domingo, 29 de novembro de 2009

A “Suíça” da esquerda (29/11)

O Uruguai é, como a maioria do continente, um país de colonização espanhola e economia baseada na grande propriedade rural. Por alguma razão, porém, vem escapando do destino caudilhesco que seria “natural"

O Uruguai é um país pequeno, e talvez por isso as coisas dali não repercutam tanto aqui. Pena. Lembro bem como o Uruguai era motivo de admiração nossa na passagem dos anos 70 para os 80, por ter uma esquerda que combinava o pluralismo, a clareza dos princípios democráticos e a unidade de ação, na Frente Ampla (FA). O partido-frente permanece até agora e hoje deve eleger o novo presidente, José Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro de 74 anos.

Quando se preparava para disputar a indicação dentro da FA, Mujica fez um gesto bacana: deixou o comando político da facção ex-tupamara para apresentar-se como candidato de todos os frenteamplistas. E teve sucesso. Derrotou internamente Danilo Astori, o preferido do popularíssimo presidente Tabaré Vázquez. E Astori virou vice de Mujica, evitando assim que uma cisão pudesse ameaçar seriamente a continuidade do projeto. Agora, praticamente certo da vitória, Mujica fala em abrir o governo à oposição.

O primeiro líder da FA foi Líber Seregni. Curiosamente, era um general. Um velho amigo e companheiro de lutas da juventude, Pablo Magnoni, de origem uruguaia, costumava contar a piada favorita da direita na derrotada campanha eleitoral de Seregni em 1971. Com bem menos canais de comunicação do que os partidos tradicionais -o Colorado e o Nacional (Blanco)-, a FA ocupou os troncos das árvores de Montevidéu com seus banners. E virou alvo da gozação dos adversários: “Seregni, idiota, los árboles no votan.”

Nem Seregni era tão idiota assim, nem o quixotismo da FA foi inútil. E imagino que o Pablo, a quem não vejo faz tempo, deve estar contente com a nova face do seu Uruguai. É sem dúvida uma cara boa. Esquerda e direita participam do jogo político, alternando-se no poder, sem que uma aponte a possível eleição da outra como o advento do apocalipse. Melhor: cada facção opera com naturalidade -ainda que com disputa feroz- a sucessão dos líderes. São todos sinais de sanidade democrática.

Antes de mergulhar nas trevas, em meados dos 70, o Uruguai era conhecido como a “Suíça sul-americana”. A expressão ficou meio desmoralizada quando os cisplatinos foram arrastados pela onda ditatorial, mas é sintomático que após a redemocratização os elementos civilizatórios da tradição política uruguaia tenham reaparecido com força. Um belo exemplo de como certos vetores de continuidade prevalecem, mesmo nas rupturas mais radicais.

O Uruguai é, como a maioria do continente, um país de colonização espanhola e economia baseada na grande propriedade rural. Por alguma razão, porém, vem escapando do destino caudilhesco que seria “natural”. E a esquerda uruguaia é simultaneamente agente e beneficiária dessa originalidade. Sorte dela. Ou competência.

Tora! Tora! Tora!

O Itamaraty enfiou o presidente da República numa gelada em Honduras, e agora tem a obrigação de dizer qual é a porta de saída. Honduras é um país independente e precisa de um governo. O Brasil reconhecerá Manuel Zelaya como presidente mesmo após o final do mandato dele na data prevista pela Constituição? Ou vai enfiar a viola no saco e aceitar o presidente escolhido numa eleição condenada pelo governo brasileiro? Ou vai decidir unilateralmente que Honduras é um país sem presidente?

O Itamaraty também meteu o chefe do governo numa fria ao não insistir com ele num ponto importante das relações entre o Brasil e o Irã: quando Mahmoud Ahmadinejad veio para cá, teria sido desejável que o Brasil manifestasse ao líder persa, claramente, o apoio às iniciativas conjuntas da China, da Rússia e dos Estados Unidos para colocar um ponto final no impasse sobre o programa nuclear iraniano.

É razoável que o Irã controle o uso pacífico da tecnologia nuclear. É também razoável que o mundo receba garantias de que o “pacífico” é para valer. Daí a solidez da unidade de russos, chineses e americanos. Um Irã com armas nucleares seria potencialmente desestabilizador das relações na fortemente islâmica Ásia Central. Basta olhar para as repúblicas ex-soviéticas e para a tensão permanente nas minorias muçulmanas da órbita de Pequim.

Em consequência da nossa orientação diplomática, o Brasil conseguiu ficar encalacrado numa posição oposta à da aliança Washington-Moscou-Pequim. O fato é vendido como prova de “independência”. O último que teve a luminosa ideia de trilhar um caminho assim foi o Japão em 1941. Mas nós temos mais sorte: ao contrário do país em que reinava então o imperador Hirohito, não somos ameaça militar a ninguém.

Coluna (Nas entrelinhas) pubicada hoje no Correio Braziliense.

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11 Comentários:

Blogger Briguilino disse...

" não somos ameaça militar a ninguém".
Ainda bem, prá nós e para todos!

domingo, 29 de novembro de 2009 08:40:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

No caso de Honduras, a posição do Itamaraty é simples: exigir do novo governo abertura ampla e anistia geral, seguida de novas eleições realmente livres.

Do contrário irá refenderar a política na América Latina de militares despacharem presidentes eleitos de pijama para o exterior, convocando novas eleições somente com candidatos "permitidos".
Ou seja, democracia, contanto que só o lado "certo" ganhe.

A posição do Brasil de não reconhecer o resultado de eleições nestas condições não é isolada. Ao lado dela estão a União Européia, a Organização dos Estados Americanos, a maioria dos países do continente e até o Centro Carter, o mais tradicional fiador da lisura de processos eleitorais. Ao lado da posição americana, só Colômbia, Peru e Panamá.

Todos esses outros países e entes estão na mesma "enroscada" que o Itamaraty.

domingo, 29 de novembro de 2009 17:19:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Porque o Brasil teria que "claramente" ser porta-voz de Washington-Moscou-Pequim?

O Brasil disse a coisa certa: apoiou o programa pacífico, não estimulou nenhum programa bélico (pelo contrário), e colocou-se como exemplo de programa pacífico respeitando controles das agências internacionais.

Até por não ser membro da OTAN, não ter poder de veto no Conselho de segurança da ONU, nem ter a força bélica e proximidade geográfica que a China e Rússia tem do Irã, seria completamente improdutivo caber ao Brasil o papel de dar qualquer ultimato ao Irã.

O papel que o Brasil se propôs foi de distender, de ser medidador de diálogo. Não se começa nenhum diálogo com ultimatos.

domingo, 29 de novembro de 2009 17:28:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Tem uma coisa: e se o pais, o povo do pais, os militares do pais, - o pais chamado Brasil - quiser fabricar a bomba? Não seria um bom começo uma aliança de não alinhados, sobre essas potências que querem só eles mesmos possuir a bomba? Não seria legal a gente propor aos jornalistas que iniciassem um debate sério sobre isso, afinal porque só eles podem possuir uma arma de dissuação dessas? Como ficaríamos nós num cenário diferente de tensão internacional, que pode muito bem acontecer quando faltar comida ou água pra todo mundo, já que este vasto pais chamdo Brasil possui imenso potencial dessas duas necessidades absolutas do ser humano? Como os governantes desse pais poderiam colocar mostrar que o seu povo pode dormir tranquilo em algum cenário adverso? EUA, Rússia e China, em tese podem...
Ismar Curi

domingo, 29 de novembro de 2009 18:37:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

De acordo com a imprensa colombiana, o resultado da Unasul foi positivo para a Colômbia, que atingiu plenamente seu objetivo de neutralizar o governo venezuelano na sua intenção de aprovar uma condenação ao tratado de cooperação militar com os EUA.

Agora está mais claro. A Colômbia corretamente deu publicidade ao tratado no dia da assinatura. Hillary já havia enviado por escrito as garantias formais solicitadas. A carta que o Chanceler colombiano enviou para a Unasul foi pelo mesmo caminho. Importante é que ambas as cartas foram interpretadas como as tais “garantias formais” solicitadas pelo Amorim, é o que dizem ou dão a entender as reportagens que li.

Aprovou-se também importante resolução: os países do Unasul estão obrigados a dar publicidade a tratados semelhantes e a decisões de compras de material bélico. Seria conveniente que se incluísse na resolução a publicidade dos tratados de cooperação em programas nucleares, como o que assinaram a Venezuela e o Irã.

Colombia, bien librada en Unasur; no hubo resolución de condena como buscaba Venezuela

http://www.eltiempo.com/colombia/politica/colombia-bien-librada-en-unasur-no-hubo-resolucion-de-condena-como-buscaba-venezuela_6696130-1

José Mujica deu entrevista em que criticou o socialismo de Chávez (burocrático) e disse que não pretende criar nenhum tipo de polarização ideológica em seu governo.

E a cada dia vai se evidenciando que a retomada das relações entre Equador e Colômbia é para valer, seguramente a contragosto de Chávez.

Sobre Honduras, os dois candidatos melhor colocados nas pesquisas já avisaram que se eleitos eles irão a Brasília para pedir a Lula que reconheça o resultado das eleições.

No caso da visita de Ahmadinejad, ficou evidente o despreparo do Itamaraty, que deu mostras de completo desconhecimento sobre o que pensavam e faziam no âmbito da AIEA os que de fato mandam no mundo. A visita de Ahmadinejad pode ter sido bacana para a torcida, mas resta o fato de foi também outro mico internacional.

O governo brasileiro, ao que parece, não soube interpretar corretamente o aviso de Obama (22/11). Em 27/11, e logo depois da visita de Ahmadinejad (23/11), a AIEA votou a dura resolução condenatória ao programa nuclear iraniano. 35 países votaram. 25 países foram favoráveis. Três foram contra: Venezuela, Malásia e Cuba. O Brasil absteve-se! Ficou ao lado dos influentes Afeganistão, África do Sul, Egito, Paquistão, e Turquia.

domingo, 29 de novembro de 2009 21:48:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Enquanto o ex-presidente hondurenho permanece no prédio da embaixada brasileira em Tegucigalpa, com chances de restituição, agora, ainda mais remotas, o possível vencedor do pleito acena ao Brasil por apoio. A não ser que haja alguma inspiração, melhor do que as anteriores, o enrosco diplomático parece que vai continuar.

Swamoro Songhay

segunda-feira, 30 de novembro de 2009 09:55:00 BRST  
Anonymous Gualter disse...

Se o propósito da diplomacia brasileira é o de escantear-se junto a Venezuela, Bolívia, Irã, Coréia do Norte e assemelhados, o sucesso está chegando a galope.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009 10:35:00 BRST  
Anonymous Terêncio Mirândola disse...

Diz o proprietário do blog: "uma visão democrática, nacional e de esquerda". Me esforço, como diria o conde de miramontes, para entender as visões postas. Como em determinados blogs, a "censura", também, apelada de moderação, corre a critério do dono. É democrático isso, Alon? Veja, fiquei e fico surpreso, que não se revele conteúdo de uma modesta observação/comentário quando nem ofensa mesmo existe a quem quer que seja.
Como François Marie Arouet, eu, Mirândola, prostro-me diante do altar de Verdade.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009 10:41:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

No que respeita às questões armamentistas, de nada adianta criarem-se cenários tipo "Mad Max" ou "2012" para justificar a fabricação de artefatos nucleares ou armar-se agressivamente com material bélico convencional. Afinal o Brasil é ameaçado
nuclearmente por quem? E armar-se convencionalmente contra quem e por quê? Num cenário de cataclismas, arsenais de armas ofensivas ou defensivas serviriam para quê? Ainda sobre Honduras, há quem pergunte: e o povo de Honduras? Pois bem, pelo que se sabe, o povo de Honduras está sendo penalizado por bloqueios de ajudas internacionais, piorando, em muito, a situação que já não era boa. Não reconhecer a eleição? Então reconhece o quê? Alguma coisa tem de ser colocada em foco para ajudar na distensão política que afeta a economia e o sossego do hondurenhos.

Swamoro Songhay

segunda-feira, 30 de novembro de 2009 10:53:00 BRST  
Blogger Roberto Torres disse...

Para porta voz dos "aliados" em dar licao de moral no ira basta a alemanha.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009 12:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

tipo ,mais minha pergunta nao foi respondida por que uruguai ficou conhecida como suiça sul americana

sexta-feira, 21 de maio de 2010 10:54:00 BRT  

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