quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sem área de escape (02/12)

Este é o principal problema do governador: numa história em que não é possível não haver culpados, o candidato mais óbvio é ele próprio

De que modo o tsunami político que atingiu letalmente o governador do DF, José Roberto Arruda (DEM), vai se refletir nas eleições presidenciais do ano que vem? Um parâmetro é a crise do PT em 2005. O partido até sofreu ao ser desossado pela imprensa na esteira das acusações de Roberto Jefferson, mas o presidente da República reelegeu-se com folga dali a um ano.

Aliás, a candidatura de Geraldo Alckmin naufragou de vez quando o tucano decidiu trazer o assunto da "ética" mais para o centro da campanha. Abriu a —sem ironia— caixa de pandora e afundou.

Andei escrevendo sobre isso ao longo de 2006. Está nos arquivos. Disse que achava improvável o eleitor indignado com o comportamento do PT sair de casa no dia da eleição e, em protesto, votar na coalizão PSDB-PFL. Porque a dupla vinha de governar o Brasil e não levava jeito para vestir a roupagem virginal que serve aos campeões eventuais do que se convencionou chamar de "ética na política".

É possível que o PT tivesse conseguido eleger alguns deputados a mais se não houvesse o escândalo do dossiê, que estourou bem em cima do primeiro turno, causando certa turbulência. E só. Não há registro de candidato majoritário do PT que tenha sido derrotado por causa da sequência de confusões em que se meteu o partido naquela época. E os números da eleição interna do PT por estes dias mostraram que a sigla se recuperou com sobras e vai bem, obrigado.

Quatro anos atrás o petismo adotou uma providência eficaz, ainda que dolorosa: removeu cirurgicamente os focos de problema, oferecendo assim um discurso para o presidente e demais candidatos da legenda. Diferentemente dos adversários, dizia o PT, nós punimos nossos quadros e militantes que se desviaram do caminho virtuoso. Bem ou mal, essa narrativa blindou o presidente e, em boa medida, o próprio partido.

Agora, o desafio diante da oposição é semelhante: encontrar quem vai ser sacrificado no altar da opinião pública. Como a oposição não tem uma organicidade comparável à do PT, nem um líder para colocar ordem na casa, é para ela uma tarefa mais complicada. Uma cirurgia mais difícil. Com diversos cirurgiões-chefes debruçados sobre o paciente, a chance de cura é menor.

Será que o eleitor infeliz com o comportamento dos políticos do Distrito Federal, a começar do governador do Democratas, vai votar em protesto no PT, por todo o país? Difícil. Mais provável é que esse eleitor, em vez de prestar atenção nos partidos, feche o foco nos candidatos. Entretanto, assim como o presidente em 2006, o candidato precisará de um discurso. Pois, na democracia, partido que não dá satisfações ao eleitor cava a própria sepultura.

Este é o principal problema do governador do Distrito Federal: numa história em que não é possível não haver culpados, o candidato mais óbvio é ele próprio.

Piauiense

O PT se movimenta no tabuleiro da crise brasiliense para tentar impedir que o enfraquecimento de Arruda resulte no fortalecimento do ex-governador Joaquim Roriz (PSC). O petismo do DF enxerga a possibilidade de voltar ao poder depois de anos, mas para isso não pode permitir que a base tradicionalmente rorizista, hoje partilhada com Arruda, reaglutine-se em torno do ex-governador e lhe dê novamente a maioria.

Daí a súbita "civilidade" do PT. Em contraste flagrante com o tratamento que dispensou à governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB). Com Roriz e Arruda em guerra, o grupo que ficar fora de um eventual segundo turno poderia, ainda que não formalmente, dar aquela mãozinha para colocar um petista no Buriti.

No Piauí lá atrás foi assim. Hugo Napoleão conseguiu que a Justiça cassasse o governador Mão Santa e assumiu o governo. Mão Santa aliou-se ao PT, elegeu-se senador e ajudou a eleger o petista Wellington Dias governador, contra Napoleão.

Punir o eleitor

É só aparecer um novo escândalo e a turma já se assanha. A cada delito dos políticos, volta a ideia de punir o eleitor. A crise do GDF estimula a ressurreição da "lista fechada", o sistema em que o cidadão vota no partido e é este quem define quem serão os parlamentares.

Os advogados da superioridade do voto indireto para vereador e deputado precisariam provar que há menos escândalos onde vige esse sistema. Mas eles não se darão ao trabalho. Até porque seria impossível.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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13 Comentários:

Anonymous Paulo Drummond disse...

A oposição é uma esculhambação. Ainda que venha a ser situação no futuro próximo, continuará esculhambada.

Não gosto desse governo, principalmente do estilo "baixo nível", e de muitas figuras do primeiro escalão. Alguns, se caírem de quatro não levantarão jamais. São pessoas a quem jamais me dirigiria pra comprar um carro usado.

Mas "tiro o meu chapéu" para a costura feita no saco de gatos que é a base de apoio. O conteúdo é deplorável na maioria, mas a linha usada na costura é de muito boa qualidade.

A oposição é outro balaio de igual jaez, mas todos se engalfinhando num saco frouxo, com remendos podres vazando pelo pra todo lado. Nem o conteúdo nem o contenedor prestam.

Em ambos os casos salvam-se pouquíssimos. Mesmo assim, caso a situação perca em 2010 e venha a ser minoritária no congresso, será um daqueles casos só explicáveis em Pindorama.

abraço

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009 00:37:00 BRST  
Anonymous Terêncio Mirândola disse...

Patrimonialismo chama-se isso.
Enquanto a população não for às ruas, como dizia pela manhã Pedro Simon, coisa que todos sabemos desde 14.07.1789, pouca coisa mudará. Vê-se, no máximo, certa eficiência policial.
"Aux armes, Citoyens,
Formez vos bataillons,
Marchons, Marchons... ...".

Mon Dieu, qui pouvons-nous suggérer! qui puis-je faire?
Aidez-nous, Alon, aidez-nous avec ton expérience et sagesse politique!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009 02:14:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Por mais difícil que pareça e realmente o é, não dá para generalizar e descrer em tudo e em todos a cada escândalo. Mas dá para descrer, a cada tramóia desvendada: de surradas sugestões de mudanças miraculosas no sistema político-eleitoral e de convocações salvacionistas e moralizadoras dos costumes. Contudo, há uma surrada certeza: a bola, mais uma vez, está com o estorvo, ou seja, o cidadão contribuinte e eleitor. Surrupiado mais uma vez, o estorvo que terá de arrumar um jeito de por ordem na casa. Até lá terá de proteger coração, mente e principalmente, manter atentos os olhos e ouvidos.

Swamoro Songhay

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009 09:03:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pelo menos a mídia é a consciência da nação e seu norte cidadão.Graças a ela , as edições de hoje nos esclarecem sobre a fonte inspiradora do escandaloso desvio: o recorrente presidente Lula.
Por um breve momento,levou-nos os fatos distorcidos e manipulados a crer nas aleivosias imputadas aos guardiães da ética.Os pretorianos da república,
Rodrigo Maia,Agripino Idem o opulento Heráclito Fortes,simbolo biotípico do estado que representa,mais uma vez manifestaram-se pela integral e imparcial apuração dos fatos.Não lhes escapou sequer cortar a propria carne,apoiando o indiciamento de César Maia,ex-prefeito do Rio de Janeiro,por suspeita de desvio de verbas.
Meuas botões indagam incessantemente:quem ou quais serão os próximos?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009 10:29:00 BRST  
Blogger Elton disse...

Eu realmente não sei se tem alguma relação entre o voto em lista fechada e a corrupção. Mas o voto em lista fechada tem a vantagem de deixar claro para o eleitor que ele está votando no partido (que é o que já ocorre hoje, o voto neste ou naquele candidato apenas serve para ordenar a lista). O eleitor ficaria consciênte de que o voto em um esquerdista do PMDB acaba elegendo um direitista. De antemão ele sabe quem serão os eleitos. O partidões inchadões que não passam de legendas eleitoreiras perderiam com isso, os partidos coesos, de posições claras, ganhariam.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009 14:18:00 BRST  
Blogger Guilherme Scalzilli disse...

Capivara gigante

Os veículos de comunicação ganharam uma ótima oportunidade para provar aos céticos que as acusações de golpismo eram exageradas. Basta dedicar à oposição a mesma virulência investigativa (e amiúde caluniosa) que reservou aos petistas nos idos de 2005.
O noticiário oferece três “mensalões” muito promissores, cheios de novidades inexploradas, que compartilham entre si, no mínimo, as tendências políticas de seus protagonistas: o de Eduardo Azeredo (PSDB), o da Camargo Corrêa e o do governador José Roberto Arruda.
Somando todos os esqueletos, constrói-se um enorme ossário com as cúpulas do PSDB e do DEM (PFL), uns pedaços de peemedebistas e tutano dos governos FHC para salgar o caldo. Se os escandólatras da imprensa democrática usarem seu espírito investigativo para expor os Freuds Godoys do momento, operam a grande revolução moralizante que tanto defenderam em seus editoriais inflamados.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009 15:13:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Eu defendo a lista fechada opcional, que agrada gregos e troianos.

Explico: O partido é obrigado a apresentar ao eleitor sua lista pré-ordenada. As regras de propaganda devem ressaltar a lista (não sei ainda como fazer isso).

Isso mostra com transparência qual é o perfil de bancada que o partido oferece ao eleitor.

A idéia de que o voto é nominal hoje em dia é só parcialmente verdadeira, porque não temos controle sobre para quem vai nosso voto.

Se nosso candidato é eleito acima do coeficiente eleitoral, um pedaço do nosso voto vai para outro aleatoriamente.

Se nosso candidato fica na suplência, 100% do nosso voto vai para eleger outro candidato aleatório.

(No passado, já votei em campeões de votos honestos e meu voto ajudou a eleger picaretas menos votados. Já votei em gente que não se elegeu, mas com meu voto elegeu outro em quem não votaria na coligação, mais bem votado).

Voltando à lista opcional:

O eleitor pode votar na legenda (na lista) ou no candidato.

Cada partido elege o número de parlamentares com as regras atuais (proporcional ao somatório do número de votos tanto na legenda como nominais).

Depois de computar quantas vagas o partido ganhou, vem o cálculo de quem foram os eleitos:

- Cada voto nominal conta N pontos para o candidato.

N = total votos nominais de todos candidatos do partido / total votos legenda no partido

- Cada voto na legenda conta 1 ponto para cada um do candidatos da lista.

- Em caso de empate no número de pontos (ex: 2 candidatos que só tenham votos na legenda), vale a ordenação da lista.

Totalizados os pontos de cada candidato segundo as regras ponderadas, são eleitos os com mais pontos.

Ainda corremos o risco de votar em um e eleger outro, mas a lista mostrando o "conjunto da obra" nos dá direção do risco que nosso voto corre de ir para onde.

Um bom candidato, numa lista de más companhias, não me sensibilizaria.

Eu preferiria votar num candidato que não fosse o meu ideal, mas em uma lista melhor, para onde o meu voto poderia ir para outro sem medo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009 16:25:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, acredito que o DEM erra ao querer punir sumariamente a governador Arruda. Por que se faz necessário sacrificar “no altar da opinião pública”, para usar seus termos? O eleitor vota a cada quatro anos e entre uma eleição e outra assumem a corte e seu circo, mas a corte não tira nem coloca ninguém, dado o prazo médio da justiça em casos como esse. Sem um apoio mais amplo, a corte não é capaz de conduzir um processo de impeachment no legislativo, como já fez antes. Então basta “se lixar”. Não são os políticos que estão em dívida com o eleitor, mas as instituições, especialmente o aparelho jurídico policial: o “core business” do Estado. O que dizer de uma polícia que se deixa instrumentalizar por interesses partidários? Ou de um judiciário que se recusa a decidir, como até o STF recentemente? Eleitor não é juiz, nem policial, não é sua competência. Mas as instituições são lideradas administrativamente pelas cortes. O CNJ, por exemplo, disse que investigará a participação de desembargadores na distribuição de propinas, bom, não ocorreu investigar também a participação na armação da arapuca ao governador? O melhor é que todo esse aué não implicará em efetiva apuração do que quer que seja, todo o ímpeto se esgota no efeito político... e, como no caso do “mensalão” ou do “esquema Collor”, ficaremos sem saber de fato o que se passou. A quem beneficia essa dinâmica se não a outros “esquemas” e “mensalões”, que parecem ser bem mais numerosos do que supúnhamos? Claro que haverá efeito eleitoral sobre o DEM, mas esse não será muito menor com a expulsão de Arruda, além disso, trata-se de excelente administrador, o melhor que conheci desde que cheguei a Brasília, não apenas por tocar obras importantes de infra-estrutura urbana, mas por buscar dar efetividade ao serviço do GDF, pondo os policiais na rua, por exemplo, o que não havia por aqui. De resto, o povão faz bem em reconduzir aqueles que as cortes jogam no limbo, mas não alcançam, ou não querem, condenar. Ando pensando no bordão que quando conheci era atribuído às campanhas de Ademar de Barros: “rouba mas faz”. Não é difícil entender a diferença de fazer quando o aparato público sofre de inércia crônica como o nosso. As coisas tomando o rumo que sugiro neste comentário o governador pode contar com o meu voto para a reeleição... bem, se for candidato né? Porque o inquérito policial partidário foi planejado para estourar a tempo de impedir o governador trocar de partido.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009 18:47:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Eu sou suspeito pois sou anti-DEM

Mas também acredito que o melhor para o DEM é:

Plano A: Convencer Arruda a licenciar do governo, e mante-lo no partido com alguma sanção. Em 2010 ele candidata a Deputado Federal e mantem foro privilegiado. Assume o vice que tenta a reeleição (também envolvido no escândalo mas ainda não apareceu nas gravações). Obviamente tem que combinar com o próprio Arruda. E tem que recompor a maioria na Assembléia com PSDB e PPS.

Plano B: engole o sapo, mantem Arruda no Governo e no Partido com alguma sanção, e os "com voto" do DEM "ético" esperneiam como se fosse voto vencido, dizendo que só não saem do partido agora porque a legislação não permite.

Pelo perfil do DEM, tem mais a perder se ficar sem o governo do DF e toda a máquina que ajudará a eleger bancadas federais e distritais em 2010, com alguma chance de eleger o vice, do que se ficar só com a "honra" de expulsar e ficar sem o governo.

É a verdade desagradável, mas é a realpolitik.

Os indignados que pensem em uma reforma eleitoral (nem digo política) viável pra já, sem ambições de voto em lista, nem voto distrital, mas pelo menos na rígida regulamentação do financiamento dos partidos e das campanhas, inclusive passando muitas despesas operacionais como propaganda, compras de material, para serem licitadas pela justiça eleitoral, e não contratada diretamente pelos partidos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009 22:00:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Realpolitik, mesmo, é defenestrar.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 10:08:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Vale a pena insistir: volúpia reformista no calor dos fatos em nada resolverá. Coisas bem mais prosaicas teriam o condão de, ao menos, apaziguar certas atitudes: expulsão no plano político e cadeia no plano criminal. Pena que o tempo vai se esquecendo de certas coisas.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 10:21:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Swamoro Songhay

Como você quer cadeia, sem reformar as leis, onde crimes eleitorais como compra de voto, caixa-2, fraudes, etc não dá cadeia de acordo com a lei?

Sem reformas nas leis, o crime grande compensa, pois leva ao poder e à fortuna, suficiente para pagar bons advogados que recorrem indefinidamente até extinção do processo.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 16:18:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pois bem, Duarte. Então o melhor é esperar passar o calor da refrega, pensar e com a cabeça fria, colocar cadeia como pena para tais. Expulsão já é prevista em dispositivos estatutários de partidos. Contudo, já há quem esteja falando em convocação de uma Constituinte para elaborar a legislação política e eleitoral. No calor das emoções trazidas por tantas peças de roupas recheadas, lograr-se-ia desacreditar o instituto da Constituinte. Se nem dispositivos estatutários de partidos são aplicados, convocar uma Constituinte para quê? Para tentar resolver o que os estatutos partidários poderiam resolver de forma rápida e depois a legislação criminal e cível? Tal proposta reveste-se de contrasenso e vontade de não fazer-se absolutamente nada.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 19:57:00 BRST  

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