quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Um obrigado ao COI (29/10)

O Brasil ficou repentinamente mais perigoso, mais inseguro? Ficou mais injusto socialmente, mais pobre? Os números mostram que não. A mudança foi outra. Agora temos Olimpíadas marcadas para o Rio

Os críticos das Olimpíadas no Rio “perderam”, para usar a expressão imortalizada no Tropa de Elite. Começa a valer —e para valer— o argumento, otimista, de que a Rio 2016 funcionará como catalisador de mudanças boas. A primeira mais visível é a guinada de 180 graus nos discursos do governo federal e do presidente da República sobre o combate à criminalidade carioca.

Ontem, na futura sede olímpica, Luiz Inácio Lula da Silva até exagerou, disse que bandidos não são pessoas “normais”.

Menos, presidente. Devagar com o andor. Indivíduos até outro dia perfeitamente enquadráveis na “normalidade” podem hoje cometer crimes terríveis. Antes de debater a sanidade psíquica dos bandidos, talvez seja o caso de organizar a sociedade e o Estado de modo a desestimular que se cometam crimes. E a punir quando são cometidos.

O crime no Brasil não é assunto primeira nem principalmente para a Psiquiatria. É para o Direito.

Tirante o exagero verbal de Lula, é positivo e deve ser saudado que finalmente o governo olhe o crime como algo que exige diagnóstico e terapêutica específicos, como um fenômeno que até pode ter conexão com a mecânica social, mas não se confunde com ela. Em boa hora, vai morrendo, no discurso governista, a mistificação de que o crime e a violência são função direta da pobreza, da desigualdade ou da falta de oportunidades.

O que mudou? O Brasil ficou repentinamente mais perigoso, mais inseguro? Não há elementos que comprovem. Ficou mais injusto socialmente, mais pobre? Os números mostram que não. A mudança foi outra. Agora temos Olimpíadas marcadas para o Rio daqui a menos de sete anos. Então é simples: o discurso que ontem convinha hoje não convém mais.

Exigir “coerência” dos políticos é atividade frustrante, e não caio na armadilha. Até porque coerência não é um valor em si. Se o sujeito milita no equívoco, é bom que mude de posição. Líderes que estão errados e colocam a coerência em primeiro lugar costumam levar seus liderados a grandes desastres. A História está cheia de exemplos.

O líder competente percebe a hora certa de guinar, e procura fazê-lo com o menor desgaste possível. E Lula ainda leva uma vantagem adicional. Como a crítica a ele no âmbito do governismo simplesmente desapareceu, pode fazer a guinada que quiser, pois estará invariavelmente certo. Antes e agora. Ainda que o “agora” seja o oposto do que era o “antes”.

Então parabéns a Lula. Vamos ver como o discurso se materializa em ação. O Ministério da Justiça propõe endurecer a lei para punir os grandes traficantes, afrouxando simultaneamente as penalidades aplicadas aos pequenos.

A ideia parece teoricamente razoável, mas embute um conceito que merece mais debate: será possível combater o tráfico de drogas feito em grande escala sem reprimir também, ainda que em grau distinto, o vendedor na ponta e o consumidor?

Até porque se consumir drogas é tratado condescendentemente, e se o varejo nessa atividade deve ser visto com leniência, por que então punir os que se dedicam ao comércio no atacado? Por causa da escala? Do volume? Mas qual é o limite exato que distingue o “pequeno” do “grande” traficante?

Enquanto se espremem as cabeças sobre essas e outras dúvidas conceituais, talvez seja o caso de promover, pelo menos num primeiro momento, o arrocho geral. Nem que por prudência. A situação não é de enfermaria. Está mais para UTI. Vamos primeiro salvar o paciente. Depois cuidaremos dos outros detalhes.

De todo modo, fica aqui o obrigado aos membros do Comitê Olímpico Internacional que votaram para trazer as Olimpíadas ao Rio. Só mesmo vocês para Lula finalmente enxergar a conveniência de abandonar certos preconceitos e encarar a realidade como ela merece.

O Rio e o Brasil sinceramente agradecem.

“Exemplar”

Sempre que o sujeito quer se mostrar durão contra os bandidos, fala em puni-los “exemplarmente”. Talvez a palavra devesse ser aposentada. O razoável é punir “na forma da lei”, “fazer justiça”. Tem mais a ver com uma sociedade civilizada.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Pois é, Alon, mas faltou-lhe auto-crítica, até porque é defensor indisfarçável do governo Lula, para perceber que, se o discurso não vale agora, devido à necessidade de combater a criminalidade, não valia igualmente antes, apenas aprofundava o problema e o empurrava com a barriga. Seu post deveria ter sido mais atento em relação a isso, pois parece que você tentou encaixar as coisas na defesa da incoerência, mas acabou sendo um tanto irracional na análise do problema.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 12:42:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pois é, Alon, mas faltou-lhe auto-crítica, até porque é defensor indisfarçável do governo Lula, para perceber que, se o discurso não vale agora, devido à necessidade de combater a criminalidade, não valia igualmente antes, apenas aprofundava o problema e o empurrava com a barriga. Seu post deveria ter sido mais atento em relação a isso, pois parece que você tentou encaixar as coisas na defesa da incoerência, mas acabou sendo um tanto irracional na análise do problema.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 12:42:00 BRST  
Blogger Rocha Mattos disse...

O colunista parece que "caiu de quatro" pelas premissas estabelecidas pelo filme "Tropa de Elite", cuja produção tratou com "fina ironia" a questão da "responsabilidade dos consumidores" pela violência ligada ao tráfico de drogas - haja vista que o produtor do filme e o ator principal manifestaram-se a favor da descriminalização.
Agora, por ocasião da intenção de se promover um avanço no trato da questão, livrando os consumidores e os pequenos traficantes do contato com o crime organizado, novamente o jornalista posiciona-se contra a evolução da legislação, pretendendo novamente a criminalização do uso e o tratamento draconiano contra qualquer um, a despeito dos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade das penas. Esquece-se, ou desconhece, que a violência ligada ao tráfico de drogas parte do crime organizado, cuja MAIOR PARTE de seu "orçamento" advém do tráfico de armas e dos produtos piratas, além do comércio das drogas. Daí o cidadão, hipócrita, que compra um produto pirata do camelô, sai proferindo estultices contra o consumo de drogas... onde já se viu?!!! A questão me parece estar mais ligada ao moralismo da classe média brasileira, que prefere não ver jamais o consumo de drogas liberado do que a eliminação da violência ligada ao tráfico. Qual a razão para aumentar-se a pressão sobre pequenos traficantes, que não atuam com violência? Qual a razão de trancafiá-los em uma prisão, onde serão arregimentados para o crime organizado? Por que um consumidor que compra drogas com seu vizinho, viciado, que as vende para sustentar o vício, mas que estuda, trabalha, paga impostos, ou mesmo aquele que planta para o próprio consumo, é culpado pela violência dos morros cariocas?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 13:02:00 BRST  
Blogger Rocha Mattos disse...

Ah, outra coisa: nos EUA, o consumo de drogas é proibido. A despeito disso, os americanos são os maiores consumidores de cocaína do mundo. A despeito disso, os traficantes lá não são membros do crime organizado, e não saem por lá derrubando helicópteros da polícia. Afinal, o debate tem que ser: o que é "financiar" a violência intolerável?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 13:07:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Esses criminosos, a que Lula se refere ,traficantes, que agem com proverbial crueldade,merecem a pecha ,no mínimo de sociopatas.
Anormais ,somo sós. Ainda bem que os criticos com seu habitual pessimismo dirigido, descreem da data de 2014/2016,como insuficiente para garantir a segurança ideal dos certames. Confirmam, a assertiva de que se tratam de soluções de longo prazo, oriundos de problemas históricos, nascidos nos governos conservadores, como o da
própria oposição.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 17:22:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

"Indivíduos até outro dia perfeitamente enquadráveis na “normalidade” podem hoje cometer crimes terríveis. "

Um bom exemplo para frase acima:

Uma garota é obrigada a abandonar um recinto escolar sobre escolta policial por que simplesmente estava usando uma minissaia.
O comportamento da malta é bem ilustrado pelo video abaixo.

http://tvig.ig.com.br/180444/estudante-causa-tumulto-por-usar-minissaia.htm

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 17:47:00 BRST  
Anonymous Adriano Alves Pinto disse...

"será possível combater o tráfico de drogas feito em grande escala sem reprimir também, ainda que em grau distinto, o vendedor na ponta e o consumidor?"

Aí está o problema. É falta de foco tratar as drogas como problema da polícia. O problema da polícia é com o tráfico (e o uso) de armas.Droga é problema de saúde. Todas as drogas devem ser tratadas como o alcool e o tabaco. Dessa maneira tira-se o dinheiro que circula entre os traficantes, diminuindo a procura por armas. Com o dinheiro que hoje se gasta na "guerra" contra as drogas investe-se em mais leitos para o tratamento de dependentes. De alcool e tabaco, inclusive.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 18:11:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

"posiciona-se contra a evolução da legislação, pretendendo novamente a criminalização"


Legalizar drogas não é "evolução" da legislação e sim um baita retrocesso que nenhum país civilizado se atreveu até hoje a colocar em prática. Aliás, no passado o ópio era livremente consumido em alguns países do Ocidente e foi proibido justamente devido aos problemas causados. A Holanda, onde vale-tudo, começa a rever sua política de descriminação da venda de maconha por causa dos muitos problemas causados, dentre os quais o surgimento de um mercado negro de drogas pesadas, além de problemas de saúde pública. Portanto, essa noção de "evolução" é, além de subjetiva, baseada em desinformação.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 20:14:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

"Droga é problema de saúde."


Depende da droga. Entorpecentes não são apenas problema de saúde. São um problema cultural que tem implicações diretas na SEGURANÇA PÚBLICA, que diz respeito a TODA A SOCIEDADE, não apenas à saúde do "indivíduo" consumidor.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 20:16:00 BRST  

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