Houve alguma polêmica sobre a
nota na qual o PT acusa Israel de práticas semelhantes às dos exércitos nazistas, pois Israel, segundo o PT: 1) ataca em Gaza, para efeito de dissuasão, alvos urbanos densamente povoados (como em
Guernica, na Guerra Civil Espanhola) e 2) ataca em Gaza civis para retaliar contra ações militares (como em
Lídice, na hoje República Tcheca, na Segunda Guerra Mundial). Israel nega que esteja fazendo coisas assim. A posição do PT despertou reações entre os judeus. O
Centro Simon Wiesenthal atirou no PT, acusando-o de antissemitismo e simpatia pelo terrorismo.
Teve chiadeira até no gabinete israelense. Mesmo dentro do partido a coisa não fluiu assim tão tranquila, visto que
alguns segmentos partidários mostraram desconforto. E até
gente do governo teve que vir a público para relativizar a coisa,
depois de ter inadvertidamente dado com a língua nos dentes. Mas a nota do PT não foi um escorregão. Trata-se de uma posição política, que busca uma situação favorável para o combate e recorre a ferramentas normais da propaganda. Demonizar o adversário faz parte do jogo nas guerras. O PT não é neutro. Juntamente com outros partidos de esquerda no Brasil, ele apóia politicamente o Hamas na guerra em Gaza contra Israel. Assim como apoiou o Hezbollah na guerra de 2006 travada por Israel em território libanês. As principais referências da esquerda brasileira hoje em dia no Oriente Médio são a Síria e o Irã. O que eu acho disso? O que escrevi em
A esquerda será novamente salva de si mesma:
(...) num mundo hipotético dominado pelo fascismo islâmico, os comunistas e socialistas estariam atrás das grades ou dentro de covas.
Atenção: eu não disse que o Islã é sinônimo de fascismo. Eu não penso assim. Eu disse que há um fascismo de origem islâmica, o que é uma coisa bem diferente (assim como há fascismos de outras origens). Sobre isso, registre-se que os comunistas iraquianos estiveram na primeira fileira dos festejos depois da derrubada de Saddam Hussein pelos americanos. Aliás, quem foi ao último encontro internacional de partidos comunistas organizado pelo PCdoB em São Paulo e tomou conhecimento da intervenção do Partido Comunista do Irã (Tudeh) percebeu que a esquerda iraniana não bate palmas para o governo daquele país. Com bons motivos. Escrevi em
Passado e futuro:
Lembro que a esquerda mundial vibrou com a revolução islâmica que, em 1979, derrubou o xá Reza Pahlevi e instituiu no Irã a república dos aiatolás. Havia ali um forte partido comunista, o Tudeh (Massas), que decidiu apoiar a revolução e participar do governo. Poucos anos depois, o partido foi banido e milhares de seus dirigentes e membros foram presos. Hoje, o Irã tem um presidente que nega o Holocausto e prepara bombas atômicas para estender a influência do fundamentalismo xiita pelo máximo de espaço geopolítico que conseguir.
Falar que o PT envereda pelo antissemitismo é um exagero. Ainda que haja esse tipo de coisa no PT, mais provável é que a sigla esteja animada por um mix de anti-imperialismo e pragmatismo. E que busque uma posição moralmente "superior" para vitaminar-se na polêmica. Só isso. Mas por que o pragmatismo? A resposta pode ser encontrada numa
entrevista que o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, deu ao Estadão, e que o Luis Favre republicou no blog dele. Um trecho de
O mundo vai financiar nossa infraestrutura:
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, tem um plano para financiar as obras de infraestrutura e exploração de petróleo no Brasil, em tempos de seca no mercado financeiro internacional. Com a bênção e a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Coutinho pretende visitar os países com dinheiro em caixa, especialmente na Ásia e no Oriente Médio, para buscar investimentos para o Brasil. O BNDES vai criar fundos para atrair esses recursos e investi-los em obras no País, acenando com retornos altos para os investidores internacionais. Essa é a resposta de Coutinho para aqueles que dizem que o Brasil não pode crescer muito em 2009 porque corre o risco de não ter como se financiar. “Há, de fato, um desafio de financiamento externo”, disse Coutinho. “Mas tenho muita tranquilidade quanto à capacidade de o Brasil obter capitais.”
Escrevi
Janela de oportunidade antes de saber dessas informações trazidas pelo presidente do BNDES. O governo do PT precisa de dinheiro para alavancar investimentos e tentar impedir que o país entre em recessão. E onde está o dinheiro? Tem uma boa quantidade dele em fundos soberanos de países exportadores de petróleo. Trecho de
Notícia veiculada faz um tempo pela Agência Senado:
O futuro embaixador brasileiro junto aos Emirados Árabes Unidos, ministro de segunda classe da carreira diplomática Raul Campos e Castro, pretende atrair para o país uma parte dos US$ 900 bilhões que compõem o fundo soberano de Abu Dhabi. A intenção foi anunciada pelo diplomata nesta quinta-feira (3), quando a sua indicação para o posto recebeu parecer favorável da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE). Castro informou aos senadores que uma das prioridades de seu trabalho será a de conhecer melhor o fundo, para saber "em que medida poderemos atraí-lo para aplicações no Brasil". Os fundos soberanos administram grandes reservas internacionais de países exportadores de petróleo ou de produtos manufaturados. Entre os mais importantes, estão os de Cingapura, China e Emirados Árabes.
No Brasil, expansão anual de 2% a 3% no PIB pode até não ser academicamente recessão, mas é recessão. Só fazer a conta de quanta gente tem para entrar no mercado de trabalho todo ano. Além disso, Luiz Inácio Lula da Silva vê desde o início o conflito em Gaza como uma janela de oportunidade para o Brasil alavancar um protagonismo planetário, objetivo estratégico da política externa brasileira. Lula inaugurou sua participação no conflito de Gaza com um
discurso na véspera da passagem do ano, logo antes de tirar férias. E deixou o checeler Celso Amorim encarregado de articular um
encontro internacional sobre o assunto. No discurso, Lula foi duro com a ONU e com o direito de veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança. Para azar do presidente, desta vez os Estados Unidos decidiram não vetar a decisão da ONU sobre o cessar-fogo, mas ainda assim
a resolução adotada pelo conselho enfrenta dificuldades. O que relativiza o diagnóstico presidencial. Ou seja, é provável que sem a participação decisiva dos Estados Unidos fique mais difícil achar uma solução permanente para o conflito. Decorre daí a ansiedade com que o mundo espera para saber o que Barack Obama e Hillary Clinton vão fazer quando chegarem à Casa Branca e ao Departamento de Estado. Respectivamente. Mas eu falava de pragmatismo. O mesmo pragmatismo que levou em 1975
o então governo Ernesto Geisel a apoiar na ONU uma resolução equiparando o sionismo ao racismo. A posição da ONU foi revogada em 1991. Ainda que Geisel, pessoalmente, tivesse um pé no antissemitismo, o alinhamento brasileiro decorreu do mesmo motivo que agora: pragmatismo, necessidade de recursos. Na época, por causa da crise trazida pelo primeiro choque do petróleo, após a Guerra entre Israel, Egito e Síria dois anos antes. Como disse então nosso chanceler, Azeredo da Silveira, ao seu colega americano, Henry Kissinger:
“Se vocês tivessem um milhão de barris de petróleo para nos fornecer diariamente, talvez essa mudança [de posição brasileira] não fosse tão brusca.”
Hoje o Brasil tem bastante petróleo, graças a Deus, mas precisa de dólares. As posições do governo brasileiro e do PT são portanto explicáveis racionalmente. Qual é o problema, então? Dois problemas. No caso do governo, talvez ele sofra de alguma incompetência operacional. Sintoma disso são as trapalhadas verbais. E a posição brasileira está um tanto desequilibrada a favor do Irã. O Itamaraty e Lula deveriam saber que o mundo árabe vê no Irã um perigo bem maior do que o representado por Israel. Mas o atual giro de Celso Amorim pelo Oriente Médio pode ajudar a reequilibrar a balança. No caso do PT, o problema maior é o desconhecimento da História. O PT acusa Israel de práticas nazistas quando as ações israelenses matam civis em tempo de guerra, e usa exemplos do conflito de 1939-45 (
inclusive o "ensaio geral", em terras espanholas, entre 1936 e 39). Israel nega e repudia a comparação. Mas como algo não tinha me caído (intelectualmente) bem nas comparações históricas feitas pelo PT, resolvi matutar. E lembrei de como naquela terrível guerra do século passado as maiores matanças de civis, para efeito de dissuasão, partiram não dos nazistas, mas dos adversários dos nazistas. Vou pegar só dois exemplos. Um é o
bombardeio de Dresden, na Alemanha, em fevereiro de 1945, quando a guerra já estava decidida. Os aliados ali não atacaram alvos militares. Só civis. Os cálculos mais modestos falam em dezenas de milhares de mortos em três dias de ataques. Era uma política deliberada do governo britânico de Winston Churchill. Da Wikipedia (
Area bombardment):
(...) the nearest the British got to a declaration was in an Air Ministry area bombing directive issued to RAF Bomber Command on 14 February 1942, which said "You are accordingly authorised to use your forces without restriction", and listing a series of 'Primary targets' which included Essen, Duisburg, Düsseldorf and Cologne. 'Secondary targets' included Braunschweig, Lübeck, Rostock, Bremen, Kiel, Hanover, Frankfurt, Mannheim, Stuttgart and Schweinfurt. It stated that "Operations should now be focused on the morale of the enemy civilian population and in particular, the industrial workers". Lest there be any confusion, Sir Charles Portal wrote to Air Chief Marshall Norman Bottomley on the 15 February "..I suppose it is clear that the aiming points will be the built up areas, and not, for instance, the dockyards or aircraft factories"
Os ingleses tinham motivos para estarem chateados com os alemães, por causa do
lançamento de bombas sobre Londres anos antes, para abater o moral da população civil. E, por falar nisso, quem inaugurou a moda de mandar foguetes sobre alvos civis (coisa muito popular hoje na Palestina) foi a Alemanha nazista, com seus
V-1 e
V-2. Mas, convenhamos que arrasar cidades alemãs quando a guerra já estava decidida foi mesmo uma resposta para lá de desproporcional dos ingleses. Naquela guerra, a única coisa mais desproporcional do que isso, que eu me lembre, foi feita pelos americanos, quando jogaram as
bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Onde não havia alvos militares. Só civis. Lídice, Guernica, Dresden, Hiroshima, Nagasaki. Guerra sem horrores? Infelizmente, só no cinema.