quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A confiança no calendário (18/11)

O PSDB consumiu todo o ano de 2009 sem avançar um centímetro na busca por métodos consensuais e democráticos para resolver sua disputa interna. O partido parece ter uma fé ilimitada na folhinha

O PSDB colhe pelo menos uma vantagem da indefinição sobre a candidatura presidencial: o adversário não sabe por enquanto em quem concentrar o fogo. O PT está como o gato que tem dois ratos a perseguir. Na dúvida, mais provável é que não capture nenhum.

Se o tucano na corrida presidencial for Aécio Neves, o Palácio do Planalto espera a neutralidade de um José Serra ilhado na luta para reeleger-se em São Paulo e ferido em seus brios de líder nas pesquisas — e mesmo assim preterido. Se for Serra, o PT sonha com um Aécio à moda Pilatos, lavando as mãos e deixando em aberto o rico estoque de votos de Minas Gerais — onde Luiz Inácio Lula da Silva fez a festa em 2002 e 2006.

Enquanto não acontece a definição, os canhões palaciano-petistas operam a meia força. Fora isso, amontam-se os problemas políticos do PSDB. Que se ressente de não ser um partido, mas vários. Ou pelo menos dois. O que define um partido? O líder. Vide o PT. E quem, como o PSDB, tem mais de um líder, na prática não tem líder algum.

Os tucanos podem argumentar que não é bem assim, que ao contrário do PT não são uma legenda controlada por um caudilho. É verdade, o PSDB ainda não chegou a esse estágio. Está num inferior. Tem vários candidatos a caudilho, sem que nenhum mostre força para prevalecer sobre os demais. Força ou habilidade. Aliás, a observação fria leva a concluir que, ali, quem tem força a mais tem habilidade de menos. E vice-versa.

O PSDB consumiu todo este ano de 2009 sem avançar um centímetro na construção de métodos razoavelmente democráticos e consensuais para desfazer o nó. Nesse particular, o PT está anos-luz à frente da concorrência. As regras no partido de Lula são claras. Quem tiver pretensões, que trate de arrumar votos e disputar eleições internas. Além de Lula, o PT tem o método. O PT é nosso único partido “americano”. E quando o jogo tem regras claras, a chance de acabar em facada e tiro é menor.

Já o PSDB parece ter eleito o calendário para comandar a legenda. Como se num dia marcado na folhinha os tucanos fossem acordar com todos os problemas resolvidos. Até lá, é cada um por si e — quem sabe? — Deus por todos.

Ontem, Aécio deu uma cartada importante. Recebeu o apoio de Ciro Gomes (PSB). O deputado federal eleito pelo Ceará — mas de título recém-transferido para São Paulo — assumiu na prática o compromisso de apoiar o governador de Minas caso ele ganhe a corrida dentro do PSDB.

É possível que Ciro nutra a esperança de receber ele próprio o aval de Aécio caso a sorte não sorria para o mineiro internamente, mas na política não há gestos inúteis. A política é como um trilho de trem: depois que você começou a rodar numa certa linha, não é tão simples sair dela sem descarrilhar.

Limão, limonada

Gente que andou assuntando pesquisas qualitativas nos últimos dias detectou dano para a imagem da ministra Dilma Rousseff por causa do colapso no abastecimento de energia elétrica semana passada. Mais que dano direto, detectou-se desconfiança. O cidadão está a desconfiar que não lhe dizem toda a verdade sobre as causas e circunstâncias do apagão/blecaute.

Pesquisas quantitativas a esta altura têm valor apenas relativo, ainda que os políticos não deem um passo sem ouvi-las. Já com as qualis é diferente. Como a imagem de Dilma está sendo construída praticamente do zero, um dano agora pode ter gravidade. Mesmo que não se reflita, em tempo real, nos números.

A entrevista coletiva das autoridades da área depois do blecaute/apagão tem boa chance de entrar na galeria onde descansa, entre outros episódios jornalísticos inesquecíveis, a explicação dada pela equipe econômica aos jornalistas no dia do Plano Collor.

Criticar depois é fácil, mas talvez Dilma tenha feito uma má escolha ao deixar o assunto, que impactou a vida de tanta gente, aos cuidados de pessoas que não se mostraram suficientemente preparadas para a ocasião. É um mistério por que a ministra não fez o óbvio: reconhecer que havia um problema e assumir a linha de frente para solucioná-lo. Por que não simplesmente espremeu o limão e o transformou numa limonada?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, muito boa a caracterização do PSDB e a falta de mecanismos para escolher a liderança, a meu ver pouco importa se democráticos ou não. Mas não é o líder que faz o partido, e sim o contrário: o partido faz o líder, mesmo que seja de véspera, como no de tipo americano. O PSDB é um partido de aristocratas, e nesse caso é sempre difícil escolher um que se sobreponha aos demais, foi assim na formação das monarquias européias, né não? Caudilho é aquele líder dado de antemão, sobre quem não há discussão, o Brizola no PDT (que alguns seguidores até apreciavam chamar de caudilho). Na medida em que se torna "imexível", que indica o novo líder partidário independente de seu respaldo no conjunto do partido, é Lula que caminha para ser um caudilho. Somos assim, criamos grandes personalidades que se sobrepõe às instituições, e o modelo de Lula é Getúlio. Pobre país.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009 07:00:00 BRST  
Anonymous Too Loose Lautrec disse...

A reeleição cobra preço alto. O tempo não pára.
A trajetória do PSDB parte de “partido entre políticos amigos”, que reuniu bons quadros, mas sem bases; hoje é agrupamento de ex-amigos, de bons quadros e sem grandes bases. Inexiste a possibilidade do tal do consenso partidário.
Haveria de se negociar só que a prática é pouca. A melhor saída seria a chapa Serra e Aécio. Em não acontecendo o filme de 2005 tem chances de se repetir.
Contrariando a ordem natural Alckmin saiu candidato. Foi sozinho. Até Aécio o deixou a ver navios.
Agora é ainda um pouco pior. Quem ficar de fora deste páreo (sem Lula), em condições normais de temperatura e pressão, só voltará com chances melhores à luta presidencial em 2017. Ou em 2021.
A candidatura natural, assim como em 2005, é a de Serra. Sua última chance.
Aécio não buscou alternativas. Nem outro partido nem o fim da reeleição. Foi para o tudo ou nada. Chega admitir a traição: Ciro. Embatucou-se. Tem de afastar Serra e ganhar as eleições. O que não é nada fácil no seu caso. Ou aguardará 2021 ou além.
Correrá os riscos de sair ainda pior em São Paulo do que Alckmin e não receber apoios hoje sugeridos, porém improváveis (PMDB e PSB), além, obviamente, de depender da mudança do eleitorado a seu respeito.
Se perder tornar-se-á irrelevante seja qual for o novo presidente. Sendo que caso ganhe Dilma, só poderá voltar a pensar seriamente em presidência em 2021 e em outro partido.
Pior para Aécio. Seu melhor e mais próximo futuro seria o da sucessão de Serra. Ainda que em 2017.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009 11:06:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Como pode ter a dianteira nas pesquisas, até aqui e ter problemas? Ainda mais quando uma candidatura que ainda não consolidou-se nem no plano interno da coalização de apoio situacionista. Por exemplo, o apagão foi apagado pelos ministros até que o presidente falou que nada estava resolvido. O problema é sair com a jarra e o gelo sem saber nem onde fica o limoeiro. No caso, acho que estão jogando cascas de banana para a oposição. Se escorregar nessa será por pura ingenuidade.

Swamoro Songhay

quarta-feira, 18 de novembro de 2009 11:26:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Alon, existe uma agenda da oposição e uma do governo, sobre os temas da hora. Obviamente são díspares. À oposição interessa transformar qualquer ocorrência em crise para desgastar o governo (é legítimo e qualquer oposição age assim). À qualquer governo não interessa crises. A disputa pela conquista de corações e mentes em torno da queda de energia, é a luta para transformar ou não uma ocorrência em suposta crise energética.

Comparar a entrevista coletiva de Lobão ao lado de um diretor do ONS com a explicação dada pela equipe econômica aos jornalistas no dia do Plano Collor é forçar a barra demais.

O Plano Collor mexeu fundo no bolso de todo mundo. Todos tiveram que modificar suas vidas dali para frente. Houve feriado bancário, troca de moeda. O Brasil parou para ver o que estava acontecendo quando todos acordaram com apenas 50 cruzeiros na conta.

Já as explicações de Lobão aconteceu quando todos estavam tocando suas vidas normalmente. Ninguém estava sendo convocado a racionar 20% de energia elétrica nos próximos meses, sob pena de cortar a luz por 3 dias, como aconteceu em 2001. A vida de ninguém ia mudar com o que Lobão disse ou deixou de dizer.

Uma explicação boa ou ruim, atinge os políticos, jornalistas que tem por ofício trabalhar informações e explicações, e uma parcela menor da população aficcionada pelo noticiário político. Sequer foi assunto para o jornalismo econômico que afetasse cotação de ações de empresas do setor elétrico.

Já as respostas do Presidente Lula foram sensatas, assim como as da Ministra Dilma na entrevista coletiva que concedeu à imprensa, quando respondeu com explicações extremamente didáticas e racionais sobre o papel da ANEEL (inclusive de multar até empresas como a ELETROBRAS se fosse o caso), o papel do governo, sem eximir responsabilides, a característica da apuração técnica, e assumindo claramente que o papel governo na política energética era exigir sempre melhorarias viáveis no sistema elétrico que possam vulnerabilidades.
Infelizmente estes trechos mais elucidadores não foram ao ar nos principais telejornais, salvo canais de notícias que transmitiram ao vivo, mas tem disponível na internet um vídeo de 4 minutos, com o real teor das declarações da ministra, sem tantos cortes e sem mudar o contexto do que ela realmente disse:

http://www.youtube.com/watch?v=2qDQyo0pZGY&feature=player_embedded

quarta-feira, 18 de novembro de 2009 12:06:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Alon, é preciso entender no ciclo da história política do Brasil que 2002 foi o fim do período conhecido como "Nova República", lançado por Tancredo.

O PSDB até hoje não assimilou isso, apostou no fracasso do primeiro governo Lula (o que não aconteceu), para retomar a agenda de FHC em 2006 (a volta da Nova República). Como o primeiro governo Lula foi bem sucedido e continuou no poder em 2006, o PSDB precisava se renovar, e não o fez. Perdeu a identidade diante do eleitor para representá-lo.

O neto de Tancredo (Aécio) dentro do PSDB começou a entender o fim da era lançada pelo avô, inventando um "pós-Lula" sem definir o que seja isso. Ele levantou a bola, diagnosticou a "doença" mas falta o "tratamento". O PSDB não reformou seus programas nem seus estatutos, nem formas de agir. Continua na fórmula que levou FHC ao poder: mantém suas bases de sustentação nos meios de comunicação de massa do século XX (seja acreditando além da conta em propagandas institucionais, seja cortejando bom relacionamento com a mídia) e apoiando-se nos principais grupos econômicos, tanto para financiar campanhas como para formular políticas nacionais.

O PSDB distancia das minorias dos movimentos sociais organizados. Antigamente o PSDB dividia os votos de professores, estudantes. Hoje arregimenta uma minoria destes votos.
O partido limita-se à tentativa de formar opinião da maioria da classe média (não organizada em movimentos sociais) através da mídia como meio de formação de opinião. O modelo foi exitoso no século XX, o século da TV e do rádio, mas esgota-se na era da internet. A imagem não é mais tudo, o povo já faz benchmarking dos governos a seu modo. Faz controle social, tendo acesso a dados, e a informações de transparência. Não engole mais simples adjetivos como auto-proclamar competência, sapiência, etc. O cômputo dos resultados conta mais.

O PSDB, sem se reformar, vive o que foi PDS após a ditadura (representava a era passada).
O PSDB (costela do PMDB que era chamado de "autêntico"), foi o partido que governou no ciclo da Nova República: muitos ministros de Sarney eram deste grupo, Collor fugiu ao perfil da Nova Republica, mas foi muito breve. Itamar é continuidade da Nova República e FHC também foi. A redemocratização não trouxe o sonho de melhorias na economia com Sarney (as promessas de redenção com a moratória da dívida externa decretada em 1987 frustaram). No governo Itamar o povo finalmente experimentou expectativa de melhorias, e o Plano Real atendeu à estas expectativas. No governo FHC, o Plano Real parou no tempo, e seguiu-se frustação após frustação, com desemprego, baixo crescimento, crises econômicas (ainda que com baixa inflação), e as privatização não cumpriram a expectativa esperada da mão invisível do mercado.

O principal legado do PSDB é o Plano Real, mas isso foi em 1994. Desde 2002 o povo quer saber o que o PSDB tem a oferecer para o futuro. Oferecer o passado do plano Real, o povo acha que já retribuiu ao partido ao votar nele duas vezes em 94 e em 98. Agora o povo quer mais, e quem está oferecendo mais para o futuro são as forças políticas que se aglutinam em torno do governo Lula.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009 12:41:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pelo que se pode depreender, há muito mais tendências à continuidade do que de mudanças profundas de rumo. São inegáveis os sinais de que ajustes serão necessários na economia. Contudo, nada a indicar o caminho de ruptura. Assim, o "pós" do governador mineiro pode significar o "primeiro período" dele. Isto, caso obtenha a candidatura no partido e vença as eleições. Se vencer de forma acachapante, terá mostrado reunir cacife político suficiente para montar o governo e colocar sua agenda. Caso contrário, serão as intermináveis negociações para a formação de bases parlamentares que darão o tom. O "pós" pode, assim, representar o palmilhamento do terreno político num primeiro momento.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 19 de novembro de 2009 14:25:00 BRST  

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