terça-feira, 3 de novembro de 2009

O patriotismo de Mandela (03/11)

Em vez de tentar a perpetuação no poder, o sul-africano preferiu apostar na construção de instituições. É um tipo raro de líder

Vem aí um filme imperdível: Invictus. Com Clint Eastwood na direção, Morgan Freeman é o Nelson Mandela, já presidente da África do Sul, que vê na seleção nacional de rúgbi um meio para unir o país. Seu instrumento é Francois Pienaar (Matt Damon), o capitão branco, africâner e loiro do time. Os africâners, para quem não sabe, são um grupo descendente principalmente de holandeses e alemães, e estiveram na trincheira mais feroz da resistência contra o fim da segregação racial.

Claro que filmes sempre dão uma maquiada nos acontecimentos, mas a história parece ser boa mesmo. Até por levar ao cinema certa característica essencial do Mandela estadista. Depois da longa luta contra o apartheid, ele optou por perseguir a união nacional. Se a África do Sul sucumbisse às divisões raciais, tribais e de classe, os negros recém-libertos da escravidão moderna pouco teriam para usufruir e comemorar.

O contraste imediato é com o Zimbábue, a antiga Rodésia. A interminável discussão sobre o papel do indivíduo na história. A África do Sul deve dar graças por ter tido um Mandela, enquanto o Zimbábue vive a tragédia de ter posto seu destino na mão de um Mugabe. Porque Mandela colocou o projeto de uma pátria democrática e justa acima da ambição de poder pessoal. Robert Mugabe, é óbvio, seguiu pelo caminho oposto. Os resultados práticos estão aí para quem se interessar.

Eu disse que filmes costumam maquiar a vida. Espero que, ao fazê-lo, a nova película (nome antigo) sobre a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva não tenha comprometido o conjunto da obra. Filmes produzidos no calor dos acontecimentos históricos que retratam correm sempre o risco de perder substância conforme passam os anos, e conforme muda a meteorologia política.

Volto a Mandela. É quase inacreditável que, no poder, ele não tenha feito qualquer movimento para se perpetuar. Ainda que tivesse toda a legitimidade para tentar a perenização. O contraste com o cenário sul-americano é estridente. Nenhum líder continental tem aqui uma biografia que faça nem cosquinha na do ex-líder guerrilheiro, ex-preso político e ex-presidente sul-africano. Mas o nosso assunto mais recorrente é se o governante fulano de tal vai conseguir dar um jeito de continuar na cadeira.

A bola da vez na América Central é a Nicarágua. E o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, voltou a tocar no assunto semana passada, ao comentar a popularidade de Lula e lamentar que o presidente brasileiro não possa concorrer a um terceiro mandato. Aqui, é justo registrar que Lula em nenhum momento fez, ele próprio, qualquer gesto a indicar o desejo de continuar no Palácio do Planalto depois de 2010.

É um bom debate. Em tese, a prerrogativa de o chefe de governo reeleger-se nada diz sobre a saúde democrática de um país. O regime nascido do golpe de 64 no Brasil não tinha reeleição. Que existe, até indefinidamente, em democracias dignas do rótulo. Na ciência política, em vez de buscar o “método ideal”, mais prudente é fazer a análise concreta da situação concreta. Qual é o quadro sul-americano? Maiorias historicamente alijadas da riqueza e do poder ascendem, graças ao mais longo período de liberdades já vivido pelo continente.

Quando chega lá em cima, em vez de o líder concentrar-se na arquitetura e na engenharia de instituições democráticas suficientemente fortes para resistir às tempestades, tenta vincular o projeto nacional à perpetuação do poder pessoal. E frequentemente sucumbe à tentação de atacar as liberdades que lhe serviram no passado.

Por que somos assim? Talvez seja manifestação de como o arcaísmo ainda marca nossas tentativas de caminhar para a modernidade. Sociedades fundadas na grande propriedade rural e no poder dos caudilhos, e que não conseguiram promover rupturas com sua raiz histórica, tendem a reproduzir o modelo caudilhesco. Inclusive pela mão dos vetores políticos e sociais construídos, teoricamente, para superar o atraso.

Dá certo? Pode até dar, por um tempo, mas em algum momento torna-se obstáculo ao desenvolvimento do projeto nacional. Daí a estatura de gigante que Nelson Mandela vai levar com ele para os livros de História. Mandela tinha à mão todas as justificativas para governar dividindo a nação entre negros e brancos (pobres e ricos), uma divisão que certamente lhe teria garantido o poder enquanto vivesse, dada a ampla maioria negra do país.

Quem o criticasse seria inapelavelmente fuzilado (no discurso, claro) como “saudosista do apartheid”. Mas Mandela preferiu o outro caminho. Se não tão confortável, certamente mais patriótico. É um tipo de líder que não se acha tão facilmente por aí.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFeuerwerker

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

10 Comentários:

Blogger Mário Andrade Câmara disse...

E isso aqui (América Latina) que é quase a África, quase ninguém quer seguir o exemplo do Mandela... é a lei da selva na selva.

terça-feira, 3 de novembro de 2009 09:39:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Mandela atendeu plenamente os destinos da nascente democracia sul-africana,tornou-se estadista ao impedir que o ressentimento pessoal
das cruéis injustiças que lhe foram impostas pelo regime que combateu influisssem no projeto de união nacional.Lembra, Prestes,quando apertou a mão de Getúlio Vargas. Também Lula,pelos mesmos gestos de generosidade e pragmatismo político.Às vezes,não percebemos,mas temos exemplos domésticos de desprendimento pessoal,até com o sacrifício da própria vida,na nossa história. Divulgar ou ocultar,eis a questão.

terça-feira, 3 de novembro de 2009 10:05:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Muito bom o post.Com idéias assim entende-se melhor os conceitos de liderança e patriotismo. Principalmente quando esperava-se um banho de sangue na África do Sul, com a ascensão ao poder de Nelson Mandela.

Swamoro Songhay

terça-feira, 3 de novembro de 2009 10:18:00 BRST  
Blogger Marcos Diniz Ribeiro disse...

Alon,

só para pôr pimenta no seu comentário. 25% dos brancos sulafricanos emigraram. Agora, são minoria (cerca de 10% da população) de fato, deslocada do poder político. O atual presidente sulafricano fez campanha apostando na clivagem racial. A violência disparou nos últimos 15 anos.

A África do Sul não é o Zimbábue. Mas a história segue seu curso por lá.

terça-feira, 3 de novembro de 2009 11:11:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A comparação vem muito bem a calhar.
João Paulo Rodrigues

terça-feira, 3 de novembro de 2009 12:13:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Mesmo com os problemas da violência e da migração de parcela da população, a prova do acerto do Mandela. Sem a Comissão de Verdade e Reconciliação, talvez a migração tivesse sido muito maior e a violência maior ainda. Da mesma forma como enfrentou as resistências à política de prevenção da AIDS. Havia quem sugerisse alimentar-se à base de legumes como medida de combate à disseminação da doença ao invés de remédios. Pena que em alguns países o ressentimento e a racialização foram e ainda são estimulados. Em Ruanda, o arraigamento entre o que denominava-se tutsi e hutu como raças distintas, logrou desencadear o genocídio. Hoje, há o entendimento de que não eram raças: a designação era baseada em coisas do tipo medir o nariz, a altura, a cor da pele e assim determinava-se quem pertencia a um ou outro grupo.

Swamoro Songhay

terça-feira, 3 de novembro de 2009 13:56:00 BRST  
Anonymous Radical Livre disse...

Achei que você ia falar que a bola da vez era o Uribe, que atropelou o congresso para conseguir um terceiro mandato.

Nicarágua? bah, o cara só tá tentando um segundo mandato. e o terceiro do Uribe, não tem problema não?

terça-feira, 3 de novembro de 2009 16:07:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Excelente texto Alon, juntamente com o post anterior, faz pensar nessa delicada relação entre indivíduos e instituições e, concordo, a ação do líder pode fortalecer ou enfraquecer as instituições. As dificuldades da oposição para definirem um candidato têm tudo a ver com a inexistência de procedimentos institucionalizados, tudo é decidido por aqueles que detêm (ou disputam), em nome pessoal, o comando da legenda, algo inconcebível, por exemplo, nos EUA. O PT que representou alguma coisa um pouco diferente, pelo menos nunca teve medo de consultar seus filiados, hoje não esboça qualquer reação ao “dedaço” do presidente ¬– regride, portanto, em direção a nossa vocação aristocrática. O ex-presidente Fernando Henrique Cardozo, em artigo no Estadão esses dias, denunciou o “dedaço”: é hilário vindo da liderança de um partido que, para decidir o candidato presidencial nas últimas eleições, reuniu três caciques, e hoje arrisca afundar na disputa entre dois egos. Seu texto me fez lembrar uma passagem do livro de memórias de Roberto Campos (A Lanterna na Popa), quando atribui ao presidente Castelo Branco, e sua recusa a esticar sua permanência no poder, esse estranho costume de nosso regime militar de alternar periodicamente o general de plantão (apenas para constar algo evidente, não estou comparando a importância de um Mandela com a do primeiro presidente militar) O líder maior pode deixar sua marca nas instituições, mas o desenvolvimento dessas é muito mais complexo, sofre também forte influência da qualidade média daquela camada social no comando de instituições públicas e privadas, uns chamam de elites, eu prefiro, respeitando nosso DNA aristocrático, referir-me às cortes.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009 08:14:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Ainda bem que no Brasil há mais o que fazer do que pensar eternidade no poder. Quanto aos demais países, cada povo tem a autonomia para fazer o que achar que deve ou até de ser insuflado a tanto. Até com a infelicidade de ser estraçalhado e calcinado em prol do intento. Porém, o bom seria que as lideranças propusessem e iniciassem a preparar as respectivas sociedades para reeleição indefinida ou vitalícia, termo mais adequado para tais arroubos, para o Século XXX. Daqui a nove séculos. Isso sim seria uma lição de como preparar o futuro. Se assim o fizessem, muitos seriam de forma merecida agraciados com mausoléus, mumificações e outros mimos. Contudo, pelo que consta, muitos podem fazer por merecer algumas estacas no peito, réstias de alho, crucifixos, água benta e outros exconjurantes.

Swamoro Songhay

quarta-feira, 4 de novembro de 2009 10:01:00 BRST  
Anonymous PH disse...

Anda dífícil encontrar gente que afirme ter uma visão de esquerda manisfestar uma opinião tão qualificada.

O normal hoje é uma esquerda chavista e reacionária que, como já disse por aí, torna a direita desnecessária.

Adicionei o blog e vou voltar aqui.

PH

quarta-feira, 4 de novembro de 2009 16:02:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home