quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Capitalismo popular (26/11)

Falta na banda larga um grande jogador, que esteja disposto a entrar na partida com capacidade de investimento e coragem (e caixa) para praticar uma política de preços agressiva

O governo federal está metido numa boa empreitada: criar as condições para universalizar o acesso à internet de alta velocidade. Avalia inclusive entrar no mercado de provimento ao consumidor final. A iniciativa deverá servir, pelo menos, para forçar as companhias de telecomunicações a ampliar os serviços e baixar os preços. Se conseguir avançar aí, Lula merecerá aplausos efusivos.

É curioso que exatamente no ramo econômico onde as privatizações são mais festejadas, a telefonia, o poder estatal precise ameaçar com intervenção para colocar as coisas em ordem e atender ao interesse público. Hoje no Brasil quase todo mundo tem telefone, uma realidade muito diferente do que se via no começo dos anos 1990. Mas pagamos preços inexplicáveis. Ou que só encontram explicação no oligopólio.

Eis a desgraça das privatizações brasileiras. Em vez do “capitalismo popular”, expressão do thatcherismo, elas promoveram uma troca de guarda: o espaço que era do Estado foi ocupado por um pequeno grupo de empresas que repartiram o mercado entre si, e operam num ambiente de negócios marcado pelo deficit de regulação. É um modelo que se esgotou. Um exemplo? A banda larga, cara e de qualidade e cobertura inferiores às dos países comparáveis.

Seria ilusão imaginar uma telefonia operando com base na concorrência perfeita. Isso exigiria grande multiplicidade de provedores do serviço, coisa impossível na prática. Daí a necessidade da regulação, e daí o problema de mercados —como o nosso — que apresentam deficit no quesito.

Mas como regular o mercado? Em teoria, com agências reguladoras e boas normas, que deveriam incluir o combate à cartelização. Ainda na teoria, nós temos tudo isso. Temos as leis, os decretos, as portarias, os órgãos governamentais encarregados de zelar pela concorrência e uma agência reguladora bem estruturada e bem dirigida, com quadros competentes a operá-la.

O que falta, então? Um grande jogador, que esteja disposto a entrar na partida com capacidade de investimento e coragem (e caixa) para praticar uma política de preços agressiva. Um jogador cuja lucratividade seja função principalmente da fatia de mercado conquistada, e não da margem unitária no negócio. Alguém que tope lucrar um pouco com cada cliente, para ter muitos clientes e lucrar muito ao final.

Quem se habilita? Se ninguém se apresentar, que venha a estatal de banda larga preparada nos laboratórios do Palácio do Planalto. Pior do que está não vai ficar.

Falta o líder

Os principais quadros brasilienses do PSDB, Democratas e PPS reuniram-se esta semana e, segundo disseram, planejam acertar as pontas na operação política. Querem mais coordenação e melhor comunicação, especialmente na internet. Para quem deseja voltar ao poder, é um passo sensato.

Mas o problema maior não é operacional, é político. Falta a oposição definir se sua prioridade é fazer a luta interna ou combater o adversário. Falta definir o que é essencial: quem é o inimigo a derrotar.

É preciso saber se cada uma das facções oposicionistas está disposta, inclusive, a apoiar de verdade um eventual concorrente interno, se isso for necessário para evitar nova vitória do PT em 2010. Sem esse detalhe fundamental, pouco adiantará o resto.

Qual foi a principal vantagem competitiva do PT nestas três décadas? A existência de um líder, Luiz Inácio Lula da Silva.
Quando o PSDB ganhou duas eleições presidenciais? Quando teve um líder, Fernando Henrique Cardoso. Como o PMDB chegou ao poder? Pelas mãos de Ulysses Guimarães, que apoiou Tancredo Neves quando percebeu que não seria o melhor candidato a presidente em 1985.

Quem é o líder da oposição? Alguém sabe?

Blefe?

Os Estados Unidos apreciam que o Brasil tenha bons canais com o Irã, mas gostariam também que o Brasil defendesse junto ao Irã a posição unânime das grandes potências sobre o programa nuclear iraniano.

Esse foi o sentido da carta de Barack Obama a Lula. Não há antagonismo entre a satisfação dos americanos com as iniciativas diplomáticas brasileiras e o desconforto com o fato de o Brasil estar mais próximo do Irã do que seria desejável na Casa Branca.

Escanteado em Honduras, em Doha, com o G20 e com o etanol, o Brasil aproveitou a visita de Mahmoud Ahmadinejad para mandar o recado de que pode sair da área de controle.

Blefe? Vale a pena acompanhar esse pôquer para ver quem, no final, terá cartas para arrastar as fichas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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11 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Falta a oposição definir se sua prioridade é fazer a luta interna ou combater o adversário. Falta definir o que é essencial: quem é o inimigo a derrotar."

Interessante. Reinaldo Azevedo parece concordar com você. Eu concordo.

O que a pesquisa CNT indicou claramente é que uma chapa puro-sangue seria fortíssimo concorrente. Aécio e Serra em campanha somente precisariam mostrar para o eleitor as suas realizações de governo nos dois principais estados brasileiros.

Incrível que essa verdade cristalina não seja plenamente visível para as oposições. Preferem continuar batendo cabeça e perder no que dizem querer ganhar. Eu desisti de tentar entender. E também estou bastante sem paciência para esse tipo de fricote.

Eu gostaria de ler a íntegra da carta de Obama. Alguém sabe se ela foi publicada?

Abs.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009 00:34:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Sobre blefes

A Colômbia reclamou com razão que UNASUL, OEA, ONU e nem os EUA saíram em sua defesa quando Chávez ameaçou atacar com uma guerra o país.

Ontem, William Brownfield, embaixador dos EUA em Bogotá, declarou:

“Queremos tener relaciones buenas con todos los países del hemisferio pero sabemos quiénes son nuestros amigos”

A íntegra da notícia aqui

http://www.noticias24.com/actualidad/noticia/120231/eeuu-reitero-sus-buenas-relaciones-con-colombia/

quinta-feira, 26 de novembro de 2009 00:55:00 BRST  
Blogger Ricardo disse...

Há três enganos na sua análise:

1) A ANATEL foi loteada e, portanto, está longe de ser uma agência independente e regulatória. Ela hoje é um braço do PT, tanto que aprovou a bizonha transação da BrOI, que por si só, concentra mercado.
2) O PT também matou a (pouca) concorrência no setor ao recriar os monopólios da Telefonica em SP e Oi no restante do país. Ou seja, andamos para trás.
3) Há tempos se fala no unbundling: a infra-estrutura ser passada a outra empresa para criar competição nos serviços (assim como é em outros países). A entrada do governo no setor vai gerar competição? Duvido: o setor bancário que o diga.

A verdade é uma só: em termos de competitividade e competição, o governo atual só fez andar para trás. Os números de produtividade só demonstram o atraso e a herança maldita da falta de infraestrutura que o PT gerou.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009 02:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo,

Parece que este tipo de carta não é divulgada, embora a Folha hoje fale que membros do governo americano tenham pensado na ideia.

João Paulo Rodrigues

quinta-feira, 26 de novembro de 2009 10:54:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

O governo FHC não tinha nada que ter privatizada nem o sistema Telebras, nem a Embratel.

Bastava consolidar as Teles estaduais (estas sim eram ineficientes e antropos de politicagem, assim como eram a maioria dos bancos estaduais) numa única operadora nacional de grande porte (A própria Telebras) e abrir o mercado de telecomunicações à competição do setor privado.

Assim haveria empresas espelho da Telebras, em vez de esquartejar o sistema Telebras no sistema de "capitanias hereditárias", concedendo cada região do Brasil à um grupo privado que não competia entre si na telefonia fixa (e ADSL). Houve alguma competição apenas na telefonia celular, mas logo houve concentração em poucas empresas, e atuação cartelizada.

Agora é o governo quem está sendo obrigado a criar uma empresa estatal espelho para competir com as privadas, se não quiser deixar grande parte da população brasileira na exclusão digital, com as tarifas cartelizadas exorbitantes.

É risível dizer que a ANATEL e aparalhada pelo PT. Se fosse, as concessões de quase todas as teles já estariam cassadas e devolvidas para novas concessões, e simplesmente usando a letra fria da lei.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009 12:49:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

O PSDB tem 2 líderes: Serra e Aécio.
A questão não é falta de líder, é disputa pelo poder intrapartidária.

Serra no poder, representa hegemonia do núcleo paulista do PSDB, e não satisfaz as ambições do grupo de Aécio, e a recíproca é verdadeira: o grupo de Serra não abre mão de deter a hegemonia do partido.

Ulysses e Tancredo funcionava porque tinham um pacto claro e definido: se houvesse eleições diretas seria Ulysses o candidato. Se fosse indireta seria Tancredo.

Não falta líder na oposição. Falta os líderes estabelecerem um pacto que desperte o mínimo de confiança entre as partes e distribuição de espaço de poder que contemple a todos. Se é que ainda há tempo.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009 13:01:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

"Escanteado em Honduras, em Doha, com o G20 e com o etanol, o Brasil aproveitou a visita de Mahmoud Ahmadinejad para mandar o recado de que pode sair da área de controle."

Doha foi criada com o G-8 pensando enfiar goela abaixo dos emergentes a abertura de seus mercados à produtos e serviços do G-8 sem grandes concessões no protecionismo agrícola.

O G-20 não venceu em sua proposta (que acabou dividida), mas empatou um jogo que estava marcado para perder. Isso é vitória política, não só do Brasil, mas de todos os emergentes. Enquanto DOHA emperra no âmbito da OMC, Brasil e outros emergentes com agenda comum estreitaram suas relações bilaterais com países do Sul e do Oriente Médio, enquanto EUA e Europa pioraram suas relações. Vitória silenciosa do Brasil.

O etanol para exportação maciça é política de médio prazo. O Brasil aproveitou as oportunidades que passaram à sua frente e avançou em negociações o quanto pode. Retrocessos pontuais dos EUA não tiram o mérito do acerto das decisões.

No caso de Honduras e Colômbia, os EUA ganha mas não leva. Fica isolado e desgastado, contra os anseios da população do sub-continente. O Brasil posicionou corretamente, contra golpes de estado em líderes eleitos. Se os EUA erra e decide retroceder à política do porrete na América Latina, o Brasil não tem que segui-lo.

A relação do Brasil com o Irã mostra agenda própria, relações bilaterais próprias. O PIB do Irã só perde para a Arábia Saudita no Oriente Médio. Não vejo nenhum recado para os EUA. Vejo política própria independente.

O Brasil não tem como deixar de apoiar programas nucleares PACÍFICOS de qualquer país do mundo, senão como vai defender e justificar seu próprio programa?

quinta-feira, 26 de novembro de 2009 13:25:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

João Paulo

Imaginava isso. Não custava perguntar.

O governo dos EUA explicitou através de porta-voz a posição pró-Colômbia.

O jornal colombiano El Tiempo publicou reportagem. O recado do governo americano está claramente dado ao Brasil:

"Las autoridades colombianas han reiterado su deseo de diálogo, incluso a través de terceros países como Brasil. Esta es una aproximación práctica y fundada en los principios de la diplomacia, como está articulado en el artículo ll de la Carta de la OEA", dijo a EL TIEMPO un portavoz de al cancillería estadounidense.

http://www.eltiempo.com/colombia/politica/como-belicosas-y-causantes-de-tensiones-califico-estados-unidos-declaraciones-de-venezuela_6679648-1

Pelo o que entendi, se o Brasil quiser intermediar as conversas entre Colômbia e Venezuela, nada a opor. Isso, é claro, desde que o Brasil apresente-se e atue como um verdadeiro tercius, defendendo sobretudo a soberania colombiana para firmar tratados de cooperação, inclusive os militares, com quem quiser. Uma oportunidade de ouro para o Itamaraty demonstrar na prática como se faz a boa diplomacia.

A Colômbia foi pressionada pela UNASUL para por em cima da mesa o tratado assinado com os EUA. O país respondeu que tudo bem, desde que os demais façam o mesmo.

Uribe já avisou que não tem vocação para ser o saco de pancadas do anti-imperialismo bolivariano e que por isso poderá não comparecer à reunião da UNASUL. Não pretende ir porque sabe que não poderá ouvir calado na UNASUL as grosserias de Chávez et caterva. Vai ter que revidar, subir o tom, e isso é tudo o que Chávez mais quer provocar de concreto na reunião.

A ver o que farão os itamaratecas.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009 18:50:00 BRST  
Anonymous Duarte disse...

Alon, sobre Doha, você viu essa matéria de capa do Valor Econômico?

"Países emergentes fecharam acordo para um corte nas tarifas de importação de pelo menos 20% em produtos agrícolas e industriais na negociação Sul-Sul."

Ou seja, na OMC não teve acordo sobre Doha, mas em paralelo, os emergentes que se entendem (até por haver muita assimetria), deu resultado.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009 19:24:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

"Mas pagamos preços inexplicáveis. Ou que só encontram explicação no oligopólio."

A carga tributária sobre os serviços de telecomunicações é comparável à que existe por ai a fora?

domingo, 29 de novembro de 2009 02:12:00 BRST  
Blogger Fernando disse...

Para baixar os custos da banda larga que tal começar eliminando a obrigação de contratar um provedor que não faz nada?

domingo, 29 de novembro de 2009 23:01:00 BRST  

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