quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Patinhos no parque (21/10)


O que nós ganhamos se os Estados Unidos colocarem a Venezuela na lista de países que representam ameaça potencial à sua segurança? Nada. Ou melhor, vamos ganhar uma cadeira cativa na posição de alvo

Estranhei aqui outro dia que o Brasil não entre em disputa com o Irã para oferecer à Venezuela o desenvolvimento de plantas nucleares para fins pacíficos. O Brasil domina a tecnologia, é o líder regional natural e não possui qualquer contencioso territorial com o vizinho do norte. Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez entendem-se bem. Por que então andamos tão passivos nesse assunto?

Lula é conhecido por não resistir diante de um espaço vazio. Com ele na presidência, disputamos tudo que aparece pela frente. Para ganhar ou perder. É sem dúvida uma maneira de ocupar o vácuo. Também graças a isso, houve neste governo um salto adiante no reconhecimento da importância internacional do Brasil. Daí a estranheza diante da passividade.

Em meio às questões rotineiras de que se ocupa, talvez fosse o caso de o Congresso Nacional chamar o tema a debate. Em tese, por causa das leis em vigor, ao Brasil é vedado o desenvolvimento de energia nuclear para fins bélicos. E, bem agora, o Irã está em meio a um cabo de guerra internacional sobre o seu programa. As grandes potências, sem exceção, duvidam dos propósitos pacíficos de Teerã e pressionam o país dos aiatolás por garantias reais de que não vai produzir a bomba.

Independentemente das boas intenções dos dois parceiros, Irã e Venezuela, é inevitável que uma associação nuclear entre ambos arraste o Brasil para o turbilhão, no qual nossa capacidade de acumular ganhos é no mínimo duvidosa.

Os Estados Unidos readaptaram sua proposta de instalar um sistema antimísseis na Europa. A mudança parece ter tranquilizado a Rússia, porque agora o foco passou a ser o Irã. Ou seja, Washington trabalha com a hipótese de um ataque iraniano com mísseis nucleares contra suas posições e de seus aliados no Oriente Médio e na Europa. E a Rússia não acha isso um delírio. Vejam o rolo.

Voltemos para a América do Sul. O que nós ganhamos se os Estados Unidos colocarem a Venezuela na lista de países que representam ameaça potencial à sua segurança? Nada. Ou melhor, vamos ganhar uma cadeira cativa na posição de alvo. Patinhos de parque de diversões. Além do mais, uma escorregada para esse cenário acabará por legitimar eventuais ambições militares expansionistas estadunidenses na região. Quando lembramos que Brasil e Venezuela são vizinhos amazônicos, podemos calcular melhor o tamanho do risco.

Dado o peso específico dos dois polos na relação, será quase natural que a Venezuela tenha que considerar muito seriamente uma oferta brasileira de parceria. Há, claro, o aspecto da soberania nacional venezuelana e a autonomia que aquele país deve teoricamente possuir. Digo “teoricamente” porque o princípio da autodeterminação vem sendo relativizado pela diplomacia brasileira quando convém. E como convém neste caso!

Há também outra hipótese, meio esdrúxula. De que o Brasil faz um jogo calculado ao assistir quieto a movimentos que podem levar a uma escalada nuclear no vizinho. Seria o pretexto ideal para que, docemente constrangidos, nós também enveredássemos pelo caminho da bomba. Uma análise sem fundamento? Pode ser. Desde que o governo explique por que não faz nada para evitar a escalada nuclear regional.

Contraditório

Em defesa de sua política de juros, o governo diz que muito da valorização cambial deve-se à entrada de moeda estrangeira para atividades não propriamente especulativas, mas para investimentos. Só que quando toma medidas para enfrentar o problema ataca o dólar especulativo, e não o produtivo.

Aliás, essa distinção entre as duas categorias é complicada, porque empresas capitalizadas também especulam para obter receita não operacional. De todo modo, é interessante notar que o governo localiza o problema num lugar e está a atacar suas consequências em outro.

Campanha

Campanha eleitoral antecipada é a feita antes da hora. Mas, se é antes da hora, como caracterizar formalmente a existência de uma campanha eleitoral? Não estranha, portanto, que o assunto acabe ao sabor da subjetividade.

Para o bem e para o mal. Para livrar a cara do governante forte e para amputar injustamente o mandato do que não tem tanta força assim. Infelizmente, também nesse caso é a lei da selva que prevalece.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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3 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Se o governo dos EUA quisesse realmente derrubar Chávez, era só parar de comprar o Petróleo e derivados.

Sobre a ameaça de invasão gringa

A Venezuela é o segundo fornecedor ao mercado americano.

Li outro dia um ótimo artigo. A conclusão do artigo, com a qual concordo:

"Se existe alguma ameaça ao pré-sal, ela não virá de estruturas militares, ela virá das lógicas política e econômica. A busca pela independência de fornecedores externos de petróleo e seus derivados tem sido um objetivo de várias administrações americanas, mas hoje as alternativas tecnológicas existem ou estão muito próximas, o que fará com que as reservas do pré-sal descobertas na Zona Econômica Exclusiva do Brasil não seja ameaçadas militarmente, mas sim por esta nova realidade. Principalmente levando-se em conta que empresas americanas, através de contratos de risco, tem prospectado a existência de petróleo na camada pré-sal nas costas africanas, a profundidades bem menores que a do Brasil."

http://mundorama.net/2009/10/02/pre-sal-e-suas-ameacas-imaginarias-e-reais-por-gunther-rudzit-otto-nogami/

Quanto à aproximação de Cháves com o governo iraniano, isso sim representa um fator de desestabilização na América do Sul.

Faz anos que não vou a uma manifestação pública. As últimas foram as que culminaram na anistia. Nas "Diretas Já", acompanhei pela imprensa. "Fora Collor", idem. Mas estarei presente em todas as manifestações contrárias à vinda de Ahmadinejad ao Brasil.

Fora Ahmadinejad!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009 13:40:00 BRST  
Anonymous RB de Mello disse...

Ora, Alon, é simplíssimo saber se é comício ou acompanhamento de obra. Se o fulano falar no futuro da obra e de seus benefícios, é propaganda de governo. Vale.
Se falar em governos futuros e passados, em pessoas e candidaturas, particularizando críticas a adversários igualmente candidatos é, obviamente, ato de campanha.
E se for praticado com o uso de dinheiro público, é, mais obviamente, crime.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009 13:45:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O fato nuclear às vezes tem sido levantado como necessário como dissuação: defender as reservas do pré-sal, a Amazônia etc. contra apetites externos. Mas a realidade não é só o domínio do ciclo nuclear que possibilite a confecção de artefatos. Caso tenha o artefato, como esse vai ser deslocado, propulsado a atingir o alvo? E os vetores? Em suma, onde está a tecnologia para tanto? Quantos artefatos poderá construir? Ou mais longe: qual o fulcro do plano de defesa e para prevenir-se contra quem?

Swamoro Songhay

quinta-feira, 22 de outubro de 2009 09:02:00 BRST  

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