso. O que eu nunca vi é uma superpotência hegemônica aceitar ser derrotada numa mesa de negociações e não recorrer à força.

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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Jogo do Poder com Tião Viana (13/01)


O candidato do PT à Presidência do Senado, Tião Viana (AC), é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também o jornalista Gustavo Krieger, repórter especial e colunista do Correio Braziliense.
    Atualização - Clique na imagem acima para ver a primeira parte da entrevista. O vídeo completo pode ser visto no YouTube, dividido em cinco partes:

    Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O antissemitismo, o pragmatismo e o horror da guerra (12/01)

Houve alguma polêmica sobre a nota na qual o PT acusa Israel de práticas semelhantes às dos exércitos nazistas, pois Israel, segundo o PT: 1) ataca em Gaza, para efeito de dissuasão, alvos urbanos densamente povoados (como em Guernica, na Guerra Civil Espanhola) e 2) ataca em Gaza civis para retaliar contra ações militares (como em Lídice, na hoje República Tcheca, na Segunda Guerra Mundial). Israel nega que esteja fazendo coisas assim. A posição do PT despertou reações entre os judeus. O Centro Simon Wiesenthal atirou no PT, acusando-o de antissemitismo e simpatia pelo terrorismo. Teve chiadeira até no gabinete israelense. Mesmo dentro do partido a coisa não fluiu assim tão tranquila, visto que alguns segmentos partidários mostraram desconforto. E até gente do governo teve que vir a público para relativizar a coisa, depois de ter inadvertidamente dado com a língua nos dentes. Mas a nota do PT não foi um escorregão. Trata-se de uma posição política, que busca uma situação favorável para o combate e recorre a ferramentas normais da propaganda. Demonizar o adversário faz parte do jogo nas guerras. O PT não é neutro. Juntamente com outros partidos de esquerda no Brasil, ele apóia politicamente o Hamas na guerra em Gaza contra Israel. Assim como apoiou o Hezbollah na guerra de 2006 travada por Israel em território libanês. As principais referências da esquerda brasileira hoje em dia no Oriente Médio são a Síria e o Irã. O que eu acho disso? O que escrevi em A esquerda será novamente salva de si mesma:
    (...) num mundo hipotético dominado pelo fascismo islâmico, os comunistas e socialistas estariam atrás das grades ou dentro de covas.
Atenção: eu não disse que o Islã é sinônimo de fascismo. Eu não penso assim. Eu disse que há um fascismo de origem islâmica, o que é uma coisa bem diferente (assim como há fascismos de outras origens). Sobre isso, registre-se que os comunistas iraquianos estiveram na primeira fileira dos festejos depois da derrubada de Saddam Hussein pelos americanos. Aliás, quem foi ao último encontro internacional de partidos comunistas organizado pelo PCdoB em São Paulo e tomou conhecimento da intervenção do Partido Comunista do Irã (Tudeh) percebeu que a esquerda iraniana não bate palmas para o governo daquele país. Com bons motivos. Escrevi em Passado e futuro:
    Lembro que a esquerda mundial vibrou com a revolução islâmica que, em 1979, derrubou o xá Reza Pahlevi e instituiu no Irã a república dos aiatolás. Havia ali um forte partido comunista, o Tudeh (Massas), que decidiu apoiar a revolução e participar do governo. Poucos anos depois, o partido foi banido e milhares de seus dirigentes e membros foram presos. Hoje, o Irã tem um presidente que nega o Holocausto e prepara bombas atômicas para estender a influência do fundamentalismo xiita pelo máximo de espaço geopolítico que conseguir.
Falar que o PT envereda pelo antissemitismo é um exagero. Ainda que haja esse tipo de coisa no PT, mais provável é que a sigla esteja animada por um mix de anti-imperialismo e pragmatismo. E que busque uma posição moralmente "superior" para vitaminar-se na polêmica. Só isso. Mas por que o pragmatismo? A resposta pode ser encontrada numa entrevista que o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, deu ao Estadão, e que o Luis Favre republicou no blog dele. Um trecho de O mundo vai financiar nossa infraestrutura:
    O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, tem um plano para financiar as obras de infraestrutura e exploração de petróleo no Brasil, em tempos de seca no mercado financeiro internacional. Com a bênção e a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Coutinho pretende visitar os países com dinheiro em caixa, especialmente na Ásia e no Oriente Médio, para buscar investimentos para o Brasil. O BNDES vai criar fundos para atrair esses recursos e investi-los em obras no País, acenando com retornos altos para os investidores internacionais. Essa é a resposta de Coutinho para aqueles que dizem que o Brasil não pode crescer muito em 2009 porque corre o risco de não ter como se financiar. “Há, de fato, um desafio de financiamento externo”, disse Coutinho. “Mas tenho muita tranquilidade quanto à capacidade de o Brasil obter capitais.”
Escrevi Janela de oportunidade antes de saber dessas informações trazidas pelo presidente do BNDES. O governo do PT precisa de dinheiro para alavancar investimentos e tentar impedir que o país entre em recessão. E onde está o dinheiro? Tem uma boa quantidade dele em fundos soberanos de países exportadores de petróleo. Trecho de Notícia veiculada faz um tempo pela Agência Senado:
    O futuro embaixador brasileiro junto aos Emirados Árabes Unidos, ministro de segunda classe da carreira diplomática Raul Campos e Castro, pretende atrair para o país uma parte dos US$ 900 bilhões que compõem o fundo soberano de Abu Dhabi. A intenção foi anunciada pelo diplomata nesta quinta-feira (3), quando a sua indicação para o posto recebeu parecer favorável da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE). Castro informou aos senadores que uma das prioridades de seu trabalho será a de conhecer melhor o fundo, para saber "em que medida poderemos atraí-lo para aplicações no Brasil". Os fundos soberanos administram grandes reservas internacionais de países exportadores de petróleo ou de produtos manufaturados. Entre os mais importantes, estão os de Cingapura, China e Emirados Árabes.
No Brasil, expansão anual de 2% a 3% no PIB pode até não ser academicamente recessão, mas é recessão. Só fazer a conta de quanta gente tem para entrar no mercado de trabalho todo ano. Além disso, Luiz Inácio Lula da Silva vê desde o início o conflito em Gaza como uma janela de oportunidade para o Brasil alavancar um protagonismo planetário, objetivo estratégico da política externa brasileira. Lula inaugurou sua participação no conflito de Gaza com um discurso na véspera da passagem do ano, logo antes de tirar férias. E deixou o checeler Celso Amorim encarregado de articular um encontro internacional sobre o assunto. No discurso, Lula foi duro com a ONU e com o direito de veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança. Para azar do presidente, desta vez os Estados Unidos decidiram não vetar a decisão da ONU sobre o cessar-fogo, mas ainda assim a resolução adotada pelo conselho enfrenta dificuldades. O que relativiza o diagnóstico presidencial. Ou seja, é provável que sem a participação decisiva dos Estados Unidos fique mais difícil achar uma solução permanente para o conflito. Decorre daí a ansiedade com que o mundo espera para saber o que Barack Obama e Hillary Clinton vão fazer quando chegarem à Casa Branca e ao Departamento de Estado. Respectivamente. Mas eu falava de pragmatismo. O mesmo pragmatismo que levou em 1975 o então governo Ernesto Geisel a apoiar na ONU uma resolução equiparando o sionismo ao racismo. A posição da ONU foi revogada em 1991. Ainda que Geisel, pessoalmente, tivesse um pé no antissemitismo, o alinhamento brasileiro decorreu do mesmo motivo que agora: pragmatismo, necessidade de recursos. Na época, por causa da crise trazida pelo primeiro choque do petróleo, após a Guerra entre Israel, Egito e Síria dois anos antes. Como disse então nosso chanceler, Azeredo da Silveira, ao seu colega americano, Henry Kissinger:
    “Se vocês tivessem um milhão de barris de petróleo para nos fornecer diariamente, talvez essa mudança [de posição brasileira] não fosse tão brusca.”
Hoje o Brasil tem bastante petróleo, graças a Deus, mas precisa de dólares. As posições do governo brasileiro e do PT são portanto explicáveis racionalmente. Qual é o problema, então? Dois problemas. No caso do governo, talvez ele sofra de alguma incompetência operacional. Sintoma disso são as trapalhadas verbais. E a posição brasileira está um tanto desequilibrada a favor do Irã. O Itamaraty e Lula deveriam saber que o mundo árabe vê no Irã um perigo bem maior do que o representado por Israel. Mas o atual giro de Celso Amorim pelo Oriente Médio pode ajudar a reequilibrar a balança. No caso do PT, o problema maior é o desconhecimento da História. O PT acusa Israel de práticas nazistas quando as ações israelenses matam civis em tempo de guerra, e usa exemplos do conflito de 1939-45 (inclusive o "ensaio geral", em terras espanholas, entre 1936 e 39). Israel nega e repudia a comparação. Mas como algo não tinha me caído (intelectualmente) bem nas comparações históricas feitas pelo PT, resolvi matutar. E lembrei de como naquela terrível guerra do século passado as maiores matanças de civis, para efeito de dissuasão, partiram não dos nazistas, mas dos adversários dos nazistas. Vou pegar só dois exemplos. Um é o bombardeio de Dresden, na Alemanha, em fevereiro de 1945, quando a guerra já estava decidida. Os aliados ali não atacaram alvos militares. Só civis. Os cálculos mais modestos falam em dezenas de milhares de mortos em três dias de ataques. Era uma política deliberada do governo britânico de Winston Churchill. Da Wikipedia (Area bombardment):
    (...) the nearest the British got to a declaration was in an Air Ministry area bombing directive issued to RAF Bomber Command on 14 February 1942, which said "You are accordingly authorised to use your forces without restriction", and listing a series of 'Primary targets' which included Essen, Duisburg, Düsseldorf and Cologne. 'Secondary targets' included Braunschweig, Lübeck, Rostock, Bremen, Kiel, Hanover, Frankfurt, Mannheim, Stuttgart and Schweinfurt. It stated that "Operations should now be focused on the morale of the enemy civilian population and in particular, the industrial workers". Lest there be any confusion, Sir Charles Portal wrote to Air Chief Marshall Norman Bottomley on the 15 February "..I suppose it is clear that the aiming points will be the built up areas, and not, for instance, the dockyards or aircraft factories"
Os ingleses tinham motivos para estarem chateados com os alemães, por causa do lançamento de bombas sobre Londres anos antes, para abater o moral da população civil. E, por falar nisso, quem inaugurou a moda de mandar foguetes sobre alvos civis (coisa muito popular hoje na Palestina) foi a Alemanha nazista, com seus V-1 e V-2. Mas, convenhamos que arrasar cidades alemãs quando a guerra já estava decidida foi mesmo uma resposta para lá de desproporcional dos ingleses. Naquela guerra, a única coisa mais desproporcional do que isso, que eu me lembre, foi feita pelos americanos, quando jogaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Onde não havia alvos militares. Só civis. Lídice, Guernica, Dresden, Hiroshima, Nagasaki. Guerra sem horrores? Infelizmente, só no cinema.