terça-feira, 10 de novembro de 2009

O limite de um modelo (10/11)

É curioso que na História do Brasil a esquerda esteja intelectual e socialmente vinculada ao “industrialismo” mas que no poder tenha se acomodado alegremente ao “agrarismo” clássico da velha direita

Na superfície, o debate sucessório deverá contrapor a mudança à continuidade. Especialmente na economia. Para ser intelectualmente honesta (coisa improvável na política), a discussão deveria lançar luz sobre uma ruptura necessária: como elevar a taxa de poupança para garantir um crescimento sustentado (não confundir com crescimento sustentável) e diversificado?

Foi um dos pontos em que Luiz Inácio Lula da Silva pouco ou nada avançou nestes sete anos. A distribuição de dinheiro pelo Estado aos mais pobres e a política de aumentos reais para o salário mínimo não foram acompanhadas por ações decisivas destinadas a incrementar a poupança nacional. Lula preferiu, também aqui, a contemporização. Até porque mais poupança implica menos consumo. De alguém.

É curioso que na História do Brasil a esquerda esteja intelectual e socialmente associada ao “industrialismo” mas que no poder tenha se acomodado alegremente ao “agrarismo” clássico da direita. A conversa é a de sempre, reembalada: nossa "vocação" para "celeiro do mundo". É a maldição de Pero Vaz de Caminha, originalmente vista como bênção e bem lembrada por Lula e Dilma Rousseff nos debates sobre o pré-sal. Ser uma terra “em que se plantando tudo dá” (ou “em que se perfurando tudo dá”) não é necessariamente bom.

Nossa história colonial é conhecida. Abundância de terras, uma elite litorânea, de costas para o interior e com a cabeça na metrópole, proibição de manufaturas, uma monarquia importada, a escravidão. Tudo a convergir para o modelo brasileiro clássico: por que o esforço individual, a poupança, a busca da inovação, a conquista de mercados, se tudo pode ser mais confortavelmente resolvido recorrendo à feliz combinação entre um Estado generoso, mão de obra barata e terras agricultáveis para, literalmente, dar e vender?

Nem Fernando Henrique Cardoso, originalmente um social-democrata, nem Lula, montado num partido inicialmente socialista, tiveram coragem, ou vontade, ou condições políticas de romper com isso. Ao contrário, FHC e Lula usaram e abusaram da ciranda financeira para captar no exterior o combustível que faz rodar a bicicleta. De olho na urna, apostaram no real forte. O futuro? Problema de quem vier mais à frente.

A esperteza de FHC rendeu-lhe um segundo quadriênio, ainda que anêmico. A de Lula, um final de governo apoteótico e a chance real de eleger a sucessora. De olho nisso, Lula desperdiçou a maior oportunidade de um presidente brasileiro, em todos os tempos, para desvalorizar a moeda sem impactar a inflação. Vistas retrospectivamente, as advertências sobre a “pressão inflacionária do câmbio” agitadas um ano atrás vão passar à história das análises econômicas como piada. Trágica no presente, mas piada engraçadíssima para quem se debruçar sobre o tema no futuro.

Lula gaba-se de praticar o menor juro nominal de todos os tempos, esquecendo convenientemente de que na comparação com o resto do mundo nós atravessamos a crise como o maior e melhor paraíso para a especulação -e como mercado ávido para importar e assim proteger o emprego dos outros. Na tradição dos papagaios que Caminha encontrou aqui há mais de cinco séculos, achamos lindo quando a “imprensa estrangeira” se derrama em elogios ao Brasil enquanto torce o nariz aos chineses. Mas nós sabemos como agradecer. A última é propormos à China que adote o câmbio flutuante. Lembra um pouco as razões que levaram à Guerra do Ópio.

O problema é que o modelo vai encontrado um limite. Especialmente se, sob pressão mundial, paralisarmos mesmo a expansão da fronteira agrícola. Nossa hora da verdade está chegando. Não vai ser fácil para quem estiver no comando.

Dizer que um eventual governo Dilma será a continuidade da gestão de Lula pode servir na campanha para arrumar votos. Mas mesmo a ministra -ou talvez especialmente ela- precisará encontrar um caminho para cortar o custeio estatal, aumentar a eficiência do setor público, abrir espaço ao capital privado e oferecer condições de competitividade à indústria nacional no exterior.

Um abacaxi e tanto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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13 Comentários:

Anonymous Paulo Drummond disse...

Ma mosca, Caro Alon!

Sou fundamentalmente contra o fura..fura..fura, mais pasto..mais pasto.. Isso começou no pau-brasil, passou pelo ouro, pela cana, pelo café, soja, boi... até chegar à idiotice máxima do pré-sal -que ainda nem é o que parece- e tem aventureiro político prontinho, já vindo com o bolço arregaçado.

Poupança interna, consumo inteligente, inovação tecnológica, educação de qualidade, saúde & saneamento p todos... quo usque tandem?

terça-feira, 10 de novembro de 2009 00:31:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, um texto brilhante. Você aponta o constrangimento econômico corretamente: Falta poupança. Coloca o dedo na ferida quando aponta a:"feliz combinação entre um Estado generoso, mão de obra barata e terras agricultáveis para, literalmente, dar e vender", mas escolhe a alternativa errada: desvalorizar a moeda por decreto. Gostaria de fazer um comentário kilométrico, mas estou sem tempo, então vou me ater ao essencial. A fertilidade da terra financia a generosidade do Estado, e com isso você monta não uma economia de mercado, mas uma economia parasitária que posa de economia de mercado. Se a agricultura supre minhas necessidades cambiais porque não usar as "forças produtivas" restantes para dinamizar o mercado interno? RESPOSTA CORRETA: porque você precisa sustentar a parasita do Estado antes, inclusive fornecer a poupança forçada ("estado generoso" de fato, tira das pessoas a obrigação e a responsabilidade de se precaver para o futuro) sua transferência via sistema financeiro público a um empresariado que por força das circunstâncias torna-se parasitário (a concorrência privilegia o amigo do príncipe, é uma concorrência que se dá nos corredores oficiais). O mesmo empresário que quer câmbio para exportar, porque esse foi sempre um canal de subsídio da burguesia nacional. Teria muito mais a dizer... se der eu volto.

terça-feira, 10 de novembro de 2009 08:04:00 BRST  
Anonymous Danton disse...

Qual é o índice poupança nos EUA?
O crescimento dessa economia ,reverenciada por dez entre dez economistas liberais e neos, repousa sobre o consumo.A bicicleta e o ciclista se estabacaram na isca dos escroques do "sub-prime", Na versão nacional,tomaria o nome de hipotéca de segundo,terceiro,ou quarto grau... Agora mesmo, a recuperação que ensaiam têm o velho e bom consumo, como seu motor principal. Nossas taxas atraém,ainda bem. 4% de juro real, a.a.Com FHC, estavamos em 27%,devendo as cuecas e o guarda -roupas, todo. Quanto ao segundo mandato do príncipe dos tucanos,e à maneira como o obteve,devemos respeitar a presença das crianças no recinto.

terça-feira, 10 de novembro de 2009 10:28:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Grande artigo.
João Paulo Rodrigues

terça-feira, 10 de novembro de 2009 10:51:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

lucido, mas peca por falta de proposta.
será que os juros sao altos so por maldade?
como romper a ciranda financeira?
da maneira que está, tá errado... mas cadê o certo, o seguro, o cartesiano, infalível?
exceto por revolucoes, todo avanço social parece ter velocidade limitada.
quem sabe o aumento visivel (ainda q a passo de tartaruga) da escolaridade media crie condicoes para a melhoria substancial da qualidade da nossa representacao politica...

terça-feira, 10 de novembro de 2009 11:29:00 BRST  
OpenID colosseum2008 disse...

Poxa Alon,

"De olho nisso, Lula desperdiçou a maior oportunidade de um presidente brasileiro, em todos os tempos, para desvalorizar a moeda sem impactar a inflação."

Mas a intenção dele nunca foi cuidar da sociedade, mas sim defender os setores que o sustentam. Estes, brincavam com milhares de dólares especulando contra a moeda. Por isso o BC interveio diversas vezes para segurar a alta. Da mesma maneira como intervém quando o dólar despenca: não pode ter quebradeira de quem ganha mais dinheiro especulando que produzindo, não é mesmo?

O que quero dizer é que o escopo dele não é a sociedade, mas o poder - e você mais do que ninguém deve saber disso. Daí que, no jogo que fazemos hoje, as pessoas (e a comunidade que a constituem) são pouco levadas em consideração, seja pela direita, seja pela esquerda, seja pelo centro.

O que vc acha?

abs,

Gustavo

terça-feira, 10 de novembro de 2009 12:59:00 BRST  
Anonymous Alexandre Porto disse...

"Especialmente se, sob pressão mundial, paralisarmos mesmo a expansão da fronteira agrícola"

Não há como paralisar; os ganhos que podem vir ainda na produtividade e seleção de produtos mais produtivos e maior valor agregado são quase infinitos.

Onde se produz 2.000kg se soja ou 0,7 cabeças de gado, pode se produzir muitos empregos e produtos de maior valor.

Essa fronteira está sendo apenas se expandindo territorialmente. é só o começo meu caro Alon.

"para cortar o custeio estatal"

Bobagem, com a integração dos milhões de excluídos o custeio só tem a crescer e deve crescer.

"aumentar a eficiência do setor público"

Hoje a Petrobras virou a terceira maior do mundo .. O Alon só lê a Folha e o clipping do Noblat.
Leia aqui como andam os investimentos do estado brasileiro.
http://www.aleporto.com.br/blog.php?tema=6&post=2322

"abrir espaço ao capital privado"

Já olhou os lucros das empresas privadas nos últimos 5 anos meu caro?

"e oferecer condições de competitividade à indústria nacional no exterior"

O governo Lula fez muito nessa área sob críticas ferozes dos liberais, o que FHC chamou de 'sócios privados privilegiados'.

E vcs aplaudiram ...

terça-feira, 10 de novembro de 2009 14:41:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

"Uma visão democrática,
nacional e de esquerda"

Embora não seja permitido vou discordar.
1- O titular não é um democrata. Simples - não aceita critica.
2- Nacionalista...
3- Esquerda?? Talvez a velha e boa esquerda pequeno burguesa.

Mas em fim vc esta no seu direito, vivemos numa democracia.
Meus comentários "anônimos" nunca foram publicados. Meu protesto eu assino,
Flavio Piaui

terça-feira, 10 de novembro de 2009 22:47:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Aproveitando a conferência sobre o limite às emissões, ficam perguntas. Se o País realmente possui as vantagens comparativas, por que não propor que cada unidade de produto seu, gerado com energia limpa, com menor consumo de água, com menor degradação ambiental etc. tenha vantagens no mercado internacional? O que ganha o País, pretensamente realizando esforços para definir metas de emissões (acentuando dilemas na realidade), se não consegue propugnar por tal aspecto? Se já possui as alardeadas condições de realizar tal intento, então falta capacidade de definir e colocar como política no plano interno e defendê-la em qualquer conferência internacional sobre o clima. As respostas podem estar no fato de que não há intenções de alterar o modo de produção atual, mas, sim, mantê-lo, com todos os problemas vivenciados. Assim sendo, a mera continuidade de gestões não trará nada de novo. As demandas exigem, desde já, avanço. Aspecto fundamental que nem sequer ronda os discursos atuais.

Swamoro Songhay

quarta-feira, 11 de novembro de 2009 10:05:00 BRST  
Anonymous Gualter disse...

Por vezes parece faltar sorte a Ministra Dilma.
Logo agora que ela se lança a comparação com FHC, aparece a cobrança pra lá de indevida na conta de luz e um apagão daqueles (sem qualquer notícia do "sistema redundante" que também pagamos nos últimos anos), mostrando que o setor de excelência da mesma pode não ser lá tão melhor assim que o do governo anterior e que sua gerente, ó, é muita pompa e pouca efetividade.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009 12:20:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Você está certo. Esta é a tese que eu defendo desde 85 com base nos resultados que o Brasil alcançou a partir da maxidesvalorização de março de 83. São mais de 20 anos dizendo isso. Desvaloriza a moeda e taxa (para não beneficiar um setor de riquesa concentrada) as exportações de produtos primários e semielaborados. E foi o modelo que Brasil adotou de 2003 até o primerio semestre de 2007 (só não fez a taxação, mas tinha a CPMF).
O acerto maior seu foi no parágrafo a seguir em que você diz:
"De olho nisso, Lula desperdiçou a maior oportunidade de um presidente brasileiro, em todos os tempos, para desvalorizar a moeda sem impactar a inflação. Vistas retrospectivamente, as advertências sobre a “pressão inflacionária do câmbio” agitadas um ano atrás vão passar à história das análises econômicas como piada. Trágica no presente, mas piada engraçadíssima para quem se debruçar sobre o tema no futuro."
Diante de que? Diante da possibilidade de fazer o sucessor. No mandato de 5 anos sem a reeleição, o presidente não tinha a possibilidade de fazer o sucessor.
O mandato de 4 anos com a reeleição é a mãe de todos os nossos infortúnios. O pai foi o Plano Cruzado.
Clever Mendes de Oli eira
BH, 11/11/2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009 22:13:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Gualter (11/11/2009 às 12h20m00s),
Não terá sido interessante para o governo que o problema tenha ocorrido agora e ele tenha até o ano que vem para repassar a culpa para outrem? Imagine se o problema ocorresse nas vésperas da eleição.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 11/11/2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009 22:16:00 BRST  
Anonymous Gualter disse...

Ô Clever, vc tá subestimando a capacidade da candidata. Até lá os problemas dela só irão aumentar.
Mesmo debaixo da capa do Lula, sempre que aparece alguma coisa com a digital da menina, tem caca no meio.
Foi o dossiê da Da. Ruth, os títulos indevidos, a Secretaria da Receita, o Apagão.
Fala sério, Clever. Vai parar por aí? Vai nada! A medida que a luzes forem clareando a figura é que irá aparecer o verdadeiro tamanho da mala que o Lula inventou. Por enquanto é só o pezinho que tá a vista.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009 08:40:00 BRST  

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