quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A moda e a candidata (17/12)

A ex-ministra do Meio Ambiente leva uma vantagem importante sobre os corredores que hoje lideram: enquanto Dilma e Serra (ou Aécio) precisarão cada um fazer a própria campanha, a de Marina é feita pelos outros

A aritmética dos estrategistas no governismo calcula, com razão, que Ciro Gomes fora do páreo presidencial conduz a uma grande chance de a eleição ser decidida no primeiro turno. Nas contas deles, a ministra Dilma Rousseff capturaria três em cada quatro eleitores que hoje estão satisfeitos com o governo Luiz Inácio Lula da Silva. Chegaríamos assim aos cerca de 60% que Lula fez em 2002 e quatro anos depois. Ou um pouco menos, mas suficiente para estourar champanhe já na primeira rodada.

Na oposição também se avalia que a coisa pode mesmo ser resolvida de cara, mas a favor do candidato do PSDB. Que partiria do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste com uma margem impossível de reverter no Norte e no Nordeste. A oposição não é tão otimista quanto o governo, tampouco afunda no pessimismo. Para ela, Lula e Dilma falam sozinhos, e quando o candidato tucano alçar voo a coisa vai mudar. Como a estratégia do PT está mais do que anunciada, tempo de preparação é que não terá faltado, em meados do ano que vem, para o desafiante do PSDB entrar bem no debate.

Mas há uma variável que preocupa os dois lados hoje favoritos, e cuja dimensão ninguém consegue ainda medir precisamente: Marina Silva. A senadora vai tocando sua pré-campanha em quase silêncio. De vez em quando aparecem notícias sobre conversas com o PSol. E agora na Conferência do Clima, como era previsível, a ex-ministra do Meio Ambiente ganha mais um bom espaço na imprensa. E só. A aparente debilidade da postulação chega a suscitar especulações, palacianas e tucanas, de que o volume dos recursos necessários na campanha presidencial levará Marina a desistir.

Considerando a biografia dela, talvez não se trate de uma boa aposta. Até porque Marina leva uma vantagem importante sobre os corredores que hoje lideram: enquanto Dilma e Serra (ou Aécio) precisarão cada um fazer a sua própria campanha, a de Marina é feita pelos outros. Sei que é uma impossibilidade, mas e se algum especialista de agência de propaganda calculasse na ponta do lápis o tanto de mídia, espontânea ou não, obtida pela pauta ambiental nos últimos meses? O tanto que se falou em aquecimento global. O sentido de urgência urgentíssima atribuído à missão de, aqui e agora, salvar o planeta.

No Brasil, falou em meio ambiente, pensou em Marina Silva. Até porque o sucessor dela no ministério, Carlos Minc, tem sido politicamente suprimido. Não há alguém no governo que dispute a simbologia. Nem na oposição. O governador de São Paulo, José Serra, vem trabalhando para ocupar a área, como se viu em Copenhague. E Dilma deu um jeito de pegar o assunto a unha. Mas ambos entraram bem depois na corrida, e quem chega antes bebe água limpa, diz o ditado.

Quantos votos terá Marina num eventual primeiro turno? Ela não precisa de muitos, basta a quantidade suficiente para provocar o segundo e virar o fiel da balança, arrancando compromissos vitais para a agenda verde. Mas eleição não é raio em céu azul. Ela costuma ser preparada bem antes, nos discursos, nos programas, na ênfase dada aos assuntos, nos alinhamentos — ainda que potenciais.

Daí que Serra esteja a fazer a corte de Marina desde já, enquanto Dilma busca cortejar os eleitores da senadora. Pelo andar da carruagem, o tucano confia mais em sua capacidade de atrair a ex-ministra, enquanto Dilma, dado o histórico de disputas áridas entre ambas, sai em desvantagem. Outro detalhe fundamental para Serra: numa eleição em que os adversários trabalharão para rotulá-lo de “conservador”, não há hoje vacina melhor do que a identificação com a agenda verde, transformada universalmente em sinônimo de “progressismo”.

Desarranjo institucional

A Constituição de 1988 é boa e tem lastreado o mais longo período de estabilidade democrática na República. Mas a crise no Distrito Federal expôs um aspecto complicado da nossa institucionalidade: não parece haver mecanismos de correção quando um poder que deveria punir os desmandos de outro está ele próprio atingido pela mesma doença.

A Câmara Legislativa está metida no rolo, e impotente para julgar politicamente os atos do governador. É um caso típico de desarranjo institucional grave. Sem que se veja uma luz no fim do túnel.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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14 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Prezado, na pesquisa CNT Sensus, quando o Ciro sai da estimulada, seus votos vão para Serra, na maioria.
Com essas chuvas e impostos, parece piada acreditar que algum tucano acredite nessa conversa de reverter votos do nordeste com os do sul. No RS, p.e., Dilma desponta e Yeda será uma âncora do tamanho de um Arruda.
Durante a Cop 15 realmente 1/2 ambiente está em alta, mas e o tempo de tv, as alianças estaduais, o gabeira?
Samba de uma nota só, o Cristovam já cantou e não deu.


Considerando que o PT tem 30% dos votos do país, que Dilma ainda é desconhecida no norte e nordeste, principalmente entre a baixa renda....

venhamos e convenhamos.....

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009 11:25:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Seria uma pena caso a candidatura da Senadora Marina Silva não tivesse o condão de trazer temas novos ao debate político. Como por exemplo, o detalhamento de sua tese sobre a transversabilidade e matriz energética limpa. Ao que parece, tais teses foram derrotadas no âmbito do governo do qual participou. E em Kopenhagen, ao menos a julgar pelo é divulgado, nada disso foi levantado pela delegação brasileira. Na campanha, aspecto interessante será tentar observar em que grau o perfil burocrático da posição governista sobre o ambiente e mudanças climáticas, será permeável à agenda verde. Ou como o eleitor perceberá tal agenda como fator de decisão ao escolher candidaturas.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009 11:39:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Retificando no comentário anterior: "sua tese sobre a transversalidade". Da mesma forma que a política externa, a agenda ambiental parece não frequentar, como fator de decisão, as avaliações do eleitor. Contudo, como o tema está em foco, será divertido assistir ao malabarismo para consumo. Caso, porém, alguém ouse perguntar sobre se o planeta está em aquecimento ou em resfriamento, será problemático. Ou será pior ainda se errarem na escolha do ramo de planta para enfeitar os santinhos. Existem plantas em baixa, notadamente uma contra olho gordo.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009 18:02:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Marina silva tem de pensar em um bom nome para ser o vice de sua candidatura. Estáticamente é excelente,impecável irretocável. Mas será que aguenta o repuxo? Ser ministra num governo que tem Lula como presidente, tem suas vantagens. Ser presidente,formar alianças, iludir-se com a viabilidade de purismos partidários,enxergar o mundo com óculos verdes , verão ambientalista dos óculos panglossianos,pode exacerbar-lhe as enfermidades contraidas no primitivismo das matas acreanas e da infãncia difícil.Vejo-a como líder espiritual de uma causa,pelo que transmite e representa.Certamente como muito mais conteúdo do que a legião de farsantes que vagam pelo planeta.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009 18:43:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

A Marina é excelente candidata, para admirar e aplaudir, mas não para receber o voto presidencial, para a maioria da população.
A agenda ambiental atrai mais votos consolidados nos segmentos ricos, em quem consome excedentes.
Quem tem 3 ar-condicionados em casa e compra um modelo split com selo procel A, está com vida ganha, pensa a sério em votar em Marina Silva.
Quem só tem dinheiro para o ventilador de teto ou circulador de ar, achará Marina uma ótima pessoa e candidata, mas na hora de votar votará em Dilma (por ser candidata de Lula), pois transmite mais segurança econômica (segurança no emprego e na renda) e de bem estar social.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 00:31:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Dilma age bem em cortejar o eleitorado de Marina. Cortejar a candidata no primeiro turno aumenta os votos de Marina. No segundo turno os votos de Marina serão naturais para Dilma, independente de acordos partidários de cúpula. Basta lembrar que Marina era petista até ontem, e continua mantendo boas relações com o PT do Acre, que não foi para o partido verde.

Serra também age certo, no cálculo político, cortejando Marina justamente para tentar deslocar votos de Dilma para Marina no primeiro turno, além procurar encaixar empatia com a agenda ambiental.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 00:44:00 BRST  
Anonymous Too Loose Lautrec disse...

A essa altura do campeonato, os números tomados de pesquisas com amostragens bastante restritas, servem aos cálculos que considerem largas margens de erro. Valem mais como indicadores de tendências. Contudo, para meros fins especulativos formam interessante base estatística.

Consideradas as médias das pesquisas recentes, inclusas as taxas de rejeição, verifica-se expressiva sobreposição dentre os que aprovam Lula e os que rejeitam sua candidata (na ordem de 20 a 25%). Estatisticamente, porém, o mesmo não se daria quanto aos que aprovam o Governo.

Assim, empiricamente, parece que a sorte da candidata Dilma estararia menos ligada às variações positivas da aprovação a Lula do que às relacionadas ao Governo. Hoje, para levar no primeiro turno, seriam necessários 85% desses eleitores. De fato, 4 em cada 4.

É óbvio que diminuição nos índices atuais significaria risco, assim como a elevação da taxa de rejeição.

Cerca de 30% da meta já teria sido alcançada, no entanto em momento de interesse relativo por parte da população e através de campanha quase que solitária.

De qualquer forma, é evidente, pois, tratar-se de oportunidade ótima em favor do Governo, mas não seria, contudo, tarefa pequena ou fácil. Em especial por não ser sua candidata voltada a se apresentar dissociada de Lula e das ações governamentais. Talvez resida nesse ponto a fragilidade mais expressivo à estratégia do tudo ou nada.

Em eventual Segundo Turno a candidatura situacionista seria reiventada ou os números não seriam diferentes do Primeiro.

Para a Oposição, a menos que alcançasse descolar candidata do Governo e assim provocar sua queda, ou estaria apontada a opção obrigatória da busca da redução dos índices pró-governo e a seguir os do Presidente.

Ou seja, para vencer, tirante os erros dos adversários, estaria, hoje, o Governo obrigado a manter/aumentar sua aprovação, e a Oposição condenada a exercer o que vem se negando sistematicamente a ser: oposição.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 10:13:00 BRST  
Anonymous Gualter disse...

Aécio mexeu-se. Aguentou o que pôde.
Mas o tabuleiro mudou.
Ciro subirá?
Nervos a flor da pele até próximas pesquisas.
Serra diz que não é(ra) nervoso. Lula ainda não disse se Dilma é ou não (nervosa).

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 11:45:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Tem coisas que poderão não fazer parte da análise dos eleitores, porém, são aspectos interessantes. No programa do PT o mote era "concordo com o Senhor" e "o Senhor indicou o caminho". Contudo, o fato de em Kopenhagen, a posição brasileira sobre o fundo ambiental era um taxativo "não vamos pagar essa conta", antes da chegada do Presidente. Depois, com a sua chegada, discursou afirmando que o Brasil poderá sim participar com recursos do fundo ambiental. O mesmo havia ocorrido com o apagão, quando ministros deram o caso por encerrado e o Presidente cobrou publicamente por esclarecimentos.
Denota talvez algum voluntarismo ou descoordenação, contudo, também pode ser visto como uma desautorização.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 15:13:00 BRST  
Blogger CrápulaMor disse...

Cristovam de saias.

A bandeira da educação exerce apelo fantástico entre os eleitores da classe média alta, potenciais eleitores de candidatos como Marina (sem estrutura, sem dinheiro, sem palanques estaduais, sem tempo de TV - que dependem do voto de opinião). O tema meio ambiente está mais 'agendado' atualmente, mas apontar educação como a única saída para o pandemônio que é o Brasil é retórica mais que frequente entre os eleitores mais "instruídos" e "bem informados". Ainda assim, Cristovam amealhou 2% dos votos, Alon. 2%. Não creio que o desempenho de Marina seja muito diferente. Se a candidata verde fechar com o PSOL, tende a crescer mais um pouco. De qualquer forma, não vejo a Marina superando os 5% dos votos. Só quem pode jogar o pleito presidencial para o segundo turno é Ciro Gomes.

Abraços

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 18:06:00 BRST  
Blogger Ronaldo disse...

Estou pagando pra ver, em um eventual segundo turno entre Dilma e Serra, quem a Marina apoiará. Se for o Serra, sela de vez a sua virada de folha de esquerda para direita, o que em futuras eleições ela não mais contará com votos de petistas que votaram nela. É o que dá não escolher bem o partido para se filiar, PV, PSDB, PPS, DEMO, tudo igual, ou seja, nada.

domingo, 20 de dezembro de 2009 09:35:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Marina é uma excelente candidata a ministra. embora como ministra não tivesse tido a habilidade necessária para contornar os revezes que lhe foram impostos. O PV para ela não se assemelha ao ninho em que se criou que foi o PT - o seu atual partido é uma frente a la pmdb com figuras exdruxulas e até incompativeis com a sua agenda. em compenhague andou mais acompanhada pelo senador do PT jorge viana do que os sirkis da vida, ou melhor do pv. para encerrar: o eleitor brasileiro já tem a devida experiencia em eleger um presidente de partido diminuto nocaso o Collor. como se daria a govenabilidade? para não se aludir que o PV no Brasil em casa estado é uma linha e em sí uma linha curva com tendencia a enrolar-se.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009 10:02:00 BRST  
Anonymous Norma disse...

O IG está de parabéns. Enxugou o site e optou pela qualidade dos entrevistados e não pela quantidade.
Antes, raramente visitava o site. Hoje, dariamente dou uma espiadinha.´
A informação correta gostando ou não dela,deveria ser obrigatória por todo jornalista e mídia. Só aceita essa realidade quem respeita os leitores e o país.
Parabéns, IG!!!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009 11:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Sobre a questão da constituição e da impunibilidade, muitos acabam por cogitar que só mesmo uma mão de ferro poderia conter esses desmandos. O caso é que a democracia representativa é apenas uma entre as possibilidades de governança. Pensando bem, poderíamos fazer a coisa diretamente eliminando o representativo, e, ainda assim fazer a manutenção da democracia, não poderíamos?

Ismar Curi

terça-feira, 22 de dezembro de 2009 12:23:00 BRST  

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