sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Oposição burila discurso de Dilma (04/12)

Com suas reações tíbias e desencontradas na crise, o Democratas e o PSDB ajudam Dilma Rousseff a, finalmente, encontrar uma janela para deixar de ser só a “candidata de Lula”

Qual é a situação ideal para um político? É a que transforma seus defeitos em qualidades e potencializa ainda mais os vetores positivos do personagem. É bom para o candidato quando ele se encaixa naturalmente na cena. Bom para ele e seus marqueteiros. O marketing eleitoral, como qualquer outro, só aparentemente vende produtos. Ele vende desejos. E o leitor há de convir que é bem mais fácil ganhar a vida vendendo picolé nas praias do Caribe do que nas do Alasca.

A crise desencadeada a partir das acusações contra o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), ainda está em desenvolvimento, mas alguns efeitos dela já são claros. Agudizou-se uma demanda crônica e difusa por providências saneadoras na administração pública. A análise apressada do quadro faria concluir que o assunto não será importante numa eleição marcada, como se dizia na Guerra Fria, pelo “equilíbrio do terror”: se cada um tem os seus próprios problemas, melhor deixar quieto.

Estaria perfeito, não fosse por um detalhe: quem raciocina assim esquece que existe o eleitor. A violência semiótica desta crise fará o dito cujo deixar para lá, mais ainda, a busca do “partido puro”, formado pelas “pessoas melhores do que as outras”. Esse mito foi mortalmente ferido na crise petista de 2005-06 e será enterrado sem honras daqui até a eleição presidencial, com o féretro coberto pela bandeira brasiliense, ladeada pela gaúcha e pela paraibana.

A exposição brutal dos costumes políticos cria uma demanda. Não pelo partido “portador da verdade”, coisa que o eleitor já concluiu não existir, mas pelo líder firme, até certo ponto autoritário, que seja capaz de enfrentar o sistema. Sem porralouquice, mas com método e obcecada tenacidade. Alguém que domine os políticos e não se deixe dominar por eles. Alguém que saiba “onde estão as sacanagens”. Que seja vivo o suficiente para não ser derrubado. Mas que não vacile na hora de mandar gente para a guilhotina.

A política é mesmo fascinante. E não é que a crise começa a abrir espaço para um certo “anti-Lula”? Desde que, é claro, preservem-se as melhores qualidades do presidente, como a preocupação genuína com os pobres. Mas desde que também se superem as circunstâncias nas quais o “filho do Brasil” (o verdadeiro, não o da ficção babosa) se enredou, a ponto de perder a sensibilidade, que era sua melhor característica. Ninguém passa incólume pelo poder.

Tudo isso seria espetacular para a oposição, debruçada sobre a tarefa hercúlea de achar uma brecha no discurso da continuidade. Qual é o problema então? Infelizmente para o PSDB e o Democratas, quem por enquanto melhor se encaixa no figurino é a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Verdade que ela própria precisa percorrer a curva de aprendizado, vide sua intervenção tosca quando precisou dar a cara a tapa por José Sarney.

Não será difícil para Dilma, porém, construir a narrativa de que precisa fazer concessões agora, mas que no governo, com a caneta na mão, vai ser finalmente ela mesma. Assim como Luiz Inácio Lula da Silva é ele mesmo, um conciliador. Interessante. Qual é talvez o grande desafio da ministra nesta eleição? Fazer crer que não vai ser só um fantoche de Lula, que não irá governar, nem comer, pela mão dos outros. Mas não basta dizer. É preciso construir a verossimilhança. E isso só é possível quando o perfil do candidato se encaixa naturalmente no cenário. É o caso agora.

O governo do PT reclama da oposição, mas ele tem, de longe, a melhor oposição que um governo poderia desejar. Com suas reações tíbias e desencontradas na crise cujo epicentro é o DF, o Democratas e o PSDB ajudam Dilma Rousseff a, finalmente, encontrar uma janela para deixar de ser só a “candidata de Lula” e se mostrar ao país como a mulher antipática, dura com os políticos e empresários, irascível e sem jogo de cintura, a presidente de que o Brasil tanto precisa.

E com a vantagem de não ser uma petista “de raiz”, de ser uma cristã nova no PT. Ou seja, tudo de bom

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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11 Comentários:

Anonymous Paulo Drummond disse...

Pois é, caro Alon, mas será que a ministra alcança essa ajuda que você dá aí? A mudança necessária pra deixar de ser 'candidata do Lula' é muito grande e não creio que tenha sinapses suficientes para desacoplar da nave-mãe e alçar voo próprio. Arrogância e prepotência são combustiveis para "dragsters" não para viagens de longo curso.

Pior: também não creio que a oposição descacetada como a atual fique melhor na foto que está hoje. O esforço necessário será grande e a estrutura de palitos é pessimamente colada, feia e apoiada num plano inclinado. Tem tudo pra dar errado.

Enfim, é o que temos.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009 01:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Posso comentar?

P Pereira

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009 01:38:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Boa análise, Alon. Só faltou você usar a expressão "dama-de-ferro", como já usou um relatório do departamento de Estado dos EUA quando durante o primeiro mandato de Lula.

Só não concordo com adjetivações como "antipática, e irascível".
Não vamos votar para miss simpatia, e outros políticos como Itamar Franco, também não despertavam grande empatia pessoal, mas saiu com alta popularidade da presidência.
Já houve políticos até rabujentos como Jânio Quadros, que venceram o simpático FHC na prefeitura de São Paulo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009 01:38:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, aqui você analisa mais com o coração que com a cabeça e reincide no erro de querer encontrar um homem providencial... o “líder firme, até certo ponto autoritário, que seja capaz de enfrentar o sistema. (...) Alguém que domine os políticos e não se deixe dominar por eles. Alguém que saiba ‘onde estão as sacanagens’”. Algo assim como um messias, que talvez reconheçamos fitando olho no olho... no caso um messias de saias (cruz credo). Que tal alguém que exija que se cumpram as regras (leis e regulamentos) e busque, democraticamente, melhorar algumas? Não sou jurista, mas creio que no caso de a polícia deter informações tão fortes contra um governante deve de alguma forma acionar o judiciário que, com celeridade (ok, é quase acreditar em papai Noel) e serenidade, intervirá. As acusações são graves, as imagens são fortes, mas o que um delegado não pode fazer é jogar a “lama” no ventilador... trata-se de uma questão de disciplina funcional, mais grave que o próprio “mensalão”, até porque o tal delegado provavelmente não agiu pelo simples gosto de ver o circo pegar fogo, mas a serviço de uma liderança política adversária, por convicção ou por “convencimento”, né não? Quem está por traz do mensalão do DEM? O ex-governador Joaquim Roriz? Não é engraçado que apesar de o denunciante ter começado sua "carreira" na administração daquele Senhor, traga apenas revelações sobre o atual governo? E que agora “novas” revelações recaiam sobre prováveis desafetos do ex-governador no PMDB? Com menos força é claro, porque desvio de recursos é o de menos, o pecado mesmo, o que causa frisson na “galera”, é ver o dinheiro entrando na cueca. Então, porque a política entrou em ritmo de big brother, a reação do PSDB e do DEM é tíbia? Desculpe, o DEM evitou num primeiro momento, mas vai expulsar o governador da casa rapidinho. A reação do PSDB e do PPS não foi bem tíbia, o termo correto seria pusilânime: abandonaram o governo, o governador claro, mas também a população do Distrito Federal, cuja administração parece estar um caos. Saudades do PFL (atual DEM), que no período difícil do impeachment de Collor não abandonou o barco, e permitiu que o rito democrático se cumprisse. Mas PSDB e PPS são os partidinhos de devoção de nossas zelites, ou opinião pública. Partidinhos que, a propósito, procuram sair na foto inclinados para a esquerda. Sempre recordo que o PPS é o antigo PCB e que este, segundo os trotskistas “porra-loucas” da minha época de estudante, era o último pilar do capitalismo... é por aí, apenas que não se trata de capitalismo, a “mutreta” é outra.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009 07:00:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Com todo o respeito, mas, "com a caneta na mão", será mostrado apenas o que foi, está e será escancarado: mero continuísmo. Algo duvidoso e aquém do esperado por grande parcela da população que teve melhorias em sua situação social e de renda. Quem melhora exige mais. A não ser, então, que não tenha ocorrido melhoria alguma. Que o progresso tenha sido apenas obter das pessoas a aceitação de um salvador, depois esperar por outro salvador que esquentará a cadeira para outro salvador. Dinâmica do atraso. Se isso é o que se pretendia colar no candidato situacionista já está feito.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009 09:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

"E com a vantagem de não ser uma petista “de raiz”, de ser uma cristã nova no PT"

Não ser do PT tira votos. O PT é o partido melhor avaliado pelos brasileiros.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009 09:58:00 BRST  
Anonymous Daniel disse...

Alon, queria te fazer uma pergunta: tendo em vista essa demanda por saneamento e o novo mandato de roriz que se vê surgir no horizonte, não seria o momento mais que oportuno do senador cristovam se lançar candidato a governador ? Faz sentido ?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009 15:35:00 BRST  
Blogger  disse...

Primeira vez que leio o seu blog, estou impressionada com a lucidez da sua análise. parabéns! É isso que a nova geração espera do jornalismo...imparcialidade, reflexão e inteligencia.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009 17:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Nossa...

Essa torcida toda era para ser análise?

Haja contorcionismo para ver Dilma em vantagem na corrida eleitoral!

sábado, 5 de dezembro de 2009 05:27:00 BRST  
Anonymous Jorge disse...

a Dilma parece mesmo ser bem menos compreensiva com a lógica política do que o Lula.
Precisamos de uma reforma política urgente.

sábado, 5 de dezembro de 2009 15:10:00 BRST  
Anonymous Danilo disse...

Primeira vez que acesso seu blog e tenho que dizer que ele realmente é muito bom. Análise clara, racional, lúcida e inteligente. Acho que a Marina Silva se encaixaria bem também nesse figurino que você descreveu. Evidente que para ela falta uma máquina partidária e uma boa exposição como têm os expoentes petistas e pessedebistas. |Talvez essa análise minha seja mais torcida do que totalmente embasada, mas se ela conseguir criar algum fato político que aumente a exposição dela, será que ela não tem chances de ocupar esse espaço?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009 02:47:00 BRST  

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