terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Os limites da tecnologia (16/12)

É verdade que hoje qualquer um pode distribuir o que produz, desde que tenha acesso à rede. Mas para atingir massa crítica de receptores continua necessário o dinheiro

A evolução explosiva e a disseminação das tecnologias digitais criaram a infraestrutura para o salto democrático definitivo na comunicação. O fenômeno espalha-se como pandemia, e finalmente é possível quebrar a unidirecionalidade. O receptor de informação tem agora condições muito melhores para fazer também o papel de emissor. E as consequências da revolução atingem a todos, dos veículos profissionais às empresas não jornalísticas, das pessoas às instituições — estatais ou não.

Uso aqui a palavra “revolução” com uma elasticidade excessiva, porque a tecnologia é só uma das variáveis. Na abertura da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que acontece em Brasília, o presidente da República pintou um quadro talvez algo fantasioso sobre o novo grau de liberdade dos indivíduos e da sociedade diante de quem possa pretender controlar o fluxo das notícias e das ideias.

O que mudou? E o que não mudou? Caiu radicalmente o custo de distribuir informação, também chamada de “conteúdo”. Antes, os empreendimentos eram intensivos em capital. Um jornal, por exemplo, precisa de forte investimento em papel, gráfica e transporte. Já os custos de produção não mudaram muito. Ao contrário, a produtividade do trabalho deu um salto: com as ferramentas disponíveis, cada hora trabalhada cria bem mais valor do que no passado.

Algo que continua indispensável é capital para atrair audiência. Hoje qualquer um pode distribuir o que produz, desde que acesse a rede. Mas para atingir massa crítica de receptores é necessário dinheiro. Muito dinheiro. O desafio persiste, apenas mudou de departamento. Antes, o capital era fundamental também na produção e distribuição; hoje, é insubstituível na divulgação. Ainda mais diante da abundante oferta de conteúdos, uma concorrência feroz.

Todas as empresas de sucesso na rede, em algum momento, conseguiram capitalizar-se, criaram caixas robustos para pesados investimentos em marketing. Com a promessa de retorno lá na frente, pois audiência é sinônimo de receita.
Como o cidadão comum, cheio de boas ideias e de visões alternativas da realidade, vai competir nessa esfera?

Outro detalhe. Verdade que sempre haverá alguém capaz de escrever melhor do que o jornalista sobre determinado assunto. Mas é impossível para o médico, o dentista, o comerciário ou o professor largarem suas atividades no meio da tarde para cobrir uma sessão da Câmara dos Deputados, ou uma passeata na Esplanada dos Ministérios. Eis por que o jornalismo profissional vai bem, obrigado. Só que ele não vive de brisa.

A internet mudou a vida de quem trabalha com informação. A mudança fundamental: quando o consumidor não gosta, a pancada vem na hora, o sujeito não precisa ficar pendurado no telefone ou esperando na fila da seção de cartas. O que é ótimo. Está mais difícil a vida de quem não suporta a crítica e se vê acima do bem e do mal. Mas daí a achar que os papéis se inverteram tem uma distância grande.

Basta ver o que vai pelos blogs, pelo Twitter e por outras redes: quando o objeto é a notícia, ou a análise, a maioria se limita a comentar, atacar, elogiar, distorcer, criticar, endossar o que é criado profissionalmente por alguém. Conteúdo original e produzido ininterruptamente não é a regra. Uma expressão muito usada nos debates sobre o novo mundo é a capacidade da internet “empoderar” o indivíduo, ou a organização social não hegemônica. A tecnologia sozinha não tem esse dom.

A democratização da comunicação depende de os múltiplos novos atores encontrarem meios de financiamento. Talvez seja um tema para esta Confecom. Ou para uma próxima.

Dois anos perdidos

Falei aqui outro dia que 2009 foi um ano perdido na economia. Para a indústria, serão dois. O nível de emprego pré-crise só volta em dezembro do ano que vem. Ontem, saiu o acumulado da Fiesp até novembro. Na comparação com novembro de 2008, queda de 6,29%, uma perda de 150 mil vagas só em São Paulo.

Viúva Porcina

Acabou a CPI da Petrobras, aquela que foi sem nunca ter sido.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de amanhã co Correio Braziliense.

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3 Comentários:

Anonymous Duarte disse...

Sem dúvida que o jornalismo profissional continuará imprescindível, mas antevejo uma mudança no perfil dos profissionais mais valorizados.

Em baixa os que falam muito e ouvem pouco.

Em alta os que ouvem muito e falam pouco.

Resumindo: repórteres daquele tipo de agência de notícias que relatam os fatos nús e crus serão cada vez mais imprescindíveis. Eles dão a matéria prima para toda a cadeia produtiva da informação noticiosa.

Em alta também as assessorias de imprensa que divulgam informações oficiais (públicas e privadas). Cada vez mais é possível colher e conferir informação na fonte, sem precisar do filtro editorial de jornal, rádio ou revista.

Até porque uma notícia que não é relevante para o editor, é relevante para nichos de público.

Também em alta quem fiscaliza as informações oficiais para desmentí-las, se for o caso.

Os colunistas continuarão existindo, até porque alguém tem que perder tempo esquentando a cabeça para analisar os fatos, cruzar informações, analisar causas e efeitos, mas perderão status quo, e tenderão a ocupar segmentos especializados, porque há muita gente disposta a remixar notícias voluntariamente, a partir da matéria prima das agências de notícias e assessorias de imprensa.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009 14:33:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Eu me pergunto e não acho resposta.
Existe um frenesi sobre o PIG. Milhares de Blogs detonando qq veículo grande.
Digamos que fechemos todo PIG. Quem, na nova midia, o blogosfera fará a parte do jornalismo investigativo? quem trará a nós fitas mostrando Governador x recebendo propina. Conteúdo só é produzido a partir de algum fato. Se os fatos não existe, que conteúdo será produzido.

Nunca vejo nenhum destes ferrenhos opositores do PIG lançarem algo novo. Só batem no fato ja consumado pelo PIG

Abraço

Twitter = Suwinha

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009 16:24:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Se a indústria tiver participação decrescente no PIB brasileiro com ganho do setor de serviços é sinal de que estamos vagarosamente caminhando na direção do primeiro mundo. Vamos torcer para que depois que o Brasil conseguir relançar-se mais fortemente no crescimento econômico os incentivos a setores altamente poluidores como o automobilísticos possam ser eliminados e os seotes assim passam a ser mais tributados.
E ai talvez nós venhamos a ficar satisfeito com mais anos que nos seus cálculos o Brasil venha a perder.
De todo modo, é preciso analisar com mais cuidado os dados de emprego na indústria. Quantos trabalhadores na indústria tínhamos em setembro de 2008 o mês de pico e quando voltaremos a alcançar esse pico é a pergunta certa a ser feita. É preciso saber se foi a essa que a FIESP respondeu?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/12/2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009 22:53:00 BRST  

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