quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O que teme o governo (07/10)

O incômodo maior no Planalto é com a possível união de todas as forças políticas que hoje se abrigam sob os guarda-chuvas regionais de José Serra e Aécio Neves

Quase tudo vai bem para Luiz Inácio Lula da Silva quando o assunto é 2010. A candidata dele, Dilma Rousseff, atingiu um patamar aceitável nas pesquisas e não precisará partir do zero. Ciro Gomes (PSB) piscou e transferiu o título eleitoral para São Paulo. Heloísa Helena (PSol) flerta com a ideia de concorrer ao Senado por Alagoas. Para atrapalhar o plebiscito tão sonhado, resta apenas Marina Silva (PV).

Verdade que ninguém sabe quanto é esse “apenas”. No governismo prevalece a tese, duvidosa, de que a senadora do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente terá voo curto. Daí o otimismo palaciano com o andar da carruagem.

Problemas há, mas o Palácio do Planalto aposta que eles não resistirão à força política do presidente. No PMDB, acumulam-se contenciosos estaduais com o PT. Cresce a fila de petistas a enquadrar, para que deixem a cena e abram caminho aos nomes regionais do peemedebismo. Ciro é ainda uma preocupação, mas sem o PCdoB e o PDT (ou seja, sem tempo maior de televisão) duvida-se que o PSB corra o risco do voo solo. E mesmo com todo o ensaio paulista de rebeldia no PT há pouca dúvida de que a legenda se perfilará caso ouça o toque da corneta vindo de Brasília.

Estarão então Lula, o governo e o PT 100% tranquilos? Negativo. Há o problema chamado PMDB. O petismo quer a aliança, mas não chorará lágrimas de sangue se a gorda legenda aliada mergulhar num impasse que a paralise no plano nacional. O que de quebra abriria espaço para uma possível negociação com o PSB, para a definitiva retirada de Ciro Gomes do páreo. O único cuidado necessário seria olhar para que o PMDB não se metesse com o PSDB. Isso parece garantido. Nem os tucanos mais fanaticamente otimistas acreditam hoje numa aliança com o PMDB.

O incômodo maior na situação é com outro detalhe: a possível união de todas as forças políticas que hoje se abrigam sob os guarda-chuvas regionais de José Serra e Aécio Neves. A equação é simples e velha conhecida: A aliança serrista tem dois terços de apoio em São Paulo, enquanto o eleitorado aecista perfaz três quartos de Minas Gerais. Se a oposição conseguir a proeza de transformar a aritmética em política, de somar esses dois vetores com o máximo de eficiência, Dilma precisará ter o desempenho de um Lula no Nordeste para manter a chance de levar o troféu.

Ou seja, mesmo com toda a musculatura do presidente, se o governo não dividir a oposição sua candidata entra em zona de turbulência. E quais são as chances de haver tal divisão? São razoáveis, dado que Serra vai melhor nas pesquisas mas não consegue atrair nenhum pedaço do governismo, enquanto Aécio não anda tão bem nos números mas mostra maior potencial de articulação política. Ainda que isso necessite ser comprovado na prática, quando, e se, Aécio for ungido pelo PSDB.

Parte do eleitorado de Serra em São Paulo gosta de Lula, mas não se identifica com o PT. Como reagirá a um apelo do presidente pela candidata Dilma? Possivelmente não muito bem, pois São Paulo é um estado em que Lula tem mostrado escassa capacidade de transferir voto. Aliás, trata-se de um eleitor que até gosta de Lula, mas não vota nele. Menos ainda em alguém do PT que não seja Lula.

E em Minas Gerais? Diferentemente de São Paulo, o voto automático antipetista é fraco ali. Tanto que Minas foi uma das chaves das duas vitórias de Lula para a presidência. Daí que se Serra for o candidato e a coisa não ficar bem costurada no PSDB há o risco — para os tucanos — de o PT, eventualmente aliado ao PMDB, pegar para si parte do patrimônio eleitoral aecista.

Como resolver o quebra-cabeças? Quem sabe? O petismo espera que esse seja um enigma sem solução. E que o plano caminhe conforme rascunhado há muito tempo. Um plebiscito. “Disso eles não escapam. Se não der para ser no primeiro turno, que seja no segundo”, gosta de dizer o ex-ministro José Dirceu. Com Lula dia e noite na tevê, no rádio, na internet e na rua pedindo ao povo que vote em Dilma para evitar a volta ao poder do grupo de Fernando Henrique Cardoso, que vote em Dilma para que tenham continuidade as propostas e programas do governo dele.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

OpenID muitopelocontrario disse...

Alon,

Só uma duvida, a recente alteraçao da lei eleitoral, que permite o voto em transito pra presidente, nao pode melhorar um pouco o cenario em sao paulo?

Melhorar um pouco em sp, rj com olimpiadas, e sul com Tarso Genro e Yeda. Melhora bem.

Mas já vai estar valendo pra 2010? Ou vai ser como a impressao, só 2014?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009 01:37:00 BRT  
Anonymous fscosta disse...

Esqueci,

Vc conhece o Gapminder World? Ferramenta fantastica, é o Google Maps das estatisticas do mundo.

Gapminder World.

http://muitopelocontrario.wordpress.com/2009/10/07/gapminder-world-o-google-maps-das-estatisticas/

A ferramenta que produz esses graficos, foi adquirida pelo Google.

Faça um teste com a renda, pra ver a evolução dos paises do mundo ao longo do tempo.

Vc se surpreenderá.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009 01:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Em meu entendimento, o grande temor do PSDB é o eleitorado brasileiro se dividir entre paulistas e o resto do Brasil.
É um temor tão grande que atinge até o PT. O PT tem medo que essa rivalidade Brasil São Paulo que o PSDB utilizou até aqui para manter-se no poder possa se extravasar e atingir o PT que tem forte base em São Paulo.
Pergunte ao José Dirceu sobre essa divisão e você poderá perceber como esse problema é realmente grande. Aliás, a sua entrevista com o José Dirceu foi fora de série. Não sei até que ponto o José Dirceu era sincero. Se foi, não há muitos como ele no Brasil.
Não sei se a candidatura de Dilma Vana Rousseff Linhares foi pensada nestes termos, mas há uma grande possibilidade de se reeditar a Revolução de 30, afinal Dilma Vana Rousseff Linhares é mineira e gaúcha.
É na possibilidade da reedição da Revolução de 30 que reside a resistência de Aécio Neves Cunha. O Aécio Cunha era do Partido Republicano, o partido de Artur Bernardes que teria dito na luta pela constituinte 32 "Quanto a mim fico com São Paulo que para lá se transferiu a alma cívica do povo brasileiro".
O avô, entretanto, era getulista. Aécio de vice não será bem aceito pelos mineiros. Assim, o grande problema para 2010 é a formação da chapa do PSDB. É a minha opinião.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 06/10/2009

quarta-feira, 7 de outubro de 2009 01:57:00 BRT  
Anonymous Marc disse...

Para a eleição presidencial o pmdb não tem a importancia que estão dando a ele.

Se o candidato for Serra a vitoria da Dilma será mais facil.

Aécio pode conseguir 45% dos votos, Serra não passa dos 40% se tiver 2º turno.

Anotem.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009 06:12:00 BRT  
Anonymous Lúcifer disse...

Marina Silva,menos sanguínea do que a alagoana Heloísa Helena,que perdeu seu posto para Collor,numa troca desastrada, certamete avalia o tamanho da mosca azul que lhe zumbe ao ouvidos.
Dilma ainda taxia timidamente pela pista. Difícil duvidar que ela ou outro a quem a mão de ouro de Lula ungir não venha a ser o eleito.O mapa político reservou uma armadilha para a oposição: exibe uma disputa, São Paulo X Brasil Até geograficamente o cerco se confirma: Rio Grande do Sul,o baluarte meridional, cai com Yeda fortemente rejeitada,Santa Catarina açoitada pelos elementos e pelos anos de Bornhausen,depende das atenções federais; Paraná é Requião;Rio de Janeiro e ... alguma sugestão?Como a letra daquele antigo "rap": tá tudo dominado!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009 15:06:00 BRT  
Anonymous Tovar Dornelles disse...

Como ensinava Garrincha, é preciso antes combinar com os adversários.
O fato, hoje, é que Serra tem trajeto mais curto para os 51% do que Dilma.
Isso sem assumir a candidatura e sem o mesmo acesso à mídia do que a candidata governista, a qual, apesar do já longo esforço de Lula e de sua permanente exposição, não aparenta haver criado votos próprios e ainda passou a carregar danos expressivos em sua imagem e que talvez expliquem em muito o crescimento de Ciro e Marina.
Mas a candidatura não estará natimorta caso Ciro dure ainda menos do que seria legítimo esperar. Ocorre que Ciro conduziu tão mal a mudança do Título que sua eventual “candidatura para bater no Serra” poderá já a largada ser maculada como a “candidatura para bater no Serra”. E vá que o eleitorado paulistano associe esse fato aos tradicionais elogios com que Ciro brinda os “paulistas”?
Ou seja, sobrará a Ciro lutar pela presidência ou a soçobrar longe de Sobral?
Claro que Marina é uma incógnita, só que até o momento não tem dado passos em falso e segue rígido script. Tem cara de candidata até o fim. E Heloísa, para incômodo dos senadores alagoanos, seria candidata ao Senado.
Mas mesmo que Marina desista ou não decole ou que Ciro venha a escanhoar os próprios pulsos, o plebiscito é tática arriscada pelo peso das malas a carregar. Não somente a candidata é pouco leve como bastante pesada é a ala governista do PMDB.
Restará ainda combinar com o eleitorado que abra mão de seu arbítrio e adote o de Lula, mesmo que assim não tenha ocorrido em 2005 (ou no plebiscito do desarmamento ou no caso do mensalão ou... em verdade nosso povo costuma surpreender... até elegendo o azarão: a Dilma).

quarta-feira, 7 de outubro de 2009 19:09:00 BRT  
Blogger Guilherme Scalzilli disse...

Ciro na berlinda

O papel de “encarregado de serviços sujos” que Ciro Gomes está disposto a assumir para a candidatura governista não é novidade nem caso isolado. Toda campanha tem esses acertos. Aparentemente, Marina Silva e Sônia Francine fecharam os seus, nos respectivos contextos, com o PSDB.
A mídia serrista ainda não sabe o que fazer com Ciro (nem com Marina).
Precisa incensá-lo por dois motivos: a) para gorar o acordo PT-PMDB, espalhando a bobagem de que apenas o deputado impediria José Serra de ganhar no primeiro turno – há meses as pesquisas mostram que Serra não tem chance de vencer no primeiro turno, em qualquer cenário. E b) manter Ciro na disputa nacional, afastando-o da campanha pelo governo paulista. É ali, no tabuleiro tucano, minando o favoritismo de Serra em seu próprio quintal, que Ciro poderá decidir a eleição presidencial. Já disse e continuarei repetindo: Serra não será candidato a presidente se surgir uma forte candidatura adversária em São Paulo.
Ao mesmo tempo, entretanto, os analistas já perceberam a necessidade de impedir que Ciro ganhe importância demasiada como o anti-Serra universal. Um artigo de Elio Gaspari expôs esse medo de forma exemplar: mexeu com nosso governador, toma safanão.
Nas próximas semanas, esses ataques serão mais contundentes, pessoalizados, provocando o temperamento irascível do deputado. A idéia é indispô-lo com o PT, que, graças ao proverbial pendor auto-destrutivo, pode investir numa candidatura própria isolada e rejeitada, oferecendo de bandeja a vitória tucana em São Paulo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009 18:17:00 BRT  

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