quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A oportunidade do Democratas (03/12)

Apesar das imensas dificuldades atuais, o Democratas tem um ativo nos seus jovens. Resta saber se terá capacidade de fazê-lo render

O Democratas é como um bicho de duas cabeças: carrega a cara antiga do PFL e também uma cara nova, de jovens que pouco ou nada têm a ver com a história do partido. Isso porque o DEM fez, à brasileira, uma transição conservadora: encampou o liberalismo, mudou as figuras, o nome e os símbolos, mas preservou em boa medida a estrutura de poder.

É ela que está em xeque nesta crise. Basta observar, por exemplo, a movimentação na internet, onde o ambiente entre os jovens do Democratas é de quase rebelião contra a cúpula partidária por não ter expulsado sumariamente o governador José Roberto Arruda. O “quase” fica por conta da esperança generalizada de uma punição na semana que vem.

Pode parecer paradoxal, mas é um sintoma de vitalidade em meio à desgraça. O que mais se vê hoje em dia são juventudes partidárias pró-forma, amarradas por burocratas, incapazes de inspirar algum tipo de renovação política. O ambiente entre os jovens nos partidos brasileiros parece de ordem unida, o que nunca é bom.

Não é bom porque o novo nem sempre é facilmente perceptível. A força da inércia costuma ser avassaladora, até que um pedacinho da represa se desprende e a edificação aparentemente sólida vai abaixo. Leva vantagem quem possui sistemas de detecção mais sensíveis. E a juventude costuma ter mais aptidão para a tarefa.

A verdade é que o sistema político brasileiro se aproxima do esgotamento. O que pode estimular inclusive péssimas ideias. Uma já tratada aqui muitas vezes é implantar a ditadura definitiva dos partidos e diminuir ainda mais a participação da sociedade. É a tal “lista fechada”, acompanhada do financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais.

O caminho é outro: aumentar a intervenção dos cidadãos, seu protagonismo. Ou alguém apostaria que o modelo brasileiro ficará melhor se meia dúzia de caciques partidários tiverem o monopólio da decisão sobre quem vai ocupar o Parlamento? Ou se o partido do governo tiver sempre mais dinheiro do que a oposição para fazer campanha?

De volta ao Democratas. A legenda costuma ser alvo preferencial dos críticos, por ter nascido de uma costela dos grupos que deram sustentação aos governos militares. Também por isso é digno de nota que venha daí uma exibição de vitalidade interna, pelo menos potencial.

Exercício útil na análise política é prever de onde surgirá a próxima onda. Está na cara que a sociedade deseja algum tipo de renovação. Com continuidade, dada a satisfação na economia, se esta persistir. Para esse debate, o Democratas, apesar das imensas dificuldades atuais, tem um ativo nos seus jovens. Resta saber se terá capacidade de fazê-lo render.

Talvez o partido devesse dar algum poder real à turma. Aliás, até o presidente da República, que não nasceu ontem, ontem mesmo já deu uma ajustada no discurso.

Mais guerra

Barack Obama anunciou terça-feira sua nova estratégia para o Afeganistão. Em resumo, serão mais 30 mil homens e mulheres enviados para lá. A missão é estabilizar a dominação, reverter os avanços do Talibã, isolar as alas mais radicais da guerrilha, enfraquecer a Al Qaeda na fronteira paquistanesa e permitir o fortalecimento dos governos pró-americanos em ambos os países. E só então executar plenamente a estratégia de saída.

Tem chance de dar certo? O senso comum diz que o Afeganistão está na bica de ser o Vietnã deste início de século para os americanos, mas há algum exagero no paralelismo.

A história daquele conflito foi um pouco mais complexa do que conta a lenda. Nos combates contra os americanos, os vietnamitas estavam decisivamente aliados à outra superpotência de então, a União Soviética. Uma aliança militar e política. E havia a mobilização mundial contra a intervenção americana na Indochina. Hoje não há nenhum dos dois ingredientes.

Outra ideia comum garante que o Afeganistão é inconquistável, vide a recente tentativa russa. A comparação padece do mesmo mal: não leva em conta o sistema de alianças. A guerrilha islâmica não derrotou sozinha os russos. Recebeu apoio decisivo de americanos, sauditas e paquistaneses. Que hoje estão unidos contra o Talibã.

Mas prognósticos são sempre um risco, e vamos acompanhar para ver no que a coisa dá.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFeuerwerker

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

12 Comentários:

Anonymous Rivaldo Machado disse...

Eu também acompanho esses jovens democratas no twitter e tenho a mesma impressão. São os mais preparados e que discutem com mais conteúdo. Espero que tenham coragem para ultrapassar o mar de lama.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 02:03:00 BRST  
Blogger Rafael Kafka disse...

Sou filiado ao Democratas, jovem, conservador, dentro da tradição anglo-saxônica burkeana que permitiu ao Chile ter o melhor IDH da AL, faço parte do grupo de 400 militantes do partido no Twitter, com uns cem mil seguidores somados, e vi, diversas vezes, várias delas iniciando, debates até duros com a cúpula não só em questões éticas mas em relação a concessões ideológicas da cúpula ao centro político que enfurecem a base jovem do partido, fortemente baseada em uma convicção intelectual conservadora que os antigos nem sempre possuíam.

Se a cúpula não mudar, mudaremos nós, nem que fundemos o CONSERVADORES e deixemos a cúpula sem base alguma.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 02:08:00 BRST  
Anonymous Lucas Jerzy Portela disse...

eu gostaria de saber como um partido de jovens, base joven, e jovem ele mesmo, porém radicalmente à direita liberal, poderia se sustentar eleitoralmente num país cujas úlceras da escravidão negra ainda estão por serem debridadas?

ou o PFL Jovem não entendeu o que aconteceu na Bahia, sua jóia da coroa, em 2006? Afinal, objetivamente a derrota de 2006 não foi imposta a ACM, ditador e declaradamente escravista - mais ao jovem, moderno, e liberal-estatista Paulo Souto. Cujo governo era excelente e de alto reconhecimento popular.

Mas que não conseguiu se reeleger. Curiosamente, no estado em que as chagas da escravatura estão mais expostas...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 09:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Ao que se observa, o desbridamento de posições mais liberais no espectro político e formadas por jovens está ocorrendo. Contudo, as atenções a elas aparecem com mais ênfase em meio a crises políticas fortes. Foi assim no mensalão e parece estar ocorrendo o mesmo agora. Na bancada do DEM na Câmara Federal, observa-se tal tendência cada vez mais forte. O argumento de que o desafio do partido é saber o que fazer com isso procede. Ainda mais agora, quando se tem a oportunidade de escantear uma parte.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 10:51:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, sempre atribuí o prestígio do voto personalista, olho no olho entre candidato e eleitor, a uma característica cultural nossa. Hoje percebo que há uma funcionalidade para com a dominação das cortes, ou zelites, ou opinião pública. Basta ver as dificuldades que enfrenta a cúpula do DEM. A inserção desse partido é peculiar, ele possui muito mais voto que prestígio na corte e, como essa é quem manda no dia a dia, o DEM gasta muita energia para agradá-la ou pelo menos não confrontá-la, daí a rapidez com que parte da “burocracia do partido”, cujo poder você insiste em superestimar, apressa-se em querer cortar na carne, sacarificar-se no altar da opinião pública. A palavra do relator do processo no DEM, o ex-deputado José Tomaz Nonô é reveladora, não se aterá às evidências, fará um parecer político! A palavra mágica que designa nossa sujeição aos caprichos de uma zelite de parasitas. Fosse o voto em listas fechadas, e estivesse a sorte da “burocracia” partidária mais ligada ao sucesso nas eleições que ao circo das cortes, ou seja, ao eleitor, e tudo poderia ser conduzido sem açodamento e com segurança, com maiores possibilidades de levar ao aperfeiçoamento de nossos “costumes” políticos. A vitória da democracia pode ser entendida como a subordinação das zelites ao conjunto da sociedade civil, aqui como em qualquer outro lugar, né não? A propósito, a vitalidade em si mesma não é uma virtude política, tem muita vitalidade na depredação da câmara legislativa do GDF pela juventude dos partidos que freqüentam o cercadinho, foi interessante perceber que os porta-vozes de nossas zelites, sempre ciosos com a integridade do patrimônio público em horário nobre da TV, não fizeram qualquer censura á depredação do prédio da assembléia realizada pelos filinhos das zelites. A juventude do DEM, menos que trazer vitalidade ao partido, é mais uma tentativa patética de agradar as cortes, que sempre louvaram o “poder jovem” – uma forma de justificar a própria irresponsabilidade –, como já apontava Nelson Rodriguez, em antigas e memoráveis crônicas...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 10:58:00 BRST  
Anonymous Catatau disse...

Creio que exista um problema doutrinário aí, de coerência partidária. Você pressupõe então que existe uma espécie de "DEM originário", que ele sempre teve sua natureza pervertida, e que agora sua juventude requer seguir seu programa para além da corrupção?

Ou você pressupõe então que a mudança de nome do partido foi também uma mudança doutrinária e prática, mas garantida sustentada pura e simplesmente na mudança de nome?

É estranho teu argumento. É claro que há uma juventude ávida por boas coisas, e isso não é exclusivo do PFL. Agora, será que essa avidez está sendo bem colocada? Em jogo temos muitas coisas: coerência partidária, "fisiologismo ético" (foi Arruda quem comentou esse tipo de coisa!), enfim, idéias básicas que fazem existir um PARTIDO por definição, e ao mesmo tempo dinâmicas cotidianas que impedem a existência de qualquer partido...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 11:42:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Uma dica para o Alon:

Aproveite as facilidade imensas da internet e leia um pouco do que se publica e se comenta na juventude do PFL.

Eu fico com a opinião do Ricardo Boechat feita no Bandnews:

"O DEM, partido já em decadência, pode acabar nas eleições de 2010"

http://www.band.com.br/jornalismo/colunista.asp?ID=82

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 13:23:00 BRST  
Blogger Rafael Kafka disse...

Argentina aprovou ontem prévias obrigatórias, com todos os cidadãos participando, para escolha das listas partidárias.

O DEMOCRATAS tem profundo orgulho das contribuições do Senador ACM, criador do Fundo de Combate à Pobreza, do Bahia Azul que elevou o esgotamento sanitário a mais de 90% em Salvador, maior líder político da história baiana e, sem dúvida alguma, ídolo da juventude DEMOCRATA que cresceu vendo o legado de ACM em um estado que de mísero produtor de cacau tornou-se o sonho de boa parte do país mesmo com a oposição raivosa que ACM sempre enfrentou e derrotou.

Se a Bahia hoje é um mito, a terra da felicidade, deve-se praticamente tudo a ACM que lutou, até rompendo com o juracysismo, para termos o Pólo de Camaçari, para, 2 décadas após, termos a Ford, para sermos um potência agro-industrial e turística.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 16:03:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Desse episódio que saia uma lição para aprimorar os costumes políticos, no Brasil.

Todo partido é composto por seres humanos. E tem pessoas boas e outras nem tanto.

O problema para o DEM é que, no passado, a turma do mata-e-esfola, criou jurisdição na cabeça de seus próprios eleitores, de associar qualquer coisa de membros do PT ao partido como um todo. Agora, como pau que bate em chico, bate em francisco, custará caro ao DEM e levará tempo desintoxicar os ânimos de seu próprio eleitor.

O PT, que muita vezes no passado também foi incendiário no mata-e-esfola, está escaldado, está com um discurso moderado, para não desacreditar as instituições políticas como uma conquista democrática.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 16:08:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

E que não se caia no canto da sereia de convocar uma Constituinte para a reforma politica e eleitoral.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 20:02:00 BRST  
Blogger Manel disse...

E enquanto issu a lei que proibe os ficha suja de se candidatar cai sobre os pes da sociedade, escorada na imoralidade parlamentar.Enquanto houver politicos bandidos nada salvara o país.Que a nova cara do DEM venha com a vontade e a capacidade que tanto necessitamos para que seja possivel iniciar uma melhora politica no país que a anos ja deveria estar em andamento, mas que nao sai do papel: a honestidade.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 20:04:00 BRST  
Anonymous Lucas Jerzy Portela disse...

Rafael Kafka,

1) ACM é Juracy redivivo;

2) O Polo de Camaçari foi Luis Viana Filho, atraves de Romulo Almeida. Nao tente reescrever a historia, por gentileza...

ambos, anti-carlistas e anti-juracyzistas. Nenhum dos dois "de esqueda" ou ligados ao PTB. Tanto que Viana governou eleito em 67: isto é, nao foi deposto pelo Golpe Militar. Um dos poucos governadores a nao se-lo, alias.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009 08:58:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home