quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Um gol do Itamaraty (12/11)

Não é razoável que o Lula fique excessivamente identificado com Mahmoud Ahmadinejad. Daí a bola dentro com essa agenda multicor

A diplomacia brasileira marcou um gol de placa ao conseguir programar na mesma época as visitas aqui dos presidentes de Israel, do Irã e da Autoridade Palestina. Para um país que busca cadeira permanente do Conselho de Segurança da ONU, é demonstração de densidade diplomática no mais alto nível.

A projeção da força do Brasil nos assuntos internacionais tem sido quase uma obsessão do presidente da República. É um bom projeto, que busca corrigir a óbvia assimetria entre o que somos de fato e nossa influência, ainda relativamente reduzida. Quando executado com profissionalismo, merece aplauso e alcança resultado.

Mas, o que é “profissionalismo”? Em primeiro lugar, compreender que papel internacional não é o direito irrestrito de se meter na vida dos outros e ditar regras ao alheio. Em Honduras, colhemos infelizmente os frutos de uma ação atrapalhada, que no começo se baseou em inteligência precária e depois evoluiu para a irrelevância.

Já a agenda levantina está montada com base nas melhores tradições do Itamaraty. O Brasil não é parte diretamente envolvida nos conflitos do Oriente Médio, defende o direito de todos os povos locais à autodeterminação em seu Estado nacional próprio e pode servir como ponte para diálogo entre países que hoje são inimigos. Tampouco temos contencioso com o Irã.

Mais: o Brasil não tem qualquer interesse em que o conflito ali seja transplantado para a América do Sul. Se acontecer, será uma derrota na construção da unidade continental, peça central do projeto nacional brasileiro. Como mostram os acontecimentos recentes entre Venezuela e Colômbia, cada rachadura no bloco é uma nova oportunidade para países de fora virem meter o bedelho.

A agenda de visitas destes dias também é competente para tirar Luiz Inácio Lula da Silva de uma arapuca.

O Brasil deseja estreitar os laços com o Irã, o que é visto com simpatia na Casa Branca. Esse movimento disputa espaço com a aliança entre Teerã e Caracas. E coloca o Brasil como interlocutor legítimo no debate sobre as reais intenções de Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad ao aproximarem seus dois países.

O projeto da atual cúpula iraniana — cada vez mais contestada internamente — é conhecido: levantar a bandeira da eliminação de Israel como estado judeu, fazendo desse objetivo um vetor de ampliação da influência regional. Para reforçar seus argumentos, Teerã cuida também, com carinho, de desenvolver tecnologia nuclear própria. O Irã afirma que ela será usada para fins pacíficos, mas é razoável haver dúvidas.

Será péssimo para nós se a aliança entre Chávez e Ahmadinejad evoluir para algum tipo de nuclearização da América do Sul. Uma corrida bélica regional nesses moldes seria o túmulo do nosso projeto de liderança. Que sirva de alerta o que aconteceu em Honduras, quando caímos na irrelevância e vimos a reinstalação — sob aplausos gerais — do diktat americano.

Então, é razoável que o Brasil adote uma política ativa diante da Venezuela, integrando-a no Mercosul, e do Irã. Não é razoável, porém, que Lula fique excessivamente identificado com Ahmadinejad. Daí o gol marcado pelo Itamaraty com essa agenda multicor.

Brasil, capital Buenos Aires

A produção industrial deve fechar este ano 9% abaixo de 2008, no acumulado. Mesmo que cresça por volta do mesmo tanto em 2010, apenas alcançará o patamar anterior à crise. Serão dois anos perdidos. Metade de um mandato presidencial.

O governo festejou ontem números a sair do forno, mostrando bom crescimento da economia no terceiro trimestre. Tomou o cuidado de anualizar o cálculo, para apresentar um algarismo gordo.

Do que o governo falou com menos entusiasmo? Das notícias de desaceleração no quarto trimestre, por causa exatamente do câmbio, que funciona como uma trava às exportações. A taxação recente da entrada de capitais — tão festejada — resultou em nada, ou quase nada.

Enquanto isso, o Enade deu de barato que houve a tal “marolinha”, recorrendo à autoridade da “imprensa internacional”. Se amanhã, digamos, o New York Times publicar uma reportagem dizendo que a capital do Brasil é Buenos Aires talvez a turma do Enade adote a informação como correta em seus testes.

Números inconsistentes

O Ministério do Trabalho diz que o saldo de empregos formais em 2009 será positivo em 1 milhão. Contra 1,5 milhão ano passado.

Só que em 2008 o Brasil cresceu acima de 5%. Deveria então ter criado muito mais empregos. Ou bem menos este ano.

São números inconsistentes, que merecem uma explicação.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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2 Comentários:

OpenID colosseum2008 disse...

Você é que marcou um golasso com esse post. Parabéns Alon!

Em especial:

"Será péssimo para nós se a aliança entre Chávez e Ahmadinejad evoluir para algum tipo de nuclearização da América do Sul. Uma corrida bélica regional nesses moldes seria o túmulo do nosso projeto de liderança."

Essa eu realmente não vi chegando.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009 17:48:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A imagem do presidente brasileiro, na ocasião, jogando uma pá de cal no buraco onde, parece, seriam realizados testes de artefatos nucleares parece ter sido perdida na memória. E o desarmamento de ânimos belicosos entre Argentina e Brasil, onde pontificaram os respectivos presidentes de então, idem. Ou a intervenção dos presidentes do Brasil e da Argentina à uma pendenga golpista no Paraguai,forçando a volta à ordem democrática, idem. A devolução ao Paraguai da espada de Solano López, idem. A ação diplomática na Venezuela em 2002, idem. Parece ter chegado a hora, novamente, de recolherem-se as carrancas e dar cobro a arroubos belicistas na região. Talvez, uma boa medida seria dizer que ninguém vai roubar o nosso pré-sal. E que se houver alguém que queira, nem com todas as armas mais modernas seria possível defendê-lo. Ou dizer que a maior arma do Brasil é não gastar recursos parcos com a criação de inimigos fantasmagóricos, externos ou internos. Ou ainda, que fantasmas, só os do folclore, tipo saci, mula sem cabeça, lobisomem, boi tatá, Iara, curupira. Contra estes, as maiores armas seriam escolas, professores, livros. Dai, talvez, a convivência com eles seria pacífica. Ou, o melhor, dizer clara e candidamente que nas guerras não há lado bom ou ruim, que nelas morrem pessoas jovens, estraçalhadas, calcinadas. E que as que sobram estarão totalmente em frangalhos, mutiladas, inermes. Ai sim, poder falar em liderança e protagonismo.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 12 de novembro de 2009 13:51:00 BRST  

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