sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Surpresas são difíceis de prever (27/11)

De todos os números, qual o mais importante? O mano a mano do segundo turno, o termômetro da polarização entre Dilma e um tucano

Desconfiar da informação que chega é essencial nesta profissão. Daí por que não cabe aos jornalistas torcer o nariz para políticos que desconfiam de pesquisas. Ciro Gomes reagiu à última Sensus/CNT com coerência. Mostrou desdém, mesmo com o resultado supostamente bom para ele. É uma notável exceção.

Políticos adoram pesquisas favoráveis —e detestam as desfavoráveis. O caso mais agudo na minha lembrança é um do comecinho de 2006, quando Luiz Inácio Lula da Silva apareceu pela primeira vez em muito tempo na frente de José Serra, segundo a mesma Sensus/CNT. Tucanos reagiram com fúria, apenas para enfiar a viola no saco um pouco mais adiante.

Desenvolvi meu método para desconfiar das pesquisas: acredito em todas. Há quem busque a pesquisa 100% certa (uma contradição em termos, diante da margem de erro). Eu procuro tentar achar em cada uma o que ela possa ter de verdadeiro. A pesquisa absolutamente errada é tão improvável quanto a completamente fiel. Então sempre há algo que se aproveite. Trata-se apenas de garimpar.

Mesmo a pesquisa fajuta tem sua utilidade. Nem que só para conhecer o que motivou a fabricação. Felizmente, o mercado de pesquisas profissionalizou-se bastante nos últimos anos, especialmente nos períodos eleitorais, quando os levantamentos se submetem a uma legislação algo rigorosa.

A lei dos grandes números também ajuda. Se você olhar para uma quantidade suficiente de pesquisas, acabará chegando a um ponto próximo da realidade. Minha sugestão para quem aprecia o assunto é esta: colecionar e seguir o máximo de pesquisas possíveis.

E o que observar então nos próximos números presidenciais?

Um detalhe é como e quanto Dilma Rousseff vai chegar em José Serra (ou por quanto irá eventualmente ultrapassá-lo) num primeiro turno sem Ciro Gomes. Outro detalhe é o ritmo de crescimento de Aécio Neves, com que velocidade o mineiro chega no potencial de votos mínimo de um candidato da oposição, cerca de 40% dos válidos. Outro ainda é como se estreita a margem entre Serra e Dilma num eventual segundo turno.

São todas coisas que vão acontecer, com alguma certeza, à medida que a taxa de conhecimento efetivo dos candidatos começar a nivelar-se. E à medida que os eleitores começarem a prestar mais atenção na corrida presidencial.

Outra providência boa é cultivar algum ceticismo diante dos motivos apresentados para eventuais oscilações. Dilma deu uma estagnada tempos atrás, depois que mergulhou. Disseram que foi por causa do caso Lina Vieira. A mim soou, com todo o respeito, um chute.

Ela caiu porque sumiu. Tanto que voltou a crescer quando reapareceu. Serra vem perdendo alguma substância, aproximando-se do estoque real de votos dele. Disseram que tem a ver com a associação a Fernando Henrique Cardoso. Outro chute. Mais provável que tenha a ver com o ânimo geral. E o fato é que Serra vinha meio escondido.

A última Sensus/CNT mostrou Dilma em leve alta. Coincide com a melhora no ambiente econômico. Outra coisa útil de acompanhar são os índices de confiança do consumidor. Com algum atraso, sua tendência acaba se refletindo na avaliação do governante. Avaliação que influi nos números da eleição.

O que não é chute para 2010? O óbvio. Que a polarização deve se dar entre um candidato do PT e outro do PSDB. É inimaginável que Lula não leve sua candidata ao segundo turno. E por enquanto nem Ciro nem Marina Silva mostram musculatura para deslocar o tucano que entrar na corrida.

E qual é o número mais importante? Talvez o mano a mano do segundo turno, o termômetro da polarização. Se todo mundo sabe que no fim das contas a parada será decidida entre Dilma e um peessedebista, que se monitore o cenário de uma eventual segunda rodada. É o que vou procurar fazer.

Pode haver surpresas? Sempre pode. Mas se existe algo difícil de prever são as surpresas.

Acacianas

A Venezuela e o Brasil não reconhecerão um eventual governo de Honduras saído da eleição marcada para este fim de semana. Os Estados Unidos reconhecerão. Cada um na sua.

É uma diferença que vai se propagar, especialmente na América do Sul. Com o tempo, todos os países irão alinhar-se. Uns de um lado, outros do outro. A unidade continental terá virado ficção.

Lula e Hugo Chávez liderarão um bloco que vai tratar Honduras como pária. Do jeito que os Estados Unidos se habituaram a tratar Cuba.

Como diria o Conselheiro Acácio —que bem poderia ter sido o autor do título desta coluna—, uma particularidade das consequências é que elas vêm depois.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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8 Comentários:

Anonymous Paulo Drummond disse...

O diabo do vaticínio... me faz lembrar um autor de boas frases e anedotas: Itararé. E lembrando o Barão, lembro de uma de suas muitas, em que dizia "de onde menos se espera, daí é que não sai nada." Pode ser.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009 00:39:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

"É inimaginável que Lula não leve sua candidata ao segundo turno". Como era o Brasil fora da final na copa de 2006.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009 09:31:00 BRST  
Anonymous Felipe Faria disse...

Ver o Brasil rugindo para os EUA sem nem mesmo um vaso de guerra que chegue em Honduras é absolutamente cômico.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009 10:30:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Sobre a questão Honduras o que mais se percebe são carrancas, discursos furibundos e até belicistas. Já ficou claro que nada foi resolvido com tais arroubos. Então cabe perguntar: até quando, onde e por que pretende-se levar a agudização da crise naquele país? As eleições podem ser uma oportunidade de sair do enrosco. Se não, ou não válidas e podem até não serem, porque não credenciaram-se adequadamente para a mediação e propuseram algo possível dentro das circunstâncias para o apaziguamento? E também de nada adiantará peitar o Obama e nem é preciso explicar as razões pelas quais isso também não adiantará e não trará resultados. Repito, as carrancas e os discursos furibundos não resultaram em nada.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 27 de novembro de 2009 11:30:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

O que interessa para o povo hundorenho?

Honduras a curto prazo é um cabo de guerra entre interesses estrangeiros: Os EUA não querem governos nacionalistas ("bolivarianos"). O Brasil e demais países da região querem um governo mais afastado do internacionalismo globalizado pregado pelos EUA e mais próximo da agenda de desenvolvimento nacionalista dos vizinhos.

A médio prazo a história é outra, pois depende da satisfação popular para não desandar em rebeliões futuras.

É um dos países mais pobres e fortemente dependente da economia dos EUA: de tudo o que exporta, 70% é para os EUA, e de tudo o que importa, 55% vem dos EUA. A questão é que essa parceria comercial é necessária no contexto atual mas não tem sido nada proveitosa para o povo hondurenho ao longo da história.

Pauta de exportação: café, bananas, camarões, lagostas, carne, zinco e madeira.

Se os EUA conseguissem promover desenvolvimento economico e social em Hunduras, como aconteceu com a Coréia do Sul (em grande parte por mérito dos coreanos), será uma vitrine para propagandear sua política diante dos vizinhos El Salvador, Nicarágua, Guatemala e toda a América Latina, contendo o bolivarianismo.

Se continuar na política imperialista de tratar como república de bananas, e apenas usá-la como bucha de canhão contra o "bolivarismo", sem levar desenvolvimento, será questão de tempo para outro governo "bolivariano" assumir, diante da perpetuação da pobreza, e da melhoria dos indicadores sociais nos países vizinhos "bolivarianos".

O bolivarianismo trouxe desenvolvimento social em todos os países em que foi implantado, com melhorias significativa nos indicadores sociais (alfabetização, mortalidade infantil, expectativa de vida, índice GINI, etc). Do ponto de vista de desenvolvimento econômico também há melhorias, mas em velocidade menor do que o desejado, seja por aventureirismo atabalhoado na vontade política, seja porque interesses econômicos de países imperialistas contrariados boicotam novos atores econômicos concorrentes.

Seja um governo submisso aos EUA, seja outro, humanitariamente o Brasil está certo em pressionar (nem que seja esperneando). Se os EUA quiser manter sua influência na região, que pelo menos traga desenvolvimento junto com o porrete. Do contrário um governo nacionalista voltará em breve vencendo eleições como aconteceu nos demais países.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009 13:26:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

"Lula e Hugo Chávez liderarão um bloco que vai tratar Honduras como pária." [por não reconhecer o novo governo]

E qual a alternativa?

Apoiar um governo onde não houve eleições livres (houve tutelada) subjugado aos interesses dos EUA, que os trate como párias economicamente? Aceitar retroceder à política da república de bananas?

sábado, 28 de novembro de 2009 12:26:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Concordo com o seu comentário. Saliento apenas algumas observações, conhecimentos e constatações já antigas que eu adquiri e aprendi ao longo do tempo sobre as pesquisas de um modo geral.
O nome da instituição de pesquisa é o fator principal em jogo em pesquisas, Todas querem ter um bom nome na praça. Quanto mais certa estiver uma pesquisa melhor para o nome da instituição de pesquisa. O erro isolado pode ocorrer. E alguém pode ganhar com isso.
A pesquisa influência, mas há também o ditado que diz como é incrível a força que adquire aquilo que tem de acontecer.
As pesquisas dizem a verdade, mas elas podem ser manipuladas. Por volta de 10 de março de 2009, o IBGE informou qual foi o PIB do quarto trimestre de 2009. Não houve nenhuma pesquisa uma semana antes. Houve várias pesquisas uma semana depois. Todas elas foram influenciadas pela forma altamente crítica como a imprensa transmitiu a notícia da queda do PIB provocada pela crise, ridicularizando a idéia de marolinha que Lula tentou transmitir. A crise foi realmente mais séria do que imaginara. Os dados do PIB só não me surpreenderam mais porque em 13 de fevereiro eu fiquei sabendo da queda da receita em Minas Gerais e em Minas foi onde a crise atacou mais fortemente.
Só que no primeiro trimestre a crise já havia acabado e o país já começava a se recuperar. Para a população a percepção da recuperação era o mais importante na avaliação que ela fazia do governo. Recuperação que estatisticamente só seria conhecida quando da divulgação do PIB do 2° trimestre de 2009, ou seja, por volta de 10 de setembro.
Todos os jornais juntos falando mal do presidente e ancorados em dados estatísticos e não há popularidade que sobreviva. Se tivesse havido pesquisa uma semana antes da divulgação do PIB daria para saber o poder da imprensa. Escolher o período da pesquisa é uma das formas mais discretas de as manipular.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 28/11/2009

sábado, 28 de novembro de 2009 21:48:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Outro ponto sobre as pesquisas é a crença em certo meio mais ingênuo de que as pesquisas e os resultados eleitorais medem a capacidade gerencial de um governante. A máxima ensinada por catedráticos de que “governo bom fica, governo ruim o povo tira” exatamente por vir da academia e por aparentar uma valorização da democracia, foi rapidamente introjetada pelos de opinião formada.
Essa máxima surgiu com força quando da campanha do parlamentarismo. Teve entre os apoiadores o PSDB e o PCB. O PSFB, excetuando a turma mineira, o José Richa e o Franco Montoro, foi formado por intelectuais da academia com formação marxista. Eles não acreditam na frase que cunharam. Voltou a ser divulgada para a aprovação da emenda da reeleição e novamente quando da reeleição de FHC
Incorporada na população a idéia de que “governo bom fica, governo ruim o povo tira”, o resultado das urnas passou a ser considerado a manifestação suprema da democracia e as pesquisas eleitorais quanto mais próximas do resultado das urnas mais que elas adquiriram o mesmo valor do resultado da urna, ou seja, revelam ou indicam a capacidade gerencial do governante ou até mesmo do candidato a governante.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 28/11/2009

sábado, 28 de novembro de 2009 22:19:00 BRST  

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