sábado, 12 de dezembro de 2009

À espera de um carinho (13/12)

Quando Lula apelou pela intervenção americana em Honduras, talvez devesse ter ponderado que, uma vez chamados a decidir, os americanos decidiriam conforme o interesse deles. E não conforme o de Lula, Hugo Chávez e Manuel Zelaya

A projeção internacional da imagem de Luiz Inácio Lula da Silva e a afirmação soberana do Brasil no cenário mundial são fonte de poder político interno do presidente da República e do partido dele. O tema foi bem explorado pelo PT no programa de tevê da legenda, na última quinta-feira. Fez-se a oposição entre o “Brasil altivo” de Lula e o “Brasil reverente” de Fernando Henrique Cardoso.

Aqui e ali ouvem-se resmungos tucanos de que a história não é bem essa, de que o PT deforma os fatos para adequar aos propósitos políticos dele. Ora, quem está atrás de justiça e honestidade intelectual a qualquer custo deve manter distância prudente da atividade política profissional. Especialmente em terras como a nossa, que engatinham na construção de instituições capazes de proteger a sociedade contra a selvageria e a mistificação inerentes à luta pelo poder.

Não dá para o sujeito querer ser simultaneamente político e crítico profissional da política.

Lula ordenha com método a vaca leiteira dessa fonte de autoestima nacional, e com razão. Num país marcado pelo complexo de inferioridade, e que a rigor nunca conseguiu —nem com Lula— uma vitória expressiva contra os polos hegemônicos, afrontar já é uma façanha. Ou, pelo menos, pode ser narrado como tal. Nunca fui ao Vietnã, mas amigos que lá estiveram contam o cuidado e a elegância dos vietnamitas quando falam da vitória na guerra contra os Estados Unidos. Quem ganha não precisa tripudiar. Já para quem perde, tripudiar é sempre um jeito de buscar compensação.

O Brasil enfrentou os americanos na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio e perdeu. Enfrentou também quando propôs a substituição do G8 pelo G20, e que os emergentes tivessem voz na eventual reforma do sistema financeiro mundial. Também deu em nada. O G8 vem sendo susbstituído é pelo G2 (EUA e China). Lula gingou, mudou sua posição sobre as metas de emissão de carbono para posicionar-se como o líder mundial da luta contra as mudanças climáticas, mas o Brasil não deixou de ser tratado como coadjuvante nos debates sobre o aquecimento global. Aliás, o nosso etanol, principal produto do caixeiro-viajante número 1, continua sem mercado lá fora.

E daí? E daí nada. O importante na estratégia não é obter vitórias materiais, mas reforçar a imagem de Lula aqui dentro, vitaminando a percepção de que nosso presidente “enfrenta os poderosos”. Um Gamal Abdel Nasser brasileiro. O líder egípcio perdeu todas as guerras em que entrou, mas construiu para si a biografia de comandante glorioso da luta anti-imperialista. O sucessor dele, Anwar El Sadat, reconquistou no campo de batalha e na mesa de negociações cada centímetro de território tomado do Egito nos revezes de Nasser, mas não alcançou o status simbólico do antecessor.

Nem sempre, entretanto, as coisas andam conforme o planejado. Em Honduras, Lula quebra a cabeça para encontrar um jeito de se declarar vencedor, algo que Nasser fazia com maestria a cada derrota. Lula tem dificuldades no caso, talvez por um erro estratégico da diplomacia brasileira: deixou de lado a defesa intransigente da autodeterminação dos povos e encampou o “intervencionismo justo”, quando praticado para “proteger a democracia”. Qualquer semelhança com a Doutrina Bush não é mera coincidência.

Antes de Lula apelar pela intervenção americana em Honduras, talvez devesse ter ponderado que, uma vez chamados a decidir, os americanos decidiriam conforme o interesse deles. E não necessariamente conforme o interesse de Lula, Hugo Chávez e Manuel Zelaya. Celso Amorim deveria ter alertado o presidente sobre isso. Não fez, por submissão e porque avaliou que restituir Zelaya seria um passeio, propício para Lula faturar.

Deu errado, e Lula ficou com o mico na mão. Foi passado para trás pelos americanos depois de pedir ajuda aos americanos. E a imagem interna do Lula “líder invencível dos pobres na luta contra os ricos” não pode se dar ao luxo de exibir rachaduras. Qual é hoje o principal problema nas relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos? É que Lula está tomando um baile de Barack Obama. E sob pressão Lula começa a errar demais. Como na coletiva em que desancou a chanceler alemã por causa do programa nuclear do Irã.

Talvez esteja na hora de Washington tomar um gol —nem que seja contra— , para acalmar o parceiro e adoçar a relação.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição deste domingo do Correio Braziliense.

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40 Comentários:

Blogger pait disse...

Em matéria de gol contra, o Amorim é mestre. Ninguém vai conseguir jogar o jogo do gol contra igual a ele.

sábado, 12 de dezembro de 2009 20:23:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Clássico! Melhor perder todas do que nunca lutar.
Antes o Brasil usava sempre o alinhamento automático com os EUA, agora mostra que não é mais o cãozinho obediente. Os EUA ganhar sempre é natural, mas hoje quanto mais a esquerda é opção na AL os EUA perdem, e quanto mais países não reconhecerem as eleições em Hondurasmais os EUA perdem, muito pouco na prática,mas sabem eles que é assim que começa...

sábado, 12 de dezembro de 2009 20:51:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Subserviência era apostura da diplomacia brasileira.Não era exagero metafórico,tampouco folclóre.
Juracy Magalhães,aqui presente ,confirma essa imagem,Vasco Leitão da Cunha,lhe faz côro. Para quem nunca jogou o jogo,estamos nos saindo bem.O último embate em nível internacional,custou nossa reputação :"Guerra da Lagosta".Conflito ,tendo como pivô,pesqueiros franceses,supostamente dentro do nosso mar territorial,apreendidos pela Marinha e posteriormente liberados com a intervenção do general De Gaulle,presidente da França.Jânio Quadros,foi o autor.UDN,o partido,mistura de PSDB com PFL,porém com viés golpista-conspirador. Sintomático é d.Hilary,transmitir advertências ,lembrando o "big stick": ""olha a bagunça no nosso quintal,aí,Ô !" Será o Obama ,um Bush em negativo? O departamento de Estado dos EUA,opera milagres:é um Pitangui,dedicado a alterar a fisionomia moral dos dirigentes da"América". Portanto,não nos permitamos que o vira-latas rodriguiano nos acosse, às vezes , se manifestando com sutilezas,imperceptíveis. É o inconsciente coletivo agindo contra nós, individualmente.

sábado, 12 de dezembro de 2009 23:28:00 BRST  
Blogger Cadu Lessa disse...

Alon,
Você não está forçando a barra demais não?

Dizer que o G8 está sendo substituído pelo G2 é complicado. Excluir de cara a Europa e Japão para assuntos globais? Pelo que eu entendi, esse alinhamento EUA-China, recentemente, teve MUITO a ver com a COP15.

Dizer que o Brasil é coadjuvante na luta contra as mudanças climáticas é constatar o óbvio, pois não é demérito nenhum pro Brasil não ser ator principal em matéria de poluição.

Lula encampou o "intervencionismo justo" em Honduras? Não acredito que abrigar um presidente deposto em seu PRÓPRIO país seja uma intervenção direta na política local.

Tenho a opinião que a política externa brasileira não é perfeita e comete erros as vezes. Mas daí a dizer que Lula toma um baile de um Obama que está rasgando a certidão de esperança que os EUA e mundo depositaram nele (vide a patética guerra "justa" que ele defendeu no Nobel e que você, numa infelicidade que poucas vezes vi, comparou a Churchil na ocasião da 2a. Guerra Mundial) vai uma distância enorme.

Abraços e boa noite,
@cadulessa

sábado, 12 de dezembro de 2009 23:39:00 BRST  
Blogger pauloaraujo573 disse...

Caramba, Alon. Não sabia que você pagava suas contas como consequência de ficar pensando sem independência e como o patrão. E foi acontecer logo com você, que despontou para a profissão na prisca era do Jornal Movimento. Estamos perdidos.

Se precisar de mim para salvá-lo de si mesmo, é só avisar que eu lhe indicarei o caminho altivo e reto da redenção universal pelos altos índices de popularidade. Não lhe prometo uma colocação porque não disponho dela nem mesmo para mim. :)

Mas pensando bem, que tal se você, depois de refletir e, finalmente, parar de pensar sem independência e como o patrão, tentar recuperar os créditos na Faculdade de Medicina da USP? Alon, você nunca deveria ter abandonado a medicina e terminar assim nessa merda de condição servil.

Mas vamos ao post.

Eu penso que trazer para a análise o suposto caráter bipolar da nacionalidade é exercício inútil. Esse psicologismo é tão ruim quanto a reabilitação da mentalidade "guerra fria", ou seja, a que diz que o que é ruim para os EUA é bom para o Brasil e vice-versa.

Não há base empírica disponível para afirmar ou negar que o brasileiro tem complexo de inferioridade, que tem alta ou baixa autoestima etc.

Deixando de lado esse debate metafísico da autoestima ou do seu contrário (o ressentimento, i. é., a má inveja com que se olha para quem está em melhor situação.), o que deve ser examinado são os resultados práticos da atual política externa do Estado para o país. O que se tem de concreto é que a política está em curso e até o momento os resultados que mostrou são pífios, como você bem anotou no post.

Por isso sobra propaganda e exaltação muito mais interessadas atribuir aos antagonistas deste governo (para efeito de luta política, todos rotulados “tucanos” ou vendidos ao PIG controlado por “tucanos”) a pecha de indivíduos totalmente desprovidos de vontade própria e, portanto, completamente submissos, uns lambe-botas do imperialismo. Ou, como disse Samuel P. Guimarães em entrevista ao jornal Zero Hora, uma gente somente movida pelo “hábito de se pedir licença para fazer as coisas, o hábito de ser pequeno”.

É. E aí eles chegaram para nos salvar de nós mesmos.

Abs.

sábado, 12 de dezembro de 2009 23:44:00 BRST  
Blogger Bernardo disse...

Cara, desejando parecer isento, oque é impossível, você exagera e quer ser mais realista do que o rei (um trocadilho com o tio rei rs!). Poxa vida, quem disse que o governo Lula deseja enfrentar o poder Solar dos EUA? Na minha opinião, busca tão somente fazer a sua parte, a parte que lhe cabe, de se posicionar, de marcar posição, de não se alinhar imediata e servilmente aos interesses norte americanos (como sempre fez e voltarão a fazer os tucanos/pefelistas com o aplauso da mídia nativa, toda ela descaradamente pró interesses norte americanos). Não vejo essa de encarar de frente, de tentar ser o campeão do mundo! Nada disso! Simplesmente ocupar o nosso espaço, uma interlocução, uma cadeira cativa na mesa mundial, só isso! Os críticos invejosos e enciumados da direita nativa logo se apressam em mistificar, zombar, inventar mentiras como essa, de que Lula, o PT e seu governo são uns deslumbrados, uns megalomaniacos, uns insanos que não se enxergam e por aí afora. E você, Alon, não sei se por querer parecer isento, o que é impossível, acaba a cada dia fornecendo munição para o inimigo (não é a toa que o nobla-blá-blát anda postando cada vez mais seus comentários no blog dele...). Ou quem sabe você tira o slogan de que seu blog é de uma visão nacionalista e de esquerda e inventa outra coisa, mais ao estilo tucano mesmo rs! Numa boa viu! Venho percebendo que você, inteligentemente, busca sair fora do fla-flu que virou isso tudo, mas, sinceramente, acho que voc~e exagera, e pode acabar ficando sem torcida, se é que isso lhe importa, pois, pode ter a certeza, os demo/tucanos tem outro gosto literario viu! Não te peço uma defesa apaixonada, desbragada, tosca, do governo Lula e suas políticas, mas acredito que nos faltam espaços com gente da tua inteligência, para honrar os feitos, as conquistas, o pioneirismo, a coragem e a singularidade com que se leva o Brasil a mares nunca dantes navegados! Lá fora é um massacre! Veja, Epoca, Isto É, folha, Estadão, RBS, O Globo, Rede Globo, Noblat, Tio Rei, Mainardi, Bandeirantes, SBT... Essa gente não pensa, não reflete, não dá chance ao contraditório, simplesmente fuzilam, paredón diário!

domingo, 13 de dezembro de 2009 01:20:00 BRST  
Anonymous Paulo Drummond disse...

Caro Alon,

Pode ser...

Pode ser que haja um gol contra, e que esse gol contra seja propício a uma volta ao namoro tradicional, quase secular. Mas pra acontecer esse gol contra, é preciso que haja uma situação de risco diplomático (pequena área) e o 'adversário' tropece nos seus afazeres. Raro. Além disso o 'adversário' tem um time coeso e um goleiro capaz. Dureza.

O recado de Clinton foi claro, sim, só não percebem os obcecados. Assim como os patetas que não querem ver os efeitos das mudanças do clima. Aliás, patetas e quase-boçais abundam, de ambos os lados. Fascinante!

Com relação à comparação com Nasser, acho-a tenuamente adequada, desde que retiremos o 'como' Nasser entra no palco e o mando ditatorial de quase duas décadas. Ainda assim, eu diria que o descacetado do Chavez tem mais aspirações a Nasser que Lula.

Comparar um pan-arabismo com um pan-americanismo, se é a isso que você queria chegar na comparação entre os dois líderes, também é dureza. Ainda que não tenha dado certo lá (nem pode); aqui não é muito diferente, apesar dos pesares.

Não creio que precisemos de status simbólico para o atual presidente. Aliás, por que precisamos lutar contra polos hegemônicos? Seria assim que faríamos a conquista de uma merecida posição? Seria com a discórdia e afronta que mostraríamos, afinal, quem somos? No caso em discussão, soa ridículo, quase cômico.

Complexo de inferioridade? Já tive. Hoje não mais. Mas tenho vergonha de ter hoje um presidente boquirroto, que nivela por baixo suas falas e ações, que muda de conteúdo e de aliados como quem troca de cueca; que apanigua gente da pior espécie para blindar sua estrutura miliciana; que se cerca de alucinados ignorantões em posições-chave, como o descacetado do Amorim, o ignorante-estúpido do Lobão, a absolutamente não confiável Dilma e uma chusma de apagados e convenientes em permanente plantão. Além disso, envergonha-me o fato de termos tentado recentemente ser uma república democrática, e ver que esta aspiração começa a escorrer pelos dedos quando constatamos uma tendência clara de hegemonia interna, via mão-pesada, de um poder sobre os demais.

80% de aprovação? A estatística é filha dileta da matemática. Fazemos com ela praticamente o que quisermos. E podemos conseguir com ela provar cientificamente qualquer coisa, ou simplesmente nada.

É o que temos.

domingo, 13 de dezembro de 2009 02:59:00 BRST  
Anonymous Briguilino disse...

Alon, " uma vez chamados a decidir, os americanos decidiriam conforme o interesse deles".

Rescrevo: Uma vez chamado a decidir o Brasil decide conforme os nossos interesses.

Sinceramente este texto que escreveste poderia ser assinado por FHC ou qualquer um lambe botas adulador. Não está à altura do teu talento.

domingo, 13 de dezembro de 2009 07:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Hahahahahaha...Alon, eu adoro esses seus comentários que deixam os petistas enfurecidos! Imagino que seja um excelente mecanismo de aferição para você conhecer a cabeça do eleitor esquerdista brasileiro. Essa teoria conspiratória da "mídia burguesa contra o presidente operário" é uma daquelas cascatas que só têm lugar mesmo na cabeça desses eleitores, que se julgam sempre paladinos dos "frascos e comprimidos". Só conseguem ver o mundo por essa ótica enviesada. Se você que é um esquerdista declarado já leva pau de todo lado, imagine como deve ser a vida do pessoal do outro lado do balcão (Reinaldo, Diogo, Ali Kamel etc)...
Abraços e parabéns pelo blog!
Fernando José

domingo, 13 de dezembro de 2009 08:49:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Gamal Abdel Nasser,presidente do Egito , inspirador e fundador da RAU, República Árabe Unida,foi precursor do movimento de não alinhamento com os países vencedores da Segunda Guerra.Enfrentou,França ,Inglaterra e Israel,na guerra do Suez,sofreu derrota militar,contudo ,desmascarou as duas potencias coloniais e o anacronismo de suas políticas.
Foi o Saddam de sua época,sem a demonização forjada pelos EUA.

domingo, 13 de dezembro de 2009 10:26:00 BRST  
Anonymous Gualter disse...

Tá certinho. A pose é lá fora, mas as câmeras são as da Globo. E o público também.

domingo, 13 de dezembro de 2009 11:34:00 BRST  
Blogger bakunin disse...

Xi Alon, esta sua virada conservadora está cada vez mais evidente, até pela superficilidade das análises.
Bem, eu e provavelmente muitos dos que apreciam análises mais profundas e equilibradas que vieram ao seu Blog pela antiga diretriz que você adotou, agora vamos é largar mão, mas claro que é teu direito definir a sua linha editorial, nós como cliente vamos apenas decidir se continuamos te dando atenção.
Mas vamos lá, primeiro vc deixa de lado o principal, que é o básico de política internacional, que são interesses nacionais que são contraditórios com interesses de outros países, mas vc foca em decisões do Itamaraty-Lula como se fossem decisões baseadas em desejos e gostos tipo opções de jogo tipo torneio de futebol.
É paupérrima a abordagem, e só se justifica se vc está adotando um perfil de político como vc colocou e não como analista político.
O Brasil como grande país emergente vai ter quase todos seus interesses de desenvolvimento interno e no fluxo das relações internacionais conflitantes com atuais forças hegemônicas, como EUA e Europa, claro, e com esta composição de forças fazer análise focando no que o Brasil ganhou totalmente ou perdeu totalmente, é fazer crítica política, com foco anti Brasil e anti Lula, pois, esperar que EUA+EU tenham alguma derrota acachapante é burrice.
Se vc fizesse análilse teria que matizar as coisa, medir os pequenos ganhos, os ganhos de imagem, os ganhos e perdas de espaços, os ganhos relativos em relações aos interesses dominantes, o nível das lutas, o quanto conseguimos conciliar interesses de outros países.
No caso Zelaya por exemplo tivemos 100% dos países fora os EUA seguindo nossa posição, e criticando os EUA, isto foi uma vitória expressiva, fomos líderes de uma visão política, isto é muito relevante, o resultado final foi a vitória dos interesses americanos, claro, seria incossistente esperar o contrário naquela situação, mas o que conta foi o processo, agora capacidade de analizar o processo político é coisa para profissionais, que consegue ver detalhes, matizes dentro de um contexto histórico.

domingo, 13 de dezembro de 2009 14:38:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Você erra, Alon, porque simplifica e recai no reducionismo do suposto conflito ideológico de colonialismo x imperialismo usado por líderes para se manterem no poder, quando na verdade a abordagem do governo brasileiro tem pouco de ideológico, tem tudo de pragmatismo econômico e geopolítico.

A defesa que nosso Presidente faz dos países pobres, encontra eco dentro da sociedade civil dos países ricos. Isso também é política externa. A causa é justa. Todo mundo entende as assimetrias econômicas, que precisam de uma nova ordem para acabar com a pobreza absoluta, falta alguém que dê régua e compasso para desenhar a solução. O Fome Zero é isso, a EMBRAPA na África é isso, a abertura de mercado agrícola a produtores pobres é isso, os biocombustíveis é isso, a industrialização em países com energia verde é isso. Enquanto os líderes do G-8 empurram com a barriga, Lula tem apresentado soluções.

A rodada de Doha é vista mais como uma derrota para os EUA e Europa do que para o G-20. O objetivo inicial deles era impor aos emergentes a agenda neoliberal do Consenso de Washington: empurrar goela abaixo a abertura do mercado interno dos emergentes ao setor de serviços e manufaturados, cedendo muito pouco no setor agrícola dos desenvolvidos (algo como diminuir subsídios sobre excedentes para exportação).

O Brasil e o G-20 empataram o jogo ao não cederem à pressão, e deslocar o eixo das negociações, que levou ao impasse (empate). Quando um "nanico" empata com um "gigante" é um bom resultado para o "nanico" e um mau resultado para o "gigante".

No pragmatismo econômico a boa tática possível na conjuntura atual é essa: jogar na retranca, na catimba, e no contra-ataque contra os hegemônicos.

A reforma do sistema financeiro, é óbvio que o Brasil não vai ditar regras ao FED, mas há diversas divergências dentro do G-20 (que é cada vez mais relevante, ao contrário do que você afirma).

Gordon Brown defende taxar operações financeiras, coisa que o Brasil apóia.

Ao contrário do que você diz, China e EUA não formam o G-2 neste caso. EUA criticam a China por não valorizar sua moeda, e China critica os EUA por deixar o dólar cair, recomendando aos EUA seguir o receituário do FMI usado para países do terceiro mundo (a mesma posição do Brasil, porém o Brasil é mais discreto nas críticas específicas aos EUA, fazendo ao mundo rico como um todo, o que mostra maturidade política e conhecimento de qual é sua posição no jogo).

domingo, 13 de dezembro de 2009 15:02:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Você erra também ao subestimar o mercado do etanol. Em 2008 as exportações de etanol representou US$ 2,4 bilhões (não é pouca coisa). De 2009 eu não tenho os números. A União da Indústria de cana-de-açúcar (Unica), um entidade empresarial e não governamental, espera que as discussões sobre o clima sejam decisivas para a abertura de mercado ao etanol brasileiro, dobrando as exportações em 2011.
A Petrobras testa uma termoeletrica a alcool em Juiz de Fora, acompanhada por uma equipe técnica da companhia japonesa Tepco, uma das maiores geradoras de energia do Japão, e que vem buscando diversificar sua matriz energética.

Quanto a COP-15, por acaso Brasil saiu derrotado de Kioto porque Bush-pai não assinou o acordo (e Bush-filho não ratificou)? Os EUA fazem suas escolhas, com seus ônus e bônus.

Só chefes de estado muito subservientes não "tiram casquinha" dos ônus dos outros concorrentes, para valorizar a "marca Brasil" para produtos brasileiros mais limpos.

Ainda na COP-15 a China divergiu completamente dos EUA/Europa, cobrando o passivo de poluição emitida no passado, o que mostra que G-2 é uma construção sua que não existe. Seria como chamar de G-2 EUA e URSS na época da guerra fria, apenas porque cada um dava as cartas em cada metade do mundo.

Quanto a China Popular, é o que é, porque começou a fazer há décadas o que o Brasil só começa a fazer hoje. Quem não se lembra das "bravatas" de Mao Tse Tung chamando os EUA de tigres de papel na década de 50? Nesta época a maioria dos países do ocidente continuaram a reconhecer o regime de Taiwan como o governo legítimo da China. Das posições da China sempre "derrotadas" daquela época, surgiu a China vitoriosa de hoje. O Brasil recomeça tarde a ocupar o espaço geopolítico que pode ocupar, após a subserviência de Collor-FHC ao consenso de Washington, mas se não começar agora, mesmo que "perdendo", daqui a 30 anos continuará sendo o "país do futuro".

Quanto a Honduras, todo mundo já sabe o que vai acontecer, e a ministra Dilma, já deixou escapar. O governo brasileiro não negociará com o atual governo golpista de Honduras. Como a posse do novo governo eleito será daqui a pouco mais de um mês, negociará com o novo governo, se for aceito por populares. Afinal ficará difícil brgar com fatos consumados. Não vejo nenhuma derrota do Brasil, pelo contrário, fez o que pôde para repudiar aventuras golpistas. Os EUA não fizeram a sua parte. Ficou com imagem de que conspirou nos bastidores. Pode ter ganho um governo aliado em Honduras, mas perdeu a confiança de quase todo o resto da América Latina. Todo governo nacionalista latino-americano olhará a embaixada estadunidense com desconfiança. A impressão que fica é que o governo Obama/Hilary ganhou a batalha, mas começou a perder a guerra. Muitos países da América Latina tenderão a se aproximar mais do Brasil e da China, em busca de reduzir a dependência e intervenção dos EUA.

Até o Peru que é visto como aliado à política externa dos EUA está comprando tanques de guerra da China, e adotou o sistema nipo-brasileiro de TV digital, contrário aos interesses econômicos dos EUA e Europa.

domingo, 13 de dezembro de 2009 15:13:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Bom posso concordar com quase tudo, vi inclusive sua réplica sobre o comentário do Guimarães, mas, não se pode deixar de pensar que o argumento sobre o fechado clube atômico nunca recebeu uma crítica tão contundente com o aquela feita perante a Merkel, pelo menos partindo de alguém que seria visto pela liderança política mundial. Não é possível que ninguém nesse nível de estadista nunca protagonize uma crítica como esta: eles não querem proliferação porque verdadeiramente, pelo menos até agora, não querem ninguém mais no poderoso clube. Ou é algo diferente? Veja-se que entre os BRICs, está claro que somente teria moral de falar em mundo livre do arsenal nuclear uma liderança brasileira, mas, como falar em moral na política mundial é ingenuidade, porque o Lula estaria errado em reclamar disso?
Ismar Curi

domingo, 13 de dezembro de 2009 16:01:00 BRST  
Anonymous Simões disse...

Lula faz (e bem) seu caminho sobre as pegadas de FHC.

Não se trata apenas de esperta estratégia eleitoral, é também plano de governo e aparentemente questão pessoal. No geral FHC é o paradigma de Lula e de seu governo.

FHC se pensava um príncipe. Lula acreditou e quer a vaga acima.

As piores desilusões têm decorrido das inovações e seu mais rotundo exemplo são as relações internacionais, abandonados o pragmatismo e o não-alinhamento automático.

Não se metia a mão em cumbuca e sequer no Regime Militar originou tão portentosa lista de erros e tantas derrotas constrangedoras.

Honduras é só mais um exemplo e típico caso do fracasso ter subido a cabeça. Nem o linguajar grosseiro foi abandonado.

Talvez por conta do tal “público interno”, nosso Presidente e o Chanceler ainda se esforçam em piorar o fato. Só que Governo local já provou não morrer de susto. Não será estranhável ocorrer mais alguma coisa vexatória até a posse do novo presidente hondurenho.

O erro quanto a Obama é mais preocupante. Imaginar que uma crise – mesmo grave – viesse a permitir um reformista – e bobo - no comando dos Estados Unidos, é ignorar aspectos essenciais daquela sociedade e da política internacional.

O Irajá não é lá. Obama não mora em Niterói. Muito menos virou o Departamento de Estado de cabeça para baixo ou mudaram os interesses norteamericanos.

Obama errou no caso de Honduras ao acompanhar a verborragia inicial, mas a seguir os rumos foram corrigidos e, pragmaticamente, eleições asseguradas, para o EUA Honduras deixou de ser problema. De quebra ficamos nós com um abacaxi bigodudo nas mãos.

A linha do confronto ideológico nada renderá. Foi evidente a pouca importância dada para a posse do novo embaixador e o recado do endurecimento Hillary já deu. Vão deixar Lula falando sozinho.

Mais realista foi o Presidente de Israel, que sem se abalar com as lições e recomendações ouvidas, tratou de nos vender alguns sistemas de defesa para não perder a viagem e ainda ganhar alguma coisa.

Resta saber se discursos mais apropriados aos anos 60 renderão votos e apoios em 2010. Dª Dilma, precavida, já se descolou de Honduras.

domingo, 13 de dezembro de 2009 17:48:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Não sou especialista e conheço pouco a recente história de Israel e suas relações com o mundo islamita. O que vai abaixo talvez interesse a você e a alguns leitores do blog.

Sadat e Mubarak pertenciam ao círculo político íntimo de Nasser. Depois que Nasser decidiu, ao que parece, dar ouvidos aos conselheiros soviéticos, de concreto restou que as decisivas ações israelenses na guerra dos seis dias e na guerra do yom kipur deixaram como a melhor consequência os acordos de paz e o reconhecimento do Estado de Israel pelo Egito e pela Jordânia. Sadat, que negociou a devolução do Sinai em troca da paz e do reconhecimento do Estado de Israel, pagou com a vida. Morreu assassinado no início dos anos 80 por membros da Jihad Islâmica Egípcia.

O historiador e jornalista Daniel Pipes escreveu artigo sobre um livro (Foxbats over Dimona
The Soviets' Nuclear Gamble in the Six-Day War) em que os autores apresentam elementos históricos para hipótese da União Soviética na origem da guerra dos seis dias. De acordo com Pipes, que escreveu o artigo em 2007, era comum aos historiadores o ponto de vista de que “nem Israel, nem seus vizinhos árabes desejavam ou esperavam um confronto militar naquele junho de 1967; o consenso entre historiadores é de que o embate indesejado resultou de uma sucessão de acidentes”.

No entanto, no livro “Os MiG-25 sobre Dimona: A Arriscada Jogada Soviética na Guerra dos Seis Dias”, os autores argumentam que essa guerra se originou de um plano do Politburo soviético para eliminar a instalação nuclear israelense em Dimona e, com isso, também a aspiração de Israel em desenvolver armas nucleares.

Pipes relaciona no artigo pelo menos dois fatos que corroboram a hipótese dos autores:

1. “Moshe Sneh, um líder comunista israelense (e pai de Ephraim Sneh, atual vice-ministro da defesa [em 2007]), relatou ao embaixador soviético, em dezembro de 1965, que um conselheiro do primeiro-ministro havia informado a ele a ‘intenção de Israel em produzir a sua própria bomba atômica’. Leonid Brezhnev e seus colegas levaram essa informação mortalmente a sério e decidiram – tal como Israel o faria quanto ao Iraque em 1981 e talvez esteja fazendo quanto ao Irã em 2007 – abortar esse processo por meio de ataques aéreos”.

2. “Aviões soviéticos de reconhecimento estratégico MIG-25R (os ‘Foxbats’ do título) sobrevoaram o reator de Dimona em maio de 1967.”.

Para quem se interessar, a íntegra do artigo em tradução para o português:

A Guerra dos Seis Dias dos Soviéticos
Daniel Pipes. New York Sun. 29 de Maio de 2007

http://pt.danielpipes.org/4614/a-guerra-dos-seis-dias-dos-sovieticos

domingo, 13 de dezembro de 2009 18:40:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
A repetição aqui é necessária. O Brasil é um país pequeno. Não pertence ao grupo das grandes potências. O destaque do Brasil com Lula é o destaque de Lula. O Brasil é na figura do José Luis Fiori um país do “deixa disso”. É difícil para o PT aceitar que a nossa realidade seja aquela de FHC do Brasil reverente. É difícil, mas é a nossa realidade.
Na Alemanha, Lula não poderia desancar a primeira-ministra alemã na questão do Irã. Não a primeira-ministra do partido da democracia cristã alemã que este ano de 2009 fizera campanha para o parlamento alemão com o slogan: "Por Deus, contra a Turquia".
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/12/2009

domingo, 13 de dezembro de 2009 23:26:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Esqueci de mencionar no meu comentário anterior que “A turma do “deixa disso”” era o título do artigo de José Luís Fiori, publicado no Valor Econômico de 23/05/2008. Além disso, o lema da democracia alemã na campanha esse ano para o parlamento europeu "Por Deus e contra a Turquia" eu li em artigo também de José Luís Fiori intitulado “Entre Berlim e o Vaticano” e publicado no Valor Econômico de 17/06/2009.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/12/2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009 00:24:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
No meu comentário de 13/12/2009 às 23h26min00s BRST eu falei em slogan de campanha para o parlamento alemão quando na verdade era slogan de campanha para o parlamento europeu.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/12/2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009 00:37:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Bernardo

"Os críticos invejosos e enciumados da direita nativa logo se apressam em mistificar, zombar, inventar mentiras como essa, de que Lula, o PT e seu governo são uns deslumbrados, uns megalomaniacos, uns insanos que não se enxergam e por aí afora."

Verdade, o bordão "nunca antes neste país" deve ter sido utilizado por Lula e Cia justamente porque eles são modestos, não?

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009 00:38:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, parabéns pela serenidade.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009 08:37:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Embora seja ocioso, nunca é demais lembrar que unanimidade jamais lograrão obter. Se querem fazer crer que lutam contra o que dizem ser subserviência, não há lógica querer todos subservientes a quem quer que seja. Ser livre não é ter outro senhor. Liberdade. É disso que se trata. Ninguém deve ter a pretensão de sequer pensar em alterar isso por quaisquer motivações.

Swamoro Songhay

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009 10:19:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Gostei do artigo. É uma saudável lembrança dos limites do tal protagonismo brasileiro que o Itamaraty gosta de propagandear. Só acho uma frase descabida: "Qualquer semelhança com a Doutrina Bush não é mera coincidência."
A doutrina Bush estabelece que o EUA tem o direito de atacar preventivamente qualquer país que abrigue terroristas, os apóie ou que esteja envolvido em ameaças militares aos Estados Unidos. Posteriormente incluiu a ideia da defesa da democracia, mas como algo derivado: no ataque ao terrorismo ou a regimes perigosos, os EUA devem disseminar governos democráticos.
Não há nada remotamente parecido a isso no caso brasileiro em relação a Honduras, em que não há nenhuma ameaça de ação armada. Não se trata da expressão de uma política gestada organicamente no governo, tanto que no que tange a outros países (como o Irã), o Brasil procura justamente ocultar a questão da democracia.
João Paulo Rodrigues

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009 12:37:00 BRST  
Anonymous Carlos Saraiva disse...

Nunca antes na história da Internet a Lei de Godwin, devidamente adaptada às particularidades de Pindorama,foi tão utilizada.Tanto pelos que apóiam o governo quanto pelos seus opositores.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009 13:02:00 BRST  
Anonymous Jorge Nogueira Rebolla disse...

Um governo que possui no seu primeiro escalão um diplomata, samuel pinheiro guimarães, capaz de solta esta pérola sobre a situação alemã e japonesa na onu do pós-guerra: "tantos anos de purgatório, de punição, por terem desafiado a liderança anglo-saxônica do mundo"
Para quem nomeia um ministro que acredita que hitler e tojo foram paladinos da luta antiimperialista, sua excelência, o filho do Brasil, anda cometendo poucos erros.
Quanto a considerar que na era A.L. (antes de lula) a diplomacia brasileira era de total alinhamento com os ianques, peço aos defensores desta posição que se informem mais e melhor.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009 20:48:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Lula perdeu a grande oportunidade de mudar a política brasileira (ou pelo menos dar um ponta-pé inicial no processo). Como não fez nenhuma das sete reformas que prometeu ainda no seu discurso de posse no primeiro mandato, não precisava render-se a política do toma-lá-dá-cá. Até para ter moral de criticar e exigir postura ética dos parlamentares ao votar os projetos de interesse do país, como deveria realmente ser, pelos méritos do que está sendo votado e não de acordo com o número de votos do “rolo compressor”.

Poderia entrar para a história como um Nelson Mandela, um verdadeiro estadista que uniu a Africa do Sul. Ao contrário, promoveu a divisão da sociedade brasileira. No poder, Lula mostrou mais pontos em comum do que divergentes com FHC. Se não fosse sua obsessiva preocupação com o famigerado “plebicito”, poderiam hoje serem até amigos e o país estaria discutindo idéias e não trocando xingamentos.

Na verdade, o que está em jogo é o medo de Lula de que alguém da oposição vença e faça um bom governo, que pegue também um pouco dos bons ventos que Lula pegou. Isso daria a população um novo parâmetro de comparação com o atual governo, o que poderia diminuir o culto ao ídolo.

Pena que o nosso povo imbecilizado não consiga contextualizar as ações de cada governo. Daí o festival de irracionalidades que hoje somos obrigado a presenciar.

Amilton Aquino

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009 23:43:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, a crítica tucana à atual diplomacia brasileira não tem sustentação, trata-se de reação emocional, de uma área especialmente sensível para a vaidade tucana. Qualquer escorregão, contratempo, entrevero com aparência de contrariedade, e eles surgem aos montes para denunciar o chanceler brasileiro... claro que isso tem pouco efeito sobre o eleitor. Mas aqui não se trata de eleitor, trata-se da reação imediata a um sentimento de humilhação muito forte, porque justamente num campo onde as credenciais tucanas deveriam afastar os diletantes. Já o fracasso em Honduras é real, ainda que pouco relevante. Até ha pouco me perguntava por que o tema Honduras freqüenta com tanta insistência a nossa mídia (mesmo o número de comentários aqui no blog crescem com esse assunto), eis a resposta: cabe como uma luva para aliviar a humilhação. Concordo com a crítica que você tem feito a atuação do Itamaraty na América Latina usando dois pesos e duas medidas, uma para os aliados bolivarianos e outra para os aliados do império. Ainda que isso faça parte do jogo de quem quer fazer um contraponto com o império, tem sido exagerada, uma preocupação excessiva em não parecermos traidores dos governos de esquerda, ainda que no caso específico de Honduras até que o Itamaraty tem certa dose de razão, afinal os americanos nos traíram, mudaram de lado no meio do jogo e nos deixaram sem discurso. Eles vacilaram, parecia um golpe militar clássico, que melhor oportunidade para os americanos mostrarem que não têm prevenção contra os bolivarianos? Chávez ficou sem discurso. Mas quem poderia imaginar que além de desfrutar de soberania formal Honduras ainda quisesse inovar em termos de direito constitucional? Já os outros casos que você cita não são fracassos nossos: Doha ninguém ganhou, ali ou todos ganham ou todos perdem, o G20 ainda tem muito chão pela frente para que se possa dizer se pegou ou não (o G2 dos quais um deles não quer já foi detonado em comentário anterior) e as questões do clima caminham a passo de cágado há muito tempo, fazem quase 20 anos da Rio 92, alguém se lembra? Mesmo quanto ao discurso de Lula na Alemanha é cedo para se fazer uma avaliação, o Irã continuará freqüentando o noticiário com assiduidade por um bom tempo. A fragilidade do argumento é fácil de enxergar: qualifica-se como derrota nossa o ritmo lento das decisões no mundo da diplomacia. Para acentuar o contraste você atribui a Lula intenções megalomaníacas que ele nunca afirmou: ser “líder invencível dos pobres na luta contra os ricos” ou afrontar quem quer que seja. Assumir a o lado dos “pobres” em suas pendengas com os “ricos” é menos que a obrigação, é uma imposição do contexto, não fazemos parte do mundo “rico”, mas ninguém se diz invencível. A única alternativa é assumir a pose de neutralidade e fazer o discurso da autodeterminação etc etc... evitando assumir responsabilidades. O objetivo de Lula é sim a política interna, a manutenção do poder, mas esse é um objetivo legítimo, não implica que a maior presença brasileira no exterior não seja um fato positivo. Desqualificar o objetivo do presidente serve apenas para tentar transformar um êxito evidente em algo repulsivo, o mesmo que quis fazer o PT com o plano Real... ou você acha que o primeiro objetivo de Fernando Henrique Cardoso à época foi combater a inflação? Mas essa tal democracia não é para isso mesmo, escolher quem faz melhor?

terça-feira, 15 de dezembro de 2009 11:09:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alberto099 (31) (15/12/2009 às 11h09min00s BRST),
Muito bom seu comentário. E me chamou bastante a atenção o final em que você diz:
"Desqualificar o objetivo do presidente serve apenas para tentar transformar um êxito evidente em algo repulsivo, o mesmo que quis fazer o PT com o plano Real... ou você acha que o primeiro objetivo de Fernando Henrique Cardoso à época foi combater a inflação? Mas essa tal democracia não é para isso mesmo, escolher quem faz melhor?"
Ai você chegou quase a perfeição. Tenho, entretanto, três observações a fazer. No caso da realização do Plano Real em época de eleição houve mesmo economistas do PSDB que prestavam assessoria ao governo de Hélio Garcia que previram que o Plano Real teria vida curta dado a natureza eleitoral dele. Para muitos do PT que fizeram crítica ao Plano Real a origem da crítica era a possibilidade do calote eleitoral. Uma crítica sensata sem caráter repulsivo
Segundo é sem deixar de reconhecer que houve muitos no PT que criticaeam o Plano Real por inveja, o senador Eduardo Suplicy, que não faz parte dos políticos que eu admiro, fez um ótimo artigo na Folha de S. Paulo defendendo a idéia que se estabelecesse na Constituição o impedimento a se fazer plano econômico em época de eleição. Uma crítica sensata e não repulsiva ao êxito do plano Real.
E terceiro há muitos, alguns como eu que não são petistas ou pelo menos que não eram à época, embora sob o aspecto econômico eu seja leigo, que consideram errado acabar com a inflação de uma vez em países de elevada população e de dimensões continentais, de usar esse modelo de acabar com a inflação em época eleitoral (um pouco dentro da lógica de Eduardo Suplicy, mas analisando mais pelos efeitos econômicos negativos que o uso eleitoral do plano de estabilização pode acarretar) e que alertavam para o risco de o país eleger à custa de um plano econômico alguém que nunca tivera a experiência de chefe de executivo.
E há mais um ponto a ser considerado. Ressalto mais uma vez que sou leigo, mas não considero importante sob o aspecto econômico (considero importante sob o aspecto democrático) ter no país inflação de primeiro mundo. Relembro um embate que se deu nas páginas da Folha de S. Paulo entre José Júlio Senna e Inácio Rangel em que Inácio Rangel rebatia a crítica que se fazia a inflação como sendo a grande inimiga da classe trabalhadora dizendo que o maior inimigo da classe trabalhadora é o desemprego. Para mim uma inflação decrescendo paulatinamente em 20 anos de 50% ao ano até uma inflação de primeiro mundo era o ideal (Não sei se era factível em um regime democrático como mostra a inflação de 30% ao ano que a Colômbia teve durante um bom tempo e com alto crescimento econômico, mas com guerrilha dividindo o país).
Nos meios técnicos há trabalhos provando que inflação em torno de 8% ao ano seria o ideal para países em desenvolvimento. No Valor Econômico esse ano José Luis Oreiro fez um artigo com uma resenha dos trabalhos que apresentavam essa visão teórica
Clever Mendes de Oliveira
BH, 15/12/2009

terça-feira, 15 de dezembro de 2009 23:32:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

De todo modo, houve no PT quem elogiasse o Plano Collor, afirmando que as idéias do partido foram incorporadas no referido congelamento de ativos financeiros em 1990, para acabar com a ciranda financeira.

Swamoro Songhay

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009 09:18:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (16/12/2009 às 09h18min00s BRST).
Sim, também em relação ao Plano Collor houve essa dubiedade do PT. Aliás, dubiedade que o faz apenas parecido com o seu semelhante que tem a mesma origem na USP. Não me lembro bem a data, mas ainda no início do Plano Real, com tudo dando muito certo, um jornalista da Folha de S. Paulo temendo que algo desse errado contou a história de uma conversa que ele teve com um economista do PSDB e em que ele mencionou o alerta de Milton Friedman de que não há almoço grátis e o economista do PSDB respondeu para não se preocupar porque Fernando Collor já o havia pago.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/12/2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009 20:50:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Interessante Clever. Na época não aparentava dubiedade. Aparentava mesmo forte convicção.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009 11:08:00 BRST  
Anonymous Frank disse...

Alberto disse: “A única alternativa é assumir a pose de neutralidade e fazer o discurso da autodeterminação etc etc... evitando assumir responsabilidades.”

Bom, esse é o fio condutor PE brasileira desde o 2º governo militar – temperado por nuances e discursos mais ou menos incisivos.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009 12:07:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (17/12/2009 às 11h08min00s BRST),
As palavras nos enganam, não é? Talvez eu tenha usado o termo dubiedade pela origem comum de PT e PSDB lá na USP. Tenho, entretanto, de reconhecer que não era o termo adequado. Se o PT tinha um defeito era de ser convicto. O PSDB não, era um partido cheio de dubiedades, salvo o José Serra que sempre foi um convicto, senão a mesma convicção do PT, pelo menos no mesmo nível de intensidade.
O que queria me referir ao usar o termo dubiedade era a dupla visão dos economistas do PT, os que eram contra e os que eram a favor. É bem verdade que me pareceu haver mais os que eram a favor, com críticas.
O PSDB ficou na muda, mudo, e só mais à frente é que se tirou esse argumento que o jornalista da Folha de S. Paulo apresentou da boca de um psdbista. Sobre o PSDB é preciso haver um estudo mais detalhado para se explicar a exstência de duas personalidades tão distintas como José Serra e Fernando Henrique Cardoso. José Serra a convicção em pessoa. Fernando Henrique um surfista de primeira. Vem a onda da Globalização, ele não sabe em que ela está indo e lá está ele surfando. Daí que foi muito tirar essa observação sobre o pagamento do almoço pelo Collor da boca de um economista do PSDB
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/12/2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 00:22:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Esclarecido Clever. São observações adequadas principalmente quando há necessidade de exigir muito dos que se arvoram na pretensão de governar um país. É importante ter o registro histórico para, ao menos, tentar impedir alguma vontade de reescrita.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 10:46:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Clever, para fazer algum sentido qualificar uma iniciativa qualquer do governo de eleitoreira, deve haver implícita também uma avaliação negativa dessa iniciativa, se não, como eu dizia no comentário anterior, serviria para qualquer iniciativa do governo. Assim, seja quem for que chamou o plano Real de eleitoreiro, ou temeu um calote eleitoral, tinha uma avaliação de que o plano logo se frustraria. O PT, a parte informada do PT, sabia que não era o caso, mas não tinha discurso político alternativo, então a intenção era mesmo tornar odiosa uma iniciativa de sucesso do governo. Não sei se você vivenciou já como adulto os Planos Collor e Real, a inflação na época, principalmente nos patamares pós Plano Cruzado, de 1986, não admitia alternativas, lembro do Serra ter declarado, antes da posse do Collor, que o novo presidente teria apenas uma chance. Claro que o PT gostou do Plano Collor, é o típico plano de esquerda, em que o Estado resolve tudo do alto de sua soberania, apenas que à época o plano foi bem recebido em geral (essa coisa de criticar o Plano Collor e sua “violência” veio depois, depois que ele fracassou, claro, mas principalmente depois que, desacostumados da inflação, perdemos o contexto em que foi adotado). A única pessoa que lembro ter demonstrado forte contrariedade com os termos do Plano Collor foi o ex-ministro Simonsen. A diferença entre os Planos Collor e Real não dizem respeito à competência de uns e outros, mas à situação econômica internacional, quando Collor assumiu, não havia as reservas internacionais que Fernando Henrique encontrou, tenho plena convicção de que se encontrasse os dólares que havia no Real, a ministra Zélia teria feito algo parecido e provavelmente bem sucedido. A heterodoxia econômica não fazia sucesso porque fosse uma solução melhor, era a única... desculpe se esse texto parece agressivo, é apenas falta de tempo, já queria ter me manifestado antes sobre o seu comentário e seu diálogo com Swamoro. Abs. PS – não vejo qualquer vantagem em uma taxa mais elevada de inflação, os “heterodoxos” que sobraram estão cada vez mais isolados e não terão audiência em partido político relevante algum, minha opinião claro.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 17:22:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Frank, pois então, uma alternativa para o "protagonismo" atual, certo? Uma boa conversa também para justificar a inércia, né não?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 17:25:00 BRST  
Blogger Cadu Lessa disse...

Alon,

Você escreveu no texto:

"Lula gingou, mudou sua posição sobre as metas de emissão de carbono para posicionar-se como o líder mundial da luta contra as mudanças climáticas, mas o Brasil não deixou de ser tratado como coadjuvante nos debates sobre o aquecimento global."

Depois do que aconteceu na COP-15, você ainda acredita no que você escreveu?

Abraços e boa tarde,
@cadulessa

sábado, 19 de dezembro de 2009 14:22:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alberto099 (18/12/2009 às 17h22min00s BRST),
Talvez o que eu tenha a dizer origina-se de uma velha antipatia que tenho pelo FHC, mas como é assim que eu penso a longo tempo e como de certo modo discordo do seu comentário, faço aqui o meu contraponto.
Se nos apagarmos às palavras talvez não seja correto dizer que uma iniciativa eleitoreira implica uma avaliação negativa da iniciativa. Não há muitas palavras para tratar desse assunto. Um termo substituto, que seria eleitoral, parece-me um termo amorfo, um tanto técnico, que não permite nem uma avaliação negativa nem uma avaliação positiva. O governo editou uma lei eleitoral não diz nada sobre a lei a não ser que ela trata sobre o processo eleitoral.
Já o termo eleitoreiro carrega a idéia de uma iniciativa do governo ou da oposição para proveito próprio, em que a iniciativa pode ser avaliada como uma iniciativa boa ou ruim. O governo editou uma lei eleitoreira (A divisão do Mato Grosso (visando aumentar a quantidade de representantes conservadores), a união do Estado da Guanabara (Antigo Distrito Federal) com o estado do Rio de Janeiro (visando diminuir a quantidade de representantes modernizantes)) foram iniciativas eleitoreiras, que nem por isso podem ser avaliadas antecipadamente como de caráter negativo. Assim, a meu ver, considerar que chamar o Plano Real de eleitoreiro significa fazer uma avaliação negativa do Plano não é uma afirmação com base lógica.
Agora seguramente que eu faço uma avaliação negativa dos resultados do Plano Real. É questão que eu me proponho desde o início: avaliar se o Plano Real foi um plano bom ou foi um plano ruim? Proponho a mim mesmo porque sei que essas avaliações são todas ideológicas. Jamais a humanidade irá descobrir um mecanismo, um aparelho, um método capaz de informar com precisão se tal medida é boa ou é ruim. É claro que nas nossas avaliações buscamos alguma objetividade para podermos dizer que a nossa avaliação é técnica, imparcial, neutra, mas a verdade é que na própria escolha do método revelamos nossa ideologia (ou as nossas pequenas idiossincrasias que no meu caso é uma antipatia em relação a FHC e certo menosprezo pela arrogância autoritária da presunção da sapiência tucana).
Para a minha ideologia, sob o aspecto econômico penso que o Plano Real foi ruim. Sob o aspecto político, eu tenho que concordar que com inflação é muito difícil a construção de instituições democráticas e nesse sentido o Plano Real foi muito bom. E foi bom também para quem tem a ideologia de esquerda e sabe que mais de 16 anos depois uma disputa eleitoral vai ser decidida entre dois candidatos de esquerda que em condições normais não teriam nenhuma condição de disputar a presidência pela absoluta falta de carisma. Aqui também fico um pouco em dúvida. Será que o carisma não constitui um ingrediente importante do processo democrático e que essas fórmulas, construídas em laboratórios, deformam o processo, tornando-o pior?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 05/01/2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 08:40:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alberto099 (18/12/2009 às 17h22min00s BRST),
A avaliação que faço do Plano Real sob o aspecto econômico não é uma avaliação técnica, pois sou leigo em economia, mas é uma avaliação feita por quem acompanha há muito tempo a economia brasileira, buscando entender as causas dos sucessos e dos fracassos e saber se os sucessos são realmente sucessos e os fracassos são realmente fracassos.
O grande mérito do Plano Real foi ter acabado com a inflação. Quando o Plano Real fez isso restaram no mundo apenas: a Colômbia (com inflação em torno de 30%), a Turquia (com inflação de mais de 50%) e o Zimbábue (com hiperinflação) com inflação elevada. É um feito circunscrito à época e questionável também nos benefícios que uma inflação baixa traria a um país como o Brasil
Para mim se o governo de Itamar Franco tivesse dado continuidade a política de combate a inflação do Marcílio Marques Moreira do final do governo Collor talvez nós tivéssemos acabado com a inflação com menos custos para o Brasil (A dívida pública teria subido menos, a retomada de crescimento seria mais consistente e permanente, etc). E se ao invés de acabar com a inflação deixássemos a inflação em um patamar mais adequado para país em fase de expansão do crescimento econômico o Brasil poderia voltar a crescer mais cedo e mais rapidamente; (Trouxe esse ponto sobre o índice ótimo de inflação apenas como uma questão a merecer referência, mas sem querer essa outra discussão ideológica aqui para esse comentário). Ao se adotar um plano econômico em época de eleição com objetivo eleitoreiro, não se pôde reduzir o consumo. A redução do consumo elevam as críticas a um Plano Econômico o que poderia reduzir a quantidade de votos. Com maior consumo houve maior pressão inflacionária que para ser combatida sem repercutir eleitoralmente de forma negativa precisou de sobrevalorizar o Real com todas as conseqüências que a sobrevalorização causou a economia brasileira.
Enfim avalio negativamente o Plano Real, mas não creio que só se pode chamar uma iniciativa governamental como eleitoreira se o resultado da iniciativa for negativo. Por uma porque esse não é o sentido da palavra e por duas porque nós nunca podemos ter certeza sobre se o resultado de uma iniciativa é positivo ou negativo. Para cada ideologia e em cada época há uma avaliação diferente. A avaliação sobre, por exemplo, a iniciativa da construção de Brasília será elogiada e criticada sem nunca se chegar a uma conclusão definitiva.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 05/01/2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 08:58:00 BRST  

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