terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A soberba do ano-novo (29/12)

Desqualificar a crítica pode ser útil a Lula. Mas será também útil a uma Dilma que precisa, urgentemente, aglutinar para buscar a maioria?

Quatro anos atrás, uma parte da oposição cruzou o ano-novo à beira da euforia. Luiz Inácio Lula da Silva e o PT pareciam batidos de véspera, supostamente feridos de morte pelos escândalos do 2005 que terminava. A economia tampouco mostrava exuberância suficiente para arrastar o cidadão a votar de olhos fechados na reeleição do presidente. Tratava-se apenas de escolher quem iria derrotar Lula e devolver o poder ao PSDB.

Escrevi “uma parte da oposição” para fazer justiça. Os mais profissionais entre os tucanos já anteviam que a disputa seria dificílima, que o Lula candidato à reeleição seria um osso duríssimo de roer. Mas onda é onda, especialmente na assim chamada opinião pública. Quando a onda vem, a prudência aconselha os políticos a não baterem de frente. Ou o cara pega a bichinha de jeito ou mergulha. Quando 11 em cada dez sabichões proclamavam a “morte do PT” em 2005, deram-se bem os caciques da oposição que decidiram mergulhar.

Um comportamento habitual entre políticos, jornalistas e torcedores é confundir a realidade com o desejo, tomar a nuvem por Juno. Acontece agora no PT. Uma pesquisa eleitoral feita imediatamente após o programa de tevê do partido deu Dilma Rousseff alguns pontinhos acima. Deu também um crescimento interessante dos votos espontâneos na ministra. Do outro lado, José Serra continuou onde estava, entre 35 e 40% das intenções estimuladas.

Os números foram razoavelmente bons para Dilma. A ministra vai superando paulatinamente o desafio de se tornar conhecida, 80% dos eleitores já dizem saber quem ela é. E o atributo de “candidata de Lula” dá o esperado gás para deixar na poeira o “concorrente interno”, Ciro Gomes (PSB). E o que mais? Mais nada. Na simulação de segundo turno, Dilma ainda está 15 pontos atrás de Serra, enquanto quase sete em cada dez eleitores dizem ser indiferentes ao fato de um candidato fazer oposição a Lula.

Com parte do petismo aderindo alegremente ao “já ganhou”, Serra e o PSDB estão a ponto a colher um presente de ano-novo. Parecido com o que o PT recebeu na passagem de 2005 para 2006. Quer presente melhor na política do que a soberba do adversário?

O que as últimas pesquisas mostraram de diferente na corrida sucessória? Nada. É impensável que a candidata de Lula fique fora do segundo turno, mesmo que a polarização aconteça no primeiro. E a diferença no mano a mano entre ela e Serra vai cair ainda mais. E se o PSDB conseguir fazer convergir os ativos político-eleitorais nos maiores estados estará bem posto para disputar com chance de vitória.

Aliás, para sorte do PSDB, até em alguns lugares onde o tucanismo vai mal, como no Rio Grande do Sul, o cenário ensaia uma base política vitaminada para Serra.

Há os políticos bons de agitação e há os bons de raciocínio. Quando alguém é craque nas duas coisas, como Lula, estamos diante de um fenômeno. O problema é que o culto à personalidade do presidente ameaça cegar. Bastou uma pesquisa razoável e o petismo já subiu no salto alto. Onde mesmo está o PT maravilhosamente bem colocado para a sucessão estadual? No Acre. Quais são os números a indicar que Dilma rompeu a barreira do um terço do eleitorado que gosta do partido? Por enquanto, número nenhum.

O endeusamento do presidente e a fé tão incondicional quanto interessada no líder funcionam como polo de aglutinação nesta reta final de mandato, um antídoto contra a expectativa da perda de poder. São úteis para levar o barquinho ao porto. Daí que Lula estimule sistematicamente essa deformação de comportamento. Quem o critica é porque “está contra o Brasil”, “não gosta de pobre” ou “não suporta a ideia de um simples torneiro mecânico ter dado mais certo do que os doutores na Presidência da República”.

Blá-blá-blá. O governo tem qualidades e defeitos. E a mitologia? Ela serve a um Lula que conta os dias para fazer companhia aos antecessores nos livros de História. Pode servir também, até certo ponto, a uma Dilma que precisa ganhar musculatura. Mas em eleição presidencial não basta ter muitos votos, é preciso buscar a maioria. Será que na hora “h” esse discurso primário e excludente vai dar conta?

Em 1989, 1994 e 1998 não deu.

Rejeitado

Persiste certa tensão no PT-DF sobre quem vai concorrer ao Buriti, se o favorito Agnelo Queiroz ou Geraldo Magela. Mas há um consenso. O único nome vetado até agora pelas correntes internas é o senador Cristovam Buarque (PDT).

Por isso, caiu bem no PT-DF a pesquisa recente que não apontou grande diferença entre os desempenhos de Agnelo e Cristovam.

A legenda nunca engoliu a saída do ex-governador do partido. E conta com a vantagem de poder colocar a culpa do “não” em Lula, que tampouco gostaria de ter que pedir voto para o desafeto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição desta terça-feira (29) do Correio Braziliense.

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10 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Preciso e pontual!

Daniel Menezes - Natal / RN

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009 23:34:00 BRST  
Blogger CrápulaMor disse...

Alon, você tem razão quando diz que a soberba é o melhor presente que se pode dar a um inimigo.

Mas, esse índice de "conhecimento" de Dilma precisa de todas as relativizações possíveis. Primeiro, porque "conhecer alguém" é algo demasiadamente subjetivo. Além disso, é uma categoria que depende muito da metodologia do instituto e da forma como a pergunta é formulada. Esta mesma taxa cai sensivelmente em outras pesquisas. Você sabe que o Datafolha, por exemplo, subdivide este item entre aqueles que "conhecem bem", "conhecem pouco", "só de nome" etc. Pois bem, mesmo entre os que dizem "conhecer Dilma", poucos sequer conseguem dizer corretamente que cargo ela ocupa. Ainda que Dilma esteja tornando-se mais conhecida, este conhecimento é bastante superficial, e poucos a conhecem como candidata do Lula – fator decisivo.

Essa situação só será revertida realmente quando do horário eleitoral gratuito. Antes disso, Dilma não terá canais –literalmente – para se comunicar com a população. Esta história de trinta purça do PT, balela. Ainda que as pessoas expressem, em pesquisas, preferência partidária pelos petistas (algo de fato próximo aos 30%, atualmente), se o próprio candidato não conquistar o eleitorado, já era. Molon no Rio, Gleisi em Curitiba, Mário Cardoso em Belém, dentre vários outros, deixaram isto claro, no ano passado. Você sabe, Alon, que o entusiasmos dos governistas tem como causa algo a que você se referiu no início do texto. Lula foi reeleito porque, apesar da Crise política que sofreu, o povo tem percebido avanços concretos e recusado intermediários para refletir. Quando Dilma for associada à continuidade destes avanços, vai ser difícil segurar.

O programa televisivo do PT, este mês, foi sintomático do processo que se anuncia.

Abraços! Bom final de ano!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009 06:39:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A Esta altura do campeonato 15 pontos de diferença num segundo turno não é grande.
Lembre-se que no segundo turno o voto de um migra para o outro. Na prática basta Dilma tirar 8 pontos do Serra.
O que convenhamos, não é nada difícil.
Eu duvido que Serra saia candidato.
Estou de salto alto do tamanho do Everest. Acho que Dilma só perde se houver uma catástrofe tipo aquele asteróide que exterminou os dinossauros.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009 11:08:00 BRST  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Mas o próprio PDT não resolveria o problema do PT-DF com a candidatura Reguffe?

terça-feira, 29 de dezembro de 2009 11:48:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O mais interessante do raciocínio exalado do post é que muito antes de soberba, surge método. Método que perpassa eleições e/ou eventuais candidaturas, as barreiras da diplomacia, penetra em áreas alagadas ou ressequidas, adentra a questão nuclear ou pacifista, elege a preservação ambiental com incentivos à produção e compra de carros, chega ao cinema e por ai vai. Só falta criar a fórmula para que o eventual ou virtual ungido tenha tudo o que ao mentor é atribuído. Mas só que tal fórmula não existe. Assim, ao menos por ora, o virtual ungido ou eventual candidato tenta pegar, ao menos, as beiradas da popularidade. Só que, ao mentor, tentam lograr atribuir algo além do que pode ser absorvido por outrem.

Swamoro Songhay

terça-feira, 29 de dezembro de 2009 14:03:00 BRST  
Anonymous Gualter disse...

O PT tá contando com o quê para ganhar no DF com uns candidatozinhos ruins de roda que anunciam?
Ética!? Direita ou esquerda?
Vão debater: o meu mensalão é menos mensalão que o seu? Meu sirney é menos direita que o seu?
Capaz de dar empate, nénão?
Assim não tem jeito, vai dar quem "rouba mas faz". Aliás, quem (não) seria?

terça-feira, 29 de dezembro de 2009 17:12:00 BRST  
Anonymous Frank disse...

"Daí que Lula estimule sistematicamente essa deformação de comportamento. Quem o critica é porque “está contra o Brasil”, “não gosta de pobre” ou “não suporta a ideia de um simples torneiro mecânico ter dado mais certo do que os doutores na Presidência da República”.

Blá-blá-blá. O governo tem qualidades e defeitos. "

Poxa, mas isso já é assim há algum tempo. Esse tipo de comportamento vem desde o 1o mandato.

Vc só percebeu agora - não me lembro de ter lido algo parecido aqui, tirando posts desse último quartel de ano.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009 21:30:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

O que as pesquisas trazem de novo?

No Datafolha:
Dilma já empata (dentro da margem de erro) com Serra na faixa mais alta de renda (Serra 38% x 35% Dilma, sem Ciro Gomes na disputa), entre os que ganham mais de 10 Salários Mínimos.
Também já empata (dentro da margem de erro) entre os de nível superior: Serra 33% X 29% Dilma (com Ciro Gomes concorrendo), ou Serra 36% X 32% Dilma (Sem Ciro concorrendo).

Não estamos falando da população beneficiária do Bolsa-família, nem de quem ganha o salário-mínimo, estamos falando do topo da pirâmide social. Especialistas em pesquisas dizem que as tendências de opinião chegam primeiro a este grupo seleto e depois atingem os demais.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009 12:11:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Acho que está havendo confusão entre motivação e soberba. Um técnico não pede a um time de qualquer esporte (como volei, basquete, futsal ou tenis) para esfriar o jogo, quando está num bom momento, e fazendo pontos sobre o adversário. Os cuidados devem se restringir a não abrir a guarda.
Generais não pedem a soldados para "pegarem leve" e serem humildes com o adversário, quando partem em uma campanha ofensiva.
O mesmo ocorre em uma campanha eleitoral. A motivação e o passar confiança na vitória é essencial peça no ato de fazer política, para arregimentar apoios daqueles que estão em cima do muro na montagem de palanques estaduais, para reduzir o poder de barganha daqueles aliados que estão querendo exigir demais (prejudicando composição com outros aliados), e, sobretudo, para manter o moral alto da militância.
Soberba é quando há desmobilização, acreditando que a fatura está liquidada, esperando o tempo passar (e me parece que esse quadro está mais próximo do candidato lider das pesquisas, da oposição. Mesmo assim seria demais dizer que Serra cai na soberba. Ele apenas não tem escolha melhor do que esfriar o jogo e ganhar tempo, no momento).
A candidatura governista faz o contrário: mostra obstinação e disciplina tática (coisa que não estamos vendo de forma articulada na oposição).
Acho que é desnecessário dizer que o próprio presidente é bastante experiente em campanhas políticas (sobretudo nas derrotas), para saber que a vitória é construída com o trabalho obstinado e táticas acertadas, mas conquistada palmo a palmo, dia a dia, pois os adversários (e não são apenas político-partidários, mas também grupos de lobbies) também fazem seu jogo, e às vezes pesado, gerando surpresas até o último minuto da prorrogação, como um noticiário desfavorável, um ataque de adversários e coisas do genêro.

Há um erro de análise em ciência política em quem só vê culto à personalidade em torno de Lula. O presidente age politicamente quando valoriza sua história de migrante em pau-de-arara com ensino primário que deu certo e governou melhor do que a elite. Usa isso para politizar segmentos sociais antes sub-representados das decisões nacionais: pobres, nordestinos, negros, etc. O uso do "mito" é para criar protagonismo nestes segmentos. É o mesmo que fez Nelson Mandela na Àfrica do Sul. O "mito" Nelson Mandela não é só a pessoa, representa os milhões de negros da Africa do Sul que exergaram serem iguais e terem os mesmos direitos que tinham os brancos. Se Nelson Mandela pôde ser presidente, qualquer negro também pode.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009 12:16:00 BRST  
Blogger CrápulaMor disse...

Bem legal o comentário do Duarte. Dá um toque lá no meu blog, velho! A gente precisa trocar umas idéias.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009 23:15:00 BRST  

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