terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Rumo ao plebiscito (08/12)

As oposições acreditam que podem levar o troféu e derrotar o PT mesmo com Lula nas alturas. Parece uma opção arriscada. Ou talvez o PSDB e o Democratas não tenham outra

Escrevi semana passada que as dificuldades das oposições abrem a possibilidade de Dilma Rousseff ocupar uma fatia do potencial discurso oposicionista, apresentando-se como diferente do padrinho político dela, em certa medida. Ou na medida certa.

Numa coincidência feliz (para o colunista), naquele mesmo dia a ministra-chefe da Casa Civil fez um movimento inédito, marcou a diferença entre a posição dela e a de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Honduras. Ontem reforçou a estratégia, lembrando que ser o nome da continuidade não significa que um eventual governo Dilma será igual.

A candidata também deu suas cotoveladas, ainda que de leve, em quem insinua a tentação de aumentar os juros. Outra ampla avenida oposicionista à disposição dela. Registre-se que o maior combatente dos juros altos no governo Lula vem sendo o vice, José Alencar. Conte isso a alguém de fora e ele vai dizer que não somos um país normal. Talvez não sejamos mesmo.

Como o PSDB e o Democratas desistiram de fazer oposição programática, o movimento de Dilma é executado sem dar a sensação de recuo, sem perda de substância política, sem transmitir impressão de fraqueza. Tudo se dá naturalmente, como os sons saídos de uma orquestra bem afinada, comandada pelo maestro da República, Lula. A um sinal dele, o violino começa a executar o solo, enquanto a plateia assiste, embasbacada.

Ontem, mais uma pesquisa, desta vez do Ibope, mostrou Lula nas alturas. Mostrou também que as políticas de governo não vão tão bem quanto o presidente. O que vai prevalecer no final? A liderança de Lula? A necessidade de mudanças administrativas, novas ações na saúde, na educação, na segurança? Ou a satisfação com a economia vai se sobrepor, trazendo a prudência para o primeiro plano? “Melhor não mexer, já que está funcionando tão bem.”

A mesma pesquisa apontou oscilações dos pré-candidatos dentro da margem de erro. Outro dia, conversei com um político experiente das oposições, que fez uma observação curiosa sobre pesquisas a tanto tempo da eleição. “Todo mundo sabe que elas vão mudar no futuro, quando começar a propaganda, mas os políticos não têm outro instrumento objetivo para tomar decisões no presente”, disse.

Como os números reagirão ao início, para valer, da campanha? Como estará o eleitor na época em que efetivamente passar a se preocupar com o assunto? Pelo menos um dado parece certo. Lula vai atravessar 2010 fortíssimo, a não ser que haja uma surpresa. A hipótese no governismo é que na hora “h” o eleitor dará um voto de confiança ao presidente. A hipótese nas oposições é que o povo gosta de Lula, não de Dilma, nem do PT.

Daí as oposições acreditarem que podem levar o troféu e derrotar o PT mesmo com Lula nas alturas. Parece uma opção arriscada. Ou talvez o PSDB e o Democratas não tenham outra, e estejam a dourar a pílula. Mais provável é que alguma hora as oposições precisem enfrentar o presidente, nem que num segundo turno. Ainda que este aconteça já no primeiro. Como se diz no petismo, e com razão, será difícil os adversários escaparem do plebiscito.

No plural

Antigamente as pessoas não se referiam à esquerda brasileira, mas às “esquerdas”, dada a fragmentação surgida nos anos 60 do século passado. Isso foi antes de Luiz Inácio ter se transformado em Lula I, o rei sol. O critério parece bom. Por isso, a partir de hoje deixo de tratar a oposição como uma coisa só. Serão “as oposições”, até segunda ordem.

Lula tem razão

O ministro da Educação já viveu dias melhores. Seu nome andou frequentando listas de potenciais candidatos a todos os cargos mais ambicionados da República, sem que se soubesse exatamente por quê. Mas as confusões com o Enem e o Enade inverteram a tendência. O presidente da República tem mesmo razão: quando a dura realidade bate à porta, adianta pouco a doce simpatia dos “formadores de opinião”.

Oportunidade única

O Brasil estará em peso na Conferência do Clima, em Copenhague. É uma oportunidade única para os políticos, que poderão aparecer e tomar solenemente decisões de longo prazo. Tão longo que nenhum deles estará mais aqui quando vierem as consequências. Faturarão agora e deixarão a conta para os sucessores. Que político desperdiçaria uma ocasião assim? Nenhum em pleno gozo das faculdades mentais.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Blogger sidney borges disse...

Em 1930 Getúlio tomou o poder. Vamos brincar de faz-de-conta e imaginar que a ascenção se deu em clima democrático, através de eleições. Vamos ainda supor que a democracia permitia reeleição. Em 1934 getúlio seria reeleito, mas em 1938 teria de entregar a caneta. O Brasil não viveria o "Estado Novo" e Getúlio não se transformaria no "Pai dos Pobres". Esse é o drama vivido por Lula hoje. Em 2011 ele será carta fora do baralho. Tanto faz Dilma ou Serra, a economia continuará atrelada ao mundo globalizado e o dono da caneta será incensado à condição de semi-Deus. Democracia é isso, só há avanços com alternância no poder. Para tristeza de muitos que carregam na alma a saudade eterna de D. Sebastião...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009 09:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Talvez eu já tenha comentado aqui no seu blog sobre a coincidência de as pesquisas realizadas em março de 2009 terem sido feitas depois da divulgação do PIB do quarto trimestre de 2008 e de todo ano de 2008.
Ficou faltando pesquisas antes da divulgação do PIB para comparar com as pesquisas feitas após a divulgação do PIB. Era importante esta comparação porque toda a variação dos índices de popularidade teria que ser creditada a repercussão que à mídia deu à queda do PIB.
Quando o PIB foi divulgado, na segunda semana de março de 2009, o país já iniciava um ciclo de recuperação econômica. A crise para a população acontecera no quarto trimestre de 2008. Assim a queda da popularidade não deveu-se a queda do PIB, mas a divulgação da queda dele pelo IBGE e a repercussão na mídia.
A repercussão pesou mais porque foi o maior momento anti-Lula na imprensa. Se você comparar seus próprios textos no momento anterior a divulgação vai perceber que você também se deixou levar pela cantilena.
E a cantilena era prejudicial ao Brasil, pois levou os empresários que já percebiam leve melhora na economia a desmobilizar-se de intenções de investimento. Problema tão grave que se você reler os textos de Delfim Netto no período posterior à divulgação de PIB observará que ele alerta os donos da mídia sobre os riscos que eles estariam correndo ao descrever com tintas pretas a situação econômica. E parece que Delfim Netto foi ouvido, pois quando da divulgação do PIB do primeiro trimestre de 2009, embora os dados ainda fossem de queda se bem que mera queda estatística, a mídia foi mais condescendente com o governo.
Senti, entretanto, que não se tenham feito pesquisas antes da divulgação do PIB. Elas mediriam o quanto a mídia influencia na popularidade de um governo.
E se constataria que não é pouco.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 08/12/2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009 10:52:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Você diz que a pesquisa mostrou também que as políticas de governo não vão tão bem quanto o presidente (necessidade de mudanças administrativas, novas ações na saúde, na educação, na segurança).

Até nisso o governo tem supremacia sobre a oposição.

1) A maior preocupação, segundo a pesquisa é com segurança. Serra não tem um bom retrospecto na área para usá-lo como plataforma eleitoral. Aécio jura que as estatísticas lhe são favoráveis, não sei se representa o pensamento dos pesquisados de MG.
Mas ninguém tem resultados melhores para mostrar como tem a Polícia Federal no combate à grande criminalidade.

2) Educação: o governo Federal tem a rede de escolas técnicas federais, a expansão universitário (prouni, reuni e novas universidades), o piso nacional do professor, o FUNDEB.

3) Saúde: está longe de um grande salto de qualidade, mas a oposição carrega o ônus de ter retirado R$ 40 bilhões por ano do orçamento (poderia ser aplicado mais R$ 120 bilhões entre 2008 e 2010), pois os acordos para prorrogação da CPMF era de sua aplicação integral na saúde. Mesmo assim o governo tem o que mostrar: o programa SAMU funciona, a rede de UPAS começa mostrar a que veio e desafogar as emergências dos hospitais, os laboratórios estatais estão fazendo política industrial na fabricação de remédios.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009 12:39:00 BRST  
Anonymous marcelo augusto disse...

Olá!

Alon Feuerwerker dá destaque a tudo no texto, menos ao principal: José Serra aumentou sua vantagem para os demais adversários.

Seria muito interessante ver qual seria a reação do Alon caso a pesquisa fosse favorável à candidata petista. Sei não, mas acho que o texto não teria esse tom que teve.

Até!

Marcelo

terça-feira, 8 de dezembro de 2009 19:56:00 BRST  
Blogger Franco Vieira disse...

Alon, plebiscito sobre o que? "Quem é mais gente fina: Lula ou FHC?" ? Fica difícil pautar uma eleição nisso. A população tem a impressão (acertada) de que Lula não mudou tanta coisa assim. Então, vence quem levantar melhor a bandeira da "mudança pra melhor, sem rupturas". A chance da oposição é associar Dilma ao velho e Serra ao novo. O que, surpreendentemente, parece estar colando. Afirmações como essa, do Caetano, capturam esse sentimento:

"E todos os entendidos me dizem que os banqueiros estão com medo é de Serra: adoram Lula."

Enfim, a tal eleição técnica, pautada na seriedade das propostas, parece estar distante. A impressão que tenho é que tanto governo quanto oposição estão se sabotando ao apostar na cara de trouxa do eleitor.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009 17:57:00 BRST  
Blogger Nicolau disse...

"[A pesquisa] mostrou também que as políticas de governo não vão tão bem quanto o presidente." Ora, mas o governo tem mais de 70% de aprovação. Menos que os 80% pessoais do presidente, mas ainda bastante respeitáveis.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009 21:37:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Haja marqueteiro para conseguir associar Dilma ao velho e Serra ao novo.
Serra é político desde que eu era criancinha.
Dilma tem muito mais a cara de renovação, até mesmo dentro dos quadros do PT. Por mais que não gostem dela.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009 12:48:00 BRST  

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