quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O limite da "intransigência" (30/12)

Uma boa política externa não é nem submissa nem inutilmente desafiante. Ela precisa ser feita na medida e oferecer argumentos para quem se dispõe a defendê-la

Vai animada a “briga de torcidas” em Teerã, com manifestações de rua, violência repressiva e mortos em profusão. A expressão foi lapidada por Luiz Inácio Lula da Silva meses atrás, quando correu a reconhecer a legitimidade do reeleito Mahmoud Ahmadinejad. A posição brasileira rendeu a Lula um reforço na relação com o presidente do Irã. Rendeu também ao Brasil um canal privilegiado com a atual liderança persa.

Foi bom ou ruim, certo ou errado? Já escrevi que essas coisas não se julgam a priori. Se a facção que comanda o Irã conseguir ficar em cima da sela, e se chegar a um bom acordo com as potências que pressionam por garantias reais sobre o caráter pacífico do programa nuclear, Lula será visto como visionário. Mesmo que um eventual recuo iraniano venha a resultar das pressões internacionais, o Brasil poderá dizer que na hora certa teve a coragem de abrir um caminho de diálogo. E será do jogo.

Mas se o desfecho for outro, se houver troca de guarda em Teerã, se a desconfiança planetária caminhar para sanções e se, no limite, o quadro evoluir para uma solução “iraquiana”, Lula e o Brasil terão restado com o pincel na mão. E a nossa influência ter-se-á reduzido a zero, fruto de uma aposta errada. Também será do jogo.

Política externa é isto, em boa medida: um olho no interesse nacional e outro nos cavalos, para adivinhar o que vai chegar na frente. Na Bolívia, a estratégia brasileira é um sucesso. Apostamos lá atrás na capacidade de Evo Morales conseguir a maioria política e manter o país unido. E tivemos a sábia flexibilidade tática para compreender os arroubos do presidente boliviano quando ele precisou nos confrontar para ganhar legitimidade interna.

Nos casos iraniano e boliviano, o Brasil leva ainda a vantagem de poder argumentar com o respeito à soberania das nações, à autodeterminação. A não ingerência é um princípio tradicional da nossa diplomacia. É sempre bom ter um discurso com começo, meio e fim para dar sustentação ao interesse puro e simples.

A ferramenta tem sido útil também na abordagem da guerra civil colombiana. Houve alguns resmungos quando a Colômbia fechou o recente acordo militar com os Estados Unidos, mas nossa posição logo evoluiu para caracterizar a coisa como assunto bilateral entre Bogotá e Washington. Mesmo que nos afete —e nos afeta, por causa da Amazônia— não haveria por que passar recibo. Hugo Chávez passou, e assinou em baixo de sua própria derrota.

Mas não chegaremos incólumes ao fim de 2009. Até a sorte de Lula tem limites. Fizemos a aposta errada em Honduras, colocamos todas as fichas na volta de Manuel Zelaya à cadeira e demos com os burros n’água. O resultado ali até o momento é a nossa neutralização e a expansão da influência americana, com a óbvia repercussão regional.

O reboquismo é sempre um caminho arriscado. Se é razoável que saibamos distinguir em cada situação entre os nossos interesses e os do ocupante da Casa Branca, também será adequado que não nos transformemos num avalista cego dos movimentos vindos de Caracas. Não há por quê. O Estado brasileiro deve sim estar a serviço da expansão dos negócios brasileiros, mas não pode se confundir com eles. Até para defendê-los em determinadas e embaraçosas ocasiões.

Uma boa política externa não é nem submissa nem inutilmente desafiante. Ela precisa ser feita na medida e oferecer argumentos para quem se dispõe a defendê-la. No caso de Honduras, restou-nos a “intransigência democrática” como rota de fuga verbal. Intransigência por sua vez engavetada na abordagem da crise iraniana, onde, a julgar pela passividade brasileira, acreditamos que o governo tem o direito de fuzilar nas ruas manifestantes desarmados. Em nome da não ingerência.

Crítica e aplauso

Barack Obama vai por um caminho diferente do seguido por Lula. Confronta o establishment econômico e avança na reforma do sistema de saúde. Fala menos e faz mais. Mas bater de frente com interesses tem um custo, e sua popularidade não anda uma brastemp.

Entre nós há uma torcida, à esquerda e à direita, para que Obama naufrague. A motivação dos conservadores é óbvia. Já a dos progressistas é menos. Talvez imaginassem que ele, eleito, organizaria a retirada estratégica dos interesses americanos no mundo. Imaginaram errado. Daí a frustração.

Mas se Lula merece aplausos por perseguir a ampliação da força do Brasil lá fora, por que Obama deveria ser criticado quando busca a mesma coisa, só que para os Estados Unidos?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta-feira (30/12) no Correio Braziliense.

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12 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Apoiar Zelaya,longe de ser erro estratégico ou escolha errada,mostrou, e isso o lúmpem não entrevê,foi decisão política .
Diplomacia,regularmente, não produz frutos visiveis nem mesmo imediatos.Exceção à Bolívia,conforme reconhece o articulista. Lula ,não por acaso, recebe em nome do Brasil,homenagens sucessivas de importantes latitudes políticas,pelo que produziu internamente,modificando a vida que se pensava imutável,de grande parte da população,e pelos previsíveis resultados de sua política externa.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009 10:25:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Quanto ao Irã, não vejo riscos. Se der certo, consagra, como você diz. Se não der certo, o presidente (e o Itamaraty) pode dizer que tentou fazer sua parte, abrindo canais de diálogo e buscando distender as tensões no Irã e em todo o Oriente Médio. Clinton, Bush e Obama negociaram com a Coréia do Norte, com o Paquistão, e outros. Não consta que a negociação, ainda que não tenha dado certo, foi considerada errada. O Brasil se sai bem do ponto de vista formal, apenas não ganha influência no país, como acontece hoje no Iraque. O Brasil não apoiou a guerra atual ao Iraque, e está distanciado da economia e influência sobre o Iraque, mas essa situação já é assim desde a guerra Irã-Iraque na década de 80. Não perdeu nada, porque não tinha nada a perder.

Mas eu pergunto do que adianta alinhar-se automaticamente os EUA? Carlos Menen mandou tropas argentinas na primeira incursão ao Iraque, em 1993. No início desta década a Argentina estava quebrada, e não me consta que tenha ganho contratos de blocos de exploração de petróleo no Iraque, nem que empreiteiras Argentinas tenham ganho contratos de reconstrução.

No caso de Honduras, não fizemos a aposta errado. Fizemos a coisa certa. Não apoiamos golpes de Estado na América Latina, ainda que com verniz judicializado (como aconteceu no Brasil em 31/03/1964). Se os EUA resolveram apoiar, que usufrua do bônus (ficará com o que já tinha), mas que fique com o ônus do desgaste também. E ficou.

Daqui há menos de um mês o novo governo de Honduras assume o posto. Não negociamos com o atual governo, que se mantém no cargo devido ao suporte das Forças Armadas. Negociaremos com o próximo, buscando restabelecer a normalidade, sem incentivar aventuras golpístas.

Barack Obama na política interna faz o que fez Lula no Brasil: negocia com o Congresso, e faz concessões para ver projetos andarem. O sistema de saúde virou plano de saúde privado, popular, e compulsório. É diferente da proposta original, por concessão ao Congresso. Quem olha um copo d'água cheio até a metade, como meio vazio, pode atribuir uma meia derrota à Obama.

Na política externa ele tem o direito de perseguir a ampliação da força do EUA no exterior. Porém, o Brasil não tem um contencioso intervencionista como tem os EUA. O Brasil busca influência através da política diplomática e integração. Os EUA vão além, e recorrem ao poder bélico (como bases na Colômbia) e econômico, com pressões por abertura comercial, ou alinhamento em troca de promessas de ajuda. Repete a situação: fica com o bônus quando neutraliza o Brasil e segue adiante em manter sua águia tomando conta de repúblicas latino-americanas, mas fica com o ônus de retomar velhas práticas imperialistas, retardando ou impedindo o caminho do desenvolvimento que os governos nacionalistas (pejorativamente chamados de bolivarianos) trilham.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009 13:07:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Irã e Honduras me parecem bolas fora da política externa brasileira: quanto ao primeiro, fechou os olhos, no segundo meteu-se excessivamente onde não fora chamado.
Só não enxergam aqueles cujo senso crítico está um tanto embotado pelo apoio a priori e irrestrito a tudo que o governo faz.
Ponto para a militância e desserviço à lisura intelectual.

Ceci

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009 14:20:00 BRST  
Blogger Roberto Baginski disse...

Prezado Anônimo,

apoiar Zelaya ou, mais precisamente, apoiar o reestabelecimento de um regime democrático em Honduras, não foi um erro. Condicionar qualquer relação com o próximo governo de Honduras à volta de Zelaya ao governo é um erro pois nos priva de alternativas.

Gostando ou não, Zelaya se tornou um pato manco. Suas chances de voltar ao governo são nulas. Gostando ou não, Honduras promoveu umas eleições e vai empossar um novo governo algum dia. O Itamaraty deveria ter aproveitado a oportunidade e sinalizado que vai normalizar as relações com Honduras na posse do novo governo na esperança de fortalecer a democracia hondurenha etc. etc. etc. Em troca, o novo governo anistiaria todo mundo e bola prá frente! Não é a solução ideal mas é a possível: o ótimo é inimigo do bom.

Você percebe que o erro é que o Itamaraty optou por ficar sem alternativas? Nós podemos dizer que o governo eleito é ilegítimo pois as eleições foram realizadas durante um golpe. OK. E o governo que vier depois deste? Ilegítimo pois as eleições foram realizadas durante a vigência de um governo ilegítimo? Para sempre? Nunca mais vamos normalizar nossas relações com Honduras?

Aplique o raciocínio ao Brasil e descobrimos que o governo Lula é ilegítimo pois é o resultado de uma série de eleições que começaram durante a vigência de um golpe dado em 1964. Pior ainda, na última destas eleições, quem assumiu a presidência foi o vice sem que o presidente eleito tivesse sido empossado. Faz sentido? É claro que não.

Saudações,
Roberto Baginski

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009 15:17:00 BRST  
Anonymous geraldo magela ramalho disse...

Baginski, a sua análise me fez lembrar da posição do PT no colégio eleitoral que, em 1984, elegeu Tancredo Neves. A posição do PT em relação à eleição de Porfírio Lobo é semelhante àquela de 1984,quando o PT se recusou a comparecer ao colégio eleitoral e expulsou os deputados do partido que votaram em Tancredo:José Eudes, Aírton Soares, Bete Mendes, etc.A atitude do PT em relação ao que aconteceu em Honduras mostra que o PT continua sendo o partido autoritário que sempre foi, desde sua fundação, e só não é mais autoritário por que as instituições brasileiras não o permitem.Como diz o ditado: O lobo perde o pelo, mas não perde o viço.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009 20:52:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Permita-me, Duarte. O termo bolivariano não é pejorativo, pois, a Venezuela hoje chama-se, oficialmente, República Bolivariana da Venezuela.Da mesma forma que a Bolívia, hoje, chama-se Estado Plurinacional da Bolívia. O que há de pejorativo?

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009 11:42:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Ao que consta, "a águia tomando conta de repúblicas sul-americanas", é uma imagem dos anos 50/60. A velha e surrada onda de atribuir sempre um inimigo externo ou interno, fantasmagórico, terrível, sempre conspirando contra as vitórias do povo. Coisa avoenga. Até não apoiar golpes, OK. A maior vitória do povo brasileiro em diplomacia, foi o princípio de não imiscuir-se na vida interna de outros povos. Contudo, a diplomacia, no caso de Honduras, escolheu um lado, descredenciou-se como mediadora, fez carrancas, fez discursos virulentos, recebeu "sem saber" o Zelaya, continuou com carrancas e virulentos discursos. Depois, instou os EUA. Se peitar o imperialismo é isso, ganhará um chapelão branco quem acredita.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009 11:57:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A julgar pelo plano de comprar 36 caças, fica claro que não será à águia do império que pretende-se mostrar músculos. Para defender riquezas, por exemplo, a cerca de 300 km da costa, com 36 caças contra belonaves que, cada uma, podem levar mais de cem caças de última geração, é conversa de quem gosta de bazófia. Equipar-se é uma coisa. Mas vender a idéia de desafiar militarmente é outra bem diferente. Aliás, haverá alguma potência que tenha a mínima pretensão de ocupar e assenhorear-se, militarmente, de riquezas brasileiras? Se podem ter acesso muito mais fácil por meio de diplomacia e comércio, por que iriam investir tempo, recurso e vidas para ter de forma difícil o que podem obter de forma pacífica?

Swamoro Songhay

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009 12:17:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Anônimo

Me expressei mal. O termo bolivariano não é pejorativo, a imprensa conservadora no Brasil é que o usa de forma pejorativa.

Errata: Carlos Menen mandou tropas argentinas na primeira incursão ao Iraque, em 1991 (e não 1993).

Swamoro

O internvencionismo estadunidense não se limita aos anos 50/60. A recente instalação de bases na Colômbia, ainda que consentida pelo governo Uribe, é um ato político intervencionista na região.

Recentemente o embaixador dos EUA na Bolívia foi expulso por participar de articulações separatistas, acusado de apoiar a balcanização do país, assim como apoiaram o fatiamento da Iugoslávia nos Balcãs.

Em 1992, na tentativa de golpe de estado contra Hugo Chavez, por Carmona, os EUA apoiaram explicitamente os golpistas.

Nos anos 80 financiaram os contra na Nicarágua (exército de mercenários), tentando derrubar o governo Sandinista.

Em 1989, 27 mil soldados ocuparam o Panamá para prender o presidente panamenho, Manuel Noriega, antigo ditador aliado do governo estadunidense.

Em 1989 tropas estadunidenses desembarcam e invadem as Ilhas Virgens (no Carbe) durante revolta do povo do país contra o governo pró-americano.

Em 1986 o Exército estadunidense desembarcou no território boliviano na justificativa de auxiliar tropas bolivianas em incursões nas áreas de cocaína.

Em 1983 e 1989 Tropas americanas foram enviadas para construir bases em regiões próximas à fronteira e invadiram o território de Honduras.

Em 1983/1984 - Ilha de Granada: Após um bloqueio econômico de quatro anos a CIA coordena esforços que resultam no assassinato do 1º Ministro Maurice Bishop. Seguindo a política de intervenção externa de Ronald Reagan, os EUA invadiram a ilha caribenha de Granada alegando prestar proteção a 600 estudantes americanos que estavam no país. As tropas eliminaram a influência de Cuba e da União Soviética sobre a política da ilha.

Há ainda intervenções nos bastidores políticos, como o economista John Perkins contou no livro “Confessions of an Economic Hit Man”: ele foi durante três décadas um hit man (um sabotador na tradução mais aproximada para o português), profissional recrutado pelo governo norte-americano para “comprar” governos e lideranças de países em desenvolvimento, principal estratégia dos EUA para garantir sua hegemonia.

sábado, 2 de janeiro de 2010 00:28:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Errata de novo: Escrevi como sendo 1992 a tentativa de golpe de estado contra Hugo Chavez. Foi em 2002.

sábado, 2 de janeiro de 2010 11:11:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pois bem. Permanecem os fantasmas que podem servir muito bem para assustar e influir na agenda interna. Os tempos são outros e deveriam ocorrer outros tipos de apelos que não os do insuflamento do medo. É um erro enxergar a população brasileira assim, tão sujeita a manipulações. Parece que existem mais de 190 milhões de incapazes necessitados de tutela política. Isso é um atraso.

Swamoro Songhay

sábado, 2 de janeiro de 2010 11:11:00 BRST  
Blogger Leonardo Bernardes disse...

Alon, desculpa chegar atrasado, mas agora fiquei com uma dúvida: apostar errado é apostar no lado perdedor?

Parece uma posição eticamente condenável. Acho que o Brasil apostou certo no caso de Honduras, embora tenha perdido a batalha. Condenar um golpe é sempre o certo a fazer, embora as circunstâncias tenham caminhado para endossá-lo, ainda que de maneira mais amena.

Em que sentido então Honduras foi uma aposta errada? No sentido prático de contar vitória no domínio internacional? Ainda sim eu acho que há derrotas que podem bem ser mobilizadas como vitórias, se bem manobradas.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010 13:39:00 BRST  

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