quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Conversa firme, ação nem tanto (04/11)

Se o PT achasse mesmo tudo o que diz das privatizações, que elas foram lesa-pátria, trabalharia no poder para revertê-las. Mas não aconteceu. Preferiu entender-se com os felizardos da era FHC

A estratégia petista de comparar a atual gestão com a anterior talvez ajude a lançar alguma luz sobre certos pontos da agenda nacional. Um sempre lembrado são as privatizações. A joia da coroa do discurso do PT é a Vale, antiga Companhia Vale do Rio Doce. Que mudou de nome para ficar mais simpática depois de sentir o cheiro de queimado.

A resposta da oposição ao desafio vem sendo delineada aqui e ali. Dirá o PSDB que a Vale privatizada resultou em muito mais postos de trabalho, e em muito mais impostos. E isso é melhor do que manter uma estatal “apenas para servir a interesses político-partidários”. Em resumo, o oposicionismo deve se concentrar no fluxo, enquanto o situacionismo vai se fixar no estoque —o baixíssimo preço obtido na venda da companhia. “Baixíssimo” é bondade minha. Ela foi arrematada quase de graça.

O PT tende a levar vantagem na discussão feita em tese, pois nada impediria a Vale estatal de chegar ao desempenho atual da empresa privatizada. Os defensores da operação realizada no governo Fernando Henrique Cardoso atribuem o sucesso da Vale à privatização. Os que fazem essa discussão a sério reconhecem que o mérito na elevação exponencial do valor da companhia se deve principalmente ao superaquecimento das commodities.

Até porque a Petrobras continua estatal e o preço de suas ações também foi ao céu durante a bolha planetária que explodiu há um ano. O que, paradoxalmente, enfraquece um argumento do PT. Se as ações da empresa privada e da estatal respondem de maneira semelhante à flutuação das commodities, então essa característica (quem é o sócio majoritário) não é fator decisivo na definição do valor de mercado de nenhuma das duas.

A Petrobras vale (sem trocadilho) o seu petróleo, enquanto a Vale é “precificada” pelo seu minério. O mercado enxerga ambas de maneira bastante semelhante. É perfeitamente possível gerenciar uma estatal de modo eficaz. E nada obriga uma empresa privada a ser inimiga do interesse público.

O xis da questão está nos controles. Os liberais puros defendem que o mercado acionário é o melhor agente para controlar uma empresa. Os estatistas ferrenhos agitam as crises periódicas do capitalismo para reforçar que é o poder político, e não o mercado, quem pode impor responsabilidade social a capitalistas que, livres, pensariam apenas no próprio lucro.

A crise global enfraqueceu doutrinariamente as posições liberais, mas um dado não mudou. Mesmo os governos socialistas mais dignos do rótulo recorrem ao investimento privado quando precisam criar valor em grande escala e distribuir prosperidade. Exemplo de sucesso dessa linha é a China. Paradigma de fracasso por não ter conseguido implementá-la foi a União Soviética. Sem falar de Cuba.

Daí, talvez, a razão de o governo do PT não ter movido uma palha seca para rever as privatizações que tanto ataca. É um raciocínio recorrente, e nunca foi refutado: se o partido achasse mesmo tudo o que diz das privatizações, se elas foram mesmo um crime de lesa-pátria, trabalharia no poder para revertê-las.

Mas não aconteceu. Preferiu entender-se com os felizardos da era FHC. Sim, de vez em quando essa aliança sofre turbulências. Normal.

O antiprivatismo do PT nas eleições é só conversa para intimidar os adversários, reais e potenciais. E funciona. Mas na vida real, a que conta, a história é outra.

Discurso, empregos

Ainda no terreno das comparações, uma crítica que sumiu da fala oficial foi sobre a valorização do real. O mecanismo funcionou como âncora contra a inflação no primeiro governo FHC, e recebia na época o ataque pesado do PT.

No poder, o petismo precisou usar a ferramenta para evitar a aceleração dos preços. Mas, quando sobreveio a crise mundial, em vez de aproveitar o período de “demanda zero” para resolver esse problema sem risco inflacionário, Luiz Inácio Lula da Silva preferiu a acomodação. Como nas privatizações.

O resultado está nos índices. A indústria acumula uma perda de 10% em relação a 2008, já que a recuperação anda de breque de mão puxado. O motivo principal é a fraqueza na retomada das exportações, especialmente de produtos com alto valor agregado.

Enquanto nós ficamos com o discurso e com o oba-oba, os chineses ficam com os empregos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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12 Comentários:

Anonymous F.Arranhaponte disse...

Quer dizer, o superaquecimento das commodities explica o sucesso da Vale, mas não explica por que o preço atual é tão mais alto do que o de venda (e, se você admitir que o superaquecimento das commodities explica por que o preço atual é tão mais alto do que o de venda, então é uma calúnia dizer que a Vale foi vendida quase de graça)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009 09:36:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O que não se sabe ou não se precifica, é o que seria melhor: a empresa não ser vendida nem por preço maior e/ou tornar-se um monstrengo muito estimado, porém inchado e ineficaz. Qual o preço de algo assim?

Swamoro Songhay

quarta-feira, 4 de novembro de 2009 09:40:00 BRST  
Blogger Adriano disse...

O fato do governo não ter emcampado uma revisão na privatização da Vale mostra um amadurecimento do PT. Já o fato da Vale custar muito mais hoje do que quando foi vendida, mostra uma precipitação na sua venda.
A crítica que o PT fez ao plano Real nas eleições de 94 foi burra e desesperada. Semelhante às críticas que os Tucanos fazem hoje ao Governo Lula.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009 17:25:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Sem que falar que, economicamente, o que faz sentido é o preço que o mercado está disposto a pagar. Isso me lembra os bois do Minc, que ficaram "encalhados" por um tempão, em função do preço mínimo pelo qual eles foram ofertados em leilão. Enquanto esse preço não se ajustou à expectativa dos compradores, os bois ficaram no pasto pago pelo meu, pelo seu, pelo nosso dinheirinho...
Assim, na época da privatização da Vale, ela até poderia ter sido avaliada por 10 x mais o preço pelo qual ela foi ofertada (tou chutando, gente!), mas teria corrido o risco de encalhar no pregão.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009 17:31:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Arranhaponte te pegou com um dilema de impossível solução.

O fato é que a Vale foi vendida a preço de mercado. Se o futuro fosse algo assim tão lógico e previsível, meu cunhado, engenheiro concursado que entrou na Vale ainda quando era estatal, teria trocado tudo o que poderia do seu FGTS em ações da Vale. Não o fez. Trocou só 30% porque contava com parte do FGTS para uma futura compra de moradia.

Arrepende-se até hoje. Se tivesse trocado tudo o que podia, a valorização das ações teria lhe permitido comprar a casa própria sem precisar de financiamento. Também não reclamou muito porque o financiamento foi pela Vale já privatizada e com juros muito menores que os do mercado na época.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009 20:29:00 BRST  
Anonymous Antonio Santos disse...

Sou só mais um paranóico. E sempre tive a sensação de que em algum momento antes do dia 01 de janeiro de 2003, numa conversa olho no olho entre o que saiu e o que entrou, houve um acordo. Definiu-se os temas que seriam tabú. Aparentemente os dois cumpriram. E possivelmente vão cumprir até o fim. Saberemos até novembro de 2010.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009 04:17:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Alon, como ex-esquerdista arrependido, digo que esse é um ponto onde a esquerda costuma perder o pé, errar o alvo e acabar dificultando o avanço do país: a obceção com a propriedade do capital. No caso da Vale então tudo fica mais confuso, segundo o ex-presidente que a “vendeu”, em artigo recente no Estadão e no Globo, ela não seria nem pública nem privada. De fato, Lula acaba de cobrar investimentos da empresa e ameaçou não muito veladamente fazer rolar a cabeça de seu presidente. Mais, as ameaças parecem ter surtido efeito e a Vale vai ingressar na siderurgia... Empresa privada? Você acredita que se Lula quisesse trocar o presidente da Petrobrás ele iria ameaçá-lo pela imprensa? Empresa pública? A “privatização” da Vale foi na verdade a entrega da empresa aos seus atuais diretores e não aos acionistas (públicos ou privados, Previ e BNDES são privados?). Na empresa privada os acionistas nomeiam e destituem a diretoria sem aviso prévio, essa ameaça é fundamental para o sucesso do empreendimento privado, como diz o ditado “o olho do dono é que engorda o gado”. Quem destitui a diretoria da Vale? E eles decidem, sem qualquer ingerência, sobre seus próprios salários, bônus de produtividade etc, e sobre os dividendos dos acionistas. Não estando sujeitos a royalties como a Petrobrás sobra dinheiro, né não? A diretoria de Vale é de longe a melhor sinecura da República, quem escolheu seus componentes? Agora, alguém poderia perguntar: por que o governo não denuncia a situação? A explicação pode estar na intenção de acomodar sua própria gente... já vi na imprensa especulações com o nome do presidente da Previ. Mais o que me delicia mesmo é ver que a pessoa estuda uma vida inteira, torna-se o príncipe dos sociólogos, apenas para desenvolver a desfaçatez de projetar nos adversários seus próprios vícios: o atual governo é patrimonialista, ocupa todos os espaços públicos com apaniguados. Sim, é bom que se diga que é verdade, e o faz igualzinho ao governo que substituiu. E fica a esquerda discutindo se é melhor a empresa pública ou a privada...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009 06:36:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alberto

Na mosca

"Mais o que me delicia mesmo é ver que a pessoa estuda uma vida inteira, torna-se o príncipe dos sociólogos, apenas para desenvolver a desfaçatez de projetar nos adversários seus próprios vícios: o atual governo é patrimonialista, ocupa todos os espaços públicos com apaniguados. Sim, é bom que se diga que é verdade, e o faz igualzinho ao governo que substituiu. E fica a esquerda discutindo se é melhor a empresa pública ou a privada..."

Se tem alguma coisa que o FHC conhece bem em teoria e na prática é o patrimonialismo brasileiro. Outro que conhecia muito bem, Florestan Fernandes. Para mim, um dos maiores estudos a respeito ainda é Homens Livres na Ordem Escravocrata da Profª Maria Sylvia. Esse livro foi escrito em 1964 e animou bastante as conversas dessa turma toda, incluído o Prof. Antônio Cândido.

A influente ortodoxia marxista da época, é claro, torceu o nariz: onde já se viu falar em capitalismo no Brasil? Ainda somos um país semi-feudal!

E isso depois do Caio Prado Jr.

Merval Pereira escreveu um excelente artigo onde comenta essas metamorfoses da "moderna esquerda" brasileira quando no poder.

Merval Pereira: Estado autoritário

http://silncioerudoasatiraemdenisdiderot.blogspot.com/2009/11/do-amigo-alvaro-caputoum-excelente.html

Ele também comenta um artigo do Werneck Vianna, que ainda não li, e que foi publicado no site do Instituto Gramsci

Tópicos para um debate sobre conjuntura

http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=1163

Para quem se interessar em conhecer a influência do pensamento de Weber no Brasil, há uma boa apresentação do Werneck Viannam escrita em 1999:

"O nível de maturidade de uma universidade, especialmente em uma situação periférica como a nossa, pode ser indicado pela sua capacidade de apropriar-se do pensamento clássico, e, de modo ainda mais seguro, quando a interpelação aos fundadores de uma certa tradição disciplinar não se limita às traduções, mas pretende, por esforço próprio, estabelecer o sentido da sua obra, tal como neste 'Seminário Internacional Max Weber'."

Ele faz uma apresentação da produção teórica que beneficiou-se de Weber na tentativa de explicar o Estado e o capitalismo brasileiros. O artigo é muito bom e faz uma das melhores apresentações do livro da profª Maria Sylvia que já li.

PS:

Alon

Alguém precisaria fazer para os mais novos a genealogia da "moderna esquerda" brasileira, que originou o PSDB e o PT. No artigo do Merval, trata-se disso. Isto é, no poder, essa "esquerda moderna" abandonou, em nome do "realismo político", a crítica que construiu na época da ditadura e contra a ortodoxia marxista.

A justificativa do realismo político está presente nos dois partidos. Quando deixou o governo, FHC escreveu, citando Weber, sobre as diferentes éticas. Os intelectuais do PT são somente menos sofisticados. Como diria o PT das antigas, são farinha do mesmo saco.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009 09:32:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Escrevi na pressa e direto na caixa de comentário. Não lembro se deixei o link para o artigo de 1999 do Werneck

Weber e a interpretação do Brasil

http://www.acessa.com/gramsci/?id=85&page=visualizar

quinta-feira, 5 de novembro de 2009 09:35:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Acho suas análises econômicas pobres. Erro comum que não é só seu é achar que a Petro é pública. Ela é uma empresa privada, tanto no sentido jurídico como operacional ou na sua estrutura de capital. Ela é uma sociedade anônima. Atualmente uma SA pode ser controlada com apenas 25% de participação no capital. Tenho certeza que a participação do governo não deve chegar a 30% na Petro. O máximo que se pode dizer é que ela é uma sociedade de economia mista controlada pelo governo. O que muda quando deixamos de ver a empresa como pública. Muda tudo. Primeiro as premissas são totalmente diferentes e não se pode compará-la com uma estatal puro sangue. A empresa não é do povo porque os lucros não vão integralmente para o caixa do governo. A receita que entra nos cofres públicos é oriunda de impostos (que ela deveria pagar como paga a padaria da esquina) e de dividendos que são repartidos com os outros sócios. Se a Petro fosse inteiramente estatal ela não teria chegado aonde chegou e se for estatizada ela quebrará. A esquerda fala muito de lucros e se esquece dos riscos de um empreendimento e do reinvestimento. Uma estatal puro sangue não tem fôlego para suportar operações malsucedidas e ainda ter lucro e reinvestir. A Petrobrás divide o ônus com os acionistas privados e quando vem o bônus, é justo repartir. Então a premissa de que uma empresa pública pode ser tão bem gerenciada como uma privada é falsa. Há pouquíssimos setores produtivos em que a ação do governo é eficaz. O capitalismo é na realidade um negócio da ‘china’ para a sociedade. O privado fica com os prejuízos que tiver e o governo com a sua parte em impostos quando tudo vai bem. É a terceirização por excelência.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009 12:34:00 BRST  
Anonymous Luca disse...

Concordo com a tese de que o valor na época foi aquele. Qualquer pessoa poderia ter adquirido quantas ações da Vale desejasse, ao mesmo preço pago pelo lote controlador e desta forma obter o mesmo lucro percentual.
O que vejo hoje é a base Governista preocupada com o grau de gratidão que os atuais dirigentes da Vale possam ter em relação aos Tucanos. Portanto o reaquecimento desta polêmica parece refletir apenas uma disputa política pelas verbas da Vale e não pela titularidade do controle acionário.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009 14:11:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Não é verdade que o governo não fez nada para reverter as privatizações.

Em 2003 o BNDES recomprou 8,5% das ações da Valepar, que detém o controle acionário da Companhia Vale do Rio Doce. É justamente essa participação do BNDESpar e dos Fundos de Pensão que permite ao governo influir nas decisões da empresa. A reportagem abaixo da insuspeita revista Veja descreve a operação:

http://veja.abril.com.br/261103/p_038.html

Quero lembrar também, que fora da recompra de ações, o único jeito de retomar a vale é na Justiça. O poder executivo não tem poderes legais para anular o leilão. E antes mesmo do governo Lula assumir em 2002, dezenas de ações populares, muitas subscritas por parlamentares e ex-parlamentares do PT, correm na justiça para anular o leilão por fraude na avaliação (reservas de minérios informadas à SEC dos EUA foram suprimidas da avaliação no edital de privatização). A mais vistosa (que unificou diversas outras ações) pode ser conferida na consulta processual:

http://www.trf1.gov.br/processos/processosTRF/ctrf1proc/ctrf1proc.asp?proc=199739000115427

Houve operação semelhante de aumento da participação acionária na Eletrobrás também (mesmo que esta nunca tenha deixado de ser estatal).

Atualmente está em curso estudos para a reativação da Telebrás para criar uma rede própria pública federal e universalizar a banda larga.

Estatais como BB e CEF aumentaram sua participação no mercado bancário, enquanto no governo tucano havia diminuído.

Por fim o marco regulário do Petróleo prevê capitalização da Petrobras pela União, maior protagonismo da Petrobras na área do pré-sal e criação de uma nova estatal. Se os demais acionistas minotários não acompanharem a capitalização da Petrobras, a União aumenta sua fatia na empresa.

terça-feira, 10 de novembro de 2009 16:18:00 BRST  

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